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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Última Casa - Confinados e sobreviventes

A Última Casa | Netflix


A Última Casa, produção da Netflix, parte de uma premissa que rapidamente estabelece uma situação de desespero para uma família que precisa encontrar segurança dentro de uma casa enquanto uma ameaça desconhecida permanece do lado de fora. O início é um dos momentos mais eficientes do longa justamente por transmitir a sensação de urgência e vulnerabilidade dos personagens, fazendo com que o espectador queira descobrir o que está acontecendo e quais são os perigos que os cercam. Porém, depois desse primeiro impacto, a narrativa diminui consideravelmente seu ritmo e passa a investir mais na espera do que propriamente na construção de acontecimentos capazes de manter a tensão.

Apesar disso, existe uma ideia interessante na maneira como o filme acompanha a família se adaptando à nova realidade dentro da casa. Aos poucos, aquele espaço deixa de ser apenas um refúgio e passa a fazer parte da própria dinâmica dos personagens, criando uma espécie de rotina em meio ao isolamento. Essa escolha permite explorar como diferentes pessoas reagem quando precisam permanecer confinadas em um mesmo ambiente, enquanto o suspense sobre aquilo que realmente representa uma ameaça continua presente. A dúvida sobre o que existe do lado de fora consegue gerar alguns bons momentos de tensão, principalmente quando o filme opta por esconder mais informações do que revelar. 

O problema é que essa construção acaba se prolongando mais do que deveria. Depois do desespero apresentado inicialmente, o longa encontra dificuldades para manter o mesmo nível de urgência e, em determinados momentos, torna-se lento e até um pouco maçante. A sensação de espera funciona durante parte da narrativa, mas perde força quando o espectador percebe que poucas coisas estão avançando. O suspense depende diretamente da expectativa por uma resposta, e o longa nem sempre consegue transformar essa espera em tensão, fazendo com que alguns momentos pareçam apenas uma extensão do tempo necessário para chegar ao próximo acontecimento.

Wagner Moura e Greta Lee são fundamentais para sustentar essa parte mais contemplativa da história, ambos conseguem transmitir a preocupação e o desgaste emocional de seus personagens, principalmente através de expressões e pequenas mudanças de comportamento, evitando que o drama familiar dependa apenas dos diálogos. Existe uma vulnerabilidade perceptível nas interpretações que ajuda a tornar a situação mais humana e faz com que o espectador compreenda o peso psicológico daquele confinamento.

A Última Casa (2026) possui uma premissa interessante e encontra seus melhores momentos justamente quando explora o medo do desconhecido e a adaptação de uma família a uma situação completamente fora de seu controle. Porém, o ritmo irregular prejudica a experiência, especialmente após um início bastante desesperador, e o encerramento poderia ter sido muito mais impactante. No fim, é um filme que apresenta boas ideias e consegue construir alguns momentos de tensão, mas deixa a sensação de que seu potencial acabou sendo maior do que aquilo que chegou efetivamente às telas. 


Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Saccharine (Insaciável) - Estamos presos dentro dos padrões da sociedade

Insaciável | Diamond Films


Saccharine, também intitulado Insaciável (2026), utiliza o terror corporal para abordar questões extremamente atuais relacionadas à aceitação, à pressão estética e à relação cada vez mais problemática da sociedade com o próprio corpo. A narrativa acompanha Hana, uma protagonista consumida pela insatisfação com sua aparência e pelas consequências de suas escolhas, enquanto o desejo de transformação física passa a assumir proporções cada vez mais perturbadoras. O longa consegue utilizar o horror não apenas como ferramenta de choque, mas como uma maneira de representar sentimentos como compulsão, insegurança e desespero, tornando seus temas ainda mais desconfortáveis para o espectador.

Um dos grandes méritos do filme está justamente na maneira como aborda assuntos necessários, como o uso de medicamentos para emagrecimento, a compulsividade alimentar e a dificuldade de aceitar o próprio corpo. O filme não trata essas questões de maneira superficial, utilizando o exagero característico do terror para levar determinadas situações até consequências extremas. Existe uma crítica evidente à pressão para alcançar um padrão estético e à ideia de que qualquer método pode ser válido quando o objetivo é modificar o próprio corpo. 

O horror surge, portanto, de algo que não parece tão distante da realidade, tornando algumas situações ainda mais incômodas. Constrói um terror perturbador e sufocante, utilizando o desconforto físico como uma extensão do psicológico. A sensação de repulsa não está presente apenas nas imagens mais grotescas, mas também na maneira como o filme acompanha a deterioração da protagonista. O espectador é colocado diante de situações que provocam incômodo justamente porque existe uma proximidade entre aquilo que estamos vendo e problemas que fazem parte da realidade. É um horror que não depende exclusivamente de sustos, mas da capacidade de fazer o público permanecer desconfortável mesmo quando nada explicitamente assustador está acontecendo.

Hana também funciona muito bem como centro dessa construção, suas decisões desesperadas são fundamentais para que o horror avance, porque conseguimos compreender de onde vem cada escolha mesmo quando sabemos que ela está caminhando para consequências cada vez piores. O filme consegue criar uma relação interessante entre empatia e apreensão: queremos que Hana encontre uma saída, mas ao mesmo tempo ficamos constantemente apreensivos com aquilo que ela será capaz de fazer para alcançar seus objetivos. Quanto mais desesperada ela fica, mais perturbadora se torna a própria narrativa, fazendo com que suas escolhas sejam responsáveis por grande parte da tensão.

Para quem gostou de A Substância, Saccharine (Insaciável) provavelmente será uma experiência bastante interessante. Os dois filmes compartilham uma preocupação em utilizar o horror corporal para discutir a relação com a aparência, a pressão estética e os limites que alguém pode ultrapassar na busca por uma versão considerada “melhor” de si mesmo.

A produção é um terror que incomoda justamente porque seus temas possuem uma conexão muito próxima com a realidade, o filme transforma inseguranças cotidianas em uma experiência perturbadora. É um filme que utiliza o grotesco para provocar reflexão e, para quem já se entregou ao horror de A Substância, certamente merece uma chance.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Evil Dead Burn (2026) - O inimigo está mais próximo do que você imagina

Evil Dead Burn | Warner Bros. Pictures

O longa marca um novo capítulo para uma das franquias mais icônicas do terror ao preservar os elementos clássicos da saga enquanto busca estabelecer uma identidade própria. A narrativa acompanha uma família de luto que, ao se depararem com uma força sobrenatural em busca de um objeto em sua casa, acabam desencadeando uma nova onda de possessões e violência extrema. Diferentemente de outros filmes da franquia, o roteiro dedica mais tempo à construção dos acontecimentos que antecedem a chegada do mal, oferecendo uma justificativa mais consistente para o despertar da entidade demoníaca. Essa abordagem torna a ameaça mais orgânica dentro da narrativa e faz com que os eventos não pareçam apenas uma repetição da tradicional fórmula do Necronomicon, também conhecido como o Livro dos Mortos.

Embora preservem a crueldade e o sadismo característicos da franquia, seus comportamentos apresentam diferenças em relação aos filmes anteriores, explorando novas formas de manipulação psicológica e violência. Essa mudança impede que o filme se torne previsível e cria uma sensação constante de incerteza, já que o espectador nunca sabe exatamente quais serão os limites das criaturas. Em vez de apenas reproduzir cenas conhecidas pelos fãs da saga, Evil Dead Burn procura reinventar parte de sua mitologia sem abandonar sua essência.

Os personagens também contribuem para que a tensão permaneça elevada durante toda a projeção. Cada integrante da família possui características próprias e personalidades bem definidas, fazendo com que suas decisões pareçam naturais, mesmo quando questionáveis. Essa construção torna as consequências de cada decisão mais impactantes e fortalece o envolvimento emocional com a história, algo essencial para um filme que depende tanto da tensão constante.

A maneira de utilização da câmera deste filme é de longe um dos pontos mais altos da produção! Há uma evidente preocupação em utilizar a câmera como parte da narrativa, fazendo com que cada perseguição e cada aparição demoníaca ganhem ainda mais intensidade. Essa escolha potencializa os sustos e reforça a identidade visual do longa, tornando a experiência mais imersiva.

Evil Dead Burn (2026) consegue respeitar o legado da franquia enquanto introduz ideias suficientes para justificar sua existência entre os demais filmes da série. Ao apostar em uma explicação mais elaborada para a origem dos acontecimentos, apresentar demônios com comportamentos inéditos, desenvolver personagens capazes de manter o espectador constantemente apreensivo e investir em uma direção de câmera extremamente eficiente, o longa entrega uma experiência intensa para fãs de terror. Mesmo sem reinventar completamente a fórmula de Evil Dead, o filme demonstra que ainda há espaço para explorar novos caminhos dentro desse universo sem perder a brutalidade e a identidade que transformaram a franquia em um dos maiores nomes do gênero.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.


Na Boca do Diabo - Na torcida pelo tubarão

Na Boca do Diabo | Amazon Prime Video


Na Boca do Diabo (2026), produção do Prime Video, parte de uma premissa simples e bastante conhecida dentro do cinema de sobrevivência: um grupo de personagens precisa enfrentar a ameaça de um tubarão enquanto tenta encontrar uma maneira de escapar com vida. O problema é que, apesar de possuir uma proposta que poderia render uma experiência de tensão constante, o longa acaba encontrando dificuldades justamente na construção daqueles que deveriam sustentar a narrativa. Os personagens são excessivamente caricatos, com personalidades exageradas e decisões que muitas vezes parecem existir apenas para movimentar a história. As discussões entre eles também seguem esse caminho, apresentando conflitos pouco convincentes e diálogos que acabam retirando parte da seriedade dos momentos em que o público deveria estar apreensivo.

Essa caracterização exagerada faz com que o espectador tenha dificuldade para criar qualquer vínculo com os personagens, exceto Sara, interpretada por Kathryn Newton que consegue conquistar o público com seu carisma. Porém, em determinados momentos, as escolhas tomadas são tão questionáveis que o perigo deixa de estar relacionado apenas ao tubarão e passa a ser consequência direta das próprias atitudes do grupo. O resultado é curioso: em vez de torcer pela sobrevivência dos personagens, chega um ponto em que o espectador começa a torcer pelo próprio tubarão.

O maior déficit está na maneira como o filme trabalha sua tensão, a produção depende diretamente da sensação de perigo e da expectativa sobre quando e como o ataque irá acontecer, mas Na Boca do Diabo nem sempre consegue sustentar esse sentimento. Depois de estabelecer sua premissa, o longa começa a se tornar maçante, repetindo situações e conflitos que não conseguem aumentar significativamente a sensação de ameaça. A espera pelos próximos acontecimentos deixa de ser angustiante e passa a ser previsível, fazendo com que alguns momentos que deveriam provocar tensão acabem tendo pouco impacto. Ainda assim, a presença do tubarão consegue proporcionar alguns momentos interessantes dentro da proposta do filme, a criatura funciona melhor quando a direção permite que sua presença seja construída através da expectativa, utilizando o ambiente e a limitação de espaço para transmitir a sensação de vulnerabilidade dos personagens. O problema é que esses momentos não são suficientes para compensar um roteiro que frequentemente depende de decisões pouco inteligentes e conflitos artificiais para prolongar a narrativa.

Na Boca do Diabo possui uma premissa capaz de entregar um bom filme de sobrevivência, mas acaba prejudicado pela caracterização caricata de seus personagens, por conflitos pouco convincentes e principalmente por uma dificuldade em manter a tensão durante toda a produção. Apesar de apresentar alguns momentos divertidos e sequências capazes de funcionar dentro da proposta, o longa se torna cansativo ao repetir sua fórmula e não consegue transformar seu potencial em uma experiência realmente angustiante.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.


Carne, Fluídos e Frango Frito no Acampamento Miasma (2026)


Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026) | MUBI, Retrato Filmes

"porque uma mulher boa/ é uma mulher limpa/e se ela é uma mulher limpa/ ela é uma mulher boa/ há milhões, milhões de anos/ pôs-se sobre duas patas/ a mulher era braba e suja/ braba e suja e ladrava/ porque uma mulher braba/ não é  uma mulher boa/ e uma mulher boa/ é uma mulher limpa" 

(Freitas, Angélica. uma mulher limpa, 2017, p.11) 

Em Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026), terceiro longa-metragem de Jane Schoenbrun, a diretora usa dos elementos do universo slasher como metáfora para o despertar da sexualidade queer e/ou tardia. No universo inspirado em filmes como Sexta-Feira 13 (1980 - 2009) e Sleepway Camp (1983 - 2008), Camp Miasma foi uma franquia bastante lucrativa durante os anos 80 que foi a precursora de filmes slasher cuja premissa tinha a figura de "Little Death" (Jack Heaven) que persegue monitores adolescentes, safados e cheios de hormônios, no acampamento que dá nome aos filmes.  Aqui, Shoenbrun (re)cria a atmosfera desse gênero do horror e conjuga, como parte integral à trama, a questão queer e com a presença da monstruosidade em cenário cis e heterossexual: Little Death não corresponde às normas de gênero, ficando à parte da sociedade, e, portanto, uma vítima desta. 

Sexo, sexualidade e identidade de gênero parecem estar intrinsecamente interligadas na concepção do universo de Shoenbrun: miasma, que parece com asma, mas não é um sinônimo, tem como origem a palavra grega μιάσμα, uma mancha, sujeira; que, expandido seu sentido ao contexto da obra, torna-se um equivalente a algo vergonhoso, ruim e contra a ordem moral do mundo. Como diria a poeta Angélica Freitas em seu livro "o útero é do tamanho do punho", a sujeira da aparência, neste caso do gozo, do sexo, é um traço de feiura, de descarte, de subalterna. 

Esse é o lugar em que Kris (Hannah Einbinder) se encontra: ela, uma diretora premiada em festivais e fã da franquia, é recrutada para reestruturar uma nova série de filmes para os estúdios detentores dos direitos. Para isso, ela viaja até a fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá para se encontrar com Billy Preston (Gillian Anderson), protagonista da franquia, no set do primeiro filme da franquia. Porém, Kris se encontra em um entre-lugar dentro da sua psique: existe uma fascinação, puramente sexual e artística, com Billy; porém ainda ela não consegue dar o próximo passo, algo que a puxa para dentro de suas próprias inseguranças, que a fazem a parecer infantilizada ao algo de Preston... Um monstro que precisa ser despertado e manifestado. Algo que somente "Little Death" pode dar um empurrãozinho ou coisa pior...

Schoenbrun elenca os temas principais do gênero ("flesh and fluids") e os desenvolve ao longo de sua narrativa que combina o onírico e o metafórico que, por vezes didático ou "too much on the nose" do público mais esperto, impulsiona a condução narrativa do filme. O trabalho da diretora é sedutor em vários momentos, usando da química mortal entre Einbinder e Anderson, e divertido em outros (por mais que o uso de CGI não me convenceu muito bem em algumas sequências). A obra acaba usufruindo demais de seu universo e de piadas internas do gênero, mas a intenção de emular um gênero é diferente do que criar um diferente naquele gênero cinematográfico em especifico e isso é uma noção que ela sabe bem. É um "slasher" dentro de um slasher. Talvez quando o filme acaba se tornado autoconsciente ao público de sua própria natureza, não me incomoda, mas seu charme queer diminui um pouco, no entanto, quando ele abraça sua forma e trama como um experimento e não só uma simples-narrativa-meta-sobre-um-gênero-cinematográfico, o resultado é muito interessante.

Gosto do trabalho da realizadora, que também fez I Saw The TV Glow (2024), e como ela trabalha com a noção de identidade e da perda de subjetividade, de aproximar o olhar periférico, quase passivo, e se colocar na pele, neste caso nos olhos, do subjugado pela sociedade. É evidente que há um tema a ser desenvolvido por Schoenbrun ao longo de sua carreira como uma "autora" de gênero e de que estamos vivendo um filme de terror particular no nosso dia-a-dia. Gozar é morrer, e vice-versa. A realidade é uma ficção que nós mesmos inventamos  Depois disso, a vida continua, mas "Little Death" sempre estará no fundo do lago, pronto para ressurgir uma nova vez.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Segredos Obscuros - Mais uma obra que centraliza a aparência e a idade como parâmetros sociais rígidos

Segredos Obscuros | Paris Filmes

Determinadas pautas atuais chegaram com força até o audiovisual. A busca pela longevidade da juventude pode ser descrita de diversas formas, desde as mais cômicas às mais sombrias. No Brasil, vimos uma trama parecida com a descrita na novela Beleza Fatal (2025), grande sucesso da HBO Max. Já em Hollywood, a principal expoente recentemente possui o título de A Substância (Coralie Fargeat, 2024). É nesta última que o lançamento do diretor Max Minghella é, pelo que parece, inspirado. Segredo Obscuro (2024) torna-se mais uma obra que centraliza a aparência e a idade como parâmetros sociais rígidos.

Samantha (Elizabeth Moss) é uma atriz em decadência. Enquanto o tempo passa, sua carreira se mostra mais datada; culpa da falta de renovação e do padrão estético não convencional da personagem. Um belo dia, Sam conhece a Shell, uma empresa que promete vitalidade eterna por meio de um tratamento. Embora relutante, as inseguranças da protagonista a fazem se submeter aos procedimentos da “clínica”, na qual a CEO, Zoe Shannon, é a glamorosa porta-voz. Ambas formam uma amizade, mas segredos perigosos estão por trás da relação e de toda perfeição exibida por Zoe e seu negócio.

Logo no primeiro momento, nos deparamos com uma insatisfação já utilizada em outros longas-metragens: trajetórias no mundo artístico que se declinam por conta da superficialidade geral. O assunto é revelado através de Sam que, como muitas, não se encontra no molde estadunidense de hoje. Entretanto, é inexistente a diferença de como é mostrado tal preocupação, em uma demonstração expositiva, sem rodeios e sem chances de muita conexão com a personagem principal. O filme em si é visto como mais um em que a protagonista procura seu espaço, cede aos encantos de uma solução duvidosa, e encara consequências por conta disto.

A Substância é visivelmente uma comparação inevitável a Segredo Obscuro, que escolhe até o mesmo caminho do suspense e do body horror para ser conduzido. Porém, neste os recursos estilísticos e narrativos chamam atenção pela maior pobreza e perda de identidade. Tudo aqui já foi visto antes, além de nada ser um grande mistério. O filme traça um caminho já esperado desde o começo, não alcançando sua intenção de ser chocante ou tenso. O próprio terror, que demora a ser percebido, possui manejos que não dão certo em seu conjunto.

O ritmo volúvel, a trilha sonora notadamente deslocada (mais parecida com a de um filme de ação, não suspense) e até as boas intenções do diretor de criar um universo com itens retrô e futuristas concomitantemente, são falhas que descaracterizam o longa-metragem; sem identidade, até as mais aterrorizantes descobertas de Sam são deficientes de emoção e estilo próprio, ainda que tente.

Entretanto, o filme é carregado por duas boas interpretações. Elizabeth Moss retrata bem uma artista desesperada e ingênua, ainda com a esperança de reaver seus tempos dourados. Sua intimidade posterior com a excêntrica e, ao mesmo tempo, amigável, Zoe, feita de forma não caricatural por Kate Hudson, é a maior qualidade da obra, tendo isto como ponto central para que o espectador não desista da trama.

Segredo Obscuro não é trash, não é terror, não é gore e nem é um suspense que consiga prender a atenção do público. Ainda que suas empreitadas para ser tudo isso existam, a produção pouco se solidifica como um destes gêneros. Ademais, o enredo batido, ao passo que é relevante e merece ser discutido a finco, deixa rastros que não criarão memórias nem resquícios. A dupla de atrizes que comanda o filme é boa, mas não suficiente para atingir a proposta requerida: assustar e fazer pensar. Talvez em uma próxima chance o cinema novamente seja palco para histórias que permeiam a estética, o envelhecimento e o julgamento da sociedade.

Autora:


Lais Lima 

25 anos, formada em cinema, roteirista, crítica, videomaker e moradora do Rio de Janeiro, minha paixão pelo cinema transcende as telas. 
De “Guarda-Chuvas do Amor” até “Laranja Mecânica”, meu amor pela arte não se prende a nenhum gênero, mas sim ao que me toca. 
Também sou apaixonada pelos pormenores da vida, que se apresentam sem nenhum roteiro. 
Logo, imaginação não falta em mim. 
Sou de tudo um pouco, e procuro sempre expor minha versão mais democrática, que enfrenta a realidade com a maior criatividade possível.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) e o Medo do Inconsciente

 

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) | Imagem Filmes

O conceito de espaços liminares se tornou uma estética bastante recorrente na internet, influenciando o gênero de suspense e horror, com histórias envolvendo creepypastas e lendas urbanas: um espaço amplo, vazio, muitas vezes abandonado, quase familiar dentro de uma memória coletiva, uma nostalgia por uma época relativamente próxima, mas não vivida; porém desorientador, silencioso, manipuladora das percepções humanas, e lar para o desconhecido... Um medo (talvez ou não) irracional do vazio. 

Quando o jovem Kane Parsons lançou um found footage no YouTube chamado The Backrooms (2022), o vídeo se tornou uma fenômeno cultural com mais 70 milhões visualizações na plataforma. Com o sucesso do primeiro vídeo, Parsons continuou a explorar esse universo em outros vídeos, disponíveis em seu canal, chamando a atenção dos estúdios e produtoras de cinema estadunidenses. Porém, a bolha cinéfila foi pega de surpresa quando, pouco tempo depois, a A24 anunciou que estava desenvolvendo um filme baseado no universo de Backrooms, dirigido por Parsons (na época, com cerca de 18 anos; agora com 21!), com produção de nomes como Shawn Levy, James Wan e Osgood Perkins, e estrelado por dois atores de peso: Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve. De certo, sejam os céticos e/ou os curiosos, todos começaram a ficar curiosos para ver o resultado final.

A ação se passa nos anos 90, Mary (Reinsve) é uma psicóloga que ainda carrega traumas do passado, ligados à sua casa de infância, enquanto que seu paciente Clark (Ejiofor) é um arquiteto frustrado que nunca conseguiu seguir seus sonhos que trabalha em uma loja de móveis falida. Após uma série de incidentes, Clark descobre uma passagem secreta que dá para um labirinto infinito de salas, reproduzindo uma realidade distorcida do mundo real. Após seu paciente ficar cada vez mais envolvido com esse microcosmo, Mary vai atrás dele e adentra nesse universo.

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) é um filme que se destaca pelo visual, a justaposição entre o mundo real com uma variedade de cores e tons e o labirinto minimalista com tons amarelados de sinestesia nauseante, e pelo sensorial, o folley e a edição de som são importantes para imersão do expectador. Parsons, que estreia na direção, parece estar confiante com o universo, no qual desenvolveu durante anos, e acredito que se beneficiou da experiência ao máximo. Não posso ainda dizer se ele é ou não um bom diretor, pois ainda é muito cedo para fazer tal declaração direta, e talvez reducionista; mas parece segurar bem a onda aqui. Seu trabalho, embora estamos falando de uma nova IP com chances (caso fizer sucesso nas bilheterias mundiais) de se tornar um carro chefe de uma nova franquia para um estúdio norte-americano, transborda um certo carinho e atenção aos detalhes estéticos e jogo de linguagens cinematográficas em uso. Em suma, é uma direção segura no que pretende.

Visual e esteticamente falando, o filme se garante; porém talvez seu ponto fraco esteja no roteiro da obra, que utiliza das caraterísticas conceituais do universo como parte de uma metáfora situacional para suas personagens, mas nem sempre consegue desenvolver seus temas de forma orgânica, principalmente no terceiro ato, quando o filme começa a flertar com o onírico, enquanto tenta enquadrar com uma subplot que envolve uma teoria da conspiração. O texto não é ruim, mas talvez a relação entre o inconsciente das personagens com a genealogia do backrooms pode ser, ao mesmo tempo, algo fascinante ou um pouco básico (afinal, estamos falando de um filme da A24), dependendo do espectador. Este crítico, tende para o primeiro lado; pois é o ponto em que se sustenta parte do horror do filme: o da percepção da mente humana em situações austeras e da ressignificação dos pesadelos. Quando o filme afunda dentro da própria loucura, ele acaba se tornando mais envolvente com o desenrolar das ações.

Para além da direção confiante de Parsons, o que ajuda elevar uma narrativa fragilizada é o combo de atuações de Ejiofor e Reinsve, que, com todos seus talentos em cena, elevam a dinâmica entre as personagens e parte do desenvolvimento pessoal de cada uma. Se suas características parecem bastante unidimensionais no papel, em cena, com estes intérpretes, a ideia ganha matéria e, portanto, suas crises parecem, ao público, reais. E diante do improvável, lentamente, o chão afunda e a realidade começa a se dissipar. Há uma cena bastante interessante que acontece no primeiro ato e acaba reaparecendo no terceiro, em uma mise en scène que me lembrou um pouco com o clímax de Massacre da Serra Elétrica de Tobe Hooper (1974): uma conversa entre a duas personagens, o texto é quase idêntico, porém o ambiente e a situação mudam o tom dessa interação espelhada. O irreal e real acabam, então, por se confundir e criar um entremeio. Se não fosse pelo trabalho dos atores, talvez o resultado poderia ser didático ou superficial demais, para um espectador com olhos já treinados para filmes de terror com um ângulo dramático acentuado.

Como um filme de estreia, Backrooms (2026) é uma obra eficiente que se debruça a explicar e explorar sua própria mitologia para seu público. Quem for fã da estética, ou do gênero, ou quem tiver uma mente mais aberta para ideias inusitadas, pode aproveitar mais o filme do que o espectador mais cético.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Eles Vão Te Matar - O horror direto que prende o espectador do início ao fim

Eles Vão te Matar | Warner Bros. Pictures


Uma jovem que não tem nada a perder precisa sobreviver à noite no Virgil, o misterioso e mortal esconderijo de um culto demoníaco, para evitar se tornar a próxima oferenda.

Pegue um liquidificador, jogue Kill Bill e misture com o gênero terror — é dessa combinação que nasce Eles Vão Te Matar. Mas a semelhança para por aí. Enquanto Kill Bill transforma a violência em espetáculo estilizado e quase elegante, o filme aposta no oposto: brigas propositalmente caóticas, rápidas e desconfortáveis, que às vezes sacrificam clareza visual em nome do impacto. A diferença central está na protagonista: ao contrário de Beatrix Kiddo, que domina cada confronto com precisão quase mítica, Asia Reaves é constantemente engolida pela situação, reagindo mais do que agindo. Isso torna a experiência mais visceral, mas também menos catártica.

O terror se sustenta na tensão constante e na sensação de vulnerabilidade. Asia está cercada por ameaças imprevisíveis, e cada corredor ou porta pode esconder perigo, criando medo psicológico de inevitabilidade. A violência é gráfica e grotesca, reforçando o desconforto, enquanto os elementos ritualísticos do culto aumentam a estranheza e o suspense. O resultado é um terror contínuo, que desgasta e mantém o espectador em alerta do começo ao fim.

A trama não se prende a complexidades narrativas desnecessárias. Sua trama é relativamente simples, mas isso funciona a favor da experiência: permite que o espectador mergulhe completamente na tensão, no horror e nas cenas de combate, aproveitando cada momento sem se perder em subtramas complicadas. Mesmo sendo direta, a narrativa consegue envolver e entreter, mostrando que não é preciso uma história excessivamente elaborada para causar impacto e emoção.

O cenário do hotel onde Asia está presa é dominado por tons avermelhados. Embora o vermelho seja uma escolha previsível — já que remete diretamente ao perigo e ao sangue, ambos centrais na proposta do filme —, seu uso constante acaba funcionando mais como um reforço óbvio do clima do que como um recurso visual realmente sofisticado. Ainda assim, a insistência nessa paleta contribui para manter a sensação de ameaça contínua e, em certos momentos, ajuda a criar uma identidade visual coerente, que intensifica a atmosfera sufocante e o estado emocional da protagonista.

O trabalho de câmera merece destaque: explorando ângulos inusitados e movimentos ágeis que fogem do convencional, a cinematografia se torna uma ferramenta narrativa por si só. Cada enquadramento cuidadosamente pensado, cada plano-sequência e cada aproximação ou afastamento de lente não acompanha a história, mas permite que o espectador vivencie os acontecimentos de maneira mais profunda. Criando uma sensação de dinamismo e tensão, enquanto movimentos suaves e fluídos podem transmitir intimidade ou serenidade.

Eles Vão Te Matar combina violência intensa, terror e elementos visuais marcantes para entregar uma experiência cinematográfica envolvente e visceral. Apesar de sua trama relativamente simples, o filme consegue manter o espectador preso do início ao fim, explorando habilmente a tensão, o suspense e o caos das cenas de ação. A estética do cenário, a paleta de cores e o trabalho de câmera não apenas reforçam a narrativa, mas ampliam a imersão, tornando cada momento mais impactante e emocionalmente carregado. Demonstram que intensidade, criatividade visual e ritmo bem construído são suficientes para criar uma experiência marcante.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


terça-feira, 17 de março de 2026

O Testamento de Ann Lee (2025) é o Berghain de Mona Fastvold

 

O Testamento de Ann Lee (2025) | Searchlight Pictures

Em "Berghain", single do álbum Lux, a cantora Rosalía canta, em uma mistura de alemão e espanhol, sobre a pequenez do ser diante de algo sobre o qual não tem controle: neste caso, em específico, o choque de cultura no icônico complexo clubber de Berlim que dá o nome da canção. Existe uma justaposição entre a tendência de ceder desconhecido entre música eletrônica, drogas e sexo e o medo quase infantil de seu eu-lírico na primeira metade da letra. 

A boate Berghain é, além monumento da cultura noturna da cidade alemã, também é exclusiva, pois muitas pessoas que não são da "cena" tentam entrar, o que descaracteriza o seu aspecto underground e alternativo. Porém o que me chama a atenção é como a cantora, na segunda parte da música, parece estreitar a relação, quase opositora, entre religião e o profano: enquanto que a participação da cantora islandesa Björk reforça a ideia de uma experiência divina libertadora, os versos finais de Yves Tumor reforçam a ideia de que o sexo (portanto, a "pequena morte") é também uma experiência religiosa.

E por mais que sejam obras de artes diferentes, não pude parar de fazer a associação da canção de Rosalía e o mais novo projeto da realizadora Mona Fastvold, enquanto eu assistia ao Testamento de Ann Lee (2025); estrelado por Amanda Seyfried no papel-título. Aqui, Fastvold escreve o guião junto de seu parceiro na profissão (e na vida) Brady Corbet, de O Brutalista (2024); retomando, um dos temas do projeto anterior: a experiência da imigração de refugiados europeus aos Estados Unidos em busca de uma nova oportunidade. No longa de 24, o contexto era o pós Segunda Guerra Mundial e a emigração judaica, neste aqui é o período colonial norte-americano e a intolerância religiosa (no mundo anglófono).

No século XVIII, Ann Lee foi a líder uma religião minoritária chamados de Shakers, pelo seu hábito de cantarem louvores como meio para se conectarem com Deus. Como é mostrado na narrativa, Lee não foi a criadora dessa vertente religiosa, mas se tornou uma figura importante para o grupo e se proclamava como ora como a segunda vinda de Jesus Cristo na terra, ora como a esposa de Jesus. Após de várias perseguições com a comunidade local em Manchester, Inglaterra (Lee é presa e atacada várias vezes, por exemplo), ela e seus seguidores seguem para os Estados Unidos com um sonho de fundar uma comunidade que os aceitem como são. Com cantoria e tudo.

(A) Mona entende que boa parte da psique de Lee vem de um local de repressão sexual, causado tanto pelas instituições religiosas quanto pela violência sexual que as mulheres são passíveis de sofrer, o que causa, como efeito, a imposição do celibato para todos os praticantes Shakers como preceito; pois, na filosofia da personagem, é um ato impuro que contém a mácula do "pecado original" (Vale ressaltar que a Lee passa por quatro partos malsucedidos que aumenta sua percepção do sexo como algo vil; portanto, sexo é visto como uma prisão física e metafórica de uma sociedade machista). Porém, por mais irônico que seja, com a negação do sexo, Fastvold filma as sequencias musicais com um certo gosto quase orgástico, seja pela energia do coro de vozes ou seja pela composição do ambiente em que os praticantes fazem de uma suas cerimônias ao ar livre em meio a elementos fálicos da natureza. Existe um gosto particular da direção que transparece nas conduções das sequências, algo entre o jocoso, o empático e o brutal.

As canções em que os Shakers usam aqui partem de um elemento natural do que de um tema religioso, é algo primal: a fome, o tempo, a natureza. São letras que tem sua qualidade estética e são muito bem utilizadas pela direção de Fastvold, pela fotografia em 35mm de William Rexer e pelo trabalho do compositor Daniel Blumberg. Sem as pieguices fascistas-pentecostais que dominam o cenário da música. A sensação é de ouvir uma cantiga medieval sendo cantada por um coral acapella.

Porém, se os elementos musicais e visuais são os pontos fortes do longa, o roteiro é um de seus pontos fracos, pois existe uma discrepância entre a disposição entre ação e tempo que ocorre na maioria das cinebiografias que decidem contar a história de vida de uma personagem. Apesar de sua divisão de capítulos, nem sempre a passagem de tempo é uniforme, dependendo bastante da narração em off para situar o espectador no decorrer do filme. No entanto, a dupla Fastvold-Corbet parece ser mais econômico e assertivo em Ann Lee do que em Brutalista, o que demonstra uma evolução expressiva  entre projetos. O potencial está ali. Talvez precisem refinar um pouco mais seus próximos roteiros.

E não tem como falar sobre O Testamento de Ann Lee sem falar um pouco sobre o trabalho de Amanda Seyfried no papel: existe uma grandeza para uma personagem um pouco polêmica e/ou controversa, na qual a atriz consegue pôr de coração e alma em sua performance. Se seus seguidores a chamam de "mãe" no filme, seus fãs chamam de "mãe" de volta. É um trabalho sensível e honesto que faz, ao mesmo tempo, o possível e o impossível em cena. Um trabalho de personagem complexo e vivaz, sem cair em trejeitos ou cacoetes que, às vezes, acometem uma performance. Quando Seyfried está em cena, o filme evolui junto com ela. Se não aparece, a obra desanda. 

Apesar de uma recepção esnobada na temporada, Ann Lee tem o que é preciso para se tornar um clássico do cinema contemporâneo. Pelo menos, nos círculos certos. Vejam. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

Pânico 7: Criativo, mas exausto

 

Pânico 7 | Paramount Pictures

O tão esperado sétimo filme da clássica saga Pânico teve sua estreia nesta quinta-feira (26/02). Neste capítulo, acompanhamos Sidney Prescott e sua família, onde sua filha mais velha torna-se o novo alvo de Ghostface. Dirigido pelo próprio autor dos filmes de Pânico, Kevin Williamson, a obra entrega diversos altos e baixos, gerando uma repercussão mediana a respeito das expectativas diante da qualidade do filme.

O início segue fiel à tradição da franquia: uma morte brutal de alguém fora da história principal. Desta vez, porém, o cenário inicial chama atenção por transformar a icônica casa do primeiro filme em um museu para amantes do terror e de casos criminais, algo que ocorre. É uma escolha que conversa diretamente com o passado da saga e reforça a natureza metalinguística que sempre caracterizou Pânico.

Seguindo adiante, acompanhamos Tatum, a filha adolescente de Sidney. Seu nome, inclusive, funciona como uma homenagem à melhor amiga de Sidney no primeiro filme, um gesto carinhoso não apenas por parte da Prescott, mas para os fãs mais antigos também. Assim como na cena inicial, o longa incorpora inúmeras referências aos capítulos anteriores, buscando resgatar memórias marcantes, símbolos e até dinâmicas narrativas que moldaram a franquia. Esse movimento, apesar de agradável para o público nostálgico, também revela um sintoma constante da produção nova: a dificuldade de seguir adiante com algo realmente inovado.

O que não pode ser negado é que Pânico 7 se propõe a elevar o nível de brutalidade. Boa parte das mortes são extremamente viscerais, gráficas e longas, apostando em um gore mais explícito do que o habitual. A primeira morte, em especial, é agonizante e violenta a ponto de causar desconforto, algo que pode funcionar para muitos dos espectadores e fãs, mas soar exagerado para outros. Há até uma morte específica que abraça completamente o tom trash, destoando do restante do filme e deixando a sensação de que a obra ensaia vários estilos sem se comprometer verdadeiramente com um.

O foco na família Prescott funciona bem, sobretudo porque desloca a narrativa para outro elenco, outro núcleo e outra história, permitindo que Sidney, por tantos anos vítima e sobrevivente, agora ocupe o papel de mãe que tenta proteger sua família dos ataques de Ghostface. Isso abre espaço para novos conflitos emocionais, ainda que a execução nem sempre seja tão profunda quanto poderia.

Outros personagens conhecidos também retornam, como Mindy e Chad, irmãos introduzidos no quinto filme. Aqui, eles têm participação limitada, mas simpática, atuando agora como assistentes de Gale Weathers em seu programa investigativo. É uma proposta pontual que não rouba muito a atenção do público, mas complementa um pouco o universo da franquia. 

Ao longo do filme, cresce a tensão em torno da possibilidade de Stu Macher estar vivo, teoria insistente entre os fãs há décadas desde o primeiro filme. Williamson claramente brinca com essa ideia, mantendo-a viva o suficiente para gerar expectativa. Contudo, no desfecho, a obra finalmente coloca um ponto final na especulação: Stu realmente morreu no primeiro filme. A revelação, embora talvez um pouco frustrante para uma parte do público, abre espaço para um comentário mais interessante.

E esse é um dos aspectos mais surpreendentes do longa: a crítica ao uso da inteligência artificial. Dentro da trama, os supostos "vídeos inéditos" e "ligações por chamada de vídeo" de Stu que circularam no cenário deste filme, teriam sido fabricados por inteligência artificial. O filme usa esse gancho para discutir como a tecnologia pode manipular narrativas, distorcer memórias e alimentar obsessões. É uma proposta inteligente, talvez a ideia mais fresca do roteiro, apesar de não ter sido muito bem vista por alguns espectadores.

Já a revelação dos Ghostfaces, embora um pouco inesperada em termos de identidade, decepciona pelo motivo. As motivações são rasas, pouco impactantes e não dialogam de maneira significativa com o restante do filme. É um vilão cuja razão de existir deixa muito a desejar.

A introdução e parte do desenvolvimento funcionam bem, mas o longa perde brilho na segunda metade. Do meio para o final, antes do clímax, a narrativa fica arrastada. A sensação é clara: a franquia já não sabe muito bem para onde ir. Apesar de algumas faíscas de criatividade, especialmente nas discussões tecnológicas e em algumas mortes, Pânico 7 evidencia que há pouco a ser explorado sem a necessidade de reciclar elementos dos filmes antecedentes.

No fim, o filme entrega entretenimento, nostalgia e mortes memoráveis, mas também confirma uma verdade incômoda: talvez essa seja uma saga que já deveria ter encontrado seu ponto final há muito tempo. A criatividade ainda pulsa em certos momentos, mas o desgaste é impossível de se ignorar.

Autor:

Bárbara Borges é do Rio de Janeiro e estudante de Jornalismo. Apaixonada por cinema desde criança, sempre foi movida por histórias intensas, especialmente as de terror, seu gênero favorito. Em 2024, dirigiu o documentário Além do Recinto, que levanta questionamentos sobre o bem-estar de animais silvestres em zoológicos e o impacto do confinamento longe de seus habitats naturais. Gosta de pensar no cinema como uma forma de provocar, sentir e transformar. Vive atualizando seu Letterboxd com comentários sinceros e, às vezes, emocionados. Entre seus filmes favoritos estão Laranja Mecânica, Psicopata Americano, Pânico, Pearl e Premonição 3.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

American Satan - Fama instantânea, consequências ignoradas e muito exagero

American Satan | Miramax


Jovens estadunidenses e ingleses abandonam a universidade e decidem formar uma banda de rock. Eles se mudam para Los Angeles, mais precisamente na famosa Sunset Strip, e tentam a sorte em busca de seus sonhos.

Pela sinopse, você até espera uma história bonitinha sobre amigos lutando por seus sonhos… até perceber que é basicamente uma receita de pacto com o diabo temperada com cabelo bagunçado e guitarras barulhentas. A banda, meio estadunidense, meio britânica, logo descobre que o sucesso tem um preço literal: Satanás em pessoa, aparece como um empresário de rock com poderes sobrenaturais e gosto questionável para sacrifícios humanos. Um minuto você está tentando conseguir um show, no outro já está considerando rituais diabólicos e milagres bizarros. Difícil levar a sério.

O filme também parece acreditar que Satanás secretamente escreveu todas as grandes músicas de todos os tempos e que isso justifica qualquer comportamento absurdo da banda. Entre estereótipos de caipiras que brigam só por causa da aparência e uma moral completamente confusa, fica a sensação de que o roteiro não sabe se quer criticar a indústria musical, se quer fazer sátira ou apenas mostrar jovens desesperados com cabelo bagunçado. No final, o longa deixa mais perguntas do que respostas: ser talentoso ajuda alguma coisa na música? Vender a alma é realmente o caminho mais rápido para o sucesso? ou tudo é só uma desculpa para exageros de rock e sofrimento juvenil? uma coisa é certa: o filme não tem vergonha de mergulhar no absurdo — mas é dificil mergulhar junto sem rir ou suspirar várias vezes.

Em vez de aproveitar para desenvolver uma discussão mais profunda, o filme prefere mostrar que, à medida que a banda conquista fama, alguns fãs começam a imitar os atos mais polêmicos do grupo. Quando o protagonista Johnny acaba matando alguém em legítima defesa, adolescentes que sofrem bullying resolver seguir o exemplo… só que de maneira ainda mais exagerada e violenta. Há até alguns trechos que tentam abordar a violência juvenil e mostram a banda em uma aparição rápida na TV discutindo o assunto. Mas, na prática, o filme parece mais interessado em exibir os músicos se divertindo em boates de strip-tease com decoração satânica do que em realmente explorar o impacto de suas ações.

O filme se destaca por algumas decisões visuais interessantes, especialmente na forma como utiliza a cor para transmitir emoção. A paleta é marcada por tons intensos de vermelho, que aparecem com frequência e conferem à obra uma energia quase pulsante, refletindo tanto a paixão da banda quanto os momentos de tensão que permeiam a história. A câmera também entra no espírito da banda: rápida, inquieta e sempre correndo atrás da ação, como um amigo tentando acompanhar o ritmo de uma festa que já saiu do controle. Nos shows, ele praticamente dança junto com os músicos, captando cada salto, cada nota desafinada e cada fã que perdeu o equilíbrio de tanto pular. O resultado é que o espectador se sente parte do caos — quase como se estivesse tentando segurar um microfone enquanto a banda toca no meio da sala.

American Satan é como um prato que promete alta gastronomia, mas entrega uma mistura de ingredientes exóticos que ninguém pediu: uma pitada de pacto com o diabo, uma colher generosa de boates satânicas, uma fatia de violência exagerada e, para temperar, guitarras barulhentas e cabelo bagunçado. O resultado é estranho, meio indigesto, mas de algum jeito curioso o suficiente para você continuar provando até o final — rindo, suspirando e se perguntando se acabou de assistir a um drama, uma sátira ou uma receita de caos rock’n’roll mal temperada.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Primata - Esqueça o Jason: agora quem te persegue é um primata enfurecido

O Primata | Paramount Pictures


Uma estudante universitária e seus amigos se veem em uma luta por suas vidas quando um chimpanzé raivoso inicia um frenesi de violência.


O responsável pelas mortes não é um assassino mascarado nem uma assombração, como o filme inicialmente sugere, mas sim um chimpanzé infectado pelo vírus da raiva. Ao contrair a doença, o animal desenvolve hidrofobia e passa a apresentar um comportamento extremamente agressivo, atacando qualquer pessoa que esteja em seu caminho. Essa escolha narrativa é um ponto interessante, pois aposta em uma ameaça mais realista e perturbadora. Ao utilizar uma condição biológica como motor do horror, o filme provoca o espectador a refletir sobre os limites entre o instinto animal, a negligência humana e as consequências da interferência do homem na natureza. A proposta se destaca por trazer uma explicação plausível para a violência apresentada, o que torna a experiência mais tensa e inquietante.


Ao reunir um grupo de jovens em um local isolado, o filme constrói um cenário propício para o horror, explorando o confinamento e a sensação de vulnerabilidade dos personagens. O roteiro sabe dosar bem os momentos de calmaria e de ameaça, fazendo com que o perigo se aproxime de maneira gradual, o que aumenta o impacto dos acontecimentos. A narrativa também se beneficia de suas escolhas ao transformar elementos cotidianos em peças centrais da sobrevivência, mantendo o espectador atento e envolvido. Mesmo sem recorrer a explicações excessivas, a história se sustenta pela progressão dos conflitos e pela escalada ao caos, resultando em uma trama direta, tensa e eficiente dentro da proposta do filme.


O Vírus da raiva provoca a hidrofobia, que é o medo intenso da água, e isso afeta diretamente o comportamento do chimpanzé. Dominado por essa condição, o animal passa a evitar qualquer contato com a água, agindo de forma ainda mais agressiva diante do pânico que sente. Na casa onde os jovens estavam, a presença de uma piscina acaba se tornando um elemento crucial para a sobrevivência deles, funcionando como uma barreira natural contra a criatura. Esse detalhe é tratado de forma interessante pelo filme, pois transforma um espaço comum de lazer em um refúgio improvisado, carregado de tensão e desespero. Ao explorar o medo do animal e a fragilidade dos personagens, O Primata consegue gerar empatia e reforçar o clima de urgência, mostrando que o verdadeiro terror não está apenas na ameaça em si, mas na luta constante pela sobrevivência. Essa abordagem sensível dá mais profundidade à narrativa e aproxima o espectador do sofrimento e do medo vivido pelos personagens.


É importante estar preparado para uma experiência intensa, marcada por cenas fortes e profundamente impactantes. Ao longo da narrativa, o espectador se depara com momentos visual e emocionalmente carregados, que não apenas chamam a atenção, mas também provocam reflexões e reações significativas. As cenas de morte são cuidadosamente elaboradas do ponto de vista técnico e narrativo, demonstrando um alto nível de produção. A violência é apresentada de forma explícita, com um uso abundante de elementos sangrentos que buscam realismo, o que reforça a sensação de brutalidade e torna cada momento ainda mais impactante. Esse tratamento detalhado do gore contribui para uma atmosfera cruel e intensa, deixando claro que a obra não economiza nos excessos e aposta em uma abordagem direta, sem suavizar as consequências da violência.


O Primata se afirma como uma obra de horror, que vai além do susto fácil, apostando em uma ameaça biologicamente plausível para construir um terror mais incômodo e reflexivo. Ao substituir o sobrenatural por uma explicação científica, o filme reforça a sensação de realismo e aproxima o espectador de um medo mais concreto, ligado às consequências da negligência humana e à fragilidade diante da natureza. A narrativa direta, o uso inteligente do espaço e a escalada gradual da tensão garantem envolvimento constante, enquanto a violência gráfica intensifica o impacto emocional da experiência. Não se trata de um filme para todos os públicos, mas para aqueles que buscam um horror intenso e perturbador, a obra entrega uma experiência marcante, capaz de provocar desconforto e reflexão mesmo após o término da sessão.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Ponto Sem Retorno - Em qual ponto vamos chegar?

Ponto sem Retorno | Walt Disney Studios Ponto Sem Retorno acompanha Hig, um piloto que sobreviveu a uma pandemia global de gripe que dizimo...