terça-feira, 11 de agosto de 2026

Honestino (2026) - Juntos na luta pela educação e democracia

Honestino | Pandora Filmes

Honestino (2026), dirigido por Aurélio Michiles, resgata a trajetória de Honestino Guimarães, ex-presidente da UNE e um dos principais líderes do movimento estudantil brasileiro durante a ditadura militar, estudante da UnB e importante voz da geração de 1968, preso cinco vezes e sequestrado em 1973 aos 26 anos. Ao apresentar sua trajetória política e pessoal, o filme busca humanizar uma figura frequentemente lembrada apenas pelos acontecimentos que marcaram seu desaparecimento, evidenciando seus ideais, conflitos e relações ao longo desse período turbulento da história do Brasil.

A direção de Aurélio Michiles demonstra sensibilidade ao equilibrar momentos de forte carga dramática com uma narrativa de ritmo constante, evitando transformar a obra em uma sucessão de acontecimentos históricos. O diretor aposta em uma linguagem intimista, permitindo que os personagens conduzam a narrativa por meio de seus depoimentos enquanto os cortes gravados por atores ilustram os momentos citados. A montagem, principalmente, favorece o desenvolvimento da narrativa ao organizar os acontecimentos de forma clara, permitindo que o espectador acompanhe a evolução política de Honestino sem comprometer o entendimento da cronologia, já a trilha sonora é utilizada de maneira mais  pontual, reforçando a tensão dos momentos mais dramáticos sem competir com as emoções transmitidas pelos personagens.

Bruno Gagliasso assume a responsabilidade de interpretar Honestino Guimarães de maneira contida e respeitosa, sua atuação transmite convicção nos momentos de maior tensão política, ao mesmo tempo em que evidencia a humanidade de Honestino por meio de pequenos gestos e expressões, tornando mais palpáveis seus medos, convicções e sacrifícios. A escolha de intercalar essas cenas dramatizadas com registros de arquivo, cartas, poemas e depoimentos de figuras que conviveram ou estudaram o período reforça a autenticidade da narrativa. Em vez de competir com o material documental, a interpretação de Gagliasso funciona como um elo entre a ficção e a memória histórica, contribuindo para aproximar o espectador de uma figura conhecida nos livros de História.

Entretanto, o ritmo mais contemplativo pode causar a sensação de lentidão para parte do público e possivelmente anticlimático, especialmente nos trechos em que o longa dedica mais tempo às discussões políticas do que aos conflitos do protagonista. Ainda assim, essas escolhas não comprometem a proposta da obra, que permanece coerente com sua intenção de preservar a memória de Honestino Guimarães e do período retratado. 

Honestino (2026) se destaca pela qualidade de sua reconstrução histórica e pelo cuidado técnico empregado em todos os aspectos da produção. Mesmo apresentando um ritmo mais contido, o longa cumpre seu papel ao provocar reflexão sobre um período marcante da história brasileira e reafirmar a importância da preservação da memória e da democracia. 

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.


Evil Dead Burn (2026) - O inimigo está mais próximo do que você imagina

Evil Dead Burn | Warner Bros. Pictures

O longa marca um novo capítulo para uma das franquias mais icônicas do terror ao preservar os elementos clássicos da saga enquanto busca estabelecer uma identidade própria. A narrativa acompanha uma família de luto que, ao se depararem com uma força sobrenatural em busca de um objeto em sua casa, acabam desencadeando uma nova onda de possessões e violência extrema. Diferentemente de outros filmes da franquia, o roteiro dedica mais tempo à construção dos acontecimentos que antecedem a chegada do mal, oferecendo uma justificativa mais consistente para o despertar da entidade demoníaca. Essa abordagem torna a ameaça mais orgânica dentro da narrativa e faz com que os eventos não pareçam apenas uma repetição da tradicional fórmula do Necronomicon, também conhecido como o Livro dos Mortos.

Embora preservem a crueldade e o sadismo característicos da franquia, seus comportamentos apresentam diferenças em relação aos filmes anteriores, explorando novas formas de manipulação psicológica e violência. Essa mudança impede que o filme se torne previsível e cria uma sensação constante de incerteza, já que o espectador nunca sabe exatamente quais serão os limites das criaturas. Em vez de apenas reproduzir cenas conhecidas pelos fãs da saga, Evil Dead Burn procura reinventar parte de sua mitologia sem abandonar sua essência.

Os personagens também contribuem para que a tensão permaneça elevada durante toda a projeção. Cada integrante da família possui características próprias e personalidades bem definidas, fazendo com que suas decisões pareçam naturais, mesmo quando questionáveis. Essa construção torna as consequências de cada decisão mais impactantes e fortalece o envolvimento emocional com a história, algo essencial para um filme que depende tanto da tensão constante.

A maneira de utilização da câmera deste filme é de longe um dos pontos mais altos da produção! Há uma evidente preocupação em utilizar a câmera como parte da narrativa, fazendo com que cada perseguição e cada aparição demoníaca ganhem ainda mais intensidade. Essa escolha potencializa os sustos e reforça a identidade visual do longa, tornando a experiência mais imersiva.

Evil Dead Burn (2026) consegue respeitar o legado da franquia enquanto introduz ideias suficientes para justificar sua existência entre os demais filmes da série. Ao apostar em uma explicação mais elaborada para a origem dos acontecimentos, apresentar demônios com comportamentos inéditos, desenvolver personagens capazes de manter o espectador constantemente apreensivo e investir em uma direção de câmera extremamente eficiente, o longa entrega uma experiência intensa para fãs de terror. Mesmo sem reinventar completamente a fórmula de Evil Dead, o filme demonstra que ainda há espaço para explorar novos caminhos dentro desse universo sem perder a brutalidade e a identidade que transformaram a franquia em um dos maiores nomes do gênero.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.


Na Boca do Diabo - Na torcida pelo tubarão

Na Boca do Diabo | Amazon Prime Video


Na Boca do Diabo (2026), produção do Prime Video, parte de uma premissa simples e bastante conhecida dentro do cinema de sobrevivência: um grupo de personagens precisa enfrentar a ameaça de um tubarão enquanto tenta encontrar uma maneira de escapar com vida. O problema é que, apesar de possuir uma proposta que poderia render uma experiência de tensão constante, o longa acaba encontrando dificuldades justamente na construção daqueles que deveriam sustentar a narrativa. Os personagens são excessivamente caricatos, com personalidades exageradas e decisões que muitas vezes parecem existir apenas para movimentar a história. As discussões entre eles também seguem esse caminho, apresentando conflitos pouco convincentes e diálogos que acabam retirando parte da seriedade dos momentos em que o público deveria estar apreensivo.

Essa caracterização exagerada faz com que o espectador tenha dificuldade para criar qualquer vínculo com os personagens, exceto Sara, interpretada por Kathryn Newton que consegue conquistar o público com seu carisma. Porém, em determinados momentos, as escolhas tomadas são tão questionáveis que o perigo deixa de estar relacionado apenas ao tubarão e passa a ser consequência direta das próprias atitudes do grupo. O resultado é curioso: em vez de torcer pela sobrevivência dos personagens, chega um ponto em que o espectador começa a torcer pelo próprio tubarão.

O maior déficit está na maneira como o filme trabalha sua tensão, a produção depende diretamente da sensação de perigo e da expectativa sobre quando e como o ataque irá acontecer, mas Na Boca do Diabo nem sempre consegue sustentar esse sentimento. Depois de estabelecer sua premissa, o longa começa a se tornar maçante, repetindo situações e conflitos que não conseguem aumentar significativamente a sensação de ameaça. A espera pelos próximos acontecimentos deixa de ser angustiante e passa a ser previsível, fazendo com que alguns momentos que deveriam provocar tensão acabem tendo pouco impacto. Ainda assim, a presença do tubarão consegue proporcionar alguns momentos interessantes dentro da proposta do filme, a criatura funciona melhor quando a direção permite que sua presença seja construída através da expectativa, utilizando o ambiente e a limitação de espaço para transmitir a sensação de vulnerabilidade dos personagens. O problema é que esses momentos não são suficientes para compensar um roteiro que frequentemente depende de decisões pouco inteligentes e conflitos artificiais para prolongar a narrativa.

Na Boca do Diabo possui uma premissa capaz de entregar um bom filme de sobrevivência, mas acaba prejudicado pela caracterização caricata de seus personagens, por conflitos pouco convincentes e principalmente por uma dificuldade em manter a tensão durante toda a produção. Apesar de apresentar alguns momentos divertidos e sequências capazes de funcionar dentro da proposta, o longa se torna cansativo ao repetir sua fórmula e não consegue transformar seu potencial em uma experiência realmente angustiante.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.


Avatar: A Lenda de Aang – Livro Um: Água (2005): Quando a fantasia revela as marcas da guerra

Avatar: A Lenda de Aang | Paramount+


Livro Um: Água (水) é a primeira temporada de Avatar: A lenda de Aang. Após ser encontrado em um iceberg por Katara e Sokka, Aang descobre que precisa assumir seu destino como Avatar e aprender a Dobra de Água. Enquanto viajam rumo ao Polo Norte em busca de um mestre, os três enfrentam os desafios da guerra contra a Nação do Fogo.

O mundo de Avatar: A Lenda de Aang é dividido em quatro nações, cada uma associada a um elemento: Água, Terra, Fogo e Ar. Inicialmente, essas nações viviam em equilíbrio, mas tudo mudou quando a nação do fogo iniciou uma guerra logo após o desaparecimento do Avatar. Ao longo da série, a Nação do Fogo é frequentemente interpretada como uma referência ao expansionismo imperialista. Sua busca por dominar os demais povos, aliada à industrialização acelerada, ao militarismo e à violência contra outras nações, funciona como uma crítica aos efeitos do imperialismo, da guerra e da conquista sobre as sociedades e culturas.

O Avatar é a única pessoa capaz de dominar os quatro elementos — Água, Terra, Fogo e Ar — e pode ser entendido como o “escolhido” para preservar a harmonia entre as nações e entre os mundos físico e espiritual. A cada morte, o Espírito Avatar reencarna em uma nova pessoa, seguindo um ciclo entre as quatro nações. Além de dominar todos os elementos, o Avatar pode se conectar ao Mundo Espiritual, acessar a sabedoria de suas vidas passadas e utilizar o Estado Avatar, que amplia significativamente seus poderes. Embora não possua autoridade política formal, sua posição como mediador e símbolo de paz lhe confere grande influência. Sua existência representa a ideia de que o poder deve ser utilizado em favor da estabilidade e da proteção dos povos, questionando o uso da força e da autoridade para dominação e conquista.

A trama da animação, mesmo sendo voltada para o público infantil, consegue abordar temas bastante maduros ao longo da história. Durante a jornada, Aang, Katara e Sokka passam por cidades destruídas pela guerra, encontram famílias separadas, refugiados, escassez de recursos e pessoas que vivem com medo constante dos ataques da Nação do Fogo. Essa escolha torna o conflito mais humano e evita romantizar a guerra, evidenciando seus impactos sobre a população civil. A história também trabalha temas como o luto e a perda. Katara e Sokka cresceram sem a mãe, enquanto Aang desperta depois de cem anos preso em um iceberg e descobre que todo o seu povo foi exterminado. Essas perdas influenciam a forma como cada personagem enxerga o mundo e ajudam a construir suas personalidades ao longo da narrativa. Ao mesmo tempo, a amizade entre os personagens demonstra que novos laços podem surgir mesmo após grandes perdas, fazendo com que Aang encontre em Katara e Sokka uma nova família.

As dominações conectam os movimentos corporais ao controle dos elementos, utilizando posturas firmes, movimentos precisos e técnicas inspiradas em artes marciais. Essa escolha é um dos grandes méritos da animação, pois torna as batalhas mais dinâmicas, expressivas e cria uma identidade própria para cada tipo de dobra. Como nesta temporada Aang inicia seu aprendizado da dobra de água, vale destacar esse elemento, que à primeira vista pode parecer menos poderoso em comparação aos outros. Porém, a série mostra que sua verdadeira força está na versatilidade e na alternância entre ataque e defesa. A dobra de água permite ao usuário controlar o ritmo da luta, redirecionar ataques e transformar movimentos defensivos em contra-ataques. Técnicas como o Chicote de Água demonstram a criatividade desse elemento, mostrando que seu poder não depende apenas da força, mas também da habilidade, estratégia e adaptação do dobrador.

A animação é um dos aspectos que mais contribuem para a identidade da série. Embora seja uma produção estadunidense, seu estilo visual apresenta forte influência das animações japonesas. Isso pode ser percebido no design dos personagens, nas cenas de ação e no uso de recursos visuais para momentos de humor e emoção, como é o caso das expressões dos personagens que mostram o uso de caricaturas faciais exageradas, uma influência dos animes e desenhos de comédia. Os rostos são deformados para destacar emoções como surpresa, medo, raiva e constrangimento, tornando as cenas mais engraçadas e expressivas. Esse recurso quebra temporariamente o estilo visual padrão da série e ajuda a equilibrar momentos dramáticos com humor. Essa combinação entre elementos orientais e ocidentais resulta em uma identidade artística própria, que diferencia a série de outras animações do período.

Avatar: A Lenda de Aang (Livro Um: Água) se destaca por unir aventura, fantasia e temas mais profundos, abordando questões como guerra, perda, responsabilidade e equilíbrio. A série desenvolve um universo rico, com diferentes culturas e formas de dominação dos elementos. A animação e as coreografias de luta reforçam a identidade da série, combinando influências orientais e ocidentais de maneira criativa. Dessa forma, Livro Um: Água vai além de uma simples história de fantasia, utilizando seus personagens e conflitos para transmitir reflexões sobre humanidade, amizade e a busca pela paz.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Carne, Fluídos e Frango Frito no Acampamento Miasma (2026)


Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026) | MUBI, Retrato Filmes

"porque uma mulher boa/ é uma mulher limpa/e se ela é uma mulher limpa/ ela é uma mulher boa/ há milhões, milhões de anos/ pôs-se sobre duas patas/ a mulher era braba e suja/ braba e suja e ladrava/ porque uma mulher braba/ não é  uma mulher boa/ e uma mulher boa/ é uma mulher limpa" 

(Freitas, Angélica. uma mulher limpa, 2017, p.11) 

Em Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026), terceiro longa-metragem de Jane Schoenbrun, a diretora usa dos elementos do universo slasher como metáfora para o despertar da sexualidade queer e/ou tardia. No universo inspirado em filmes como Sexta-Feira 13 (1980 - 2009) e Sleepway Camp (1983 - 2008), Camp Miasma foi uma franquia bastante lucrativa durante os anos 80 que foi a precursora de filmes slasher cuja premissa tinha a figura de "Little Death" (Jack Heaven) que persegue monitores adolescentes, safados e cheios de hormônios, no acampamento que dá nome aos filmes.  Aqui, Shoenbrun (re)cria a atmosfera desse gênero do horror e conjuga, como parte integral à trama, a questão queer e com a presença da monstruosidade em cenário cis e heterossexual: Little Death não corresponde às normas de gênero, ficando à parte da sociedade, e, portanto, uma vítima desta. 

Sexo, sexualidade e identidade de gênero parecem estar intrinsecamente interligadas na concepção do universo de Shoenbrun: miasma, que parece com asma, mas não é um sinônimo, tem como origem a palavra grega μιάσμα, uma mancha, sujeira; que, expandido seu sentido ao contexto da obra, torna-se um equivalente a algo vergonhoso, ruim e contra a ordem moral do mundo. Como diria a poeta Angélica Freitas em seu livro "o útero é do tamanho do punho", a sujeira da aparência, neste caso do gozo, do sexo, é um traço de feiura, de descarte, de subalterna. 

Esse é o lugar em que Kris (Hannah Einbinder) se encontra: ela, uma diretora premiada em festivais e fã da franquia, é recrutada para reestruturar uma nova série de filmes para os estúdios detentores dos direitos. Para isso, ela viaja até a fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá para se encontrar com Billy Preston (Gillian Anderson), protagonista da franquia, no set do primeiro filme da franquia. Porém, Kris se encontra em um entre-lugar dentro da sua psique: existe uma fascinação, puramente sexual e artística, com Billy; porém ainda ela não consegue dar o próximo passo, algo que a puxa para dentro de suas próprias inseguranças, que a fazem a parecer infantilizada ao algo de Preston... Um monstro que precisa ser despertado e manifestado. Algo que somente "Little Death" pode dar um empurrãozinho ou coisa pior...

Schoenbrun elenca os temas principais do gênero ("flesh and fluids") e os desenvolve ao longo de sua narrativa que combina o onírico e o metafórico que, por vezes didático ou "too much on the nose" do público mais esperto, impulsiona a condução narrativa do filme. O trabalho da diretora é sedutor em vários momentos, usando da química mortal entre Einbinder e Anderson, e divertido em outros (por mais que o uso de CGI não me convenceu muito bem em algumas sequências). A obra acaba usufruindo demais de seu universo e de piadas internas do gênero, mas a intenção de emular um gênero é diferente do que criar um diferente naquele gênero cinematográfico em especifico e isso é uma noção que ela sabe bem. É um "slasher" dentro de um slasher. Talvez quando o filme acaba se tornado autoconsciente ao público de sua própria natureza, não me incomoda, mas seu charme queer diminui um pouco, no entanto, quando ele abraça sua forma e trama como um experimento e não só uma simples-narrativa-meta-sobre-um-gênero-cinematográfico, o resultado é muito interessante.

Gosto do trabalho da realizadora, que também fez I Saw The TV Glow (2024), e como ela trabalha com a noção de identidade e da perda de subjetividade, de aproximar o olhar periférico, quase passivo, e se colocar na pele, neste caso nos olhos, do subjugado pela sociedade. É evidente que há um tema a ser desenvolvido por Schoenbrun ao longo de sua carreira como uma "autora" de gênero e de que estamos vivendo um filme de terror particular no nosso dia-a-dia. Gozar é morrer, e vice-versa. A realidade é uma ficção que nós mesmos inventamos  Depois disso, a vida continua, mas "Little Death" sempre estará no fundo do lago, pronto para ressurgir uma nova vez.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Akira (1988) - Como o Filme Reinterpretou o Mangá de Katsuhiro Otomo

Akira | Sato Company


Um projeto militar secreto coloca Neo-Tóquio em perigo ao transformar um adolescente membro de uma gangue de motoqueiros em uma ameaça psíquica incontrolável que só pode ser detido por seu melhor amigo.


Na primeira vez em que assisti ao longa, houve alguns detalhes da trama que passaram despercebidos, mas isso não comprometeu minha experiência, principalmente porque eu ainda não havia lido o mangá que serviu de base para a adaptação. Depois de ler a obra original e revisitar o filme, percebi que existem diferenças significativas entre as duas versões. Ainda assim, o longa continua sendo excelente, mesmo deixando de explorar alguns elementos presentes no mangá. Vale lembrar que, quando o filme foi lançado, o mangá ainda não havia sido concluído, e seria praticamente impossível adaptar uma história que ainda estava em publicação para um único longa-metragem. 

Tudo gira em torno de Neo-Tóquio como um ambiente fechado: uma cidade reconstruída após um colapso anterior, após uma guerra mundial desencadeada pela destruição repentina de Tóquio, marcada pela tensão constante entre gangues, governo militar e manifestações sociais. Isso cria uma sensação de “pressão urbana”, como se tudo estivesse prestes a explodir dentro de um único espaço. O mangá começa igual, mas vai expandindo camadas de impacto. Primeiro, a cidade continua sendo o centro, mas aos poucos o colapso deixa de ser apenas urbano e passa a ter consequências políticas, científicas e militares em escala internacional. Outros países começam a interferir diretamente, e o fenômeno deixa de ser local para se tornar algo que ameaça estruturas globais de poder.

No filme, Akira, que dá nome ao título está morto antes da história começar. Seu corpo foi dividido para pesquisas e mantido em cápsulas criogênicas sob o Estádio Olímpico de Neo-Tóquio. Enquanto parte da população passa a venerá-lo como uma entidade capaz de trazer salvação, o governo o enxerga como a origem de uma força destrutiva impossível de controlar. No mangá, Akira está vivo e possui uma presença mais significativa na história, embora permaneça uma figura silenciosa e com pouca expressão emocional. Sua importância não está em sua personalidade ou em suas ações diretas, mas no poder destrutivo que representa. O medo que ele desperta nos outros personagens revela a incapacidade humana de compreender ou controlar forças que ultrapassam seus próprios limites.

Shotaro Kaneda é o protagonista e funciona como o principal contraponto de Tetsuo. Líder de uma gangue de motoqueiros em Neo-Tóquio, ele é apresentado como alguém confiante, impulsivo e acostumado a exercer autoridade sobre os outros. Embora demonstre coragem e lealdade, Kaneda possui uma postura arrogante e tende a resolver conflitos pela ação direta. Sua relação com Tetsuo é um dos elementos centrais da narrativa: Enquanto Kaneda enxerga o amigo como alguém próximo, como alguém que precisa ser protegido, Tetsuo interpreta essa relação como uma posição de inferioridade e dependência. O despertar de seus poderes intensifica sentimentos que já existiam, transformando sua frustração em ressentimento contra Kaneda. Assim, o conflito entre os dois não representa apenas uma disputa entre amigo e inimigo, mas também o choque entre aquele que sempre teve reconhecimento social e aquele que busca desesperadamente provar seu próprio valor.

Há um pequeno detalhe que fez falta no filme: os remédios de Tetsuo têm pouca importância, diferente do mangá, onde a substância é essencial para a evolução do personagem. Após descobrir seus poderes, Tetsuo passa a consumir comprimidos para lidar com os efeitos das habilidades e, com o tempo, desenvolve uma dependência cada vez maior. No material original, os remédios controlam as dores de cabeça, reduzem a sobrecarga causada pelos poderes e amenizam sua instabilidade. Já a busca por ampliar seu potencial surge principalmente da própria obsessão de Tetsuo.

A animação de Akira se destaca pela sua complexidade visual e pelo alto nível de detalhes presentes em cada cena. Os efeitos de luz da cidade e o brilho das motos criam uma atmosfera intensa e futurista. A utilização de movimentos precisos, ângulos diferenciados e uma grande quantidade de animação por quadro para a época contribui para transmitir a sensação de movimentos constantes e desordem. A estética não serve apenas como elemento visual, mas também ajuda a construir a identidade de uma cidade grandiosa e caótica.

Akira é uma obra que explora o poder, a identidade e os limites da humanidade. Mesmo com diferenças em relação ao mangá, o filme mantém a essência da história ao apresentar o conflito entre Kaneda e Tetsuo, o caos de Neo-Tóquio e os riscos do poder sem controle. Sua força visual e seus temas continuam tornando a obra marcante e influente.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Homem-Aranha: Um Novo Dia - O peso de ser herói nunca foi tão grande para Peter Parker

Homem Aranha: Um Novo Dia | Sony Pictures 


Peter vive completamente sozinho, tendo apagado sua existência da memória de quem ama. Enquanto protege uma Nova York que já não conhece seu nome, dedica-se integralmente a ser o Homem-Aranha. Mas a pressão constante desencadeia uma misteriosa evolução física que ameaça sua própria existência, ao mesmo tempo em que uma onda de crimes revela uma das ameaças mais poderosas que ele já enfrentou.

O início do filme apresenta Peter Parker como Homem-Aranha combatendo o crime, mostrando que ele já vive essa nova realidade há bastante tempo e que já conhece até mesmo o Justiceiro. É como se o espectador abrisse um quadrinho no meio de uma história já em andamento, sem acompanhar a origem do herói. Essa escolha dá uma sensação de que essa nova fase do protagonista já existia antes do início do filme, em vez de ser apresentada junto ao público.

A trama mostra como Peter se sente sozinho após todos terem se esquecido dele. Sua vida passa a se resumir ao combate ao crime em Nova York. Ele perdeu seu melhor amigo, Ned Leeds, e sua namorada MJ, e não tem coragem de tentar reconstruir a relação que tinha com eles, pois teme colocá-los em perigo novamente. Embora suas intenções sejam altruístas, essa decisão representa um sacrifício de sua própria felicidade, o que lhe impõe um alto custo emocional.

A relação entre o Homem-Aranha e o Justiceiro rende momentos cômicos pelo contraste entre suas personalidades. Enquanto o Homem-Aranha evita matar seus inimigos, o Justiceiro recorre à violência letal sem hesitação. O filme explora esse contraste em cenas como aquela em que Peter joga teia na boca do Justiceiro para impedir que ele use um palavrão. A piada funciona porque brinca com a diferença entre o tom mais adulto das histórias do Justiceiro e a abordagem mais acessível das produções do Homem-Aranha, reforçando a química entre os personagens e tornando o humor mais natural, sem comprometer a identidade de nenhum dos dois.

Apesar de eu gostar muito dos filmes anteriores do Tom Holland como Homem-Aranha — que, inclusive, é o meu intérprete favorito do personagem no cinema —, sempre senti falta de mais cenas mostrando o herói balançando pelas teias entre os prédios de Nova York. Felizmente, este filme atende a essa expectativa e entrega sequências que valorizam esse aspecto clássico do personagem. Os voos de teia são bem coreografados, passam uma verdadeira sensação de liberdade e tornam a ação mais envolvente, além de reforçarem a identidade do herói.

Mesmo tendo gostado muito do filme e ficado feliz em ver Peter em uma trama mais urbana, senti que a duração acabou prejudicando a minha experiência. Em determinado momento, a história passa a impressão de que já alcançou um desfecho satisfatório, mas novos conflitos surgem e prolongam a narrativa além do necessário. Embora esses acontecimentos tenham importância para a trajetória do protagonista, o ritmo perde força em alguns trechos, fazendo com que o filme pareça mais longo do que realmente é.

Homem-Aranha: Um Novo Dia me deixou com um sorriso no rosto ao final da sessão. O filme entrega boas cenas de ação, resgata a essência do herói e explora bem a solidão e os desafios de Peter Parker. Apesar de alguns problemas de ritmo, continua sendo uma experiência divertida e uma adaptação que resgata elementos essenciais do personagem, entregando a sensação de estar acompanhando uma verdadeira aventura do Homem-Aranha.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Honestino (2026) - Juntos na luta pela educação e democracia

Honestino | Pandora Filmes Honestino (2026), dirigido por Aurélio Michiles, resgata a trajetória de Honestino Guimarães, ex-presidente da U...