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| O Sorveteiro | Diamond Filmes |
Eli Roth é, sem sombra de dúvidas, um nome do subgênero trash, principalmente se levarmos em consideração o recorte do início dos anos 2000 até 2010, quando essas produções pipocaram nos cinemas. À frente de títulos como O Albergue (2005) e, mais recentemente, Feriado Sangrento (2023), o diretor nunca fugiu muito da proposta de tripas, sangue e um assassino, e em O Sorveteiro (2026) acompanhamos uma dinâmica bem semelhante, exceto por um detalhe.
Durante o verão na cidade praiana de Bayleen Bay, o local recebe a visita do excêntrico sorveteiro e seu carrinho de sorvete. Após consumirem o sorvete, as crianças da cidade passam a apresentar um comportamento violento e promovem um verdadeiro massacre contra os adultos. Vale destacar que trata-se de um remake do filme de noventa e cinco, mas isso não justifica muitas das escolhas feitas aqui, principalmente se partirmos do princípio de que ambos os filmes possuem propostas bem distintas. O longa de Eli Roth explora uma fórmula narrativa já gasta no terror, em especial no seu: uma figura estranha chega ou retorna a uma cidade onde estabelecerá o caos. Mas se a história não chama a atenção, o mesmo não se pode dizer da maneira com que a narrativa é desenvolvida, tornando ao menos divertido de acompanhar uma nova perspectiva da mesma história já contada mil vezes.
A direção de Roth conduz bem a narrativa, nos introduzindo ao cotidiano dos personagens e, pouco a pouco, criando o ambiente de tensão, principalmente após a aparição do sorveteiro. Assim, somos apresentados a Jared (Charlie Zelter), Lizzie (Sarah Abbott), Kiori (Mirza Waldman), Tommy (Shiloh O’Reilly) e, claro, o próprio Sorveteiro (Ari Millen); é principalmente em torno desses personagens que a narrativa vai se desenrolar. O longa utiliza-se de alguns recursos de IA, como, por exemplo, os balões animados que surgem nas visões que as crianças têm ao atacarem os adultos. Esse é um fator que tira muito do crédito do filme, uma vez que, para um filme de tamanho orçamento, poderiam facilmente ter recorrido a animadores para fazer esses balões animados.
Quanto aos aspectos técnicos, a direção de fotografia assinada por Simon Shohet é um dos pontos fortes do longa, em especial nas perseguições, onde o frenesi toma conta da tela e podemos sentir a angústia e ansiedade dos personagens. Já a direção de arte é assinada por Peter Mihaichuk e, por incrível que pareça, tratando-se desse gênero, é ao meu ver um dos pontos mais fracos do longa, uma vez que os efeitos são excessivamente plásticos e passam pouco ar de veracidade, tornando as mortes mais cômicas do que marcantes ou nojentas.
Já no tocante às atuações, nenhum dos atores tem grande destaque. Charlie Zelter é, sem dúvidas, quem mais se destaca, mas muito por conta do maior tempo de tela do que por qualquer singularidade. Porém, não é de se espantar que nenhum dos atores se destaque muito, já que o roteiro é extremamente raso e fica evidente que a maioria das crianças está ali para se tornar mini demônios, enquanto os adultos são apenas grandes sacos de carne à espera do abate. O sorveteiro passa praticamente despercebido; apesar de tentarem torná-lo uma figura misteriosa, o próprio praticamente não se mostra ameaçador, salvo raras exceções, principalmente quando ele está em seu carrinho de sorvete. Esse sim é macabro, principalmente o sorvete acima do teto do furgão, que parece seguir as crianças com o olhar.
Em linhas gerais, O Sorveteiro é um longa divertido, mas que comete pequenos “pecados”, sendo o maior deles o uso de IA, sua maquiagem e suas ideias recicladas. É impossível não se recordar do conto do Flautista de Hamelin, de A Hora do Pesadelo (1984) e até do recente A Hora do Mal (2025). Contudo, Eli Roth consegue condensar, em uma hora e vinte e seis minutos de filme, uma narrativa que prende o espectador. Porém, a certo ponto, a dinâmica de mortes torna-se repetitiva, em especial na sequência da escola, onde ocorre a maioria das mortes do longa. Por fim, a mitologia do filme parece beber muito das fontes já citadas, o que faz sentido na teoria, mas na prática o ato final do filme é deveras anticlimático, apesar de cumprir com o que o próprio filme estabelece, reforçando o fraco roteiro.
Autor:
Mateus José é graduando de Licenciatura em Cinema e Audiovisual pela UFF, escritor, poeta, montador e aspirante a diretor de fotografia. Apaixonado pelas artes, literatura, música e principalmente o cinema, dedica-se a consumir, estudar e dissecar as camadas mais profundas do cinema e da arte.

