quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Saneamento Básico, O Filme - O longa em que a ficção fede menos que a realidade

Saneamento Básico: O Filme | Vitrine Filmes


Moradores de uma pequena vila se juntam para pleitear a construção de uma estação de tratamento de esgoto. Para conseguir o dinheiro, eles precisam fazer um filme de ficção.

O filme é uma comédia que combina humor crítico sobre o uso irresponsável de recursos públicos com uma abordagem voltada às questões ambientais, além de retratar os desafios e situações inusitadas da produção de um filme independente no Brasil. A história acompanha os moradores de uma cidade fictícia do interior do Rio Grande do Sul, que se mobilizam para exigir a revitalização de um arroio, incomodados com o mau cheiro próximo às suas casas. Apesar da reivindicação, a prefeitura alega não ter recursos para a obra, dispondo apenas de cerca de R$10 mil para a produção de um vídeo. Diante disso, a comunidade decide realizar um filme como forma de chamar a atenção para o problema e a buscar uma solução. O filme valoriza a ação coletiva, a inventividade popular e o poder do engajamento social como caminhos possíveis para enfrentar problemas estruturais e buscar soluções concretas.

Um dos aspectos do longa que considero mais engraçado — e que costuma gerar confusão — é o mal-entendido em torno do edital, que exigia a produção de um filme de ficção. Os personagens interpretam essa exigência de forma literal, acreditando que precisariam criar uma história com seres fantásticos. A partir dessa leitura equivocada, decidem incluir um monstro na narrativa que estão produzindo. Esse equívoco funciona como um recurso cômico eficaz, mas também revela, de maneira leve e inteligente, a distância entre a linguagem burocrática dos editais e a compreensão de quem está fora do meio técnico do audiovisual. Ao transformar a confusão em humor, o filme valoriza a criatividade popular e reforça seu olhar afetuoso sobre pessoas comuns que, mesmo sem domínio formal da linguagem cinematográfica, se arriscam a criar e contar histórias.

Os personagens do filme são inspirados na commedia dell'arte, um gênero de teatro popular surgido na Itália no século XVI, marcado por personagens fixos, improvisação a partir de roteiros simples (canovaccio) e forte comédia física. Essa influência no exagero cômico, nos tipos bem definidos e nas situações corporais, contribuindo para o tom leve, popular e humorístico da narrativa. Marina encarna uma mulher determinada, que busca provar ao pai ser capaz de cumprir uma tarefa que ele não conseguiu realizar. Joaquim é um cômico inspirado no Arlequim: tenta agradar a todos, mas frequentemente fracassa. Silene e Fabrício formam o casal de enamorados, com traços opostos e complementares — ela é bela e consciente de seu charme, enquanto ele é vaidoso, convencido e fanfarrão. Já Otaviano e Antônio representam pólos contrastantes: o primeiro vem de uma nobreza em decadência, enquanto o segundo ascende economicamente sem grandes méritos. No conjunto, o filme utiliza esses arquétipos clássicos de forma inteligente, transformando a comédia em uma ferramenta para observar e questionar comportamentos e hierarquias sociais, sem perder o tom popular e divertido.

Saneamento básico, O Filme combina humor, crítica social e reflexão ambiental de maneira criativa e acessível. Ao unir uma história de engajamento comunitário, situações cômicas derivadas de mal-entendidos e personagens inspirados na tradição da commedia dell’arte, a obra consegue entreter e, ao mesmo tempo, provocar pensamento crítico sobre questões como o uso de recursos públicos, desigualdades sociais e a importância da ação coletiva. O filme celebra a inventividade popular e a força das pessoas comuns, mostrando que, mesmo diante de limitações, é possível transformar desafios em soluções com criatividade, humor e coragem.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

American Satan - Fama instantânea, consequências ignoradas e muito exagero

American Satan | Miramax


Jovens estadunidenses e ingleses abandonam a universidade e decidem formar uma banda de rock. Eles se mudam para Los Angeles, mais precisamente na famosa Sunset Strip, e tentam a sorte em busca de seus sonhos.

Pela sinopse, você até espera uma história bonitinha sobre amigos lutando por seus sonhos… até perceber que é basicamente uma receita de pacto com o diabo temperada com cabelo bagunçado e guitarras barulhentas. A banda, meio estadunidense, meio britânica, logo descobre que o sucesso tem um preço literal: Satanás em pessoa, aparece como um empresário de rock com poderes sobrenaturais e gosto questionável para sacrifícios humanos. Um minuto você está tentando conseguir um show, no outro já está considerando rituais diabólicos e milagres bizarros. Difícil levar a sério.

O filme também parece acreditar que Satanás secretamente escreveu todas as grandes músicas de todos os tempos e que isso justifica qualquer comportamento absurdo da banda. Entre estereótipos de caipiras que brigam só por causa da aparência e uma moral completamente confusa, fica a sensação de que o roteiro não sabe se quer criticar a indústria musical, se quer fazer sátira ou apenas mostrar jovens desesperados com cabelo bagunçado. No final, o longa deixa mais perguntas do que respostas: ser talentoso ajuda alguma coisa na música? Vender a alma é realmente o caminho mais rápido para o sucesso? ou tudo é só uma desculpa para exageros de rock e sofrimento juvenil? uma coisa é certa: o filme não tem vergonha de mergulhar no absurdo — mas é dificil mergulhar junto sem rir ou suspirar várias vezes.

Em vez de aproveitar para desenvolver uma discussão mais profunda, o filme prefere mostrar que, à medida que a banda conquista fama, alguns fãs começam a imitar os atos mais polêmicos do grupo. Quando o protagonista Johnny acaba matando alguém em legítima defesa, adolescentes que sofrem bullying resolver seguir o exemplo… só que de maneira ainda mais exagerada e violenta. Há até alguns trechos que tentam abordar a violência juvenil e mostram a banda em uma aparição rápida na TV discutindo o assunto. Mas, na prática, o filme parece mais interessado em exibir os músicos se divertindo em boates de strip-tease com decoração satânica do que em realmente explorar o impacto de suas ações.

O filme se destaca por algumas decisões visuais interessantes, especialmente na forma como utiliza a cor para transmitir emoção. A paleta é marcada por tons intensos de vermelho, que aparecem com frequência e conferem à obra uma energia quase pulsante, refletindo tanto a paixão da banda quanto os momentos de tensão que permeiam a história. A câmera também entra no espírito da banda: rápida, inquieta e sempre correndo atrás da ação, como um amigo tentando acompanhar o ritmo de uma festa que já saiu do controle. Nos shows, ele praticamente dança junto com os músicos, captando cada salto, cada nota desafinada e cada fã que perdeu o equilíbrio de tanto pular. O resultado é que o espectador se sente parte do caos — quase como se estivesse tentando segurar um microfone enquanto a banda toca no meio da sala.

American Satan é como um prato que promete alta gastronomia, mas entrega uma mistura de ingredientes exóticos que ninguém pediu: uma pitada de pacto com o diabo, uma colher generosa de boates satânicas, uma fatia de violência exagerada e, para temperar, guitarras barulhentas e cabelo bagunçado. O resultado é estranho, meio indigesto, mas de algum jeito curioso o suficiente para você continuar provando até o final — rindo, suspirando e se perguntando se acabou de assistir a um drama, uma sátira ou uma receita de caos rock’n’roll mal temperada.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Coração de Tinta: O Livro Mágico - Quando ler se torna uma aventura… literal!

Coração de Tinta | PlayArte Pictures


Um homem com habilidade de dar vida a personagens de livros acidentalmente convoca um dos vilões mais perversos da literatura. Agora, ele tem que enviar o vilão de volta para o seu mundo, antes que seja tarde demais!

Mo Folchart e sua filha Maggie, de 12 anos, têm uma forte ligação com os livros e com a leitura, hábito cultivado desde a infância pela influência do pai, que trabalha como encadernador. Mo é um cara tranquilo e de boa com a vida, além de ser um pai muito dedicado, sempre disposto a fazer o que for necessário para proteger a família. Sua postura cuidadosa e responsável não só mostra o quanto ele valoriza quem ama, mas também reforça a credibilidade do personagem como um herói cotidiano, cuja coragem se manifesta de forma prática e emocional.

Maggie é uma menina inteligente, curiosa e com grande imaginação, que sonha em se tornar escritora no futuro. Apesar de às vezes se frustrar por não conseguir escrever como gostaria, isso revela não apenas senso crítico, mas também disciplina e desejo genuíno de aprimoramento, qualidades que a tornam uma personagem admirável e inspiradora. Em alguns momentos, ela pode ser teimosa, mas essa característica também revela coragem, iniciativa e determinação, como quando questiona decisões do pai diante de situações difíceis. A relação entre pai e filha não apenas traz emoção genuína e conexões humanas autênticas, mas também fortalece o núcleo emocional do filme, tornando-o mais envolvente e significativo para o público

A história se destaca por misturar fantasia e literatura de forma instigante, transformando a leitura em algo mais do que um simples passatempo: ela se apresenta como uma força viva. O enredo prende o espectador ao criar um universo em que os livros funcionam como portais, conectando realidade e imaginação de forma fluida e criativa. Cada ação dos personagens dentro desse universo tem repercussões inesperadas, reforçando a ideia de que palavras e histórias carregam peso e poder. Além disso, a trama explora o impacto emocional das narrativas, mostrando como a paixão pelos livros pode moldar relações, decisões e até destinos, tornando a história envolvente pela dimensão afetiva que transmite. Ao mesmo tempo, a maneira como filme combina aventura e elementos literários evidencia um cuidado narrativo que valoriza tanto o ritmo da história quanto a profundidade temática, destacando-se como uma obra que consegue entreter e provocar reflexão sobre o papel da leitura na vida das pessoas.

O filme se destaca por suas referências literárias, tornando a história um verdadeiro tributo aos clássicos. São citadas ou mostradas obras como Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, Lewis Caroll, contos dos Irmãos Grimm como Chapeuzinho Vermelho e João e Maria, além de clássicos como O Jardim Secreto, Heidi e Beleza Negra.Também aparecem autores renomados com Charles Dickens, com Um Conto de Natal e Barnaby Rudge, Oscar Wilde (O retrato de Dorian Gray), Robert Louis Stevenson (A Ilha do Tesouro) e Mark Twain (As aventuras de Huckleberry Finn), além de contos como Cinderela, Rapunzel e Ali Babá e os Quarenta Ladrões. Essas referências, muitas vezes mostradas fisicamente ou citadas em diálogos, não apenas enriquecem a ambientação do filme, mas também demonstram um cuidado narrativo que valoriza a cultura literária e incentiva o público a explorar essas obras. Ao integrar clássicos de forma orgânica à trama, o filme reforça seu tema central — o poder dos livros e da imaginação de transformar a realidade —, ao mesmo tempo em que oferece uma experiência educativa e estimulante, mostrando como uma literatura pode dialogar com a fantasia e com a vida cotidiana de forma significativa.

Coração de Tinta: O Livro Mágico consegue unir aventura, emoção e literatura de maneira envolvente, criando um mundo onde a imaginação ganha vida e cada livro se torna uma ponte entre realidade e fantasia. A combinação de personagens cativantes, uma relação familiar genuína e referências literárias clássicas transforma a história em uma celebração do poder das palavras e da leitura, mostrando que os livros têm a capacidade de inspirar, desafiar e transformar quem os lê. É uma narrativa que encanta tanto pela ação e aventura quanto pela riqueza afetiva e cultural que oferece, deixando uma mensagem duradoura sobre coragem, criatividade e o amor pelos livros.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Por Água Abaixo - Quando a descarga vira lição de vida

Por Água Abaixo | DreamWorks


Roddy é um ratinho acostumado a um bairro luxuoso de Londres. Sem querer, ele dá uma descarga infeliz e acaba nos esgotos, onde terá de aprender a viver de uma forma completamente diferente.

Roddy representa o estereótipo do rico herdeiro que sempre viveu em sua própria “bolha”, que seria a sua gaiola. Sua jornada gira em torno do confronto com a realidade do seu próprio povo. Antes de cair na privada, ele vivia isolado, interagindo apenas com bonecos, o que evidencia sua solidão e alienação. Embora soubesse da existência do esgoto, enxergava-o como um lugar sujo via as coisas como um ser humano sempre viu, que o esgoto era um lugar sujo e inferior. No entanto, ao conhecê-lo, percebe que, apesar das condições precárias, existe ali uma sociedade organizada, na qual os ratos trabalham e se ajudam mutuamente. A principal diferença entre eles está no privilégio: Roddy sempre teve conforto e proteção, enquanto os demais precisaram sobreviver com muito menos. Do ponto de vista do protagonista, ser animal de estimação de humanos era visto como um luxo.

Ao longo da aventura, o protagonista conhece uma rata catadora de lixo, filha mais velha de uma numerosa família. Trabalhadora e determinada, ela assume responsabilidades que vão além da própria idade, buscando no lixo recursos para garantir a sobrevivência de todos. Sua postura evidencia não apenas a desigualdade social presente na obra, mas também ressalta valores como solidariedade, esforço e resiliência. Diferentemente de Roddy, que sempre viveu cercado de conforto, ela representa a força daqueles que, mesmo diante das dificuldades, mantêm a dignidade e o compromisso com quem amam.

A obra evidencia a desigualdade social ao representar a classe mais pobre por meio dos ratos que vivem no esgoto, enquanto a classe mais rica é simbolizada pela vida confortável de Roddy. Na realidade, observa-se que indivíduos pertencentes às classes mais altas frequentemente demonstram preconceito em relação às pessoas de baixa renda, tratando-as como inferiores. Essa desigualdade social pressupõe a inferiorização das camadas menos favorecidas e reflete valores de grupos privilegiados, gerando atitudes excludentes. Isso se manifesta tanto no preconceito de Roddy em relação aos ratos do esgoto quanto na forma como eles também o enxergam.

O estúdio responsável pela animação, a Aardman Animations, costuma produzir filmes utilizando a técnica de Stop Motion, que consiste na animação quadro a quadro. Essa técnica cria a ilusão de movimento por meio da manipulação física de objetos, como massinhas ou bonecos, fotografando a cada pequena mudança de posição. Entre outras produções do estúdio estão Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais e A Fuga das Galinhas. Apesar de Por Água Abaixo apresentar o mesmo estilo visual dessas animações, ele não foi produzido em Stop Motion. A presença constante de água tornaria a técnica extremamente complexa e difícil de executar. Por isso, optou-se pela animação em 3D tradicional,preservando a identidade visual que é marca registrada do estúdio. Dessa forma, a escolha demonstra que é possível inovar tecnicamente sem perder a essência artística.

Por Água Abaixo vai muito além de uma simples animação sobre ratos aventureiros. O filme utiliza humor e fantasia para abordar temas sérios, como desigualdade social, preconceito e privilégios, mostrando que a verdadeira mudança acontece quando saímos da nossa própria “bolha”. Ao acompanhar a jornada de Roddy, o público percebe que, às vezes, é preciso literalmente “descer pelo ralo” para enxergar o mundo com outros olhos. No fim das contas, entre esgotos e mansões, a maior lição é que valor não está no lugar onde se vive, mas na forma como se vive.

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Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Isso ainda está de pé? - Quando a Vida é um Palco (e o Casamento Também)

Isso Ainda está de Pé? | Disney


O casamento de um casal é destruído enquanto ele persegue a comédia em Nova York e ela se reencontra. Juntos, aprendam a redefinir sua relação e dinâmica familiar em meio a grandes mudanças.

A trama é sobre o casal Alex e Tess Novak que após a separação, cada um inicia um processo de redescoberta pessoal. Ele mergulha no universo do stand-up, transformando experiências íntimas em material cômico, como por exemplo o fim de seu casamento. Enquanto ela retorna antigos sonhos e reconstrói sua identidade além do papel de esposa. No caminho, ambos enfrentam inseguranças, novos relacionamentos e os desafios de manter a parceria na criação dos filhos, mesmo já não sendo um casal. É nisso que a obra se destaca, por tratar o fim do casamento com sensibilidade e maturidade, explorando as nuances emocionais de duas pessoas que ainda compartilham laços profundos. Ao equilibrar humor e drama, a narrativa evita simplificações e oferece uma reflexão honesta sobre crescimento individual, corresponsabilidade parental e a possibilidade de redefinir o amor em novos moldes.

Alex utiliza o stand-up como uma forma de transformar o fim do casamento e outras frustrações pessoais em piadas, revelando como humor pode funcionar como um verdadeiro mecanismo de defesa. Ao subir no palco, ele reorganiza suas dores em narrativas engraçadas, o que lhe permite certo controle sobre experiências que, fora dali, parecem difíceis de enfrentar. Nesse sentido, o riso não elimina o sofrimento, mas o torna mais suportável. Essa postura reflete algo bastante comum: muitas pessoas recorrem à ironia e ao auto deboche para suavizar situações dolorosas. Rir de si mesmo pode ser uma maneira de antecipar o julgamento alheio ou de mascarar vulnerabilidades, criando uma espécie de proteção emocional. No caso de Alex, a comédia funciona simultaneamente como catarse e como escudo — ao mesmo tempo em que ele expõe suas fragilidades ao público, também as filtra por meio do humor, evitando um confronto direto com a própria tristeza.

Tess é retratada como uma mulher que, diante do fim do casamento, inicia um processo de redescoberta pessoal. Ao retomar antigos interesses e investir em seus próprios objetivos, ela passa a reconstruir sua identidade de forma mais autônoma, buscando equilíbrio entre a vida profissional, a maternidade e seus desejos individuais. Sua trajetória evidencia as inseguranças e desafios que acompanham grandes mudanças, mas também revela determinação e amadurecimento. A personagem se destaca por ser construída com profundidade e realismo, fugindo de rótulos simplistas. Tess representa a complexidade de quem precisa se reinventar sem perder de vista suas responsabilidades e afetos. A narrativa valoriza sua força emocional e sua capacidade de crescimento, oferecendo uma visão sensível sobre independência, autoconhecimento e a importância de manter a própria individualidade mesmo em meio às transformações da vida adulta.

Os filhos do casal ensaiam a música Under Pressure para o show de talentos, e essa música combina com a trama porque fala sobre as tensões e expectativas que pesam sobre as pessoas, especialmente dentro dos relacionamentos. A ideia de que a pressão afeta ambos (pressing down on you, pressing down on me) dialoga com a dinâmica do casal, mostrando que os conflitos são compartilhados, não individuais. Ao mesmo tempo, a música destaca a importância do amor e da empatia como resposta às dificuldades. Assim, ela reforça o tema central da história: enfrentar os desafios da vida adulta e das relações sob pressão, aprendendo a lidar com eles de forma mais consciente e humana.

No longa, a câmera é muito próxima dos atores para que o público sentisse de perto as emoções dos personagens, sem a sensação de distância ou segurança que cenas filmadas de longe podem criar. Essa escolha permite que cada expressão, gesto e olhar do casal, se torne mais intenso e significativo, aproximando o espectador de suas alegrias, frustrações e tensões. Para que a experiência refletisse o que é estar dentro do mundo desses personagens, desde a pressão e nervosismo de subir no palco em apresentações de stand-up até os momentos delicados das conversas entre o casal. Essa proximidade faz com que o público vivencia junto os conflitos e dilemas do relacionamento, tornando a narrativa mais envolvente e emocionalmente impactante. Essa decisão estética demonstra como a proximidade visual pode ser usada para aprofundar a conexão emocional e a compreensão das complexidades do relacionamento, mostrando que a vulnerabilidade dos personagens é o verdadeiro motor da narrativa.

Isso Ainda Está de Pé? constrói um retrato sensível e contemporâneo sobre o fim de um casamento e os caminhos possíveis após a ruptura. Ao acompanhar Alex e Tess em seus processos individuais de amadurecimento, a narrativa mostra que separações não precisam ser tratadas apenas como fracasso, mas também como oportunidades de autoconhecimento e transformação. O humor, no caso de Alex, e a redescoberta pessoal, no caso da Tess, revelam formas distintas — porém igualmente legítimas — de lidar com a dor e com as mudanças. 

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Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

A Herança - Para Além de Hamlet

A Herança | Ozualdo Candeias


No inicio deste ano, li a obra “Hamlet” de William Shakespeare. Coincidentemente ou não, neste mesmo ano foi lançada a obra “Hamnet” de Chloe Zhao, cuja projeção colocou o filme na temporada de premiações. Este filme segundamente citado não é adaptação da obra primeiramente citada, mas a possui como um dos objetos centrais da trama.

Neste bolo todo de filme do Oscar e da obra de Shakespeare fiquei sabendo da existência de “A Herança”, do brilhante Ozualdo Candeias — diretor da perfeição “A Margem” — e lançado em 1970. A obra que tem como objetivo trazer o Hamlet para o cenário brasileiro, mais para ser especifico a cidade de Dumont (curiosamente, à aproximadamente 196 quilômetros da cidade que vivo).

Sem muitas falas, apenas quatro, pelas minhas contas, sendo destas apenas uma composta de mais de uma palavra: “to be or not to be”, A Herança é mais um estudo em cima de Hamlet que uma releitura ou uma adaptação direta. Ozualdo faz algo perto do que Neville fez em “Jardim de Guerra”, um espaço onde animais estão comandando os outros, onde não se sabe quem ou o que os controla, mas se tem noção de uma vontade maior que seus próprios impulsos ou desejos.

Um cenário de Western, de fato, algo como Ozualdo gostava de fazer, visto que este tinha o gênero como um de seus favoritos. Ele filma o interior como se fosse, de fato, um cenário de Howard Hawks ou de John Ford, mas pega na câmera como um verdadeiro cineasta moderno, que busca subverter a relação entre o espaço e o plano.

Me chamou atenção a cena onde o pai de Hamlet aparece a primeira vez ao garoto. A assombração não é como se fosse algo de fato uma presença espiritual, ela atua mais como uma mancha na câmera, algo que não deveria ser gravado, mas por ventura foi gravado. E, por curiosidade, este fantasma parece falar mais que muitos personagens vivos. Neste momento me veio à memória a interpretação dupla das ultimas palavras de Hamlet: “the rest is silence”, que é traduzida como: “o resto é silencio”, mas que também pode ser: “o descanso é silencio”, e como não há o descanso, não há o silencio, portanto.

O cinema brasileiro nasceu do completo silencio, onde as obras mudas como “Limite” de Mário Peixoto usavam o silencio para causar esse barulho ensurdecedor. Mesmo que naquela época não fosse possível haver o silencio absoluto, pois este era tão absoluto que deixava de existir. Na chegada do som, se criou o que é de fato o silencio, como já era pontuado por Robert Bresson. Mas o nosso cinema sempre foi pautado neste silencio, e foram os outros cinemas que tiveram de buscar.

O cinema brasileiro está de olho no silencio, e muitos cineastas de hoje em dia pautam o silencio como se fosse apenas a ausência de diálogos, sendo que não é assim que funciona, jamais foi. A nossa filosofia está além do céu e da terra, pois estas coisas são abjetas e inúteis. Nossa filosofia é o resto, e o resto é silencio.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

Justiça Artificial - O dia em que terceirizamos a ética para um algoritmo

Justiça Artificial | Amazon Prime


Em um futuro próximo, um detetive (Chris Pratt) está sendo julgado, acusado de assassinar sua esposa. Ele tem 90 minutos para provar sua inocência à avançada justiça de Inteligência Artificial (Rebecca Ferguson) que ele mesmo ajudou a implementar, antes que ela determine seu destino.

A maior parte do filme se concentra na interação entre o protagonista Chris — personagem que, de forma interessante, compartilha o mesmo nome do ator que o interpreta — e a juíza Maddox. Abalado pelos acontecimentos recentes, Chris demonstra confusão e fragilidade emocional, sem conseguir compreender plenamente o que está acontecendo ao seu redor. Durante o diálogo entre os dois, são exibidas gravações do próprio protagonista, incluindo uma briga de bar da qual ele não se lembrava ter participado, além de registros de algumas de suas operações como detetive. Esse recurso narrativo fortalece o impacto psicológico da trama, aprofundando o conflito interno do personagem e instigando o espectador a questionar a confiabilidade de sua memória e identidade.

Sobre os vídeos no meio dos diálogos, interage com a estética do Found Footage ao construir sua narrativa por meio de câmeras corporais, recurso que confere maior proximidade e imersão à história. Essas câmeras não apenas funcionam como ferramentas de registro, mas também preservam a mesma sensação de imediatismo e realismo típica desse estilo, fazendo com que o espectador se sinta parte dos acontecimentos. Ao adotar esse ponto de vista, a obra intensifica a experiência sensorial e emocional, reforçando a tensão e a subjetividade do protagonista, além de contribuir para uma narrativa mais envolvente e verossímil.

Ao ampliar o escopo de seu mistério para além da pergunta do responsável pela morte da vítima, a produção se distancia das convenções mais tradicionais desse gênero e permite explorar camadas mais profundas do crime. Em vez de se limitar à resolução do enigma, a narrativa volta seu olhar para as motivações que impulsionam as ações dos personagens, relacionando-as diretamente ao contexto sociocultural em que estão inseridos. Esse deslocamento de foco faz com que a obra saia de sua própria zona de conforto, apostando em uma abordagem mais reflexiva e humana, na qual o crime deixa de ser apenas um evento isolado e passa a ser compreendido como resultado de tensões sociais, psicológicas e morais mais amplas. Dessa forma, o filme constrói um suspense que não se sustenta apenas na revelação final, mas no processo de investigação interna e coletiva que se desenrola ao longo da narrativa.

O filme propõe uma reflexão pertinente sobre o poder crescente da inteligência artificial e seus impactos éticos e sociais. Embora dialogue com um discurso contemporâneo que reconhece os riscos da IA nem sempre avança para a ação, a obra expõe a tensão entre consciência crítica e inércia prática. Ao mostrar como decisões complexas passam a ser delegadas a sistemas automatizados, O filme confronta o espectador com a erosão da responsabilidade humana e com a transferência deliberada da autonomia moral para sistemas tecnológicos que operam sem possibilidade de contestação efetiva. A inteligência artificial é apresentada como um agente institucional de poder que, embora não personificado como vilão, exerce controle direto sobre a vida dos indivíduos ao operar decisões irreversíveis sob a aparência de racionalidade. Ao assumir o papel de árbitra das decisões humanas, a inteligência artificial não apenas incorpora valores e vieses sociais, mas os consolida e legitima por meio de um sistema que transforma desigualdades históricas em sentenças automatizadas.

Justiça Artificial se destaca ao articular suspense, drama psicológico e reflexão social, utilizando a ficção científica como ferramenta para questionar dilemas contemporâneos. Ao deslocar o foco da simples resolução do crime para as motivações humanas e para o impacto das estruturas tecnológicas sobre a vida social, a narrativa constrói uma experiência envolvente e provocadora. O embate entre o protagonista e o sistema de inteligência artificial evidencia a assimetria de poder entre o indivíduo e uma estrutura tecnológica que se apresenta como infalível. expõe como a automação da justiça compromete a memória, fragmenta a identidade do sujeito e reduz a noção de justiça a um cálculo técnico desprovido de responsabilidade ética. Assim, a obra expõe os riscos de um modelo de sociedade que abdica do julgamento humano em favor de sistemas automatizados, revelando que a transferência da decisão não elimina a culpa, apenas a oculta sob a lógica do algoritmo.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

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