quarta-feira, 3 de junho de 2026

Watchmen: Capítulo II (2024) - Entre máscaras que caem e deuses que se afastam, o mundo aprende o custo de ser salvo


Watchmen: Capítulo 2 | Warner Bros. Pictures


Os ex-heróis aparentemente se tornaram alvos. Enquanto todos eles enfrentam a ética, demônios internos e uma sociedade voltada contra eles, correm contra o relógio para desvendar uma trama profunda que pode desencadear uma guerra nuclear global.

O capítulo 2 de Watchmen pega diretamente as tensões estabelecidas no primeiro e aprofunda tanto o conflito moral quanto psicológico dos personagens — especialmente depois da queda de figuras como Rorschach e o isolamento de Doutor Manhattan. Se o capítulo 1 funciona quase como um mistério noir centrado na investigação de um assassinato e na decadência dos heróis, o capítulo 2 muda o foco para as consequências. A narrativa se expande: deixa de ser apenas “quem matou?” e passa a questionar “o que isso significa para o mundo?”. Essa transição é um dos pontos mais fortes — a história ganha escala sem abandonar o peso individual de cada personagem. 

Um aspecto interessante é como o roteiro trabalha o contraste entre humanidade e distanciamento. Enquanto alguns personagens tentam resgatar propósito (Como Coruja e Silk Spectre), outros se afastam cada vez mais de qualquer empatia. Esse conflito não é tratado de forma simples: o capítulo sugere que tanto o apego emocional quanto o desapego extremo podem ser problemáticos. Também há um avanço importante no tom político. O capítulo anterior já insinuava tensões globais, mas aqui elas se tornam mais explícitas e inquietantes. A trama levanta questões éticas pesadas sobre segurança, verdade e sacrifício coletivo — sem oferecer respostas fáceis. Isso reforça uma das principais qualidades de Watchmen: a recusa em romantizar seus “heróis”. Por outro lado, esse capítulo pode parecer mais denso e menos direto. Ele exige mais atenção do espectador, porque há múltiplas linhas narrativas e discussões filosóficas acontecendo ao mesmo tempo. Para alguns, isso enriquece; para outros, pode quebrar o ritmo. 

A prisão de Rorschach marca o início da sua queda de forma clara. Até então, ele operava como uma força incontrolável, guiado por sua própria lógica de justiça. Quando é capturado e desmascarado, essa imagem se quebra: ele deixa de ser a figura quase mítica e volta a ser Walter Kovacs — alguém vulnerável, preso e cercado por inimigos. Mesmo assim, o mais trágico é que ele não muda. Preso ou livre, continua preso à própria rigidez, o que mostra que sua queda não é só física, mas também interna: ele não consegue evoluir. Já o exílio de Doutor Manhattan funciona como uma queda diferente, mais silenciosa. Ele não é derrotado, mas se afasta voluntariamente do mundo. Isso revela o quanto ele já está desconectado da humanidade — a ponto de abandonar tudo sem grade conflito emocional. Enquanto Rorschach cai por ser humano demais em sua dor e obsessão, Manhattan “cai” por se tornar humano de menos. Um perde a liberdade por não ceder; o outro abandona o mundo por não sentir mais que ele importa.

A música não chama muita atenção o tempo todo, mas cumpre bem seu papel ao criar um clima constante de tensão e mistério. Ela fica mais em segundo plano na maior parte do tempo, ajudando a construir a atmosfera sem distrair, o que combina com o tom mais denso da história. Já nos momentos mais intensos, o som muda e ganha uma pegada mais marcante, com uma vibe anos 80 que deixa tudo mais estiloso e diferente, dando mais impacto às cenas de ação. Ainda assim, faz falta não terem usado algumas músicas da HQ original. Canções que combinavam tão bem com momentos importantes acabaram ficando de fora, e isso tira um pouco daquele peso emocional que essas cenas poderiam ter. Para quem conhece a obra original, essa ausência é ainda mais perceptível, porque certas músicas ajudavam a dar identidade e reforçar o significado de algumas passagens. No fim, a trilha é eficiente, mas fica a sensação de que poderia ter sido ainda mais memorável se tivesse aproveitado melhor essas referências.

Watchmen - Capítulo 2 (2024) expande o primeiro ao focar menos no mistério e mais nas consequências. A história aprofunda conflitos morais e destaca extremos através de Rorschach e Doutor Manhattan, mostrando os custos tanto da rigidez quanto do distanciamento. Mesmo mais denso, o capítulo se mantém interessante pelas questões que levanta, sem dar respostas fáceis. A trilha funciona, mas poderia ser mais marcante. No fim, reforça a ideia central de Watchmen: não sobre salvar o mundo, mas sobre o preço disso.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Backrooms: Um Não-Lugar (2026) e o Medo do Inconsciente

 

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) | Imagem Filmes

O conceito de espaços liminares se tornou uma estética bastante recorrente na internet, influenciando o gênero de suspense e horror, com histórias envolvendo creepypastas e lendas urbanas: um espaço amplo, vazio, muitas vezes abandonado, quase familiar dentro de uma memória coletiva, uma nostalgia por uma época relativamente próxima, mas não vivida; porém desorientador, silencioso, manipuladora das percepções humanas, e lar para o desconhecido... Um medo (talvez ou não) irracional do vazio. 

Quando o jovem Kane Parsons lançou um found footage no YouTube chamado The Backrooms (2022), o vídeo se tornou uma fenômeno cultural com mais 70 milhões visualizações na plataforma. Com o sucesso do primeiro vídeo, Parsons continuou a explorar esse universo em outros vídeos, disponíveis em seu canal, chamando a atenção dos estúdios e produtoras de cinema estadunidenses. Porém, a bolha cinéfila foi pega de surpresa quando, pouco tempo depois, a A24 anunciou que estava desenvolvendo um filme baseado no universo de Backrooms, dirigido por Parsons (na época, com cerca de 18 anos; agora com 21!), com produção de nomes como Shawn Levy, James Wan e Osgood Perkins, e estrelado por dois atores de peso: Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve. De certo, sejam os céticos e/ou os curiosos, todos começaram a ficar curiosos para ver o resultado final.

A ação se passa nos anos 90, Mary (Reinsve) é uma psicóloga que ainda carrega traumas do passado, ligados à sua casa de infância, enquanto que seu paciente Clark (Ejiofor) é um arquiteto frustrado que nunca conseguiu seguir seus sonhos que trabalha em uma loja de móveis falida. Após uma série de incidentes, Clark descobre uma passagem secreta que dá para um labirinto infinito de salas, reproduzindo uma realidade distorcida do mundo real. Após seu paciente ficar cada vez mais envolvido com esse microcosmo, Mary vai atrás dele e adentra nesse universo.

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) é um filme que se destaca pelo visual, a justaposição entre o mundo real com uma variedade de cores e tons e o labirinto minimalista com tons amarelados de sinestesia nauseante, e pelo sensorial, o folley e a edição de som são importantes para imersão do expectador. Parsons, que estreia na direção, parece estar confiante com o universo, no qual desenvolveu durante anos, e acredito que se beneficiou da experiência ao máximo. Não posso ainda dizer se ele é ou não um bom diretor, pois ainda é muito cedo para fazer tal declaração direta, e talvez reducionista; mas parece segurar bem a onda aqui. Seu trabalho, embora estamos falando de uma nova IP com chances (caso fizer sucesso nas bilheterias mundiais) de se tornar um carro chefe de uma nova franquia para um estúdio norte-americano, transborda um certo carinho e atenção aos detalhes estéticos e jogo de linguagens cinematográficas em uso. Em suma, é uma direção segura no que pretende.

Visual e esteticamente falando, o filme se garante; porém talvez seu ponto fraco esteja no roteiro da obra, que utiliza das caraterísticas conceituais do universo como parte de uma metáfora situacional para suas personagens, mas nem sempre consegue desenvolver seus temas de forma orgânica, principalmente no terceiro ato, quando o filme começa a flertar com o onírico, enquanto tenta enquadrar com uma subplot que envolve uma teoria da conspiração. O texto não é ruim, mas talvez a relação entre o inconsciente das personagens com a genealogia do backrooms pode ser, ao mesmo tempo, algo fascinante ou um pouco básico (afinal, estamos falando de um filme da A24), dependendo do espectador. Este crítico, tende para o primeiro lado; pois é o ponto em que se sustenta parte do horror do filme: o da percepção da mente humana em situações austeras e da ressignificação dos pesadelos. Quando o filme afunda dentro da própria loucura, ele acaba se tornando mais envolvente com o desenrolar das ações.

Para além da direção confiante de Parsons, o que ajuda elevar uma narrativa fragilizada é o combo de atuações de Ejiofor e Reinsve, que, com todos seus talentos em cena, elevam a dinâmica entre as personagens e parte do desenvolvimento pessoal de cada uma. Se suas características parecem bastante unidimensionais no papel, em cena, com estes intérpretes, a ideia ganha matéria e, portanto, suas crises parecem, ao público, reais. E diante do improvável, lentamente, o chão afunda e a realidade começa a se dissipar. Há uma cena bastante interessante que acontece no primeiro ato e acaba reaparecendo no terceiro, em uma mise en scène que me lembrou um pouco com o clímax de Massacre da Serra Elétrica de Tobe Hooper (1974): uma conversa entre a duas personagens, o texto é quase idêntico, porém o ambiente e a situação mudam o tom dessa interação espelhada. O irreal e real acabam, então, por se confundir e criar um entremeio. Se não fosse pelo trabalho dos atores, talvez o resultado poderia ser didático ou superficial demais, para um espectador com olhos já treinados para filmes de terror com um ângulo dramático acentuado.

Como um filme de estreia, Backrooms (2026) é uma obra eficiente que se debruça a explicar e explorar sua própria mitologia para seu público. Quem for fã da estética, ou do gênero, ou quem tiver uma mente mais aberta para ideias inusitadas, pode aproveitar mais o filme do que o espectador mais cético.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

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