terça-feira, 22 de setembro de 2026

O Sorveteiro - “IA” agora f*deu

O Sorveteiro | Diamond Filmes

Eli Roth é, sem sombra de dúvidas, um nome do subgênero trash, principalmente se levarmos em consideração o recorte do início dos anos 2000 até 2010, quando essas produções pipocaram nos cinemas. À frente de títulos como O Albergue (2005) e, mais recentemente, Feriado Sangrento (2023), o diretor nunca fugiu muito da proposta de tripas, sangue e um assassino, e em O Sorveteiro (2026) acompanhamos uma dinâmica bem semelhante, exceto por um detalhe.

Durante o verão na cidade praiana de Bayleen Bay, o local recebe a visita do excêntrico sorveteiro e seu carrinho de sorvete. Após consumirem o sorvete, as crianças da cidade passam a apresentar um comportamento violento e promovem um verdadeiro massacre contra os adultos. Vale destacar que trata-se de um remake do filme de noventa e cinco, mas isso não justifica muitas das escolhas feitas aqui, principalmente se partirmos do princípio de que ambos os filmes possuem propostas bem distintas. O longa de Eli Roth explora uma fórmula narrativa já gasta no terror, em especial no seu: uma figura estranha chega ou retorna a uma cidade onde estabelecerá o caos. Mas se a história não chama a atenção, o mesmo não se pode dizer da maneira com que a narrativa é desenvolvida, tornando ao menos divertido de acompanhar uma nova perspectiva da mesma história já contada mil vezes.

A direção de Roth conduz bem a narrativa, nos introduzindo ao cotidiano dos personagens e, pouco a pouco, criando o ambiente de tensão, principalmente após a aparição do sorveteiro. Assim, somos apresentados a Jared (Charlie Zelter), Lizzie (Sarah Abbott), Kiori (Mirza Waldman), Tommy (Shiloh O’Reilly) e, claro, o próprio Sorveteiro (Ari Millen); é principalmente em torno desses personagens que a narrativa vai se desenrolar. O longa utiliza-se de alguns recursos de IA, como, por exemplo, os balões animados que surgem nas visões que as crianças têm ao atacarem os adultos. Esse é um fator que tira muito do crédito do filme, uma vez que, para um filme de tamanho orçamento, poderiam facilmente ter recorrido a animadores para fazer esses balões animados.

Quanto aos aspectos técnicos, a direção de fotografia assinada por Simon Shohet é um dos pontos fortes do longa, em especial nas perseguições, onde o frenesi toma conta da tela e podemos sentir a angústia e ansiedade dos personagens. Já a direção de arte é assinada por Peter Mihaichuk e, por incrível que pareça, tratando-se desse gênero, é ao meu ver um dos pontos mais fracos do longa, uma vez que os efeitos são excessivamente plásticos e passam pouco ar de veracidade, tornando as mortes mais cômicas do que marcantes ou nojentas.

Já no tocante às atuações, nenhum dos atores tem grande destaque. Charlie Zelter é, sem dúvidas, quem mais se destaca, mas muito por conta do maior tempo de tela do que por qualquer singularidade. Porém, não é de se espantar que nenhum dos atores se destaque muito, já que o roteiro é extremamente raso e fica evidente que a maioria das crianças está ali para se tornar mini demônios, enquanto os adultos são apenas grandes sacos de carne à espera do abate. O sorveteiro passa praticamente despercebido; apesar de tentarem torná-lo uma figura misteriosa, o próprio praticamente não se mostra ameaçador, salvo raras exceções, principalmente quando ele está em seu carrinho de sorvete. Esse sim é macabro, principalmente o sorvete acima do teto do furgão, que parece seguir as crianças com o olhar.

Em linhas gerais, O Sorveteiro é um longa divertido, mas que comete pequenos “pecados”, sendo o maior deles o uso de IA, sua maquiagem e suas ideias recicladas. É impossível não se recordar do conto do Flautista de Hamelin, de A Hora do Pesadelo (1984) e até do recente A Hora do Mal (2025). Contudo, Eli Roth consegue condensar, em uma hora e vinte e seis minutos de filme, uma narrativa que prende o espectador. Porém, a certo ponto, a dinâmica de mortes torna-se repetitiva, em especial na sequência da escola, onde ocorre a maioria das mortes do longa. Por fim, a mitologia do filme parece beber muito das fontes já citadas, o que faz sentido na teoria, mas na prática o ato final do filme é deveras anticlimático, apesar de cumprir com o que o próprio filme estabelece, reforçando o fraco roteiro.

Autor:


Mateus José é graduando de Licenciatura em Cinema e Audiovisual pela UFF, escritor, poeta, montador e aspirante a diretor de fotografia. Apaixonado pelas artes, literatura, música e principalmente o cinema, dedica-se a consumir, estudar e dissecar as camadas mais profundas do cinema e da arte.

 

One Piece – O Grande Pirata do Ouro : 55 Minutos de Aventura e 5 de Jango

One Piece ; O Grande Pirata do Ouro | Paris Filmes

Em One Piece - O Filme, Luffy e sua tripulação partem em busca do lendário tesouro do pirata Woonan, enquanto enfrentam Eldorago, um pirata ambicioso que também persegue a fortuna.

O filme é uma “aventura filler”, ou seja, uma história que não é canônica no mangá, obra original de One Piece. Animes de longa duração costumam recorrer a episódios filler, criados principalmente para evitar que a adaptação alcance a história original, especialmente quando a série é exibida semanalmente. Esses episódios funcionam como um preenchimento, dando tempo para que o mangá avance antes que o anime continue sua adaptação. 

Sendo um filme, One Piece - O Filme acaba funcionando como uma espécie de episódio esticado — assim como o próprio protagonista, que tem o poder de se esticar. A trama é uma aventura independente e bastante direta. Luffy e sua tripulação descobrem a existência do lendário tesouro de Woonan, um pirata que teria acumulado uma quantidade gigantesca de ouro durante sua vida. A localização desse tesouro serve como ponto de partida para a aventura, enquanto o mapa que leva até ele desperta o interesse de diferentes piratas. A premissa estabelece um paralelo interessante com a própria busca pelo One Piece, já que ambas as histórias partem da ideia de algo valioso escondido que motiva uma jornada pelo mar. Entre os interessados está Eldorado, principal antagonista do longa, um pirata movido pela ganância que parte em busca do tesouro acompanhado de sua tripulação. 

A partir daí, o filme estrutura seu conflito como uma tradicional caça ao tesouro, colocando os Chapéus de Palha e os piratas de Eldorado em uma disputa para descobrir quem chegará primeiro à fortuna de Woonan. O filme entende que seu objetivo é proporcionar uma aventura rápida aos Chapéus de Palha, sem interferir na história principal da obra. O problema é que essa mesma simplicidade também faz com que o conflito pareça pouco significativo. Eldorago é um antagonista bastante convencional, movido principalmente pela ganância, e a disputa pelo tesouro não apresenta grandes surpresas.

Antes do filme, é exibido o curta-metragem Carnaval de Dança de Jango (2001), com cinco minutos e trinta segundos de duração. Ele foi originalmente lançado junto ao segundo longa-metragem de One Piece, Clockwork Island Adventure (2001). É possível que a escolha tenha ocorrido porque o filme possui apenas 55 minutos, fazendo com que, com a inclusão do curta, a duração total totalizasse exatamente uma hora. No entanto, colocar essa produção antes do longa deixa a ordem dos acontecimentos confusa, já que, no curta, Sanji já faz parte da tripulação, enquanto o filme se passa antes de sua entrada nos Chapéus de Palha. Essa inversão temporal pode causar estranhamento, especialmente para espectadores que acompanham a série e reconhecem a importância da ordem dos acontecimentos para a construção da narrativa. A trama acompanha Luffy e seus companheiros chegando à ilha Bola de Espelhos, se encontrando com o Jango, um dos vilões que eles enfrentam no arco Syrup Village. Embora funcione como uma produção independente e essencialmente cômica, sua posição antes do longa acaba interferindo na coerência cronológica da sessão.

O longa-animado foi feito com tinta e pintura tradicionais, o visual é diferente da série lançada em 1999 que está até hoje em exibição, tendo uma aparência dos animes produzidos no final da década de 1990, marcada por linhas firmes e expressivas, contornos bem definidos e uma composição visual que valoriza a sensação de movimento. O uso de cores chapadas e contrastantes, acompanhado por sombras desenhadas de forma direta e sem excesso de gradações, confere ao filme uma aparência gráfica forte e, ao mesmo tempo, preserva a sensação de animação desenhada à mão. O estilo se destaca justamente por não depender de um acabamento excessivamente polido. Pequenas irregularidades nos contornos, a textura da imagem e a aplicação manual das cores ajudam a conferir personalidade ao quadro. O resultado é uma estética dinâmica e expressiva, na qual a imperfeição do processo tradicional se transforma em parte de sua identidade visual. 

One Piece - O Filme funciona como uma experiência mais simples e independente dentro do universo da obra, apostando em uma aventura de caça ao tesouro que reproduz, em menor escala, alguns dos elementos centrais de One Piece. Embora sua narrativa seja pouco complexa e seu antagonista siga uma fórmula bastante convencional, o longa consegue compensar parte dessas limitações por meio de seu ritmo direto, do caráter descontraído da aventura e, principalmente, de sua identidade visual. 

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

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