quarta-feira, 3 de junho de 2026

Watchmen: Capítulo II (2024) - Entre máscaras que caem e deuses que se afastam, o mundo aprende o custo de ser salvo


Watchmen: Capítulo 2 | Warner Bros. Pictures


Os ex-heróis aparentemente se tornaram alvos. Enquanto todos eles enfrentam a ética, demônios internos e uma sociedade voltada contra eles, correm contra o relógio para desvendar uma trama profunda que pode desencadear uma guerra nuclear global.

O capítulo 2 de Watchmen pega diretamente as tensões estabelecidas no primeiro e aprofunda tanto o conflito moral quanto psicológico dos personagens — especialmente depois da queda de figuras como Rorschach e o isolamento de Doutor Manhattan. Se o capítulo 1 funciona quase como um mistério noir centrado na investigação de um assassinato e na decadência dos heróis, o capítulo 2 muda o foco para as consequências. A narrativa se expande: deixa de ser apenas “quem matou?” e passa a questionar “o que isso significa para o mundo?”. Essa transição é um dos pontos mais fortes — a história ganha escala sem abandonar o peso individual de cada personagem. 

Um aspecto interessante é como o roteiro trabalha o contraste entre humanidade e distanciamento. Enquanto alguns personagens tentam resgatar propósito (Como Coruja e Silk Spectre), outros se afastam cada vez mais de qualquer empatia. Esse conflito não é tratado de forma simples: o capítulo sugere que tanto o apego emocional quanto o desapego extremo podem ser problemáticos. Também há um avanço importante no tom político. O capítulo anterior já insinuava tensões globais, mas aqui elas se tornam mais explícitas e inquietantes. A trama levanta questões éticas pesadas sobre segurança, verdade e sacrifício coletivo — sem oferecer respostas fáceis. Isso reforça uma das principais qualidades de Watchmen: a recusa em romantizar seus “heróis”. Por outro lado, esse capítulo pode parecer mais denso e menos direto. Ele exige mais atenção do espectador, porque há múltiplas linhas narrativas e discussões filosóficas acontecendo ao mesmo tempo. Para alguns, isso enriquece; para outros, pode quebrar o ritmo. 

A prisão de Rorschach marca o início da sua queda de forma clara. Até então, ele operava como uma força incontrolável, guiado por sua própria lógica de justiça. Quando é capturado e desmascarado, essa imagem se quebra: ele deixa de ser a figura quase mítica e volta a ser Walter Kovacs — alguém vulnerável, preso e cercado por inimigos. Mesmo assim, o mais trágico é que ele não muda. Preso ou livre, continua preso à própria rigidez, o que mostra que sua queda não é só física, mas também interna: ele não consegue evoluir. Já o exílio de Doutor Manhattan funciona como uma queda diferente, mais silenciosa. Ele não é derrotado, mas se afasta voluntariamente do mundo. Isso revela o quanto ele já está desconectado da humanidade — a ponto de abandonar tudo sem grade conflito emocional. Enquanto Rorschach cai por ser humano demais em sua dor e obsessão, Manhattan “cai” por se tornar humano de menos. Um perde a liberdade por não ceder; o outro abandona o mundo por não sentir mais que ele importa.

A música não chama muita atenção o tempo todo, mas cumpre bem seu papel ao criar um clima constante de tensão e mistério. Ela fica mais em segundo plano na maior parte do tempo, ajudando a construir a atmosfera sem distrair, o que combina com o tom mais denso da história. Já nos momentos mais intensos, o som muda e ganha uma pegada mais marcante, com uma vibe anos 80 que deixa tudo mais estiloso e diferente, dando mais impacto às cenas de ação. Ainda assim, faz falta não terem usado algumas músicas da HQ original. Canções que combinavam tão bem com momentos importantes acabaram ficando de fora, e isso tira um pouco daquele peso emocional que essas cenas poderiam ter. Para quem conhece a obra original, essa ausência é ainda mais perceptível, porque certas músicas ajudavam a dar identidade e reforçar o significado de algumas passagens. No fim, a trilha é eficiente, mas fica a sensação de que poderia ter sido ainda mais memorável se tivesse aproveitado melhor essas referências.

Watchmen - Capítulo 2 (2024) expande o primeiro ao focar menos no mistério e mais nas consequências. A história aprofunda conflitos morais e destaca extremos através de Rorschach e Doutor Manhattan, mostrando os custos tanto da rigidez quanto do distanciamento. Mesmo mais denso, o capítulo se mantém interessante pelas questões que levanta, sem dar respostas fáceis. A trilha funciona, mas poderia ser mais marcante. No fim, reforça a ideia central de Watchmen: não sobre salvar o mundo, mas sobre o preço disso.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Backrooms: Um Não-Lugar (2026) e o Medo do Inconsciente

 

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) | Imagem Filmes

O conceito de espaços liminares se tornou uma estética bastante recorrente na internet, influenciando o gênero de suspense e horror, com histórias envolvendo creepypastas e lendas urbanas: um espaço amplo, vazio, muitas vezes abandonado, quase familiar dentro de uma memória coletiva, uma nostalgia por uma época relativamente próxima, mas não vivida; porém desorientador, silencioso, manipuladora das percepções humanas, e lar para o desconhecido... Um medo (talvez ou não) irracional do vazio. 

Quando o jovem Kane Parsons lançou um found footage no YouTube chamado The Backrooms (2022), o vídeo se tornou uma fenômeno cultural com mais 70 milhões visualizações na plataforma. Com o sucesso do primeiro vídeo, Parsons continuou a explorar esse universo em outros vídeos, disponíveis em seu canal, chamando a atenção dos estúdios e produtoras de cinema estadunidenses. Porém, a bolha cinéfila foi pega de surpresa quando, pouco tempo depois, a A24 anunciou que estava desenvolvendo um filme baseado no universo de Backrooms, dirigido por Parsons (na época, com cerca de 18 anos; agora com 21!), com produção de nomes como Shawn Levy, James Wan e Osgood Perkins, e estrelado por dois atores de peso: Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve. De certo, sejam os céticos e/ou os curiosos, todos começaram a ficar curiosos para ver o resultado final.

A ação se passa nos anos 90, Mary (Reinsve) é uma psicóloga que ainda carrega traumas do passado, ligados à sua casa de infância, enquanto que seu paciente Clark (Ejiofor) é um arquiteto frustrado que nunca conseguiu seguir seus sonhos que trabalha em uma loja de móveis falida. Após uma série de incidentes, Clark descobre uma passagem secreta que dá para um labirinto infinito de salas, reproduzindo uma realidade distorcida do mundo real. Após seu paciente ficar cada vez mais envolvido com esse microcosmo, Mary vai atrás dele e adentra nesse universo.

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) é um filme que se destaca pelo visual, a justaposição entre o mundo real com uma variedade de cores e tons e o labirinto minimalista com tons amarelados de sinestesia nauseante, e pelo sensorial, o folley e a edição de som são importantes para imersão do expectador. Parsons, que estreia na direção, parece estar confiante com o universo, no qual desenvolveu durante anos, e acredito que se beneficiou da experiência ao máximo. Não posso ainda dizer se ele é ou não um bom diretor, pois ainda é muito cedo para fazer tal declaração direta, e talvez reducionista; mas parece segurar bem a onda aqui. Seu trabalho, embora estamos falando de uma nova IP com chances (caso fizer sucesso nas bilheterias mundiais) de se tornar um carro chefe de uma nova franquia para um estúdio norte-americano, transborda um certo carinho e atenção aos detalhes estéticos e jogo de linguagens cinematográficas em uso. Em suma, é uma direção segura no que pretende.

Visual e esteticamente falando, o filme se garante; porém talvez seu ponto fraco esteja no roteiro da obra, que utiliza das caraterísticas conceituais do universo como parte de uma metáfora situacional para suas personagens, mas nem sempre consegue desenvolver seus temas de forma orgânica, principalmente no terceiro ato, quando o filme começa a flertar com o onírico, enquanto tenta enquadrar com uma subplot que envolve uma teoria da conspiração. O texto não é ruim, mas talvez a relação entre o inconsciente das personagens com a genealogia do backrooms pode ser, ao mesmo tempo, algo fascinante ou um pouco básico (afinal, estamos falando de um filme da A24), dependendo do espectador. Este crítico, tende para o primeiro lado; pois é o ponto em que se sustenta parte do horror do filme: o da percepção da mente humana em situações austeras e da ressignificação dos pesadelos. Quando o filme afunda dentro da própria loucura, ele acaba se tornando mais envolvente com o desenrolar das ações.

Para além da direção confiante de Parsons, o que ajuda elevar uma narrativa fragilizada é o combo de atuações de Ejiofor e Reinsve, que, com todos seus talentos em cena, elevam a dinâmica entre as personagens e parte do desenvolvimento pessoal de cada uma. Se suas características parecem bastante unidimensionais no papel, em cena, com estes intérpretes, a ideia ganha matéria e, portanto, suas crises parecem, ao público, reais. E diante do improvável, lentamente, o chão afunda e a realidade começa a se dissipar. Há uma cena bastante interessante que acontece no primeiro ato e acaba reaparecendo no terceiro, em uma mise en scène que me lembrou um pouco com o clímax de Massacre da Serra Elétrica de Tobe Hooper (1974): uma conversa entre a duas personagens, o texto é quase idêntico, porém o ambiente e a situação mudam o tom dessa interação espelhada. O irreal e real acabam, então, por se confundir e criar um entremeio. Se não fosse pelo trabalho dos atores, talvez o resultado poderia ser didático ou superficial demais, para um espectador com olhos já treinados para filmes de terror com um ângulo dramático acentuado.

Como um filme de estreia, Backrooms (2026) é uma obra eficiente que se debruça a explicar e explorar sua própria mitologia para seu público. Quem for fã da estética, ou do gênero, ou quem tiver uma mente mais aberta para ideias inusitadas, pode aproveitar mais o filme do que o espectador mais cético.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Watchmen: Capítulo I (2024) - O clássico de Alan Moore em uma adaptação fiel.

Watchmen: Capítulo 1 | Warner Bros. Pictures


Em 1985, o assassinato de um super-herói que virou agente do governo chama a atenção de Rorschach, cuja investigação tira seus colegas foragidos da aposentadoria e os coloca em um mistério que ameaça suas vidas e um mundo à beira da guerra.

Essa é a segunda adaptação audiovisual do quadrinho, que na época de seu lançamento — em 1986, com conclusão no ano seguinte — representou uma desconstrução do gênero de super-heróis. Não estou considerando a série da HBO, já que ela apresenta uma história original que se passa após os eventos do quadrinho e do filme. Esta nova versão é um filme em formato de animação, combinando técnicas de 2D e 3D. Impressionante como a animação CGI é exuberante e muito fluida. A movimentação dos personagens é bem trabalhada, com cenas de ação claras e dinâmicas, e a combinação entre 2D e 3D funciona bem para recriar o estilo visual do quadrinho. A paleta de cores belíssima reforça a atmosfera sombria da história. Os contrastes e a iluminação ajudam a construir o clima urbano e melancólico do universo, enquanto alguns enquadramentos lembram diretamente painéis marcantes da obra original.

A história começa com o assasinato de Edward Blake que é o comediante, que leva Rorschach, a investigar a possibilidade de alguém estar eliminando antigos vigilantes mascarados. A investigação funciona como eixo da narrativa, mas a história se desenvolve principalmente através de lembranças e perspectivas de outros ex-heróis. Esses flashbacks mostram como os personagens se tornaram vigilantes, o que aconteceu depois que atividades de super-heróis foram proibidas em 1977 e como cada um lida com esse passado. Personagens como Laurie Juspeczyk e Dan Dreiberg vivem conflitos pessoais ligados à perda do ideal heróico, enquanto Doutor Manhattan representa o impacto de um poder quase ilimitado que o afasta emocionalmente da humanidade. Ambientada em uma versão alternativa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, a trama combina mistério, política e drama psicológico para questionar o mito do super-herói. Em vez de figuras idealizadas, os personagens são moralmente ambíguos e marcados por consequências psicológicas de suas escolhas, enquanto o mundo ao redor permanece tenso e instável. Assim, a obra usa a investigação inicial para discutir poder, responsabilidade e as contradições do vigilantismo.

Essa adaptação, diferente do filme de 2009 dirigido por Zack Snyder, é mais fiel ao material original. Enquanto o longa precisou resumir e modificar alguns trechos da trama, esta versão preserva com maior fidelidade os diálogos e o ritmo da obra. A animação também busca manter o tom mais realista presente na HQ, evitando o uso de câmera lenta e coreografias excessivamente estilizadas nas sequências de ação. Assim como os autores da minissérie em quadrinhos, Alan Moore e Dave Gibbons, retratam os confrontos de forma mais direta e urbana — sem grande destaque para ferimentos explícitos — a animação segue a mesma proposta. Isso fica particularmente evidente na cena em que os Knot Tops tentam assaltar Daniel Dreiberg e Laurie Juspeczyk em um beco, sem perceber que eles são o Coruja e a Silk Spectre II. A sequência evita mostrar fraturas expostas ou sangue de forma marcante, reforçando a ideia de que os protagonistas são lutadores muito habilidosos, embora não possuam habilidades sobre-humanas.

Apesar de manter a fidelidade, há algumas diferenças, o que é comum em adaptações. Os autores do quadrinho incluíram, ao longo das 12 edições, diversos materiais extras destinados a ampliar o universo da narrativa, como memórias, entrevistas e ensaios em prosa. Na adaptação animada Watchmen: Capítulo 1, que cobre as cinco primeiras edições, quase todo esse conteúdo foi deixado de fora — uma decisão compreensível, já que seria difícil integrar plenamente esses textos a um formato audiovisual. Ainda assim, a ausência desse material é relevante, pois ele é fundamental para a compreensão completa da obra original.

No universo de Watchmen, histórias de piratas como Contos do Cargueiro Negro funcionam como substitutas das tradicionais narrativas de super-heróis. Como vigilantes mascarados existem na realidade nesse mundo, o gênero de super-heróis em declínio nos quadrinhos, e personagens fictícios como Superman deixaram de ser populares poucos anos após sua criação, no final da década de 1930. Por isso, os criadores idealizaram uma história em quadrinhos de piratas, partindo da ideia de que os habitantes daquele universo, convivendo diariamente com super-heróis, provavelmente não teriam interesse em ler quadrinhos sobre eles. Essa substituição não é apenas uma mudança de gênero: funciona como uma reflexão crítica sobre o papel da ficção quando confrontada com a realidade. Ao mostrar que a presença de super-heróis reais torna obsoletas as fantasias heroicas, a narrativa sugere que a ficção serve como espelho das necessidades humanas por escapismo, mito e reflexão moral — elementos que só se valorizam quando a realidade não os oferece diretamente.

Watchmen: Capítulo 1 se destaca como uma adaptação bastante fiel ao quadrinho de Alan Moore e Dave Gibbons; preservando o tom reflexivo e a proposta de desconstrução do mito do super-herói. A combinação entre animação 2D e CGI recria bem a estética da obra original, enquanto a narrativa mantém o foco no mistério e nos conflitos morais e psicológicos dos personagens. Mesmo com a ausência de parte do material complementar presenta na HQ, o filme consegue transmitir os principais temas da história, funcionando como uma adaptação sólida e respeitosa do clássico dos quadrinhos.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Hamnet (2025) - Do amor à perda

 

Hamnet | Universal Pictures

Uma obra, para comover efetivamente o público, precisa trabalhar a sensibilidade e a empatia desde o roteiro até o olhar dos espectadores. E essa não é uma tarefa tão simples quanto parece.

Chloe Zhao, ao dirigir Hamnet, explora a dualidade entre o amor e o luto sob diferentes perspectivas ao longo do filme. A narrativa acompanha Agnes (Jessie Buckley), uma mulher modesta criada em um ambiente quase místico, profundamente conectada à natureza. O encontro entre Agnes e William (Paul Mescal) desperta uma nova faísca na vida da mulher de espírito livre, desenvolvendo rapidamente um romance intenso.

O filme oferece ao público um olhar materno sobre a dor agonizante de perder um filho tragicamente. William e Agnes vivenciam fragmentações causadas pelas diferentes formas de lidar com o luto; Will se fecha para a poesia e o teatro, enquanto Agnes sente a perda intensamente em seu corpo, alma e na própria conexão com a natureza.

Sob uma nova ótica, Zhao oferece maior visibilidade à esposa de William Shakespeare, figura historicamente ignorada, colocando Agnes no centro da narrativa como protagonista. Devastada, Agnes busca motivações para resistir à tamanha perda sozinha logo após presenciar os últimos suspiros de seu filho, levado pela peste bubônica. A dor da personagem não se limita apenas ao sofrimento psicológico; a diretora conduz o luto como uma experiência física, silenciosa e contemplativa. Cada espaço vazio, o contato com a natureza e os olhares sem rumo algum reforçam a sensação de ausência constante que consome Agnes lentamente.

Jessie Buckley entrega uma atuação sensível e dolorosamente humana, transmitindo emoções profundas mesmo nos momentos de completo silêncio. A atriz carrega consigo o peso da maternidade interrompida através de expressões sutis, tornando tangível a devastação interna da personagem. Paul Mescal, por outro lado, oferece um William contido emocionalmente, utilizando a distância como mecanismo para sobreviver ao próprio sofrimento.

Visualmente, Hamnet encontra beleza até mesmo em sua melancolia. Zhao utiliza a fotografia de maneira quase etérea, aproximando os elementos naturais para o estado emocional de Agnes. O vento, a terra, os campos e a água deixam de funcionar apenas como ambientação e passam a representar extensões do vazio e da memória.

Ao retirar William Shakespeare do centro da narrativa e conceder protagonismo à mulher historicamente apagada ao seu redor, o filme humaniza uma figura frequentemente reduzida à condição de “esposa do poeta”. Agnes deixa de existir apenas como suporte para a genialidade masculina e passa a ocupar o espaço de alguém atravessada pela dor, pelo amor e pela própria identidade.

Hamnet não busca manipular o espectador através de exageros dramáticos. Sua comoção nasce justamente da delicadeza com que entende o luto: silencioso, solitário e eterno. Chloe Zhao transforma a perda em algo quase íntimo para quem assiste, fazendo do vazio deixado pela morte a presença mais forte em cena. 

Autor:

Bárbara Borges é do Rio de Janeiro e estudante de Jornalismo. Apaixonada por cinema desde criança, sempre foi movida por histórias intensas, especialmente as de terror, seu gênero favorito. Em 2024, dirigiu o documentário Além do Recinto, que levanta questionamentos sobre o bem-estar de animais silvestres em zoológicos e o impacto do confinamento longe de seus habitats naturais. Gosta de pensar no cinema como uma forma de provocar, sentir e transformar. Vive atualizando seu Letterboxd com comentários sinceros e, às vezes, emocionados. Entre seus filmes favoritos estão Laranja Mecânica, Psicopata Americano, Pânico, Pearl e Premonição 3.

Mortal Kombat 2 - Entre fatalidades e fan service, o filme encontra sua força

Mortal Kombat 2 | Warner Bros. Pictures


Johnny Cage se junta a outros lutadores na batalha definitiva, sem regras, para derrotar o domínio sombrio de Shao Kahn, um poderoso tirano que ameaça a própria existência do Plano Terreno e seus defensores.

Os jogos da franquia nunca tiveram a história como principal destaque, e aqui a trama segue essa mesma linha: é simples e direta — derrotar o vilão que ameaça destruir a Terra. No entanto, isso está longe de ser um problema. Nem todo filme precisa se sustentar em uma narrativa complexa; há espaço para obras que priorizam a experiência visual e a ação. Um bom paralelo é Mad Max: Estrada da Fúria, que basicamente acompanha um trajeto de ida e volta, mas se destaca justamente pela intensidade e criatividade de suas cenas de ação. Em Mortal Kombat 2, essa proposta também funciona. 

O filme entrega coreografias de luta bem elaboradas, valorizando as características individuais de cada personagem. Johnny Cage, por exemplo, se diferencia por não possuir poderes sobrenaturais, confiando apenas em sua habilidade como lutador — algo que reforça sua humanidade dentro daquele universo. Já Kitana combina técnica com o uso de seus leques afiados, criando um estilo de combate mais versátil e perigoso. Esse contraste torna o confronto entre os dois interessante, especialmente por ser a primeira vez em que Johnny realmente se vê em dificuldades diante de um oponente tão distinto. Com isso, o filme transforma cada confronto em algo visualmente distinto, evitando que as cenas de ação se tornem repetitivas.

No filme anterior, o protagonista era Cole Young, um personagem criado exclusivamente para adaptação e apresentado como descendente de Scorpion, um dos nomes mais icônicos da franquia. Já nesta sequência, a escolha de colocar Johnny Cage como protagonista se mostra mais assertiva, justamente por se tratar de um personagem clássico dos jogos e bastante querido pelo público. Aqui, Johnny assume a posição de figura central, quase como o arquétipo do “escolhido”. Afinal, é ele quem acaba convocado para o torneio Mortal Kombat. 

Antes disso, ele era apenas um ator de Hollywood que, apesar de já ter experimentado o sucesso, enfrentava um momento de baixa na carreira. Essa transição ajuda a dar mais camadas ao personagem, equilibrando humor e desenvolvimento. Sua personalidade continua sendo um dos grandes destaques: Johnny é cínico, exibido e extremamente debochado. O humor se mostra eficiente porque não soa forçado — ele usa as piadas como uma espécie de mecanismo de defesa, especialmente nas situações de perigo. Momentos como quando ele encontra Raiden e faz a brincadeira “mande lembranças a Gandalf” reforçam esse tom leve e irreverente. 

O filme apresenta diversas referências diretas aos jogos de Mortal Kombat, e, no geral, elas funcionam mais como reforço da identidade da obra do que como simples fan service. Um dos exemplos mais marcantes é a icônica frase Finish Him, utilizada no momento final de um combate, quando o adversário já está derrotado e resta apenas o golpe decisivo. Esse é o clímax da luta, e sua inclusão no filme preserva o peso simbólico que a expressão tem nos jogos. Ao colocá-la na fala de Shao Kahn, o roteiro acerta, pois integra a referência de maneira coerente ao contexto da cena, evitando que soe gratuita. Para quem não conhece a franquia, pode passar apenas como uma fala de efeito comum. Outro exemplo interessante está na construção visual de uma das lutas. Em determinado momento, a câmera assume um enquadramento lateral, replicando a perspectiva clássica dos jogos, onde os lutadores são vistos de perfil. Essa escolha facilita a leitura dos movimentos e cria uma conexão imediata com a experiência original. No entanto, o recurso é usado de forma breve, apenas no início da cena, antes de retornar ao padrão cinematográfico.

Mortal Kombat 2 consegue entregar uma adaptação fiel ao espírito dos jogos, valorizando a ação, o carisma dos personagens e a identidade visual dos combates. Ao compreender aquilo que tornou a franquia popular, o filme encontra sua principal força justamente no entretenimento direto e na maneira como transforma cada luta em um espetáculo próprio. Sem tentar reinventar a franquia, o longa entende exatamente o que o público quer ver — e transforma isso em seu maior acerto.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Vestidos Lindos e Intrigas Ainda Estão em Moda em O Diabo Veste Prada 2 (2026)

 

O Diabo Veste Prada 2 (2026) | 20th Century Studios


Após vinte anos, o diabo ainda veste prada? 

Durante um desastre editorial da Runway, a poderosa editora da moda Miranda Priestly (Meryl Streep) é obrigada a se reunir com Andrea/Andy Sachs (Anne Hathaway) para salvar a reputação da revista e assim como de suas carreiras.  Lançado em 2006, O Diabo Veste Prada foi um filme secular dentro da esfera das comédias dramáticas/românticas estadunidenses nos meados dos anos 2000; tornando-se um marco do gênero e conquistando uma quantidade considerável de fãs que perdura até hoje. 

Baseado no livro homônimo de Lauren Weisberger, o longa original se debruçava nos bastidores do mundo da moda através da personagem de Hathaway que é vista e tratada como uma outsider, uma presa perfeita para a antagonista de Streep, que por sua vez tem inspirações com a (agora) ex-editora chefe de Vogue US, Anna Wintour. Apesar de Sachs passar por uma série de provações quase sadomasochistas e, eventualmente, subir no conceito de Priestly, a mocinha desiste da carreira na Runway para seguir com no jornalismo. 

Como, então, realizar um filme tão amado e querido por tantas pessoas que cresceram com ele? Chamar a mesma equipe criativa do primeiro filme: o diretor (David Frankel), roteirista (Aline Brosh McKenna), produtora (Wendy Finerman), diretor de fotografia (Florian Balhaus), elenco e por aí vai... Dando assim uma continuidade artística que mantém parte de sua identidade visual anterior e um desenvolvimento de personagens muito contundente para aquele universo. No entanto, o roteiro periga pelo limiar entre uma sequencia direta e uma legacy sequel, já que na sua primeira metade, vemos que as situações arquitetadas são novas, mas nem tanto. Por mais que Andy seja uma jornalista premiada, ela ainda é tratada na Runway como se fosse a mesma de vinte anos atrás; e há também vários frames que fazem a alusão com o filme anterior como um paralelismo iconográfico do que algo de importante para a narrativa. A partir da segunda metade, o roteiro flui bem melhor, a trama fica mais interessante e o filme começa a ter mais independência de seu antecessor.

O aspecto temático mais interessante do primeiro filme, para mim, não necessariamente era a questão se Miranda era uma chefe abusiva por questões pessoais, se Andy tinha um péssimo namorado e um círculo de amigos não muito legais (por mais também que sejam pontos contundentes e temas de debates até hoje), mas era a sutil intersecção entre o mundo da moda e do capitalismo: os bastidores da indústria, as máquina institucionais do poder interno e o papel da moda em ditar aquilo que deve ser consumido e quem devem consumir. Aqui, a abordagem é unicamente direcionada ao sufocamento do jornalismo por influências de grandes conglomerados midiáticos: Andy começa a trama recebendo um prêmio e uma demissão em massa; enquanto que Miranda tenta impedir que o novo dono do conglomerado (BJ Novak) venda a Runway para um milionário. É uma mensagem direta ao estado atual do jornalismo em um filme envolto dentro uma fantasia confortável e divertida, mesmo que a abordagem seja, ainda, muito idealista e pouco desenvolvida. 

No final, o filme mescla sua crítica real a um certo ideal pós-moderno do sonho americano e o recicla em uma linda embalagem, daquelas que dá até pena de rasgar para abrir o produto: todo mundo precisa terminar bem. Essa abordagem inclusive, vem das screwball comedies dos anos 30 e 40 e, quase um século mais tarde, ainda é um recurso que é utilizado para um filme dito 'contemporâneo'; o que tem suas vantagens (sua agilidade e leveza na condução e desenvolvimento dos eventos) e desvantagens (o apego sentimental capitalista por meio do trabalho e do sucesso no mundo corporativo), é claro. Uma fantasia escapista em pleno século XXI.

Além disso, o retorno de Emily Blunt como Emily e Stanley Tucci como Nigel é mais do que bem-vindo, mas essencial e seus personagens tem mais importância nesta nova parte; principalmente a de Blunt, já que Emily é agora trabalha como chefe de departamento na Dior e tem recursos financeiros para pôr Miranda, e portanto a Runway, na palma de suas mãos e fará e tudo para conseguir o que deseja. 

Se o roteiro é um pouco irregular (até mesmo para atender por uma mensagem mais popular), a escrita das personagens e o trabalho do elenco principal conseguem cativar e prender a atenção dos espectadores, antigos e novos; e assistir estes velhos personagens ganhando novas facetas e desdobramentos que pareça natural, dado o contexto do filme, é um dos seus maiores méritos. Outro ponto positivo, se tratando de um filme sobre a indústria da moda, é, claro, o figurino lindíssimo de alta costura que é apresentado em tela (neste caso, posso dizer "gowns, beautiful gowns" de forma não irônica). Quem assina a produção de figurino é Molly Rogers que colaborou no longa anterior com Patricia Field, que é uma lenda no departamento de figurinos em Hollywood. E como pode ser visto, parece que foi suado para conseguir reunir todas as peças utilizadas no filme (inclusive várias personalidades no mundo da moda como Donatella Versace e Marc Jacobs, e etc. aparecem em pontas ao longo do projeto).

O Diabo Veste Prada 2 (2026) não apresenta muitas inovações narrativas em relação ao anterior e, com certeza, não deve converter quem não gostou da primeira parte para esta nova; porém, para aqueles que cresceram ou que são apaixonados pelo filme de 2006, este novo abraça o espectador para dentro de sua idiossincrasia fantástica, milimetricamente concebida nos pequenos detalhes: um mundo luxuoso e cheio de perigos institucionais e morais. É um reencontro de titãs, por mais que dessacralizados, mas que ainda mantém uma ou outra qualidade. Um filme feito para ficar feliz no simples, daqueles que a máquina hollywoodiana sabia fazer há uns 20 anos atrás...

Respondendo a pergunta no início do texto: sim, o diabo ainda veste prada; desta vez, são dois pares. Pois um clássico nunca sai de moda.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Super Mario Bros. O Filme (2023) - Mario, Luigi e o salto cinematográfico que ninguém esperava

Super Mario Bros. | Universal Pictures 


Mario e seu irmão Luigi são encanadores do Brooklyn, em Nova York. Um dia, eles vão parar no reino dos cogumelos, governado pela Princesa Peach. O local é ameaçado por Bowser, rei dos Koopas, que faz de tudo para conseguir reinar em todos os lugares.

A animação é a segunda adaptação para o cinema do bigodudo mais famoso dos videogames, que dispensa apresentações. A primeira foi o filme live-action de 1993, que pouco se parecia com o jogo original e evidenciou as dificuldades de levar o icônico personagem da Nintendo para as telas em carne e osso, especialmente pela perda do tom lúdico e estilizado dos jogos. Ao optar pela animação, o novo longa corrige esse caminho e mostra que o formato é muito mais adequado para capturar a essência do personagem e seu mundo.

A trama do filme é simples, assim como os próprios jogos: Mario tem apenas o objetivo de salvar a princesa, sem maiores complicações. Na adaptação, há uma mudança importante — em vez de resgatar a princesa, ele parte em busca de seu irmão Luigi, além da necessidade de construir uma narrativa mais cinematográfica, o que funciona ao dar mais personalidade à jornada e tornar os conflitos envolventes. Ou seja, não se trata apenas de colocá-lo enfrentando obstáculos e derrotando inimigos com seus saltos, mas de aprimorar a aventura com diálogos e momentos de humor que tornam a experiência mais dinâmica e cativante.

O filme, além de incorporar a trilha sonora dos jogos — como a música Overworld, de Super Mario Bros. 3, reinterpretada em arranjos orquestrais com toques de piano e trompetes —, também inclui faixas pop como I Need a Hero e Take On Me. Embora muita gente tenha criticado essa escolha, não me incomodei com a presença dessas músicas no filme, especialmente porque se encaixaram bem nas cenas e refletem um padrão comum em “animações pipoca”. Na verdade, essas escolhas musicais funcionam muito bem, trazendo familiaridade e energia ao filme sem comprometer a imersão no universo dos jogos.

O estilo visual é uma animação CGI colorida e vibrante, com visual moderno e polido. A estética mistura o charme dos personagens e ambientes dos jogos com uma luz, textura e cenários que parecem cinematográficos, mantendo cores saturadas e um mundo que parece “vivo”, mas sem exagerar no estilo cartoon tradicional — é mais um visual tridimensional refinado com detalhes visuais que lembram os jogos. A mudança de ambientes e a gradação de cores também ajudam a diferenciar o “mundo real” dos elementos fantásticos, fazendo com que o visual se sinta ao mesmo tempo fiel à franquia dos videogames e atraente para o público de cinema.

A dublagem brasileira do filme se destacou em relação ao áudio original. No original,  Chris Pratt, que deu a voz a Mário, não conseguiu reproduzir o sotaque italiano exagerado dos jogos clássicos — aquele famoso “It 's-a-me!” com pronúncia caricatural. Já na versão brasileira, Raphael Rossato, responsável pela voz de Mario, incorporou o sotaque italiano de forma marcante, com entonações e expressões que lembram um sotaque ítalo-brasileiro, conferindo mais personalidade aos personagens na versão nacional.

Super Mario Bros. O Filme consegue equilibrar fidelidade ao material original com elementos cinematográficos que tornam a experiência divertida e envolvente tanto para fãs quanto para o público em geral. Com uma narrativa simples, mas eficaz, trilha sonora que mistura referências clássicas e faixas pop, visual vibrante e dublagem brasileira de destaque, o filme demonstra que a animação é, de fato, o formato mais adequado para traduzir a essência do icônico bigodudo da Nintendo para o cinema. É uma celebração do universo de Mario, capaz de divertir, encantar e trazer novas camadas à sua história sem perder a identidade que conquistou gerações.

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Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


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