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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Marty Supreme (2025) Corre Adoidado, Mas Não Sabe o Que Quer da Vida

 

Marty Supreme (2025) | Diamond Films

Sensação da temporada de premiações de 2025-26, chega aos cinemas brasileiros o longa-metragem Marty Supreme (2025), do diretor Josh Safdie, e encabeçado por Timothée Chalamet. O personagem principal, Marty Mauser, é levemente inspirado na figura do jogador de tênis de mesa Marty Reisman, embora que o filme se passe no âmbito ficcional do que no biográfico; pois, embora inspirado, Mauser é um (anti)herói safdieniano com todos seus trejeitos e manias.

 Ambientado durante os anos 1950, o filme acompanha a trajetória do jogador de tênis de mesa nova iorquino Marty Mauser (Chalamet) e a busca de saciar a sede de ser tornar um dos maiores nomes de sua modalidade. Seu percalço aumenta quando este perde uma importante partida em torneio na Inglaterra contra um oponente japonês, Endo (Koto Kawaguchi), dificultando um importante patrocínio de um magnata (Kevin O'Leary), que envolve o orgulho de Mauser; e, também, quando descobre que não possui mais os recursos para um campeonato mundial no Japão. Para piorar a situação, o jovem atleta descobre que engravidou uma amiga próxima a ele, Rachel (Odessa A'Zion), enquanto mantem um caso com a esposa do magnata, Kay Stone (Gwyneth Paltrow), uma socialite e atriz de cinema que tenta se reinventar na carreira.

 Josh Safdie não é estranho com filmes, cujos protagonistas são empurrados ao limite diante das circunstâncias do mundo; afinal ele e seu irmão, Benny, dirigiram filmes como Good Time (2016) e Joias Brutas (2019), que tinham essa mesma característica em comum. Porém, agora, a dupla de irmãos se separou, e parte do que funcionava nessa abordagem de narrativa e de estudo de personagem se dissipou um pouco. Visto como um "americano mimado", de acordo com uma das personagens, Marty Mauser é o tipo de pessoa egocêntrica que suga todas ao seu redor para um vórtex de perdição própria, ao envolvê-las em suas artimanhas para seguir com seu sonho.

Contudo, a direção de Safdie não consegue decidir se Mauser é uma personagem trágica ou patética dentro do escopo da narrativa: o roteiro, coescrito pelo realizador e o colaborador Ronald Bronstein, direciona para um leitura crítica e ácida, porém a performance de Chalamet, faz o oposto, engrandecendo-o pela sua pequenez. É notável a construção de uma personagem contraditória, cheia de ideais e defeitos, mas a conta dessa operação artística não fecha. Ao mesmo tempo que existe a fascinação com o protagonista, há também uma grande apatia e um desejo secreto do espectador de que ele fracasse de forma espetacular. 

E talvez, esse seja o propósito. Será que é possível amar alguém tão centrado em si mesmo e que usa as pessoas para tirar proveito da situação? No entanto, não me faltou nada além de uma apatia imensa a essa figura central. Talvez seja da forma que Mauser é escrito, ou talvez seja por causa da autoconfiança exacerbada da atuação de Timothée Chamalet que molda uma personagem tão insuportável para um parcela da população. O que existe de carisma, também há de arrogância, e a atuação de Chamalet vai de um extremo ao outro como uma bola de tênis de mesa. 

Apesar do roteiro de Safdie e Bronstein ter uma estrutura de interconexão entre vários arcos de personagens até cuidadosa, o argumento não consegue manter o fôlego durante sua duração: há muitas ideias e prioridades não tão confiantes nelas; na minha opinião, como crítico e escritor, é que algumas subtramas poderiam ter sido cortadas ou reformuladas, como a do mafioso interpretado por Abel Ferrara, com o intuito de deixar a ritmo narrativo mais claro. Porém, isso seria contra as concepções de escala épica do projeto que retroalimenta um imaginário oriundo de cineastas da Nova Hollywood como Scorsese e Coppola, por exemplo. 

O problema, neste caso, é que o filme se afunda em uma mitologia imagética própria da filmografia de Safdie, sem a renovação ou a inovação que dá uma identidade única ao projeto, o que acarreta comparações com trabalhos anteriores, como em Joias Brutas, cuja tensão crescente era melhor arquitetada do que aqui. Portanto, uma questão puramente epistemológica e no âmbito de seu discurso. 

A direção criativa precisa decidir se deve recriar passagens das memórias de Reisman, como em várias passagens que envolvem partidas de apostas, shows de variedades e contextos de campeonatos, com a construção safdieniana de personagens dúbios e escandalosos. Contudo, as escolhas feitas me parecem um pouco contraditórias e nem sempre satisfatórias, pois Safdie não consegue achar um meio-termo ideal entre o real e o ficcional. Talvez se a construção de Marty se inclinasse ao ficcional e fosse mais dúbia e sacana, de um modo mais sutil, a narrativa teria ganho níveis absurdos de nuance e de interesse.

Ademais, as decisões tomadas no terceiro ato da narrativa acabam por enfraquecer toda a ironia e crítica ao um específico sentimento americano que se vinha construindo até então, ao abraçar, para a redenção, ou não, talvez anticlimática da protagonista, a partir do aspecto paternal. Uma analogia a este caso seria de uma piada acabou se perdendo a graça antes/ou durante do punchline; pois, não se sabe, se tal benevolência faz parte do humor de Safdie ou se existe uma "mea culpa, mea maxima culpa" por parte da equipe criativa com a personagem. (Pessoalmente, acredito que seja uma mistura de ambos.)

O que, honestamente, é uma pena, pois de talentos o filme não falta: seja pela trilha de Daniel Lopatin (algum fã de Oneohtrix Point Never aqui?), ou seja a fotografia panorâmica em 35mm com cores e texturas de Darius Khondji que nos transporta ao passado, ou seja pelo elenco calibrado reunido aqui. Odessa A'Zion tem um papel importante na narrativa que demanda uma complexidade de sua interprete, que a encarna com todas as dimensões; enquanto isso, Gwyneth Paltrow tem aqui um dos melhores papeis de sua carreira: uma mulher madura, que consegue enxergar através das outras pessoas, mas que ainda possui um pouco de ingenuidade na sua aura; o que combina bem com o perfil da atriz dentro e fora das câmeras...  

A questão é que o filme tem muitas ideias e momentos a seu favor, como o energético torneio do British Open, todas as cenas entre Chalamet e Paltrow, e até mesmo uma cena queer coded que envolve mel (ótima por sinal!), por exemplo; mas, diante de tudo isso, falta uma direção que as deixem uma narrativa afiada. Não desejo por uma abordagem palatável (isso nunca!), porém uma condução que evita convenções do drama americano e que não tem medo afundar nas ironias cruéis da vida.  A sensação de assistir Marty Supreme é de atirar em um grande alvo à distância, mas sem a coordenação de conseguir acertar o centro. Mauser faz os seus corres, corre adoidado, causa destruição e caos aonde passa, mas, no fundo, não sabe o que quer realmente da vida. 

O golpe da bola laranja tá aí, cai quem quer.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim: O verdadeiro terror é perceber que os animatrônicos assustam menos que a vida adulta de Mike.

Five Nights at Freddy's | Universal Pictures

No Freddy Fazbear's Pizza, robôs animados fazem a festa das crianças durante o dia. Quando chega a noite, eles se transformam em assassinos psicopatas.

Eu nunca fui profundamente familiarizado com toda a lore de Five Nights at Freddy´s, mas acompanhava muitos gameplays no Youtube em 2014, época em que o jogo explodiu em popularidade na plataforma. Cheguei até a jogá-lo, embora sempre com bastante receio — afinal, os jumpscares dos animatrônicos são inesperados e realmente dão aquele susto clássico. Quanto ao visual do protagonista, Michael Schmidt, o jogo não revela sua aparência, o que reforça o mistério e a imersão do jogador. Já na adaptação cinematográfica, ele recebe uma caracterização clara e definida. Essa diferença evidencia como cada mídia escolhe explorar o personagem: o jogo aposta no anonimato e no suspense, enquanto o filme destaca sua humanidade e vulnerabilidade. Como toda adaptação para o cinema, foi necessário ter uma trama e de uma identidade visual.

A história segue Mike Schmidt, um segurança que, após ser demitido, aceita trabalhar como vigia noturno da abandonada Freddy Fazbear´s Pizza para evitar que sua irmã mais nova, Abby, seja colocada sob custódia da tia deles. Ao longo das noites, Mike passa a ter pesadelos recorrentes sobre o desaparecimento de seu irmão, enquanto descobre que o local guarda segredos perturbadores ligados a crianças que desapareceram nos anos 1980. Conforme Mike se aprofunda no mistério, ele percebe que os animatrônicos do restaurante parecem estar vivos e têm uma conexão direta com os acontecimentos sombrios do passado. Entre proteger Abby e desvendar a verdade, Mike acaba envolvido em uma trama que mistura trauma, memórias e fenômenos inexplicáveis. O filme equilibra cenas de suspense com momentos de sensibilidade, criando um protagonista mais relacionável do que em seu material original. 

Mike é um personagem marcado por dor e responsabilidade, alguém que carrega mais peso emocional do que consegue expressar. Sua aparente frieza é, na verdade, um mecanismo de defesa construído após anos de culpa e trauma. Ele vive dividido entre o cansaço que o consome e a necessidade quase desesperada de proteger quem ama, especialmente Abby. Impulsivo em momentos de tensão, mas profundamente justo, Mike revela uma sensibilidade silenciosa: mesmo ferido, continua tentando fazer o certo. Sua personalidade é a de alguém que aprendeu a sobreviver, mas ainda busca uma forma de viver — e, acima de tudo, de encontrar paz para si e para sua irmã caçula.

O filme parece se esquecer do próprio gênero ao qual se propõe, deixando de lado justamente a essência que tornou o jogo tão popular. É importante dizer com clareza: Five Nights at Freddy´s se destacou por seus sustos, jumpscares e pela atmosfera de terror — elementos que, na adaptação, acabam ofuscados por uma narrativa focada novamente no tema do luto, apenas ambientada no universo da franquia. Pensando bem, não consigo lembrar de nenhum momento em que realmente senti medo durante a sessão.

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim acerta ao humanizar seus personagens e dar profundidade emocional à jornada de Mike, mas acaba se afastando daquilo que definiu a identidade da franquia nos jogos. Embora apresente elementos visuais marcantes e uma trama acessível ao público geral, o filme deixa a desejar no aspecto mais esperado: o terror. A falta de tensão genuína e de momentos realmente assustadores enfraquece a experiência para quem buscava reviver o clima inquietante do jogo. Ainda assim, a obra tem seu mérito ao propor uma leitura mais dramática e sensível do universo, mesmo que isso signifique sacrificar parte da essência que tornou FNAF um fenômeno cultural.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.





Cinco Tipos de Medo — Uma Meditação Sobre Violência

Cinco Tipos de Medo | Downtown Filmes


Cinco Tipos de Medo foi o vencedor do kikito de ouro de melhor filme no festival de gramado, sendo o primeiro filme mato-grossense a ser selecionado e fazer tal feito. O filme conta 5 histórias diferentes encadeadas por um mesmo acontecimento catalisador da trama. Teve exibição na Mostra de São Paulo.

Ano passado, Oeste Outra Vez faturou o premio de melhor filme em Gramado, quebrando certa longevidade do eixo sul-sudeste que sempre dominou festivais de cinema brasileiro. Verdade seja dita, o centro-oeste não é sequer parte dos cartões postais brasileiros (a exceção de Brasília), e Cuiabá é extremamente pouco representada no nosso cinema.

Na obra de Bruno Bini, Cuiabá e o bairro do Novo Colorado (parte da periferia da cidade) são o coração de uma trama que não tem um protagonista definido. Não há um eixo central do filme, aos moldes de Lucrecia Martel, e isso está longe de ser um problema, pois cria um retrato bastante honesto da obra.

Bruno tem um fio condutor maior que uma linearidade narrativa: a violência, não apenas como um ato, mas como um impulso humano, natural as situações que os personagens estão inseridos diante ao opressivo ambiente que o diretor cria. Cuiabá é tão quente quanto o deserto do Saara e tão violenta quanto a periferia de Paris de Kassovitz.

Ao decorrer da rodagem, se é criado um sentimento de angustia no espectador, não por aquilo que há por vir, e nem aquilo que houve por se ver, mas por aquilo que não há de se ver. A violência é uma resposta do medo, sentimento esse tão irracional que mal pode ser compreendido pelo protagonista Murilo (João Vitor Silva). Você pode até tentar entender aonde chegamos, mas não pode entender como fomos parar lá.

No mais, a esperança de Bruno não está na religião ou na justiça, e sim no ser humano como um regulador, em termos a honestidade de olhar para todo medo e violência e entendermos que não podemos mudá-lo, mas podemos amenizá-lo.

Cinco Tipos de Medo é uma meditação sobre a violência e deve ser comentada nos próximos anos de cinema. Não é necessário pelos seus temas, mas pela maestria como são filmados, de uma maneira muito mais sóbria e honesta que a de muitos outros cineastas por aí que recebem milhões por um filme.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

Bugonia (2025) reina entre a farsa e o trágico

 

Bugonia (2025) | Universal Pictures

Nos primeiros minutos do ecrã, uma voz explica ao espectador o porquê da polinização ser extrema importância para a sociedade, enquanto vemos imagens de abelhas realizando este ato.  

Elas são, de acordo com o verbete Caldas Aulete, “insetos himenópteros que se dividem em sociais, solitárias e parasitas, sendo as sociais as que produzem mel em abundância.” A relação entre as abelhas sociais e sua abelha-rainha é posta como um paralelo com as dinâmicas interpessoais entre humanos: o proletariado e a burguesia. Porém, por causa da ganância e de uma transformação rápida do mundo que abusa dos recursos naturais e libera resíduos químicos, a população de himenópteros, e, consequentemente, a polinização, diminui. A longo prazo, isso pode ter um efeito catastrófico para a humanidade.

Esse é um problema bem real, inclusive para uma narrativa que parte do mundo concreto para o campo do absurdo. É assim que começam os primeiros minutos de Bugonia (2025), o nono longa-metragem do diretor grego Yorgos Lanthimos, retomando a parceria com a Emma Stone e o Jesse Plemons de seu  projeto anterior, Tipos de Gentileza (2024). Esta nova empreitada é, na verdade, um remake de um filme coreano lançado em 2003: Salvem o Planeta Verde! A obra de partida foi lançada em período em que o cinema coreano e alguns de seus diretores mais populares, como Park Chan-Wook e Boon Joon-Ho, começaram a ser exportados para o ocidente e a fazer sucesso internacional. E o filme de 2003 se tornou um clássico cult contemporâneo para o público ocidental. 

A trama do original é bem parecida com recriação feita por Lanthimos e sua equipe: um jovem conspiracionista sequestra um grande executivo farmacêutico na suspeita deste ser um alienígena que planeja uma invasão de larga escala. O laço entre os dois fica cada vez mais estreito quando é revelado que este homem tem relação com uma tragédia familiar na vida deste jovem, em particular. 

O diretor do filme original, Jang Joon-Hwan, esteve envolvido nos estágios iniciais de pré-produção, quando o remake foi anunciado em 2020; mas se afastou devido à problemas de saúde, ficando com o título de produtor executivo desta nova versão. O anúncio de Yorgos Lanthimos como diretor da produção veio no início de 2024, no que Jang achou uma escolha apropriada ao projeto, pois o estilo do realizador grego conversava com a narrativa e seu tom de extremos. 

O Bugonia de Lanthimos não foge da premissa base, mas adiciona um tempero a mais à mistura. Teddy Gatz (Jesse Plemons) é um trabalhador de uma linha de distribuição de uma grande farmacêutica, no meio-oeste americano. Levado a acreditar em teorias da conspiração, após uma tragédia familiar, ele acredita que uma raça de alienígenas se infiltrou no planeta terra para acabar com todas as formas de vida que existem. E a CEO do conglomerado em que trabalha, Michelle Fuller (Emma Stone), seria na verdade uma Andromedana disfarçada. Com a ajuda de seu primo, Don (Aiden Delbis), ele sequestra e aprisiona Michelle no porão de sua casa para impedir uma possível invasão e, portanto, evitar a extinção humana.

Se, na obra fonte, há uma demarcação clara entre o bem e mal, aqui temos o encontro, com seus valores dúbios, das duas piores pessoas que você vai encontrar na sua vida: um conspiracionista com tendências sociopatas e uma girlboss industrialista, uma mistura de Jeff Bezos e Virgínia Fonseca (para abrasileirar as referências), que explora de forma cruel a sua classe operária. Existe uma dualidade na relação das personagens: "será que existe mesmo um alienígena entre nós ou será que estamos acompanhando uma sessão de tortura de um serial killer?" Esta sensação se repete aqui, agora em um cenário estadunidense. 

Por mais que Teddy passe por todos os espectros políticos, ainda há um resquício de um comportamento “redpill” pela maneira em que a personagem se porta em cena; principalmente, a caracterização suja e descuidada de Plemons flerta com essa imagética (ele emana uma energia de um jovem Willem Dafoe desligado). Enquanto que Fuller tenha uma aparência mais normalizada, ela demonstra ser uma pessoa fria e calculista, que sempre teve a vantagem a seu favor. Uma abelha-rainha em prol do capital, que se protege atrás uma máscara de falsa progressista explorando seus funcionários até a exaustão.

Enquanto a versão coreana tem uma variedade de tons e de gêneros interconectados entre si e de forma bastante intensa, Lanthimos diminui um pouco o volume dos diversos tons para construir algo que sabe fazer de melhor: arquitetar um senso trágico, de que algo ruim está prestes a acontecer. Um outro filme de sua filmografia que dialoga com este projeto, em termos de escopo, é O Sacrifício do Cervo Sagrado, lançado em 2017. (Inclusive a paleta do design de produção.)

Em ambas as obras, temos a hybris da classe burguesa que afeta a vida do proletariado, levando a uma retaliação do por parte do(s) oprimido(s) [Fun fact: a atriz Alicia Silverstone está presente nos dois filmes e, em ambos, faz o papel da mãe da personagem “pobre”]. Em Bugonia, a hybris existe, mas ela se torna cada vez mais ambivalente e o público se pergunta quem será o causador dos infortúnios: Michelle, com seu comportamento arrogante e testes farmacêuticos capazes de destruir vidas ou Teddy, ao deliberadamente sequestrar e torturar uma pessoa, que causou diretamente um mal para ele, em prol de um ativismo bastante radical?

O mundo aqui é palpável e verossímil, a princípio parece um ambiente “normal”, mas a situação e a sucessão de acontecimentos que a narrativa desenvolve se calca no absurdo, que foge dessa sensação mundana em que o filme nos apresenta de início. Na verdade, nada é, de fato, normal. A disrupção de uma rotina banal para a algo extraordinário, digamos assim, nos mostra, como humanidade, a relativização de ações exploratórias cristalizada na normalidade. Se alguma empresa causa algum desastre natural, ou hospitaliza pessoas, para fins lucrativos, o caso é facilmente acobertado e não há nenhuma represália por parte da sociedade (O desastre de Brumadinho causado pela ganância da Vale me vem à memória, por exemplo). Portanto, existe algo de catártico e conturbado para o público se identificar com a personagem de Plemons.

Além disso, o realizador grego dimensiona Teddy, para além do proletariado conspiracionista, uma persona trágica: é revelado que ele sofre com a hospitalização da mãe, causada pela empresa de Michelle, e também que foi vítima de abuso (que pode ser tanto física, quanto psicológica ou sexual pelo pouco que sabemos) na juventude pela sua babá, Casey, que agora é o xerife local (Stavros Halkias). Aos poucos, temos vislumbres da personalidade complexa e do páthos da personagem, mas, ao mesmo tempo, isso contribui para a dúvida de seu caráter: será que ele tem razão sobre Fuller e a conspiração andromedana ou será que vive uma em fantasia traumática e busca um final para esse ciclo?  

Apesar do trágico, o filme possui um humor que se demonstra bem sutil, mais do que sua contraparte coreana que é extremamente marcada, seja pela situação ou conflito entre classes. O roteiro de Will Tracy também tem um humor bem ácido e marcado, até mesmo o usa para aliviar a tensão em tela. Mas a escolha de não exagerar nessa marcação foi feita para valorizar o trabalho e a performance de Stone e Plemons; são dois atores gigantes que, aqui, estão em lados opostos e em pé de igualdade. A forma em que sustentam os diálogos e ações de suas respectivas personagens funcionam como um fio condutor da narrativa, deixando a trilha sonora de Jerskin Fendrix somente nos momentos de explosão e ápice emocional. 

A combinação entre a farsa e o trágico, a paródia e o suspense, funciona de forma harmônica durante as duas horas de duração. Vemos uma partida de xadrez entre lados extremos em jogo. A cada passo, e mais peças saem do tabuleiro, mas ainda há uma dúvida que paira no ar e só é respondida quando esta termina. Conhecido como um cineasta que “inaugurou” uma nova estranha onda no cinema grego, Lanthimos flerta com o cinema comercial e uma abordagem estética, próxima de seus projetos experimentais; o que faz sentido em onde ele se encontra artisticamente: entre o seu longa mais comercial (Pobres Criaturas, 2023) e sua volta às raízes ao experimentalismo (Tipos de Gentileza, 2024), ou seja, um meio termo criativo.

O diretor conserva o sabor agridoce oriundo da obra base, porém, desenvolve a sensação de desamparo e a falha das relações interpessoais, administradas dentro de um sistema capitalista, com um pouco mais de escárnio. Há algo de viscoso sobre a obra que atravessa na fotografia de Robbie Ryan, a poeira, a sujeira, o insípido, a escuridão que traduz uma sensação que seja assustadora quanto falida. Algo engraçado e desesperado vem por aí. E de fato, a ironia impregnada pela conclusão da obra a lança no gênero filme-piada, como Tár (2022) e Segredos de um Escândalo (2023), que tem entrado em evidência no circuito norte-americano nos últimos anos.

Acredito que o maior trunfo do filme, neste momento, dentre várias categorias que podem ser citadas aqui, seja de recriar a essência de sua fonte base, atualizando o texto para um novo contexto cultural, ambiental e geopolítico. É uma mistura agridoce, de caminhos tortuosos e de caráter duvidoso, que mostra a grandeza das pequenas tragédias humanas e escancara as relações de poder interpessoais pela acidez que só o cinema de Lanthimos proporciona. O tipo de filme que é impossível de desviar o olhar, sequestrando a atenção do espectador até o fim. Agora fica a questão: será que a Chappell Roan faria sucesso em outras galáxias? 

Well... Good Luck, Babe

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


Morra, Amor (2025) - O Grito de Dor de Uma Mulher em Chamas

 

Morra, Amor (2025) | Paris Filmes, MUBI

Como é possível apagar um fogo incontrolável que há de queimar pela vegetação seca? Como sufocar a explosão do desejo, sem nenhum tipo de efeito colateral? Como respirar se você se sente sufocada em uma nova posição, que nunca havia cogitado de estar ali? Como é a sensação entre andar entre a realidade e o pesadelo? Como é a diferença entre a memória e a ficção? Como é ir contra a sua natureza?

São questões que o longa-metragem Morra, Amor (Die, My Love, 2025), da realizadora Lynne Ramsay, se propõe a fazer ao público. O filme é baseado no livro de mesmo nome de Ariana Harwicz, tem produção do Martin Scorsese e tem um elenco ancorado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, dois atores que cultivaram um público desde a década passada e que tiveram carreiras bem sucedidas, fora das franquias que os lançaram ao estrelato. A escolha de Lawrence e Pattinson é inspirada e cheia de energia, com química exorbitante, a sinergia entre as personagens em cena é algo selvagem, quase animalesco, e difícil de ser domado.

Grace (Lawrence) acaba de ser mãe de primeira viagem. Aspirante a escritora, decide sair de Nova Iorque em busca de uma vida mais calma e se muda para a antiga casa de infância de Jackson (Pattinson), seu marido, na zona rural de Montana. A casa originalmente era do tio de Jackson que acabou tirando a própria vida na propriedade; além disso, durante a gravidez que Grace, descobrimos que o pai dele (Nick Nolte) também sofre de Alzheimer, o que acaba também deixando uma marca na mãe, Pam (Sissy Spacek).

À princípio, tudo vai bem. Aparentemente. Grace e Jackson conseguem se adaptar a vida de pais de um recém nascido, sem perder a identidade; mas, após o primeiro trimestre, ela começa a enfrentar sentimentos de isolamento espacial e psicológico, afetando seu trabalho como escritora, e se dedica exclusivamente ao bebê. Ou seja, ela fica isolada dentro de casa por horas, com pouquíssimo contato com outras pessoas e Jackson começa a se mostrar cada vez mais displicente com o passar do tempo. Com a saúde mental em declínio nesse período de pós-parto, a realidade do casal vai levando o relacionamento a um território instável.

A narrativa transita entre o drama psicológico e o humor ácido, porém sutil, para desarmar seu público, dando ao projeto um sabor e uma identidade própria; uma mistura bem balanceada pela equipe de roteiristas (Ramsay, Alice Birch, Enda Walsh) e pela direção, trazendo a temática da depressão pós-parto para um lado cru, mas sem cair no melodrama exacerbado. 

O exercício de personagem aqui é investigar como alguém tão cheio de vida como Grace possa se encontrar nas amarras da depressão e perder-se dentro si, seguindo migalhas no labirinto da mente; e o desespero, não só para ser amada e compreendida, de se entender como pessoa, após uma nova etapa na vida. Sua depressão é calcada em uma disformia mental: uma pessoa que passa a narrativa em busca do próprio reflexo; mesmo que nós, os espectadores, a vemos nua de corpo e alma. Grace grita, briga, chora, destrói, sofre com uma repressão sexual, tem tendências violentas e autodestrutivas, sua mente lhe prega peças, enquanto, automaticamente, a colocam dentro de uma caixinha, no qual ela deve se contentar. Mas que nunca será suficiente. Ela é muito mais do que só uma mãe. Em primeiro lugar, é uma mulher livre (e quase um arquétipo de uma personagem da Lana Del Rey, se pararmos para pensar um pouco... This Is What Makes Us Girls, Let Me Love You Like a Woman, Wildflower Wildfire, e por aí vai).

Ramsey e Lawrence constroem a personagem de Grace dentro de um prisma dialético do psíquico e do onírico, da carências dos prazeres; histórias que ela ouve de pessoas fazendo atos estranhos e pessoas misteriosas que aparecem em seu caminho, ocupam sua mente, enquanto isso, os dias passam tediosamente e sua realidade parece ficar cada vez mais sem vida, sem gozo. Jackson não a ajuda muito; não reconhecendo que há algo de estranho com a esposa e tomando algumas ações que mais contribuem para o problema do que para solucioná-lo, de fato. A única personagem que consegue enxergá-la seja a sogra Pam, com quem há um grau de cumplicidade enquanto mulheres cis e mães, que lidam com os efeitos colaterais da maternidade e tudo aquilo que acarreta.

Talvez o grande problema do filme esteja justamente em sua estrutura cíclica que acaba por repetir, muita das vezes, os temas abordados do projeto sem que haja um desenvolvimento mais direto e claro, deixando a sensação ao espectador que o filme esteja insistindo muito no que quer dizer; e no processo de montagem, cujo ritmo perde fôlego considerável, contribuindo na característica repetitiva e um tanto truncada da narrativa. Isto, honestamente, pode fazer com que parte do público tenha problemas de fruição ao longo de sua duração.

Mas, apesar disso, é um filme que vemos um cuidado, entre o artesanal e o industrial, que Ramsey tem. Em termos temáticos e formais, vemos que há um contraponto entre Morra, Amor e Jeanne Dielman (1975): se Akerman realiza uma fábula rigorosa sobre a rotina entediante de uma mulher viúva de meia-idade numa grande metrópole, aqui temos o inverso; a cidade torna-se o campo, a selva de concreto contra a natureza, a filmagem estática ganha movimento, a mecanicidade das ações dá o espaço ao naturalismo e ao imprevisível, a linearidade e o psicológico... A única coisa em que as obras se conversam é na realidade das mulheres que são confinadas em uma realidade doméstica, relegadas a uma subvida, a uma função. Se Seyrig tem uma performance contemplativa, a de Lawrence é explosiva, deixando-a um pouco próxima de Gena Rowlands, por exemplo. 

Porém, é claro, isto trata-se somente uma divagação temática, que me pareceu apropriada neste momento, pois uma comparação, de fato, concreta poderia, por enquanto, soar um pouco injusto de minha parte. Mas enfim...

Morra, Amor é uma explosão que ousa queimar forte e acaba se queimando um pouco no processo; representa a ideia de uma mulher que grita para o universo e não é correspondida, é o desespero fragilizado de uma pessoa que sofre com o apagamento e a solidão. Um sonho que se transforma em pesadelo febril, contraditório da falta do ser. Ou, como diria Mario de Sá-Carneiro em seu poema Dispersão: "E hoje, quando me sinto, é com saudades de mim.\Passei pela minha vida feito um astro doido a sonhar"; enquanto, nas Heroicas, Hilda Hilst diria: "Mil vezes me refaço e me recrio de dor".

É um filme que, mesmo com a mensagem martelada, ainda tem algo a dizer de interessante sobre maternidade, o papel da mulher e a depressão pós-parto, que foge de um convencionalismo barato e, demasiadamente, esvaziado. A atuação de suas protagonistas eleva a experiência da obra, que é daqueles tipos de filmes que crescem (ou não) durante uma revisão com o passar do tempo. A sensação que fica que é um filme escrito com tinta e leite. Amor incondicional não é a solução.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sombras no Deserto (2025) fica em cima do muro

 

Sombras no Deserto (2025) | Imagem Filmes


Crescer é um inferno: a passagem da infância à vida adulta é um ritual bastante natural e transformador, a pessoa que você era antes deixa de existir e começa a ficar exposta as mudanças interiores e exteriores que todes sofrem com este amadurecimento. É como uma troca de pele, seu corpo muda, suas percepções e crenças também... A reação é assustadora. No entanto, ao retratar esse momento específico da vida de uma figura mitológica/religiosa pode abrir espaço para debates e (não como me importasse muito) controvérsias.

Em Sombras no Deserto (The Carpenter's Son, no original, 2025) retrata a adolescência da figura de Jesus Cristo dentro de um gênero cinematográfico inusitado para esse tipo de estória ligado a tradição eclesiástica: o terror. O filme é dirigido por Lotfy Nathan e tem o dedo de Nicolas Cage na produção, que também interpreta José de Nazaré, o pai adotivo de Jesus. Enquanto o título nacional tem um nome genérico, o original explicita sua relação com a teologia.

Quando este projeto foi anunciado muitas pessoas ficaram ou com uma curiosidade mórbida ou completamente ultrajadas por alguém adaptar a vida de um símbolo cristão em filme de terror; afinal, para um crente, a ideia de retratá-lo de uma "forma negativa" seria uma blasfêmia. E até semanas antes do lançamento o projeto está sofrendo com um boicote online em portais e agregadores de cinema (uma semana antes do lançamento oficial, no IMDB, a nota está em 3.5). 

Como um bom agnóstico/ateu que este crítico é, me enquadro no primeiro grupo; pois é muito raro ver este tipo de abordagem sendo feita, porém, como não é muito comum, as chances do longa ser um desastre incompreensível são altas. De fato, Nathan se baseia em textos apócrifos, que não fazem parte do cânone do cristianismo, dando uma liberdade de contar algo, digamos, extraoficial, ou seja, indo em direção ao paródico, ao paralelo de tal cânone já consolidado.

Nathan não dá nomes aos seus personagens de cara, e, quando dá, utiliza os nomes em judaico, mas codifica as personagens mitológicas de forma que o público os identifique de cara: o Carpinteiro (Cage), a Esposa (FKA Twigs) e o Filho (Noah Jupe). José, Maria e Jesus. Simples assim. Não é preciso muitas explicações.

O longa começa com um prólogo que retrata o nascimento de Jesus no dia de Natal e a fuga de seus pais das tropas romanas. Depois, a narrativa corta para anos depois. O Carpinteiro e sua família são nômades, com medo de descobrirem a verdade sobre o Filho. Eles se instalam em uma vila egípcia, cujas as habilidades do patriarca da família são necessárias. Mas o Filho não é mais nenhuma criança e seus pais sentem um medo de que ele logo caia em tentações e atraia a presença de Satanás. O Carpinteiro é rude e ríspido em sua educação, alienando mais o filho do que o ajudando. Enquanto isso, o jovem é assolado por sonhos que preconizam sua morte.

A situação complica quando o Filho conhece uma Criança (Isla Jonhston) muito estranha e de estilo bastante andrógeno, talvez Satanás em pessoa ou não, que empurra Jesus para fora da faceta construída pelos pais e sim para o santo milagroso do qual seria conhecido: seja por curar leprosos ou exorcizar espíritos demoníacos em pessoas inocentes. Porém, isso pode, em contrapartida, acarretar em acusações de bruxaria e paganismo contra o jovem, já que a população local não sabe de seu verdadeiro destino. Causando, deste modo, aflição e medo no seio familiar.

Partindo de uma abordagem histórica, querendo ou não, o cinema bíblico está presente no cinema, desde a época dos filmes mudos, com os épicos de DeMille, por exemplo. Mas o que antes era visto como algo épico e luxuoso, hoje em dia virou em um gênero escabrosamente decadente que serve mais converter os espectadores ao cristianismo e reforçar as temáticas religiosas para o público protestante. O que era um subtexto, virou algo muito maior, mais aborrecido e pedante: uma obra planfetária para vender uma ideologia, flertando com um fascismo religioso. E talvez, esteja uma das controvérsias do filme. Ele foge desse roteiro. Ao retratar os poderes de Cristo como algo assustador e que causa pânico, automaticamente, o projeto rejeita o discurso engessado de produções recentes. Foge do estilo da Angel Studios e da Affirm Films que protestantes estadunidenses querem enfiar goela abaixo nos espectadores, junto de sua agenda. E nem chega a ter tons ofensivos a outras religiões como A Paixão de Gibson, em que há um subtexto antissemita.

Nathan abraça o caráter humanístico de Jesus, descrevendo-o como ele é: um ser divino, mas mortal, como qualquer ser humano. Tem muito como um referencial temático os trabalhos de Scorsese e (o saudoso) Pasolini, de certa forma. A narrativa de horror se desenvolve dentro da lógica do bildungsroman, com Cristo desconhecendo de seus poderes e do terror que isto possa causar na psique. Há um certo fascínio, quanto uma realização temerosa ao mesmo tempo. Cristo, influenciado pela Criança demoníaca, quer descobrir suas próprias tentações e poderes. Mas José, difícil e controlador, é o único obstáculo em seu caminho. 

Aqui não há só uma batalha entre o bem e o mal, mas também geracional, entre a fé e o desespero, o etéreo e a carne. Existe uma linha tênue entre a teologia e a psicanálise que é anunciada, mas nem sempre tem algo a dizer de inovador ou de perspicaz. Deste modo apresentando ideias interessantes, que parecem mais inteligentes e profundas do que elas são de verdade. Essa dicotomia entre bem e mal ou pai e filho é um dos dispositivos mais antigos do mundo. Existe uma gravidade nesta relação, dando um peso à narrativa; a figura bíblica da serpente como uma figuração do pecado, do mau caminho, da perdição, é recorrente, embora que seja repetitiva. O problema aqui é que a direção e a construção de mundo estão intrinsecamente ligadas a tradição mitológica e, mesmo brincando com seus signos, nem sempre consegue escapar da sensação de que a trama está "chovendo no molhado". 

Se em termos temáticos, o filme não acrescente nada de novo, apesar do gênero escolhido, também sofre com algumas decisões que afetam a estética da obra. Talvez o maior pecado do filme é pegar o trabalho do diretor de fotografia Simon Beaufils (de Anatomia de uma queda (2023) e Faca no coração (2018), um favorito meu, por exemplo), com seu trabalho de cores e texturas, para, provavelmente na pós, escurecer algumas cenas que prejudicam o trabalho de fotografia naturalista realizado aqui. Algumas cenas noturnas são demasiadamente escuras, sem a necessidade tal escolha, sem que haja uma sombra e luz para contrabalancear.

Nathan consegue dirigir o longa ao redor da figura de Cage, mesmo que este seja o único dentre os atores com um "sotaque europeu" no projeto, com certa competência que deixa o nível da trama com as batidas de desenvolvimento necessárias para seu desenvolvimento: não deixá-lo roubar a cena. O ator conhecido pelo seu estilo hiperbólico conseguiu dar, na última década, uma reviravolta na carreira ao embarcar em projetos que contemplassem seu estilo de performance e com realizadores que conseguiriam trabalhar em volta dessa figura na direção. Há momentos que vemos o Cage explosivo, no qual, por muitos anos, ele infamemente ficou conhecido; mas são bem espalhados, no mar de contenção e de naturalidade, e contribuem para o arco narrativo da narrativa e de sua personagem. 

Além disso, o diretor consegue com que haja um diálogo de cena entre Nic Cage e seus colegas, de modo que as interações não fiquem exageradas ou beirando ao território do camp. Por mais que o filme se venda na figura de Cage, o foco de toda trama é o desenvolvimento de Jesus que é está bem nas mãos de Noah Jupe, que consegue vender sua versão, esforçada até, de um Cristo infante, ainda ingênuo. Já FKA Twigs, que foi de Maria Madalena para Maria de Nazaré (quem entendeu a referência, entendeu), não está em uma posição vulnerável em cena, como foi o caso da versão de O Corvo do ano passado, no qual a diva do pop indie sofreu com uma péssima direção, prejudicando seu trabalho no projeto que foi severamente criticado na época; aqui ela consegue estar a par da cena. Porém, sua personagem é retratada de uma forma bastante passiva, quase tornando a sua presença um acessório narrativo, do que como parte integral da trama.

Em suma, Sombras no Deserto causa pela ideia, no campo do discurso, pela ousadia de um terror bíblico, como uma vertente dos filmes de terror religiosos, como Exorcista e Invocação do Mal, por exemplo. Mas o longa-metragem propõe uma transgressão de valores do qual não a assume, com um desenvolvimento temático, já feito no passado, que flerta com o genérico e o mediano. A balança entre naturalismo e a teologia está voltada ao espetáculo abrasivo que tenta ser "desconstruído", sem sê-lo. É uma mistura de um filme europeu pretencioso com um filme B. Talvez o pior pecado, se podemos chamá-lo assim, deste projeto seja uma ambivalência de valores transgressores e conservadores que fazem o filme pairar dentro de um limbo para agradar vários gostos e visões polarizadas de mundo. Em outras palavras, é uma obra que fica em cima do muro em um mar de mesmice autoral. Interessante, mas um pouco esquecível. Contudo, não merece esse hate episcopal.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


Homem de Ferro - Um bilionário, um reator e um péssimo senso de limites

Homem de Ferro | Disney


Quando é capturado em território inimigo, o genial magnata Tony Stark constrói uma armadura de alta tecnologia para escapar. Agora, ele tem a missão de salvar o mundo como um herói que não nasceu.

Esse foi o primeiro filme a integrar um dos maiores universos cinematográficos e se tornou uma importante referência. Antes tínhamos filmes de heróis que pertenciam apenas aquele núcleo, como é o caso da trilogia Homem-Aranha de Sam Raimi, da trilogia X-Men do ano 2000 e Quarteto Fantástico. A grande inovação foi justamente conectar diferentes personagens e histórias em um mesmo universo compartilhado, algo que elevou o padrão das produções do gênero e transformou a maneira como o público passou a acompanhar essas narrativas no cinema.


A origem de Tony Stark como o Homem de Ferro apresenta um personagem inicialmente debochado, arrogante e obcecado por tecnologia — um gênio bilionário cuja fortuna é construída sobre a fabricação de armas de destruição em massa. No entanto, o destino o força a encarar as consequências de suas próprias criações. Durante uma demonstração de seus armamentos, Stark é gravemente ferido por uma explosão provocada justamente pelas armas que ele mesmo projetou. Estilhaços de metal ficam alojados próximos ao seu coração, e para sobreviver ele cria um reator arc, uma fonte de energia miniaturizada que alimenta um eletroímã, impedindo que os fragmentos o matem.

 

Esse mesmo reator se torna o núcleo de algo ainda maior: a armadura do Homem de Ferro, um traje de alta tecnologia que proporciona voo, força sobre-humana e um poderoso arsenal. Mais do que uma ferramenta de combate, a armadura simboliza a transformação de Tony Stark  — de um homem guiado pelo lucro e pela vaidade para alguém que reconhece o impacto devastador de suas invenções.


A experiência o faz abrir os olhos para o fato de que suas armas alimentaram guerras e causaram incontáveis mortes. A partir desse despertar, Stark passa a questionar o papel da tecnologia e da responsabilidade ética por trás do poder que ela concede. Assim, o Homem de ferro não nasce apenas do ferro e do fogo, mas também de um profundo senso de culpa e desejo de redenção.


Só vemos o herói em ação de verdade depois de aproximadamente uma hora e quinze minutos de filme — e, quando isso acontece, é simplesmente espetacular. A cena marca o momento em que Tony Stark veste pela primeira vez a armadura completa, a clássica vermelha e dourada, e parte para o combate. O som metálico, os disparos precisos e o voo poderoso criam uma sequência de tirar o fôlego, que consagra de vez o nascimento do heró que mudaria todo o Universo Cinematográfico da Marvel.


Por mais que o filme tenha um protagonista carismático e cenas marcantes, a narrativa se torna um pouco monótona em certos momentos. O ritmo lento, aliado a longas sequências de exposição e diálogos explicativos, faz com que a parte da história se arraste, diminuindo a sensação de urgência e tensão. Há momentos em que o enredo parece caminhar sem pressa, deixando o espectador aguardando ansiosamente pelo ponto de virada em que o Tony Stark finalmente assume seu papel de herói. Essa espera prolongada faz com que a chegada da armadura completa seja ainda mais impactante, mas também evidencia que o filme só encontra seu verdadeiro ritmo na segunda metade.

O vilão Monge de Ferro, Obadiah Stane, é retratado como um magnata inescrupuloso e manipulador, movido apenas pela ganância e pela inveja do sucesso de Tony Stark. Apesar de sua postura de mentor e aliado nos primeiros momentos, logo se revela um antagonista previsível, cuja malícia carece de profundidade. Seu papel como vilão funciona, mas não chega a impressionar — é mais uma figura de poder corrompido do que um inimigo realmente memorável.


Homem de Ferro não é apenas um filme de origem de super-herói; ele marca o início de uma nova era no cinema de heróis ao estabelecer as bases do Universo cinematográfico da Marvel. A narrativa foca na transformação de Tony Stark, que evolui de um magnata arrogante e egoísta para um herói consciente de suas responsabilidades, simbolizada pela criação e uso da armadura. Apesar de um ritmo inicial mais lento e de um vilão relativamente previsível, o filme se destaca pela construção de personagem, pelo impacto visual das cenas de ação e pelo potencial inovador de conectar diferentes histórias em um universo compartilhado.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


O Incrível Hulk (2008) - Um homem, dois tons de verde e muitas fugas mal planejadas

O Incrível Hulk | Disney


Vivendo escondido e longe de Betty Ross, a mulher que ama, o cientista Bruce Banner busca um meio de retirar a radiação gama que está em seu sangue. Ao mesmo tempo ele precisa fugir da perseguição do general Ross, seu grande inimigo, e da máquina militar que tenta capturá-lo, na intenção de explorar o poder que faz com que Banner se transforme no Hulk.

O filme acerta ao pular o tradicional arco de origem dos super-heróis — algo que já havia sido explorado em Hulk (2003) — e optar por uma abordagem mais direta e madura. Essa escolha narrativa demonstra confiança no público, que não precisa ser novamente apresentado às circunstâncias que levaram à transformação do personagem. Ao invés de gastar tempo com explicações repetitivas, o roteiro direciona sua energia para o desenvolvimento da trama e para a construção de um protagonista mais consciente de seus poderes e dilemas. Essa escolha também ajuda a diferenciar o filme dentro do gênero de super-heróis, evitando a estrutura repetitiva de “descoberta de poderes” e focando em algo mais introspectivo: o peso de conviver com eles. O espectador acompanha um personagem que já entende sua própria força, mais ainda luta para aceitá-la, o que adiciona uma dimensão mais trágica e humana à narrativa. Assim, o foco se desloca do “como ele se tornou o Hulk” para “como ele aprende a viver sendo o Hulk”, transformando o conflito em algo mais psicológico e existencial.

A narrativa se desenvolve de maneira muito reta, sem grandes surpresas ou mudanças significativas ao longo da história. As situações parecem sempre conduzir o protagonista ao mesmo ponto de partida, criando a sensação de que ele está preso em um ciclo constante de fuga, perseguição e conflito. Cada novo obstáculo leva a uma reação previsível, e as consequências raramente transformam de fato o rumo da trama ou o estado emocional dos personagens. Essa repetição de eventos faz com que o enredo pareça girar em torno das mesmas ideais e conflitos, sem introduzir variações que tragam novas camadas ou desafios diferentes. A história, portanto, avança sem grandes viradas ou momentos de descoberta. Tudo acontece em sequência, de modo direto, e o público consegue antecipar facilmente o que vem a seguir. Essa linearidade acabam tornando o filme menos envolvente, pois faltam complexidade, variação emocional e surpresas capazes de renovar o interesse e dar profundidade à jornada do personagem.

O design do Hulk é o destaque do filme. A criatura tem aparência realista, com músculos bem definidos, pele detalhada e expressões que mantém a conexão com Bruce Banner. Sua movimentação transmite peso e força, tornando o personagem crível e imponente. O tom de verde mais escuro e o visual mais orgânico reforçam seu lado selvagem, resultando em um Hulk poderoso, convincente e visualmente marcante.

O incrível Hulk se destaca por sua abordagem direta e por apostar em uma narrativa mais madura dentro do gênero de super-heróis. Embora a trama apresente certa linearidade e repita alguns padrões de conflito, o filme compensa com uma execução técnica sólida e um bom equilíbrio entre ação e drama. O visual impressionante do Hulk e o esforço em humanizar Bruce Banner garantem momentos de intesidade e empatia, mesmo quando o roteiro não se arrisca tanto em novas direções. No fim, o longa funciona como uma peça importante na construção do personagem dentro do universo cinematográfico da Marvel, entregando uma experiência envolvente, visualmente marcante e emocionalmente contida, mas eficaz.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Mágicos trambiqueiros saem da aposentadoria em Truque de Mestre: O 3° Ato (2025)

 

Truque de Mestre: O 3° Ato | Paris Filmes


A franquia Truque de Mestre sempre foi feita de fumaça e espelhos, se traduzirmos a expressão "smoke and mirrors" ao pé da letra. 

Os filmes da série pegaram do público de surpresa na década passada com a figura emblemática dos "Quatro Cavaleiros", um grupo de mágicos e ilusionistas que fazem parte de uma organização secreta, o "Olho", dedicada ao fazer do mundo um lugar mais justo e expor o 1% da sociedade, junto de seus crimes. É uma versão fantasiosa do mundo real em que a mágica é levada a sério e artistas como David Copperfield (tirando a referência empoeirada da cartola aqui) fosse uma espécie de James Bond ou Ethan Hunt, misturado com Robin Hood. 

Mesmo aplicando a suspensão da descrença, os longas sofrem com problemas estruturais de narrativa, em favor de uma experiência visual, e, de preferência, com impacto. Muitas vezes, gerando plot twists e continuidade retroativa entre partes que, honestamente, parecem forçar a barra para seu lado, do que deixar seu universo verossímil. São obras que divertem, mesmo que a lógica da narrativa tende a ser meio acéfala, pelo deslumbramento, a ilusão das imagens editadas aqui; um ópio para as massas. 

É preciso ver de perto, para não enxergar as falhas, ou, em outras palavras, para não descobrir como o truque é feito. No entanto, tais manias exageradas, de certa forma, se cristalizaram e se tornaram parte da identidade da franquia. De certo modo, o público sabe o que esperar e não se importa muito sobre verossimilidade do mundo real aplicado a este mundo mágico, o que importa é se deixar levar pela ilusão. Este novo capítulo da franquia não poderia ser diferente neste aspecto. 

Em Truque de Mestre: O 3° ato, após uma década desde a sua última aparição pública, os Cavaleiros, liderados por Atlas (Jesse Eisenberg), são chamados pelo "Olho" para recrutar uma nova geração de ilusionistas (Justice Smith, Dominic Sessa, Ariana Greenblatt) para uma nova missão: desmascarar uma bilionária dona de um império de diamantes, Veronika Vanderberg (Rosemund Pike), associada a um esquema de lavagem de dinheiro em escala mundial.

A premissa do terceiro filme parece um amálgama de narrativas recortas e coladas de seus antecessores; a recriação de situações similares e temas recorrentes, reforçam essa sensação do que está sendo desenvolvido seja uma reciclagem do que algo 100% inédito. 

Há truques, cenários impossíveis, vinganças, reviravoltas no meio do caminho. O que para esta franquia é o estado normal do mundo, um dia como qualquer outro. Os roteiristas da vez se esforçam na emulação do tom exacerbado e fantasioso, mas a direção de Ruben Fleischer consegue contrabalancear entre a seriedade e o camp; algo que Leterrier e Chu, os diretores anteriores, não conseguiam de fato: criar uma galhofa assumida, sem fugir de sua superficialidade, interlaçado de camadas. O primeiro se levava muito a sério, enquanto o segundo não conseguia desenvolver seu lado mais dramático. 

O filme toca em temas como políticas pós-coloniais, exploração de recursos naturais, passado nazista, relações étnico raciais e de classe, que parecem, ao mesmo tempo, fazer e não fazer sentido algum para a narrativa. Tornando esta mistureba fascinante, dentro de um texto que, escrito entre três a cinco pares de mãos, é um tanto redundante e quase paródico de si (Há um momento que o nome completo de uma personagem é repetido umas quatro vezes em menos de cinco minutos, o que é um péssimo exemplo de escrita por sinal). É um quebra-cabeça bobo, mas há uma diversão implícita ao vê-lo sendo montado. As cenas que envolvem os truques de mágica do grupo ainda continuam sendo o chamariz da franquia: toda a construção do roubo do diamante é bem feita e o todo o cenário do castelo ilusionista é divertidíssimo de olhar.

Se o roteiro há uma simplicidade pífia na narrativa, o elenco consegue compensar a escrita com uma sinergia estrondosa em tela, daquelas que fazem o público se divertir, pois os atores estão se divertindo em tela com as situações absurdas e fantasiosas desse mundo. O elenco original do primeiro filme (Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Dave Franco, Isla Fisher) volta desta vez e tem bastante química com o novo elenco: Justice Smith é um atores mais underrated da geração atual e a química entre Eisenberg e Sessa é bastante elétrica; e até Morgan Freeman retorna com seu antagonista transformado em aliado para uma ponta aqui. 

Mas talvez, a adição de elenco mais chamativa seja a de Rosemund Pike, que consegue misturar classe e farofa, junto de um sotaque sul-africano, de forma cativante. Mesmo com um texto cafona, Pike não perde a elegância e contribui com um toque de humor próprio a uma personagem que, em outras mãos, poderia ser pálida e hermética. Ela, junto do restante do elenco, entende a proposta do filme e embarca, com a cabeça erguida, na fantasia. 

Truque de Mestre: O 3° ato repete a grandiosidade e as manias de seus antecessores, com um elenco afiado que consegue vender as situações mais impossíveis e os diálogos redundantes e explicativos com um carisma cativante. Existem surpresas no caminho, que vão agradar o público. Mesmo com suas manias e defeitos, é um longa divertido que não esconde a sua identidade de galhofa e consegue trabalhar de megalomania de modo que não aparenta ser mais inteligente do que é. Tem seus momentos de previsibilidade, é claro, mas há uma graça em assistir uma farofa recheada de ilusões.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


No Other Choice — O Melhor Longa de Park Chan-Wook

No Other Choice | Mubi


Contando a estória de um pai de família desempregado que começa a cometer assassinatos para ganhar uma vaga numa empresa, No Other Choice estreou no festival de Veneza e ganhou o premio máximo do Festival de Toronto. O filme está com distribuição da Mubi no Brasil e estreou na Mostra de São Paulo.

Os primeiros minutos de No Other Choice são curiosos, a abordagem do diretor Park Chan-Wook, muito conhecido por sua abordagem brutal de suas tramas optou por uma comédia ao nos jogar no universo de seu novo longa. Essa estratégia me pareceu como nova nesse seu novo filme que é uma mistura da sua violência com uma comédia satírica.

Em seu ultimo longa, Decisão Para Partir, Park também já havia tomado a decisão de misturar seu estilo com algo mais novelesco, porém, enquanto seu primeiro experimento falhou miseravelmente (pelo menos, na minha visão), este se mostra como um dos maiores acertos do ano todo. Pois, aqui, o cineasta sul-coreano parece ter um domínio muito maior de seu próprio estilo, num longa que beira o maneirismo.

As referencias a filmes como Carlitos’ Way e Ms. 45 são evidentes. Park tem a consciência de que não há como existir uma alegoria política nesse filme que é tão direto ao ponto, então ele não mede seus esforços para fazer de cada um dos assassinatos o maior espetáculo possível, não num sentido em que a violência seja glorificada, como são as criticas a Oldboy, mas neste filme a violência é um dos mais fortes dispositivos para Chan-Wook conduzir esse teatro sádico que nos coloca.

Toda a encenação constrói uma lógica de um teatro sádico em que o espectador é uma testemunha de todos os crimes do protagonista, e o julgamento começa a ser feito pelos próprios espaços do filme, que se usam da inutilidade para construir uma forma genuína de opressão. O castigo é para ver e ouvir, e depois de tudo para sentir.

Nos momentos em que a obra poderia se tornar repetitiva, Park Chan-Wook sabe como a reinventar, e não a partir de uma estética padrão hollydwiana-parasita, mas de uma maneira incrivelmente honesta. Os últimos minutos de No Other Choice reinvocam os primeiros de maneira nova, sem ter que espremer os espectadores a uma fórmula saturada.

O novo longa de Park Chan-Wook, No Other Choice é soberbo, e dará o que falar entre o grande publico. Por enquanto, o que digo é que o filme é definitivamente um  novo capitulo na vida desse cineasta, que já me parece que não precisa de ter de colocar uma musica de algum filme do De Palma para mostrar que ama ele, mas que já entende o que o cinema maneirista significa e o que dessas referencias devem ser utilizadas em seu longa.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

Os Assassinos (1964) - O Parasitismo Capitalista Pintado com Sangue e Luz

  Os Assassinos | Universal Pictures A obra de Don Siegel é um remake do filme de 1946, dirigido por Robert Siodmak e estrelado por Burt Lan...