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| Saneamento Básico: O Filme | Vitrine Filmes |
Moradores de uma pequena vila se juntam para pleitear a construção de uma estação de tratamento de esgoto. Para conseguir o dinheiro, eles precisam fazer um filme de ficção.
O filme é uma comédia que combina humor crítico sobre o uso irresponsável de recursos públicos com uma abordagem voltada às questões ambientais, além de retratar os desafios e situações inusitadas da produção de um filme independente no Brasil. A história acompanha os moradores de uma cidade fictícia do interior do Rio Grande do Sul, que se mobilizam para exigir a revitalização de um arroio, incomodados com o mau cheiro próximo às suas casas. Apesar da reivindicação, a prefeitura alega não ter recursos para a obra, dispondo apenas de cerca de R$10 mil para a produção de um vídeo. Diante disso, a comunidade decide realizar um filme como forma de chamar a atenção para o problema e a buscar uma solução. O filme valoriza a ação coletiva, a inventividade popular e o poder do engajamento social como caminhos possíveis para enfrentar problemas estruturais e buscar soluções concretas.
Um dos aspectos do longa que considero mais engraçado — e que costuma gerar confusão — é o mal-entendido em torno do edital, que exigia a produção de um filme de ficção. Os personagens interpretam essa exigência de forma literal, acreditando que precisariam criar uma história com seres fantásticos. A partir dessa leitura equivocada, decidem incluir um monstro na narrativa que estão produzindo. Esse equívoco funciona como um recurso cômico eficaz, mas também revela, de maneira leve e inteligente, a distância entre a linguagem burocrática dos editais e a compreensão de quem está fora do meio técnico do audiovisual. Ao transformar a confusão em humor, o filme valoriza a criatividade popular e reforça seu olhar afetuoso sobre pessoas comuns que, mesmo sem domínio formal da linguagem cinematográfica, se arriscam a criar e contar histórias.
Os personagens do filme são inspirados na commedia dell'arte, um gênero de teatro popular surgido na Itália no século XVI, marcado por personagens fixos, improvisação a partir de roteiros simples (canovaccio) e forte comédia física. Essa influência no exagero cômico, nos tipos bem definidos e nas situações corporais, contribuindo para o tom leve, popular e humorístico da narrativa. Marina encarna uma mulher determinada, que busca provar ao pai ser capaz de cumprir uma tarefa que ele não conseguiu realizar. Joaquim é um cômico inspirado no Arlequim: tenta agradar a todos, mas frequentemente fracassa. Silene e Fabrício formam o casal de enamorados, com traços opostos e complementares — ela é bela e consciente de seu charme, enquanto ele é vaidoso, convencido e fanfarrão. Já Otaviano e Antônio representam pólos contrastantes: o primeiro vem de uma nobreza em decadência, enquanto o segundo ascende economicamente sem grandes méritos. No conjunto, o filme utiliza esses arquétipos clássicos de forma inteligente, transformando a comédia em uma ferramenta para observar e questionar comportamentos e hierarquias sociais, sem perder o tom popular e divertido.
Saneamento básico, O Filme combina humor, crítica social e reflexão ambiental de maneira criativa e acessível. Ao unir uma história de engajamento comunitário, situações cômicas derivadas de mal-entendidos e personagens inspirados na tradição da commedia dell’arte, a obra consegue entreter e, ao mesmo tempo, provocar pensamento crítico sobre questões como o uso de recursos públicos, desigualdades sociais e a importância da ação coletiva. O filme celebra a inventividade popular e a força das pessoas comuns, mostrando que, mesmo diante de limitações, é possível transformar desafios em soluções com criatividade, humor e coragem.
Autor:
Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

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