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terça-feira, 17 de março de 2026

O Testamento de Ann Lee (2025) é o Berghain de Mona Fastvold

 

O Testamento de Ann Lee (2025) | Searchlight Pictures

Em "Berghain", single do álbum Lux, a cantora Rosalía canta, em uma mistura de alemão e espanhol, sobre a pequenez do ser diante de algo sobre o qual não tem controle: neste caso, em específico, o choque de cultura no icônico complexo clubber de Berlim que dá o nome da canção. Existe uma justaposição entre a tendência de ceder desconhecido entre música eletrônica, drogas e sexo e o medo quase infantil de seu eu-lírico na primeira metade da letra. 

A boate Berghain é, além monumento da cultura noturna da cidade alemã, também é exclusiva, pois muitas pessoas que não são da "cena" tentam entrar, o que descaracteriza o seu aspecto underground e alternativo. Porém o que me chama a atenção é como a cantora, na segunda parte da música, parece estreitar a relação, quase opositora, entre religião e o profano: enquanto que a participação da cantora islandesa Björk reforça a ideia de uma experiência divina libertadora, os versos finais de Yves Tumor reforçam a ideia de que o sexo (portanto, a "pequena morte") é também uma experiência religiosa.

E por mais que sejam obras de artes diferentes, não pude parar de fazer a associação da canção de Rosalía e o mais novo projeto da realizadora Mona Fastvold, enquanto eu assistia ao Testamento de Ann Lee (2025); estrelado por Amanda Seyfried no papel-título. Aqui, Fastvold escreve o guião junto de seu parceiro na profissão (e na vida) Brady Corbet, de O Brutalista (2024); retomando, um dos temas do projeto anterior: a experiência da imigração de refugiados europeus aos Estados Unidos em busca de uma nova oportunidade. No longa de 24, o contexto era o pós Segunda Guerra Mundial e a emigração judaica, neste aqui é o período colonial norte-americano e a intolerância religiosa (no mundo anglófono).

No século XVIII, Ann Lee foi a líder uma religião minoritária chamados de Shakers, pelo seu hábito de cantarem louvores como meio para se conectarem com Deus. Como é mostrado na narrativa, Lee não foi a criadora dessa vertente religiosa, mas se tornou uma figura importante para o grupo e se proclamava como ora como a segunda vinda de Jesus Cristo na terra, ora como a esposa de Jesus. Após de várias perseguições com a comunidade local em Manchester, Inglaterra (Lee é presa e atacada várias vezes, por exemplo), ela e seus seguidores seguem para os Estados Unidos com um sonho de fundar uma comunidade que os aceitem como são. Com cantoria e tudo.

(A) Mona entende que boa parte da psique de Lee vem de um local de repressão sexual, causado tanto pelas instituições religiosas quanto pela violência sexual que as mulheres são passíveis de sofrer, o que causa, como efeito, a imposição do celibato para todos os praticantes Shakers como preceito; pois, na filosofia da personagem, é um ato impuro que contém a mácula do "pecado original" (Vale ressaltar que a Lee passa por quatro partos malsucedidos que aumenta sua percepção do sexo como algo vil; portanto, sexo é visto como uma prisão física e metafórica de uma sociedade machista). Porém, por mais irônico que seja, com a negação do sexo, Fastvold filma as sequencias musicais com um certo gosto quase orgástico, seja pela energia do coro de vozes ou seja pela composição do ambiente em que os praticantes fazem de uma suas cerimônias ao ar livre em meio a elementos fálicos da natureza. Existe um gosto particular da direção que transparece nas conduções das sequências, algo entre o jocoso, o empático e o brutal.

As canções em que os Shakers usam aqui partem de um elemento natural do que de um tema religioso, é algo primal: a fome, o tempo, a natureza. São letras que tem sua qualidade estética e são muito bem utilizadas pela direção de Fastvold, pela fotografia em 35mm de William Rexer e pelo trabalho do compositor Daniel Blumberg. Sem as pieguices fascistas-pentecostais que dominam o cenário da música. A sensação é de ouvir uma cantiga medieval sendo cantada por um coral acapella.

Porém, se os elementos musicais e visuais são os pontos fortes do longa, o roteiro é um de seus pontos fracos, pois existe uma discrepância entre a disposição entre ação e tempo que ocorre na maioria das cinebiografias que decidem contar a história de vida de uma personagem. Apesar de sua divisão de capítulos, nem sempre a passagem de tempo é uniforme, dependendo bastante da narração em off para situar o espectador no decorrer do filme. No entanto, a dupla Fastvold-Corbet parece ser mais econômico e assertivo em Ann Lee do que em Brutalista, o que demonstra uma evolução expressiva  entre projetos. O potencial está ali. Talvez precisem refinar um pouco mais seus próximos roteiros.

E não tem como falar sobre O Testamento de Ann Lee sem falar um pouco sobre o trabalho de Amanda Seyfried no papel: existe uma grandeza para uma personagem um pouco polêmica e/ou controversa, na qual a atriz consegue pôr de coração e alma em sua performance. Se seus seguidores a chamam de "mãe" no filme, seus fãs chamam de "mãe" de volta. É um trabalho sensível e honesto que faz, ao mesmo tempo, o possível e o impossível em cena. Um trabalho de personagem complexo e vivaz, sem cair em trejeitos ou cacoetes que, às vezes, acometem uma performance. Quando Seyfried está em cena, o filme evolui junto com ela. Se não aparece, a obra desanda. 

Apesar de uma recepção esnobada na temporada, Ann Lee tem o que é preciso para se tornar um clássico do cinema contemporâneo. Pelo menos, nos círculos certos. Vejam. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Emerald Fennell Sequestra e 'Parodia' Emily Brontë em "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)


"O Morro dos Ventos Uivantes" (2026) | Warner Bros.

 "I was thinking, 'What is this place?'
I thought it would be perfect
I thought, 'I want it to be perfect'
Please, let it be perfect
Am I living in another world? Another world I created
For what?
If it's beauty, do you see beauty?
If there's beauty, say it's enough
I think I'm gonna die in this house..."
(House - Charli XCX e John Cale)

O Morro dos Ventos Uivantes (1847) é o fantasma que Emily Brontë deixou ao mundo, um conto visceral sobre como a sociedade inglesa é capaz de ser cruel, criar traumas e monstros. O pano de fundo é a relação caótica entre Catherine Earnshaw e Heathcliff, que atravessa gerações, e seu amor, rejeitado e não consumado, que destrói tudo ao seu redor.  Existe uma grande tradição no cinema de adaptar a narrativa de Brontë para o cinema desde 1920, com a versão de William Wyler de 1939, estrelada por Merle Oberon e Laurence Oliver, como a planta baixa para possíveis recepções futuras. 

Friso bastante a versão clássica hollywoodiana, pois penso que faz parte dentro do imaginário da diretora inglesa Emerald Fennell, de Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), que assina a direção do adaptação de 2026. Em ambas as obras, o cerne central é a evolução (e também destruição) da relação entre os dois protagonistas, desde a infância até a fase adulta. Quando Cathy, ao aceitar a mão de um vizinho de terra, rejeita, automaticamente, o amor de Heathcliff, mesmo amando-o, por temer uma vida degradada na sociedade. Como vingança, o jovem some da vida da moça para depois voltar rico e arruinar seu casamento com Edgar Linton; inclusive usando e casando com sua cunhada, Isabella, para atiçá-la. Porém, a versão de Fennell se agarra ao nível superficial da narrativa e, por consequência, em detrimento aos níveis profundos desse conto, que revelam o lado selvagem e "nada civis" das personagens.  

 Nenhum personagem existe sem um contexto ou uma história que a molda. Se Heathcliff é uma personagem trágica, um órfão que é acolhido pela família Earnshaw para depois ser maltratado e humilhado quase que diariamente pelos membros da casa. Seu escapismo é o amor que sente por Catherine, mas a linha entre amor e ódio começa a ficar tênue quando ambos se separam. Fennell trata a obra base de Brontë muito mais como romance do que drama, suavizando toda a jornada da personagem interpretada por Jacob Elordi. O que diminui todo o discurso da obra clássica. O anti-herói é visto como um selvagem daquele ambiente, porém, ao deter um poder financeiro enquanto adulto, ele é percebido como alguém a ser temido, construindo assim uma tensão naquela sociedade.

Se, por exemplo, na adaptação de Luis Buñuel, Abismos de Pasión (1954), Heathcliff/Alejandro é uma figura hostilizada e, ao mesmo tempo hostil, capaz de seguir e/ou de ser atraído por Cathy/Catalina até os confins da morte, dentro uma atmosfera gótica; já a diretora Andrea Arnold traz um olhar mais realista em sua adaptação de 2011 em que Heathcliff sofre não só por questão de classe, mas também por racismo da sociedade, como sugerido no romance de Brontë. Sem falar na formidável adaptação japonesa Arashi ga oka, dirigida por Yoshishige Yoshida, de 1988, que transpõe a narrativa para o Japão Feudal, sem abrir a mão dos temas e caraterísticas da obra de partida: o sistema de classes, a paixão, a crueldade, o psicológico e o macabro, por exemplo. Trago os contrapontos anteriores aqui para ilustrar uma drástica mudança no tratamento do livro clássico nas mãos de Fennell. 

Sobre o projeto tradutório: como o título, com as aspas, desta nova versão sugere, não é uma adaptação, mas uma "adaptação". E em entrevistas, ela já mandou a real. De acordo com a mesma, não é uma tradução direta ao livro, mas sim uma recriação da leitura que tinha feito quando adolescente. Ou seja, seu projeto de adaptação é bastante pessoal e contaminado por influências abertamente externas ao livro. A realizadora apropria os elementos narrativos básicos de Brontë e cria sua própria versão, sem qualquer relação de fidelidade estreita com a obra base. Para alguns, ela acaba realizando uma adaptação livre, para outros, uma fanfic erótica de banca de jornal que beira ao kitsch. Como espectador e pesquisador sobre recepção, adaptação e tradução, fico entre essas duas opções; pois uma coisa não exclui automaticamente a outra. 

A filmografia de Fennell é composta de obras que tentam escancarar as relações de gênero e de classe social, por meio meio de uma vertente vulgar, seja por uma tentativa de sexploitation ou seja pelo suspense erótico. Porém, uma crítica válida que lhe feita em cada obra que a diretora lança ao mundo parece ser constante: é belo, mas tem substância? Não só o caso se repete aqui, mas também é o grande triunfo e maldição deste filme.  

O que a realizadora tem de bom olho, também possui de mal gosto. Muito dos diálogos originais de Brontë não encontram a força que outrora tinham, parecendo falas vazias do que sentimentos complexos e, até, contraditórios. Quando Cathy, em determinado ponto da trama, confessa que: "ele se parece comigo, mais do que eu mesma. Do que será que são feitas nossas almas, elas são iguais... Eu sou Heathcliff!" É um momento importante para a narrativa, pois nós como espectadores entendemos a linha de raciocínio impulsiva de Earnshaw e seus verdadeiros sentimentos. No entanto, com uma base superficial e a mistura das falas clássicas com os pobres diálogos "emeraldianos'', tiram a intensidade dramática e deixam cenas importantes com um ar de mediocridade. 

A direção de Fennell é justamente juvenil no encadeamentos das ações e na construção das personagens: a Catherine de Margot Robbie é visivelmente mais velha do que no livro, já que, de acordo com seu pai, "passou da idade de se esposar", ou seja, por volta dos 25 anos (E, de súbito, me lembrei da frase viral de Orgulho e Preconceito de 2005: "Eu tenho 27 anos, não tenho dinheiro, nem prospectos de vida, sou um fardo para meus pais e... estou com medo"), mas que ainda se comporta como uma adolescente tola e mimada de 16 anos, e é reprimida sexualmente. Enquanto isso, o Heathcliff de Jacob Elordi é tratado como um "pau pra toda obra" bruto, mas carinhoso; retirando-lhe toda a complexidade e amargura que iria configurar seu desenvolvimento em um homem cruel. Com isso, torna-se fácil para Fennell desenhar Cathy dentro de suas sensibilidades enquanto mulher branca, e Heathcliff como um herói erótico, cuja face de Elordi evoca as feições de Sir Olivier da adaptação de 1939. 

Porém, a mais insensata, e talvez cretina, abordagem feita pela diretora seja da questão racial, em que as injustiças que Heathcliff sofre no romance (uma vez que ele é sugerido por Brontë como um "cigano" e de "pele escura"), são passadas para uma outra personagem: Nelly Dean (Hong Chau), uma mulher sino britânica, filha bastarda de um lorde que é acolhida pela família Earnshaw como a dama de companhia de Cathy. Enquanto para Heathcliff, ela o trata como se fosse um bicho de estimação com doçura e petulância, para Nelly, Cathy é cruel e rasteira, mandando-a sempre a não sair do seu papel subalterno. E, portanto, Nelly acaba se tornando, sutilmente ou não, cruel, ao desejar e fazer de tudo para acabar com o relacionamento entre os dois protagonistas, que são tratados como dois coitados. Dessa forma, Fennell não consegue abordar de forma interessante as relações raciais dentro de um contexto (em teoria) do final do século XVIII, calcando-se de uma tamanha superficialidade irresponsável.  

Se, então, o "Morro dos Ventos Uivantes" (2026) é uma adaptação pífia e vazia, por que deveríamos ir ao cinema assistir? A resposta é tão simples e básica quanto o filme: porque é puramente divertido. Emerald Fennell prova que não entende as dimensões temáticas de Brontë, para além do relacionamento central, mas consegue fabricar espetáculos visuais, brincando entre o "chique" e o tacanho, e de um humor esdruxulamente sexual. Existe um prazer involuntário em assistir aos exageros e ao analfabetismo temático da diretora, algo que me parece autoconsciente à ela, pois conhece suas limitações e gosta de brincar com a expectativa do público. Um acordo que é feito entre artista e o público, de dominação e submissão: ela tem o chicote, mas o golpe é mais prazeroso do que doloroso. É a mesma sensação de assistir de uma paródia.

É um filme muito jovem, com uma abordagem temática muito adulta. A combinação entre algo fantasioso e tara, exalta a visão maximalista da obra. Para um público mais velho, é um estilo kitsch ou, mesmo, camp bastante assumido desde a primeira cena em que vemos uma cena de execução em praça pública com conotações mórbidas e eróticas.  Parece exagero, mas é para já ilustrar qual será o tom do filme; o do espetáculo, pão & circo, o da magia e o da rejeição de um realismo. 

A lindíssima fotografia de Linus Sandgren evoca filmes clássicos em tecnicolor como E o vento levou... (1939), filmado em um luxuoso Vistavision com cores fortes e pungentes que conversam com o design de produção de Susie Davis - que invoca Cocteau, Coppola, Jarman e, possivelmente, Waters, ao mesmo tempo - e o figurino de Jacqueline Durran: dramáticos e logisticamente incompreensíveis como uma nightgown transparente como se fosse um papel celofane, e saias vermelhas que parecem ser feitas com couro falso (vulgo plástico), mas ajuda a demarcar a jornada e o sentimento das personagens. Além disso, a trilha sonora de Anthony Willis e as canções de Charli XCX são peças complementares entre si e ajudam a elevar o material de Fennell. 

Já para o público jovem (isto é, adolescente que nunca viram nenhuma adaptação ou leram o livro), bastará somente a trama principal; uma vez que Robbie e Elordi, mesmo inapropriados para seus papéis, são bons atores e, pasmem!, eles tem química em cena; e conseguem vender o roteiro caótico e a direção de Fennell ao público. A disputa moral que existe entre os dois na segunda metade se torna uma forma de preliminar cruel para satisfazer seus desejos, uma "brincadeira boba e deliciosa". A dor se torna pura diversão, um motivo de gozo e riso. 

Um exemplo disso é Isabella Linton (Alison Oliver): no romance de Brontë, é uma moça ingênua e, para irritar Cathy, caí em um relacionamento abusivo com Heathcliff; já no filme, é uma personagem codificada anacronicamente como uma jovem CDF (já que nerd é uma palavra muito moderna neste caso), precoce e sexualmente não realizada. Sua relação com Heathcliff é por interesse e puramente sexual, no qual ela se submete, com certo prazer e pouco amor próprio, a uma relação sadomasoquista no decorrer da narrativa. É uma leitura tão exagerada da personagem, mas que retratada com tanta convicção numa performance que acredita (e confia) na visão da diretora, é impossível desviar o olhar, tocando, ao mesmo tempo, na sensibilidade do público feminino e gay, que com certeza irá devorar este filme e a personagem. 

Porém, todo esse apoio no exagero estético e tonal do filme, acaba por prejudicá-lo quando Fennell precisa virar a chave para o dramático e o convencional (o que pode prejudicar e/ou frustrar parte do público treinado para esperar uma grande virada no meio da estória). A diretora flerta com trabalhos de cineastas como Sofia Coppola e Radley Metzger, em Maria Antonieta (2006) e Camille 2000 (1969) respectivamente, me vêm a mente por exemplo, na tentativa de vender estética e transgressão sexual, porém a visão da diretora ainda falta um refinamento das intenções; pois sua ideia da palavra transgressora está mais para uma "transgressão". Após um bom momento de reflexão e de ironia, Saltburn me parece uma adaptação livre mais bem-sucedida, uma vez que os paralelos entre Fennell e Brontë são melhores estabelecidos, do que esta "nova" versão.

De Brontë, "O Morro dos Ventos Uivantes" só tem o título, pois, em sua forma final, a leitura da realizadora se divorcia demasiadamente da obra em que é baseada, mesmo que haja uma intenção de adaptação, mas sem uma sólida base original. Apesar das falhas e dos tropeços (e depois de matar muitos fãs puristas da obra original de desgosto ou do coração) que ocorrem neste projeto, talvez Emerald Fennell fez, ironicamente ou não, a sua maior transgressão de todas: uma adaptação camp de Emily Brontë. Se será um clássico do gênero, resta ao tempo dizer. 

Agora só resta dar stream no álbum "Wuthering Heights". 

* A cabine de imprensa foi realizada na sala IMAX do UCI New York City Center, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Primata - Esqueça o Jason: agora quem te persegue é um primata enfurecido

O Primata | Paramount Pictures


Uma estudante universitária e seus amigos se veem em uma luta por suas vidas quando um chimpanzé raivoso inicia um frenesi de violência.


O responsável pelas mortes não é um assassino mascarado nem uma assombração, como o filme inicialmente sugere, mas sim um chimpanzé infectado pelo vírus da raiva. Ao contrair a doença, o animal desenvolve hidrofobia e passa a apresentar um comportamento extremamente agressivo, atacando qualquer pessoa que esteja em seu caminho. Essa escolha narrativa é um ponto interessante, pois aposta em uma ameaça mais realista e perturbadora. Ao utilizar uma condição biológica como motor do horror, o filme provoca o espectador a refletir sobre os limites entre o instinto animal, a negligência humana e as consequências da interferência do homem na natureza. A proposta se destaca por trazer uma explicação plausível para a violência apresentada, o que torna a experiência mais tensa e inquietante.


Ao reunir um grupo de jovens em um local isolado, o filme constrói um cenário propício para o horror, explorando o confinamento e a sensação de vulnerabilidade dos personagens. O roteiro sabe dosar bem os momentos de calmaria e de ameaça, fazendo com que o perigo se aproxime de maneira gradual, o que aumenta o impacto dos acontecimentos. A narrativa também se beneficia de suas escolhas ao transformar elementos cotidianos em peças centrais da sobrevivência, mantendo o espectador atento e envolvido. Mesmo sem recorrer a explicações excessivas, a história se sustenta pela progressão dos conflitos e pela escalada ao caos, resultando em uma trama direta, tensa e eficiente dentro da proposta do filme.


O Vírus da raiva provoca a hidrofobia, que é o medo intenso da água, e isso afeta diretamente o comportamento do chimpanzé. Dominado por essa condição, o animal passa a evitar qualquer contato com a água, agindo de forma ainda mais agressiva diante do pânico que sente. Na casa onde os jovens estavam, a presença de uma piscina acaba se tornando um elemento crucial para a sobrevivência deles, funcionando como uma barreira natural contra a criatura. Esse detalhe é tratado de forma interessante pelo filme, pois transforma um espaço comum de lazer em um refúgio improvisado, carregado de tensão e desespero. Ao explorar o medo do animal e a fragilidade dos personagens, O Primata consegue gerar empatia e reforçar o clima de urgência, mostrando que o verdadeiro terror não está apenas na ameaça em si, mas na luta constante pela sobrevivência. Essa abordagem sensível dá mais profundidade à narrativa e aproxima o espectador do sofrimento e do medo vivido pelos personagens.


É importante estar preparado para uma experiência intensa, marcada por cenas fortes e profundamente impactantes. Ao longo da narrativa, o espectador se depara com momentos visual e emocionalmente carregados, que não apenas chamam a atenção, mas também provocam reflexões e reações significativas. As cenas de morte são cuidadosamente elaboradas do ponto de vista técnico e narrativo, demonstrando um alto nível de produção. A violência é apresentada de forma explícita, com um uso abundante de elementos sangrentos que buscam realismo, o que reforça a sensação de brutalidade e torna cada momento ainda mais impactante. Esse tratamento detalhado do gore contribui para uma atmosfera cruel e intensa, deixando claro que a obra não economiza nos excessos e aposta em uma abordagem direta, sem suavizar as consequências da violência.


O Primata se afirma como uma obra de horror, que vai além do susto fácil, apostando em uma ameaça biologicamente plausível para construir um terror mais incômodo e reflexivo. Ao substituir o sobrenatural por uma explicação científica, o filme reforça a sensação de realismo e aproxima o espectador de um medo mais concreto, ligado às consequências da negligência humana e à fragilidade diante da natureza. A narrativa direta, o uso inteligente do espaço e a escalada gradual da tensão garantem envolvimento constante, enquanto a violência gráfica intensifica o impacto emocional da experiência. Não se trata de um filme para todos os públicos, mas para aqueles que buscam um horror intenso e perturbador, a obra entrega uma experiência marcante, capaz de provocar desconforto e reflexão mesmo após o término da sessão.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Socorro! - Ela sobreviveu ao sistema. Ele só sabia existir dentro dele.

Socorro! | Disney


Dois colegas ficam presos em uma ilha deserta após serem os únicos sobreviventes de um acidente de avião. Na ilha, eles precisam superar antigos ressentimentos e trabalhar juntos para sobreviver, mas, no fim, trata-se de uma inquietante batalha de vontades e perspicácia, marcada por humor ácido, para sair com vida.

A protagonista, Linda Liddle, é construída como a figura da competência invisível. Ela representa profissionais — especialmente mulheres — que seguem todas as regras do sistema corporativo, mas continuam presas a um teto simbólico feito de preconceito, estética, comportamento e expectativa social. Sua frustração não nasce de ambição vazia, mas da promessa quebrada de reconhecimento. O roteiro deixa claro que Linda não quer apenas subir de cargo; ela quer ser validada. 

Criticamente, porém, Linda não é uma heroína clássica. À medida que ganha autonomia, sua trajetória levanta uma questão incômoda: até que ponto a libertação pessoal justifica a perda de limites éticos? A Narrativa parece sugerir que anos de repressão produzem não apenas força, mas também ressentimento acumulado, e Linda passa a confundir sobrevivência com controle absoluto. Ela deixa de reagir ao sistema e passa a reproduzir sua lógica, ocupando apenas outro lugar nele. Linda é, portanto, uma personagem potente justamente por não ser confortável: expõe como o discurso de empoderamento pode se tornar distorcido quando não é acompanhado de responsabilidade moral. Sua transformação não é uma redenção — é uma advertência.

Bradley, por sua vez, encarna o privilégio herdado. Sua autoridade não é construída, mas entregue, o que o torna frágil fora das estruturas que o sustentam. Ele confunde liderança com comando, e respeito com medo ou obediência. No ambiente corporativo, isso funciona; fora dele, sua insegurança se expõe. Bradley, não é apenas um antagonista individual, mas um símbolo sistêmico: representa um tipo de poder que se mantém não por competência, mas por exclusão. Seu desprezo por Linda não nasce de uma crueldade consciente, mas de uma incapacidade profunda de enxergá-la como igual. Ainda assim, o longa evita torná-lo um vilão unidimensional. Bradley é patético, contraditório e, em certos momentos, desesperado por afeto e validação. Essa vulnerabilidade não o absolve, mas o humaniza, reforçando a crítica central: o privilégio não prepara para a perda, apenas para a negação dela.

A relação entre Linda e Bradley é apresentada como um conflito de poder imposto pelas circunstâncias, não como uma parceria genuína. Eles partem de uma hierarquia desigual: Bradley sustentado por autoridade herdada, Linda marcada pela competência desvalorizada. À medida que o contexto muda, essa estrutura se desloca, expondo a fragilidade do poder dele e o fortalecimento gradual dela. O vínculo nunca se baseia em confiança, mas em dependência e tensão, funcionando como um espelho das desigualdades que moldaram ambos. Não se trata de afeto, mas de inversão de quem controla e quem obedece.

O filme é dirigido por Sam Raimi, conhecido pela trilogia Homem-Aranha com Tobey Maguire e por A Morte do Demônio, obras que consolidaram seu estilo marcado por violência estilizada e humor ácido. Embora o início do filme pareça mais contido e distante dessa assinatura, essa abordagem funciona como preparação. Com o avanço da narrativa, a presença de Raimi se torna cada vez mais clara, e o tom inicial “enganoso” dá lugar a uma condução visceral e provocadora típica de seu cinema. 

Um exemplo marcante é a cena em que Linda mata um javali durante sua luta pela sobrevivência. Mais do que uma ação, esse momento representa uma virada na personagem: evidencia sua adaptação ao ambiente hostil e a ruptura definitiva com a vida que levava antes. A cena é intensa, sem glamourizar a violência, reforçando o caráter instintivo da sobrevivência. Ao mesmo tempo, sintetiza temas centrais do filme, como transformação, resistência e a construção de poder fora das estruturas sociais convencionais. É uma demonstração clara de como o filme comunica muito sobre Linda sem precisar dizer demais, deixando que a ação e a imagem falem por si.

Socorro! vai além da história de sobrevivência para explorar relações de poder e desigualdade. Colocando Linda e Bradley em um ambiente extremo, o filme revela a fragilidade do privilégio, o acúmulo de ressentimento e a transformação de quem precisa lutar para ser reconhecido. Sob a direção de Sam Raimi, a obra equilibra humor ácido, violência estilizada e tensão psicológica, mostrando que a verdadeira luta não é apenas contra o ambiente hostil, mas contra os conflitos internos e morais dos personagens. Linda se torna símbolo de autonomia complexa, enquanto Bradley representa um poder que nunca foi conquistado, reforçando a crítica social central do filme.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Extermínio: O Templo Dos Ossos - Quando o apocalipse tem ótimas ideias, mas esquece de desenvolvê-las.

Extermínio: Templo dos Ossos | Sony Pictures


O Dr. Kelson se vê envolvido em um novo e chocante relacionamento com consequências que podem mudar o mundo como ele o conhece. Enquanto isso, o líder de uma seita Jimmy Crystal instiga medo e violência por onde passa.

O filme é uma continuação direta de Extermínio: A Evolução. Após um surto devastador do vírus da raiva, as ilhas Britânicas permanecem isoladas, e anos depois Spike vive com os pais em uma comunidade segura, mas conflitos familiares o fazem fugir com a mãe doente e gravida para o continente, onde enfrentam infectados e descobrem que ela sofre de câncer terminal; após sua morte, Spike recusa-se a voltar para casa, deixa o bebê recém nascido em segurança e segue sozinho, até ser encontrado por um grupo liderado por Jimmy Crystal, agora adulto, que representa uma nova ameaça. Pouco depois, Spike permanece em quarentena na Grã-Bretanha com esse grupo, os Fingers, uma gangue violenta que sobrevive pela intimidação e pela força, mas é instável e impulsiva: fisicamente fortes e organizados na violência, carecem de propósito, coesão moral e da habilidade de construir algo duradouro, tornando-se vulneráveis tanto à própria instabilidade quanto à humanidade daqueles que enfrentam.


Desde o primeiro filme da franquia, os infectados funcionam como gatilho narrativo, evidenciando como a sociedade, desprovida de qualquer estrutura, rapidamente mergulha no caos, como nos militares do filme original, após o colapso da civilização abandonam qualquer ética, agindo de forma brutal e autoritária sob o pretexto de reconstruir o mundo; atualmente, essa abordagem é recorrente em produções sobre zumbis, retratando um mundo sem leis no qual à máscara da humanidade é gradualmente removida, e nos convida, como espectadores, a sentir medo, compaixão e questionar como reagiremos se fôssemos colocados à prova em um cenário tão desolador.


Há uma sub-trama na narrativa sobre um grupo de sobreviventes que vive em uma fazenda, mas ela foi mal desenvolvida. Ela é introduzida com certo destaque, sugerindo que terá importância para o desenvolvimento da história ou para os temas centrais, mas essa expectativa não se sustenta ao longo da narrativa. Os personagens e o cenário são apresentados de maneira relativamente cuidadosa, criando a impressão de que haverá consequências ou desdobramentos relevantes.


No entanto, essa linha narrativa acaba servindo apenas como um evento pontual, sem impacto duradouro. Após cumprir sua função imediata, a sub-trama é deixada de lado e não volta a ser explorada, o que pode causar estranhamento no espectador. Essa escolha enfraquece a construção do enredo, pois transmite a sensação de que a fazenda foi usada apenas como um recurso momentâneo de tensão, e não como um elemento integrado à história maior. No fim, fica a impressão de uma ideia que parecia promissora, mas que foi apresentada e depois simplesmente ignorada.


A ideia de explorar o conflito entre fé e ciência em um cenário apocalíptico já é um tema bastante recorrente, mas ainda pode funcionar como um clichê empregado quando bem inserido. No entanto, em Extermínio: Templo dos Ossos, essa tensão se mantém superficial. Por um lado, temos o Dr. Ian Kelson, representante do raciocínio científico, que busca entender e curar os efeitos do Vírus da raiva no Alpha infectado Samson através de experimentos e manipulação química. Por outro lado, Jimmy Crystal e seu culto satânico simboliza uma forma distorcida de fé e fanatismo, usando a violência ritualizada como instrumento de poder. Apesar desse contraste aparente, o conflito entre ciência e crença não é desenvolvido de forma significativa. As interações entre Kelson e Jimmy — assim como entre os demais personagens — permanecem focadas na ação e na sobrevivência, sem que haja um verdadeiro debate filosófico ou moral sobre ética, racionalidade ou a natureza do mal. A ciência de Kelson é apresentada principalmente como uma ferramenta prática, enquanto o fanatismo de Jimmy é um motor para cenas de terror e caos. essa abordagem resulta em uma tensão que é funcional para o desenrolar da narrativa, mas que não se aprofunda. Os diálogos que mencionam o embate entre fé e razão aparecem apenas de maneira rápida e pontual, como ordens ou justificativas de personagens, e não evoluem para um conflito consistente ou reflexivo. Assim, o filme utiliza o contraste entre religião e ciência como pano de fundo estilístico, reforçando o clima de horror e a escalada da ação, sem transformar essa oposição em tema central ou questionamento moral relevante. Sendo assim, tocando na clássica dicotomia entre fé e ciência, mas apenas de forma superficial, como instrumento narrativo, sem explorar o potencial dramático ou filosófico que esse confronto poderia oferecer.


Extermínio: Templo dos Ossos mantém o clima de horror e violência característico da franquia ao mostrar como o colapso social expõe a fragilidade moral humana. Embora apresente personagens e ideias promissoras — como o conflito entre fé e ciência e novas comunidades de sobreviventes — o filme desenvolve esses elementos de forma superficial. Sub-tramas são abandonadas e temas centrais não se aprofundam, fazendo com que a obra funcione mais pela tensão e atmosfera do que pela reflexão consistente. O resultado é um filme eficaz no gênero, mas aquém do potencial que a sua proposta sugere.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

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