Autor:
Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento. |
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Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento. |
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| O Bosque Selvagem (2026) | Imagem Filmes |
Quando a jovem Prue McKeel passea, por uma tarde qualquer em Portland, ignorando o aviso dos pais, com seu irmão mais novo, Mac, tudo parecia em ordem. Porém, depois do bebê ser raptado no parque por um bando de corvos, ela e um colega de escola, Curtis, precisam salva-lo e o rasto das aves os levam para uma floresta que, à princípio, é impenetrável, mas os jovens conseguem adentra-la. Lá, os jovens descobrem um mundo mágico à beira do colapso governamental e que sua jornada se entrelaça com os planos de Alexandra, a governadora viúva, que pretende usar o irmãozinho de Prue para se vingar e conquistar aquilo que perdeu.
O Bosque Selvagem (2026), ou Wildwood no original, é o novo filme do estúdio de animação Laika Studios, depois de longos sete anos quando lançaram Link Perdido (2019), e adaptação de uma série de livros infanto-juvenis de mesmo nome escrita por Colin Melroy e ilustrada por Carson Ellis, cujo o primeiro livro serve como base da animação. O projeto de Travis Knight é, assim como a narrativa, ambicioso e consegue dar uma escala ao potencial de grandiosidade quando o assistimos. Não quero entrar em muitos detalhes, pois desejo que você, care leitore, vá ao cinema e descubra o filme por conta própria, sem saber muito do desenrolar. Apenas que, de certo, este longa animado é uma aposta arriscada.
Aqui, em primeiro plano, temos uma animação de stop-motion, técnica na qual o estúdio é conhecida, rica em detalhes que se integra com alguns efeitos especiais em CGI, principalmente nas cenas de planos abertos e/ou que exigem um certo teor de complexidade. A questão aqui é que se trata de um projeto humano, feito por humanos por técnicas artesanais e que demandam tempo e dedicação à arte; enquanto isso, o mundo discute sobre a implementação de IA generativa não só na arte, mas também no nosso cotidiano. Existe magia, mas a magia somente é feita pela imaginação e a técnica humana, a partir daí, a ilusão nasce.
Nosso contemporâneo atual tende a mecanizar as ações, as fantasias e a capacidade de sonhar a um patamar insosso, cuja personalidade e encantamento se perdem. Porém, fazer cinema é criar uma ilusão. Projetar a imagem dentro de pequenas cavernas e nos iludir com aquilo que vemos na nossa frente. Cinema é magia, portanto precisa de truques, técnicas e humanidade. Sem isso, arte, como um todo, perde sua essência, tanto como expressão (o cinema como forma, autoria e experimento) quanto mercadoria (pensando no cinema comercial hollywoodiano, por exemplo).
Bosque Selvagem/Wildwood, nesse sentido, nada contra a corrente das produções atuais, por mais que não repele a todas as suas práticas contemporâneas; porém, a venda da obra como algo artesanal, feito à mãos humanas, não é só uma questão de prática, mas também de branding dentro do cenário estadunidense como um estúdio que produz animações com um certo teor de 'espírito', o qual é rejeitado pelas grandes produtoras. E dá para sentir tudo isso, enquanto assistimos um épico fantástico com cerca de duas horas e dez minutos na tela grande. Tudo é pensando para engrandecer à narrativa e à forma. Me parece que Knight e a Laika conseguem convencer o público de seus filmes que o stop-motion é uma arte pertinente e única, mesmo em tempos de inteligência artificial. O que, de certa forma, é algo lindo de se presenciar. (Não vou entrar na questão entre Laika e Nike neste texto, o que poderia problematizar o argumento.)
A animação em si é de excelente qualidade e boa parte dos detalhes técnicos que envolvem a obra são bem feitos, o roteiro tem um ritmo um pouco irregular às vezes (acho que poderia ser um filme um pouco mais longo), mas, ao mesmo tempo, abraça a ousadia de contar uma história que envolve o fantástico sem embelezar os perigos que existem em narrativas do gênero. Um desenho animado épico, uma pièce de résistance de um estúdio milionário que não rende ótimas bilheterias, mas que, ainda assim, continua a existir e a criar uma nova leva de fãs (eu lembro da época em que Coraline [2009] lançou nos cinema tá?!). Se tivesse visto esse filme com uns dez anos de idade, teria alterado a química do meu cérebro, com certeza. Com quase trinta, saí impressionado da cabine.
Talvez ainda tenha um espaço para a magia no cinema?
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| Feito Pipa | Paris Filmes |
Considerado um destaque do Festival do Rio em 2026, o filme “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, é uma fábula sobre amadurecimento, liberdade e leveza, ambientada no interior do Ceará. Através dos olhos de Gugu (Yuri Gomes), uma criança que se afasta dos padrões de masculinidade por ter trejeitos e gostos ditos “femininos”, vivendo sua infância do jeito inocente que ela deve ser, encontramos ensinamentos valiosos sutilmente colocados na tela. Enquanto a avó Dilma (Teca Pereira) representa o acolhimento de um colo sempre compreensivo, o pai Batista (Lázaro Ramos) evoca a figura autoritária de quem ainda vive preso aos moldes sociais julgados “aceitáveis” para o comportamento de um menino.
Entretanto, a magia de viver livre ao lado de alguém igualmente empoderado e vaidoso, como Dilma, se esvai para Gugu no momento em que o Alzheimer da avó passa a representar um risco para o bem-estar dos dois. O personagem, então, necessita encarar os padrões retrógrados de Batista quando passa a conviver com ele, sendo, assim, privado de uma realidade cheia de cor, tal qual era de costume. Apesar disso, as vestimentas purpurinadas e a autenticidade de Gugu nunca são deixadas de lado.
Para entender melhor a criação do universo leve e descontraído do protagonista — levando em consideração a narrativa dramática por si só —, a KOROFILMES conversou um pouco com o diretor, Allan Deberton: “De inspiração, eu tiro o cinema em que acredito, que é aquele que diverte, mas também transforma; que fala sobre a intimidade de seus personagens com verdade acima de tudo.”
O enredo de “Feito Pipa” parece simplório, sem rodeios. É aí que está a mágica do longa-metragem: retirar de uma história cotidiana, que abarca o passar do tempo, suas consequências e a infeliz realidade de indivíduos que não podem ser o que são, um diamante lapidado.
“Gosto muito de histórias simples e gosto muito de histórias às quais eu pertenço. Eu cresci no interior do Ceará, e o roteirista André Araújo também, então é um lugar de pertencimento. Tudo isso traz uma verdade”, diz o diretor.
O filme, tratado com delicadeza ao abordar temáticas que requerem maior cuidado e seriedade, torna-se uma grande lição por não abandonar o foco de ser visto por intermédio de uma criança. Apesar de todo o sofrimento, Gugu enxerga situações complexas, como o avanço da doença da avó, com imaginação e boas doses de esperança. A direção reforça esse sentimento ao exibir um Ceará vivaz, na paleta de cores escolhida, e contemplativo, devido às várias panorâmicas.
Segundo Allan: “O filme fala sobre conversa. É muito importante que a gente tenha um olhar muito aberto sobre a necessidade do brasileiro de conversar, respeitar o outro e respeitar as diferenças.”
A respeito da representação do Alzheimer na personagem da brilhante Teca Pereira, Deberton diz: “É preciso ter um olhar atento para a terceira idade, um olhar de cuidado e atenção.”
A KOROFILMES também esteve com o intérprete de Gugu, Yuri Gomes, que enfatiza a importância da obra para os pequenos: “O Gugu tem a ensinar que nós, crianças, temos, sim, que sonhar e ter respeito pelo outro. Não podemos desistir dos nossos sonhos.”
O ator mirim sintetiza em poucas palavras o conceito do filme: “Tem a ensinar a ter mais apego aos seus familiares e não dar ouvidos à negatividade dos outros, porque não vai te trazer coisas boas, só vai fazer você ficar mal.”
O artista completa: “Persista na sua carreira e nunca desista dos seus sonhos. Se você quiser dançar, dance. Você é livre, pode ser o que quiser.”
Engrandecido por ótimas atuações, principalmente do trio principal (Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos), “Feito Pipa” é um deleite para quem possui uma sensibilidade aguçada. Tocante e divertido na medida certa, a produção, indicada para levar o Brasil até o Oscar em 2027, provoca questionamentos pertinentes, levando o espectador a uma viagem filosófica sobre os valores de comunidade e amor aos demais. Sob a ótica infantil, toda tristeza pode ser revertida em criatividade; não há situação, por mais difícil que seja, sem escapatória. Na verdade, o que existe é a capacidade de mostrar-se ao mundo sem tabus ou preconceitos; é levar uma vida em que o colorido vence o taciturno de forma incansável.
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| Maria de Maria | O2 Play |
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| Bucking Fastard | HanWay Films |
Como entender a natureza contraditória das coisas? Os cernes das emoções? O desejo do irracional? A vontade de amar e ser amado? De nadar contra a corrente? De se destacar? Existe uma dialética na compreensão, algo não dito nas relações humanas, cuja a maioria, ao longo da vida, consegue decifrar. As irmãs Holbrooke, Jean (Kate Mara) e Joan (Rooney Mara), ainda não conseguem decifrar os outros; mas, em compensação, elas se conectam de forma simbiótica, em uníssono falam, pensam, agem e sonham em comunhão consigo mesmas. Incompreendidas por todos, elas almejam o amor e a liberdade de serem elas mesmas.
Em Bucking Fastard (2026), Werner Herzog nunca trata suas protagonistas (cujas interpretes são irmãs na vida real) de forma negativa, se na trama há um humor causado pela estranheza, ele está lá e é absolutamente delicioso, mas o guião nunca põe Jean e Joan como o alvo da piada. Elas são uma representação da natureza. Sua psiquê em comum é diferente das outras pessoas: entre a co-dependência e comportamento obsessivo, elas veem o mundo de uma perspectiva diferente, por mais que, para os demais personagens e até mesmo ao público, tenham uma visão egocêntrica e deturpada. Existe uma certa inocência no cerne do estudo de personagem que Herzog desenvolve que é impossível, aos poucos, não compreendê-las. Seu amor é maior do que si mesmas. Elas vivem das emoções que as retroalimentam e, portanto, precisam da esperança de serem amadas.
Após se apaixonarem por um vizinho galanteador (Orlando Bloom), as irmãs Holbrooke sofrem um escrutino público quando este homem as processa por assédio moral e garante um ordem de restrição, em uma hilariante e estupenda cena de tribunal. Há uma perda de controle, um estrago foi feito. E, de um jeito ou de outro, Jean e Joan precisam pagar o preço de suas emoções e, em um longo processo de auto conhecimento, precisam recolher os cacos de sua destruição moral. Nada é fácil, estão vulneráveis, mesmo presas no seu próprio mundo particular. São mulheres inconvenientes, difíceis de lidar e possivelmente neurodivergentes; mas a câmera nos convida a adentrar seu mundo, a presenciar o dia-a-dia, os abusos, as dificuldades e os desejos das personagens... Aliás, diga-se de passagem de fotografia digital é um melhores feitos nos últimos anos, entendo a noção da profundidade que me parece ter sido esquecida no cinema atual com planos chapados e desfocados.
Herzog usa de uma estrutura fabular para desenvolver o longa-metragem: primeiro uma comédia de erros, e, em segundo, um drama familiar. Existe uma cisão de tom no meio do filme que pode causar o estranhamento para alguns membros da audiência, mas que em nada me incomodou. O trabalho de atuação das irmãs Mara é robusto e convincente, fugindo muito da lógica do casting por publicidade; desenvolvendo suas personagens de um jeito convincente para acreditarmos em seu absurdismo. Acreditamos que as Mara são as Holbrooke e, em momento algum, as colocamos em uma posição de descrença em respeito a atuação.
Quando o filme enfoca na reconstituição das protagonistas e em sua busca por uma ilha prometida, Herzog vira a chave. Se as irmãs são um símbolo da natureza, pueril e, relativamente, inocente, o mundo quer as destruírem em benefício próprio. Para ele, elas sempre serão vistas como aberrações, como o próprio final da obra sugere. portanto, sua codependência não é somente consigo, mas também com este mundo que as aprisiona, explorando-as. O realizador se coloca na posição de pôr a luz na alteridade e nos mostra como é, de modo desconcertante, é estar nesse lugar. Mas nunca em tom trágico. São pardais a cantar dentro de uma gaiola. Precisam encantar para sobreviver; e sobreviver para sonhar com um mundo além das grades. Um sonho de liberdade e autonomia.
*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (na fatídica sessão no Cinesystem Belas Artes Botafogo em que, por desleixo da produção do evento, decidiu exibir o filme, falando em língua inglesa, sem legendas para um público brasileiro. O que aconteceu com o pensar no coletivo? Entendi o filme bem, mas mesmo assim não é um bom precedente ao festival... Mais um trauma para a lista!)
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| Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. |
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| Club Kid (2026) | Califórnia Filmes |
"You fell in love with America
When you were twelve years old
And by seventeen you knew you had to see it all
You loved your dad and the love he had for your mother so
You had to get out and go chasin' it's sweet call[...]
And you said, "Hey, do you wanna see the West with me?
'Cause love's out there and I can't leave it be"
And I said, "Honey, love's never meant much to me
But I'll come with you if you're sure it's what you need"
(Ethel Cain - Throughfare)
Sempre existe um antes e um pós. A vida é composta por momentos de viradas que nem sempre acontecerão de forma planeja. Viver é complicado e cada passo é um novo aprendizado, amadurecemos na medida em que envelhecemos. Em Club Kid (2026), filme de estreia do diretor e comediante Jordan Firstman (da fama de Rotting in the Sun e I Love L.A.), filme de encerramento da 28a edição do Festival do Rio, é uma dessas histórias.
Peter (Firstman) é um promoter de baladas em Nova York que vive uma rotina agitada em boates e inferninhos do cenários clubber da cidade. No auge de seus trinta e poucos anos, nosso protagonista é a alma da festa, mas, no mundo real, é completamente desorganizado: sua rotina é caótica, e abusa do uso de substancias, custando-o a perda de uma sociedade com uma colega influente (Cara Delevigne) da cena nova iorquina. Mas, seu choque de realidade vem quando Arlo (Reggie Absolom), seu filho que não sabia que existia, é deixado na porta de sua casa, após a morte da mãe (com quem, sem querer, Peter fez um ménage em uma darkroom anos atrás). A partir daí, o caldo entorna e Peter precisa, aos poucos, começar a amadurecer e se conectar com o jovem.
Esse é o tipo de projeto que poderia dar muito errado, pelos motivos mais vãos e egocêntricos (já que estamos falando de um estudo de personagem interpretado pelo próprio diretor); porém, Jordan Firstman tem os sensos controlados aqui e não apresenta algum vício de linguagem ou algum sentimentalismo barato que seja prejudicial para a obra. A direção do filme é bem pensada tanto no sentido prático quanto no tom em que precisar dar a narrativa; e o roteiro, também assinado por Firstman, conjuga momentos e interações hilárias (em que vemos Peter lidando a sua nova realidade e pílulas da cena noturna) com momentos mais sóbrios e melancólicos (a conexão entre pai e filho e a possibilidade da perda).
Duas coisas essenciais para que o filme funciona são: a relação entre Peter e Arlo (vulgo "a criança mais legal do mundo!") que é muito bem desenvolvida, o cerne da trama, e o desenrolar desse relacionamento me pareceu genuíno e lindo; e a construção de uma comunidade LGBTQIAPN+ (e, portanto, do senso de uma) de forma orgânica, a partir de vivências e lugares em comum, sem apelar a estratégias apelativas, como situações de dor e sofrimento, e a abordagens panfletárias, que, às vezes, acometem filmes LGBTs e/ou de temática queer no cinema. Sem isso, o filme, de jeito nenhum, funcionaria. Pequenos atos de candura, de diálogo e de, até, sacrifícios que movem a narrativa e seus personagens. Entrar num mundo e não querer sair. Mas qual será escolha de Peter: a cena clubber ou o bem-estar do filho?
Em alguma hora, a balança vai começar a pesar e os dados deverão ser lançados. Apesar o filme entrar em certa contradição nos últimos 25 minutos, uma vez que as ações de Peter serão questionados pelas autoridades, existe um diálogo com outros filmes que exploram relação entre pais e filhos, como Ladrões de Bicicletas (1946) de Vittorio de Sica e Aftersun (2022) de Charlotte Wells, por exemplo, em que é preciso um ponto de quebra, de falha e/ou de impotência. Se o filme desenvolve a população queer como uma naturalidade oposta a uma sociedade normativa, é porque nossa sociedade é assim. Não existem grandes perseguições ou uma série seguidas de crimes acometidas para com os personagens (ainda bem, ninguém aguenta mais esse trope!), mas não exclui que o protagonista precisa passar por alguma aprovação pela catarse.
Porém, a catarse sempre esteve no filme, na forma em que a relação entre Peter e Arlo se desenvolve aos olhos do público. Um estudo de personagem que nos permite ter empatia e se colocar no lugar do protagonista; por mais que as situações fogem um pouco do controle. Club Kid se preocupa mais com seus personagens do que passar alguma crítica social e talvez, seja feliz, assim, no simples. Um filme redondo, competente de um talento que precisamos acompanhar seu desenvolvimento nos próximos anos.
*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (cuja cabine de imprensa no Estação Claro Rio teve um problema técnico e a obra foi exibida sem o acompanhamento de legendas.)
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| Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. |
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| Josephine - Fragmentos de um Crime (2026) | Retrato Filmes |
O mundo de Josephine (Mason Reeves), de apenas oitos anos, parece aparentemente normal: seus pais, sua rotina na escola, seus sonhos, sua aptidão para o futebol. Porém, uma manhã em específico, ela e seu pai (Channing Tatum), vão muito cedo para um parque na região de São Francisco para praticar esportes ao ar livre; algo saudável, útil e parte do cotidiano deles.
A criança corre na frente do pai e, entre as árvores, perto do banheiro público, ela vê uma corredora entrar lá. Logo em seguida, um homem aparece ali, entra no local, persegue a mulher, a ataca, imobilizando e batendo sua cabeça contra o chão. Desacordada, o sujeito tira a roupa de ambos e começa a viola-la, repetidas vezes. Ela acaba se recobrando, mas ele a enforca durante a penetração, abafando os gritos da vítima. E vemos todo o crime se desenrolar através dos olhos de Josephine, que atordoada, é a única testemunha ocular da ação.
É dessa maneira em que começa o longa Josephine - Fragmentos de um Crime (2026), dirigido pela diretora brasileira Beth de Araújo, de uma maneira inesperada e brutal. A cena em si é explicita, bem-feita, dolorida e deixou algumas pessoas na sessão da cabine de imprensa um pouco desconfortável (algo, que devo dizer, é raro no cinema contemporâneo atual, em que as ações são higienizadas para o público). Talvez essa o objetivo do filme, começar uma discussão e fragilizar o público; por mais que a diretora acaba repetindo a fragilização, de modo quase gratuito.
Os pais de Josephine (Tatum e Gemma Chan) não sabem o que fazer com a filha, que traumatizada com o ocorrido, se vê perseguida pela sua vulnerabilidade e o medo de estar, em um futuro próximo, na mesma posição do que a vítima. Ela se torna mais fechada, violenta e incompreendida. Seu mundo é incerto. Com o fantasma do abuso a perseguindo, o agressor aparecendo como uma espécie de 'amigo imaginário', e a falta de um apoio psicológico apropriado, Josephine entre num mundo de ódio e indignação, na qual ela não tem maturidade para compreender a raiva que sente; quase se tornando uma proto-femcel no processo, ressentindo ao mundo masculino, revoltando-se com a intimidade dos pais, agredindo colegas importunos e até quase provocando um aborto.
O trabalho de Araújo, quando se concentra em sua protagonista, maravilhosamente interpretada por Reeves, consegue se desenvolver; porém, quando o foco se volta aos pais de Josephine, fica tímido, um pouco banal. Sua câmera se move, tem perspectiva, é ágil em diferentes sequências em que vemos um campo de visão amplo, porém, em outros momentos, o movimento torna-se repetitivo, como um truque. Além de algumas sequências de montagens, bem no estilo videoclipe, que me tiram completamente da narrativa em alguns momentos. Se um filme consegue ser conciso, quando uma mãe diz a uma filha que não consegue curar sua dor, sua raiva, mas que ela precisa doma-la; como, ao mesmo tempo, beira ao um certo fetichismo de sofrimento coletivo para expressar a mesma mensagem? O feminino precisa expressar sua raiva diante de uma tentativa de violência e de feminicídio, um tópico bastante pertinente, mas quando o filme somente quer dar ênfase na raiva, acaba diluindo muito o que tanto almeja: mensagem, catarse e crítica.
O longa-metragem tem seus excessos, alguns bons e outros não, mas quando é direto no ponto e no que deseja dizer, acaba se tornando algo poderoso, especialmente as espectadoras que vivem com o mesmo medo que a protagonista. A mensagem é importante, mas narrativa e forma, também ser levado ao mesmo grau de importância. Felizmente, a obra não acaba se perdendo numa abordagem panfletária e nem num fetiche completo de dor. Talvez, de estilo e narrativa, poderia ter mais sutilezas, mas ainda assim tem ambição de contar não só uma história, um estado de espírito.
*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026.
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| Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. |
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