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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Everytime - Minecraft, Papel e Ano Passado em Marienbad

Everytime | Charades

É incomum um filme como Everytime saindo nos dias de hoje. Não porquê seja de um tema difícil de ser falado - pelo contrário, não falar sobre o tema se tornou quase que obsoleto - mas é curioso a maneira em que a diretora Sandra Wollner escolhe para falar sobre ele.

No início do filme, somos apresentados a uma família excessivamente imperfeita, composta pela mãe Ella (Birgit Minichmayr) e suas duas filhas: Jessie (Carla Huttermann) e Merlli (Lotte Keiling). Jessie é a mais velha e a mais problemática, pois é uma adolescente em seus últimos anos na fase, e tem constantes brigas com sua irmã mais nova. A mesma namora Lux (Tristán López), que é um rapaz que parece ser muito passivo diante a tudo, até no momento em que ele sobe num prédio com sua namorada, e apenas observa ela caindo de mais de 20 andares, e caindo com tudo no chão, assim morrendo. Assim começa Everytime.

A jornada que o filme percorre para falar sobre luto é diferente. Sandra filma quase todos os personagens de muito longe, somos quase que obrigados a não sentirmos empatia por eles, pelo motivo de que muito pouco se sabia de Jessie, e se sabe ainda menos sobre cada um dos personagens.

Entra aí o Minecraft, um dos elementos mais importantes para a trama. A diretora escolhe por muitos momentos filmar uma jogatina do jogo da Mojang, em um de seus modos mais curiosos: o de espectador. Onde o player pode atravessar os espaços com total liberdade e sem nenhuma noção de materialidade.

E, de certo modo, Sandra escolhe que será dessa maneira em que ela abordará o luto: pela desconstrução total do espaço (no jogo, um mundo plano, no filme, Tenerife na Espanha) e escolhe filmar tudo se desmanchando diante os personagens, quase como se a realidade material tivesse se dissolvido por inteiro após a morte de Jessie.

Isso se torna ainda mais onírico quando o filme abandona completamente o senso temporal de espaço, pois o cinema também é espaço-tempo. No fim, tudo se torna cada vez menos nítido, e observamos lentamente a desconstrução da realidade material, para um mundo que se comporta cada vez mais como incerto e estranho, algo nos moldes na obra de Alan Resnais: Ano Passado em Marienbad. 

O sol, no fim, é o sol do Minecraft. Não existem limites para a realidade em Everytime, até porque ela já foi completamente trucidada no fim. Alguns lampejos são o voice-over de Ellen no fim do filme, mas sabemos que o que existia foi finalizado muito antes: quando Jessie despenca daquele prédio como papel e é amassada como uma folha.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



Tigre de Papel - Meio que uma Homenagem ao James Gray

Tigre de Papel | Diamond Films

No começo de Tigre de Papel, temos a família ideal norte-americana. E bem? Quantas vezes não vimos isso. A luz das janelas reflete na piscina de maneira perfeita, e os abraços de Miles Teller e Scarlett Johansson nos filhos são calorosos. O que gera a pergunta de: "até quando?", pois a perfeição é tamanha que parece falsa, e o filme até por meio de algumas cenas sugere que realmente ela é.

Mas a genialidade de Tigre de Papel está em nunca apresentar o conflito, pois ele não existe. Por 30 minutos, o sonho americano existe no único espaço onde ele realmente foi possível: no cinema. Até quando somos apresentadas ao personagem de Adam Driver, o irmão de Miles Teller no filme, que é um policial que anda sempre armado e tem uma queda pela violência, temos uma impressão de que o mesmo não era passível de nenhum tipo de maldade maior.

James Gray nos hipnotiza com essa realidade nos 30 primeiros minutos de Tigre de Papel. Porém, como já diria Abbas Kiarostami, o cinema é uma realidade duplamente possível, pois quando se tem dois ou mais takes, a realidade deixa de ser realidade. E com dois ou mais planos, James Gray desmonta o sonho americano, como já havia feito em seu filme Era Uma Vez em Nova York.

Ao fazer o dolly se tornar uma questão de sobrevivência no filme - a cena em que Miles Teller olha para o lago é o exemplo disto - percebemos que o sonho americano também é um sonho não intencionalmente destrutivo. Ao filmar o lago podre, James Gray também filma o sonho americano tanto quanto filmou no início do filme.

Assim me vem a memória Watchmen do Alan Moore, quando o comediante está jogando seu lança-chamas para cima da multidão e o Coruja pergunta aonde foi parar o sonho americano, gerando a rápida resposta do Comediante de que aquilo também era o sonho americano. Pois bem, a violência da segunda parte do filme, que se arrasta até o final também é, de algum modo ou outro, parte do sonho americano do início do filme.

O exercício de Gray é justamente o de como se filmar esse desejo inconsciente pela violência, pois nos seus primeiros filmes essa violência fazia parte de um ciclo direto, aqui o ciclo é totalmente indireto.

Aqui faço um exercício: a cena em que o pai de Reuben bate no rapaz em Fuga Para Odessa, enquanto a porta fecha. Temos ali a visão do que seria a violência familiar, que depois passa a ser institucionalizada. Em Tigre de Papel, temos o total contrário: na cena em que Miles Teller briga com seus filhos após tomar um apavoro da máfia e se tornar paranoico com segurança, temos uma violência que deixa a instituição (máfia) pra se tornar familiar.

O conflito atinge diretamente a personagem da Scarlett Johansson, enquanto a mesma encontra na morte uma fuga da violência familiar, que uma vez apresentada será sacralizada, como parte ritualística da família, como sempre é nos filmes de James Gray.

No fim, Paper Tiger é uma volta de James Gray aos seus filmes mais pessoais e complexos num todo. Se quisermos falar sobre como Paper Tiger é um filme que fala sobre o mesmo que em todos, deixamos isso para o futuro. Aqui, vejo uma desconstrução do que já me foi apresentado. Depois, vejo mais.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Maria de Maria - O verdadeiro ouro está mais perto do que você imagina

Maria de Maria | O2 Play


No longa, dirigido por Luiza Shelling, acompanhamos a trajetória de Maria, uma jovem cangaceira que, após descobrir uma gravidez e perder seu bando em um massacre, precisa abandonar a vida que conhecia para tentar recomeçar em outra região do país. Em fuga para o Centro-Oeste, ela encontra no programa governamental Marcha para o Oeste, criado durante o governo de Getúlio Vargas, a possibilidade de conquistar um pedaço de terra e construir um futuro diferente para si e para seu filho. Em meio às promessas de uma nova vida, Maria precisa enfrentar os desafios de um território desconhecido, as dificuldades de reconstruir sua identidade e os conflitos que surgem quando seus desejos entram em choque com as estruturas de poder da época.

Um dos principais problemas do longa está na maneira como o roteiro tenta abordar uma quantidade considerável de assuntos ao longo da narrativa e ao explorar diferentes questões sociais, políticas e históricas, o filme acaba dividindo sua atenção entre pautas que, individualmente, poderiam render discussões muito mais profundas. Como consequência, alguns desses temas parecem ser apresentados apenas superficialmente, sem receber o tempo necessário para que suas implicações sejam realmente exploradas. A sensação é de que existe uma vontade de dizer muitas coisas, mas nem sempre há espaço suficiente para desenvolver todas elas com a sensibilidade que merecem, algumas questões poderiam ter um impacto muito maior se fossem trabalhadas com mais sutileza, permitindo que seus significados surgissem naturalmente a partir das experiências dos personagens, em vez de serem apenas incorporados à trama.

Apesar dessa limitação, a narrativa consegue estabelecer um ritmo bastante consistente durante boa parte de sua duração, como a trajetória de Maria que se desenvolve de maneira envolvente, acompanhando suas tentativas de reconstruir a própria vida enquanto precisa lidar com as incertezas de um futuro que está longe de ser garantido. O longa consegue manter o interesse do espectador ao apresentar os obstáculos que surgem nesse processo, equilibrando os momentos mais íntimos com os conflitos externos que ameaçam a estabilidade conquistada pela protagonista. Entretanto, esse equilíbrio se perde justamente no ápice do confronto entre Maria e os militares, depois de construir uma tensão que sugere consequências muito mais intensas, o filme resolve esse conflito de maneira excessivamente simples, sem explorar todo o peso emocional que a situação poderia carregar para quem assiste.

Se o roteiro apresenta algumas dificuldades, a fotografia surge como o grande destaque técnico da produção. O trabalho visual complementa de maneira admirável a visão de Luiza Shelling, contribuindo para estabelecer a atmosfera da narrativa, a composição dos enquadramentos e a maneira como os espaços são apresentados ajudam a construir a relação entre Maria e o ambiente ao seu redor, fazendo com que a paisagem tenha uma presença que vai além da função de cenário. É um trabalho que demonstra como as escolhas estéticas podem contribuir diretamente para a narrativa, tornando a fotografia o aspecto técnico mais admirável do longa.

Entretanto, o verdadeiro coração de Maria de Maria está na relação construída entre Nanda Costa, João Campos e o ator mirim que interpreta o filho da protagonista. A química entre os três é impressionante e faz com que o espectador se envolva profundamente com essa “família”, acompanhando seus momentos de afeto, suas dificuldades e suas tentativas de encontrar alguma estabilidade em meio às adversidades. Nanda Costa entrega uma Maria que carrega as marcas de seu passado, mas que também encontra na maternidade e na possibilidade de recomeçar uma motivação para continuar lutando. Sua interpretação ganha ainda mais força quando dividida com os demais integrantes desse núcleo, criando uma dinâmica que transmite proximidade e cumplicidade sem depender de diálogos.

Maria de Maria é um longa que encontra força na trajetória de sua protagonista e, principalmente, nas relações que ela estabelece ao longo do caminho. No fim, é uma obra com qualidades evidentes, mas que poderia alcançar um impacto muito maior caso confiasse mais nas narrativas centrais de seus personagens e permitisse que algumas de suas questões fossem desenvolvidas com a profundidade que merecem.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Bucking Fastard (2026): Herzog e sua fábula de codependência

 

Bucking Fastard | HanWay Films


Como entender a natureza contraditória das coisas? Os cernes das emoções? O desejo do irracional? A vontade de amar e ser amado? De nadar contra a corrente? De se destacar? Existe uma dialética na compreensão, algo não dito nas relações humanas, cuja a maioria, ao longo da vida, consegue decifrar. As irmãs Holbrooke, Jean (Kate Mara) e Joan (Rooney Mara), ainda não conseguem decifrar os outros; mas, em compensação, elas se conectam de forma simbiótica, em uníssono falam, pensam, agem e sonham em comunhão consigo mesmas. Incompreendidas por todos, elas almejam o amor e a liberdade de serem elas mesmas. 

Em Bucking Fastard (2026), Werner Herzog nunca trata suas protagonistas (cujas interpretes são irmãs na vida real) de forma negativa, se na trama há um humor causado pela estranheza, ele está lá e é absolutamente  delicioso, mas o guião nunca põe Jean e Joan como o alvo da piada. Elas são uma representação da natureza. Sua psiquê em comum é diferente das outras pessoas: entre a co-dependência e comportamento obsessivo, elas veem o mundo de uma perspectiva diferente, por mais que, para os demais personagens e até mesmo ao público, tenham uma visão egocêntrica e deturpada. Existe uma certa inocência no cerne do estudo de personagem que Herzog desenvolve que é impossível, aos poucos, não compreendê-las. Seu amor é maior do que si mesmas. Elas vivem das emoções que as retroalimentam e, portanto, precisam da esperança de serem amadas.

Após se apaixonarem por um vizinho galanteador (Orlando Bloom), as irmãs Holbrooke sofrem um escrutino público quando este homem as processa por assédio moral e garante um ordem de restrição, em uma hilariante e estupenda cena de tribunal. Há uma perda de controle, um estrago foi feito. E, de um jeito ou de outro, Jean e Joan precisam pagar o preço de suas emoções e, em um longo processo de auto conhecimento, precisam recolher os cacos de sua destruição moral. Nada é fácil, estão vulneráveis, mesmo presas no seu próprio mundo particular. São mulheres inconvenientes, difíceis de lidar e possivelmente neurodivergentes; mas a câmera nos convida a adentrar seu mundo, a presenciar o dia-a-dia, os abusos, as dificuldades e os desejos das personagens... Aliás, diga-se de passagem de fotografia digital é um melhores feitos nos últimos anos, entendo a noção da profundidade que me parece ter sido esquecida no cinema atual com planos chapados e desfocados.

Herzog usa de uma estrutura fabular para desenvolver o longa-metragem: primeiro uma comédia de erros, e, em segundo, um drama familiar. Existe uma cisão de tom no meio do filme que pode causar o estranhamento para alguns membros da audiência, mas que em nada me incomodou. O trabalho de atuação das irmãs Mara é robusto e convincente, fugindo muito da lógica do casting por publicidade; desenvolvendo suas personagens de um jeito convincente para acreditarmos em seu absurdismo. Acreditamos que as Mara são as Holbrooke e, em momento algum, as colocamos em uma posição de descrença em respeito a atuação. 

Quando o filme enfoca na reconstituição das protagonistas e em sua busca por uma ilha prometida, Herzog vira a chave. Se as irmãs são um símbolo da natureza, pueril e, relativamente, inocente, o mundo quer as destruírem em benefício próprio. Para ele, elas sempre serão vistas como aberrações, como o próprio final da obra sugere. portanto, sua codependência não é somente consigo, mas também com este mundo que as aprisiona, explorando-as. O realizador se coloca na posição de pôr a luz na alteridade e nos mostra como é, de modo desconcertante, é estar nesse lugar. Mas nunca em tom trágico. São pardais a cantar dentro de uma gaiola. Precisam encantar para sobreviver; e sobreviver para sonhar com um  mundo além das grades. Um sonho de liberdade e autonomia.


*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (na fatídica sessão no Cinesystem Belas Artes Botafogo em que, por desleixo da produção do evento, decidiu exibir o filme, falando em língua inglesa, sem legendas para um público brasileiro. O que aconteceu com o pensar no coletivo? Entendi o filme bem, mas mesmo assim não é um bom precedente ao festival... Mais um trauma para a lista!)

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026): Trauma e Raiva na Infância

 

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026) | Retrato Filmes

O mundo de Josephine (Mason Reeves), de apenas oitos anos, parece aparentemente normal: seus pais, sua rotina na escola, seus sonhos, sua aptidão para o futebol. Porém, uma manhã em específico, ela e seu pai (Channing Tatum), vão muito cedo para um parque na região de São Francisco para praticar esportes ao ar livre; algo saudável, útil e parte do cotidiano deles. 

A criança corre na frente do pai e, entre as árvores, perto do banheiro público, ela vê uma corredora entrar lá. Logo em seguida, um homem aparece ali, entra no local, persegue a mulher, a ataca, imobilizando e batendo sua cabeça contra o chão. Desacordada, o sujeito tira a roupa de ambos e começa a viola-la, repetidas vezes. Ela acaba se recobrando, mas ele a enforca durante a penetração, abafando os gritos da vítima. E vemos todo o crime se desenrolar através dos olhos de Josephine, que atordoada, é a única testemunha ocular da ação. 

É dessa maneira em que começa o longa Josephine - Fragmentos de um Crime (2026), dirigido pela diretora brasileira Beth de Araújo, de uma maneira inesperada e brutal. A cena em si é explicita, bem-feita, dolorida e deixou algumas pessoas na sessão da cabine de imprensa um pouco desconfortável (algo, que devo dizer, é raro no cinema contemporâneo atual, em que as ações são higienizadas para o público). Talvez essa o objetivo do filme, começar uma discussão e fragilizar o público; por mais que a diretora acaba repetindo a fragilização, de modo quase gratuito.

Os pais de Josephine (Tatum e Gemma Chan) não sabem o que fazer com a filha, que traumatizada com o ocorrido, se vê perseguida pela sua vulnerabilidade e o medo de estar, em um futuro próximo, na mesma posição do que a vítima. Ela se torna mais fechada, violenta e incompreendida. Seu mundo é incerto. Com o fantasma do abuso a perseguindo, o agressor aparecendo como uma espécie de 'amigo imaginário', e a falta de um apoio psicológico apropriado, Josephine entre num mundo de ódio e indignação, na qual ela não tem maturidade para compreender a raiva que sente; quase se tornando uma proto-femcel no processo, ressentindo ao mundo masculino, revoltando-se com a intimidade dos pais, agredindo colegas importunos e até quase provocando um aborto.

O trabalho de Araújo, quando se concentra em sua protagonista, maravilhosamente interpretada por Reeves, consegue se desenvolver; porém, quando o foco se volta aos pais de Josephine, fica tímido, um pouco banal. Sua câmera se move, tem perspectiva, é ágil em diferentes sequências em que vemos um campo de visão amplo, porém, em outros momentos, o movimento torna-se repetitivo, como um truque. Além de algumas sequências de montagens, bem no estilo videoclipe, que me tiram completamente da narrativa em alguns momentos. Se um filme consegue ser conciso, quando uma mãe diz a uma filha que não consegue curar sua dor, sua raiva, mas que ela precisa doma-la; como, ao mesmo tempo, beira ao um certo fetichismo de sofrimento coletivo para expressar a mesma mensagem? O feminino precisa expressar sua raiva diante de uma tentativa de violência e de feminicídio, um tópico bastante pertinente, mas quando o filme somente quer dar ênfase na raiva, acaba diluindo muito o que tanto almeja: mensagem, catarse e crítica.

O longa-metragem tem seus excessos, alguns bons e outros não, mas quando é direto no ponto e no que deseja dizer, acaba se tornando algo poderoso, especialmente as espectadoras que vivem com o mesmo medo que a protagonista. A mensagem é importante, mas narrativa e forma, também ser levado ao mesmo grau de importância. Felizmente, a obra não acaba se perdendo numa abordagem panfletária e nem num fetiche completo de dor. Talvez, de estilo e narrativa, poderia ter mais sutilezas, mas ainda assim tem ambição de contar não só uma história, um estado de espírito. 

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026.

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Funk - Na corrida pelo seu sonho!

Funk | Paris Filmes

Funk (2026), dirigido por Aly Muritiba, assume com coragem e ousadia a realidade do funk e apresenta ao público a trajetória de uma jovem da favela que sonha em conquistar seu espaço como MC, iniciando sua carreira pelos bailes das favelas cariocas. A narrativa acompanha Sabrina, uma menina que encontra na música não apenas uma possibilidade de carreira, mas também uma forma de expressar seus desejos, sua identidade e a realidade ao seu redor. O longa acerta ao não tratar esse universo de maneira superficial ou estereotipada, permitindo que o funk faça parte da própria construção da história e da identidade de seus personagens.

Um dos grandes destaques da produção está justamente na maneira como seus elementos técnicos são utilizados para construir essa realidade, como por exemplo: a trilha sonora é excepcional e aparece de maneira pontual ao longo da narrativa, não funcionando apenas como acompanhamento das cenas, mas como uma ferramenta importante para desenvolver os acontecimentos e transmitir aquilo que os personagens estão vivendo. A música ajuda a estabelecer o ritmo do filme e, principalmente, a aproximar o espectador do universo de Sabrina. Da mesma forma, a fotografia e a direção de arte contribuem para representar o funk de maneira mais transparente, trazendo para a tela ambientes, estética e elementos que fazem parte desse universo sem tentar suavizá-los ou transformá-los em algo distante de sua realidade.

Duda Santos é outro grande acerto do longa, a atriz consegue prender a atenção do espectador desde os primeiros momentos em que Sabrina aparece e sustenta essa conexão até o final. Existe uma entrega muito evidente ao papel, tanto na maneira como ela interpreta os momentos de vulnerabilidade da personagem quanto na forma como transmite sua determinação e seus sonhos. Duda consegue construir Sabrina com muita maestria, fazendo com que a personagem pareça genuína e permitindo que suas escolhas, inseguranças e conquistas tenham peso dentro da narrativa, é uma atuação que não depende apenas de grandes momentos dramáticos, mas também de pequenos gestos e expressões que ajudam a revelar quem Sabrina é.

A construção dos personagens, inclusive, é um dos aspectos mais interessantes de Funk, o filme consegue apresentar pessoas com sonhos, dificuldades, ambições e contradições próprias, fazendo com que elas existam para além da trajetória da protagonista. Existe uma preocupação em tornar esses personagens reais, com objetivos que fazem sentido dentro de suas próprias histórias e que podem gerar identificação no público. Isso também evita aquela sensação comum em algumas produções de que os personagens secundários existem apenas como “chaveirinhos” da protagonista, servindo exclusivamente para ajudá-la ou movimentar sua narrativa. Ao acompanhar personagens que possuem sonhos possíveis, conflitos reais e diferentes formas de enxergar o futuro, o longa permite que o público se reconheça naquela realidade. Mais do que contar a história de uma menina que deseja ser MC, a produção apresenta pessoas tentando encontrar seu próprio caminho dentro das possibilidades que possuem. Existe inspiração justamente porque o longa não transforma seus personagens em figuras idealizadas: eles são apresentados com suas dificuldades, limitações e desejos, tornando suas conquistas ainda mais significativas.

No fim, Funk encontra sua maior força na autenticidade com que escolhe contar essa história. Aly Muritiba constrói um longa que entende a importância do funk para seus personagens e utiliza seus elementos técnicos para fazer com que esse universo esteja presente não apenas no roteiro, mas também na imagem e no som. A trilha sonora se destaca, a fotografia e a direção de arte ajudam a estabelecer uma identidade própria, enquanto Duda Santos entrega uma atuação extremamente envolvente como Sabrina. É um filme que abraça seu universo sem medo e encontra justamente nessa autenticidade uma de suas maiores qualidades.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Prima Facie - Uma voz que grita por justiça

Prima Facie | Sony Pictures

Estrelado por Cynthia Erivo, Prima Facie parte de uma obra que já carrega uma forte identidade teatral. Baseado no monólogo, de mesmo nome, de Suzie Miller, que ganhou destaque nos palcos e também recebeu uma montagem brasileira protagonizada por Débora Falabella, o filme parece assumir conscientemente algumas características de sua origem. A fotografia, em especial, apresenta uma composição que remete constantemente ao teatro, com enquadramentos e escolhas visuais que dão a sensação de estarmos acompanhando uma peça sendo transportada para o cinema. Essa decisão ajuda a preservar parte da essência do material original, mas também evidencia uma das principais dificuldades da adaptação: encontrar uma linguagem cinematográfica capaz de expandir aquilo que funcionava tão bem no palco.

Cynthia Erivo é, sem dúvida, o principal ponto de sustentação da produção, ela se entrega completamente à personagem e demonstra um domínio muito grande das emoções exigidas pela narrativa, especialmente nos momentos de maior vulnerabilidade e tensão. Existe um esforço evidente para carregar o filme praticamente sobre seus ombros, utilizando sua presença em cena para manter o envolvimento do espectador mesmo quando o roteiro começa a perder força. Erivo consegue transmitir o impacto emocional de determinadas situações e faz com que a trajetória da personagem continue despertando interesse, ainda que a adaptação nem sempre ofereça a ela elementos narrativos à altura de sua atuação.

O problema está justamente na transição do palco para a tela, o longa parece encontrar dificuldades para compreender completamente o que precisa ser transformado quando uma história construída essencialmente a partir de um monólogo teatral passa a ocupar o espaço do cinema. O que no teatro pode funcionar pela proximidade entre atriz e público, pela força da interpretação e pela própria dinâmica do palco, nas telas acaba dependendo de uma linguagem mais ampla para manter o mesmo impacto. Essa questão se torna ainda mais evidente quando a produção aborda seu principal tema: a violência sexual contra mulheres e as dificuldades enfrentadas pelas vítimas dentro de estruturas que deveriam acolhê-las. A intenção de conscientizar e provocar reflexão é bastante clara, e o filme consegue transmitir a dimensão emocional e social desse debate. Entretanto, alguns dos recursos utilizados para reforçar sua mensagem acabam sendo excessivamente óbvios. Determinadas situações parecem construídas para garantir uma reação específica do espectador, enquanto algumas soluções de roteiro simplificam questões que poderiam receber um tratamento mais complexo e menos previsível.

Isso não significa que a reflexão proposta pelo filme deixe de funcionar. Pelo contrário, Prima Facie consegue provocar questionamentos importantes sobre consentimento, violência sexual, julgamento das vítimas e a maneira como determinados sistemas lidam com esses casos.

Ainda assim, existe mérito na decisão de levar essa história para um público maior. A adaptação preserva a potência de um material que nasceu no teatro e utiliza a força de Cynthia Erivo para manter vivo o peso emocional da protagonista. Mesmo com suas limitações, o filme não deixa de cumprir uma função importante ao colocar a violência sexual e suas consequências no centro da narrativa, estimulando o espectador a refletir sobre questões que continuam extremamente relevantes. No fim, é uma obra que ainda consegue provocar discussões importantes, mas que deixa a sensação de que o material original possuía uma força que o cinema nem sempre conseguiu reproduzir.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Feito Pipa - Carta de amor, brilho e liberdade à infância

Feito Pipa | Paris Filmes

O longa brasileiro dirigido por Allan Deberton e estrelado por Yuri Gomes e Lázaro Ramos, acompanha Gugu, um menino de 11 anos que vive com sua avó Dilma nas proximidades de uma barragem. Enquanto o garoto aproveita sua infância com a coragem e a curiosidade próprias de sua idade, Dilma começa a enfrentar o avanço do Alzheimer, fazendo com que as lembranças e a própria percepção da realidade se tornem cada vez mais frágeis. Conforme a condição da avó se agrava, Gugu passa a esconder o que está acontecendo por medo de ser afastado dela e acabar vivendo com o pai, um homem homofóbico. Entre momentos de afeto, descobertas e o inevitável avanço do esquecimento, o filme acompanha a relação dos dois diante de um futuro cada vez mais incerto.

É justamente a partir dessa relação que Feito Pipa constrói sua narrativa, encontrando sua principal força na perspectiva de Gugu. Ao longo da história, acompanhamos não apenas a deterioração da memória de Dilma, mas também o amadurecimento precoce de um menino que tenta lidar sozinho com uma situação que ultrapassa aquilo que sua idade deveria exigir. A produção apresenta ainda uma representação do Ceará que foge de algumas imagens mais recorrentes associadas ao estado no cinema, trazendo uma região mais genuína, viva e próxima de seus personagens. Essa ambientação contribui para que o longa encontre uma identidade própria e faça do cenário uma parte importante da experiência.

Por outro lado, essa própria escolha acaba sendo parcialmente compensada pela maneira como Yuri Gomes domina as telas, o ator entrega um Gugu extremamente envolvente e consegue fazer com que o espectador acompanhe a história quase inteiramente através do seu olhar. Sua interpretação estabelece uma conexão tão forte com o personagem que passamos a compartilhar sua percepção sobre as pessoas ao seu redor, conhecendo-as conforme ele as conhece. Isso faz com que o público nem sempre tenha tempo para construir suas próprias conclusões sobre os demais personagens, já que a narrativa está constantemente filtrada pela experiência de Gugu.

A relação entre Gugu e sua avó, interpretada por Teca Pereira, é outro grande destaque, a química entre os dois é impressionante e existe uma naturalidade na maneira como Yuri Gomes e Teca Pereira dividem a tela, que faz parecer que ambos nasceram para aqueles papéis. A relação de avó e neto é construída com afeto, cumplicidade e também com uma emoção que não depende de grandes discursos para funcionar. Pequenos gestos, olhares e momentos compartilhados são suficientes para transmitir a importância que um tem na vida do outro. É uma dinâmica que consegue criar alguns dos momentos mais emocionantes do filme justamente porque parece verdadeira.

Feito Pipa entrou na corrida brasileira pelo Oscar 2027, algo que também acrescenta uma dimensão importante à trajetória do longa. A produção possui características que podem representar muito bem o cinema brasileiro internacionalmente, principalmente pela maneira como transforma uma história profundamente particular em uma experiência capaz de dialogar com temas universais, como família, memória, afeto, amadurecimento e pertencimento. Mais do que levar uma produção brasileira para uma premiação internacional, o filme tem a oportunidade de apresentar ao público estrangeiro uma narrativa marcada por personagens genuínos e por uma representação do Ceará que foge de estereótipos. É justamente essa identidade própria que faz com que o longa tenha potencial para ser um representante bastante significativo do Brasil nessa corrida. 

Feito Pipa encontra em Yuri Gomes seu grande ponto de equilíbrio. O ator domina a narrativa e transforma Gugu em um protagonista carismático, envolvente e capaz de conduzir o espectador por sua própria perspectiva. A relação construída com Teca Pereira é outro grande acerto e entrega uma das conexões mais fortes e emocionantes do filme. Embora alguns personagens secundários deixem a sensação de que poderiam ter sido mais desenvolvidos, a força da dupla central compensa parte dessas limitações. É um longa que encontra sua identidade na simplicidade das relações e, principalmente, na capacidade de fazer o público enxergar aquele universo através dos olhos de Gugu.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

 

domingo, 4 de outubro de 2026

Coração Selvagem - A lealdade se torna uma forma de sobrevivência.

Coração Selvagem | Paramount Pictures


Um ex-soldado ferido e seu cão de guerra aposentado lutam para sobreviver na região do Alasca e encontrar o caminho de volta para casa após um acidente.

A trama do filme é simples: um homem e seu cachorro lutam para sobreviver em um ambiente hostil. Ainda assim, o espectador se apega facilmente aos dois personagens. James, o protagonista, sofre de uma doença cardíaca, enquanto Odin demonstra uma lealdade incondicional ao dono. No entanto, Odin não é retratado apenas como um animal indefeso que depende da proteção de James, mas como um verdadeiro combatente e sobrevivente. Essa característica se torna ainda mais evidente quando são reveladas as marcas deixadas por seu passado. Trata-se de um cão de combate, coberto por cicatrizes de guerra e que, assim como James, parece carregar consigo traumas que permanecem mesmo após o fim de sua atuação militar. Seus pesadelos e reações diante de determinadas situações remetem às experiências vividas durante esse período, revelando que algumas lembranças continuam presentes e são capazes de despertar seus gatilhos emocionais.


O filme apresenta os traumas de James de maneira mais sutil. Suas experiências são percebidas principalmente em sua preferência pelo isolamento e na maneira cuidadosa e racional com que enfrenta cada dificuldade. Nesse sentido, James e Odin estabelecem um paralelo interessante: ambos são veteranos marcados pelas experiências da guerra e precisam aprender a sobreviver longe do ambiente para o qual foram treinados. Enquanto James enfrenta suas próprias limitações e lembranças, Odin reage aos acontecimentos carregando as marcas físicas e emocionais de seu passado. A relação entre os dois, portanto, vai além da companhia entre homem e animal, mostrando como ambos encontram um no outro uma forma de enfrentar os traumas e as dificuldades que ainda os acompanham.


A confiança entre James e Odin ao longo da jornada. Em situações de perigo, os dois dependem um do outro para continuar avançando, o que torna a sobrevivência uma experiência compartilhada. A presença de Odin também ajuda a humanizar James, mostrando um personagem que, apesar de sua postura resistente e de sua experiência militar, possui fragilidades e demonstra afeto. Ao mesmo tempo, James oferece a Odin segurança e proteção, criando uma relação baseada na reciprocidade. A jornada pelo Alasca não representa apenas uma luta contra as condições naturais, mas também um processo de enfrentamento dos próprios medos e das marcas deixadas pelo passado.


A paisagem do Alasca tem um papel importante na construção visual do filme. As grandes tomadas que mostram a imensidão do cenário e os movimentos de câmera, ajudam a destacar a beleza e a grandiosidade do ambiente. Em contrapartida, a fotografia evidencia o caráter perigoso e hostil da região. As florestas extensas, as águas geladas e as mudanças imprevisíveis do clima reforçam a sensação de isolamento vivida pelos personagens. Nos momentos de maior tranquilidade, a câmera permite que o espectador observe a paisagem com mais calma, criando uma pausa antes que novos desafios surjam.


Coração Selvagem utiliza uma narrativa simples de sobrevivência para desenvolver temas como trauma, lealdade, companheirismo e superação. A relação entre James e Odin é o principal elemento emocional da obra, pois os dois compartilham não apenas um vínculo de amizade, mas também as marcas físicas e psicológicas deixadas pela guerra. Ao enfrentarem juntos os desafios do ambiente selvagem, ambos encontram no outro uma forma de lidar com suas próprias limitações e seguir em frente.


Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Verity - Por quem a verdade foi manipulada?

Verity | Sony Pictures


A adaptação cinematográfica do best-seller de Colleen Hoover, acompanha Lowen Ashleigh, uma escritora contratada para concluir a série de livros de Verity Crawford, uma autora de sucesso que ficou impossibilitada de continuar seu trabalho após um grave acidente. Ao se mudar temporariamente para a casa da família Crawford, Lowen começa a descobrir evidências cada vez mais perturbadoras sobre o passado da escritora, enquanto sua relação com Jeremy, marido de Verity, se torna mais próxima. O longa constrói sua narrativa a partir desse mistério e da dúvida constante sobre aquilo que realmente aconteceu dentro daquela casa, criando uma atmosfera que mistura suspense, romance e momentos de tensão.

Alguns elementos presentes no livro foram retirados ou simplificados e, apesar de ser compreensível que uma adaptação precise fazer escolhas, determinadas mudanças poderiam ter agregado bastante à narrativa cinematográfica. Alguns trechos poderiam ajudar a construir uma atmosfera de suspense ainda mais intensa e contribuir para aumentar a sensação de desconfiança em relação aos personagens. Com essas alterações, o filme acaba perdendo algumas oportunidades de explorar melhor o desconforto e a paranoia que fazem parte da experiência de acompanhar a história.

Também tive a sensação de que o longa parece ter medo de ser mais longo, ele apresenta acontecimentos que poderiam receber mais tempo de desenvolvimento, mas rapidamente passa de uma situação para outra, como se estivesse constantemente preocupado em chegar ao próximo ponto importante da trama. Essa pressa não chega a comprometer completamente a experiência, mas faz com que determinadas relações e descobertas pareçam menos desenvolvidas do que poderiam. Em uma história cujo principal combustível é justamente o suspense, permitir que algumas situações respirassem um pouco mais, poderia tornar a experiência ainda mais sufocante e aumentar o impacto das revelações. 

O maior desafio da adaptação, porém, está no mistério central da história. Uma das grandes forças do livro é justamente conseguir dividir opiniões sobre aquilo que realmente aconteceu, fazendo com que diferentes interpretações possam surgir e gerar discussões entre os espectadores. No filme, entretanto, a maneira como determinadas informações são apresentadas pode tornar a tomada de decisão um pouco mais tendenciosa. Isso pode ser especialmente perceptível para quem nunca teve contato com o livro, já que algumas escolhas da adaptação acabam conduzindo o público para uma determinada interpretação com mais facilidade.

Por outro lado, a química entre o elenco funciona muito bem e é um dos grandes responsáveis por sustentar a narrativa. As relações entre os personagens possuem uma dinâmica convincente, principalmente quando o filme alterna entre momentos de intimidade e situações de desconfiança. Essa conexão entre os atores ajuda a tornar os personagens mais interessantes e faz com que o público se envolva com aquilo que está acontecendo dentro daquela casa. Mesmo quando o roteiro acelera determinadas passagens, o elenco consegue compensar parte dessas limitações ao transmitir as emoções necessárias para cada momento.

Verity é, no fim, uma boa adaptação, especialmente quando consegue transformar o suspense da obra original em momentos capazes de provocar reações diferentes no espectador. O filme possui passagens divertidas, outras bastante desconfortáveis e algumas que realmente conseguem deixar o público sem ar, principalmente quando a tensão entre os personagens chega ao limite. Embora pudesse ter aproveitado melhor determinados elementos do livro, desenvolvido algumas situações com mais calma e preservado uma ambiguidade maior em seu principal mistério, a produção consegue encontrar sua própria identidade e entregar uma experiência que funciona tanto pelo suspense quanto pela dinâmica de seu elenco. É uma adaptação que talvez pudesse ter ido mais longe, mas que ainda encontra bons momentos para prender a atenção e provocar o seu público.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Digger - O homem mais poderoso do mundo VS mãe natureza

Digger | Warner Bros. Pictures


Digger Rockwell (Tom Cruise) é um poderoso empresário do setor petrolífero que acaba envolvido em uma crise de proporções internacionais após um acidente em uma de suas instalações na Groenlândia provocar o deslocamento de uma gigantesca massa de gelo. À medida que a geleira avança em direção ao continente europeu e ameaça desencadear consequências catastróficas, o empresário se vê no centro de uma disputa que ultrapassa seus interesses pessoais. Governos de diferentes países entram em choque enquanto tentam lidar com uma situação inédita, colocando Digger diante de decisões capazes de afetar não apenas seu próprio futuro, mas o equilíbrio político e econômico de todo o mundo. Dirigido por Alejandro González Iñárritu, o longa parte de uma premissa bastante interessante para construir uma sátira política que transita entre o absurdo, o humor ácido e uma visão propositalmente desconfortável da sociedade contemporânea. Digger é inserido em uma narrativa que utiliza o exagero para apresentar figuras e situações que parecem caricaturas de um sistema político cada vez mais preocupado com espetáculo, poder e interesses próprios. O interessante é que, mesmo assumindo uma abordagem extremamente estereotipada, o filme consegue transformar esse exagero em parte fundamental de seu humor e de sua crítica. Um dos grandes acertos está na maneira como a fotografia e a direção de arte contribuem para contar essa história, a estética do filme não funciona apenas como uma escolha visual, mas como uma extensão da própria narrativa, criando uma atmosfera propositalmente pálida, desgastada e quase sem vida. Os ambientes, as cores e a composição dos enquadramentos ajudam a transmitir a sensação de um mundo esvaziado, no qual os personagens parecem estar presos dentro de uma realidade tão absurda quanto deprimente. Essa identidade visual reforça a sensação de farsa e faz com que o espectador perceba que existe algo artificial por trás de praticamente tudo o que está sendo apresentado. O longa consegue flertar muito bem com a comédia ácida, fazendo com que algumas cenas sejam engraçadas justamente pela maneira como exageram comportamentos que reconhecemos na realidade. O filme não precisa transformar seus personagens em representações completamente realistas para transmitir sua mensagem; pelo contrário, é através do exagero que encontra sua principal ferramenta de crítica. Tom Cruise incorpora Digger com bastante maestria, existe uma entrega evidente na maneira como o ator abraça as características excêntricas do personagem e entende que a interpretação precisa acompanhar o tom absurdo estabelecido por Iñárritu. Outro aspecto que chama atenção é a maneira como o longa parece, em alguns momentos, construído para dialogar diretamente com a temporada de premiações. A grandiosidade da produção, a presença de Alejandro González Iñárritu na direção e, principalmente, o espaço dado a Tom Cruise fazem com que o longa transmita uma certa sensação de “filme para Oscar”. A própria construção de roteiro parece oferecer ao ator uma oportunidade de explorar diferentes nuances e mostrar uma faceta mais dramática e excêntrica de sua atuação, quase como se o projeto também carregasse a intenção de ampliar ainda mais sua coleção de troféus. Mesmo sem ser possível afirmar que essa tenha sido a motivação por trás da produção, essa impressão está presente na experiência, especialmente quando o filme aposta em elementos tradicionalmente associados a produções de prestígio. Digger consegue, portanto, encontrar força justamente na união entre sua narrativa absurda e suas escolhas técnicas. O ótimo trabalho de fotografia e direção de arte estabelece uma identidade visual que contribui diretamente para a história, enquanto a sátira política utiliza o exagero e o humor ácido para construir uma experiência propositalmente caricata. Tom Cruise entrega uma atuação que entende perfeitamente a proposta de Digger, e Iñárritu transforma toda essa estrutura em uma grande farsa sobre a política atual. É um filme que encontra no absurdo, na palidez de sua estética e no exagero de seus personagens uma maneira bastante particular de fazer rir enquanto apresenta um mundo que, por vezes, parece assustadoramente próximo da realidade.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Jim Queen (2026) precisa escolher entre "Parar e Pensar" ou "Top a Twink"

 

Jim Queen (2026) | Pandora Filmes

De uns tempos para cá, as animações voltadas para o público LGBTQIAPN+, principalmente fora do eixo Disney, têm me dando uma certa curiosidade. Os estilos das animações, os traços que lembram os desenhos animados do Cartoon Network e Nickelodeon que cresci assistindo quando criança, os temas que topicalizam parte da nossa vivência dentro da comunidade (afinal, nenhuma experiência é exatamente única), como um espécie de piada interna nossa. 

Há um prazer duplo em obras desse gênero: o prazer estético próprio do gênero da animação (neste caso, a animação 2D) e o prazer de se autoprojetar na obra de ficção: algo que o filósofo Walter Benjamin já alertava no conhecidíssimo ensaio "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica", redigida originalmente em 1931; nele Benjamin reflete sobre a perda da "aura' da obra de arte pelo advento, primeiro, da fotografia, e, logo em seguida, do cinema, que começou como experimentos da representação de cenas da vida mundana, como os filmetes experimentais dos irmãos Lumière, por exemplo. Eram, de certa forma, retratos do cotidiano e, ao mesmo tempo, produtos de sua câmera.  

Durante a cobertura do Festival do Rio de 2025 (o qual cobri de forma extensiva e exclusiva para este blog) deixei passar um filme com uma pegada parecida com a do filme que escrevo agora: A Sapatona Galáctica (2025), animação 2D australiana em que tem como protagonista uma princesa bem sapatilha do planeta governado por lésbicas que precisa viajar pelo espaço para salvar a vida de sua (ex-)namorada de aliens heterossexuais cis masculinos. O filme fez sucesso no festival e ganhou o prêmio da Félix da edição, e foi lançado nos circuitos brasileiros no início do ano. Quando vi o filme nesse entremeio, por meios ilegais, fiquei com a sensação de arrependimento, pois poderia ter trocado algum filme que não gostei da edição anterior para vê-lo; pois é um filme divertidíssimo e possui uma certa leveza que me lembrava dos desenhos animados que via na infância. 

Este ano, o filme que preenche a posição é Jim Queen (2026), animação francesa dirigida por Marco Nguyen e Nicolas Athane que teve sua estreia mundial na seleção de Midnight Movies do Festival de Cannes desse ano (e de acordo com a distribuidora brasileira, tem sido um sucesso de bilheteria na França). A mistura entre comédia e musical satiriza, de forma certeira e engraçada, os comportamentos não só entre gays e héteros, mas também dentro dos diferentes cosmos do mundo gay contemporâneo. Uma espécie de espelho deformado, para dar o poder de nós, como pessoas gays e queers, podermos ter o privilégio de rir de nós mesmos, das nossas atitudes e desgraças; a qual se dá através de uma epidemia que suscita a memória tanto da crise da AIDS/HIV quanto a mais recente da COVID-19.

Na trama, Jim Queen, também conhecido como Jim "Parfait" (perfeito), é um influencer e ícone sexy da cena gay parisiense. Seu nome é um trocadilho com o termo "Gym Queen", ou seja, uma gay padrão que ama malhar e ser musculosa. É arrogante, egocêntrico e vive para dar o close nas baladas e pegar várias gays que se parecem com ele.  Sua vidinha é um recorte muito específico da vivência de muitos homens homossexuais (principal público-alvo do longa) que vivem do básico e que se importam mais com a aparência e ostentar um modo de vida aparentemente perfeito. 

Porém, ao nosso protagonista, sua rotina vira do avesso quando contrai Heterotopzis, um vírus estranho que transforma homens gays... bem, em héteros. A partir de então, todos viram as costas pra ele – exceto seu último seguidor (e primeiro admirador), Lucien, um jovem twink (nada demoníaco, mas, ao contrário), doce, meigo e inseguro ainda em busca de autoaceitação e confrontar sua mãe, uma ministra de saúde bastante conservadora. Juntos, eles partirão em busca da Cloroqueer, um antídoto misterioso capaz de curar Jim e evitar a extinção da sua comunidade, mas que, em consequência, pode colocar a vida de Lucien em jogo. 

Se pensarmos numa conjunção entre Jim Queen e Sapatona Galáctica, podermos pensar em algumas características que para identificarmos o que faz uma animação LGBTQIAPN+ para fazer sucesso ou para possuir algum apelo: 

1- O traço em animação tradicional como um ponto estético, que remete à nostalgia de uma memória afetiva para criar um espaço seguro; 

2-Personagens que precisam passar por uma 'jornada do herói", o que ocorre em ambas as obras; 

3- Referências a influencia a uma formação queer na cultura pop, uma vez que há uma referência a uma cena que remente uma sequência envolvendo a atriz bissexual Kristen Stewart em Sapatona, enquanto isso, em Jim, toda a jornada de Lucien, a twink, é decalque direto da narrativa de Ariel em A Pequena Sereia (1989), no qual o personagem confronta sua mãe autoritária e homofóbica, tal como a icônica sereia se rebela contra o rei Tritão; 

4- O confronto entre a comunidade com a heterossexualidade e, por consequência, pela homofobia, representado por uma ameaça que envolve relações de poder (no caso da animação francesa) e/ou de sexismo (no da australiana). Para além disso, em Jim Queen, há uma questão cultural bastante proeminente, já que a ameaça da trama, o vírus Heterotopzis, não só apaga a sexualidade dos corpos, mas também de sua cultura e sua expressão e inscrição no mundo;

O longa-metragem em si é bastante redondo, quase cíclico e episódico, pensando especificamente para o público gay (e a própria animação é autoconsciente em relação a isso), brincando justamente em sua concepção com questões como tribos, kinks, cruising, mulheres viadas e drag shows entre outros.  E mesmo assim, existe uma fragmentação na forma que comunidade gay se fragiliza diante de um perigo em comum; mas o filme não pesa o clima em relação a isso. As tribos aqui são caracterizadas seguindo a uma linha camp que o projeto almeja: as drags queens com a maquiagem exagerada; as ursas literalmente representadas como animais que dão o nome da própria tribo; os puppies play bem próximas aos trejeitos de um cão; os víciados em chem-sex como semicadáveres; os fetichistas como generais sádicos (que literalmente criam uma "gaystapo" para converter os adoentados para sua forma gay original)... 

As representações são mediadas pelo exagero e pela comicidade que o roteiro exige das situações, o que pode aparentar um pouco superficial, em termos de abordagem, mas, ainda assim, me diverti com as situações que o filme apresenta nesse entendimento entre obra e público-alvo. A autoprojeção das experiências em comum da comunidade faz com que boa parte do público se identifique em seus personagens, a partir de sua ótica fantasiosa. Esse exercício talvez faça com que o público ative sua suspensão de descrença ou até mesmo um visão crítica daquele mundo caricato. Inclusive há um personagem, uma gay invejosa que deseja destronar Jim, que é caricatura de homens padrão como François Sagat (que você pode reconhecer de filmes pornô, ou os filmes de Bruce LaBruce ou até mesmo um cameo aleatório em Jogos Mortais VI) que é justamente dublado em francês por... François Sagat!

Talvez se tivesse um ponto contrário a fazer em relação ao filme é justamente seria, ao mesmo tempo, apontar e reforçar, dentro da lógica da piada interna, a objetificação e o consumo de twinks, como algo a ser possuído, devorado e possuído. Lucien, que é a chave para cura deste universo (tal como a Alice de Milla Jovovich nos filmes de Resident Evil de P.W.S. Anderson), passa por uma espécie de coming of age tardia, tem uma certa inocência que precisa ver devorada física e metaforicamente pelo o mundo que o cerca, caracterizando uma ideia um pouco predatória, por mais que o roteiro não esvazie o personagem de ter uma posição e uma identidade dentro daquele universo. Porém, até que ponto da narrativa Jim pode parar para pensar suas práticas e ser ativo com Lucien para salvar o mundo gay? Bem, essa é piada do filme: "to stop and think or top a twink? that's the question!". Libertar-se das convenções sociais  e pessoais para salvar a todes. Mas no final, podemos ainda nos dar o luxo de poder rir da situação. E, talvez, esse seja o objetivo principal da obra: a autoironia. O poder de não se levar tão a sério, o poder do riso.

Mas Jim Queen, em toda sua glória animada e camp, acaba consolidando a representação de uma comunidade de maneira carnavalizada e autoconsciente, quase estrategicamente desenhada para seu principal público-alvo. É, e digo isto de forma bastante honesta, um filme fofo, que me divertiu muito durante a sessão e preza por nivelar as experiências para agradar todas as tribos.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (cuja sessão foi precedida, obviamente, por uma bateção de leques para fins publicitários).

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O Sorveteiro - “IA” agora f*deu

O Sorveteiro | Diamond Filmes

Eli Roth é, sem sombra de dúvidas, um nome do subgênero trash, principalmente se levarmos em consideração o recorte do início dos anos 2000 até 2010, quando essas produções pipocaram nos cinemas. À frente de títulos como O Albergue (2005) e, mais recentemente, Feriado Sangrento (2023), o diretor nunca fugiu muito da proposta de tripas, sangue e um assassino, e em O Sorveteiro (2026) acompanhamos uma dinâmica bem semelhante, exceto por um detalhe.

Durante o verão na cidade praiana de Bayleen Bay, o local recebe a visita do excêntrico sorveteiro e seu carrinho de sorvete. Após consumirem o sorvete, as crianças da cidade passam a apresentar um comportamento violento e promovem um verdadeiro massacre contra os adultos. Vale destacar que trata-se de um remake do filme de noventa e cinco, mas isso não justifica muitas das escolhas feitas aqui, principalmente se partirmos do princípio de que ambos os filmes possuem propostas bem distintas. O longa de Eli Roth explora uma fórmula narrativa já gasta no terror, em especial no seu: uma figura estranha chega ou retorna a uma cidade onde estabelecerá o caos. Mas se a história não chama a atenção, o mesmo não se pode dizer da maneira com que a narrativa é desenvolvida, tornando ao menos divertido de acompanhar uma nova perspectiva da mesma história já contada mil vezes.

A direção de Roth conduz bem a narrativa, nos introduzindo ao cotidiano dos personagens e, pouco a pouco, criando o ambiente de tensão, principalmente após a aparição do sorveteiro. Assim, somos apresentados a Jared (Charlie Zelter), Lizzie (Sarah Abbott), Kiori (Mirza Waldman), Tommy (Shiloh O’Reilly) e, claro, o próprio Sorveteiro (Ari Millen); é principalmente em torno desses personagens que a narrativa vai se desenrolar. O longa utiliza-se de alguns recursos de IA, como, por exemplo, os balões animados que surgem nas visões que as crianças têm ao atacarem os adultos. Esse é um fator que tira muito do crédito do filme, uma vez que, para um filme de tamanho orçamento, poderiam facilmente ter recorrido a animadores para fazer esses balões animados.

Quanto aos aspectos técnicos, a direção de fotografia assinada por Simon Shohet é um dos pontos fortes do longa, em especial nas perseguições, onde o frenesi toma conta da tela e podemos sentir a angústia e ansiedade dos personagens. Já a direção de arte é assinada por Peter Mihaichuk e, por incrível que pareça, tratando-se desse gênero, é ao meu ver um dos pontos mais fracos do longa, uma vez que os efeitos são excessivamente plásticos e passam pouco ar de veracidade, tornando as mortes mais cômicas do que marcantes ou nojentas.

Já no tocante às atuações, nenhum dos atores tem grande destaque. Charlie Zelter é, sem dúvidas, quem mais se destaca, mas muito por conta do maior tempo de tela do que por qualquer singularidade. Porém, não é de se espantar que nenhum dos atores se destaque muito, já que o roteiro é extremamente raso e fica evidente que a maioria das crianças está ali para se tornar mini demônios, enquanto os adultos são apenas grandes sacos de carne à espera do abate. O sorveteiro passa praticamente despercebido; apesar de tentarem torná-lo uma figura misteriosa, o próprio praticamente não se mostra ameaçador, salvo raras exceções, principalmente quando ele está em seu carrinho de sorvete. Esse sim é macabro, principalmente o sorvete acima do teto do furgão, que parece seguir as crianças com o olhar.

Em linhas gerais, O Sorveteiro é um longa divertido, mas que comete pequenos “pecados”, sendo o maior deles o uso de IA, sua maquiagem e suas ideias recicladas. É impossível não se recordar do conto do Flautista de Hamelin, de A Hora do Pesadelo (1984) e até do recente A Hora do Mal (2025). Contudo, Eli Roth consegue condensar, em uma hora e vinte e seis minutos de filme, uma narrativa que prende o espectador. Porém, a certo ponto, a dinâmica de mortes torna-se repetitiva, em especial na sequência da escola, onde ocorre a maioria das mortes do longa. Por fim, a mitologia do filme parece beber muito das fontes já citadas, o que faz sentido na teoria, mas na prática o ato final do filme é deveras anticlimático, apesar de cumprir com o que o próprio filme estabelece, reforçando o fraco roteiro.

Autor:


Mateus José é graduando de Licenciatura em Cinema e Audiovisual pela UFF, escritor, poeta, montador e aspirante a diretor de fotografia. Apaixonado pelas artes, literatura, música e principalmente o cinema, dedica-se a consumir, estudar e dissecar as camadas mais profundas do cinema e da arte.

 

Chronovisor - Por Outros Olhos

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