domingo, 4 de outubro de 2026

Coração Selvagem - A lealdade se torna uma forma de sobrevivência.

Coração Selvagem | Paramount Pictures


Um ex-soldado ferido e seu cão de guerra aposentado lutam para sobreviver na região do Alasca e encontrar o caminho de volta para casa após um acidente.

A trama do filme é simples: um homem e seu cachorro lutam para sobreviver em um ambiente hostil. Ainda assim, o espectador se apega facilmente aos dois personagens. James, o protagonista, sofre de uma doença cardíaca, enquanto Odin demonstra uma lealdade incondicional ao dono. No entanto, Odin não é retratado apenas como um animal indefeso que depende da proteção de James, mas como um verdadeiro combatente e sobrevivente. Essa característica se torna ainda mais evidente quando são reveladas as marcas deixadas por seu passado. Trata-se de um cão de combate, coberto por cicatrizes de guerra e que, assim como James, parece carregar consigo traumas que permanecem mesmo após o fim de sua atuação militar. Seus pesadelos e reações diante de determinadas situações remetem às experiências vividas durante esse período, revelando que algumas lembranças continuam presentes e são capazes de despertar seus gatilhos emocionais.


O filme apresenta os traumas de James de maneira mais sutil. Suas experiências são percebidas principalmente em sua preferência pelo isolamento e na maneira cuidadosa e racional com que enfrenta cada dificuldade. Nesse sentido, James e Odin estabelecem um paralelo interessante: ambos são veteranos marcados pelas experiências da guerra e precisam aprender a sobreviver longe do ambiente para o qual foram treinados. Enquanto James enfrenta suas próprias limitações e lembranças, Odin reage aos acontecimentos carregando as marcas físicas e emocionais de seu passado. A relação entre os dois, portanto, vai além da companhia entre homem e animal, mostrando como ambos encontram um no outro uma forma de enfrentar os traumas e as dificuldades que ainda os acompanham.


A confiança entre James e Odin ao longo da jornada. Em situações de perigo, os dois dependem um do outro para continuar avançando, o que torna a sobrevivência uma experiência compartilhada. A presença de Odin também ajuda a humanizar James, mostrando um personagem que, apesar de sua postura resistente e de sua experiência militar, possui fragilidades e demonstra afeto. Ao mesmo tempo, James oferece a Odin segurança e proteção, criando uma relação baseada na reciprocidade. A jornada pelo Alasca não representa apenas uma luta contra as condições naturais, mas também um processo de enfrentamento dos próprios medos e das marcas deixadas pelo passado.


A paisagem do Alasca tem um papel importante na construção visual do filme. As grandes tomadas que mostram a imensidão do cenário e os movimentos de câmera, ajudam a destacar a beleza e a grandiosidade do ambiente. Em contrapartida, a fotografia evidencia o caráter perigoso e hostil da região. As florestas extensas, as águas geladas e as mudanças imprevisíveis do clima reforçam a sensação de isolamento vivida pelos personagens. Nos momentos de maior tranquilidade, a câmera permite que o espectador observe a paisagem com mais calma, criando uma pausa antes que novos desafios surjam.


Coração Selvagem utiliza uma narrativa simples de sobrevivência para desenvolver temas como trauma, lealdade, companheirismo e superação. A relação entre James e Odin é o principal elemento emocional da obra, pois os dois compartilham não apenas um vínculo de amizade, mas também as marcas físicas e psicológicas deixadas pela guerra. Ao enfrentarem juntos os desafios do ambiente selvagem, ambos encontram no outro uma forma de lidar com suas próprias limitações e seguir em frente.


Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Verity - Por quem a verdade foi manipulada?

Verity | Sony Pictures


A adaptação cinematográfica do best-seller de Colleen Hoover, acompanha Lowen Ashleigh, uma escritora contratada para concluir a série de livros de Verity Crawford, uma autora de sucesso que ficou impossibilitada de continuar seu trabalho após um grave acidente. Ao se mudar temporariamente para a casa da família Crawford, Lowen começa a descobrir evidências cada vez mais perturbadoras sobre o passado da escritora, enquanto sua relação com Jeremy, marido de Verity, se torna mais próxima. O longa constrói sua narrativa a partir desse mistério e da dúvida constante sobre aquilo que realmente aconteceu dentro daquela casa, criando uma atmosfera que mistura suspense, romance e momentos de tensão.

Alguns elementos presentes no livro foram retirados ou simplificados e, apesar de ser compreensível que uma adaptação precise fazer escolhas, determinadas mudanças poderiam ter agregado bastante à narrativa cinematográfica. Alguns trechos poderiam ajudar a construir uma atmosfera de suspense ainda mais intensa e contribuir para aumentar a sensação de desconfiança em relação aos personagens. Com essas alterações, o filme acaba perdendo algumas oportunidades de explorar melhor o desconforto e a paranoia que fazem parte da experiência de acompanhar a história.

Também tive a sensação de que o longa parece ter medo de ser mais longo, ele apresenta acontecimentos que poderiam receber mais tempo de desenvolvimento, mas rapidamente passa de uma situação para outra, como se estivesse constantemente preocupado em chegar ao próximo ponto importante da trama. Essa pressa não chega a comprometer completamente a experiência, mas faz com que determinadas relações e descobertas pareçam menos desenvolvidas do que poderiam. Em uma história cujo principal combustível é justamente o suspense, permitir que algumas situações respirassem um pouco mais, poderia tornar a experiência ainda mais sufocante e aumentar o impacto das revelações. 

O maior desafio da adaptação, porém, está no mistério central da história. Uma das grandes forças do livro é justamente conseguir dividir opiniões sobre aquilo que realmente aconteceu, fazendo com que diferentes interpretações possam surgir e gerar discussões entre os espectadores. No filme, entretanto, a maneira como determinadas informações são apresentadas pode tornar a tomada de decisão um pouco mais tendenciosa. Isso pode ser especialmente perceptível para quem nunca teve contato com o livro, já que algumas escolhas da adaptação acabam conduzindo o público para uma determinada interpretação com mais facilidade.

Por outro lado, a química entre o elenco funciona muito bem e é um dos grandes responsáveis por sustentar a narrativa. As relações entre os personagens possuem uma dinâmica convincente, principalmente quando o filme alterna entre momentos de intimidade e situações de desconfiança. Essa conexão entre os atores ajuda a tornar os personagens mais interessantes e faz com que o público se envolva com aquilo que está acontecendo dentro daquela casa. Mesmo quando o roteiro acelera determinadas passagens, o elenco consegue compensar parte dessas limitações ao transmitir as emoções necessárias para cada momento.

Verity é, no fim, uma boa adaptação, especialmente quando consegue transformar o suspense da obra original em momentos capazes de provocar reações diferentes no espectador. O filme possui passagens divertidas, outras bastante desconfortáveis e algumas que realmente conseguem deixar o público sem ar, principalmente quando a tensão entre os personagens chega ao limite. Embora pudesse ter aproveitado melhor determinados elementos do livro, desenvolvido algumas situações com mais calma e preservado uma ambiguidade maior em seu principal mistério, a produção consegue encontrar sua própria identidade e entregar uma experiência que funciona tanto pelo suspense quanto pela dinâmica de seu elenco. É uma adaptação que talvez pudesse ter ido mais longe, mas que ainda encontra bons momentos para prender a atenção e provocar o seu público.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Digger - O homem mais poderoso do mundo VS mãe natureza

Digger | Warner Bros. Pictures


Digger Rockwell (Tom Cruise) é um poderoso empresário do setor petrolífero que acaba envolvido em uma crise de proporções internacionais após um acidente em uma de suas instalações na Groenlândia provocar o deslocamento de uma gigantesca massa de gelo. À medida que a geleira avança em direção ao continente europeu e ameaça desencadear consequências catastróficas, o empresário se vê no centro de uma disputa que ultrapassa seus interesses pessoais. Governos de diferentes países entram em choque enquanto tentam lidar com uma situação inédita, colocando Digger diante de decisões capazes de afetar não apenas seu próprio futuro, mas o equilíbrio político e econômico de todo o mundo. Dirigido por Alejandro González Iñárritu, o longa parte de uma premissa bastante interessante para construir uma sátira política que transita entre o absurdo, o humor ácido e uma visão propositalmente desconfortável da sociedade contemporânea. Digger é inserido em uma narrativa que utiliza o exagero para apresentar figuras e situações que parecem caricaturas de um sistema político cada vez mais preocupado com espetáculo, poder e interesses próprios. O interessante é que, mesmo assumindo uma abordagem extremamente estereotipada, o filme consegue transformar esse exagero em parte fundamental de seu humor e de sua crítica. Um dos grandes acertos está na maneira como a fotografia e a direção de arte contribuem para contar essa história, a estética do filme não funciona apenas como uma escolha visual, mas como uma extensão da própria narrativa, criando uma atmosfera propositalmente pálida, desgastada e quase sem vida. Os ambientes, as cores e a composição dos enquadramentos ajudam a transmitir a sensação de um mundo esvaziado, no qual os personagens parecem estar presos dentro de uma realidade tão absurda quanto deprimente. Essa identidade visual reforça a sensação de farsa e faz com que o espectador perceba que existe algo artificial por trás de praticamente tudo o que está sendo apresentado. O longa consegue flertar muito bem com a comédia ácida, fazendo com que algumas cenas sejam engraçadas justamente pela maneira como exageram comportamentos que reconhecemos na realidade. O filme não precisa transformar seus personagens em representações completamente realistas para transmitir sua mensagem; pelo contrário, é através do exagero que encontra sua principal ferramenta de crítica. Tom Cruise incorpora Digger com bastante maestria, existe uma entrega evidente na maneira como o ator abraça as características excêntricas do personagem e entende que a interpretação precisa acompanhar o tom absurdo estabelecido por Iñárritu. Outro aspecto que chama atenção é a maneira como o longa parece, em alguns momentos, construído para dialogar diretamente com a temporada de premiações. A grandiosidade da produção, a presença de Alejandro González Iñárritu na direção e, principalmente, o espaço dado a Tom Cruise fazem com que o longa transmita uma certa sensação de “filme para Oscar”. A própria construção de roteiro parece oferecer ao ator uma oportunidade de explorar diferentes nuances e mostrar uma faceta mais dramática e excêntrica de sua atuação, quase como se o projeto também carregasse a intenção de ampliar ainda mais sua coleção de troféus. Mesmo sem ser possível afirmar que essa tenha sido a motivação por trás da produção, essa impressão está presente na experiência, especialmente quando o filme aposta em elementos tradicionalmente associados a produções de prestígio. Digger consegue, portanto, encontrar força justamente na união entre sua narrativa absurda e suas escolhas técnicas. O ótimo trabalho de fotografia e direção de arte estabelece uma identidade visual que contribui diretamente para a história, enquanto a sátira política utiliza o exagero e o humor ácido para construir uma experiência propositalmente caricata. Tom Cruise entrega uma atuação que entende perfeitamente a proposta de Digger, e Iñárritu transforma toda essa estrutura em uma grande farsa sobre a política atual. É um filme que encontra no absurdo, na palidez de sua estética e no exagero de seus personagens uma maneira bastante particular de fazer rir enquanto apresenta um mundo que, por vezes, parece assustadoramente próximo da realidade.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Jim Queen (2026) precisa escolher entre "Parar e Pensar" ou "Top a Twink"

 

Jim Queen (2026) | Pandora Filmes

De uns tempos para cá, as animações voltadas para o público LGBTQIAPN+, principalmente fora do eixo Disney, têm me dando uma certa curiosidade. Os estilos das animações, os traços que lembram os desenhos animados do Cartoon Network e Nickelodeon que cresci assistindo quando criança, os temas que topicalizam parte da nossa vivência dentro da comunidade (afinal, nenhuma experiência é exatamente única), como um espécie de piada interna nossa. 

Há um prazer duplo em obras desse gênero: o prazer estético próprio do gênero da animação (neste caso, a animação 2D) e o prazer de se autoprojetar na obra de ficção: algo que o filósofo Walter Benjamin já alertava no conhecidíssimo ensaio "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica", redigida originalmente em 1931; nele Benjamin reflete sobre a perda da "aura' da obra de arte pelo advento, primeiro, da fotografia, e, logo em seguida, do cinema, que começou como experimentos da representação de cenas da vida mundana, como os filmetes experimentais dos irmãos Lumière, por exemplo. Eram, de certa forma, retratos do cotidiano e, ao mesmo tempo, produtos de sua câmera.  

Durante a cobertura do Festival do Rio de 2025 (o qual cobri de forma extensiva e exclusiva para este blog) deixei passar um filme com uma pegada parecida com a do filme que escrevo agora: A Sapatona Galáctica (2025), animação 2D australiana em que tem como protagonista uma princesa bem sapatilha do planeta governado por lésbicas que precisa viajar pelo espaço para salvar a vida de sua (ex-)namorada de aliens heterossexuais cis masculinos. O filme fez sucesso no festival e ganhou o prêmio da Félix da edição, e foi lançado nos circuitos brasileiros no início do ano. Quando vi o filme nesse entremeio, por meios ilegais, fiquei com a sensação de arrependimento, pois poderia ter trocado algum filme que não gostei da edição anterior para vê-lo; pois é um filme divertidíssimo e possui uma certa leveza que me lembrava dos desenhos animados que via na infância. 

Este ano, o filme que preenche a posição é Jim Queen (2026), animação francesa dirigida por Marco Nguyen e Nicolas Athane que teve sua estreia mundial na seleção de Midnight Movies do Festival de Cannes desse ano (e de acordo com a distribuidora brasileira, tem sido um sucesso de bilheteria na França). A mistura entre comédia e musical satiriza, de forma certeira e engraçada, os comportamentos não só entre gays e héteros, mas também dentro dos diferentes cosmos do mundo gay contemporâneo. Uma espécie de espelho deformado, para dar o poder de nós, como pessoas gays e queers, podermos ter o privilégio de rir de nós mesmos, das nossas atitudes e desgraças; a qual se dá através de uma epidemia que suscita a memória tanto da crise da AIDS/HIV quanto a mais recente da COVID-19.

Na trama, Jim Queen, também conhecido como Jim "Parfait" (perfeito), é um influencer e ícone sexy da cena gay parisiense. Seu nome é um trocadilho com o termo "Gym Queen", ou seja, uma gay padrão que ama malhar e ser musculosa. É arrogante, egocêntrico e vive para dar o close nas baladas e pegar várias gays que se parecem com ele.  Sua vidinha é um recorte muito específico da vivência de muitos homens homossexuais (principal público-alvo do longa) que vivem do básico e que se importam mais com a aparência e ostentar um modo de vida aparentemente perfeito. 

Porém, ao nosso protagonista, sua rotina vira do avesso quando contrai Heterotopzis, um vírus estranho que transforma homens gays... bem, em héteros. A partir de então, todos viram as costas pra ele – exceto seu último seguidor (e primeiro admirador), Lucien, um jovem twink (nada demoníaco, mas, ao contrário), doce, meigo e inseguro ainda em busca de autoaceitação e confrontar sua mãe, uma ministra de saúde bastante conservadora. Juntos, eles partirão em busca da Cloroqueer, um antídoto misterioso capaz de curar Jim e evitar a extinção da sua comunidade, mas que, em consequência, pode colocar a vida de Lucien em jogo. 

Se pensarmos numa conjunção entre Jim Queen e Sapatona Galáctica, podermos pensar em algumas características que para identificarmos o que faz uma animação LGBTQIAPN+ para fazer sucesso ou para possuir algum apelo: 

1- O traço em animação tradicional como um ponto estético, que remete à nostalgia de uma memória afetiva para criar um espaço seguro; 

2-Personagens que precisam passar por uma 'jornada do herói", o que ocorre em ambas as obras; 

3- Referências a influencia a uma formação queer na cultura pop, uma vez que há uma referência a uma cena que remente uma sequência envolvendo a atriz bissexual Kristen Stewart em Sapatona, enquanto isso, em Jim, toda a jornada de Lucien, a twink, é decalque direto da narrativa de Ariel em A Pequena Sereia (1989), no qual o personagem confronta sua mãe autoritária e homofóbica, tal como a icônica sereia se rebela contra o rei Tritão; 

4- O confronto entre a comunidade com a heterossexualidade e, por consequência, pela homofobia, representado por uma ameaça que envolve relações de poder (no caso da animação francesa) e/ou de sexismo (no da australiana). Para além disso, em Jim Queen, há uma questão cultural bastante proeminente, já que a ameaça da trama, o vírus Heterotopzis, não só apaga a sexualidade dos corpos, mas também de sua cultura e sua expressão e inscrição no mundo;

O longa-metragem em si é bastante redondo, quase cíclico e episódico, pensando especificamente para o público gay (e a própria animação é autoconsciente em relação a isso), brincando justamente em sua concepção com questões como tribos, kinks, cruising, mulheres viadas e drag shows entre outros.  E mesmo assim, existe uma fragmentação na forma que comunidade gay se fragiliza diante de um perigo em comum; mas o filme não pesa o clima em relação a isso. As tribos aqui são caracterizadas seguindo a uma linha camp que o projeto almeja: as drags queens com a maquiagem exagerada; as ursas literalmente representadas como animais que dão o nome da própria tribo; os puppies play bem próximas aos trejeitos de um cão; os víciados em chem-sex como semicadáveres; os fetichistas como generais sádicos (que literalmente criam uma "gaystapo" para converter os adoentados para sua forma gay original)... 

As representações são mediadas pelo exagero e pela comicidade que o roteiro exige das situações, o que pode aparentar um pouco superficial, em termos de abordagem, mas, ainda assim, me diverti com as situações que o filme apresenta nesse entendimento entre obra e público-alvo. A autoprojeção das experiências em comum da comunidade faz com que boa parte do público se identifique em seus personagens, a partir de sua ótica fantasiosa. Esse exercício talvez faça com que o público ative sua suspensão de descrença ou até mesmo um visão crítica daquele mundo caricato. Inclusive há um personagem, uma gay invejosa que deseja destronar Jim, que é caricatura de homens padrão como François Sagat (que você pode reconhecer de filmes pornô, ou os filmes de Bruce LaBruce ou até mesmo um cameo aleatório em Jogos Mortais VI) que é justamente dublado em francês por... François Sagat!

Talvez se tivesse um ponto contrário a fazer em relação ao filme é justamente seria, ao mesmo tempo, apontar e reforçar, dentro da lógica da piada interna, a objetificação e o consumo de twinks, como algo a ser possuído, devorado e possuído. Lucien, que é a chave para cura deste universo (tal como a Alice de Milla Jovovich nos filmes de Resident Evil de P.W.S. Anderson), passa por uma espécie de coming of age tardia, tem uma certa inocência que precisa ver devorada física e metaforicamente pelo o mundo que o cerca, caracterizando uma ideia um pouco predatória, por mais que o roteiro não esvazie o personagem de ter uma posição e uma identidade dentro daquele universo. Porém, até que ponto da narrativa Jim pode parar para pensar suas práticas e ser ativo com Lucien para salvar o mundo gay? Bem, essa é piada do filme: "to stop and think or top a twink? that's the question!". Libertar-se das convenções sociais  e pessoais para salvar a todes. Mas no final, podemos ainda nos dar o luxo de poder rir da situação. E, talvez, esse seja o objetivo principal da obra: a autoironia. O poder de não se levar tão a sério, o poder do riso.

Mas Jim Queen, em toda sua glória animada e camp, acaba consolidando a representação de uma comunidade de maneira carnavalizada e autoconsciente, quase estrategicamente desenhada para seu principal público-alvo. É, e digo isto de forma bastante honesta, um filme fofo, que me divertiu muito durante a sessão e preza por nivelar as experiências para agradar todas as tribos.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (cuja sessão foi precedida, obviamente, por uma bateção de leques para fins publicitários).

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

Elefantes na Névoa (2026) e a via crucis da mulher trans

 

Elefantes na Névoa | Imovision


Para falar sobre Elefantes na Névoa (2026), filme do realizador nepalense Abinash Bikram Shah, gostaria de começar pelo final. Parece-me cativante começar desta forma: 

Pirati (Puspa Thing Lama), uma religiosa Kinnar, que após ser perseguida pela comunidade local e humilhada pelas autoridades dos órgãos públicos, vê sua casa pegar fogo e decide ir adentrar a floresta da deusa sagrada, na qual elefantes, também sagrados, vivem e passam ali. A floresta foi cercada pelos líderes locais para manter a população do vilarejo em segurança. É noite, mal se vê uma viva alma e Pirati está desesperada. Qualquer mal poderá lhe suceder. Para sua surpresa, ela se de encontro com desses elefantes sagrados que, ao invés de atacá-la ou esmagá-la, para diante dela, como uma igual. Após o encontro, a religiosa se recompõe e, com a palma das mãos, ela faz um chamado, o qual outras irmãs da ordem se juntam, e os animais, presos em cativeiro, se rebelam, destroem a cerca elétrica que os aprisionavam e avançam contra o vilarejo ao som das palmas das mulheres.

A cena é poderosa, pois promove uma catarse ao público, após de ser alimentado uma séries de episódios transfóbicos, filmados com certo sadismo deprimente, é alimento por um senso de justiça e de reação diante da passividade que o mundo impõe as suas personagens. Mas será que a exposição e a encenação de traumas e de decepções é de fato bem conduzida? Tenho minhas dúvidas. Sai da sessão exausto, por mais que o momento final me revigorou, a obra me cansou em seu discurso denunciativo, que flertava mais com o fetiche da dor de mulheres trans do que expor sua crítica de um modo naturalista, não exploratório. 

Tive uma sensação agridoce quando, no ano passado, assisti O Olhar Misterioso do Flamingo (2025) no Festival do Rio, aqui a sensação é muito pior. A sensação da violência pela violência, que senti um cena em particular do longa chileno, aqui se configura como uma base cíclica da narrativa. Se há uma crítica, e há uma de fato, chega fatigada em sua apoteose. O que nós, o público, acompanhamos é a via crucis de uma mulher trans, cujo páthos precisa ser extraído até o máximo: se no início, há o drama se Pirati deveria deixar a ordem para ir a Nova Delhi com um homem que a ama, do meio pro final, vemos a mesma personagem passar por diversas humilhações em busca de justiça e, consequentemente, ser jogada na lama pela a população que não respeita, mas, superficialmente, até certo ponto, a tolera. 

Existe uma hybris em jogo aqui: se a população não consegue respeitar as divindades e nem suas sarcedotisas, será que a ordem daquela comunidade poderá ainda se manter de pé? Esta uma das características que configuram um mito trágico e sim, podemos pensar no filme numa tragédia, afinal o longa aborda temas como feminicídio, religião e, a já mencionada anteriormente, transfobia. As irmãs Kinnar estão a mercê muito mais do que o estado e da população, mas do pacto cisgênero que as colocam em posição inferior. As únicas que tentam, de alguma forma, acudi-las são algumas mulheres que investigam o caso do desaparecimento de Aspera (Aliz Ghimire), filha adotiva de Pirati, uma jovem rebelde com passado problemático, que some durante uma ronda noturna na floresta e, provavelmente, é assassinada por alguém da aldeia.

Por mais que o longa-metragem peca em justamente dar um ênfase quase em tons de fetiche e tortura psicológica na abordagem do sofrimento de sua protagonista, ele ganha a atenção do público por outros elementos que me parecem muito mais interessante: o dia-a-dia das Kinnar, as práticas religiosas quase meditativas, a sororidade entre sacerdotisas e noviças, a relação maternal que embala a primeira parte da narrativa são doces e convidam o público a se projetar dentro duma visão alterna à tradicional, mesmo que a fotografia seja embalada em tons frios e cinzentos (prenunciando o tom deprimente da segunda metade da obra).

Ancorada por uma performance magistral de Puspa Thing Lama, Elefantes na Névoa é um filme ambivalente, pois pode causar clemência e compaixão quanto exaurir o público. Apesar de adotar uma estética naturalista, existe uma certa falta de cuidado no tom que almeja alcançar. Uma obra que deseja realizar uma denuncia através da ficção, mas que acaba caindo nas próprias armadilhas do "filme denúncia": a mensagem pela mensagem. Então fica a questão: para quem interessa esse filme, ao público trans ou cis? 

Mas, por mais que minha opinião possa ou não importar para você, care leitore, uma coisa precisa se reforçada neste texto: Protejam as bonecas!

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O Sorveteiro - “IA” agora f*deu

O Sorveteiro | Diamond Filmes

Eli Roth é, sem sombra de dúvidas, um nome do subgênero trash, principalmente se levarmos em consideração o recorte do início dos anos 2000 até 2010, quando essas produções pipocaram nos cinemas. À frente de títulos como O Albergue (2005) e, mais recentemente, Feriado Sangrento (2023), o diretor nunca fugiu muito da proposta de tripas, sangue e um assassino, e em O Sorveteiro (2026) acompanhamos uma dinâmica bem semelhante, exceto por um detalhe.

Durante o verão na cidade praiana de Bayleen Bay, o local recebe a visita do excêntrico sorveteiro e seu carrinho de sorvete. Após consumirem o sorvete, as crianças da cidade passam a apresentar um comportamento violento e promovem um verdadeiro massacre contra os adultos. Vale destacar que trata-se de um remake do filme de noventa e cinco, mas isso não justifica muitas das escolhas feitas aqui, principalmente se partirmos do princípio de que ambos os filmes possuem propostas bem distintas. O longa de Eli Roth explora uma fórmula narrativa já gasta no terror, em especial no seu: uma figura estranha chega ou retorna a uma cidade onde estabelecerá o caos. Mas se a história não chama a atenção, o mesmo não se pode dizer da maneira com que a narrativa é desenvolvida, tornando ao menos divertido de acompanhar uma nova perspectiva da mesma história já contada mil vezes.

A direção de Roth conduz bem a narrativa, nos introduzindo ao cotidiano dos personagens e, pouco a pouco, criando o ambiente de tensão, principalmente após a aparição do sorveteiro. Assim, somos apresentados a Jared (Charlie Zelter), Lizzie (Sarah Abbott), Kiori (Mirza Waldman), Tommy (Shiloh O’Reilly) e, claro, o próprio Sorveteiro (Ari Millen); é principalmente em torno desses personagens que a narrativa vai se desenrolar. O longa utiliza-se de alguns recursos de IA, como, por exemplo, os balões animados que surgem nas visões que as crianças têm ao atacarem os adultos. Esse é um fator que tira muito do crédito do filme, uma vez que, para um filme de tamanho orçamento, poderiam facilmente ter recorrido a animadores para fazer esses balões animados.

Quanto aos aspectos técnicos, a direção de fotografia assinada por Simon Shohet é um dos pontos fortes do longa, em especial nas perseguições, onde o frenesi toma conta da tela e podemos sentir a angústia e ansiedade dos personagens. Já a direção de arte é assinada por Peter Mihaichuk e, por incrível que pareça, tratando-se desse gênero, é ao meu ver um dos pontos mais fracos do longa, uma vez que os efeitos são excessivamente plásticos e passam pouco ar de veracidade, tornando as mortes mais cômicas do que marcantes ou nojentas.

Já no tocante às atuações, nenhum dos atores tem grande destaque. Charlie Zelter é, sem dúvidas, quem mais se destaca, mas muito por conta do maior tempo de tela do que por qualquer singularidade. Porém, não é de se espantar que nenhum dos atores se destaque muito, já que o roteiro é extremamente raso e fica evidente que a maioria das crianças está ali para se tornar mini demônios, enquanto os adultos são apenas grandes sacos de carne à espera do abate. O sorveteiro passa praticamente despercebido; apesar de tentarem torná-lo uma figura misteriosa, o próprio praticamente não se mostra ameaçador, salvo raras exceções, principalmente quando ele está em seu carrinho de sorvete. Esse sim é macabro, principalmente o sorvete acima do teto do furgão, que parece seguir as crianças com o olhar.

Em linhas gerais, O Sorveteiro é um longa divertido, mas que comete pequenos “pecados”, sendo o maior deles o uso de IA, sua maquiagem e suas ideias recicladas. É impossível não se recordar do conto do Flautista de Hamelin, de A Hora do Pesadelo (1984) e até do recente A Hora do Mal (2025). Contudo, Eli Roth consegue condensar, em uma hora e vinte e seis minutos de filme, uma narrativa que prende o espectador. Porém, a certo ponto, a dinâmica de mortes torna-se repetitiva, em especial na sequência da escola, onde ocorre a maioria das mortes do longa. Por fim, a mitologia do filme parece beber muito das fontes já citadas, o que faz sentido na teoria, mas na prática o ato final do filme é deveras anticlimático, apesar de cumprir com o que o próprio filme estabelece, reforçando o fraco roteiro.

Autor:


Mateus José é graduando de Licenciatura em Cinema e Audiovisual pela UFF, escritor, poeta, montador e aspirante a diretor de fotografia. Apaixonado pelas artes, literatura, música e principalmente o cinema, dedica-se a consumir, estudar e dissecar as camadas mais profundas do cinema e da arte.

 

One Piece – O Grande Pirata do Ouro : 55 Minutos de Aventura e 5 de Jango

One Piece ; O Grande Pirata do Ouro | Paris Filmes

Em One Piece - O Filme, Luffy e sua tripulação partem em busca do lendário tesouro do pirata Woonan, enquanto enfrentam Eldorago, um pirata ambicioso que também persegue a fortuna.

O filme é uma “aventura filler”, ou seja, uma história que não é canônica no mangá, obra original de One Piece. Animes de longa duração costumam recorrer a episódios filler, criados principalmente para evitar que a adaptação alcance a história original, especialmente quando a série é exibida semanalmente. Esses episódios funcionam como um preenchimento, dando tempo para que o mangá avance antes que o anime continue sua adaptação. 

Sendo um filme, One Piece - O Filme acaba funcionando como uma espécie de episódio esticado — assim como o próprio protagonista, que tem o poder de se esticar. A trama é uma aventura independente e bastante direta. Luffy e sua tripulação descobrem a existência do lendário tesouro de Woonan, um pirata que teria acumulado uma quantidade gigantesca de ouro durante sua vida. A localização desse tesouro serve como ponto de partida para a aventura, enquanto o mapa que leva até ele desperta o interesse de diferentes piratas. A premissa estabelece um paralelo interessante com a própria busca pelo One Piece, já que ambas as histórias partem da ideia de algo valioso escondido que motiva uma jornada pelo mar. Entre os interessados está Eldorado, principal antagonista do longa, um pirata movido pela ganância que parte em busca do tesouro acompanhado de sua tripulação. 

A partir daí, o filme estrutura seu conflito como uma tradicional caça ao tesouro, colocando os Chapéus de Palha e os piratas de Eldorado em uma disputa para descobrir quem chegará primeiro à fortuna de Woonan. O filme entende que seu objetivo é proporcionar uma aventura rápida aos Chapéus de Palha, sem interferir na história principal da obra. O problema é que essa mesma simplicidade também faz com que o conflito pareça pouco significativo. Eldorago é um antagonista bastante convencional, movido principalmente pela ganância, e a disputa pelo tesouro não apresenta grandes surpresas.

Antes do filme, é exibido o curta-metragem Carnaval de Dança de Jango (2001), com cinco minutos e trinta segundos de duração. Ele foi originalmente lançado junto ao segundo longa-metragem de One Piece, Clockwork Island Adventure (2001). É possível que a escolha tenha ocorrido porque o filme possui apenas 55 minutos, fazendo com que, com a inclusão do curta, a duração total totalizasse exatamente uma hora. No entanto, colocar essa produção antes do longa deixa a ordem dos acontecimentos confusa, já que, no curta, Sanji já faz parte da tripulação, enquanto o filme se passa antes de sua entrada nos Chapéus de Palha. Essa inversão temporal pode causar estranhamento, especialmente para espectadores que acompanham a série e reconhecem a importância da ordem dos acontecimentos para a construção da narrativa. A trama acompanha Luffy e seus companheiros chegando à ilha Bola de Espelhos, se encontrando com o Jango, um dos vilões que eles enfrentam no arco Syrup Village. Embora funcione como uma produção independente e essencialmente cômica, sua posição antes do longa acaba interferindo na coerência cronológica da sessão.

O longa-animado foi feito com tinta e pintura tradicionais, o visual é diferente da série lançada em 1999 que está até hoje em exibição, tendo uma aparência dos animes produzidos no final da década de 1990, marcada por linhas firmes e expressivas, contornos bem definidos e uma composição visual que valoriza a sensação de movimento. O uso de cores chapadas e contrastantes, acompanhado por sombras desenhadas de forma direta e sem excesso de gradações, confere ao filme uma aparência gráfica forte e, ao mesmo tempo, preserva a sensação de animação desenhada à mão. O estilo se destaca justamente por não depender de um acabamento excessivamente polido. Pequenas irregularidades nos contornos, a textura da imagem e a aplicação manual das cores ajudam a conferir personalidade ao quadro. O resultado é uma estética dinâmica e expressiva, na qual a imperfeição do processo tradicional se transforma em parte de sua identidade visual. 

One Piece - O Filme funciona como uma experiência mais simples e independente dentro do universo da obra, apostando em uma aventura de caça ao tesouro que reproduz, em menor escala, alguns dos elementos centrais de One Piece. Embora sua narrativa seja pouco complexa e seu antagonista siga uma fórmula bastante convencional, o longa consegue compensar parte dessas limitações por meio de seu ritmo direto, do caráter descontraído da aventura e, principalmente, de sua identidade visual. 

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Coração Selvagem - A lealdade se torna uma forma de sobrevivência.

Coração Selvagem | Paramount Pictures Um ex-soldado ferido e seu cão de guerra aposentado lutam para sobreviver na região do Alasca e encont...