segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Feito Pipa - Matéria de Laisa Lima (Festival do Rio 2026)


Feito Pipa | Paris Filmes

Considerado um destaque do Festival do Rio em 2026, o filme “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, é uma fábula sobre amadurecimento, liberdade e leveza, ambientada no interior do Ceará. Através dos olhos de Gugu (Yuri Gomes), uma criança que se afasta dos padrões de masculinidade por ter trejeitos e gostos ditos “femininos”, vivendo sua infância do jeito inocente que ela deve ser, encontramos ensinamentos valiosos sutilmente colocados na tela. Enquanto a avó Dilma (Teca Pereira) representa o acolhimento de um colo sempre compreensivo, o pai Batista (Lázaro Ramos) evoca a figura autoritária de quem ainda vive preso aos moldes sociais julgados “aceitáveis” para o comportamento de um menino.

Entretanto, a magia de viver livre ao lado de alguém igualmente empoderado e vaidoso, como Dilma, se esvai para Gugu no momento em que o Alzheimer da avó passa a representar um risco para o bem-estar dos dois. O personagem, então, necessita encarar os padrões retrógrados de Batista quando passa a conviver com ele, sendo, assim, privado de uma realidade cheia de cor, tal qual era de costume. Apesar disso, as vestimentas purpurinadas e a autenticidade de Gugu nunca são deixadas de lado.

Para entender melhor a criação do universo leve e descontraído do protagonista — levando em consideração a narrativa dramática por si só —, a KOROFILMES conversou um pouco com o diretor, Allan Deberton: “De inspiração, eu tiro o cinema em que acredito, que é aquele que diverte, mas também transforma; que fala sobre a intimidade de seus personagens com verdade acima de tudo.”

O enredo de “Feito Pipa” parece simplório, sem rodeios. É aí que está a mágica do longa-metragem: retirar de uma história cotidiana, que abarca o passar do tempo, suas consequências e a infeliz realidade de indivíduos que não podem ser o que são, um diamante lapidado.

“Gosto muito de histórias simples e gosto muito de histórias às quais eu pertenço. Eu cresci no interior do Ceará, e o roteirista André Araújo também, então é um lugar de pertencimento. Tudo isso traz uma verdade”, diz o diretor.

O filme, tratado com delicadeza ao abordar temáticas que requerem maior cuidado e seriedade, torna-se uma grande lição por não abandonar o foco de ser visto por intermédio de uma criança. Apesar de todo o sofrimento, Gugu enxerga situações complexas, como o avanço da doença da avó, com imaginação e boas doses de esperança. A direção reforça esse sentimento ao exibir um Ceará vivaz, na paleta de cores escolhida, e contemplativo, devido às várias panorâmicas.

Segundo Allan: “O filme fala sobre conversa. É muito importante que a gente tenha um olhar muito aberto sobre a necessidade do brasileiro de conversar, respeitar o outro e respeitar as diferenças.”

A respeito da representação do Alzheimer na personagem da brilhante Teca Pereira, Deberton diz: “É preciso ter um olhar atento para a terceira idade, um olhar de cuidado e atenção.”

A KOROFILMES também esteve com o intérprete de Gugu, Yuri Gomes, que enfatiza a importância da obra para os pequenos: “O Gugu tem a ensinar que nós, crianças, temos, sim, que sonhar e ter respeito pelo outro. Não podemos desistir dos nossos sonhos.”

O ator mirim sintetiza em poucas palavras o conceito do filme: “Tem a ensinar a ter mais apego aos seus familiares e não dar ouvidos à negatividade dos outros, porque não vai te trazer coisas boas, só vai fazer você ficar mal.”

O artista completa: “Persista na sua carreira e nunca desista dos seus sonhos. Se você quiser dançar, dance. Você é livre, pode ser o que quiser.”

Engrandecido por ótimas atuações, principalmente do trio principal (Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos), “Feito Pipa” é um deleite para quem possui uma sensibilidade aguçada. Tocante e divertido na medida certa, a produção, indicada para levar o Brasil até o Oscar em 2027, provoca questionamentos pertinentes, levando o espectador a uma viagem filosófica sobre os valores de comunidade e amor aos demais. Sob a ótica infantil, toda tristeza pode ser revertida em criatividade; não há situação, por mais difícil que seja, sem escapatória. Na verdade, o que existe é a capacidade de mostrar-se ao mundo sem tabus ou preconceitos; é levar uma vida em que o colorido vence o taciturno de forma incansável.

Autora:


Laisa Lima 

25 anos, formada em cinema, roteirista, crítica, videomaker e moradora do Rio de Janeiro, minha paixão pelo cinema transcende as telas. 
De “Guarda-Chuvas do Amor” até “Laranja Mecânica”, meu amor pela arte não se prende a nenhum gênero, mas sim ao que me toca. 
Também sou apaixonada pelos pormenores da vida, que se apresentam sem nenhum roteiro. 
Logo, imaginação não falta em mim. 
Sou de tudo um pouco, e procuro sempre expor minha versão mais democrática, que enfrenta a realidade com a maior criatividade possível.



Maria de Maria - O verdadeiro ouro está mais perto do que você imagina

Maria de Maria | O2 Play


No longa, dirigido por Luiza Shelling, acompanhamos a trajetória de Maria, uma jovem cangaceira que, após descobrir uma gravidez e perder seu bando em um massacre, precisa abandonar a vida que conhecia para tentar recomeçar em outra região do país. Em fuga para o Centro-Oeste, ela encontra no programa governamental Marcha para o Oeste, criado durante o governo de Getúlio Vargas, a possibilidade de conquistar um pedaço de terra e construir um futuro diferente para si e para seu filho. Em meio às promessas de uma nova vida, Maria precisa enfrentar os desafios de um território desconhecido, as dificuldades de reconstruir sua identidade e os conflitos que surgem quando seus desejos entram em choque com as estruturas de poder da época.

Um dos principais problemas do longa está na maneira como o roteiro tenta abordar uma quantidade considerável de assuntos ao longo da narrativa e ao explorar diferentes questões sociais, políticas e históricas, o filme acaba dividindo sua atenção entre pautas que, individualmente, poderiam render discussões muito mais profundas. Como consequência, alguns desses temas parecem ser apresentados apenas superficialmente, sem receber o tempo necessário para que suas implicações sejam realmente exploradas. A sensação é de que existe uma vontade de dizer muitas coisas, mas nem sempre há espaço suficiente para desenvolver todas elas com a sensibilidade que merecem, algumas questões poderiam ter um impacto muito maior se fossem trabalhadas com mais sutileza, permitindo que seus significados surgissem naturalmente a partir das experiências dos personagens, em vez de serem apenas incorporados à trama.

Apesar dessa limitação, a narrativa consegue estabelecer um ritmo bastante consistente durante boa parte de sua duração, como a trajetória de Maria que se desenvolve de maneira envolvente, acompanhando suas tentativas de reconstruir a própria vida enquanto precisa lidar com as incertezas de um futuro que está longe de ser garantido. O longa consegue manter o interesse do espectador ao apresentar os obstáculos que surgem nesse processo, equilibrando os momentos mais íntimos com os conflitos externos que ameaçam a estabilidade conquistada pela protagonista. Entretanto, esse equilíbrio se perde justamente no ápice do confronto entre Maria e os militares, depois de construir uma tensão que sugere consequências muito mais intensas, o filme resolve esse conflito de maneira excessivamente simples, sem explorar todo o peso emocional que a situação poderia carregar para quem assiste.

Se o roteiro apresenta algumas dificuldades, a fotografia surge como o grande destaque técnico da produção. O trabalho visual complementa de maneira admirável a visão de Luiza Shelling, contribuindo para estabelecer a atmosfera da narrativa, a composição dos enquadramentos e a maneira como os espaços são apresentados ajudam a construir a relação entre Maria e o ambiente ao seu redor, fazendo com que a paisagem tenha uma presença que vai além da função de cenário. É um trabalho que demonstra como as escolhas estéticas podem contribuir diretamente para a narrativa, tornando a fotografia o aspecto técnico mais admirável do longa.

Entretanto, o verdadeiro coração de Maria de Maria está na relação construída entre Nanda Costa, João Campos e o ator mirim que interpreta o filho da protagonista. A química entre os três é impressionante e faz com que o espectador se envolva profundamente com essa “família”, acompanhando seus momentos de afeto, suas dificuldades e suas tentativas de encontrar alguma estabilidade em meio às adversidades. Nanda Costa entrega uma Maria que carrega as marcas de seu passado, mas que também encontra na maternidade e na possibilidade de recomeçar uma motivação para continuar lutando. Sua interpretação ganha ainda mais força quando dividida com os demais integrantes desse núcleo, criando uma dinâmica que transmite proximidade e cumplicidade sem depender de diálogos.

Maria de Maria é um longa que encontra força na trajetória de sua protagonista e, principalmente, nas relações que ela estabelece ao longo do caminho. No fim, é uma obra com qualidades evidentes, mas que poderia alcançar um impacto muito maior caso confiasse mais nas narrativas centrais de seus personagens e permitisse que algumas de suas questões fossem desenvolvidas com a profundidade que merecem.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Bucking Fastard (2026): Herzog e sua fábula de codependência

 

Bucking Fastard | HanWay Films


Como entender a natureza contraditória das coisas? Os cernes das emoções? O desejo do irracional? A vontade de amar e ser amado? De nadar contra a corrente? De se destacar? Existe uma dialética na compreensão, algo não dito nas relações humanas, cuja a maioria, ao longo da vida, consegue decifrar. As irmãs Holbrooke, Jean (Kate Mara) e Joan (Rooney Mara), ainda não conseguem decifrar os outros; mas, em compensação, elas se conectam de forma simbiótica, em uníssono falam, pensam, agem e sonham em comunhão consigo mesmas. Incompreendidas por todos, elas almejam o amor e a liberdade de serem elas mesmas. 

Em Bucking Fastard (2026), Werner Herzog nunca trata suas protagonistas (cujas interpretes são irmãs na vida real) de forma negativa, se na trama há um humor causado pela estranheza, ele está lá e é absolutamente  delicioso, mas o guião nunca põe Jean e Joan como o alvo da piada. Elas são uma representação da natureza. Sua psiquê em comum é diferente das outras pessoas: entre a co-dependência e comportamento obsessivo, elas veem o mundo de uma perspectiva diferente, por mais que, para os demais personagens e até mesmo ao público, tenham uma visão egocêntrica e deturpada. Existe uma certa inocência no cerne do estudo de personagem que Herzog desenvolve que é impossível, aos poucos, não compreendê-las. Seu amor é maior do que si mesmas. Elas vivem das emoções que as retroalimentam e, portanto, precisam da esperança de serem amadas.

Após se apaixonarem por um vizinho galanteador (Orlando Bloom), as irmãs Holbrooke sofrem um escrutino público quando este homem as processa por assédio moral e garante um ordem de restrição, em uma hilariante e estupenda cena de tribunal. Há uma perda de controle, um estrago foi feito. E, de um jeito ou de outro, Jean e Joan precisam pagar o preço de suas emoções e, em um longo processo de auto conhecimento, precisam recolher os cacos de sua destruição moral. Nada é fácil, estão vulneráveis, mesmo presas no seu próprio mundo particular. São mulheres inconvenientes, difíceis de lidar e possivelmente neurodivergentes; mas a câmera nos convida a adentrar seu mundo, a presenciar o dia-a-dia, os abusos, as dificuldades e os desejos das personagens... Aliás, diga-se de passagem de fotografia digital é um melhores feitos nos últimos anos, entendo a noção da profundidade que me parece ter sido esquecida no cinema atual com planos chapados e desfocados.

Herzog usa de uma estrutura fabular para desenvolver o longa-metragem: primeiro uma comédia de erros, e, em segundo, um drama familiar. Existe uma cisão de tom no meio do filme que pode causar o estranhamento para alguns membros da audiência, mas que em nada me incomodou. O trabalho de atuação das irmãs Mara é robusto e convincente, fugindo muito da lógica do casting por publicidade; desenvolvendo suas personagens de um jeito convincente para acreditarmos em seu absurdismo. Acreditamos que as Mara são as Holbrooke e, em momento algum, as colocamos em uma posição de descrença em respeito a atuação. 

Quando o filme enfoca na reconstituição das protagonistas e em sua busca por uma ilha prometida, Herzog vira a chave. Se as irmãs são um símbolo da natureza, pueril e, relativamente, inocente, o mundo quer as destruírem em benefício próprio. Para ele, elas sempre serão vistas como aberrações, como o próprio final da obra sugere. portanto, sua codependência não é somente consigo, mas também com este mundo que as aprisiona, explorando-as. O realizador se coloca na posição de pôr a luz na alteridade e nos mostra como é, de modo desconcertante, é estar nesse lugar. Mas nunca em tom trágico. São pardais a cantar dentro de uma gaiola. Precisam encantar para sobreviver; e sobreviver para sonhar com um  mundo além das grades. Um sonho de liberdade e autonomia.


*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (na fatídica sessão no Cinesystem Belas Artes Botafogo em que, por desleixo da produção do evento, decidiu exibir o filme, falando em língua inglesa, sem legendas para um público brasileiro. O que aconteceu com o pensar no coletivo? Entendi o filme bem, mas mesmo assim não é um bom precedente ao festival... Mais um trauma para a lista!)

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

Club Kid (2026): Amadurecimento e Paternidade

 

Club Kid (2026) | Califórnia Filmes

"You fell in love with America

When you were twelve years old

And by seventeen you knew you had to see it all

You loved your dad and the love he had for your mother so

You had to get out and go chasin' it's sweet call[...]

 And you said, "Hey, do you wanna see the West with me?

'Cause love's out there and I can't leave it be"

And I said, "Honey, love's never meant much to me

But I'll come with you if you're sure it's what you need"

(Ethel Cain - Throughfare)

Sempre existe um antes e um pós. A vida é composta por momentos de viradas que nem sempre acontecerão de forma planeja. Viver é complicado e cada passo é um novo aprendizado, amadurecemos na medida em que envelhecemos. Em Club Kid (2026), filme de estreia do diretor e comediante Jordan Firstman (da fama de Rotting in the Sun e I Love L.A.), filme de encerramento da 28a edição do Festival do Rio, é uma dessas histórias. 

Peter (Firstman) é um promoter de baladas em Nova York que vive uma rotina agitada em boates e inferninhos do cenários clubber da cidade. No auge de seus trinta e poucos anos, nosso protagonista é a alma da festa, mas, no mundo real, é completamente desorganizado: sua rotina é caótica, e abusa do uso de substancias, custando-o a perda de uma sociedade com uma colega influente (Cara Delevigne) da cena nova iorquina. Mas, seu choque de realidade vem quando Arlo (Reggie Absolom), seu filho que não sabia que existia, é deixado na porta de sua casa, após a morte da mãe (com quem, sem querer, Peter fez um ménage em uma darkroom anos atrás). A partir daí, o caldo entorna e Peter precisa, aos poucos, começar a amadurecer e se conectar com o jovem.

Esse é o tipo de projeto que poderia dar muito errado, pelos motivos mais vãos e egocêntricos (já que estamos falando de um estudo de personagem interpretado pelo próprio diretor); porém, Jordan Firstman tem os sensos controlados aqui e não apresenta algum vício de linguagem ou algum sentimentalismo barato que seja prejudicial para a obra. A direção do filme é bem pensada tanto no sentido prático quanto no tom em que precisar dar a narrativa; e o roteiro, também assinado por Firstman, conjuga momentos e interações hilárias (em que vemos Peter lidando a sua nova realidade e pílulas da cena noturna) com momentos mais sóbrios e melancólicos (a conexão entre pai e filho e a possibilidade da perda). 

Duas coisas essenciais para que o filme funciona são: a relação entre Peter e Arlo (vulgo "a criança mais legal do mundo!") que é muito bem desenvolvida, o cerne da trama, e o desenrolar desse relacionamento me pareceu genuíno e lindo; e a construção de uma comunidade LGBTQIAPN+ (e, portanto, do senso de uma) de forma orgânica, a partir de vivências e lugares em comum, sem apelar a estratégias apelativas, como situações de dor e sofrimento, e a abordagens panfletárias, que, às vezes, acometem filmes LGBTs e/ou de temática queer no cinema. Sem isso, o filme, de jeito nenhum, funcionaria. Pequenos atos de candura, de diálogo e de, até, sacrifícios que movem a narrativa e seus personagens. Entrar num mundo e não querer sair. Mas qual será escolha de Peter: a cena clubber ou o bem-estar do filho? 

Em alguma hora, a balança vai começar a pesar e os dados deverão ser lançados. Apesar o filme entrar em certa contradição nos últimos 25 minutos, uma vez que as ações de Peter serão questionados pelas autoridades, existe um diálogo com outros filmes que exploram relação entre pais e filhos, como Ladrões de Bicicletas (1946) de Vittorio de Sica e Aftersun (2022) de Charlotte Wells, por exemplo, em que é preciso um ponto de quebra, de falha e/ou de impotência. Se o filme desenvolve a população queer como uma naturalidade oposta a uma sociedade normativa, é porque nossa sociedade é assim. Não existem grandes perseguições ou uma série seguidas de crimes acometidas para com os personagens (ainda bem, ninguém aguenta mais esse trope!), mas não exclui que o protagonista precisa passar por alguma aprovação pela catarse. 

Porém, a catarse sempre esteve no filme, na forma em que a relação entre Peter e Arlo se desenvolve aos olhos do público. Um estudo de personagem que nos permite ter empatia e se colocar no lugar do protagonista; por mais que as situações fogem um pouco do controle. Club Kid se preocupa mais com seus personagens do que passar alguma crítica social e talvez, seja feliz, assim, no simples. Um filme redondo, competente de um talento que precisamos acompanhar seu desenvolvimento nos próximos anos.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (cuja cabine de imprensa no Estação Claro Rio teve um problema técnico e a obra foi exibida sem o acompanhamento de legendas.)

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 
                                  

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026): Trauma e Raiva na Infância

 

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026) | Retrato Filmes

O mundo de Josephine (Mason Reeves), de apenas oitos anos, parece aparentemente normal: seus pais, sua rotina na escola, seus sonhos, sua aptidão para o futebol. Porém, uma manhã em específico, ela e seu pai (Channing Tatum), vão muito cedo para um parque na região de São Francisco para praticar esportes ao ar livre; algo saudável, útil e parte do cotidiano deles. 

A criança corre na frente do pai e, entre as árvores, perto do banheiro público, ela vê uma corredora entrar lá. Logo em seguida, um homem aparece ali, entra no local, persegue a mulher, a ataca, imobilizando e batendo sua cabeça contra o chão. Desacordada, o sujeito tira a roupa de ambos e começa a viola-la, repetidas vezes. Ela acaba se recobrando, mas ele a enforca durante a penetração, abafando os gritos da vítima. E vemos todo o crime se desenrolar através dos olhos de Josephine, que atordoada, é a única testemunha ocular da ação. 

É dessa maneira em que começa o longa Josephine - Fragmentos de um Crime (2026), dirigido pela diretora brasileira Beth de Araújo, de uma maneira inesperada e brutal. A cena em si é explicita, bem-feita, dolorida e deixou algumas pessoas na sessão da cabine de imprensa um pouco desconfortável (algo, que devo dizer, é raro no cinema contemporâneo atual, em que as ações são higienizadas para o público). Talvez essa o objetivo do filme, começar uma discussão e fragilizar o público; por mais que a diretora acaba repetindo a fragilização, de modo quase gratuito.

Os pais de Josephine (Tatum e Gemma Chan) não sabem o que fazer com a filha, que traumatizada com o ocorrido, se vê perseguida pela sua vulnerabilidade e o medo de estar, em um futuro próximo, na mesma posição do que a vítima. Ela se torna mais fechada, violenta e incompreendida. Seu mundo é incerto. Com o fantasma do abuso a perseguindo, o agressor aparecendo como uma espécie de 'amigo imaginário', e a falta de um apoio psicológico apropriado, Josephine entre num mundo de ódio e indignação, na qual ela não tem maturidade para compreender a raiva que sente; quase se tornando uma proto-femcel no processo, ressentindo ao mundo masculino, revoltando-se com a intimidade dos pais, agredindo colegas importunos e até quase provocando um aborto.

O trabalho de Araújo, quando se concentra em sua protagonista, maravilhosamente interpretada por Reeves, consegue se desenvolver; porém, quando o foco se volta aos pais de Josephine, fica tímido, um pouco banal. Sua câmera se move, tem perspectiva, é ágil em diferentes sequências em que vemos um campo de visão amplo, porém, em outros momentos, o movimento torna-se repetitivo, como um truque. Além de algumas sequências de montagens, bem no estilo videoclipe, que me tiram completamente da narrativa em alguns momentos. Se um filme consegue ser conciso, quando uma mãe diz a uma filha que não consegue curar sua dor, sua raiva, mas que ela precisa doma-la; como, ao mesmo tempo, beira ao um certo fetichismo de sofrimento coletivo para expressar a mesma mensagem? O feminino precisa expressar sua raiva diante de uma tentativa de violência e de feminicídio, um tópico bastante pertinente, mas quando o filme somente quer dar ênfase na raiva, acaba diluindo muito o que tanto almeja: mensagem, catarse e crítica.

O longa-metragem tem seus excessos, alguns bons e outros não, mas quando é direto no ponto e no que deseja dizer, acaba se tornando algo poderoso, especialmente as espectadoras que vivem com o mesmo medo que a protagonista. A mensagem é importante, mas narrativa e forma, também ser levado ao mesmo grau de importância. Felizmente, a obra não acaba se perdendo numa abordagem panfletária e nem num fetiche completo de dor. Talvez, de estilo e narrativa, poderia ter mais sutilezas, mas ainda assim tem ambição de contar não só uma história, um estado de espírito. 

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026.

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Funk - Na corrida pelo seu sonho!

Funk | Paris Filmes

Funk (2026), dirigido por Aly Muritiba, assume com coragem e ousadia a realidade do funk e apresenta ao público a trajetória de uma jovem da favela que sonha em conquistar seu espaço como MC, iniciando sua carreira pelos bailes das favelas cariocas. A narrativa acompanha Sabrina, uma menina que encontra na música não apenas uma possibilidade de carreira, mas também uma forma de expressar seus desejos, sua identidade e a realidade ao seu redor. O longa acerta ao não tratar esse universo de maneira superficial ou estereotipada, permitindo que o funk faça parte da própria construção da história e da identidade de seus personagens.

Um dos grandes destaques da produção está justamente na maneira como seus elementos técnicos são utilizados para construir essa realidade, como por exemplo: a trilha sonora é excepcional e aparece de maneira pontual ao longo da narrativa, não funcionando apenas como acompanhamento das cenas, mas como uma ferramenta importante para desenvolver os acontecimentos e transmitir aquilo que os personagens estão vivendo. A música ajuda a estabelecer o ritmo do filme e, principalmente, a aproximar o espectador do universo de Sabrina. Da mesma forma, a fotografia e a direção de arte contribuem para representar o funk de maneira mais transparente, trazendo para a tela ambientes, estética e elementos que fazem parte desse universo sem tentar suavizá-los ou transformá-los em algo distante de sua realidade.

Duda Santos é outro grande acerto do longa, a atriz consegue prender a atenção do espectador desde os primeiros momentos em que Sabrina aparece e sustenta essa conexão até o final. Existe uma entrega muito evidente ao papel, tanto na maneira como ela interpreta os momentos de vulnerabilidade da personagem quanto na forma como transmite sua determinação e seus sonhos. Duda consegue construir Sabrina com muita maestria, fazendo com que a personagem pareça genuína e permitindo que suas escolhas, inseguranças e conquistas tenham peso dentro da narrativa, é uma atuação que não depende apenas de grandes momentos dramáticos, mas também de pequenos gestos e expressões que ajudam a revelar quem Sabrina é.

A construção dos personagens, inclusive, é um dos aspectos mais interessantes de Funk, o filme consegue apresentar pessoas com sonhos, dificuldades, ambições e contradições próprias, fazendo com que elas existam para além da trajetória da protagonista. Existe uma preocupação em tornar esses personagens reais, com objetivos que fazem sentido dentro de suas próprias histórias e que podem gerar identificação no público. Isso também evita aquela sensação comum em algumas produções de que os personagens secundários existem apenas como “chaveirinhos” da protagonista, servindo exclusivamente para ajudá-la ou movimentar sua narrativa. Ao acompanhar personagens que possuem sonhos possíveis, conflitos reais e diferentes formas de enxergar o futuro, o longa permite que o público se reconheça naquela realidade. Mais do que contar a história de uma menina que deseja ser MC, a produção apresenta pessoas tentando encontrar seu próprio caminho dentro das possibilidades que possuem. Existe inspiração justamente porque o longa não transforma seus personagens em figuras idealizadas: eles são apresentados com suas dificuldades, limitações e desejos, tornando suas conquistas ainda mais significativas.

No fim, Funk encontra sua maior força na autenticidade com que escolhe contar essa história. Aly Muritiba constrói um longa que entende a importância do funk para seus personagens e utiliza seus elementos técnicos para fazer com que esse universo esteja presente não apenas no roteiro, mas também na imagem e no som. A trilha sonora se destaca, a fotografia e a direção de arte ajudam a estabelecer uma identidade própria, enquanto Duda Santos entrega uma atuação extremamente envolvente como Sabrina. É um filme que abraça seu universo sem medo e encontra justamente nessa autenticidade uma de suas maiores qualidades.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Prima Facie - Uma voz que grita por justiça

Prima Facie | Sony Pictures

Estrelado por Cynthia Erivo, Prima Facie parte de uma obra que já carrega uma forte identidade teatral. Baseado no monólogo, de mesmo nome, de Suzie Miller, que ganhou destaque nos palcos e também recebeu uma montagem brasileira protagonizada por Débora Falabella, o filme parece assumir conscientemente algumas características de sua origem. A fotografia, em especial, apresenta uma composição que remete constantemente ao teatro, com enquadramentos e escolhas visuais que dão a sensação de estarmos acompanhando uma peça sendo transportada para o cinema. Essa decisão ajuda a preservar parte da essência do material original, mas também evidencia uma das principais dificuldades da adaptação: encontrar uma linguagem cinematográfica capaz de expandir aquilo que funcionava tão bem no palco.

Cynthia Erivo é, sem dúvida, o principal ponto de sustentação da produção, ela se entrega completamente à personagem e demonstra um domínio muito grande das emoções exigidas pela narrativa, especialmente nos momentos de maior vulnerabilidade e tensão. Existe um esforço evidente para carregar o filme praticamente sobre seus ombros, utilizando sua presença em cena para manter o envolvimento do espectador mesmo quando o roteiro começa a perder força. Erivo consegue transmitir o impacto emocional de determinadas situações e faz com que a trajetória da personagem continue despertando interesse, ainda que a adaptação nem sempre ofereça a ela elementos narrativos à altura de sua atuação.

O problema está justamente na transição do palco para a tela, o longa parece encontrar dificuldades para compreender completamente o que precisa ser transformado quando uma história construída essencialmente a partir de um monólogo teatral passa a ocupar o espaço do cinema. O que no teatro pode funcionar pela proximidade entre atriz e público, pela força da interpretação e pela própria dinâmica do palco, nas telas acaba dependendo de uma linguagem mais ampla para manter o mesmo impacto. Essa questão se torna ainda mais evidente quando a produção aborda seu principal tema: a violência sexual contra mulheres e as dificuldades enfrentadas pelas vítimas dentro de estruturas que deveriam acolhê-las. A intenção de conscientizar e provocar reflexão é bastante clara, e o filme consegue transmitir a dimensão emocional e social desse debate. Entretanto, alguns dos recursos utilizados para reforçar sua mensagem acabam sendo excessivamente óbvios. Determinadas situações parecem construídas para garantir uma reação específica do espectador, enquanto algumas soluções de roteiro simplificam questões que poderiam receber um tratamento mais complexo e menos previsível.

Isso não significa que a reflexão proposta pelo filme deixe de funcionar. Pelo contrário, Prima Facie consegue provocar questionamentos importantes sobre consentimento, violência sexual, julgamento das vítimas e a maneira como determinados sistemas lidam com esses casos.

Ainda assim, existe mérito na decisão de levar essa história para um público maior. A adaptação preserva a potência de um material que nasceu no teatro e utiliza a força de Cynthia Erivo para manter vivo o peso emocional da protagonista. Mesmo com suas limitações, o filme não deixa de cumprir uma função importante ao colocar a violência sexual e suas consequências no centro da narrativa, estimulando o espectador a refletir sobre questões que continuam extremamente relevantes. No fim, é uma obra que ainda consegue provocar discussões importantes, mas que deixa a sensação de que o material original possuía uma força que o cinema nem sempre conseguiu reproduzir.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Feito Pipa - Matéria de Laisa Lima (Festival do Rio 2026)

Feito Pipa | Paris Filmes Considerado um destaque do Festival do Rio em 2026, o filme “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, é uma fábul...