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| Nosso Segredo (2026) | Vitrine Filmes |
Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Es kaminhu pa Santumé
Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau
Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau (Sodade - Cesária Évora, composição: Amandio Cabral).
Durante a ausência, alguém mostra sua marca. Um espectro, conjecturado pelo inconsciente saudoso para suprir sua falta no mundo. Dizem que o mundos pertencem aos vivos, e não aos mortos; mas se os vivos quiserem, podem conjurar suas imagens para assombrá-los. Em Nosso Segredo (2026), longa-metragem de Grace Passô na direção, há um duplo fantasma: aquele que vive na memória e outro que se manifesta na inscrição de um ser no mundo. Passô, atriz e dramaturga celebrada, já vem desenvolvendo um belo trabalho sobre protagonismo feminino e a ausência do masculino em seu corpus teatral, dentre os quais vem a peça que inspira o filme (a qual não li, portanto irei me basear somente na adaptação fílmica aqui) e Mata teu pai (que já li e vi nos palcos).
Ambas as obras apresentam uma matriarca lidando com as forças do mundo ao redor e pela falta do amor que lhe foi tirada. Em Segredo, Suely (Ju Colombo) lida com a morte misteriosa e repentina de seu marido, que acaba mudando a dinâmica de sua família; já em Mata, Medeia é abandonada por Jasão, buscando conforto nas mulheres de sua vizinha e nas filhas, com quem tem uma relação ambivalente ao longo da peça. O que Passô transmite com essas obras não é a importância de um homem, mas a ausência do amor, um sentimento considerado universal e, por sua vez, lhe é negado as suas personagens. No caso do longa em questão, não é que o amor morreu, mas empalideceu-se diante das circunstâncias, tornando-se um elo muito frágil a ser rompido a qualquer momento. Mas, ao contrário de Mata, Passô não concentra a ação em uma única personagens, trabalhando em um pequeno ecossistema orgânico que desenvolve ao logo da trama. A dor, a sua maneira, é compartilhada. Por enquanto, voltemos ao argumento da obra:
Em Belo Horizonte, uma família negra tenta lidar com a morte repentina de seu patriarca, um homem branco: mãe, Suely, sofre com a solidão; o filho mais velho, Gilson (Robert Frank), trabalha como motorista de aplicativo e torna-se viciado na rotina, renunciando ao sono; a filha, Grazi (Jéssica Gaspar), lida com uma depressão em segredo do namorado, Sidney (Juan Queiroz); o filho do meio, Guto (Flip), torna-se cada mais afastado da família; já o caçula da família, Tutu (Efraim Santos), tenta levar uma rotina doméstica durante esse período e ele é a única pessoa do seio familiar que conhece o segredo que levou à tragédia, o qual ele guarda com garra e força.
A composição dos quadros, em tons azulados, em planos fechados, em closes e detalhes, a presença de coisas não ditas nos diálogos, constroem um clima ora de proximidade, ora claustrofóbico e mistério que flerta com o universo dos gêneros de suspense e do terror... Até certo ponto, muitos podem considerá-la como um "terror elevado" brasileiro, porém seria reducionista com a obra ao tacha-la nesse âmbito, já que a ficção latino-americana (ou seria nesse caso amefricana, se pensarmos em Lélia Gonzalez?) tem um farto histórico com o realismo fantástico, algo que está bem na alçada do filme. Algo fora do alcance do possível, de grandes transformações. O mistério sobre o que paira e o modo que e desenrolado é o que move a trama; mas Passô tem tempo para descrever o humano dentro de sua narrativa, mesmo que não se prenda a aspectos psicológicos e densos. O importante à obra é a transmissão da sensibilidade do público aos seus personagens, utilizando de uma construção de personagem coletiva vívida e plural, e que cause uma identificação com uma certa realidade brasileira: molhar e pôr a palavra para fora. Irromper com as amarras da dor, fortalecer o laço.
A diretora não faz, em si, um filme político, ou de uma safra que se diz político que se generalizou na última década por uma sensação de urgência diante a situação política e social do país e produziu uma série de filmes didáticos e/ou superficiais sobre várias vertentes e gêneros (recomendo a leitura do ensaio de Hermano Callou sobre essa questão no cinema brasileiro), mas toca em elementos sociais e raciais pela tensão e pela fantasia. As tensões aumentam quando Tutu tenta avisar, de forma desajustada, e impedir que a namorada branca, Lêda (Glaúcia Vanderveld), de sua tia lésbica, Anamélia (Marisa Revert), que também vive na casa junto ao restante da família, de entrar na sua casa. Em outro momento, as mulheres conversam sobre essa questão, no qual Anamélia responde que há algo na casa, vindo de longe, que não deseja que a mulher entre dentro daquele universo.
O filme de Passô me faz lembrar de um filme que assisti ano passado: O Riso e a Faca (2025), de Pedro Pinho (o qual já escrevi no blog na ocasião), que tem uma situação parecida. No longa de Pinho, o personagem Sérgio, um engenheiro português branco em Guiné-Bissau, vai até a casa de Cléo, uma mulher negra que conhece na sua viagem, sem ser avisado e esperando ser convidado a entrar. O embaraço começa. Claramente, Cleo não o espera, mas não deseja ser indelicada com o rapaz; ela o deixa entrar e serve um chá, mas a conversa entre os dois é fria e distante e, logo, consegue "expulsá-lo" de casa. Por mais que a situação no filme de Passô seja mediada pelo fantástico, há uma abordagem que dialoga entre as duas obras e que sintetizam o embraço do passado colonial na era do pós-colonialismo. A presença de um corpo alheio, estranho, que quer se fazer presente dentro de um espaço que não lhe pertence. A força pela insistência carrega, nestes contextos, em si, um certo pensamento que remonta a época de invasão e de escravização de pessoas africanas pelo império português. Algo que possa provocar um descompasso dentro da ordem das coisas.
Portanto, se voltarmos ao início do texto, nós temos dois espectros em jogo dentro da narrativa: um da memória e do afeto familiar; outro do colonialismo e de seus traumas que atravessam os séculos. Nosso Segredo não é urgente ou político, mas contemplativo e lírico, com um toque sobrenatural, que penetra no mundano. Convida seu público a participar e descobrir seu universo particular. Um afago no peito, uma verdade não dita, um olhar para o abismo, a descoberta de uma herança, uma história sobre identidade e de pertencimento ao mundo dos vivos: cheio de dores e encantos cotidianos. Viver um dia de cada vez. Lidar com a saudade, palavra mística da língua portuguesa, indeclinável e intraduzível; que ainda persegue no período pós-colonial.
Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.