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terça-feira, 17 de março de 2026

O Testamento de Ann Lee (2025) é o Berghain de Mona Fastvold

 

O Testamento de Ann Lee (2025) | Searchlight Pictures

Em "Berghain", single do álbum Lux, a cantora Rosalía canta, em uma mistura de alemão e espanhol, sobre a pequenez do ser diante de algo sobre o qual não tem controle: neste caso, em específico, o choque de cultura no icônico complexo clubber de Berlim que dá o nome da canção. Existe uma justaposição entre a tendência de ceder desconhecido entre música eletrônica, drogas e sexo e o medo quase infantil de seu eu-lírico na primeira metade da letra. 

A boate Berghain é, além monumento da cultura noturna da cidade alemã, também é exclusiva, pois muitas pessoas que não são da "cena" tentam entrar, o que descaracteriza o seu aspecto underground e alternativo. Porém o que me chama a atenção é como a cantora, na segunda parte da música, parece estreitar a relação, quase opositora, entre religião e o profano: enquanto que a participação da cantora islandesa Björk reforça a ideia de uma experiência divina libertadora, os versos finais de Yves Tumor reforçam a ideia de que o sexo (portanto, a "pequena morte") é também uma experiência religiosa.

E por mais que sejam obras de artes diferentes, não pude parar de fazer a associação da canção de Rosalía e o mais novo projeto da realizadora Mona Fastvold, enquanto eu assistia ao Testamento de Ann Lee (2025); estrelado por Amanda Seyfried no papel-título. Aqui, Fastvold escreve o guião junto de seu parceiro na profissão (e na vida) Brady Corbet, de O Brutalista (2024); retomando, um dos temas do projeto anterior: a experiência da imigração de refugiados europeus aos Estados Unidos em busca de uma nova oportunidade. No longa de 24, o contexto era o pós Segunda Guerra Mundial e a emigração judaica, neste aqui é o período colonial norte-americano e a intolerância religiosa (no mundo anglófono).

No século XVIII, Ann Lee foi a líder uma religião minoritária chamados de Shakers, pelo seu hábito de cantarem louvores como meio para se conectarem com Deus. Como é mostrado na narrativa, Lee não foi a criadora dessa vertente religiosa, mas se tornou uma figura importante para o grupo e se proclamava como ora como a segunda vinda de Jesus Cristo na terra, ora como a esposa de Jesus. Após de várias perseguições com a comunidade local em Manchester, Inglaterra (Lee é presa e atacada várias vezes, por exemplo), ela e seus seguidores seguem para os Estados Unidos com um sonho de fundar uma comunidade que os aceitem como são. Com cantoria e tudo.

(A) Mona entende que boa parte da psique de Lee vem de um local de repressão sexual, causado tanto pelas instituições religiosas quanto pela violência sexual que as mulheres são passíveis de sofrer, o que causa, como efeito, a imposição do celibato para todos os praticantes Shakers como preceito; pois, na filosofia da personagem, é um ato impuro que contém a mácula do "pecado original" (Vale ressaltar que a Lee passa por quatro partos malsucedidos que aumenta sua percepção do sexo como algo vil; portanto, sexo é visto como uma prisão física e metafórica de uma sociedade machista). Porém, por mais irônico que seja, com a negação do sexo, Fastvold filma as sequencias musicais com um certo gosto quase orgástico, seja pela energia do coro de vozes ou seja pela composição do ambiente em que os praticantes fazem de uma suas cerimônias ao ar livre em meio a elementos fálicos da natureza. Existe um gosto particular da direção que transparece nas conduções das sequências, algo entre o jocoso, o empático e o brutal.

As canções em que os Shakers usam aqui partem de um elemento natural do que de um tema religioso, é algo primal: a fome, o tempo, a natureza. São letras que tem sua qualidade estética e são muito bem utilizadas pela direção de Fastvold, pela fotografia em 35mm de William Rexer e pelo trabalho do compositor Daniel Blumberg. Sem as pieguices fascistas-pentecostais que dominam o cenário da música. A sensação é de ouvir uma cantiga medieval sendo cantada por um coral acapella.

Porém, se os elementos musicais e visuais são os pontos fortes do longa, o roteiro é um de seus pontos fracos, pois existe uma discrepância entre a disposição entre ação e tempo que ocorre na maioria das cinebiografias que decidem contar a história de vida de uma personagem. Apesar de sua divisão de capítulos, nem sempre a passagem de tempo é uniforme, dependendo bastante da narração em off para situar o espectador no decorrer do filme. No entanto, a dupla Fastvold-Corbet parece ser mais econômico e assertivo em Ann Lee do que em Brutalista, o que demonstra uma evolução expressiva  entre projetos. O potencial está ali. Talvez precisem refinar um pouco mais seus próximos roteiros.

E não tem como falar sobre O Testamento de Ann Lee sem falar um pouco sobre o trabalho de Amanda Seyfried no papel: existe uma grandeza para uma personagem um pouco polêmica e/ou controversa, na qual a atriz consegue pôr de coração e alma em sua performance. Se seus seguidores a chamam de "mãe" no filme, seus fãs chamam de "mãe" de volta. É um trabalho sensível e honesto que faz, ao mesmo tempo, o possível e o impossível em cena. Um trabalho de personagem complexo e vivaz, sem cair em trejeitos ou cacoetes que, às vezes, acometem uma performance. Quando Seyfried está em cena, o filme evolui junto com ela. Se não aparece, a obra desanda. 

Apesar de uma recepção esnobada na temporada, Ann Lee tem o que é preciso para se tornar um clássico do cinema contemporâneo. Pelo menos, nos círculos certos. Vejam. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

Pânico 7: Criativo, mas exausto

 

Pânico 7 | Paramount Pictures

O tão esperado sétimo filme da clássica saga Pânico teve sua estreia nesta quinta-feira (26/02). Neste capítulo, acompanhamos Sidney Prescott e sua família, onde sua filha mais velha torna-se o novo alvo de Ghostface. Dirigido pelo próprio autor dos filmes de Pânico, Kevin Williamson, a obra entrega diversos altos e baixos, gerando uma repercussão mediana a respeito das expectativas diante da qualidade do filme.

O início segue fiel à tradição da franquia: uma morte brutal de alguém fora da história principal. Desta vez, porém, o cenário inicial chama atenção por transformar a icônica casa do primeiro filme em um museu para amantes do terror e de casos criminais, algo que ocorre. É uma escolha que conversa diretamente com o passado da saga e reforça a natureza metalinguística que sempre caracterizou Pânico.

Seguindo adiante, acompanhamos Tatum, a filha adolescente de Sidney. Seu nome, inclusive, funciona como uma homenagem à melhor amiga de Sidney no primeiro filme, um gesto carinhoso não apenas por parte da Prescott, mas para os fãs mais antigos também. Assim como na cena inicial, o longa incorpora inúmeras referências aos capítulos anteriores, buscando resgatar memórias marcantes, símbolos e até dinâmicas narrativas que moldaram a franquia. Esse movimento, apesar de agradável para o público nostálgico, também revela um sintoma constante da produção nova: a dificuldade de seguir adiante com algo realmente inovado.

O que não pode ser negado é que Pânico 7 se propõe a elevar o nível de brutalidade. Boa parte das mortes são extremamente viscerais, gráficas e longas, apostando em um gore mais explícito do que o habitual. A primeira morte, em especial, é agonizante e violenta a ponto de causar desconforto, algo que pode funcionar para muitos dos espectadores e fãs, mas soar exagerado para outros. Há até uma morte específica que abraça completamente o tom trash, destoando do restante do filme e deixando a sensação de que a obra ensaia vários estilos sem se comprometer verdadeiramente com um.

O foco na família Prescott funciona bem, sobretudo porque desloca a narrativa para outro elenco, outro núcleo e outra história, permitindo que Sidney, por tantos anos vítima e sobrevivente, agora ocupe o papel de mãe que tenta proteger sua família dos ataques de Ghostface. Isso abre espaço para novos conflitos emocionais, ainda que a execução nem sempre seja tão profunda quanto poderia.

Outros personagens conhecidos também retornam, como Mindy e Chad, irmãos introduzidos no quinto filme. Aqui, eles têm participação limitada, mas simpática, atuando agora como assistentes de Gale Weathers em seu programa investigativo. É uma proposta pontual que não rouba muito a atenção do público, mas complementa um pouco o universo da franquia. 

Ao longo do filme, cresce a tensão em torno da possibilidade de Stu Macher estar vivo, teoria insistente entre os fãs há décadas desde o primeiro filme. Williamson claramente brinca com essa ideia, mantendo-a viva o suficiente para gerar expectativa. Contudo, no desfecho, a obra finalmente coloca um ponto final na especulação: Stu realmente morreu no primeiro filme. A revelação, embora talvez um pouco frustrante para uma parte do público, abre espaço para um comentário mais interessante.

E esse é um dos aspectos mais surpreendentes do longa: a crítica ao uso da inteligência artificial. Dentro da trama, os supostos "vídeos inéditos" e "ligações por chamada de vídeo" de Stu que circularam no cenário deste filme, teriam sido fabricados por inteligência artificial. O filme usa esse gancho para discutir como a tecnologia pode manipular narrativas, distorcer memórias e alimentar obsessões. É uma proposta inteligente, talvez a ideia mais fresca do roteiro, apesar de não ter sido muito bem vista por alguns espectadores.

Já a revelação dos Ghostfaces, embora um pouco inesperada em termos de identidade, decepciona pelo motivo. As motivações são rasas, pouco impactantes e não dialogam de maneira significativa com o restante do filme. É um vilão cuja razão de existir deixa muito a desejar.

A introdução e parte do desenvolvimento funcionam bem, mas o longa perde brilho na segunda metade. Do meio para o final, antes do clímax, a narrativa fica arrastada. A sensação é clara: a franquia já não sabe muito bem para onde ir. Apesar de algumas faíscas de criatividade, especialmente nas discussões tecnológicas e em algumas mortes, Pânico 7 evidencia que há pouco a ser explorado sem a necessidade de reciclar elementos dos filmes antecedentes.

No fim, o filme entrega entretenimento, nostalgia e mortes memoráveis, mas também confirma uma verdade incômoda: talvez essa seja uma saga que já deveria ter encontrado seu ponto final há muito tempo. A criatividade ainda pulsa em certos momentos, mas o desgaste é impossível de se ignorar.

Autor:

Bárbara Borges é do Rio de Janeiro e estudante de Jornalismo. Apaixonada por cinema desde criança, sempre foi movida por histórias intensas, especialmente as de terror, seu gênero favorito. Em 2024, dirigiu o documentário Além do Recinto, que levanta questionamentos sobre o bem-estar de animais silvestres em zoológicos e o impacto do confinamento longe de seus habitats naturais. Gosta de pensar no cinema como uma forma de provocar, sentir e transformar. Vive atualizando seu Letterboxd com comentários sinceros e, às vezes, emocionados. Entre seus filmes favoritos estão Laranja Mecânica, Psicopata Americano, Pânico, Pearl e Premonição 3.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

American Satan - Fama instantânea, consequências ignoradas e muito exagero

American Satan | Miramax


Jovens estadunidenses e ingleses abandonam a universidade e decidem formar uma banda de rock. Eles se mudam para Los Angeles, mais precisamente na famosa Sunset Strip, e tentam a sorte em busca de seus sonhos.

Pela sinopse, você até espera uma história bonitinha sobre amigos lutando por seus sonhos… até perceber que é basicamente uma receita de pacto com o diabo temperada com cabelo bagunçado e guitarras barulhentas. A banda, meio estadunidense, meio britânica, logo descobre que o sucesso tem um preço literal: Satanás em pessoa, aparece como um empresário de rock com poderes sobrenaturais e gosto questionável para sacrifícios humanos. Um minuto você está tentando conseguir um show, no outro já está considerando rituais diabólicos e milagres bizarros. Difícil levar a sério.

O filme também parece acreditar que Satanás secretamente escreveu todas as grandes músicas de todos os tempos e que isso justifica qualquer comportamento absurdo da banda. Entre estereótipos de caipiras que brigam só por causa da aparência e uma moral completamente confusa, fica a sensação de que o roteiro não sabe se quer criticar a indústria musical, se quer fazer sátira ou apenas mostrar jovens desesperados com cabelo bagunçado. No final, o longa deixa mais perguntas do que respostas: ser talentoso ajuda alguma coisa na música? Vender a alma é realmente o caminho mais rápido para o sucesso? ou tudo é só uma desculpa para exageros de rock e sofrimento juvenil? uma coisa é certa: o filme não tem vergonha de mergulhar no absurdo — mas é dificil mergulhar junto sem rir ou suspirar várias vezes.

Em vez de aproveitar para desenvolver uma discussão mais profunda, o filme prefere mostrar que, à medida que a banda conquista fama, alguns fãs começam a imitar os atos mais polêmicos do grupo. Quando o protagonista Johnny acaba matando alguém em legítima defesa, adolescentes que sofrem bullying resolver seguir o exemplo… só que de maneira ainda mais exagerada e violenta. Há até alguns trechos que tentam abordar a violência juvenil e mostram a banda em uma aparição rápida na TV discutindo o assunto. Mas, na prática, o filme parece mais interessado em exibir os músicos se divertindo em boates de strip-tease com decoração satânica do que em realmente explorar o impacto de suas ações.

O filme se destaca por algumas decisões visuais interessantes, especialmente na forma como utiliza a cor para transmitir emoção. A paleta é marcada por tons intensos de vermelho, que aparecem com frequência e conferem à obra uma energia quase pulsante, refletindo tanto a paixão da banda quanto os momentos de tensão que permeiam a história. A câmera também entra no espírito da banda: rápida, inquieta e sempre correndo atrás da ação, como um amigo tentando acompanhar o ritmo de uma festa que já saiu do controle. Nos shows, ele praticamente dança junto com os músicos, captando cada salto, cada nota desafinada e cada fã que perdeu o equilíbrio de tanto pular. O resultado é que o espectador se sente parte do caos — quase como se estivesse tentando segurar um microfone enquanto a banda toca no meio da sala.

American Satan é como um prato que promete alta gastronomia, mas entrega uma mistura de ingredientes exóticos que ninguém pediu: uma pitada de pacto com o diabo, uma colher generosa de boates satânicas, uma fatia de violência exagerada e, para temperar, guitarras barulhentas e cabelo bagunçado. O resultado é estranho, meio indigesto, mas de algum jeito curioso o suficiente para você continuar provando até o final — rindo, suspirando e se perguntando se acabou de assistir a um drama, uma sátira ou uma receita de caos rock’n’roll mal temperada.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Primata - Esqueça o Jason: agora quem te persegue é um primata enfurecido

O Primata | Paramount Pictures


Uma estudante universitária e seus amigos se veem em uma luta por suas vidas quando um chimpanzé raivoso inicia um frenesi de violência.


O responsável pelas mortes não é um assassino mascarado nem uma assombração, como o filme inicialmente sugere, mas sim um chimpanzé infectado pelo vírus da raiva. Ao contrair a doença, o animal desenvolve hidrofobia e passa a apresentar um comportamento extremamente agressivo, atacando qualquer pessoa que esteja em seu caminho. Essa escolha narrativa é um ponto interessante, pois aposta em uma ameaça mais realista e perturbadora. Ao utilizar uma condição biológica como motor do horror, o filme provoca o espectador a refletir sobre os limites entre o instinto animal, a negligência humana e as consequências da interferência do homem na natureza. A proposta se destaca por trazer uma explicação plausível para a violência apresentada, o que torna a experiência mais tensa e inquietante.


Ao reunir um grupo de jovens em um local isolado, o filme constrói um cenário propício para o horror, explorando o confinamento e a sensação de vulnerabilidade dos personagens. O roteiro sabe dosar bem os momentos de calmaria e de ameaça, fazendo com que o perigo se aproxime de maneira gradual, o que aumenta o impacto dos acontecimentos. A narrativa também se beneficia de suas escolhas ao transformar elementos cotidianos em peças centrais da sobrevivência, mantendo o espectador atento e envolvido. Mesmo sem recorrer a explicações excessivas, a história se sustenta pela progressão dos conflitos e pela escalada ao caos, resultando em uma trama direta, tensa e eficiente dentro da proposta do filme.


O Vírus da raiva provoca a hidrofobia, que é o medo intenso da água, e isso afeta diretamente o comportamento do chimpanzé. Dominado por essa condição, o animal passa a evitar qualquer contato com a água, agindo de forma ainda mais agressiva diante do pânico que sente. Na casa onde os jovens estavam, a presença de uma piscina acaba se tornando um elemento crucial para a sobrevivência deles, funcionando como uma barreira natural contra a criatura. Esse detalhe é tratado de forma interessante pelo filme, pois transforma um espaço comum de lazer em um refúgio improvisado, carregado de tensão e desespero. Ao explorar o medo do animal e a fragilidade dos personagens, O Primata consegue gerar empatia e reforçar o clima de urgência, mostrando que o verdadeiro terror não está apenas na ameaça em si, mas na luta constante pela sobrevivência. Essa abordagem sensível dá mais profundidade à narrativa e aproxima o espectador do sofrimento e do medo vivido pelos personagens.


É importante estar preparado para uma experiência intensa, marcada por cenas fortes e profundamente impactantes. Ao longo da narrativa, o espectador se depara com momentos visual e emocionalmente carregados, que não apenas chamam a atenção, mas também provocam reflexões e reações significativas. As cenas de morte são cuidadosamente elaboradas do ponto de vista técnico e narrativo, demonstrando um alto nível de produção. A violência é apresentada de forma explícita, com um uso abundante de elementos sangrentos que buscam realismo, o que reforça a sensação de brutalidade e torna cada momento ainda mais impactante. Esse tratamento detalhado do gore contribui para uma atmosfera cruel e intensa, deixando claro que a obra não economiza nos excessos e aposta em uma abordagem direta, sem suavizar as consequências da violência.


O Primata se afirma como uma obra de horror, que vai além do susto fácil, apostando em uma ameaça biologicamente plausível para construir um terror mais incômodo e reflexivo. Ao substituir o sobrenatural por uma explicação científica, o filme reforça a sensação de realismo e aproxima o espectador de um medo mais concreto, ligado às consequências da negligência humana e à fragilidade diante da natureza. A narrativa direta, o uso inteligente do espaço e a escalada gradual da tensão garantem envolvimento constante, enquanto a violência gráfica intensifica o impacto emocional da experiência. Não se trata de um filme para todos os públicos, mas para aqueles que buscam um horror intenso e perturbador, a obra entrega uma experiência marcante, capaz de provocar desconforto e reflexão mesmo após o término da sessão.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Socorro! - Ela sobreviveu ao sistema. Ele só sabia existir dentro dele.

Socorro! | Disney


Dois colegas ficam presos em uma ilha deserta após serem os únicos sobreviventes de um acidente de avião. Na ilha, eles precisam superar antigos ressentimentos e trabalhar juntos para sobreviver, mas, no fim, trata-se de uma inquietante batalha de vontades e perspicácia, marcada por humor ácido, para sair com vida.

A protagonista, Linda Liddle, é construída como a figura da competência invisível. Ela representa profissionais — especialmente mulheres — que seguem todas as regras do sistema corporativo, mas continuam presas a um teto simbólico feito de preconceito, estética, comportamento e expectativa social. Sua frustração não nasce de ambição vazia, mas da promessa quebrada de reconhecimento. O roteiro deixa claro que Linda não quer apenas subir de cargo; ela quer ser validada. 

Criticamente, porém, Linda não é uma heroína clássica. À medida que ganha autonomia, sua trajetória levanta uma questão incômoda: até que ponto a libertação pessoal justifica a perda de limites éticos? A Narrativa parece sugerir que anos de repressão produzem não apenas força, mas também ressentimento acumulado, e Linda passa a confundir sobrevivência com controle absoluto. Ela deixa de reagir ao sistema e passa a reproduzir sua lógica, ocupando apenas outro lugar nele. Linda é, portanto, uma personagem potente justamente por não ser confortável: expõe como o discurso de empoderamento pode se tornar distorcido quando não é acompanhado de responsabilidade moral. Sua transformação não é uma redenção — é uma advertência.

Bradley, por sua vez, encarna o privilégio herdado. Sua autoridade não é construída, mas entregue, o que o torna frágil fora das estruturas que o sustentam. Ele confunde liderança com comando, e respeito com medo ou obediência. No ambiente corporativo, isso funciona; fora dele, sua insegurança se expõe. Bradley, não é apenas um antagonista individual, mas um símbolo sistêmico: representa um tipo de poder que se mantém não por competência, mas por exclusão. Seu desprezo por Linda não nasce de uma crueldade consciente, mas de uma incapacidade profunda de enxergá-la como igual. Ainda assim, o longa evita torná-lo um vilão unidimensional. Bradley é patético, contraditório e, em certos momentos, desesperado por afeto e validação. Essa vulnerabilidade não o absolve, mas o humaniza, reforçando a crítica central: o privilégio não prepara para a perda, apenas para a negação dela.

A relação entre Linda e Bradley é apresentada como um conflito de poder imposto pelas circunstâncias, não como uma parceria genuína. Eles partem de uma hierarquia desigual: Bradley sustentado por autoridade herdada, Linda marcada pela competência desvalorizada. À medida que o contexto muda, essa estrutura se desloca, expondo a fragilidade do poder dele e o fortalecimento gradual dela. O vínculo nunca se baseia em confiança, mas em dependência e tensão, funcionando como um espelho das desigualdades que moldaram ambos. Não se trata de afeto, mas de inversão de quem controla e quem obedece.

O filme é dirigido por Sam Raimi, conhecido pela trilogia Homem-Aranha com Tobey Maguire e por A Morte do Demônio, obras que consolidaram seu estilo marcado por violência estilizada e humor ácido. Embora o início do filme pareça mais contido e distante dessa assinatura, essa abordagem funciona como preparação. Com o avanço da narrativa, a presença de Raimi se torna cada vez mais clara, e o tom inicial “enganoso” dá lugar a uma condução visceral e provocadora típica de seu cinema. 

Um exemplo marcante é a cena em que Linda mata um javali durante sua luta pela sobrevivência. Mais do que uma ação, esse momento representa uma virada na personagem: evidencia sua adaptação ao ambiente hostil e a ruptura definitiva com a vida que levava antes. A cena é intensa, sem glamourizar a violência, reforçando o caráter instintivo da sobrevivência. Ao mesmo tempo, sintetiza temas centrais do filme, como transformação, resistência e a construção de poder fora das estruturas sociais convencionais. É uma demonstração clara de como o filme comunica muito sobre Linda sem precisar dizer demais, deixando que a ação e a imagem falem por si.

Socorro! vai além da história de sobrevivência para explorar relações de poder e desigualdade. Colocando Linda e Bradley em um ambiente extremo, o filme revela a fragilidade do privilégio, o acúmulo de ressentimento e a transformação de quem precisa lutar para ser reconhecido. Sob a direção de Sam Raimi, a obra equilibra humor ácido, violência estilizada e tensão psicológica, mostrando que a verdadeira luta não é apenas contra o ambiente hostil, mas contra os conflitos internos e morais dos personagens. Linda se torna símbolo de autonomia complexa, enquanto Bradley representa um poder que nunca foi conquistado, reforçando a crítica social central do filme.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Extermínio: O Templo Dos Ossos - Quando o apocalipse tem ótimas ideias, mas esquece de desenvolvê-las.

Extermínio: Templo dos Ossos | Sony Pictures


O Dr. Kelson se vê envolvido em um novo e chocante relacionamento com consequências que podem mudar o mundo como ele o conhece. Enquanto isso, o líder de uma seita Jimmy Crystal instiga medo e violência por onde passa.

O filme é uma continuação direta de Extermínio: A Evolução. Após um surto devastador do vírus da raiva, as ilhas Britânicas permanecem isoladas, e anos depois Spike vive com os pais em uma comunidade segura, mas conflitos familiares o fazem fugir com a mãe doente e gravida para o continente, onde enfrentam infectados e descobrem que ela sofre de câncer terminal; após sua morte, Spike recusa-se a voltar para casa, deixa o bebê recém nascido em segurança e segue sozinho, até ser encontrado por um grupo liderado por Jimmy Crystal, agora adulto, que representa uma nova ameaça. Pouco depois, Spike permanece em quarentena na Grã-Bretanha com esse grupo, os Fingers, uma gangue violenta que sobrevive pela intimidação e pela força, mas é instável e impulsiva: fisicamente fortes e organizados na violência, carecem de propósito, coesão moral e da habilidade de construir algo duradouro, tornando-se vulneráveis tanto à própria instabilidade quanto à humanidade daqueles que enfrentam.


Desde o primeiro filme da franquia, os infectados funcionam como gatilho narrativo, evidenciando como a sociedade, desprovida de qualquer estrutura, rapidamente mergulha no caos, como nos militares do filme original, após o colapso da civilização abandonam qualquer ética, agindo de forma brutal e autoritária sob o pretexto de reconstruir o mundo; atualmente, essa abordagem é recorrente em produções sobre zumbis, retratando um mundo sem leis no qual à máscara da humanidade é gradualmente removida, e nos convida, como espectadores, a sentir medo, compaixão e questionar como reagiremos se fôssemos colocados à prova em um cenário tão desolador.


Há uma sub-trama na narrativa sobre um grupo de sobreviventes que vive em uma fazenda, mas ela foi mal desenvolvida. Ela é introduzida com certo destaque, sugerindo que terá importância para o desenvolvimento da história ou para os temas centrais, mas essa expectativa não se sustenta ao longo da narrativa. Os personagens e o cenário são apresentados de maneira relativamente cuidadosa, criando a impressão de que haverá consequências ou desdobramentos relevantes.


No entanto, essa linha narrativa acaba servindo apenas como um evento pontual, sem impacto duradouro. Após cumprir sua função imediata, a sub-trama é deixada de lado e não volta a ser explorada, o que pode causar estranhamento no espectador. Essa escolha enfraquece a construção do enredo, pois transmite a sensação de que a fazenda foi usada apenas como um recurso momentâneo de tensão, e não como um elemento integrado à história maior. No fim, fica a impressão de uma ideia que parecia promissora, mas que foi apresentada e depois simplesmente ignorada.


A ideia de explorar o conflito entre fé e ciência em um cenário apocalíptico já é um tema bastante recorrente, mas ainda pode funcionar como um clichê empregado quando bem inserido. No entanto, em Extermínio: Templo dos Ossos, essa tensão se mantém superficial. Por um lado, temos o Dr. Ian Kelson, representante do raciocínio científico, que busca entender e curar os efeitos do Vírus da raiva no Alpha infectado Samson através de experimentos e manipulação química. Por outro lado, Jimmy Crystal e seu culto satânico simboliza uma forma distorcida de fé e fanatismo, usando a violência ritualizada como instrumento de poder. Apesar desse contraste aparente, o conflito entre ciência e crença não é desenvolvido de forma significativa. As interações entre Kelson e Jimmy — assim como entre os demais personagens — permanecem focadas na ação e na sobrevivência, sem que haja um verdadeiro debate filosófico ou moral sobre ética, racionalidade ou a natureza do mal. A ciência de Kelson é apresentada principalmente como uma ferramenta prática, enquanto o fanatismo de Jimmy é um motor para cenas de terror e caos. essa abordagem resulta em uma tensão que é funcional para o desenrolar da narrativa, mas que não se aprofunda. Os diálogos que mencionam o embate entre fé e razão aparecem apenas de maneira rápida e pontual, como ordens ou justificativas de personagens, e não evoluem para um conflito consistente ou reflexivo. Assim, o filme utiliza o contraste entre religião e ciência como pano de fundo estilístico, reforçando o clima de horror e a escalada da ação, sem transformar essa oposição em tema central ou questionamento moral relevante. Sendo assim, tocando na clássica dicotomia entre fé e ciência, mas apenas de forma superficial, como instrumento narrativo, sem explorar o potencial dramático ou filosófico que esse confronto poderia oferecer.


Extermínio: Templo dos Ossos mantém o clima de horror e violência característico da franquia ao mostrar como o colapso social expõe a fragilidade moral humana. Embora apresente personagens e ideias promissoras — como o conflito entre fé e ciência e novas comunidades de sobreviventes — o filme desenvolve esses elementos de forma superficial. Sub-tramas são abandonadas e temas centrais não se aprofundam, fazendo com que a obra funcione mais pela tensão e atmosfera do que pela reflexão consistente. O resultado é um filme eficaz no gênero, mas aquém do potencial que a sua proposta sugere.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Anaconda (2025) - Fazendo Cinema Até a Cobra Acordar

Anaconda(2025) | Sony Pictures


Os melhores amigos Griff e Doug partem para as selvas da Amazônia para filmar um reboot de seu filme favorito de todos os tempos, Anaconda. No entanto, a vida logo imita a arte quando uma anaconda gigantesca com sede de sangue começa a caçá-los.

Jack Black vive um cineasta tão obcecado por cinema que resolve arrastar uma equipe inteira para o território selvagem. O plano era fazer arte. O resultado? Uma criatura gigante, gritaria, correria e a ambição cinematográfica sendo atropelada pela luta básica pela sobrevivência. Pela sinopse, dá até a impressão de que estamos falando de King Kong (2005) — só faltou o macaco pegar o Oscar. Mas, calma: estamos diante de um reboot assumidamente auto-paródico de Anaconda. E, apesar da coincidência conceitual, as semelhanças com King Kong param por aí. Aqui, o filme abraça o exagero, ri de si mesmo e entende exatamente o tipo de diversão que quer entregar. Não é sobre grandiosidade épica, e sim sobre entretenimento descompromissado, consciente do próprio absurdo — e isso, curiosamente, acaba sendo seu maior acerto.

Doug (Jack Black) e Griff (Paul Rudd) querem realizar o sonho de filmar a cobra gigante, um desejo que nasce não apenas da ambição criativa, mas de uma amizade construída ao longo dos anos e sustentada por um amor sincero pelo cinema. Há algo de bonito — e ao mesmo tempo ingênuo — nessa parceria: dois amigos que acreditam no poder da arte mesmo quando a realidade insiste em mostrar seus limites. O filme observa essa relação com carinho, deixando claro que a paixão pelo cinema pode ser inspiradora, mas também cega, capaz de transformar entusiasmo em imprudência. É nesse equilíbrio entre afeto, ilusão e choque com o real que Doug e Griff se tornam mais humanos — e a história, mais interessante.

A geografia do filme é tratada com um descaso evidente, beirando o caricato. Ao chegar ao Brasil, é mostrado para o público o Rio de Janeiro e, em um corte abrupto, já estão imersos na Amazônia, como se a maior floresta tropical do mundo estivesse literalmente ao lado da cidade. Essa escolha não apenas ignora a imensa dimensão territorial do país, como também reduz o Brasil a um amontoado de cartões-postais genéricos, usados apenas como pano de fundo exótico para a trama. O problema não está na liberdade criativa — algo que o próprio filme abraça em outros aspectos —, mas na falta de intenção crítica ou humorística nesse erro específico. Diferente de uma sátira assumida, a sequência soa como desinformação pura, reforçando estereótipos antigos que o cinema estrangeiro insiste em reciclar, a comparação com o episódio polêmico de Os Simpsons é inevitável, episódio esse no qual eles vão para o Rio de janeiro e ocorre essa mesma falha geográfica. Esse equívoco quebra a imersão e evidencia uma negligência narrativa que contrasta com o cuidado que o filme demonstra em sua proposta metalinguística. É um detalhe que pode parecer pequeno, mas revela uma visão superficial do cenário retratado — e isso pesa negativamente no conjunto da obra.

Anaconda (2025) funciona melhor quando assume sua própria natureza exagerada e autoconsciente, encontrando força no humor, na metalinguagem e na relação afetuosa entre seus protagonistas. A paixão pelo cinema que move Doug e Griff dá ao filme um coração sincero, capaz de tornar o absurdo mais palatável e até cativante. No entanto, esse mesmo cuidado não se estende a todos os aspectos da produção. O tratamento superficial do Brasil e os deslizes geográficos evidenciam uma negligência que enfraquece a imersão e expõe velhos vícios do cinema estrangeiro. Assim, Anaconda (2025) se mantém como um entretenimento divertido e honesto em sua proposta, mas irregular: acerta ao rir de si mesmo, e tropeça quando prefere o estereótipo fácil ao olhar mais atento.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Natal Sangrento (2025) - Um Remake "Levado da Breca"

 

Natal Sangrento (2025) | Diamond Films

Durante a véspera de Natal, o jovem Billy visita o avô no hospital que acaba tendo um acidente medicinal e morre em frente ao garoto. De noite, voltando de carro com seus pais, a família de Billy é interceptada por uma figura estranha vestida de Papai Noel. Para piorar a situação de um dia que já estava ruim, esse "Noel" ataca e mata os pais de Billy , antes de morrer. A ação corta para o futuro e aquela criança se torna um psicopata adulto (Rohan Campbell): ele ouve uma voz na sua cabeça que diz para se vestir de Papai Noel e matar um certo número de pessoas consideradas "levadas" durante a época do fim de ano.

Logo, Billy não para quieto. Ele é um nômade, basicamente. Vai de um canto a outro, cria álibis temporários, não tem nenhum tipo de amizade ou relacionamento que não seja com essa voz onipresente, guiando-o em seus instintos assassinos. Esse modus operandi começa a se complicar quando Billy chega em uma cidadezinha de interior e começa a ficar interessado em Pam (Ruby Modine), uma moça que trabalha em uma loja de produtos natalinos. O que ele faz? Fica na cidade e arruma um emprego nesse estabelecimento para ficar perto dela. A Pam é uma jovem mulher, muito na dela e bem doce, que e também tem seus traumas e, em alguns momentos, parece que é tão desiquilibrada emocionalmente quanto o Billy. 

Porém, a situação começa a ficar complicada quando o rastro de destruição de Billy toca em pequenos segredos da comunidade que pode pôr um alvo nas suas costas, revelando a sua verdadeira face para todos. Natal Sangrento (2025) que entra em cartaz, justamente em Dezembro, o mês do Natal, aqui no Brasil, é o remake de um clássico do slasher estadunidense oitentista: Silent Night, Deadly Night (1984). 

No entanto, os dois filmes tem mais características diferentes do que em comum. A primeira interação da estória focava no desenvolvimento psicossexual e do irracional de Billy. Seu medo à figura de Noel lhe é incutido pelo avô e vítima de abusos físicos e psicológicos pela Madre Superiora do orfanato, e tudo isto ressurge com força quando é obrigado pelo patrão da loja em que trabalha como estoquista a ser vestir do "bom velhinho". É um filme lento, mas que consegue, dentro de suas limitações orçamentárias ou artísticas, construir a personagem principal de modo bastante palpável e psicologicamente amedrontador. A pulsão entre amor e morte e a transmissão de traumas geracionais dão um poder de valor, ao que poderia ser considerado hoje como "uma produção B malfeita" ou "de baixo escalão artístico" ou "um filme bobo e ridículo" (como um colega cinquentão desconhecido a mim de profissão estava defendendo, mais ou menos assim, na fila da cabine).

Apesar disso, os temas da narrativa engrandeceram este clássico, um pouco trágico e camp, do terror natalino. Inclusive as cenas que envolvem efeitos práticos ainda tem seu valor e resultado material, quarenta anos depois. O remake de 2025 mira nessa combinação, mas nem passa perto das pulsões originais.

Escrito e dirigido por Mike P. Nelson, essa nova versão quer atualizar a trama para um contexto atual, dividindo o protagonismo de Billy com Pam, esta personagem baseada em uma da obra de origem. Ela, nesta versão, ganha mais dimensão e facetas do que sua contraparte dos anos 80, um arquétipo da mocinha inocente, simpática e sexualizada das produções daquela época. A evolução de tratamento da personagem era necessária, até mesmo pelo contexto artístico e social ter rompido com cristalização do feminino no terror. 

Porém, o filme de Nelson está cheio de boas ideias e intenções, porém não consegue entregar o que promete ao público. Os diálogos são pavorosos, o gore e o humor são fracos, a fotografia é escura e sem vida, com muitas cenas mal decupadas, confusas e até mesmo mal montadas (devido aos problemas mencionados). Campbell e Modine tentam embarcar na onda do filme, mas não conseguem salvá-lo de um insólito mar de mesmice e de tédio mortal.

 Afinal, este crítico não esperava nada grandioso, já que a produtora responsável pelo remake é também responsável pela franquia Terrifier. Portanto, já esperava encontrar um filme bem trash, com muita violência, com cor e com muitos absurdos... E mesmo assim, nem isso foi entregue nas mãos da direção. Há uma sequencia em que nosso "Noel" assassino acaba caindo um covil de nazistas local e ele deve matar cada um. A ideia é divertida, exagerada e dá uma adrenalina ao filme, mas a execução é uma bagunça preguiçosa e semicompreensível. É de uma péssima capacidade de contar algo pela linguagem cinematográfica que não vejo desde Transformers 4, por exemplo, em que o espectador consegue entender como começa e termina a cena, mas não o percurso de ações que vai do ponto A ao B.

Somado a um trabalho de direção preguiçoso e confuso, que muitas vezes beira ao básico do gênero, mas sem nenhuma profundidade ou timing, há um problema de identidade muito proeminente: não sabe se é uma nova adaptação do filme de 84, ou se quer ser Dexter, ou Venom, ou Kingsman... Essa autofagia pop acaba prejudicando muito mais do que enriquecendo a obra. A sensação é de mastigar carvão, enquanto sou obrigado a ver o filme mais clichê possível. (Enquanto isso, o coleguinha que tinha falado mal do filme original, abraçou esta versão e, na sua mediocridade, o filme conseguiu "dar a volta" para ele...)

Natal Sangrento tem ideias interessantes para atualizar o conto macabro que lhe deu origem, mas é uma pena que nunca saíram da oficina do Noel. Uma pena...

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


Five Nights At Freddy´s 2 - Cinco Noites, Muitos Sustos e Zero Paz de Espírito

Five Nights At Freddy's 2 | Universal Pictures 


‘Five Nights At Freddy’s 2‘, sequência do maior sucesso da história da Blumhouse, traz Mike, Abby e Vanessa tentando encontrar uma maneira de sobreviver por mais cinco noites quando um novo grupo de animatrônicos sai da pizzaria e causa o caos na cidade.


O filme se passa um ano após os eventos do longa anterior. Mike, ainda carregando as marcas do passado, tenta seguir em frente. Antes frio e retraído pela dor de ter perdido seu irmão caçula, ele agora demonstra um amadurecimento tocante — fruto da convivência com Abby, que, mesmo sem perceber, o ajuda a reencontrar partes de si que acreditava ter perdido. Abby, por sua vez, sente a ausência dos animatrônicos que passou a ver como amigos. Para ela, aqueles laços eram mais do que simples encontros; eram fontes de conforto em meio à solidão. Seu desejo de revê-los nasce de um coração que busca companhia e compreensão. Mike, porém, teme por ela. Carrega o medo constante de que algo possa machucá-la, mesmo enquanto tenta ser o irmão carinhoso e presente que ela merece. O filme explora com delicadeza esse conflito — o amor cuidadoso de Mike, a sensibilidade de Abby e a complexidade dos laços que conectam ambos ao passado. 


Vanessa também carrega seus próprios traumas, profundamente ligados ao passado ao lado de seu pai, William Afton. As lembranças dolorosas e a influência emocional que ele exerceu sobre ela ainda ecoam em sua mente, surgindo em forma de ilusões que, em diversos momentos, a tiram do foco e interferem em sua rotina diária. Apesar disso, o filme apresenta a trajetória de Vanessa com muita sensibilidade, evidenciando não apenas sua vulnerabilidade, mas também sua coragem silenciosa. Ela luta constantemente para não ser definida pelo peso de sua história, buscando recuperar sua autonomia emocional e construir um caminho mais saudável para si mesma. Essa abordagem dá profundidade à personagem, valorizando sua resiliência e mostrando como, mesmo cercada pelas sombras do passado, ela segue tentando encontrar luz.


O filme anterior parece que abandonou muito o lado terror, aqui o terror está presente e conseguindo render muitas cenas de sustos. O novo animatrônico chamado de “O Fantoche”, que nos jogos já me dava muito medo, aqui no filme não é diferente. O animatrônico é assustador por sua aparência inquietante e seu comportamento silencioso. Ele é alto e esguio, com membros longos e movimentos fluidos que parecem antinaturais. Seu rosto branco, marcado por “lágrimas” roxas e olhos completamente negros, transmite uma frieza perturbadora. Ele não caminha — desliza, surgindo sem aviso. A combinação de silêncio, olhar vazio e presença quase sobrenatural faz do fantoche uma das figuras mais ameaçadoras e desconfortantes da franquia.


Five Nights at Freddy´s 2 se destaca por unir emoção e terror de forma mais equilibrada do que o primeiro filme. A trama aprofunda seus personagens, mostrando que os monstros não estão apenas do lado de fora, mas também dentro das dores e memórias que cada um carrega. Mike, Abby e Vanessa formam um trio marcado por traumas diferentes, mas conectados pela vontade de seguir adiante, mesmo quando o passado insiste em persegui-los. Ao mesmo tempo, o filme resgata o horror característico da franquia, entregando sustos eficientes e criaturas realmente perturbadoras, como o Fantoche. O resultado é uma continuação mais madura e mais sombria — uma história que assusta, mas também toca, mostrando que, para sobreviver a cinco noites, às vezes é preciso enfrentar não apenas os animatrônicos, mas os próprios fantasmas internos.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.





terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim: O verdadeiro terror é perceber que os animatrônicos assustam menos que a vida adulta de Mike.

Five Nights at Freddy's | Universal Pictures

No Freddy Fazbear's Pizza, robôs animados fazem a festa das crianças durante o dia. Quando chega a noite, eles se transformam em assassinos psicopatas.

Eu nunca fui profundamente familiarizado com toda a lore de Five Nights at Freddy´s, mas acompanhava muitos gameplays no Youtube em 2014, época em que o jogo explodiu em popularidade na plataforma. Cheguei até a jogá-lo, embora sempre com bastante receio — afinal, os jumpscares dos animatrônicos são inesperados e realmente dão aquele susto clássico. Quanto ao visual do protagonista, Michael Schmidt, o jogo não revela sua aparência, o que reforça o mistério e a imersão do jogador. Já na adaptação cinematográfica, ele recebe uma caracterização clara e definida. Essa diferença evidencia como cada mídia escolhe explorar o personagem: o jogo aposta no anonimato e no suspense, enquanto o filme destaca sua humanidade e vulnerabilidade. Como toda adaptação para o cinema, foi necessário ter uma trama e de uma identidade visual.

A história segue Mike Schmidt, um segurança que, após ser demitido, aceita trabalhar como vigia noturno da abandonada Freddy Fazbear´s Pizza para evitar que sua irmã mais nova, Abby, seja colocada sob custódia da tia deles. Ao longo das noites, Mike passa a ter pesadelos recorrentes sobre o desaparecimento de seu irmão, enquanto descobre que o local guarda segredos perturbadores ligados a crianças que desapareceram nos anos 1980. Conforme Mike se aprofunda no mistério, ele percebe que os animatrônicos do restaurante parecem estar vivos e têm uma conexão direta com os acontecimentos sombrios do passado. Entre proteger Abby e desvendar a verdade, Mike acaba envolvido em uma trama que mistura trauma, memórias e fenômenos inexplicáveis. O filme equilibra cenas de suspense com momentos de sensibilidade, criando um protagonista mais relacionável do que em seu material original. 

Mike é um personagem marcado por dor e responsabilidade, alguém que carrega mais peso emocional do que consegue expressar. Sua aparente frieza é, na verdade, um mecanismo de defesa construído após anos de culpa e trauma. Ele vive dividido entre o cansaço que o consome e a necessidade quase desesperada de proteger quem ama, especialmente Abby. Impulsivo em momentos de tensão, mas profundamente justo, Mike revela uma sensibilidade silenciosa: mesmo ferido, continua tentando fazer o certo. Sua personalidade é a de alguém que aprendeu a sobreviver, mas ainda busca uma forma de viver — e, acima de tudo, de encontrar paz para si e para sua irmã caçula.

O filme parece se esquecer do próprio gênero ao qual se propõe, deixando de lado justamente a essência que tornou o jogo tão popular. É importante dizer com clareza: Five Nights at Freddy´s se destacou por seus sustos, jumpscares e pela atmosfera de terror — elementos que, na adaptação, acabam ofuscados por uma narrativa focada novamente no tema do luto, apenas ambientada no universo da franquia. Pensando bem, não consigo lembrar de nenhum momento em que realmente senti medo durante a sessão.

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim acerta ao humanizar seus personagens e dar profundidade emocional à jornada de Mike, mas acaba se afastando daquilo que definiu a identidade da franquia nos jogos. Embora apresente elementos visuais marcantes e uma trama acessível ao público geral, o filme deixa a desejar no aspecto mais esperado: o terror. A falta de tensão genuína e de momentos realmente assustadores enfraquece a experiência para quem buscava reviver o clima inquietante do jogo. Ainda assim, a obra tem seu mérito ao propor uma leitura mais dramática e sensível do universo, mesmo que isso signifique sacrificar parte da essência que tornou FNAF um fenômeno cultural.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.





quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sombras no Deserto (2025) fica em cima do muro

 

Sombras no Deserto (2025) | Imagem Filmes


Crescer é um inferno: a passagem da infância à vida adulta é um ritual bastante natural e transformador, a pessoa que você era antes deixa de existir e começa a ficar exposta as mudanças interiores e exteriores que todes sofrem com este amadurecimento. É como uma troca de pele, seu corpo muda, suas percepções e crenças também... A reação é assustadora. No entanto, ao retratar esse momento específico da vida de uma figura mitológica/religiosa pode abrir espaço para debates e (não como me importasse muito) controvérsias.

Em Sombras no Deserto (The Carpenter's Son, no original, 2025) retrata a adolescência da figura de Jesus Cristo dentro de um gênero cinematográfico inusitado para esse tipo de estória ligado a tradição eclesiástica: o terror. O filme é dirigido por Lotfy Nathan e tem o dedo de Nicolas Cage na produção, que também interpreta José de Nazaré, o pai adotivo de Jesus. Enquanto o título nacional tem um nome genérico, o original explicita sua relação com a teologia.

Quando este projeto foi anunciado muitas pessoas ficaram ou com uma curiosidade mórbida ou completamente ultrajadas por alguém adaptar a vida de um símbolo cristão em filme de terror; afinal, para um crente, a ideia de retratá-lo de uma "forma negativa" seria uma blasfêmia. E até semanas antes do lançamento o projeto está sofrendo com um boicote online em portais e agregadores de cinema (uma semana antes do lançamento oficial, no IMDB, a nota está em 3.5). 

Como um bom agnóstico/ateu que este crítico é, me enquadro no primeiro grupo; pois é muito raro ver este tipo de abordagem sendo feita, porém, como não é muito comum, as chances do longa ser um desastre incompreensível são altas. De fato, Nathan se baseia em textos apócrifos, que não fazem parte do cânone do cristianismo, dando uma liberdade de contar algo, digamos, extraoficial, ou seja, indo em direção ao paródico, ao paralelo de tal cânone já consolidado.

Nathan não dá nomes aos seus personagens de cara, e, quando dá, utiliza os nomes em judaico, mas codifica as personagens mitológicas de forma que o público os identifique de cara: o Carpinteiro (Cage), a Esposa (FKA Twigs) e o Filho (Noah Jupe). José, Maria e Jesus. Simples assim. Não é preciso muitas explicações.

O longa começa com um prólogo que retrata o nascimento de Jesus no dia de Natal e a fuga de seus pais das tropas romanas. Depois, a narrativa corta para anos depois. O Carpinteiro e sua família são nômades, com medo de descobrirem a verdade sobre o Filho. Eles se instalam em uma vila egípcia, cujas as habilidades do patriarca da família são necessárias. Mas o Filho não é mais nenhuma criança e seus pais sentem um medo de que ele logo caia em tentações e atraia a presença de Satanás. O Carpinteiro é rude e ríspido em sua educação, alienando mais o filho do que o ajudando. Enquanto isso, o jovem é assolado por sonhos que preconizam sua morte.

A situação complica quando o Filho conhece uma Criança (Isla Jonhston) muito estranha e de estilo bastante andrógeno, talvez Satanás em pessoa ou não, que empurra Jesus para fora da faceta construída pelos pais e sim para o santo milagroso do qual seria conhecido: seja por curar leprosos ou exorcizar espíritos demoníacos em pessoas inocentes. Porém, isso pode, em contrapartida, acarretar em acusações de bruxaria e paganismo contra o jovem, já que a população local não sabe de seu verdadeiro destino. Causando, deste modo, aflição e medo no seio familiar.

Partindo de uma abordagem histórica, querendo ou não, o cinema bíblico está presente no cinema, desde a época dos filmes mudos, com os épicos de DeMille, por exemplo. Mas o que antes era visto como algo épico e luxuoso, hoje em dia virou em um gênero escabrosamente decadente que serve mais converter os espectadores ao cristianismo e reforçar as temáticas religiosas para o público protestante. O que era um subtexto, virou algo muito maior, mais aborrecido e pedante: uma obra planfetária para vender uma ideologia, flertando com um fascismo religioso. E talvez, esteja uma das controvérsias do filme. Ele foge desse roteiro. Ao retratar os poderes de Cristo como algo assustador e que causa pânico, automaticamente, o projeto rejeita o discurso engessado de produções recentes. Foge do estilo da Angel Studios e da Affirm Films que protestantes estadunidenses querem enfiar goela abaixo nos espectadores, junto de sua agenda. E nem chega a ter tons ofensivos a outras religiões como A Paixão de Gibson, em que há um subtexto antissemita.

Nathan abraça o caráter humanístico de Jesus, descrevendo-o como ele é: um ser divino, mas mortal, como qualquer ser humano. Tem muito como um referencial temático os trabalhos de Scorsese e (o saudoso) Pasolini, de certa forma. A narrativa de horror se desenvolve dentro da lógica do bildungsroman, com Cristo desconhecendo de seus poderes e do terror que isto possa causar na psique. Há um certo fascínio, quanto uma realização temerosa ao mesmo tempo. Cristo, influenciado pela Criança demoníaca, quer descobrir suas próprias tentações e poderes. Mas José, difícil e controlador, é o único obstáculo em seu caminho. 

Aqui não há só uma batalha entre o bem e o mal, mas também geracional, entre a fé e o desespero, o etéreo e a carne. Existe uma linha tênue entre a teologia e a psicanálise que é anunciada, mas nem sempre tem algo a dizer de inovador ou de perspicaz. Deste modo apresentando ideias interessantes, que parecem mais inteligentes e profundas do que elas são de verdade. Essa dicotomia entre bem e mal ou pai e filho é um dos dispositivos mais antigos do mundo. Existe uma gravidade nesta relação, dando um peso à narrativa; a figura bíblica da serpente como uma figuração do pecado, do mau caminho, da perdição, é recorrente, embora que seja repetitiva. O problema aqui é que a direção e a construção de mundo estão intrinsecamente ligadas a tradição mitológica e, mesmo brincando com seus signos, nem sempre consegue escapar da sensação de que a trama está "chovendo no molhado". 

Se em termos temáticos, o filme não acrescente nada de novo, apesar do gênero escolhido, também sofre com algumas decisões que afetam a estética da obra. Talvez o maior pecado do filme é pegar o trabalho do diretor de fotografia Simon Beaufils (de Anatomia de uma queda (2023) e Faca no coração (2018), um favorito meu, por exemplo), com seu trabalho de cores e texturas, para, provavelmente na pós, escurecer algumas cenas que prejudicam o trabalho de fotografia naturalista realizado aqui. Algumas cenas noturnas são demasiadamente escuras, sem a necessidade tal escolha, sem que haja uma sombra e luz para contrabalancear.

Nathan consegue dirigir o longa ao redor da figura de Cage, mesmo que este seja o único dentre os atores com um "sotaque europeu" no projeto, com certa competência que deixa o nível da trama com as batidas de desenvolvimento necessárias para seu desenvolvimento: não deixá-lo roubar a cena. O ator conhecido pelo seu estilo hiperbólico conseguiu dar, na última década, uma reviravolta na carreira ao embarcar em projetos que contemplassem seu estilo de performance e com realizadores que conseguiriam trabalhar em volta dessa figura na direção. Há momentos que vemos o Cage explosivo, no qual, por muitos anos, ele infamemente ficou conhecido; mas são bem espalhados, no mar de contenção e de naturalidade, e contribuem para o arco narrativo da narrativa e de sua personagem. 

Além disso, o diretor consegue com que haja um diálogo de cena entre Nic Cage e seus colegas, de modo que as interações não fiquem exageradas ou beirando ao território do camp. Por mais que o filme se venda na figura de Cage, o foco de toda trama é o desenvolvimento de Jesus que é está bem nas mãos de Noah Jupe, que consegue vender sua versão, esforçada até, de um Cristo infante, ainda ingênuo. Já FKA Twigs, que foi de Maria Madalena para Maria de Nazaré (quem entendeu a referência, entendeu), não está em uma posição vulnerável em cena, como foi o caso da versão de O Corvo do ano passado, no qual a diva do pop indie sofreu com uma péssima direção, prejudicando seu trabalho no projeto que foi severamente criticado na época; aqui ela consegue estar a par da cena. Porém, sua personagem é retratada de uma forma bastante passiva, quase tornando a sua presença um acessório narrativo, do que como parte integral da trama.

Em suma, Sombras no Deserto causa pela ideia, no campo do discurso, pela ousadia de um terror bíblico, como uma vertente dos filmes de terror religiosos, como Exorcista e Invocação do Mal, por exemplo. Mas o longa-metragem propõe uma transgressão de valores do qual não a assume, com um desenvolvimento temático, já feito no passado, que flerta com o genérico e o mediano. A balança entre naturalismo e a teologia está voltada ao espetáculo abrasivo que tenta ser "desconstruído", sem sê-lo. É uma mistura de um filme europeu pretencioso com um filme B. Talvez o pior pecado, se podemos chamá-lo assim, deste projeto seja uma ambivalência de valores transgressores e conservadores que fazem o filme pairar dentro de um limbo para agradar vários gostos e visões polarizadas de mundo. Em outras palavras, é uma obra que fica em cima do muro em um mar de mesmice autoral. Interessante, mas um pouco esquecível. Contudo, não merece esse hate episcopal.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


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