quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ponto Sem Retorno - Em qual ponto vamos chegar?

Ponto sem Retorno | Walt Disney Studios


Ponto Sem Retorno acompanha Hig, um piloto que sobreviveu a uma pandemia global de gripe que dizimou a humanidade, que vive em um hangar no Colorado com seu cachorro e um ex-fuzileiro, sua rotina muda ao captar uma misteriosa transmissão de rádio. O longa constrói sua narrativa a partir de uma proposta mais intimista e reflexiva, utilizando a trajetória de seus personagens para desenvolver uma mensagem clara sobre as escolhas e consequências que surgem ao longo da vida. O longa não parece interessado em esconder aquilo que deseja transmitir ao público, apresentando sua reflexão de maneira direta e deixando que os acontecimentos funcionem como parte dessa construção. Mesmo quando a história assume caminhos mais dramáticos, existe uma preocupação em tornar sua mensagem acessível, sem depender de interpretações excessivamente complexas para que o espectador compreenda sua proposta.

A narrativa se desenvolve lentamente e tenta, em diversos momentos, criar uma sensação de tensão diante dos acontecimentos, mas nem sempre consegue fazer com que essa expectativa tenha o impacto necessário. Existem situações que parecem preparar o terreno para algo mais intenso, porém acabam se resolvendo de maneira morna ou sem a força que o desenvolvimento sugeria. 

O desenvolvimento do romance também é uma das escolhas que pode dividir opiniões. Desde o primeiro encontro entre os personagens, a relação transmite uma sensação de algo forçado, como se o roteiro precisasse estabelecer aquele vínculo antes que a conexão realmente acontecesse de maneira natural.

Ainda assim, Ponto Sem Retorno consegue encontrar maneiras de tornar sua experiência mais leve, os momentos cômicos surgem de forma sutil e pontual, sem quebrar completamente o tom da narrativa, funcionando como pequenas pausas em meio às situações mais sérias. Esse humor não domina a trama, mas ajuda a criar uma dinâmica mais agradável entre os personagens e impede que o filme se torne excessivamente pesado. São justamente esses pequenos momentos que contribuem para trazer mais humanidade à história. 

Outro acerto está, justamente, no desenvolvimento dos personagens. Cada um possui um passado que, aos poucos, encontra espaço dentro da narrativa e se encaixa nos acontecimentos principais. O filme consegue fazer com que suas histórias anteriores não sejam apenas informações jogadas para justificar comportamentos, mas elementos que ajudam a compreender suas decisões e a maneira como se relacionam uns com os outros.

Ponto Sem Retorno (2026) possui uma mensagem reflexiva bem definida e encontra seus melhores momentos no desenvolvimento de personagens que carregam histórias e experiências capazes de contribuir para a narrativa principal. O longa possui qualidades suficientes para sustentar sua proposta e deixa uma reflexão clara sobre os caminhos escolhidos e as consequências que surgem quando já não existe mais volta.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Saudade, lirismo e pós colonialismo em Nosso Segredo (2026)

 

Nosso Segredo (2026) | Vitrine Filmes

Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Es kaminhu pa Santumé
Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau
Sodade, sodade

Sodade des nha térra Saniklau       (Sodade - Cesária Évora, composição: Amandio Cabral).

Durante a ausência, alguém mostra sua marca. Um espectro, conjecturado pelo inconsciente saudoso para suprir sua falta no mundo. Dizem que o mundos pertencem aos vivos, e não aos mortos; mas se os vivos quiserem, podem conjurar suas imagens para assombrá-los. Em Nosso Segredo (2026), longa-metragem de Grace Passô na direção, há um duplo fantasma: aquele que vive na memória e outro que se manifesta na inscrição de um ser no mundo. Passô, atriz e dramaturga celebrada, já vem desenvolvendo um belo trabalho sobre protagonismo feminino e a ausência do masculino em seu corpus teatral, dentre os quais vem a peça que inspira o filme (a qual não li, portanto irei me basear somente na adaptação fílmica aqui) e Mata teu pai (que já li e vi nos palcos). 

Ambas as obras apresentam uma matriarca lidando com as forças do mundo ao redor e pela falta do amor que lhe foi tirada. Em Segredo, Suely (Ju Colombo) lida com a morte misteriosa e repentina de seu marido, que acaba mudando a dinâmica de sua família; já em Mata, Medeia é abandonada por Jasão, buscando conforto nas mulheres de sua vizinha e nas filhas, com quem tem uma relação ambivalente ao longo da peça. O que Passô transmite com essas obras não é a importância de um homem, mas a ausência do amor, um sentimento considerado universal e, por sua vez, lhe é negado as suas personagens. No caso do longa em questão, não é que o amor morreu, mas empalideceu-se diante das circunstâncias, tornando-se um elo muito frágil a ser rompido a qualquer momento. Mas, ao contrário de Mata, Passô não concentra a ação em uma única personagens, trabalhando em um pequeno ecossistema orgânico que desenvolve ao logo da trama. A dor, a sua maneira, é compartilhada. Por enquanto,  voltemos ao argumento da obra: 

Em Belo Horizonte, uma família negra tenta lidar com a morte repentina de seu patriarca, um homem branco: mãe, Suely, sofre com a solidão; o filho mais velho, Gilson (Robert Frank), trabalha como motorista de aplicativo e torna-se viciado na rotina, renunciando ao sono; a filha, Grazi (Jéssica Gaspar), lida com uma depressão em segredo do namorado, Sidney (Juan Queiroz); o filho do meio, Guto (Flip), torna-se cada mais afastado da família; já o caçula da família, Tutu (Efraim Santos), tenta levar uma rotina doméstica durante esse período e ele é a única pessoa do seio familiar que conhece o segredo que levou à tragédia, o qual ele guarda com garra e força. 

A composição dos quadros, em tons azulados, em planos fechados, em closes e detalhes, a presença de coisas não ditas nos diálogos, constroem um clima ora de proximidade, ora claustrofóbico e mistério que flerta com o universo dos gêneros de suspense e do terror... Até certo ponto, muitos podem considerá-la como um "terror elevado" brasileiro, porém seria reducionista com a obra ao tacha-la nesse âmbito, já que a ficção latino-americana (ou seria nesse caso amefricana, se pensarmos em Lélia Gonzalez?) tem um farto histórico com o realismo fantástico, algo que está bem na alçada do filme. Algo fora do alcance do possível, de grandes transformações. O mistério sobre o que paira e o modo que e desenrolado é o que move a trama; mas Passô tem tempo para descrever o humano dentro de sua narrativa, mesmo que não se prenda a aspectos psicológicos e densos. O importante à obra é a transmissão da sensibilidade do público aos seus personagens, utilizando de uma construção de personagem coletiva vívida e plural, e que cause uma identificação com uma certa realidade brasileira: molhar e pôr a palavra para fora. Irromper com as amarras da dor, fortalecer o laço. 

A diretora não faz, em si, um filme político, ou de uma safra que se diz político que se generalizou na última década por uma sensação de urgência diante a situação política e social do país e produziu uma série de filmes didáticos e/ou superficiais sobre várias vertentes e gêneros (recomendo a leitura do ensaio de Hermano Callou sobre essa questão no cinema brasileiro), mas toca em elementos sociais e raciais pela tensão e pela fantasia. As tensões aumentam quando Tutu tenta avisar, de forma desajustada, e impedir que a namorada branca, Lêda (Glaúcia Vanderveld), de sua tia lésbica, Anamélia (Marisa Revert), que também vive na casa junto ao restante da família, de entrar na sua casa. Em outro momento, as mulheres conversam sobre essa questão, no qual Anamélia responde que há algo na casa, vindo de longe, que não deseja que a mulher entre dentro daquele universo. 

O filme de Passô me faz lembrar de um filme que assisti ano passado: O Riso e a Faca (2025), de Pedro Pinho (o qual já escrevi no blog na ocasião), que tem uma situação parecida. No longa de Pinho, o personagem Sérgio, um engenheiro português branco em Guiné-Bissau, vai até a casa de Cléo, uma mulher negra que conhece na sua viagem, sem ser avisado e esperando ser convidado a entrar. O embaraço começa. Claramente, Cleo não o espera, mas não deseja ser indelicada com o rapaz; ela o deixa entrar e serve um chá, mas a conversa entre os dois é fria e distante e, logo, consegue "expulsá-lo" de casa. Por mais que a situação no filme de Passô seja mediada pelo fantástico, há uma abordagem que dialoga entre as duas obras e que sintetizam o embraço do passado colonial na era do pós-colonialismo. A presença de um corpo alheio, estranho, que quer se fazer presente dentro de um espaço que não lhe pertence. A força pela insistência carrega, nestes contextos, em si, um certo pensamento que remonta a época de invasão e de escravização de pessoas africanas pelo império português. Algo que possa provocar um descompasso dentro da ordem das coisas.

Portanto, se voltarmos ao início do texto, nós temos dois espectros em jogo dentro da narrativa: um da memória e do afeto familiar; outro do colonialismo e de seus traumas que atravessam os séculos. Nosso Segredo não é urgente ou político, mas contemplativo e lírico, com um toque sobrenatural, que penetra no mundano. Convida seu público a participar e descobrir seu universo particular. Um afago no peito, uma verdade não dita, um olhar para o abismo, a descoberta de uma herança, uma história sobre identidade e de pertencimento ao mundo dos vivos: cheio de dores e encantos cotidianos. Viver um dia de cada vez. Lidar com a saudade, palavra mística da língua portuguesa, indeclinável e intraduzível; que ainda persegue no período pós-colonial.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

Coyote vs. Acme — Depois de décadas apanhando, o Coyote finalmente cobra a conta

Coyote vs Acme | WarnerBros. Pictures


Após os produtos da Acme falharem muitas vezes em sua perseguição incansável ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide contratar um advogado de porta de cadeia para processar a Acme Corporation. 

Esse é o quarto filme dos Looney Tunes a combinar live action com animação, após Space Jam: O Jogo do Século (1996), Looney Tunes: De Volta à Ação (2003) e Space Jam: Um Novo Legado (2021). Diferentemente das produções anteriores, que tinham o Pernalonga como protagonista, o filme coloca o Coyote no centro da história. Embora tenha conquistado notoriedade em seus curtas clássicos, o personagem sempre ocupou uma posição menos central na marca global dos Looney Tunes em comparação ao Pernalonga, principal mascote do estúdio. Sua participação esteve, na maior parte das vezes, limitada à perseguição ao Papa-Léguas e, fora dessa dinâmica, raramente assumia um papel de destaque no universo dos personagens.

Enquanto o Pernalonga se envolve com diferentes personagens e enfrenta situações com criatividade, inteligência e sarcasmo, o Coyote costuma ser mais reservado, concentrando-se em seus próprios fracassos e nas engenhocas da Acme. Essa característica fez com que ele permanecesse, por muito tempo, em uma posição mais secundária dentro da franquia.

Essa mudança representa uma escolha interessante, pois permite aprofundar uma das relações mais características do personagem: sua dependência das invenções da Acme. Ao transformar seus fracassos recorrentes em motivo para enfrentar a empresa judicialmente, o filme ressignifica uma dinâmica tradicional dos curtas e encontra nela o conflito necessário para desenvolver sua história.

Neste filme, porém, essa dinâmica ganha um novo significado. Após anos utilizando os produtos da Acme em suas tentativas frustradas de capturar o Papa-Léguas, o Coyote decide processar a empresa, alegando que suas invenções foram responsáveis por tantos de seus fracassos. A ideia transforma uma característica que antes servia apenas como fonte de humor em um conflito que conduz a narrativa. Seus fracassos deixam de ser somente uma sequência de situações cômicas e passam a funcionar como o ponto de partida para uma história própria.

O longa preserva o humor e a estética dos Looney Tunes, trazendo de volta seus personagens clássicos e suas tradicionais cenas de ação exageradas. A animação mantém a violência cartunesca característica, com o Coyote sendo explodido, atropelado e arremessado, enquanto outros personagens enfrentam situações igualmente absurdas. Dessa forma, o filme não abandona os elementos que tornaram o personagem conhecido, mas procura incorporá-los a uma narrativa diferente.

A produção combina atores reais com personagens animados, inserindo ambos em um mesmo universo. Os personagens de animação contracenam com pessoas, objetos e ambientes reais, criando cenas de humor físico marcadas pelo exagero e pela linguagem visual característica dos desenhos. Os personagens apresentam uma aparência tridimensional, mas recebem uma camada adicional de sombreamento e pintura digital que busca reproduzir o visual característico dos clássicos curtas de animação. Esse tratamento ajuda a integrar os personagens ao universo do longa, preservando suas formas, cores e expressões tradicionais, enquanto adapta sua estética para uma produção contemporânea.

No fim, a principal força de Coyote vs Acme está na maneira como o filme consegue expandir uma dinâmica simples dos desenhos clássicos sem abandonar sua essência. Além disso, a combinação entre live action e animação, aliada à violência cartunesca, ao humor físico e ao cuidado visual com os personagens, preserva a identidade dos Looney Tunes sem impedir que a produção apresente uma proposta diferente. Dessa forma, a obra mostra que personagens tradicionalmente secundários também podem sustentar histórias próprias, desde que suas características mais conhecidas sejam reinterpretadas de maneira criativa.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Corrida dos Bichos - Façam suas apostas!

Corrida dos Bichos | Amazon Prime


A produção do Prime Video, se passa em um futuro distópico no Rio de Janeiro, onde o mar secou após uma catástrofe climática e o tradicional jogo do bicho foi transformado em uma corrida mortal voltada para a elite. Nesse cenário, acompanhamos Mano, um jovem rebelde que é obrigado a participar da competição para salvar sua irmã, utilizada como garantia em uma aposta clandestina. A premissa já estabelece uma combinação interessante entre ação, ficção científica e elementos da cultura brasileira, utilizando um Rio de Janeiro completamente transformado como palco para uma disputa na qual cada participante precisa lutar pela própria sobrevivência. 

O roteiro segue uma estrutura relativamente simples e não busca apresentar uma trama excessivamente complexa. Porém, isso acaba funcionando a favor do filme, já que Corrida dos Bichos sabe exatamente o que deseja entregar e conduz sua história de maneira bastante direta. A narrativa apresenta seus conflitos, estabelece seus objetivos e segue em direção às corridas sem criar desvios desnecessários. É uma história simples, mas que cumpre aquilo que promete e consegue manter o interesse do espectador justamente por não tentar transformar sua premissa em algo maior do que ela precisa ser. 

Um dos grandes acertos do longa está em seu elenco, que consegue tornar os personagens bastante cativantes. Mesmo dentro de uma narrativa marcada por competição, perigo e conflitos, existe uma preocupação em fazer com que o público se envolva com aqueles que acompanhamos. As interpretações ajudam a estabelecer personalidades distintas e fazem com que as relações entre os personagens funcionem como um dos elementos responsáveis por sustentar a trama. É justamente esse envolvimento que faz com que os momentos de maior perigo tenham mais peso, já que existe uma conexão construída com os participantes da corrida. 

As corridas são outro grande destaque da produção. As sequências são muito bem feitas e conseguem transmitir a velocidade, o perigo e a dimensão da competição, utilizando a ação de maneira bastante eficiente. Existe uma preocupação em fazer com que esses momentos tenham impacto visual e não pareçam apenas uma repetição da mesma situação, mantendo a sensação de disputa e imprevisibilidade. O resultado são sequências empolgantes que funcionam muito bem como espetáculo e conseguem prender a atenção do espectador, principalmente quando os personagens são colocados diante de situações cada vez mais arriscadas. 

Construir um Rio de Janeiro distópico após uma catástrofe climática poderia facilmente resultar em um cenário genérico, mas o filme consegue aproveitar características reconhecíveis da cidade para criar sua própria identidade. O desaparecimento do mar e as transformações provocadas pelo desastre climático ajudam a estabelecer um futuro diferente daquele que conhecemos, enquanto a estética da elite que acompanha as corridas contrasta com a realidade daqueles que participam delas. 

Corrida dos Bichos é um filme que entende bem sua proposta e não tenta ser mais complexo do que precisa. No fim, o longa consegue unir ação, entretenimento e uma ambientação criativa em uma produção que aproveita uma premissa bastante brasileira para construir uma aventura de ficção científica divertida e direta.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Última Casa - Confinados e sobreviventes

A Última Casa | Netflix


A Última Casa, produção da Netflix, parte de uma premissa que rapidamente estabelece uma situação de desespero para uma família que precisa encontrar segurança dentro de uma casa enquanto uma ameaça desconhecida permanece do lado de fora. O início é um dos momentos mais eficientes do longa justamente por transmitir a sensação de urgência e vulnerabilidade dos personagens, fazendo com que o espectador queira descobrir o que está acontecendo e quais são os perigos que os cercam. Porém, depois desse primeiro impacto, a narrativa diminui consideravelmente seu ritmo e passa a investir mais na espera do que propriamente na construção de acontecimentos capazes de manter a tensão.

Apesar disso, existe uma ideia interessante na maneira como o filme acompanha a família se adaptando à nova realidade dentro da casa. Aos poucos, aquele espaço deixa de ser apenas um refúgio e passa a fazer parte da própria dinâmica dos personagens, criando uma espécie de rotina em meio ao isolamento. Essa escolha permite explorar como diferentes pessoas reagem quando precisam permanecer confinadas em um mesmo ambiente, enquanto o suspense sobre aquilo que realmente representa uma ameaça continua presente. A dúvida sobre o que existe do lado de fora consegue gerar alguns bons momentos de tensão, principalmente quando o filme opta por esconder mais informações do que revelar. 

O problema é que essa construção acaba se prolongando mais do que deveria. Depois do desespero apresentado inicialmente, o longa encontra dificuldades para manter o mesmo nível de urgência e, em determinados momentos, torna-se lento e até um pouco maçante. A sensação de espera funciona durante parte da narrativa, mas perde força quando o espectador percebe que poucas coisas estão avançando. O suspense depende diretamente da expectativa por uma resposta, e o longa nem sempre consegue transformar essa espera em tensão, fazendo com que alguns momentos pareçam apenas uma extensão do tempo necessário para chegar ao próximo acontecimento.

Wagner Moura e Greta Lee são fundamentais para sustentar essa parte mais contemplativa da história, ambos conseguem transmitir a preocupação e o desgaste emocional de seus personagens, principalmente através de expressões e pequenas mudanças de comportamento, evitando que o drama familiar dependa apenas dos diálogos. Existe uma vulnerabilidade perceptível nas interpretações que ajuda a tornar a situação mais humana e faz com que o espectador compreenda o peso psicológico daquele confinamento.

A Última Casa (2026) possui uma premissa interessante e encontra seus melhores momentos justamente quando explora o medo do desconhecido e a adaptação de uma família a uma situação completamente fora de seu controle. Porém, o ritmo irregular prejudica a experiência, especialmente após um início bastante desesperador, e o encerramento poderia ter sido muito mais impactante. No fim, é um filme que apresenta boas ideias e consegue construir alguns momentos de tensão, mas deixa a sensação de que seu potencial acabou sendo maior do que aquilo que chegou efetivamente às telas. 


Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Saccharine (Insaciável) - Estamos presos dentro dos padrões da sociedade

Insaciável | Diamond Films


Saccharine, também intitulado Insaciável (2026), utiliza o terror corporal para abordar questões extremamente atuais relacionadas à aceitação, à pressão estética e à relação cada vez mais problemática da sociedade com o próprio corpo. A narrativa acompanha Hana, uma protagonista consumida pela insatisfação com sua aparência e pelas consequências de suas escolhas, enquanto o desejo de transformação física passa a assumir proporções cada vez mais perturbadoras. O longa consegue utilizar o horror não apenas como ferramenta de choque, mas como uma maneira de representar sentimentos como compulsão, insegurança e desespero, tornando seus temas ainda mais desconfortáveis para o espectador.

Um dos grandes méritos do filme está justamente na maneira como aborda assuntos necessários, como o uso de medicamentos para emagrecimento, a compulsividade alimentar e a dificuldade de aceitar o próprio corpo. O filme não trata essas questões de maneira superficial, utilizando o exagero característico do terror para levar determinadas situações até consequências extremas. Existe uma crítica evidente à pressão para alcançar um padrão estético e à ideia de que qualquer método pode ser válido quando o objetivo é modificar o próprio corpo. 

O horror surge, portanto, de algo que não parece tão distante da realidade, tornando algumas situações ainda mais incômodas. Constrói um terror perturbador e sufocante, utilizando o desconforto físico como uma extensão do psicológico. A sensação de repulsa não está presente apenas nas imagens mais grotescas, mas também na maneira como o filme acompanha a deterioração da protagonista. O espectador é colocado diante de situações que provocam incômodo justamente porque existe uma proximidade entre aquilo que estamos vendo e problemas que fazem parte da realidade. É um horror que não depende exclusivamente de sustos, mas da capacidade de fazer o público permanecer desconfortável mesmo quando nada explicitamente assustador está acontecendo.

Hana também funciona muito bem como centro dessa construção, suas decisões desesperadas são fundamentais para que o horror avance, porque conseguimos compreender de onde vem cada escolha mesmo quando sabemos que ela está caminhando para consequências cada vez piores. O filme consegue criar uma relação interessante entre empatia e apreensão: queremos que Hana encontre uma saída, mas ao mesmo tempo ficamos constantemente apreensivos com aquilo que ela será capaz de fazer para alcançar seus objetivos. Quanto mais desesperada ela fica, mais perturbadora se torna a própria narrativa, fazendo com que suas escolhas sejam responsáveis por grande parte da tensão.

Para quem gostou de A Substância, Saccharine (Insaciável) provavelmente será uma experiência bastante interessante. Os dois filmes compartilham uma preocupação em utilizar o horror corporal para discutir a relação com a aparência, a pressão estética e os limites que alguém pode ultrapassar na busca por uma versão considerada “melhor” de si mesmo.

A produção é um terror que incomoda justamente porque seus temas possuem uma conexão muito próxima com a realidade, o filme transforma inseguranças cotidianas em uma experiência perturbadora. É um filme que utiliza o grotesco para provocar reflexão e, para quem já se entregou ao horror de A Substância, certamente merece uma chance.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

O Fim da Rua - Os dinossauros estão à solta!

 O Fim da Rua | WarnerBros. Pictures 


Em O Fim da Rua acompanhamos uma família que possui uma reviravolta em sua vida após um evento cósmico arrancar seu bairro do subúrbio e o transportar para a era dos dinossauros. A produção da Warner Bros., resgata com bastante eficiência a essência das aventuras de ficção científica e terror dos anos 80, a trilha sonora caricata e a fotografia são alguns dos principais responsáveis por essa atmosfera, trabalhando juntas para compor as cenas e estabelecer uma identidade visual própria. Existe uma preocupação evidente em fazer o espectador sentir que está diante de uma aventura de outra época, mas com recursos contemporâneos, o que contribui para tornar o filme leve, divertido e extremamente acessível.

Entre os maiores méritos do longa está justamente sua relação com o cinema de dinossauros que consegue recuperar aquela sensação de descoberta, perigo e diversão que marcou Jurassic Park, tornando-se uma das experiências mais divertidas do gênero nos últimos anos. O filme entende que os dinossauros não precisam estar presentes apenas como ameaças, mas também como parte fundamental do espetáculo, utilizando as criaturas para criar momentos de tensão, surpresa e entretenimento. Essa combinação faz com que o longa seja capaz de despertar aquela sensação de aventura que muitas produções modernas acabam deixando de lado.

A direção demonstra bastante controle sobre os acontecimentos, construindo sequências bem planejadas e executadas sem transformar a ação em uma sucessão confusa de cortes. A movimentação da câmera, os enquadramentos e a utilização dos dinossauros dentro dos cenários ajudam a criar uma sensação de escala e perigo, fazendo com que o espectador se sinta inserido naquele ambiente. Essa escolha é especialmente importante para uma produção que depende tanto do espetáculo visual, já que a ação não funciona apenas como uma pausa entre os momentos narrativos, mas como parte essencial da experiência.

Anne Hathaway e Ewan McGregor também entregam atuações que elevam consideravelmente a imersão da produção, ambos conseguem transmitir com naturalidade as diferentes emoções exigidas pela narrativa, alternando entre momentos de humor, tensão, medo e vulnerabilidade sem deixar que seus personagens pareçam deslocados dentro de uma aventura tão grandiosa. Existe uma química entre os dois que ajuda a sustentar os momentos mais pessoais da história e faz com que o público se importe com aquilo que está acontecendo além dos próprios dinossauros.

Porém, o longa encontra seu principal problema justamente quando começa a se encaminhar para a conclusão. Do meio para o final, algumas das questões apresentadas ao longo da história parecem ser solucionadas rápido demais, fazendo com que o encerramento transmita uma sensação de corte seco. Quando os créditos começam a aparecer, fica aquela sensação inevitável de: “Já acabou? É isso?”. O problema não está necessariamente na resolução em si, mas na velocidade com que ela acontece, dando a impressão de que faltou um pouco mais de desenvolvimento para que o desfecho tivesse o mesmo impacto construído durante o restante da produção.

O Fim da Rua (2026) é, acima de tudo, um filme extremamente divertido e uma das melhores experiências com dinossauros desde Jurassic Park. Embora seu terceiro ato acelere demais e deixe uma sensação de encerramento abrupto, o conjunto ainda funciona muito bem como entretenimento. É um daqueles filmes que conseguem fazer o público simplesmente sentar, assistir e se divertir, recuperando uma sensação de aventura que o cinema contemporâneo nem sempre consegue reproduzir.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Ponto Sem Retorno - Em qual ponto vamos chegar?

Ponto sem Retorno | Walt Disney Studios Ponto Sem Retorno acompanha Hig, um piloto que sobreviveu a uma pandemia global de gripe que dizimo...