terça-feira, 26 de maio de 2026

Hamnet (2025) - Do amor à perda

 

Hamnet | Universal Pictures

Uma obra, para comover efetivamente o público, precisa trabalhar a sensibilidade e a empatia desde o roteiro até o olhar dos espectadores. E essa não é uma tarefa tão simples quanto parece.

Chloe Zhao, ao dirigir Hamnet, explora a dualidade entre o amor e o luto sob diferentes perspectivas ao longo do filme. A narrativa acompanha Agnes (Jessie Buckley), uma mulher modesta criada em um ambiente quase místico, profundamente conectada à natureza. O encontro entre Agnes e William (Paul Mescal) desperta uma nova faísca na vida da mulher de espírito livre, desenvolvendo rapidamente um romance intenso.

O filme oferece ao público um olhar materno sobre a dor agonizante de perder um filho tragicamente. William e Agnes vivenciam fragmentações causadas pelas diferentes formas de lidar com o luto; Will se fecha para a poesia e o teatro, enquanto Agnes sente a perda intensamente em seu corpo, alma e na própria conexão com a natureza.

Sob uma nova ótica, Zhao oferece maior visibilidade à esposa de William Shakespeare, figura historicamente ignorada, colocando Agnes no centro da narrativa como protagonista. Devastada, Agnes busca motivações para resistir à tamanha perda sozinha logo após presenciar os últimos suspiros de seu filho, levado pela peste bubônica. A dor da personagem não se limita apenas ao sofrimento psicológico; a diretora conduz o luto como uma experiência física, silenciosa e contemplativa. Cada espaço vazio, o contato com a natureza e os olhares sem rumo algum reforçam a sensação de ausência constante que consome Agnes lentamente.

Jessie Buckley entrega uma atuação sensível e dolorosamente humana, transmitindo emoções profundas mesmo nos momentos de completo silêncio. A atriz carrega consigo o peso da maternidade interrompida através de expressões sutis, tornando tangível a devastação interna da personagem. Paul Mescal, por outro lado, oferece um William contido emocionalmente, utilizando a distância como mecanismo para sobreviver ao próprio sofrimento.

Visualmente, Hamnet encontra beleza até mesmo em sua melancolia. Zhao utiliza a fotografia de maneira quase etérea, aproximando os elementos naturais para o estado emocional de Agnes. O vento, a terra, os campos e a água deixam de funcionar apenas como ambientação e passam a representar extensões do vazio e da memória.

Ao retirar William Shakespeare do centro da narrativa e conceder protagonismo à mulher historicamente apagada ao seu redor, o filme humaniza uma figura frequentemente reduzida à condição de “esposa do poeta”. Agnes deixa de existir apenas como suporte para a genialidade masculina e passa a ocupar o espaço de alguém atravessada pela dor, pelo amor e pela própria identidade.

Hamnet não busca manipular o espectador através de exageros dramáticos. Sua comoção nasce justamente da delicadeza com que entende o luto: silencioso, solitário e eterno. Chloe Zhao transforma a perda em algo quase íntimo para quem assiste, fazendo do vazio deixado pela morte a presença mais forte em cena. 

Autor:

Bárbara Borges é do Rio de Janeiro e estudante de Jornalismo. Apaixonada por cinema desde criança, sempre foi movida por histórias intensas, especialmente as de terror, seu gênero favorito. Em 2024, dirigiu o documentário Além do Recinto, que levanta questionamentos sobre o bem-estar de animais silvestres em zoológicos e o impacto do confinamento longe de seus habitats naturais. Gosta de pensar no cinema como uma forma de provocar, sentir e transformar. Vive atualizando seu Letterboxd com comentários sinceros e, às vezes, emocionados. Entre seus filmes favoritos estão Laranja Mecânica, Psicopata Americano, Pânico, Pearl e Premonição 3.

Mortal Kombat 2 - Entre fatalidades e fan service, o filme encontra sua força

Mortal Kombat 2 | Warner Bros. Pictures


Johnny Cage se junta a outros lutadores na batalha definitiva, sem regras, para derrotar o domínio sombrio de Shao Kahn, um poderoso tirano que ameaça a própria existência do Plano Terreno e seus defensores.

Os jogos da franquia nunca tiveram a história como principal destaque, e aqui a trama segue essa mesma linha: é simples e direta — derrotar o vilão que ameaça destruir a Terra. No entanto, isso está longe de ser um problema. Nem todo filme precisa se sustentar em uma narrativa complexa; há espaço para obras que priorizam a experiência visual e a ação. Um bom paralelo é Mad Max: Estrada da Fúria, que basicamente acompanha um trajeto de ida e volta, mas se destaca justamente pela intensidade e criatividade de suas cenas de ação. Em Mortal Kombat 2, essa proposta também funciona. 

O filme entrega coreografias de luta bem elaboradas, valorizando as características individuais de cada personagem. Johnny Cage, por exemplo, se diferencia por não possuir poderes sobrenaturais, confiando apenas em sua habilidade como lutador — algo que reforça sua humanidade dentro daquele universo. Já Kitana combina técnica com o uso de seus leques afiados, criando um estilo de combate mais versátil e perigoso. Esse contraste torna o confronto entre os dois interessante, especialmente por ser a primeira vez em que Johnny realmente se vê em dificuldades diante de um oponente tão distinto. Com isso, o filme transforma cada confronto em algo visualmente distinto, evitando que as cenas de ação se tornem repetitivas.

No filme anterior, o protagonista era Cole Young, um personagem criado exclusivamente para adaptação e apresentado como descendente de Scorpion, um dos nomes mais icônicos da franquia. Já nesta sequência, a escolha de colocar Johnny Cage como protagonista se mostra mais assertiva, justamente por se tratar de um personagem clássico dos jogos e bastante querido pelo público. Aqui, Johnny assume a posição de figura central, quase como o arquétipo do “escolhido”. Afinal, é ele quem acaba convocado para o torneio Mortal Kombat. 

Antes disso, ele era apenas um ator de Hollywood que, apesar de já ter experimentado o sucesso, enfrentava um momento de baixa na carreira. Essa transição ajuda a dar mais camadas ao personagem, equilibrando humor e desenvolvimento. Sua personalidade continua sendo um dos grandes destaques: Johnny é cínico, exibido e extremamente debochado. O humor se mostra eficiente porque não soa forçado — ele usa as piadas como uma espécie de mecanismo de defesa, especialmente nas situações de perigo. Momentos como quando ele encontra Raiden e faz a brincadeira “mande lembranças a Gandalf” reforçam esse tom leve e irreverente. 

O filme apresenta diversas referências diretas aos jogos de Mortal Kombat, e, no geral, elas funcionam mais como reforço da identidade da obra do que como simples fan service. Um dos exemplos mais marcantes é a icônica frase Finish Him, utilizada no momento final de um combate, quando o adversário já está derrotado e resta apenas o golpe decisivo. Esse é o clímax da luta, e sua inclusão no filme preserva o peso simbólico que a expressão tem nos jogos. Ao colocá-la na fala de Shao Kahn, o roteiro acerta, pois integra a referência de maneira coerente ao contexto da cena, evitando que soe gratuita. Para quem não conhece a franquia, pode passar apenas como uma fala de efeito comum. Outro exemplo interessante está na construção visual de uma das lutas. Em determinado momento, a câmera assume um enquadramento lateral, replicando a perspectiva clássica dos jogos, onde os lutadores são vistos de perfil. Essa escolha facilita a leitura dos movimentos e cria uma conexão imediata com a experiência original. No entanto, o recurso é usado de forma breve, apenas no início da cena, antes de retornar ao padrão cinematográfico.

Mortal Kombat 2 consegue entregar uma adaptação fiel ao espírito dos jogos, valorizando a ação, o carisma dos personagens e a identidade visual dos combates. Ao compreender aquilo que tornou a franquia popular, o filme encontra sua principal força justamente no entretenimento direto e na maneira como transforma cada luta em um espetáculo próprio. Sem tentar reinventar a franquia, o longa entende exatamente o que o público quer ver — e transforma isso em seu maior acerto.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Vestidos Lindos e Intrigas Ainda Estão em Moda em O Diabo Veste Prada 2 (2026)

 

O Diabo Veste Prada 2 (2026) | 20th Century Studios


Após vinte anos, o diabo ainda veste prada? 

Durante um desastre editorial da Runway, a poderosa editora da moda Miranda Priestly (Meryl Streep) é obrigada a se reunir com Andrea/Andy Sachs (Anne Hathaway) para salvar a reputação da revista e assim como de suas carreiras.  Lançado em 2006, O Diabo Veste Prada foi um filme secular dentro da esfera das comédias dramáticas/românticas estadunidenses nos meados dos anos 2000; tornando-se um marco do gênero e conquistando uma quantidade considerável de fãs que perdura até hoje. 

Baseado no livro homônimo de Lauren Weisberger, o longa original se debruçava nos bastidores do mundo da moda através da personagem de Hathaway que é vista e tratada como uma outsider, uma presa perfeita para a antagonista de Streep, que por sua vez tem inspirações com a (agora) ex-editora chefe de Vogue US, Anna Wintour. Apesar de Sachs passar por uma série de provações quase sadomasochistas e, eventualmente, subir no conceito de Priestly, a mocinha desiste da carreira na Runway para seguir com no jornalismo. 

Como, então, realizar um filme tão amado e querido por tantas pessoas que cresceram com ele? Chamar a mesma equipe criativa do primeiro filme: o diretor (David Frankel), roteirista (Aline Brosh McKenna), produtora (Wendy Finerman), diretor de fotografia (Florian Balhaus), elenco e por aí vai... Dando assim uma continuidade artística que mantém parte de sua identidade visual anterior e um desenvolvimento de personagens muito contundente para aquele universo. No entanto, o roteiro periga pelo limiar entre uma sequencia direta e uma legacy sequel, já que na sua primeira metade, vemos que as situações arquitetadas são novas, mas nem tanto. Por mais que Andy seja uma jornalista premiada, ela ainda é tratada na Runway como se fosse a mesma de vinte anos atrás; e há também vários frames que fazem a alusão com o filme anterior como um paralelismo iconográfico do que algo de importante para a narrativa. A partir da segunda metade, o roteiro flui bem melhor, a trama fica mais interessante e o filme começa a ter mais independência de seu antecessor.

O aspecto temático mais interessante do primeiro filme, para mim, não necessariamente era a questão se Miranda era uma chefe abusiva por questões pessoais, se Andy tinha um péssimo namorado e um círculo de amigos não muito legais (por mais também que sejam pontos contundentes e temas de debates até hoje), mas era a sutil intersecção entre o mundo da moda e do capitalismo: os bastidores da indústria, as máquina institucionais do poder interno e o papel da moda em ditar aquilo que deve ser consumido e quem devem consumir. Aqui, a abordagem é unicamente direcionada ao sufocamento do jornalismo por influências de grandes conglomerados midiáticos: Andy começa a trama recebendo um prêmio e uma demissão em massa; enquanto que Miranda tenta impedir que o novo dono do conglomerado (BJ Novak) venda a Runway para um milionário. É uma mensagem direta ao estado atual do jornalismo em um filme envolto dentro uma fantasia confortável e divertida, mesmo que a abordagem seja, ainda, muito idealista e pouco desenvolvida. 

No final, o filme mescla sua crítica real a um certo ideal pós-moderno do sonho americano e o recicla em uma linda embalagem, daquelas que dá até pena de rasgar para abrir o produto: todo mundo precisa terminar bem. Essa abordagem inclusive, vem das screwball comedies dos anos 30 e 40 e, quase um século mais tarde, ainda é um recurso que é utilizado para um filme dito 'contemporâneo'; o que tem suas vantagens (sua agilidade e leveza na condução e desenvolvimento dos eventos) e desvantagens (o apego sentimental capitalista por meio do trabalho e do sucesso no mundo corporativo), é claro. Uma fantasia escapista em pleno século XXI.

Além disso, o retorno de Emily Blunt como Emily e Stanley Tucci como Nigel é mais do que bem-vindo, mas essencial e seus personagens tem mais importância nesta nova parte; principalmente a de Blunt, já que Emily é agora trabalha como chefe de departamento na Dior e tem recursos financeiros para pôr Miranda, e portanto a Runway, na palma de suas mãos e fará e tudo para conseguir o que deseja. 

Se o roteiro é um pouco irregular (até mesmo para atender por uma mensagem mais popular), a escrita das personagens e o trabalho do elenco principal conseguem cativar e prender a atenção dos espectadores, antigos e novos; e assistir estes velhos personagens ganhando novas facetas e desdobramentos que pareça natural, dado o contexto do filme, é um dos seus maiores méritos. Outro ponto positivo, se tratando de um filme sobre a indústria da moda, é, claro, o figurino lindíssimo de alta costura que é apresentado em tela (neste caso, posso dizer "gowns, beautiful gowns" de forma não irônica). Quem assina a produção de figurino é Molly Rogers que colaborou no longa anterior com Patricia Field, que é uma lenda no departamento de figurinos em Hollywood. E como pode ser visto, parece que foi suado para conseguir reunir todas as peças utilizadas no filme (inclusive várias personalidades no mundo da moda como Donatella Versace e Marc Jacobs, e etc. aparecem em pontas ao longo do projeto).

O Diabo Veste Prada 2 (2026) não apresenta muitas inovações narrativas em relação ao anterior e, com certeza, não deve converter quem não gostou da primeira parte para esta nova; porém, para aqueles que cresceram ou que são apaixonados pelo filme de 2006, este novo abraça o espectador para dentro de sua idiossincrasia fantástica, milimetricamente concebida nos pequenos detalhes: um mundo luxuoso e cheio de perigos institucionais e morais. É um reencontro de titãs, por mais que dessacralizados, mas que ainda mantém uma ou outra qualidade. Um filme feito para ficar feliz no simples, daqueles que a máquina hollywoodiana sabia fazer há uns 20 anos atrás...

Respondendo a pergunta no início do texto: sim, o diabo ainda veste prada; desta vez, são dois pares. Pois um clássico nunca sai de moda.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Super Mario Bros. O Filme (2023) - Mario, Luigi e o salto cinematográfico que ninguém esperava

Super Mario Bros. | Universal Pictures 


Mario e seu irmão Luigi são encanadores do Brooklyn, em Nova York. Um dia, eles vão parar no reino dos cogumelos, governado pela Princesa Peach. O local é ameaçado por Bowser, rei dos Koopas, que faz de tudo para conseguir reinar em todos os lugares.

A animação é a segunda adaptação para o cinema do bigodudo mais famoso dos videogames, que dispensa apresentações. A primeira foi o filme live-action de 1993, que pouco se parecia com o jogo original e evidenciou as dificuldades de levar o icônico personagem da Nintendo para as telas em carne e osso, especialmente pela perda do tom lúdico e estilizado dos jogos. Ao optar pela animação, o novo longa corrige esse caminho e mostra que o formato é muito mais adequado para capturar a essência do personagem e seu mundo.

A trama do filme é simples, assim como os próprios jogos: Mario tem apenas o objetivo de salvar a princesa, sem maiores complicações. Na adaptação, há uma mudança importante — em vez de resgatar a princesa, ele parte em busca de seu irmão Luigi, além da necessidade de construir uma narrativa mais cinematográfica, o que funciona ao dar mais personalidade à jornada e tornar os conflitos envolventes. Ou seja, não se trata apenas de colocá-lo enfrentando obstáculos e derrotando inimigos com seus saltos, mas de aprimorar a aventura com diálogos e momentos de humor que tornam a experiência mais dinâmica e cativante.

O filme, além de incorporar a trilha sonora dos jogos — como a música Overworld, de Super Mario Bros. 3, reinterpretada em arranjos orquestrais com toques de piano e trompetes —, também inclui faixas pop como I Need a Hero e Take On Me. Embora muita gente tenha criticado essa escolha, não me incomodei com a presença dessas músicas no filme, especialmente porque se encaixaram bem nas cenas e refletem um padrão comum em “animações pipoca”. Na verdade, essas escolhas musicais funcionam muito bem, trazendo familiaridade e energia ao filme sem comprometer a imersão no universo dos jogos.

O estilo visual é uma animação CGI colorida e vibrante, com visual moderno e polido. A estética mistura o charme dos personagens e ambientes dos jogos com uma luz, textura e cenários que parecem cinematográficos, mantendo cores saturadas e um mundo que parece “vivo”, mas sem exagerar no estilo cartoon tradicional — é mais um visual tridimensional refinado com detalhes visuais que lembram os jogos. A mudança de ambientes e a gradação de cores também ajudam a diferenciar o “mundo real” dos elementos fantásticos, fazendo com que o visual se sinta ao mesmo tempo fiel à franquia dos videogames e atraente para o público de cinema.

A dublagem brasileira do filme se destacou em relação ao áudio original. No original,  Chris Pratt, que deu a voz a Mário, não conseguiu reproduzir o sotaque italiano exagerado dos jogos clássicos — aquele famoso “It 's-a-me!” com pronúncia caricatural. Já na versão brasileira, Raphael Rossato, responsável pela voz de Mario, incorporou o sotaque italiano de forma marcante, com entonações e expressões que lembram um sotaque ítalo-brasileiro, conferindo mais personalidade aos personagens na versão nacional.

Super Mario Bros. O Filme consegue equilibrar fidelidade ao material original com elementos cinematográficos que tornam a experiência divertida e envolvente tanto para fãs quanto para o público em geral. Com uma narrativa simples, mas eficaz, trilha sonora que mistura referências clássicas e faixas pop, visual vibrante e dublagem brasileira de destaque, o filme demonstra que a animação é, de fato, o formato mais adequado para traduzir a essência do icônico bigodudo da Nintendo para o cinema. É uma celebração do universo de Mario, capaz de divertir, encantar e trazer novas camadas à sua história sem perder a identidade que conquistou gerações.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


O Espanta Tubarões (2004) - Peixe ambicioso cria identidade falsa, tubarão ético entra em greve moral e recife inteiro assiste ao show de drama aquático

O Espanta Tubarões | DreamWorks


Uma mentira inocente faz um peixinho se tornar herói por acidente. Mas, quando a verdade aparece, ele busca proteção se unindo a Lenny, um grande tubarão branco.


A história da animação se desenvolve em torno de Oscar, um peixe pequeno com ambições enormes, que vive em uma cidade debaixo d'água chamada Southside Reef. Na dublagem, o nome foi adaptado para “Recife Zona Norte”, o que resulta em um erro de tradução, já que, no original, a localização indicada é ao sul. Cidade essa marcada por desigualdades sociais bem evidentes — desde áreas mais simples até regiões luxuosas onde vivem os “bem-sucedidos”. Esse contraste é essencial para entender suas motivações: ele quer desesperadamente sair da base da pirâmide e ser reconhecido. 


Logo no início, o filme estabelece um conflito financeiro e pessoal que coloca Oscar sob pressão. Esse problema inicial funciona como motor da narrativa, levando-o a tomar decisões impulsivas que acabam o envolvendo em situações inesperadas. Ao mesmo tempo, vemos sua relação com Angie, que representa um contraponto importante: alguém que valoriza quem ele é de verdade, e não quem ele tenta aparentar ser.


Paralelamente, a trama apresenta o núcleo dos tubarões, uma espécie de “família mafiosa” que segue regras rígidas e expectativas tradicionais. Esse segundo núcleo adiciona tensão à história e também amplia os temas do filme, especialmente ao mostrar personagens que lutam contra papéis impostos a eles. 


Conforme os acontecimentos avançam, Oscar passa a lidar com uma nova imagem pública que começa a ganhar força dentro da cidade. Isso muda completamente sua posição social e abre portas para o estilo de vida que ele sempre quis — mas também traz complicações, principalmente porque essa nova identidade não corresponde exatamente à realidade. 


O filme explora bem as consequências desse tipo de situação: quanto mais Oscar tenta sustentar essa imagem, mas ele se afasta de quem realmente é e das pessoas que se importam com ele. Ainda assim, tudo é tratado com bastante humor, situações exageradas e um ritmo dinâmico típico de animações.


A impulsividade e vaidade do protagonista frequentemente chegam a irritar. Ele age de forma precipitada e muitas vezes exagerada para impressionar os outros, o que pode gerar frustração no espectador. Mesmo assim, essas características tornam o personagem interessante e proporcionam momentos de humor e tensão ao longo do filme.


Lenny é um tubarão branco, símbolo clássico de ameaça, sendo retratado como sensível, gentil e, sobretudo, em conflito com o papel que esperam dele. O personagem representa o tema da identidade de forma mais honesta do que o próprio protagonista em vários momentos: ele não quer fama nem aprovação superficial, mas sim aceitação genuína por quem é. Isso o torna um contraponto moral importante dentro da narrativa.


Além disso, O Espanta Tubarões frequentemente é comparado a Procurando Nemo, lançado apenas um ano antes. Ambos são animações ambientadas em mundos subaquáticos e com protagonistas peixes, mas a comparação vai além da temática: o filme da DreamWorks Animation refleta a rivalidade com a Disney, que já havia protagonizado lançamentos concorrentes como Vida de Inseto e FormiguinhaZ. Enquanto a Disney lançava produções com narrativa sentimental e clássica, a DreamWorks buscava humor irreverente, sátira e referências culturais — algo que também ficou evidente em Shrek, que brincava com os clichês dos filmes da Disney.


A trilha sonora é um dos pontos mais marcantes do filme, funcionando quase como uma extensão da própria identidade urbana e estilizada da história. O longa aposta fortemente em Rhythm and Blues, hip-hop e soul — o que combina perfeitamente com a ambientação inspirada em Nova Iorque. No geral, é uma trilha moderna e estilosa que reforça a identidade do filme e o torna mais marcante.


O Espanta Tubarões vai além da comédia ao explorar identidade e ambição. Enquanto Oscar mostra os riscos de buscar status a qualquer custo, Lenny reforça o valor de ser autêntico. Com humor, personagens carismáticos e uma estética urbana marcante, o filme equilibra diversão e mensagem de forma simples e eficaz.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.



Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra: Quando o apocalipse chega… mas primeiro precisa juntar um grupo no modo “reunião de condomínio caótica”

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra | Paris Filmes


Afirmando ser do futuro, um homem faz reféns em uma lanchonete de Los Angeles para recrutar heróis improváveis que o ajudem a salvar o mundo.

Quem assina a direção é Gore Verbinski, o mesmo responsável por O Chamado, pela primeira trilogia de Piratas do Caribe e por Rango. Nesses últimos trabalhos, o diretor explora uma combinação de comédia caricata com aventura, apresentando protagonistas marcados pelo exagero e pela expressividade. É o caso de Jack Sparrow, cuja caracterização começa pelo corpo: ele caminha de forma cambaleante, como se estivesse constantemente bêbado ou tentando se equilibrar em meio a uma tempestade — mesmo quando está em terra firme. 

Seus gestos são espalhafatosos, com mãos trêmulas, olhares rápidos e mudanças bruscas de direção, reforçando seu aspecto excêntrico. Já em Rango, o protagonista é caricato de outra maneira: trata-se de um ator perdido dentro da própria vida. Seus movimentos são nervosos, exagerados e repletos de poses dramáticas, como se estivesse sempre encenando para uma plateia invisível.  Neste filme em questão, a proposta mistura ficção científica com comédia e também apresenta um protagonista caricato: o “Homem do futuro”. Logo ao chegar ao restaurante, ele chama a atenção de todos ao subir sobre a mesa, marchando e fazendo caretas, evidenciando, mais uma vez, o gosto de Verbinski por personagens marcados pelo exagero físico e pela performance expressiva.

A premissa é, ao mesmo tempo, instigante e excêntrica: combina viagem no tempo, ansiedade tecnológica e um grupo improvável reunido em uma situação limite. Há uma clara influência da ficção científica contemporânea que problematiza a dependência digital, a inteligência artificial e o isolamento humano. O grande mérito da trama está justamente nessa ideia central — o mundo não chega ao fim por meio de uma explosão ou uma guerra convencional, mas por uma espécie de rendição silenciosa à tecnologia. Por outro lado, a experiência acaba sendo prejudicada pela duração excessiva. Com duas horas e quatorze minutos, o filme se estende além do necessário, e a narrativa certamente se beneficiaria de um corte mais enxuto, reduzindo cerca de trinta minutos para manter o ritmo mais dinâmico e envolvente.

O filme apresenta cada personagem desse grupo improvável em capítulos antes de chegarem à lanchonete, cada um apresentando os seus motivos e também sendo vítimas da tecnologia. Pegando um desses capítulos sem dar spoilers, os personagens Mark e Janet são professores que lidam com uma turma completamente absorvida pelos celulares, a ponto de isso afetar o comportamento dos alunos de maneira inquietante. Diante dessa situação cada vez mais estranha, eles acabam recorrendo a uma solução alternativa na tentativa de entender — e conter — o que está acontecendo. Essa escolha de contar a motivação de cada um, funciona, pois permite que o espectador compreenda melhor cada personagem e crie uma conexão mais sólida com o grupo como um todo.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra se sustenta pela originalidade da proposta e pela forma como articula humor, absurdo e crítica social em torno da relação humana com a tecnologia. Gore Verbinski reafirma seu interesse por personagens excêntricos e situações que beiram o caótico, construindo uma narrativa que, mesmo irregular em ritmo, consegue se destacar pela própria identidade. Apesar dos excessos — especialmente na duração e em certos momentos mais alongados —, a obra compensa ao provocar reflexão sem abrir mão do entretenimento. Ao apostar em um grupo improvável e em uma ameaça atual, o filme encontra um equilíbrio interessante entre o cômico e o inquietante, deixando uma impressão final curiosa e relevante dentro da ficção científica contemporânea.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Eles Vão Te Matar - O horror direto que prende o espectador do início ao fim

Eles Vão te Matar | Warner Bros. Pictures


Uma jovem que não tem nada a perder precisa sobreviver à noite no Virgil, o misterioso e mortal esconderijo de um culto demoníaco, para evitar se tornar a próxima oferenda.

Pegue um liquidificador, jogue Kill Bill e misture com o gênero terror — é dessa combinação que nasce Eles Vão Te Matar. Mas a semelhança para por aí. Enquanto Kill Bill transforma a violência em espetáculo estilizado e quase elegante, o filme aposta no oposto: brigas propositalmente caóticas, rápidas e desconfortáveis, que às vezes sacrificam clareza visual em nome do impacto. A diferença central está na protagonista: ao contrário de Beatrix Kiddo, que domina cada confronto com precisão quase mítica, Asia Reaves é constantemente engolida pela situação, reagindo mais do que agindo. Isso torna a experiência mais visceral, mas também menos catártica.

O terror se sustenta na tensão constante e na sensação de vulnerabilidade. Asia está cercada por ameaças imprevisíveis, e cada corredor ou porta pode esconder perigo, criando medo psicológico de inevitabilidade. A violência é gráfica e grotesca, reforçando o desconforto, enquanto os elementos ritualísticos do culto aumentam a estranheza e o suspense. O resultado é um terror contínuo, que desgasta e mantém o espectador em alerta do começo ao fim.

A trama não se prende a complexidades narrativas desnecessárias. Sua trama é relativamente simples, mas isso funciona a favor da experiência: permite que o espectador mergulhe completamente na tensão, no horror e nas cenas de combate, aproveitando cada momento sem se perder em subtramas complicadas. Mesmo sendo direta, a narrativa consegue envolver e entreter, mostrando que não é preciso uma história excessivamente elaborada para causar impacto e emoção.

O cenário do hotel onde Asia está presa é dominado por tons avermelhados. Embora o vermelho seja uma escolha previsível — já que remete diretamente ao perigo e ao sangue, ambos centrais na proposta do filme —, seu uso constante acaba funcionando mais como um reforço óbvio do clima do que como um recurso visual realmente sofisticado. Ainda assim, a insistência nessa paleta contribui para manter a sensação de ameaça contínua e, em certos momentos, ajuda a criar uma identidade visual coerente, que intensifica a atmosfera sufocante e o estado emocional da protagonista.

O trabalho de câmera merece destaque: explorando ângulos inusitados e movimentos ágeis que fogem do convencional, a cinematografia se torna uma ferramenta narrativa por si só. Cada enquadramento cuidadosamente pensado, cada plano-sequência e cada aproximação ou afastamento de lente não acompanha a história, mas permite que o espectador vivencie os acontecimentos de maneira mais profunda. Criando uma sensação de dinamismo e tensão, enquanto movimentos suaves e fluídos podem transmitir intimidade ou serenidade.

Eles Vão Te Matar combina violência intensa, terror e elementos visuais marcantes para entregar uma experiência cinematográfica envolvente e visceral. Apesar de sua trama relativamente simples, o filme consegue manter o espectador preso do início ao fim, explorando habilmente a tensão, o suspense e o caos das cenas de ação. A estética do cenário, a paleta de cores e o trabalho de câmera não apenas reforçam a narrativa, mas ampliam a imersão, tornando cada momento mais impactante e emocionalmente carregado. Demonstram que intensidade, criatividade visual e ritmo bem construído são suficientes para criar uma experiência marcante.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Hamnet (2025) - Do amor à perda

  Hamnet | Universal Pictures Uma obra, para comover efetivamente o público, precisa trabalhar a sensibilidade e a empatia desde o roteiro a...