terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Os Assassinos (1964) - O Parasitismo Capitalista Pintado com Sangue e Luz

 

Os Assassinos | Universal Pictures

A obra de Don Siegel é um remake do filme de 1946, dirigido por Robert Siodmak e estrelado por Burt Lancaster. Em ambas as obras, existe uma resposta direta sobre a situação dos Estados Unidos em seus respectivos momentos. Enquanto a versão de 1946 é um filme Noir que carrega o pessimismo de uma era de violência que tomava conta do país e sobre a desonestidade das relações humanas em um momento de incertezas por conta da pós Segunda Guerra Mundial e entrando na Guerra Fria, a versão de Don Siegel apresenta uma versão onde a violência aqui se apresenta mais visceral e sem rodeios. Siegel é tão certeiro no que queria dizer, que não esperou 10 minutos para matar um dos personagens de melhor índole naquele cenário. 

Nossos protagonistas são 2 homens, o mais experiente e com mais idade, Charlie Strom(interpretado pelo ator Lee Marvin), e seu parceiro, um jovem sádico chamado Lee(interpretado pelo Clu Gulager). Quando ambos fazem o trabalho que foi pedido, matar um homem que fugiu com 1 milhão de dólares de um assalto em uma casa de assistência para pessoas cegas, nosso protagonista mais experiente fica perplexo em perceber que tal figura não fugiu e nem esboçou nenhuma reação quando viu ambos personagens com suas armas apontadas para ele e prontos para disparar. 

Esse homem, Johnny North(interpretado pelo ator e diretor John Cassavetes), nossa primeira vítima do filme, é a representação perfeita do cidadão norte americano cansado das promessas de uma vida promissora e de um amor honesto, sua jornada em cima de fashblacks contados por aqueles que estavam com ele nos últimos momentos, mostram seu cansaço em até tentar pensar em se salvar diante os homens armados. North é a imagem perfeita do cansaço do cidadão comum dentro do Sonho Americano. 

Enquanto a jornada de Lancaster no filme original, mostra uma história linear que no final tem a reviravolta de uma traição, Siegel aqui decide seguir um caminho completamente oposto. Esquece o Noir, nossa narrativa acontece 90% do tempo à luz do dia, filme completamente colorido e com o sangue a mostra. Enquanto o filme original é uma resposta de uma época corrupta e violenta dos Estados Unidos, Don Siegel faz uma versão onde tudo isso resulta em uma hipocrisia dentro de um cenário estético. Anos 60, começa uma revolução cultural e social, Nova Hollywood e a era dos hippies, além da grande leva de pessoas sendo contra a guerra do Vietnã, e é exatamente por conta disso que Siegel decide seguir sua linha estética. 

Produções Hollywoodianas imensas e recheadas de cores, junto com muito carisma e dança, completamente desproporcional ao que o povo Americano vivia. A violência, a corrupção e o desemprego voltavam a ficar em alta e o Sonho Americano se encontrava completamente desbotado. Siegel mostra a violência pairando todo o país com dois personagens sem escrúpulos e certos de que a violência é a melhor resposta para todas as ocasiões. E oque faz a tensão do filme chegar ao ápice é saber que eles não se encontram sozinhos na forma de agir. Os personagens funcionam em sua maioria parasitando aquele que for de melhor serventia, e aqueles com um pingo de humanidade são mortos, ou e afogam em um alcoolismo enrustido, como o caso do amigo e parceiro de trabalho de North, o mecânico Earl(interpretado pelo ator Claude Akins). 

Quando chegamos na conclusão da obra, todos foram aniquilados em sua maioria. Nosso assassino mais experiente carrega a mala de dinheiro com todas as suas forças, invés de tentar ter forças para ficar em pé, ele a coloca por inteiro em seus braços. Charlie se rasteja com um pouco de ajuda de suas pernas em movimento com o sangue que o faz escorregar, até ele desistir de sua arma e conseguir se levantar com a mala. Infelizmente, no momento que ele começa a caminhar, o som de uma viatura policial se aproxima, seu corpo começa a rodopiar até cair morto por completo com a maleta aberta e com o dinheiro voando. Nessas últimas cenas, Siegel cumpre sua promessa com a primeira cena da violência e da morte como ciclo vicioso e sem piedade. Novatos e experientes, todos se encontram no mesmo barco que se afunda e sem esperança enquanto a solução for quem vai levar mais em meio a tormenta. 

Don Siegel mostra o retrato da cobiça e da decadência do capitalismo dentro das relações sociais e afetivas entre seres humanos lutando e sugando até a última gota do que poderia sobrar e humanidade para sobreviver em tal cenário. E para aqueles que não suportam viver nessa mentira em cores, só espera o inevitável chegar sem fugir, e sem lutar. North é a resposta da bondade humana em exaustão. 

TEXTO DE ADRIANO JABBOUR 

Extermínio: O Templo Dos Ossos - Quando o apocalipse tem ótimas ideias, mas esquece de desenvolvê-las.

Extermínio: Templo dos Ossos | Sony Pictures


O Dr. Kelson se vê envolvido em um novo e chocante relacionamento com consequências que podem mudar o mundo como ele o conhece. Enquanto isso, o líder de uma seita Jimmy Crystal instiga medo e violência por onde passa.

O filme é uma continuação direta de Extermínio: A Evolução. Após um surto devastador do vírus da raiva, as ilhas Britânicas permanecem isoladas, e anos depois Spike vive com os pais em uma comunidade segura, mas conflitos familiares o fazem fugir com a mãe doente e gravida para o continente, onde enfrentam infectados e descobrem que ela sofre de câncer terminal; após sua morte, Spike recusa-se a voltar para casa, deixa o bebê recém nascido em segurança e segue sozinho, até ser encontrado por um grupo liderado por Jimmy Crystal, agora adulto, que representa uma nova ameaça. Pouco depois, Spike permanece em quarentena na Grã-Bretanha com esse grupo, os Fingers, uma gangue violenta que sobrevive pela intimidação e pela força, mas é instável e impulsiva: fisicamente fortes e organizados na violência, carecem de propósito, coesão moral e da habilidade de construir algo duradouro, tornando-se vulneráveis tanto à própria instabilidade quanto à humanidade daqueles que enfrentam.


Desde o primeiro filme da franquia, os infectados funcionam como gatilho narrativo, evidenciando como a sociedade, desprovida de qualquer estrutura, rapidamente mergulha no caos, como nos militares do filme original, após o colapso da civilização abandonam qualquer ética, agindo de forma brutal e autoritária sob o pretexto de reconstruir o mundo; atualmente, essa abordagem é recorrente em produções sobre zumbis, retratando um mundo sem leis no qual à máscara da humanidade é gradualmente removida, e nos convida, como espectadores, a sentir medo, compaixão e questionar como reagiremos se fôssemos colocados à prova em um cenário tão desolador.


Há uma sub-trama na narrativa sobre um grupo de sobreviventes que vive em uma fazenda, mas ela foi mal desenvolvida. Ela é introduzida com certo destaque, sugerindo que terá importância para o desenvolvimento da história ou para os temas centrais, mas essa expectativa não se sustenta ao longo da narrativa. Os personagens e o cenário são apresentados de maneira relativamente cuidadosa, criando a impressão de que haverá consequências ou desdobramentos relevantes.


No entanto, essa linha narrativa acaba servindo apenas como um evento pontual, sem impacto duradouro. Após cumprir sua função imediata, a sub-trama é deixada de lado e não volta a ser explorada, o que pode causar estranhamento no espectador. Essa escolha enfraquece a construção do enredo, pois transmite a sensação de que a fazenda foi usada apenas como um recurso momentâneo de tensão, e não como um elemento integrado à história maior. No fim, fica a impressão de uma ideia que parecia promissora, mas que foi apresentada e depois simplesmente ignorada.


A ideia de explorar o conflito entre fé e ciência em um cenário apocalíptico já é um tema bastante recorrente, mas ainda pode funcionar como um clichê empregado quando bem inserido. No entanto, em Extermínio: Templo dos Ossos, essa tensão se mantém superficial. Por um lado, temos o Dr. Ian Kelson, representante do raciocínio científico, que busca entender e curar os efeitos do Vírus da raiva no Alpha infectado Samson através de experimentos e manipulação química. Por outro lado, Jimmy Crystal e seu culto satânico simboliza uma forma distorcida de fé e fanatismo, usando a violência ritualizada como instrumento de poder. Apesar desse contraste aparente, o conflito entre ciência e crença não é desenvolvido de forma significativa. As interações entre Kelson e Jimmy — assim como entre os demais personagens — permanecem focadas na ação e na sobrevivência, sem que haja um verdadeiro debate filosófico ou moral sobre ética, racionalidade ou a natureza do mal. A ciência de Kelson é apresentada principalmente como uma ferramenta prática, enquanto o fanatismo de Jimmy é um motor para cenas de terror e caos. essa abordagem resulta em uma tensão que é funcional para o desenrolar da narrativa, mas que não se aprofunda. Os diálogos que mencionam o embate entre fé e razão aparecem apenas de maneira rápida e pontual, como ordens ou justificativas de personagens, e não evoluem para um conflito consistente ou reflexivo. Assim, o filme utiliza o contraste entre religião e ciência como pano de fundo estilístico, reforçando o clima de horror e a escalada da ação, sem transformar essa oposição em tema central ou questionamento moral relevante. Sendo assim, tocando na clássica dicotomia entre fé e ciência, mas apenas de forma superficial, como instrumento narrativo, sem explorar o potencial dramático ou filosófico que esse confronto poderia oferecer.


Extermínio: Templo dos Ossos mantém o clima de horror e violência característico da franquia ao mostrar como o colapso social expõe a fragilidade moral humana. Embora apresente personagens e ideias promissoras — como o conflito entre fé e ciência e novas comunidades de sobreviventes — o filme desenvolve esses elementos de forma superficial. Sub-tramas são abandonadas e temas centrais não se aprofundam, fazendo com que a obra funcione mais pela tensão e atmosfera do que pela reflexão consistente. O resultado é um filme eficaz no gênero, mas aquém do potencial que a sua proposta sugere.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Marty Supreme (2025) Corre Adoidado, Mas Não Sabe o Que Quer da Vida

 

Marty Supreme (2025) | Diamond Films

Sensação da temporada de premiações de 2025-26, chega aos cinemas brasileiros o longa-metragem Marty Supreme (2025), do diretor Josh Safdie, e encabeçado por Timothée Chalamet. O personagem principal, Marty Mauser, é levemente inspirado na figura do jogador de tênis de mesa Marty Reisman, embora que o filme se passe no âmbito ficcional do que no biográfico; pois, embora inspirado, Mauser é um (anti)herói safdieniano com todos seus trejeitos e manias.

 Ambientado durante os anos 1950, o filme acompanha a trajetória do jogador de tênis de mesa nova iorquino Marty Mauser (Chalamet) e a busca de saciar a sede de ser tornar um dos maiores nomes de sua modalidade. Seu percalço aumenta quando este perde uma importante partida em torneio na Inglaterra contra um oponente japonês, Endo (Koto Kawaguchi), dificultando um importante patrocínio de um magnata (Kevin O'Leary), que envolve o orgulho de Mauser; e, também, quando descobre que não possui mais os recursos para um campeonato mundial no Japão. Para piorar a situação, o jovem atleta descobre que engravidou uma amiga próxima a ele, Rachel (Odessa A'Zion), enquanto mantem um caso com a esposa do magnata, Kay Stone (Gwyneth Paltrow), uma socialite e atriz de cinema que tenta se reinventar na carreira.

 Josh Safdie não é estranho com filmes, cujos protagonistas são empurrados ao limite diante das circunstâncias do mundo; afinal ele e seu irmão, Benny, dirigiram filmes como Good Time (2016) e Joias Brutas (2019), que tinham essa mesma característica em comum. Porém, agora, a dupla de irmãos se separou, e parte do que funcionava nessa abordagem de narrativa e de estudo de personagem se dissipou um pouco. Visto como um "americano mimado", de acordo com uma das personagens, Marty Mauser é o tipo de pessoa egocêntrica que suga todas ao seu redor para um vórtex de perdição própria, ao envolvê-las em suas artimanhas para seguir com seu sonho.

Contudo, a direção de Safdie não consegue decidir se Mauser é uma personagem trágica ou patética dentro do escopo da narrativa: o roteiro, coescrito pelo realizador e o colaborador Ronald Bronstein, direciona para um leitura crítica e ácida, porém a performance de Chalamet, faz o oposto, engrandecendo-o pela sua pequenez. É notável a construção de uma personagem contraditória, cheia de ideais e defeitos, mas a conta dessa operação artística não fecha. Ao mesmo tempo que existe a fascinação com o protagonista, há também uma grande apatia e um desejo secreto do espectador de que ele fracasse de forma espetacular. 

E talvez, esse seja o propósito. Será que é possível amar alguém tão centrado em si mesmo e que usa as pessoas para tirar proveito da situação? No entanto, não me faltou nada além de uma apatia imensa a essa figura central. Talvez seja da forma que Mauser é escrito, ou talvez seja por causa da autoconfiança exacerbada da atuação de Timothée Chamalet que molda uma personagem tão insuportável para um parcela da população. O que existe de carisma, também há de arrogância, e a atuação de Chamalet vai de um extremo ao outro como uma bola de tênis de mesa. 

Apesar do roteiro de Safdie e Bronstein ter uma estrutura de interconexão entre vários arcos de personagens até cuidadosa, o argumento não consegue manter o fôlego durante sua duração: há muitas ideias e prioridades não tão confiantes nelas; na minha opinião, como crítico e escritor, é que algumas subtramas poderiam ter sido cortadas ou reformuladas, como a do mafioso interpretado por Abel Ferrara, com o intuito de deixar a ritmo narrativo mais claro. Porém, isso seria contra as concepções de escala épica do projeto que retroalimenta um imaginário oriundo de cineastas da Nova Hollywood como Scorsese e Coppola, por exemplo. 

O problema, neste caso, é que o filme se afunda em uma mitologia imagética própria da filmografia de Safdie, sem a renovação ou a inovação que dá uma identidade única ao projeto, o que acarreta comparações com trabalhos anteriores, como em Joias Brutas, cuja tensão crescente era melhor arquitetada do que aqui. Portanto, uma questão puramente epistemológica e no âmbito de seu discurso. 

A direção criativa precisa decidir se deve recriar passagens das memórias de Reisman, como em várias passagens que envolvem partidas de apostas, shows de variedades e contextos de campeonatos, com a construção safdieniana de personagens dúbios e escandalosos. Contudo, as escolhas feitas me parecem um pouco contraditórias e nem sempre satisfatórias, pois Safdie não consegue achar um meio-termo ideal entre o real e o ficcional. Talvez se a construção de Marty se inclinasse ao ficcional e fosse mais dúbia e sacana, de um modo mais sutil, a narrativa teria ganho níveis absurdos de nuance e de interesse.

Ademais, as decisões tomadas no terceiro ato da narrativa acabam por enfraquecer toda a ironia e crítica ao um específico sentimento americano que se vinha construindo até então, ao abraçar, para a redenção, ou não, talvez anticlimática da protagonista, a partir do aspecto paternal. Uma analogia a este caso seria de uma piada acabou se perdendo a graça antes/ou durante do punchline; pois, não se sabe, se tal benevolência faz parte do humor de Safdie ou se existe uma "mea culpa, mea maxima culpa" por parte da equipe criativa com a personagem. (Pessoalmente, acredito que seja uma mistura de ambos.)

O que, honestamente, é uma pena, pois de talentos o filme não falta: seja pela trilha de Daniel Lopatin (algum fã de Oneohtrix Point Never aqui?), ou seja a fotografia panorâmica em 35mm com cores e texturas de Darius Khondji que nos transporta ao passado, ou seja pelo elenco calibrado reunido aqui. Odessa A'Zion tem um papel importante na narrativa que demanda uma complexidade de sua interprete, que a encarna com todas as dimensões; enquanto isso, Gwyneth Paltrow tem aqui um dos melhores papeis de sua carreira: uma mulher madura, que consegue enxergar através das outras pessoas, mas que ainda possui um pouco de ingenuidade na sua aura; o que combina bem com o perfil da atriz dentro e fora das câmeras...  

A questão é que o filme tem muitas ideias e momentos a seu favor, como o energético torneio do British Open, todas as cenas entre Chalamet e Paltrow, e até mesmo uma cena queer coded que envolve mel (ótima por sinal!), por exemplo; mas, diante de tudo isso, falta uma direção que as deixem uma narrativa afiada. Não desejo por uma abordagem palatável (isso nunca!), porém uma condução que evita convenções do drama americano e que não tem medo afundar nas ironias cruéis da vida.  A sensação de assistir Marty Supreme é de atirar em um grande alvo à distância, mas sem a coordenação de conseguir acertar o centro. Mauser faz os seus corres, corre adoidado, causa destruição e caos aonde passa, mas, no fundo, não sabe o que quer realmente da vida. 

O golpe da bola laranja tá aí, cai quem quer.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Bob Esponja: Em Busca da Calça Quadrada - Vive no Abacaxi e Não Sabe a Hora de Parar

Bob Esponja: Em Busca da Calça Quadrada | Paramount Pictures 


Na esperança de provar sua bravura ao Seu Sirigueijo, Bob Esponja segue um misterioso e aventureiro pirata fantasma conhecido como Holandês Voador em uma aventura marítima que o leva às profundezas do oceano.

Este é o quarto filme da famosa série da Nickelodeon. O primeiro longa-metragem, lançado em 2004, foi concebido originalmente como o encerramento definitivo da animação — e confesso que aluguei esse filme inúmeras vezes na saudosa locadora do bairro. Anos depois, vieram Um Herói Fora D’Água (2015) e O Incrível Resgate (2020), este último planejado para os cinemas, mas que acabou sendo lançado diretamente no streaming por conta da pandemia de Covid-19. 

Tenho um carinho genuíno pela série e, principalmente, pelo primeiro longa, que marcou profundamente a minha infância. No entanto, mesmo reconhecendo esse valor afetivo, acredito que a franquia deveria ter sido encerrada ainda em 2004. A sensação é de que, ao longo do tempo, a criatividade foi se diluindo e o humor perdeu parte de sua força. Antes, a obra conseguia equilibrar muito bem seu visual extremamente colorido com um humor escrachado e, em vários momentos, surpreendente. Hoje, porém, a comédia parece exagerada e menos inspirada, como se postasse apenas no excesso para compensar a falta de ideias novas. O resultado é uma série que já não provoca o mesmo impacto de antes e parece existir mais por insistência comercial do que por necessidade artística — e isso vale para o filme também.

Diferente dos filmes anteriores, este não gira em torno da clássica rivalidade entre o Seu Sirigueijo e o Plankton, Conflito recorrente no desenho. Dono do restaurante Balde de Lixo, Plankton nunca consegue atrair clientes, principalmente por conta de sua comida nada apetitosa, e por isso vive tentando roubar a fórmula do hambúrguer de Siri do Sirí Cascudo, empreendimento de grande sucesso comandado pelo Seu Sirigueijo. Esse embate entre os dois personagens já estava bastante desgastado. Em O Incrível Resgate, ele ainda aparece de forma pontual, mas o foco da narrativa era a busca por Gary, que havia sido sequestrado. Já neste filme, a atenção se volta principalmente para a aventura de Bob Esponja ao lado do Holandês Voador. Plankton surge apenas de forma pontual em uma cena e, após isso, não tem mais qualquer relevância para a história, o que reforça a sensação de que o roteiro não sabe muito bem o que fazer com um de seus personagens mais icônicos.

No Primeiro filme, Bob Esponja queria provar que já era um homem, não apenas para os outros, mas também para si mesmo. Ele se sentia constantemente subestimado, visto como um garoto apenas por gostar do amendobobo, uma figura infantil dentro do universo do desenho, e por se encantar com coisas simples como estourar bolhas. Esses pequenos prazeres, que para ele eram sinais de alegria e pureza, acabavam sendo interpretados pelos outros como imaturidade. É a partir desse olhar julgador que nasce o conflito do personagem. Aqui, o protagonista tenta provar que é corajoso, movido pelo desejo de ser levado a sério e de mostrar que também é capaz de enfrentar desafios. 

O símbolo dessa prova de coragem surge na forma de uma montanha-russa que ele sonhava em conhecer. Para Bob Esponja, ir até aquele brinquedo representava um rito de passagem, uma chance de se afirmar. No entanto, ao chegar ao parque, ele se depara com a realidade: a montanha-russa era muito perigosa do que ele imaginava. O medo aparece, mas junto dele vem a necessidade de seguir em frente. Não se trata apenas de entrar no brinquedo, mas de encarar seus próprios limites, superar o pavor e mostrar que coragem não é ausência de medo, e sim a decisão de enfrentá-lo.

O filme utiliza a animação em 3D, assim como seu antecessor. Não que a animação 3D seja algo negativo — ela funciona bem dentro da proposta e acompanha os padrões atuais do cinema de animação —, mas confesso que senti falta do estilo 2D clássico do desenho. A animação bidimensional sempre fez parte da identidade visual de Bob Esponja, e é difícil não associar o personagem a esse traço mais simples e expressivo, que carrega muito do seu charme original. O filme de 2004 e o de 2015 optaram majoritariamente pelo 2D, o que, ao meu ver, ajudava a preservar essa essência. No longa de 2015, é verdade, há uma transição para o 3D quando os personagens vão para a superfície, mas ali essa mudança fazia sentido narrativo e funcionava quase como um recurso pontual, um contraste visual que destaca aquele outro mundo.

Bob Esponja: Em Busca da Calça Quadrada escancara o dilema de uma franquia que, embora ainda carregue o peso simbólico de ter marcado gerações, parece cada vez mais distante da inventividade que a tornou especial. O filme até recupera temas valiosos ao personagem — como a busca por amadurecimento e coragem. A tentativa de afastar a história da rivalidade desgastada com Plankton e apostar na parceria com o Holandês Voador é valida em intenção, mas limitada em execução, incapaz de sustentar um arco verdadeiramente memorável. O resultado é uma aventura funcional, visualmente competente, porém esvaziada de urgência criativa, que reforça a sensação de que Bob Esponja continua existindo mais por força da marca do que por necessidade artística. Para quem cresceu com o personagem, resta o carinho e a memória — porque a magia que um dia definiu essa esponja já não encontra, aqui, espaço para florescer com a mesma intensidade.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Anaconda (2025) - Fazendo Cinema Até a Cobra Acordar

Anaconda(2025) | Sony Pictures


Os melhores amigos Griff e Doug partem para as selvas da Amazônia para filmar um reboot de seu filme favorito de todos os tempos, Anaconda. No entanto, a vida logo imita a arte quando uma anaconda gigantesca com sede de sangue começa a caçá-los.

Jack Black vive um cineasta tão obcecado por cinema que resolve arrastar uma equipe inteira para o território selvagem. O plano era fazer arte. O resultado? Uma criatura gigante, gritaria, correria e a ambição cinematográfica sendo atropelada pela luta básica pela sobrevivência. Pela sinopse, dá até a impressão de que estamos falando de King Kong (2005) — só faltou o macaco pegar o Oscar. Mas, calma: estamos diante de um reboot assumidamente auto-paródico de Anaconda. E, apesar da coincidência conceitual, as semelhanças com King Kong param por aí. Aqui, o filme abraça o exagero, ri de si mesmo e entende exatamente o tipo de diversão que quer entregar. Não é sobre grandiosidade épica, e sim sobre entretenimento descompromissado, consciente do próprio absurdo — e isso, curiosamente, acaba sendo seu maior acerto.

Doug (Jack Black) e Griff (Paul Rudd) querem realizar o sonho de filmar a cobra gigante, um desejo que nasce não apenas da ambição criativa, mas de uma amizade construída ao longo dos anos e sustentada por um amor sincero pelo cinema. Há algo de bonito — e ao mesmo tempo ingênuo — nessa parceria: dois amigos que acreditam no poder da arte mesmo quando a realidade insiste em mostrar seus limites. O filme observa essa relação com carinho, deixando claro que a paixão pelo cinema pode ser inspiradora, mas também cega, capaz de transformar entusiasmo em imprudência. É nesse equilíbrio entre afeto, ilusão e choque com o real que Doug e Griff se tornam mais humanos — e a história, mais interessante.

A geografia do filme é tratada com um descaso evidente, beirando o caricato. Ao chegar ao Brasil, é mostrado para o público o Rio de Janeiro e, em um corte abrupto, já estão imersos na Amazônia, como se a maior floresta tropical do mundo estivesse literalmente ao lado da cidade. Essa escolha não apenas ignora a imensa dimensão territorial do país, como também reduz o Brasil a um amontoado de cartões-postais genéricos, usados apenas como pano de fundo exótico para a trama. O problema não está na liberdade criativa — algo que o próprio filme abraça em outros aspectos —, mas na falta de intenção crítica ou humorística nesse erro específico. Diferente de uma sátira assumida, a sequência soa como desinformação pura, reforçando estereótipos antigos que o cinema estrangeiro insiste em reciclar, a comparação com o episódio polêmico de Os Simpsons é inevitável, episódio esse no qual eles vão para o Rio de janeiro e ocorre essa mesma falha geográfica. Esse equívoco quebra a imersão e evidencia uma negligência narrativa que contrasta com o cuidado que o filme demonstra em sua proposta metalinguística. É um detalhe que pode parecer pequeno, mas revela uma visão superficial do cenário retratado — e isso pesa negativamente no conjunto da obra.

Anaconda (2025) funciona melhor quando assume sua própria natureza exagerada e autoconsciente, encontrando força no humor, na metalinguagem e na relação afetuosa entre seus protagonistas. A paixão pelo cinema que move Doug e Griff dá ao filme um coração sincero, capaz de tornar o absurdo mais palatável e até cativante. No entanto, esse mesmo cuidado não se estende a todos os aspectos da produção. O tratamento superficial do Brasil e os deslizes geográficos evidenciam uma negligência que enfraquece a imersão e expõe velhos vícios do cinema estrangeiro. Assim, Anaconda (2025) se mantém como um entretenimento divertido e honesto em sua proposta, mas irregular: acerta ao rir de si mesmo, e tropeça quando prefere o estereótipo fácil ao olhar mais atento.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Natal Sangrento (2025) - Um Remake "Levado da Breca"

 

Natal Sangrento (2025) | Diamond Films

Durante a véspera de Natal, o jovem Billy visita o avô no hospital que acaba tendo um acidente medicinal e morre em frente ao garoto. De noite, voltando de carro com seus pais, a família de Billy é interceptada por uma figura estranha vestida de Papai Noel. Para piorar a situação de um dia que já estava ruim, esse "Noel" ataca e mata os pais de Billy , antes de morrer. A ação corta para o futuro e aquela criança se torna um psicopata adulto (Rohan Campbell): ele ouve uma voz na sua cabeça que diz para se vestir de Papai Noel e matar um certo número de pessoas consideradas "levadas" durante a época do fim de ano.

Logo, Billy não para quieto. Ele é um nômade, basicamente. Vai de um canto a outro, cria álibis temporários, não tem nenhum tipo de amizade ou relacionamento que não seja com essa voz onipresente, guiando-o em seus instintos assassinos. Esse modus operandi começa a se complicar quando Billy chega em uma cidadezinha de interior e começa a ficar interessado em Pam (Ruby Modine), uma moça que trabalha em uma loja de produtos natalinos. O que ele faz? Fica na cidade e arruma um emprego nesse estabelecimento para ficar perto dela. A Pam é uma jovem mulher, muito na dela e bem doce, que e também tem seus traumas e, em alguns momentos, parece que é tão desiquilibrada emocionalmente quanto o Billy. 

Porém, a situação começa a ficar complicada quando o rastro de destruição de Billy toca em pequenos segredos da comunidade que pode pôr um alvo nas suas costas, revelando a sua verdadeira face para todos. Natal Sangrento (2025) que entra em cartaz, justamente em Dezembro, o mês do Natal, aqui no Brasil, é o remake de um clássico do slasher estadunidense oitentista: Silent Night, Deadly Night (1984). 

No entanto, os dois filmes tem mais características diferentes do que em comum. A primeira interação da estória focava no desenvolvimento psicossexual e do irracional de Billy. Seu medo à figura de Noel lhe é incutido pelo avô e vítima de abusos físicos e psicológicos pela Madre Superiora do orfanato, e tudo isto ressurge com força quando é obrigado pelo patrão da loja em que trabalha como estoquista a ser vestir do "bom velhinho". É um filme lento, mas que consegue, dentro de suas limitações orçamentárias ou artísticas, construir a personagem principal de modo bastante palpável e psicologicamente amedrontador. A pulsão entre amor e morte e a transmissão de traumas geracionais dão um poder de valor, ao que poderia ser considerado hoje como "uma produção B malfeita" ou "de baixo escalão artístico" ou "um filme bobo e ridículo" (como um colega cinquentão desconhecido a mim de profissão estava defendendo, mais ou menos assim, na fila da cabine).

Apesar disso, os temas da narrativa engrandeceram este clássico, um pouco trágico e camp, do terror natalino. Inclusive as cenas que envolvem efeitos práticos ainda tem seu valor e resultado material, quarenta anos depois. O remake de 2025 mira nessa combinação, mas nem passa perto das pulsões originais.

Escrito e dirigido por Mike P. Nelson, essa nova versão quer atualizar a trama para um contexto atual, dividindo o protagonismo de Billy com Pam, esta personagem baseada em uma da obra de origem. Ela, nesta versão, ganha mais dimensão e facetas do que sua contraparte dos anos 80, um arquétipo da mocinha inocente, simpática e sexualizada das produções daquela época. A evolução de tratamento da personagem era necessária, até mesmo pelo contexto artístico e social ter rompido com cristalização do feminino no terror. 

Porém, o filme de Nelson está cheio de boas ideias e intenções, porém não consegue entregar o que promete ao público. Os diálogos são pavorosos, o gore e o humor são fracos, a fotografia é escura e sem vida, com muitas cenas mal decupadas, confusas e até mesmo mal montadas (devido aos problemas mencionados). Campbell e Modine tentam embarcar na onda do filme, mas não conseguem salvá-lo de um insólito mar de mesmice e de tédio mortal.

 Afinal, este crítico não esperava nada grandioso, já que a produtora responsável pelo remake é também responsável pela franquia Terrifier. Portanto, já esperava encontrar um filme bem trash, com muita violência, com cor e com muitos absurdos... E mesmo assim, nem isso foi entregue nas mãos da direção. Há uma sequencia em que nosso "Noel" assassino acaba caindo um covil de nazistas local e ele deve matar cada um. A ideia é divertida, exagerada e dá uma adrenalina ao filme, mas a execução é uma bagunça preguiçosa e semicompreensível. É de uma péssima capacidade de contar algo pela linguagem cinematográfica que não vejo desde Transformers 4, por exemplo, em que o espectador consegue entender como começa e termina a cena, mas não o percurso de ações que vai do ponto A ao B.

Somado a um trabalho de direção preguiçoso e confuso, que muitas vezes beira ao básico do gênero, mas sem nenhuma profundidade ou timing, há um problema de identidade muito proeminente: não sabe se é uma nova adaptação do filme de 84, ou se quer ser Dexter, ou Venom, ou Kingsman... Essa autofagia pop acaba prejudicando muito mais do que enriquecendo a obra. A sensação é de mastigar carvão, enquanto sou obrigado a ver o filme mais clichê possível. (Enquanto isso, o coleguinha que tinha falado mal do filme original, abraçou esta versão e, na sua mediocridade, o filme conseguiu "dar a volta" para ele...)

Natal Sangrento tem ideias interessantes para atualizar o conto macabro que lhe deu origem, mas é uma pena que nunca saíram da oficina do Noel. Uma pena...

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


Avatar: Fogo e Cinzas (2025) - A Nova Farofada Épica de Cameron Ainda Tem Seu Apelo

Avatar: Fogo e Cinzas (2025) | 20th Century Studios

 

Dizer que Avatar é uma narrativa épica geracional é, ao mesmo tempo, uma verdade e um eufemismo, pois o diretor James Cameron explora o mundo de Pandora dentro dessa seara e o público acompanha a jornada da família Sully, durante a tentativa de colonização do planeta por terráqueos. No primeiro filme, acompanhamos a jornada de Jake Sully (Sam Worthington), um militar que é enviado pelo governo estadunidense a se infiltrar em uma tribo Na'vi como um "avatar", mas após esse contato, ele se rebela contra o exército e lidera um revolta, à princípio, bem sucedida.  Já no segundo, ao lado de Neytiri (Zoe Saldaña), Jake forma uma família, enquanto são perseguidos pelo implacável Miles Quaritch (Stephen Lang), agora em seu "avatar". Agora, neste terceiro capítulo da saga, após de duas introduções ao universo aqui criado, o rumo da aventura fica mais soturno, mas sem as suas contradições.

Após a perda de seu filho mais velho, Jake e Neytiri e seus filhos sofrem com o luto, porém, após o encontro da família Sully com a tribo do povo das cinzas, liderados pela implacável líder xamânica Varang (Oona Chaplin), eles lutam pela sobrevivência, enquanto o governo prepara um novo plano para explorar os recursos naturais de Pandora. Nesta nova parte, Cameron desvia a atenção da personagem de Worthington para desenvolver melhor outras personagens em seu catálogo: Lo'ak (Britian Dalton) sente culpa pela morte do irmão mais velho, enquanto se empenha a salvar os tulkuns (também conhecidas como as "baleias de Pandora"); Neytiri começa a nutrir um ódio profundo a Spider (Jack Champion), o "humano de estimação" dos Sully e filho biológico e Quaritch, que começa a sofrer mutações, após Kiri (Sigourney Weaver), mesmo sofrendo com convulsões mortais, salvá-lo, através de Eywa; enquanto isso, Miles se aproxima de Varang para uma possível união contra os Sully. 

O maior acerto de Cameron neste novo filme de seu épico seja a escalação de Chaplin como a adversária dos protagonistas e sua eventual relação com a personagem de Lang. Varang se faz aqui necessária, para mostrar uma outra faceta dos Na'vi que faltava a franquia, alguém que volta contra os costumes para manter a própria sobrevivência e de seu clã. Aqui, o povo das cinzas, rompeu os laços com Eywa e querem destruição e chamas. A química que existe entre Chaplin e Lang nas cenas em que contracenam juntos, mesmo com todo o CGI, é intoxicante, para dizer o mínimo. Eles funcionam como um reflexo um do outro, do que uma balança para exaltar ou clarificar o outro personagem. Há uma sinergia que funciona bem que, certamente, deixará o público mais interessados nos antagonistas. Outra tensão que me chamou a atenção é a tensão existente entre Neytiri (que honestamente comecei a odiando e depois acabei me redimindo com ela) e Spider, que passam por transformações internas e externas, e dominam boa parte da narrativa. ao levantar questões sobre (não) pertencimento dentro de uma sociedade.

Por mais que James Cameron sabe como filmar cenas de ação, dominar com sofisticação tons narrativos e explorar todos os recursos tecnológicos a seu dispor, ele tem problemas sérios com a escrita de roteiro, o que já era um defeito recorrente da franquia. Na busca de narrativas épicas, oriundas de tradições de vários povos originários, Cameron parece ter pego todos esses elementos culturais e jogado numa roda da "jornada do herói". 

Ao mesmo tempo em que o realizador deseja avançar na narrativa e desenvolver o mundo e as personagem que criou, uma outra parte de seu ânimo parece que nunca superou o impacto cultural do primeiro Avatar, em 2009, e, não obstante, de Titanic, em 1997. Se isto já estava presente em O Caminho da Água (2022), que era uma farofada reciclada, o mesmo se aplica para Fogo e Cinzas (2025).  Aqui o protagonismo é muito mais coletivo do que nos outros filmes, o que torna o centro narrativo mais difuso (e talvez um pouco bagunçado), da mesma maneira que Cameron quer encerrar um ciclo para anunciar um próximo, mesmo que não seja da forma mais uniforme, com um terceiro ato corrido, em prol de uma grande batalha final, por exemplo. Mas, se tem uma coisa que essa produção tem é tempo e dinheiro, para não dar vexame. Sem isso, o filme não funcionaria, de um modo prático. Porém, o que Cameron falta na escrita, ele se segura na direção. 

A questão é: por quanto tempo o público será benevolente às falhas da franquia? Ou será que o público vai continuar a abraçar os filmes de Avatar como parte de seu ópio? Afinal, o mundo de Pandora, principalmente em 3D e numa tela grande como a da sala IMAX (o que faz uma grande diferença na experiência cinematográfica), é imersivo e salta aos olhos, o ritmo é agradável, e o ingresso de cinema, mesmo que custando caro, se torna mais em conta do que um ingresso de um mega parque de diversão. Ou será que Cameron agrada o olhar corporativo para tornar seu grande épico em pacto faustiano, em que para receber o ópio, precisamos deglutir um pão amanhecido e já sem o sabor de outrora?  

Avatar, para indústria hollywoodiana, é vista muito mais como um investimento do que uma obra de arte, e, por sinal, seu valor de custo é altíssimo. É bem certo a sensação de que a segunda e a terceira parte deveriam ser uma única obra, mas que foi dividida ao meio como longas interdependentes entre si. Para ter resultados de bilheteria mais uniformes, repete-se uma fórmula quantas vezes for preciso. E assim será o ritmo da dança. O que diferencia esta franquia do que outras, como a da Marvel por exemplo, que há alguém que entende de cinema e que põe anos de dedicação a estória que deseja contar. Por isso, Avatar é uma franquia de espetáculos, um tanto previsível, porém com um coração que, entre erros e acertos, ousa voar até ultrapassar o limite do que consegue abocanhar. E, com este novo filme, o caso não é diferente. 

Portanto, Fogo e Cinzas, mesmo funcionando dentro de um molde específico, tem espírito de uma era clássica, mas desconfigurada de tal apropriação, um filme instintivo e impulsivo do que metódico e centrado. No entanto, as sombras manipuladas aqui contam uma jornada um pouco mais instigante do que o predecessor de 2022, que troca chavões cafonas por algo algo mais cru e insensato, com personagens cheios de traumas. É uma longa volta, mas no final o nó parece firme o suficiente para aguentar o caminho a frente. Para quem for fã da franquia, a farofada à Na'vi de Cameron ainda tem seu apelo e é tão igualmente deliciosa quanto as anteriores, basta somente apreciar e lamber os beiços.

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Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 



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