segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Maria de Maria - O verdadeiro ouro está mais perto do que você imagina

Maria de Maria | O2 Play


No longa, dirigido por Luiza Shelling, acompanhamos a trajetória de Maria, uma jovem cangaceira que, após descobrir uma gravidez e perder seu bando em um massacre, precisa abandonar a vida que conhecia para tentar recomeçar em outra região do país. Em fuga para o Centro-Oeste, ela encontra no programa governamental Marcha para o Oeste, criado durante o governo de Getúlio Vargas, a possibilidade de conquistar um pedaço de terra e construir um futuro diferente para si e para seu filho. Em meio às promessas de uma nova vida, Maria precisa enfrentar os desafios de um território desconhecido, as dificuldades de reconstruir sua identidade e os conflitos que surgem quando seus desejos entram em choque com as estruturas de poder da época.

Um dos principais problemas do longa está na maneira como o roteiro tenta abordar uma quantidade considerável de assuntos ao longo da narrativa e ao explorar diferentes questões sociais, políticas e históricas, o filme acaba dividindo sua atenção entre pautas que, individualmente, poderiam render discussões muito mais profundas. Como consequência, alguns desses temas parecem ser apresentados apenas superficialmente, sem receber o tempo necessário para que suas implicações sejam realmente exploradas. A sensação é de que existe uma vontade de dizer muitas coisas, mas nem sempre há espaço suficiente para desenvolver todas elas com a sensibilidade que merecem, algumas questões poderiam ter um impacto muito maior se fossem trabalhadas com mais sutileza, permitindo que seus significados surgissem naturalmente a partir das experiências dos personagens, em vez de serem apenas incorporados à trama.

Apesar dessa limitação, a narrativa consegue estabelecer um ritmo bastante consistente durante boa parte de sua duração, como a trajetória de Maria que se desenvolve de maneira envolvente, acompanhando suas tentativas de reconstruir a própria vida enquanto precisa lidar com as incertezas de um futuro que está longe de ser garantido. O longa consegue manter o interesse do espectador ao apresentar os obstáculos que surgem nesse processo, equilibrando os momentos mais íntimos com os conflitos externos que ameaçam a estabilidade conquistada pela protagonista. Entretanto, esse equilíbrio se perde justamente no ápice do confronto entre Maria e os militares, depois de construir uma tensão que sugere consequências muito mais intensas, o filme resolve esse conflito de maneira excessivamente simples, sem explorar todo o peso emocional que a situação poderia carregar para quem assiste.

Se o roteiro apresenta algumas dificuldades, a fotografia surge como o grande destaque técnico da produção. O trabalho visual complementa de maneira admirável a visão de Luiza Shelling, contribuindo para estabelecer a atmosfera da narrativa, a composição dos enquadramentos e a maneira como os espaços são apresentados ajudam a construir a relação entre Maria e o ambiente ao seu redor, fazendo com que a paisagem tenha uma presença que vai além da função de cenário. É um trabalho que demonstra como as escolhas estéticas podem contribuir diretamente para a narrativa, tornando a fotografia o aspecto técnico mais admirável do longa.

Entretanto, o verdadeiro coração de Maria de Maria está na relação construída entre Nanda Costa, João Campos e o ator mirim que interpreta o filho da protagonista. A química entre os três é impressionante e faz com que o espectador se envolva profundamente com essa “família”, acompanhando seus momentos de afeto, suas dificuldades e suas tentativas de encontrar alguma estabilidade em meio às adversidades. Nanda Costa entrega uma Maria que carrega as marcas de seu passado, mas que também encontra na maternidade e na possibilidade de recomeçar uma motivação para continuar lutando. Sua interpretação ganha ainda mais força quando dividida com os demais integrantes desse núcleo, criando uma dinâmica que transmite proximidade e cumplicidade sem depender de diálogos.

Maria de Maria é um longa que encontra força na trajetória de sua protagonista e, principalmente, nas relações que ela estabelece ao longo do caminho. No fim, é uma obra com qualidades evidentes, mas que poderia alcançar um impacto muito maior caso confiasse mais nas narrativas centrais de seus personagens e permitisse que algumas de suas questões fossem desenvolvidas com a profundidade que merecem.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

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