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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ponto Sem Retorno - Em qual ponto vamos chegar?

Ponto sem Retorno | Walt Disney Studios


Ponto Sem Retorno acompanha Hig, um piloto que sobreviveu a uma pandemia global de gripe que dizimou a humanidade, que vive em um hangar no Colorado com seu cachorro e um ex-fuzileiro, sua rotina muda ao captar uma misteriosa transmissão de rádio. O longa constrói sua narrativa a partir de uma proposta mais intimista e reflexiva, utilizando a trajetória de seus personagens para desenvolver uma mensagem clara sobre as escolhas e consequências que surgem ao longo da vida. O longa não parece interessado em esconder aquilo que deseja transmitir ao público, apresentando sua reflexão de maneira direta e deixando que os acontecimentos funcionem como parte dessa construção. Mesmo quando a história assume caminhos mais dramáticos, existe uma preocupação em tornar sua mensagem acessível, sem depender de interpretações excessivamente complexas para que o espectador compreenda sua proposta.

A narrativa se desenvolve lentamente e tenta, em diversos momentos, criar uma sensação de tensão diante dos acontecimentos, mas nem sempre consegue fazer com que essa expectativa tenha o impacto necessário. Existem situações que parecem preparar o terreno para algo mais intenso, porém acabam se resolvendo de maneira morna ou sem a força que o desenvolvimento sugeria. 

O desenvolvimento do romance também é uma das escolhas que pode dividir opiniões. Desde o primeiro encontro entre os personagens, a relação transmite uma sensação de algo forçado, como se o roteiro precisasse estabelecer aquele vínculo antes que a conexão realmente acontecesse de maneira natural.

Ainda assim, Ponto Sem Retorno consegue encontrar maneiras de tornar sua experiência mais leve, os momentos cômicos surgem de forma sutil e pontual, sem quebrar completamente o tom da narrativa, funcionando como pequenas pausas em meio às situações mais sérias. Esse humor não domina a trama, mas ajuda a criar uma dinâmica mais agradável entre os personagens e impede que o filme se torne excessivamente pesado. São justamente esses pequenos momentos que contribuem para trazer mais humanidade à história. 

Outro acerto está, justamente, no desenvolvimento dos personagens. Cada um possui um passado que, aos poucos, encontra espaço dentro da narrativa e se encaixa nos acontecimentos principais. O filme consegue fazer com que suas histórias anteriores não sejam apenas informações jogadas para justificar comportamentos, mas elementos que ajudam a compreender suas decisões e a maneira como se relacionam uns com os outros.

Ponto Sem Retorno (2026) possui uma mensagem reflexiva bem definida e encontra seus melhores momentos no desenvolvimento de personagens que carregam histórias e experiências capazes de contribuir para a narrativa principal. O longa possui qualidades suficientes para sustentar sua proposta e deixa uma reflexão clara sobre os caminhos escolhidos e as consequências que surgem quando já não existe mais volta.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Saudade, lirismo e pós colonialismo em Nosso Segredo (2026)

 

Nosso Segredo (2026) | Vitrine Filmes

Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Es kaminhu pa Santumé
Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau
Sodade, sodade

Sodade des nha térra Saniklau       (Sodade - Cesária Évora, composição: Amandio Cabral).

Durante a ausência, alguém mostra sua marca. Um espectro, conjecturado pelo inconsciente saudoso para suprir sua falta no mundo. Dizem que o mundos pertencem aos vivos, e não aos mortos; mas se os vivos quiserem, podem conjurar suas imagens para assombrá-los. Em Nosso Segredo (2026), longa-metragem de Grace Passô na direção, há um duplo fantasma: aquele que vive na memória e outro que se manifesta na inscrição de um ser no mundo. Passô, atriz e dramaturga celebrada, já vem desenvolvendo um belo trabalho sobre protagonismo feminino e a ausência do masculino em seu corpus teatral, dentre os quais vem a peça que inspira o filme (a qual não li, portanto irei me basear somente na adaptação fílmica aqui) e Mata teu pai (que já li e vi nos palcos). 

Ambas as obras apresentam uma matriarca lidando com as forças do mundo ao redor e pela falta do amor que lhe foi tirada. Em Segredo, Suely (Ju Colombo) lida com a morte misteriosa e repentina de seu marido, que acaba mudando a dinâmica de sua família; já em Mata, Medeia é abandonada por Jasão, buscando conforto nas mulheres de sua vizinha e nas filhas, com quem tem uma relação ambivalente ao longo da peça. O que Passô transmite com essas obras não é a importância de um homem, mas a ausência do amor, um sentimento considerado universal e, por sua vez, lhe é negado as suas personagens. No caso do longa em questão, não é que o amor morreu, mas empalideceu-se diante das circunstâncias, tornando-se um elo muito frágil a ser rompido a qualquer momento. Mas, ao contrário de Mata, Passô não concentra a ação em uma única personagens, trabalhando em um pequeno ecossistema orgânico que desenvolve ao logo da trama. A dor, a sua maneira, é compartilhada. Por enquanto,  voltemos ao argumento da obra: 

Em Belo Horizonte, uma família negra tenta lidar com a morte repentina de seu patriarca, um homem branco: mãe, Suely, sofre com a solidão; o filho mais velho, Gilson (Robert Frank), trabalha como motorista de aplicativo e torna-se viciado na rotina, renunciando ao sono; a filha, Grazi (Jéssica Gaspar), lida com uma depressão em segredo do namorado, Sidney (Juan Queiroz); o filho do meio, Guto (Flip), torna-se cada mais afastado da família; já o caçula da família, Tutu (Efraim Santos), tenta levar uma rotina doméstica durante esse período e ele é a única pessoa do seio familiar que conhece o segredo que levou à tragédia, o qual ele guarda com garra e força. 

A composição dos quadros, em tons azulados, em planos fechados, em closes e detalhes, a presença de coisas não ditas nos diálogos, constroem um clima ora de proximidade, ora claustrofóbico e mistério que flerta com o universo dos gêneros de suspense e do terror... Até certo ponto, muitos podem considerá-la como um "terror elevado" brasileiro, porém seria reducionista com a obra ao tacha-la nesse âmbito, já que a ficção latino-americana (ou seria nesse caso amefricana, se pensarmos em Lélia Gonzalez?) tem um farto histórico com o realismo fantástico, algo que está bem na alçada do filme. Algo fora do alcance do possível, de grandes transformações. O mistério sobre o que paira e o modo que e desenrolado é o que move a trama; mas Passô tem tempo para descrever o humano dentro de sua narrativa, mesmo que não se prenda a aspectos psicológicos e densos. O importante à obra é a transmissão da sensibilidade do público aos seus personagens, utilizando de uma construção de personagem coletiva vívida e plural, e que cause uma identificação com uma certa realidade brasileira: molhar e pôr a palavra para fora. Irromper com as amarras da dor, fortalecer o laço. 

A diretora não faz, em si, um filme político, ou de uma safra que se diz político que se generalizou na última década por uma sensação de urgência diante a situação política e social do país e produziu uma série de filmes didáticos e/ou superficiais sobre várias vertentes e gêneros (recomendo a leitura do ensaio de Hermano Callou sobre essa questão no cinema brasileiro), mas toca em elementos sociais e raciais pela tensão e pela fantasia. As tensões aumentam quando Tutu tenta avisar, de forma desajustada, e impedir que a namorada branca, Lêda (Glaúcia Vanderveld), de sua tia lésbica, Anamélia (Marisa Revert), que também vive na casa junto ao restante da família, de entrar na sua casa. Em outro momento, as mulheres conversam sobre essa questão, no qual Anamélia responde que há algo na casa, vindo de longe, que não deseja que a mulher entre dentro daquele universo. 

O filme de Passô me faz lembrar de um filme que assisti ano passado: O Riso e a Faca (2025), de Pedro Pinho (o qual já escrevi no blog na ocasião), que tem uma situação parecida. No longa de Pinho, o personagem Sérgio, um engenheiro português branco em Guiné-Bissau, vai até a casa de Cléo, uma mulher negra que conhece na sua viagem, sem ser avisado e esperando ser convidado a entrar. O embaraço começa. Claramente, Cleo não o espera, mas não deseja ser indelicada com o rapaz; ela o deixa entrar e serve um chá, mas a conversa entre os dois é fria e distante e, logo, consegue "expulsá-lo" de casa. Por mais que a situação no filme de Passô seja mediada pelo fantástico, há uma abordagem que dialoga entre as duas obras e que sintetizam o embraço do passado colonial na era do pós-colonialismo. A presença de um corpo alheio, estranho, que quer se fazer presente dentro de um espaço que não lhe pertence. A força pela insistência carrega, nestes contextos, em si, um certo pensamento que remonta a época de invasão e de escravização de pessoas africanas pelo império português. Algo que possa provocar um descompasso dentro da ordem das coisas.

Portanto, se voltarmos ao início do texto, nós temos dois espectros em jogo dentro da narrativa: um da memória e do afeto familiar; outro do colonialismo e de seus traumas que atravessam os séculos. Nosso Segredo não é urgente ou político, mas contemplativo e lírico, com um toque sobrenatural, que penetra no mundano. Convida seu público a participar e descobrir seu universo particular. Um afago no peito, uma verdade não dita, um olhar para o abismo, a descoberta de uma herança, uma história sobre identidade e de pertencimento ao mundo dos vivos: cheio de dores e encantos cotidianos. Viver um dia de cada vez. Lidar com a saudade, palavra mística da língua portuguesa, indeclinável e intraduzível; que ainda persegue no período pós-colonial.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

Coyote vs. Acme — Depois de décadas apanhando, o Coyote finalmente cobra a conta

Coyote vs Acme | WarnerBros. Pictures


Após os produtos da Acme falharem muitas vezes em sua perseguição incansável ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide contratar um advogado de porta de cadeia para processar a Acme Corporation. 

Esse é o quarto filme dos Looney Tunes a combinar live action com animação, após Space Jam: O Jogo do Século (1996), Looney Tunes: De Volta à Ação (2003) e Space Jam: Um Novo Legado (2021). Diferentemente das produções anteriores, que tinham o Pernalonga como protagonista, o filme coloca o Coyote no centro da história. Embora tenha conquistado notoriedade em seus curtas clássicos, o personagem sempre ocupou uma posição menos central na marca global dos Looney Tunes em comparação ao Pernalonga, principal mascote do estúdio. Sua participação esteve, na maior parte das vezes, limitada à perseguição ao Papa-Léguas e, fora dessa dinâmica, raramente assumia um papel de destaque no universo dos personagens.

Enquanto o Pernalonga se envolve com diferentes personagens e enfrenta situações com criatividade, inteligência e sarcasmo, o Coyote costuma ser mais reservado, concentrando-se em seus próprios fracassos e nas engenhocas da Acme. Essa característica fez com que ele permanecesse, por muito tempo, em uma posição mais secundária dentro da franquia.

Essa mudança representa uma escolha interessante, pois permite aprofundar uma das relações mais características do personagem: sua dependência das invenções da Acme. Ao transformar seus fracassos recorrentes em motivo para enfrentar a empresa judicialmente, o filme ressignifica uma dinâmica tradicional dos curtas e encontra nela o conflito necessário para desenvolver sua história.

Neste filme, porém, essa dinâmica ganha um novo significado. Após anos utilizando os produtos da Acme em suas tentativas frustradas de capturar o Papa-Léguas, o Coyote decide processar a empresa, alegando que suas invenções foram responsáveis por tantos de seus fracassos. A ideia transforma uma característica que antes servia apenas como fonte de humor em um conflito que conduz a narrativa. Seus fracassos deixam de ser somente uma sequência de situações cômicas e passam a funcionar como o ponto de partida para uma história própria.

O longa preserva o humor e a estética dos Looney Tunes, trazendo de volta seus personagens clássicos e suas tradicionais cenas de ação exageradas. A animação mantém a violência cartunesca característica, com o Coyote sendo explodido, atropelado e arremessado, enquanto outros personagens enfrentam situações igualmente absurdas. Dessa forma, o filme não abandona os elementos que tornaram o personagem conhecido, mas procura incorporá-los a uma narrativa diferente.

A produção combina atores reais com personagens animados, inserindo ambos em um mesmo universo. Os personagens de animação contracenam com pessoas, objetos e ambientes reais, criando cenas de humor físico marcadas pelo exagero e pela linguagem visual característica dos desenhos. Os personagens apresentam uma aparência tridimensional, mas recebem uma camada adicional de sombreamento e pintura digital que busca reproduzir o visual característico dos clássicos curtas de animação. Esse tratamento ajuda a integrar os personagens ao universo do longa, preservando suas formas, cores e expressões tradicionais, enquanto adapta sua estética para uma produção contemporânea.

No fim, a principal força de Coyote vs Acme está na maneira como o filme consegue expandir uma dinâmica simples dos desenhos clássicos sem abandonar sua essência. Além disso, a combinação entre live action e animação, aliada à violência cartunesca, ao humor físico e ao cuidado visual com os personagens, preserva a identidade dos Looney Tunes sem impedir que a produção apresente uma proposta diferente. Dessa forma, a obra mostra que personagens tradicionalmente secundários também podem sustentar histórias próprias, desde que suas características mais conhecidas sejam reinterpretadas de maneira criativa.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Última Casa - Confinados e sobreviventes

A Última Casa | Netflix


A Última Casa, produção da Netflix, parte de uma premissa que rapidamente estabelece uma situação de desespero para uma família que precisa encontrar segurança dentro de uma casa enquanto uma ameaça desconhecida permanece do lado de fora. O início é um dos momentos mais eficientes do longa justamente por transmitir a sensação de urgência e vulnerabilidade dos personagens, fazendo com que o espectador queira descobrir o que está acontecendo e quais são os perigos que os cercam. Porém, depois desse primeiro impacto, a narrativa diminui consideravelmente seu ritmo e passa a investir mais na espera do que propriamente na construção de acontecimentos capazes de manter a tensão.

Apesar disso, existe uma ideia interessante na maneira como o filme acompanha a família se adaptando à nova realidade dentro da casa. Aos poucos, aquele espaço deixa de ser apenas um refúgio e passa a fazer parte da própria dinâmica dos personagens, criando uma espécie de rotina em meio ao isolamento. Essa escolha permite explorar como diferentes pessoas reagem quando precisam permanecer confinadas em um mesmo ambiente, enquanto o suspense sobre aquilo que realmente representa uma ameaça continua presente. A dúvida sobre o que existe do lado de fora consegue gerar alguns bons momentos de tensão, principalmente quando o filme opta por esconder mais informações do que revelar. 

O problema é que essa construção acaba se prolongando mais do que deveria. Depois do desespero apresentado inicialmente, o longa encontra dificuldades para manter o mesmo nível de urgência e, em determinados momentos, torna-se lento e até um pouco maçante. A sensação de espera funciona durante parte da narrativa, mas perde força quando o espectador percebe que poucas coisas estão avançando. O suspense depende diretamente da expectativa por uma resposta, e o longa nem sempre consegue transformar essa espera em tensão, fazendo com que alguns momentos pareçam apenas uma extensão do tempo necessário para chegar ao próximo acontecimento.

Wagner Moura e Greta Lee são fundamentais para sustentar essa parte mais contemplativa da história, ambos conseguem transmitir a preocupação e o desgaste emocional de seus personagens, principalmente através de expressões e pequenas mudanças de comportamento, evitando que o drama familiar dependa apenas dos diálogos. Existe uma vulnerabilidade perceptível nas interpretações que ajuda a tornar a situação mais humana e faz com que o espectador compreenda o peso psicológico daquele confinamento.

A Última Casa (2026) possui uma premissa interessante e encontra seus melhores momentos justamente quando explora o medo do desconhecido e a adaptação de uma família a uma situação completamente fora de seu controle. Porém, o ritmo irregular prejudica a experiência, especialmente após um início bastante desesperador, e o encerramento poderia ter sido muito mais impactante. No fim, é um filme que apresenta boas ideias e consegue construir alguns momentos de tensão, mas deixa a sensação de que seu potencial acabou sendo maior do que aquilo que chegou efetivamente às telas. 


Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Saccharine (Insaciável) - Estamos presos dentro dos padrões da sociedade

Insaciável | Diamond Films


Saccharine, também intitulado Insaciável (2026), utiliza o terror corporal para abordar questões extremamente atuais relacionadas à aceitação, à pressão estética e à relação cada vez mais problemática da sociedade com o próprio corpo. A narrativa acompanha Hana, uma protagonista consumida pela insatisfação com sua aparência e pelas consequências de suas escolhas, enquanto o desejo de transformação física passa a assumir proporções cada vez mais perturbadoras. O longa consegue utilizar o horror não apenas como ferramenta de choque, mas como uma maneira de representar sentimentos como compulsão, insegurança e desespero, tornando seus temas ainda mais desconfortáveis para o espectador.

Um dos grandes méritos do filme está justamente na maneira como aborda assuntos necessários, como o uso de medicamentos para emagrecimento, a compulsividade alimentar e a dificuldade de aceitar o próprio corpo. O filme não trata essas questões de maneira superficial, utilizando o exagero característico do terror para levar determinadas situações até consequências extremas. Existe uma crítica evidente à pressão para alcançar um padrão estético e à ideia de que qualquer método pode ser válido quando o objetivo é modificar o próprio corpo. 

O horror surge, portanto, de algo que não parece tão distante da realidade, tornando algumas situações ainda mais incômodas. Constrói um terror perturbador e sufocante, utilizando o desconforto físico como uma extensão do psicológico. A sensação de repulsa não está presente apenas nas imagens mais grotescas, mas também na maneira como o filme acompanha a deterioração da protagonista. O espectador é colocado diante de situações que provocam incômodo justamente porque existe uma proximidade entre aquilo que estamos vendo e problemas que fazem parte da realidade. É um horror que não depende exclusivamente de sustos, mas da capacidade de fazer o público permanecer desconfortável mesmo quando nada explicitamente assustador está acontecendo.

Hana também funciona muito bem como centro dessa construção, suas decisões desesperadas são fundamentais para que o horror avance, porque conseguimos compreender de onde vem cada escolha mesmo quando sabemos que ela está caminhando para consequências cada vez piores. O filme consegue criar uma relação interessante entre empatia e apreensão: queremos que Hana encontre uma saída, mas ao mesmo tempo ficamos constantemente apreensivos com aquilo que ela será capaz de fazer para alcançar seus objetivos. Quanto mais desesperada ela fica, mais perturbadora se torna a própria narrativa, fazendo com que suas escolhas sejam responsáveis por grande parte da tensão.

Para quem gostou de A Substância, Saccharine (Insaciável) provavelmente será uma experiência bastante interessante. Os dois filmes compartilham uma preocupação em utilizar o horror corporal para discutir a relação com a aparência, a pressão estética e os limites que alguém pode ultrapassar na busca por uma versão considerada “melhor” de si mesmo.

A produção é um terror que incomoda justamente porque seus temas possuem uma conexão muito próxima com a realidade, o filme transforma inseguranças cotidianas em uma experiência perturbadora. É um filme que utiliza o grotesco para provocar reflexão e, para quem já se entregou ao horror de A Substância, certamente merece uma chance.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Honestino (2026) - Juntos na luta pela educação e democracia

Honestino | Pandora Filmes

Honestino (2026), dirigido por Aurélio Michiles, resgata a trajetória de Honestino Guimarães, ex-presidente da UNE e um dos principais líderes do movimento estudantil brasileiro durante a ditadura militar, estudante da UnB e importante voz da geração de 1968, preso cinco vezes e sequestrado em 1973 aos 26 anos. Ao apresentar sua trajetória política e pessoal, o filme busca humanizar uma figura frequentemente lembrada apenas pelos acontecimentos que marcaram seu desaparecimento, evidenciando seus ideais, conflitos e relações ao longo desse período turbulento da história do Brasil.

A direção de Aurélio Michiles demonstra sensibilidade ao equilibrar momentos de forte carga dramática com uma narrativa de ritmo constante, evitando transformar a obra em uma sucessão de acontecimentos históricos. O diretor aposta em uma linguagem intimista, permitindo que os personagens conduzam a narrativa por meio de seus depoimentos enquanto os cortes gravados por atores ilustram os momentos citados. A montagem, principalmente, favorece o desenvolvimento da narrativa ao organizar os acontecimentos de forma clara, permitindo que o espectador acompanhe a evolução política de Honestino sem comprometer o entendimento da cronologia, já a trilha sonora é utilizada de maneira mais  pontual, reforçando a tensão dos momentos mais dramáticos sem competir com as emoções transmitidas pelos personagens.

Bruno Gagliasso assume a responsabilidade de interpretar Honestino Guimarães de maneira contida e respeitosa, sua atuação transmite convicção nos momentos de maior tensão política, ao mesmo tempo em que evidencia a humanidade de Honestino por meio de pequenos gestos e expressões, tornando mais palpáveis seus medos, convicções e sacrifícios. A escolha de intercalar essas cenas dramatizadas com registros de arquivo, cartas, poemas e depoimentos de figuras que conviveram ou estudaram o período reforça a autenticidade da narrativa. Em vez de competir com o material documental, a interpretação de Gagliasso funciona como um elo entre a ficção e a memória histórica, contribuindo para aproximar o espectador de uma figura conhecida nos livros de História.

Entretanto, o ritmo mais contemplativo pode causar a sensação de lentidão para parte do público e possivelmente anticlimático, especialmente nos trechos em que o longa dedica mais tempo às discussões políticas do que aos conflitos do protagonista. Ainda assim, essas escolhas não comprometem a proposta da obra, que permanece coerente com sua intenção de preservar a memória de Honestino Guimarães e do período retratado. 

Honestino (2026) se destaca pela qualidade de sua reconstrução histórica e pelo cuidado técnico empregado em todos os aspectos da produção. Mesmo apresentando um ritmo mais contido, o longa cumpre seu papel ao provocar reflexão sobre um período marcante da história brasileira e reafirmar a importância da preservação da memória e da democracia. 

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.


Evil Dead Burn (2026) - O inimigo está mais próximo do que você imagina

Evil Dead Burn | Warner Bros. Pictures

O longa marca um novo capítulo para uma das franquias mais icônicas do terror ao preservar os elementos clássicos da saga enquanto busca estabelecer uma identidade própria. A narrativa acompanha uma família de luto que, ao se depararem com uma força sobrenatural em busca de um objeto em sua casa, acabam desencadeando uma nova onda de possessões e violência extrema. Diferentemente de outros filmes da franquia, o roteiro dedica mais tempo à construção dos acontecimentos que antecedem a chegada do mal, oferecendo uma justificativa mais consistente para o despertar da entidade demoníaca. Essa abordagem torna a ameaça mais orgânica dentro da narrativa e faz com que os eventos não pareçam apenas uma repetição da tradicional fórmula do Necronomicon, também conhecido como o Livro dos Mortos.

Embora preservem a crueldade e o sadismo característicos da franquia, seus comportamentos apresentam diferenças em relação aos filmes anteriores, explorando novas formas de manipulação psicológica e violência. Essa mudança impede que o filme se torne previsível e cria uma sensação constante de incerteza, já que o espectador nunca sabe exatamente quais serão os limites das criaturas. Em vez de apenas reproduzir cenas conhecidas pelos fãs da saga, Evil Dead Burn procura reinventar parte de sua mitologia sem abandonar sua essência.

Os personagens também contribuem para que a tensão permaneça elevada durante toda a projeção. Cada integrante da família possui características próprias e personalidades bem definidas, fazendo com que suas decisões pareçam naturais, mesmo quando questionáveis. Essa construção torna as consequências de cada decisão mais impactantes e fortalece o envolvimento emocional com a história, algo essencial para um filme que depende tanto da tensão constante.

A maneira de utilização da câmera deste filme é de longe um dos pontos mais altos da produção! Há uma evidente preocupação em utilizar a câmera como parte da narrativa, fazendo com que cada perseguição e cada aparição demoníaca ganhem ainda mais intensidade. Essa escolha potencializa os sustos e reforça a identidade visual do longa, tornando a experiência mais imersiva.

Evil Dead Burn (2026) consegue respeitar o legado da franquia enquanto introduz ideias suficientes para justificar sua existência entre os demais filmes da série. Ao apostar em uma explicação mais elaborada para a origem dos acontecimentos, apresentar demônios com comportamentos inéditos, desenvolver personagens capazes de manter o espectador constantemente apreensivo e investir em uma direção de câmera extremamente eficiente, o longa entrega uma experiência intensa para fãs de terror. Mesmo sem reinventar completamente a fórmula de Evil Dead, o filme demonstra que ainda há espaço para explorar novos caminhos dentro desse universo sem perder a brutalidade e a identidade que transformaram a franquia em um dos maiores nomes do gênero.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.


Na Boca do Diabo - Na torcida pelo tubarão

Na Boca do Diabo | Amazon Prime Video


Na Boca do Diabo (2026), produção do Prime Video, parte de uma premissa simples e bastante conhecida dentro do cinema de sobrevivência: um grupo de personagens precisa enfrentar a ameaça de um tubarão enquanto tenta encontrar uma maneira de escapar com vida. O problema é que, apesar de possuir uma proposta que poderia render uma experiência de tensão constante, o longa acaba encontrando dificuldades justamente na construção daqueles que deveriam sustentar a narrativa. Os personagens são excessivamente caricatos, com personalidades exageradas e decisões que muitas vezes parecem existir apenas para movimentar a história. As discussões entre eles também seguem esse caminho, apresentando conflitos pouco convincentes e diálogos que acabam retirando parte da seriedade dos momentos em que o público deveria estar apreensivo.

Essa caracterização exagerada faz com que o espectador tenha dificuldade para criar qualquer vínculo com os personagens, exceto Sara, interpretada por Kathryn Newton que consegue conquistar o público com seu carisma. Porém, em determinados momentos, as escolhas tomadas são tão questionáveis que o perigo deixa de estar relacionado apenas ao tubarão e passa a ser consequência direta das próprias atitudes do grupo. O resultado é curioso: em vez de torcer pela sobrevivência dos personagens, chega um ponto em que o espectador começa a torcer pelo próprio tubarão.

O maior déficit está na maneira como o filme trabalha sua tensão, a produção depende diretamente da sensação de perigo e da expectativa sobre quando e como o ataque irá acontecer, mas Na Boca do Diabo nem sempre consegue sustentar esse sentimento. Depois de estabelecer sua premissa, o longa começa a se tornar maçante, repetindo situações e conflitos que não conseguem aumentar significativamente a sensação de ameaça. A espera pelos próximos acontecimentos deixa de ser angustiante e passa a ser previsível, fazendo com que alguns momentos que deveriam provocar tensão acabem tendo pouco impacto. Ainda assim, a presença do tubarão consegue proporcionar alguns momentos interessantes dentro da proposta do filme, a criatura funciona melhor quando a direção permite que sua presença seja construída através da expectativa, utilizando o ambiente e a limitação de espaço para transmitir a sensação de vulnerabilidade dos personagens. O problema é que esses momentos não são suficientes para compensar um roteiro que frequentemente depende de decisões pouco inteligentes e conflitos artificiais para prolongar a narrativa.

Na Boca do Diabo possui uma premissa capaz de entregar um bom filme de sobrevivência, mas acaba prejudicado pela caracterização caricata de seus personagens, por conflitos pouco convincentes e principalmente por uma dificuldade em manter a tensão durante toda a produção. Apesar de apresentar alguns momentos divertidos e sequências capazes de funcionar dentro da proposta, o longa se torna cansativo ao repetir sua fórmula e não consegue transformar seu potencial em uma experiência realmente angustiante.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.


Carne, Fluídos e Frango Frito no Acampamento Miasma (2026)


Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026) | MUBI, Retrato Filmes

"porque uma mulher boa/ é uma mulher limpa/e se ela é uma mulher limpa/ ela é uma mulher boa/ há milhões, milhões de anos/ pôs-se sobre duas patas/ a mulher era braba e suja/ braba e suja e ladrava/ porque uma mulher braba/ não é  uma mulher boa/ e uma mulher boa/ é uma mulher limpa" 

(Freitas, Angélica. uma mulher limpa, 2017, p.11) 

Em Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026), terceiro longa-metragem de Jane Schoenbrun, a diretora usa dos elementos do universo slasher como metáfora para o despertar da sexualidade queer e/ou tardia. No universo inspirado em filmes como Sexta-Feira 13 (1980 - 2009) e Sleepway Camp (1983 - 2008), Camp Miasma foi uma franquia bastante lucrativa durante os anos 80 que foi a precursora de filmes slasher cuja premissa tinha a figura de "Little Death" (Jack Heaven) que persegue monitores adolescentes, safados e cheios de hormônios, no acampamento que dá nome aos filmes.  Aqui, Shoenbrun (re)cria a atmosfera desse gênero do horror e conjuga, como parte integral à trama, a questão queer e com a presença da monstruosidade em cenário cis e heterossexual: Little Death não corresponde às normas de gênero, ficando à parte da sociedade, e, portanto, uma vítima desta. 

Sexo, sexualidade e identidade de gênero parecem estar intrinsecamente interligadas na concepção do universo de Shoenbrun: miasma, que parece com asma, mas não é um sinônimo, tem como origem a palavra grega μιάσμα, uma mancha, sujeira; que, expandido seu sentido ao contexto da obra, torna-se um equivalente a algo vergonhoso, ruim e contra a ordem moral do mundo. Como diria a poeta Angélica Freitas em seu livro "o útero é do tamanho do punho", a sujeira da aparência, neste caso do gozo, do sexo, é um traço de feiura, de descarte, de subalterna. 

Esse é o lugar em que Kris (Hannah Einbinder) se encontra: ela, uma diretora premiada em festivais e fã da franquia, é recrutada para reestruturar uma nova série de filmes para os estúdios detentores dos direitos. Para isso, ela viaja até a fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá para se encontrar com Billy Preston (Gillian Anderson), protagonista da franquia, no set do primeiro filme da franquia. Porém, Kris se encontra em um entre-lugar dentro da sua psique: existe uma fascinação, puramente sexual e artística, com Billy; porém ainda ela não consegue dar o próximo passo, algo que a puxa para dentro de suas próprias inseguranças, que a fazem a parecer infantilizada ao algo de Preston... Um monstro que precisa ser despertado e manifestado. Algo que somente "Little Death" pode dar um empurrãozinho ou coisa pior...

Schoenbrun elenca os temas principais do gênero ("flesh and fluids") e os desenvolve ao longo de sua narrativa que combina o onírico e o metafórico que, por vezes didático ou "too much on the nose" do público mais esperto, impulsiona a condução narrativa do filme. O trabalho da diretora é sedutor em vários momentos, usando da química mortal entre Einbinder e Anderson, e divertido em outros (por mais que o uso de CGI não me convenceu muito bem em algumas sequências). A obra acaba usufruindo demais de seu universo e de piadas internas do gênero, mas a intenção de emular um gênero é diferente do que criar um diferente naquele gênero cinematográfico em especifico e isso é uma noção que ela sabe bem. É um "slasher" dentro de um slasher. Talvez quando o filme acaba se tornado autoconsciente ao público de sua própria natureza, não me incomoda, mas seu charme queer diminui um pouco, no entanto, quando ele abraça sua forma e trama como um experimento e não só uma simples-narrativa-meta-sobre-um-gênero-cinematográfico, o resultado é muito interessante.

Gosto do trabalho da realizadora, que também fez I Saw The TV Glow (2024), e como ela trabalha com a noção de identidade e da perda de subjetividade, de aproximar o olhar periférico, quase passivo, e se colocar na pele, neste caso nos olhos, do subjugado pela sociedade. É evidente que há um tema a ser desenvolvido por Schoenbrun ao longo de sua carreira como uma "autora" de gênero e de que estamos vivendo um filme de terror particular no nosso dia-a-dia. Gozar é morrer, e vice-versa. A realidade é uma ficção que nós mesmos inventamos  Depois disso, a vida continua, mas "Little Death" sempre estará no fundo do lago, pronto para ressurgir uma nova vez.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Homem-Aranha: Um Novo Dia - O peso de ser herói nunca foi tão grande para Peter Parker

Homem Aranha: Um Novo Dia | Sony Pictures 


Peter vive completamente sozinho, tendo apagado sua existência da memória de quem ama. Enquanto protege uma Nova York que já não conhece seu nome, dedica-se integralmente a ser o Homem-Aranha. Mas a pressão constante desencadeia uma misteriosa evolução física que ameaça sua própria existência, ao mesmo tempo em que uma onda de crimes revela uma das ameaças mais poderosas que ele já enfrentou.

O início do filme apresenta Peter Parker como Homem-Aranha combatendo o crime, mostrando que ele já vive essa nova realidade há bastante tempo e que já conhece até mesmo o Justiceiro. É como se o espectador abrisse um quadrinho no meio de uma história já em andamento, sem acompanhar a origem do herói. Essa escolha dá uma sensação de que essa nova fase do protagonista já existia antes do início do filme, em vez de ser apresentada junto ao público.

A trama mostra como Peter se sente sozinho após todos terem se esquecido dele. Sua vida passa a se resumir ao combate ao crime em Nova York. Ele perdeu seu melhor amigo, Ned Leeds, e sua namorada MJ, e não tem coragem de tentar reconstruir a relação que tinha com eles, pois teme colocá-los em perigo novamente. Embora suas intenções sejam altruístas, essa decisão representa um sacrifício de sua própria felicidade, o que lhe impõe um alto custo emocional.

A relação entre o Homem-Aranha e o Justiceiro rende momentos cômicos pelo contraste entre suas personalidades. Enquanto o Homem-Aranha evita matar seus inimigos, o Justiceiro recorre à violência letal sem hesitação. O filme explora esse contraste em cenas como aquela em que Peter joga teia na boca do Justiceiro para impedir que ele use um palavrão. A piada funciona porque brinca com a diferença entre o tom mais adulto das histórias do Justiceiro e a abordagem mais acessível das produções do Homem-Aranha, reforçando a química entre os personagens e tornando o humor mais natural, sem comprometer a identidade de nenhum dos dois.

Apesar de eu gostar muito dos filmes anteriores do Tom Holland como Homem-Aranha — que, inclusive, é o meu intérprete favorito do personagem no cinema —, sempre senti falta de mais cenas mostrando o herói balançando pelas teias entre os prédios de Nova York. Felizmente, este filme atende a essa expectativa e entrega sequências que valorizam esse aspecto clássico do personagem. Os voos de teia são bem coreografados, passam uma verdadeira sensação de liberdade e tornam a ação mais envolvente, além de reforçarem a identidade do herói.

Mesmo tendo gostado muito do filme e ficado feliz em ver Peter em uma trama mais urbana, senti que a duração acabou prejudicando a minha experiência. Em determinado momento, a história passa a impressão de que já alcançou um desfecho satisfatório, mas novos conflitos surgem e prolongam a narrativa além do necessário. Embora esses acontecimentos tenham importância para a trajetória do protagonista, o ritmo perde força em alguns trechos, fazendo com que o filme pareça mais longo do que realmente é.

Homem-Aranha: Um Novo Dia me deixou com um sorriso no rosto ao final da sessão. O filme entrega boas cenas de ação, resgata a essência do herói e explora bem a solidão e os desafios de Peter Parker. Apesar de alguns problemas de ritmo, continua sendo uma experiência divertida e uma adaptação que resgata elementos essenciais do personagem, entregando a sensação de estar acompanhando uma verdadeira aventura do Homem-Aranha.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Anatomia do Caos - A Memória de uma Tragédia Nacional

Anatomia do Caos | Descoloniza Filmes


O documentário traz depoimentos dos bastidores da CPI da COVID-19. Um registro profundo de um dos momentos mais críticos da pandemia no Brasil. 

Ao abordar um dos momentos mais trágicos da história recente, o documentário Anatomia do Caos evidencia que milhares de brasileiros morreram de COVID-19 antes mesmo de terem a chance de receber uma vacina. Esse cenário foi agravado pela postura irresponsável do governo federal, que minimizou a gravidade da doença ao chamá-la de “gripezinha”, disseminou desinformação e demorou a negociar a compra de vacinas. Essas decisões tiveram consequências profundas para a população, contribuindo para o aumento do número de mortes e dificultando o enfrentamento da pandemia. Além disso, o apoio de parte da população ao discurso negacionista reforçou a circulação de informações falsas, comprometendo medidas essenciais de prevenção e proteção coletiva. O documentário também evidencia como a falta de coordenação entre as autoridades e o desprezo pelas recomendações científicas geraram insegurança e desconfiança em um momento em que a população precisava de respostas rápidas baseadas em evidências. Ao expor esses acontecimentos, a obra convida o espectador a refletir sobre a importância da responsabilidade política, da valorização da ciência e da preservação da memória histórica, para que tragédias como essa não sejam minimizadas nem repetidas no futuro.

A produção reúne imagens de arquivo, declarações de Jair Bolsonaro, cenas marcantes, como a imitação de pessoas com falta de ar, a atuação dos ministros, o chamado gabinete paralelo, as valas coletivas e os relatos de familiares que perderam entes queridos. Esses elementos ajudam a reconstruir os acontecimentos que marcaram a condução da pandemia no Brasil e evidenciam o impacto das decisões políticas sobre a população. Embora não traga novas revelações e apresente acontecimentos amplamente conhecidos, o documentário cumpre um papel importante ao registrar um dos períodos mais sombrios da história recente do País. Mesmo sem trazer novas revelações, a obra preserva a memória coletiva e reforça a importância de refletir sobre as consequências das escolhas feitas durante a pandemia, destacando a necessidade de responsabilidade pública e do respeito à ciência para evitar que erros semelhantes se repitam.

O uso de planos panorâmicos, acompanhado pela exibição do número de vítimas fatais na tela e por uma trilha sonora de suspense, intensifica o impacto emocional da narrativa. Além disso, o uso predominante de imagens de arquivo confere autenticidade ao relato e reforça a sensação de que o espectador revisita acontecimentos ainda recentes. Esses recursos audiovisuais despertam sentimentos de angústia, reflexão e empatia diante dos acontecimentos apresentados. A combinação entre imagens marcantes, sons tensos e leva o espectador a compreender a gravidade dos fatos retratados e a refletir sobre as consequências humanas, sociais e históricas desse episódio de grande relevância.

Anatomia do Caos registra um dos períodos mais marcantes da pandemia no Brasil, preservando a memória dos acontecimentos e incentivando a reflexão sobre responsabilidade política, valorização da ciência e os impactos das decisões tomadas durante a crise sanitária. Por meio de imagens de arquivo, depoimentos e registros históricos, o documentário constrói uma narrativa envolvente que evidencia a dimensão humana e social da tragédia. Ao revisitar esse período, a obra reforça a importância da memória coletiva e convida o público a refletir criticamente sobre os erros do passado para que situações semelhantes não se repitam.


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Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.



quinta-feira, 25 de junho de 2026

O Incrível Circo Digital - Consciência num circo digital fora de controle

O Incrível Circo Digital | Glitch Productions

Sinopse: Uma mulher vai parar em um circo virtual bizarro com outras cinco pessoas, onde são forçadas a participar de jogos sob as ordens de uma inteligência artificial desestabilizada.

A trama da série se desenrola em um universo virtual excêntrico e imprevisível, onde seis personagens, incluindo a protagonista Pomni, permanecem presos. Guiados por Caim, um mestre de cerimônias carismático e caótico, e por sua animada assistente Bolha, eles enfrentam aventuras surreais em um mundo onde praticamente tudo é possível e as contornos da realidade parecem instáveis. O espectador acompanha a história pelo ponto de vista de Pomni, uma humana recém-chegada que desperta sem entender como foi parar ali e sem lembranças claras de sua vida anterior. Aos poucos, ela descobre que os demais também foram humanos em algum momento e acabaram presos naquele ambiente virtual. Essa escolha narrativa aproxima o espectador da experiência da protagonista, fazendo com que ambos descubram o funcionamento do mundo de forma gradual e sem explicações diretas. 

O desenho também se destaca pela estética. O visual colorido e aparentemente infantil cria um contraste constante com os temas mais sombrios da narrativa. A obra evoca uma forte nostalgia de jogos e programas das décadas de 1990 e 2000, com inspiração em gráficos 3D antigos, como os do Nintendo 64. Esse estilo, inicialmente associado à diversão e inocência, aos poucos revela uma atmosfera mais inquietante. A escolha estética reforça essa dualidade entre aparência lúdica e conteúdo psicológico, ampliando o impacto da experiência.

No episódio 2, por exemplo, surge Gummigoo, um personagem não jogável que começa a questionar sua própria existência. Em vez de apontar diretamente para a ideia de “simulação”, esse momento reforça a lógica de personagens inseridos em sistemas com fronteiras definidas que passam a perceber os limites do próprio mundo. O foco filosófico não está em determinar se a realidade é artificial ou não, mas em explorar o impacto de viver dentro de regras não totalmente controláveis. 

Também é importante evitar assumir de imediato que esses personagens são plenamente conscientes no mesmo sentido que humanos. A obra mantém essa questão em aberto de forma deliberada. Parte de sua força está justamente nessa ambiguidade: não sabemos se essa consciência é genuína, emergente ou apenas parte da própria lógica da estrutura. Quando se fecha essa interpretação cedo demais, perde-se parte do efeito filosófico que a narrativa constrói. 

Dessa forma, o ponto central não é a natureza do mundo em si, mas a forma como os personagens lidam com a liberdade condicionada por uma estrutura que não controlam.

O Incrível Circo Digital utiliza um cenário colorido e aparentemente infantil para construir um contraste constante com temas mais existenciais e psicológicos. O local funciona menos como um mundo a ser explicado e mais como um espaço de experiência, onde personagens tentam lidar com o fato de que não conseguem apreender totalmente o mundo, a si mesmos e aos mecanismos que determinam suas ações. É justamente nessa tensão entre o absurdo do ambiente e a busca por sentido dentro dele que a obra encontra sua força, deixando em aberto não apenas a natureza daquele mundo, mas também o que significa existir dentro dele.


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Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Ponto Sem Retorno - Em qual ponto vamos chegar?

Ponto sem Retorno | Walt Disney Studios Ponto Sem Retorno acompanha Hig, um piloto que sobreviveu a uma pandemia global de gripe que dizimo...