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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Feito Pipa - Matéria de Laisa Lima (Festival do Rio 2026)


Feito Pipa | Paris Filmes

Considerado um destaque do Festival do Rio em 2026, o filme “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, é uma fábula sobre amadurecimento, liberdade e leveza, ambientada no interior do Ceará. Através dos olhos de Gugu (Yuri Gomes), uma criança que se afasta dos padrões de masculinidade por ter trejeitos e gostos ditos “femininos”, vivendo sua infância do jeito inocente que ela deve ser, encontramos ensinamentos valiosos sutilmente colocados na tela. Enquanto a avó Dilma (Teca Pereira) representa o acolhimento de um colo sempre compreensivo, o pai Batista (Lázaro Ramos) evoca a figura autoritária de quem ainda vive preso aos moldes sociais julgados “aceitáveis” para o comportamento de um menino.

Entretanto, a magia de viver livre ao lado de alguém igualmente empoderado e vaidoso, como Dilma, se esvai para Gugu no momento em que o Alzheimer da avó passa a representar um risco para o bem-estar dos dois. O personagem, então, necessita encarar os padrões retrógrados de Batista quando passa a conviver com ele, sendo, assim, privado de uma realidade cheia de cor, tal qual era de costume. Apesar disso, as vestimentas purpurinadas e a autenticidade de Gugu nunca são deixadas de lado.

Para entender melhor a criação do universo leve e descontraído do protagonista — levando em consideração a narrativa dramática por si só —, a KOROFILMES conversou um pouco com o diretor, Allan Deberton: “De inspiração, eu tiro o cinema em que acredito, que é aquele que diverte, mas também transforma; que fala sobre a intimidade de seus personagens com verdade acima de tudo.”

O enredo de “Feito Pipa” parece simplório, sem rodeios. É aí que está a mágica do longa-metragem: retirar de uma história cotidiana, que abarca o passar do tempo, suas consequências e a infeliz realidade de indivíduos que não podem ser o que são, um diamante lapidado.

“Gosto muito de histórias simples e gosto muito de histórias às quais eu pertenço. Eu cresci no interior do Ceará, e o roteirista André Araújo também, então é um lugar de pertencimento. Tudo isso traz uma verdade”, diz o diretor.

O filme, tratado com delicadeza ao abordar temáticas que requerem maior cuidado e seriedade, torna-se uma grande lição por não abandonar o foco de ser visto por intermédio de uma criança. Apesar de todo o sofrimento, Gugu enxerga situações complexas, como o avanço da doença da avó, com imaginação e boas doses de esperança. A direção reforça esse sentimento ao exibir um Ceará vivaz, na paleta de cores escolhida, e contemplativo, devido às várias panorâmicas.

Segundo Allan: “O filme fala sobre conversa. É muito importante que a gente tenha um olhar muito aberto sobre a necessidade do brasileiro de conversar, respeitar o outro e respeitar as diferenças.”

A respeito da representação do Alzheimer na personagem da brilhante Teca Pereira, Deberton diz: “É preciso ter um olhar atento para a terceira idade, um olhar de cuidado e atenção.”

A KOROFILMES também esteve com o intérprete de Gugu, Yuri Gomes, que enfatiza a importância da obra para os pequenos: “O Gugu tem a ensinar que nós, crianças, temos, sim, que sonhar e ter respeito pelo outro. Não podemos desistir dos nossos sonhos.”

O ator mirim sintetiza em poucas palavras o conceito do filme: “Tem a ensinar a ter mais apego aos seus familiares e não dar ouvidos à negatividade dos outros, porque não vai te trazer coisas boas, só vai fazer você ficar mal.”

O artista completa: “Persista na sua carreira e nunca desista dos seus sonhos. Se você quiser dançar, dance. Você é livre, pode ser o que quiser.”

Engrandecido por ótimas atuações, principalmente do trio principal (Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos), “Feito Pipa” é um deleite para quem possui uma sensibilidade aguçada. Tocante e divertido na medida certa, a produção, indicada para levar o Brasil até o Oscar em 2027, provoca questionamentos pertinentes, levando o espectador a uma viagem filosófica sobre os valores de comunidade e amor aos demais. Sob a ótica infantil, toda tristeza pode ser revertida em criatividade; não há situação, por mais difícil que seja, sem escapatória. Na verdade, o que existe é a capacidade de mostrar-se ao mundo sem tabus ou preconceitos; é levar uma vida em que o colorido vence o taciturno de forma incansável.

Autora:


Laisa Lima 

25 anos, formada em cinema, roteirista, crítica, videomaker e moradora do Rio de Janeiro, minha paixão pelo cinema transcende as telas. 
De “Guarda-Chuvas do Amor” até “Laranja Mecânica”, meu amor pela arte não se prende a nenhum gênero, mas sim ao que me toca. 
Também sou apaixonada pelos pormenores da vida, que se apresentam sem nenhum roteiro. 
Logo, imaginação não falta em mim. 
Sou de tudo um pouco, e procuro sempre expor minha versão mais democrática, que enfrenta a realidade com a maior criatividade possível.



Maria de Maria - O verdadeiro ouro está mais perto do que você imagina

Maria de Maria | O2 Play


No longa, dirigido por Luiza Shelling, acompanhamos a trajetória de Maria, uma jovem cangaceira que, após descobrir uma gravidez e perder seu bando em um massacre, precisa abandonar a vida que conhecia para tentar recomeçar em outra região do país. Em fuga para o Centro-Oeste, ela encontra no programa governamental Marcha para o Oeste, criado durante o governo de Getúlio Vargas, a possibilidade de conquistar um pedaço de terra e construir um futuro diferente para si e para seu filho. Em meio às promessas de uma nova vida, Maria precisa enfrentar os desafios de um território desconhecido, as dificuldades de reconstruir sua identidade e os conflitos que surgem quando seus desejos entram em choque com as estruturas de poder da época.

Um dos principais problemas do longa está na maneira como o roteiro tenta abordar uma quantidade considerável de assuntos ao longo da narrativa e ao explorar diferentes questões sociais, políticas e históricas, o filme acaba dividindo sua atenção entre pautas que, individualmente, poderiam render discussões muito mais profundas. Como consequência, alguns desses temas parecem ser apresentados apenas superficialmente, sem receber o tempo necessário para que suas implicações sejam realmente exploradas. A sensação é de que existe uma vontade de dizer muitas coisas, mas nem sempre há espaço suficiente para desenvolver todas elas com a sensibilidade que merecem, algumas questões poderiam ter um impacto muito maior se fossem trabalhadas com mais sutileza, permitindo que seus significados surgissem naturalmente a partir das experiências dos personagens, em vez de serem apenas incorporados à trama.

Apesar dessa limitação, a narrativa consegue estabelecer um ritmo bastante consistente durante boa parte de sua duração, como a trajetória de Maria que se desenvolve de maneira envolvente, acompanhando suas tentativas de reconstruir a própria vida enquanto precisa lidar com as incertezas de um futuro que está longe de ser garantido. O longa consegue manter o interesse do espectador ao apresentar os obstáculos que surgem nesse processo, equilibrando os momentos mais íntimos com os conflitos externos que ameaçam a estabilidade conquistada pela protagonista. Entretanto, esse equilíbrio se perde justamente no ápice do confronto entre Maria e os militares, depois de construir uma tensão que sugere consequências muito mais intensas, o filme resolve esse conflito de maneira excessivamente simples, sem explorar todo o peso emocional que a situação poderia carregar para quem assiste.

Se o roteiro apresenta algumas dificuldades, a fotografia surge como o grande destaque técnico da produção. O trabalho visual complementa de maneira admirável a visão de Luiza Shelling, contribuindo para estabelecer a atmosfera da narrativa, a composição dos enquadramentos e a maneira como os espaços são apresentados ajudam a construir a relação entre Maria e o ambiente ao seu redor, fazendo com que a paisagem tenha uma presença que vai além da função de cenário. É um trabalho que demonstra como as escolhas estéticas podem contribuir diretamente para a narrativa, tornando a fotografia o aspecto técnico mais admirável do longa.

Entretanto, o verdadeiro coração de Maria de Maria está na relação construída entre Nanda Costa, João Campos e o ator mirim que interpreta o filho da protagonista. A química entre os três é impressionante e faz com que o espectador se envolva profundamente com essa “família”, acompanhando seus momentos de afeto, suas dificuldades e suas tentativas de encontrar alguma estabilidade em meio às adversidades. Nanda Costa entrega uma Maria que carrega as marcas de seu passado, mas que também encontra na maternidade e na possibilidade de recomeçar uma motivação para continuar lutando. Sua interpretação ganha ainda mais força quando dividida com os demais integrantes desse núcleo, criando uma dinâmica que transmite proximidade e cumplicidade sem depender de diálogos.

Maria de Maria é um longa que encontra força na trajetória de sua protagonista e, principalmente, nas relações que ela estabelece ao longo do caminho. No fim, é uma obra com qualidades evidentes, mas que poderia alcançar um impacto muito maior caso confiasse mais nas narrativas centrais de seus personagens e permitisse que algumas de suas questões fossem desenvolvidas com a profundidade que merecem.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Bucking Fastard (2026): Herzog e sua fábula de codependência

 

Bucking Fastard | HanWay Films


Como entender a natureza contraditória das coisas? Os cernes das emoções? O desejo do irracional? A vontade de amar e ser amado? De nadar contra a corrente? De se destacar? Existe uma dialética na compreensão, algo não dito nas relações humanas, cuja a maioria, ao longo da vida, consegue decifrar. As irmãs Holbrooke, Jean (Kate Mara) e Joan (Rooney Mara), ainda não conseguem decifrar os outros; mas, em compensação, elas se conectam de forma simbiótica, em uníssono falam, pensam, agem e sonham em comunhão consigo mesmas. Incompreendidas por todos, elas almejam o amor e a liberdade de serem elas mesmas. 

Em Bucking Fastard (2026), Werner Herzog nunca trata suas protagonistas (cujas interpretes são irmãs na vida real) de forma negativa, se na trama há um humor causado pela estranheza, ele está lá e é absolutamente  delicioso, mas o guião nunca põe Jean e Joan como o alvo da piada. Elas são uma representação da natureza. Sua psiquê em comum é diferente das outras pessoas: entre a co-dependência e comportamento obsessivo, elas veem o mundo de uma perspectiva diferente, por mais que, para os demais personagens e até mesmo ao público, tenham uma visão egocêntrica e deturpada. Existe uma certa inocência no cerne do estudo de personagem que Herzog desenvolve que é impossível, aos poucos, não compreendê-las. Seu amor é maior do que si mesmas. Elas vivem das emoções que as retroalimentam e, portanto, precisam da esperança de serem amadas.

Após se apaixonarem por um vizinho galanteador (Orlando Bloom), as irmãs Holbrooke sofrem um escrutino público quando este homem as processa por assédio moral e garante um ordem de restrição, em uma hilariante e estupenda cena de tribunal. Há uma perda de controle, um estrago foi feito. E, de um jeito ou de outro, Jean e Joan precisam pagar o preço de suas emoções e, em um longo processo de auto conhecimento, precisam recolher os cacos de sua destruição moral. Nada é fácil, estão vulneráveis, mesmo presas no seu próprio mundo particular. São mulheres inconvenientes, difíceis de lidar e possivelmente neurodivergentes; mas a câmera nos convida a adentrar seu mundo, a presenciar o dia-a-dia, os abusos, as dificuldades e os desejos das personagens... Aliás, diga-se de passagem de fotografia digital é um melhores feitos nos últimos anos, entendo a noção da profundidade que me parece ter sido esquecida no cinema atual com planos chapados e desfocados.

Herzog usa de uma estrutura fabular para desenvolver o longa-metragem: primeiro uma comédia de erros, e, em segundo, um drama familiar. Existe uma cisão de tom no meio do filme que pode causar o estranhamento para alguns membros da audiência, mas que em nada me incomodou. O trabalho de atuação das irmãs Mara é robusto e convincente, fugindo muito da lógica do casting por publicidade; desenvolvendo suas personagens de um jeito convincente para acreditarmos em seu absurdismo. Acreditamos que as Mara são as Holbrooke e, em momento algum, as colocamos em uma posição de descrença em respeito a atuação. 

Quando o filme enfoca na reconstituição das protagonistas e em sua busca por uma ilha prometida, Herzog vira a chave. Se as irmãs são um símbolo da natureza, pueril e, relativamente, inocente, o mundo quer as destruírem em benefício próprio. Para ele, elas sempre serão vistas como aberrações, como o próprio final da obra sugere. portanto, sua codependência não é somente consigo, mas também com este mundo que as aprisiona, explorando-as. O realizador se coloca na posição de pôr a luz na alteridade e nos mostra como é, de modo desconcertante, é estar nesse lugar. Mas nunca em tom trágico. São pardais a cantar dentro de uma gaiola. Precisam encantar para sobreviver; e sobreviver para sonhar com um  mundo além das grades. Um sonho de liberdade e autonomia.


*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (na fatídica sessão no Cinesystem Belas Artes Botafogo em que, por desleixo da produção do evento, decidiu exibir o filme, falando em língua inglesa, sem legendas para um público brasileiro. O que aconteceu com o pensar no coletivo? Entendi o filme bem, mas mesmo assim não é um bom precedente ao festival... Mais um trauma para a lista!)

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

Club Kid (2026): Amadurecimento e Paternidade

 

Club Kid (2026) | Califórnia Filmes

"You fell in love with America

When you were twelve years old

And by seventeen you knew you had to see it all

You loved your dad and the love he had for your mother so

You had to get out and go chasin' it's sweet call[...]

 And you said, "Hey, do you wanna see the West with me?

'Cause love's out there and I can't leave it be"

And I said, "Honey, love's never meant much to me

But I'll come with you if you're sure it's what you need"

(Ethel Cain - Throughfare)

Sempre existe um antes e um pós. A vida é composta por momentos de viradas que nem sempre acontecerão de forma planeja. Viver é complicado e cada passo é um novo aprendizado, amadurecemos na medida em que envelhecemos. Em Club Kid (2026), filme de estreia do diretor e comediante Jordan Firstman (da fama de Rotting in the Sun e I Love L.A.), filme de encerramento da 28a edição do Festival do Rio, é uma dessas histórias. 

Peter (Firstman) é um promoter de baladas em Nova York que vive uma rotina agitada em boates e inferninhos do cenários clubber da cidade. No auge de seus trinta e poucos anos, nosso protagonista é a alma da festa, mas, no mundo real, é completamente desorganizado: sua rotina é caótica, e abusa do uso de substancias, custando-o a perda de uma sociedade com uma colega influente (Cara Delevigne) da cena nova iorquina. Mas, seu choque de realidade vem quando Arlo (Reggie Absolom), seu filho que não sabia que existia, é deixado na porta de sua casa, após a morte da mãe (com quem, sem querer, Peter fez um ménage em uma darkroom anos atrás). A partir daí, o caldo entorna e Peter precisa, aos poucos, começar a amadurecer e se conectar com o jovem.

Esse é o tipo de projeto que poderia dar muito errado, pelos motivos mais vãos e egocêntricos (já que estamos falando de um estudo de personagem interpretado pelo próprio diretor); porém, Jordan Firstman tem os sensos controlados aqui e não apresenta algum vício de linguagem ou algum sentimentalismo barato que seja prejudicial para a obra. A direção do filme é bem pensada tanto no sentido prático quanto no tom em que precisar dar a narrativa; e o roteiro, também assinado por Firstman, conjuga momentos e interações hilárias (em que vemos Peter lidando a sua nova realidade e pílulas da cena noturna) com momentos mais sóbrios e melancólicos (a conexão entre pai e filho e a possibilidade da perda). 

Duas coisas essenciais para que o filme funciona são: a relação entre Peter e Arlo (vulgo "a criança mais legal do mundo!") que é muito bem desenvolvida, o cerne da trama, e o desenrolar desse relacionamento me pareceu genuíno e lindo; e a construção de uma comunidade LGBTQIAPN+ (e, portanto, do senso de uma) de forma orgânica, a partir de vivências e lugares em comum, sem apelar a estratégias apelativas, como situações de dor e sofrimento, e a abordagens panfletárias, que, às vezes, acometem filmes LGBTs e/ou de temática queer no cinema. Sem isso, o filme, de jeito nenhum, funcionaria. Pequenos atos de candura, de diálogo e de, até, sacrifícios que movem a narrativa e seus personagens. Entrar num mundo e não querer sair. Mas qual será escolha de Peter: a cena clubber ou o bem-estar do filho? 

Em alguma hora, a balança vai começar a pesar e os dados deverão ser lançados. Apesar o filme entrar em certa contradição nos últimos 25 minutos, uma vez que as ações de Peter serão questionados pelas autoridades, existe um diálogo com outros filmes que exploram relação entre pais e filhos, como Ladrões de Bicicletas (1946) de Vittorio de Sica e Aftersun (2022) de Charlotte Wells, por exemplo, em que é preciso um ponto de quebra, de falha e/ou de impotência. Se o filme desenvolve a população queer como uma naturalidade oposta a uma sociedade normativa, é porque nossa sociedade é assim. Não existem grandes perseguições ou uma série seguidas de crimes acometidas para com os personagens (ainda bem, ninguém aguenta mais esse trope!), mas não exclui que o protagonista precisa passar por alguma aprovação pela catarse. 

Porém, a catarse sempre esteve no filme, na forma em que a relação entre Peter e Arlo se desenvolve aos olhos do público. Um estudo de personagem que nos permite ter empatia e se colocar no lugar do protagonista; por mais que as situações fogem um pouco do controle. Club Kid se preocupa mais com seus personagens do que passar alguma crítica social e talvez, seja feliz, assim, no simples. Um filme redondo, competente de um talento que precisamos acompanhar seu desenvolvimento nos próximos anos.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (cuja cabine de imprensa no Estação Claro Rio teve um problema técnico e a obra foi exibida sem o acompanhamento de legendas.)

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 
                                  

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026): Trauma e Raiva na Infância

 

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026) | Retrato Filmes

O mundo de Josephine (Mason Reeves), de apenas oitos anos, parece aparentemente normal: seus pais, sua rotina na escola, seus sonhos, sua aptidão para o futebol. Porém, uma manhã em específico, ela e seu pai (Channing Tatum), vão muito cedo para um parque na região de São Francisco para praticar esportes ao ar livre; algo saudável, útil e parte do cotidiano deles. 

A criança corre na frente do pai e, entre as árvores, perto do banheiro público, ela vê uma corredora entrar lá. Logo em seguida, um homem aparece ali, entra no local, persegue a mulher, a ataca, imobilizando e batendo sua cabeça contra o chão. Desacordada, o sujeito tira a roupa de ambos e começa a viola-la, repetidas vezes. Ela acaba se recobrando, mas ele a enforca durante a penetração, abafando os gritos da vítima. E vemos todo o crime se desenrolar através dos olhos de Josephine, que atordoada, é a única testemunha ocular da ação. 

É dessa maneira em que começa o longa Josephine - Fragmentos de um Crime (2026), dirigido pela diretora brasileira Beth de Araújo, de uma maneira inesperada e brutal. A cena em si é explicita, bem-feita, dolorida e deixou algumas pessoas na sessão da cabine de imprensa um pouco desconfortável (algo, que devo dizer, é raro no cinema contemporâneo atual, em que as ações são higienizadas para o público). Talvez essa o objetivo do filme, começar uma discussão e fragilizar o público; por mais que a diretora acaba repetindo a fragilização, de modo quase gratuito.

Os pais de Josephine (Tatum e Gemma Chan) não sabem o que fazer com a filha, que traumatizada com o ocorrido, se vê perseguida pela sua vulnerabilidade e o medo de estar, em um futuro próximo, na mesma posição do que a vítima. Ela se torna mais fechada, violenta e incompreendida. Seu mundo é incerto. Com o fantasma do abuso a perseguindo, o agressor aparecendo como uma espécie de 'amigo imaginário', e a falta de um apoio psicológico apropriado, Josephine entre num mundo de ódio e indignação, na qual ela não tem maturidade para compreender a raiva que sente; quase se tornando uma proto-femcel no processo, ressentindo ao mundo masculino, revoltando-se com a intimidade dos pais, agredindo colegas importunos e até quase provocando um aborto.

O trabalho de Araújo, quando se concentra em sua protagonista, maravilhosamente interpretada por Reeves, consegue se desenvolver; porém, quando o foco se volta aos pais de Josephine, fica tímido, um pouco banal. Sua câmera se move, tem perspectiva, é ágil em diferentes sequências em que vemos um campo de visão amplo, porém, em outros momentos, o movimento torna-se repetitivo, como um truque. Além de algumas sequências de montagens, bem no estilo videoclipe, que me tiram completamente da narrativa em alguns momentos. Se um filme consegue ser conciso, quando uma mãe diz a uma filha que não consegue curar sua dor, sua raiva, mas que ela precisa doma-la; como, ao mesmo tempo, beira ao um certo fetichismo de sofrimento coletivo para expressar a mesma mensagem? O feminino precisa expressar sua raiva diante de uma tentativa de violência e de feminicídio, um tópico bastante pertinente, mas quando o filme somente quer dar ênfase na raiva, acaba diluindo muito o que tanto almeja: mensagem, catarse e crítica.

O longa-metragem tem seus excessos, alguns bons e outros não, mas quando é direto no ponto e no que deseja dizer, acaba se tornando algo poderoso, especialmente as espectadoras que vivem com o mesmo medo que a protagonista. A mensagem é importante, mas narrativa e forma, também ser levado ao mesmo grau de importância. Felizmente, a obra não acaba se perdendo numa abordagem panfletária e nem num fetiche completo de dor. Talvez, de estilo e narrativa, poderia ter mais sutilezas, mas ainda assim tem ambição de contar não só uma história, um estado de espírito. 

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026.

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Funk - Na corrida pelo seu sonho!

Funk | Paris Filmes

Funk (2026), dirigido por Aly Muritiba, assume com coragem e ousadia a realidade do funk e apresenta ao público a trajetória de uma jovem da favela que sonha em conquistar seu espaço como MC, iniciando sua carreira pelos bailes das favelas cariocas. A narrativa acompanha Sabrina, uma menina que encontra na música não apenas uma possibilidade de carreira, mas também uma forma de expressar seus desejos, sua identidade e a realidade ao seu redor. O longa acerta ao não tratar esse universo de maneira superficial ou estereotipada, permitindo que o funk faça parte da própria construção da história e da identidade de seus personagens.

Um dos grandes destaques da produção está justamente na maneira como seus elementos técnicos são utilizados para construir essa realidade, como por exemplo: a trilha sonora é excepcional e aparece de maneira pontual ao longo da narrativa, não funcionando apenas como acompanhamento das cenas, mas como uma ferramenta importante para desenvolver os acontecimentos e transmitir aquilo que os personagens estão vivendo. A música ajuda a estabelecer o ritmo do filme e, principalmente, a aproximar o espectador do universo de Sabrina. Da mesma forma, a fotografia e a direção de arte contribuem para representar o funk de maneira mais transparente, trazendo para a tela ambientes, estética e elementos que fazem parte desse universo sem tentar suavizá-los ou transformá-los em algo distante de sua realidade.

Duda Santos é outro grande acerto do longa, a atriz consegue prender a atenção do espectador desde os primeiros momentos em que Sabrina aparece e sustenta essa conexão até o final. Existe uma entrega muito evidente ao papel, tanto na maneira como ela interpreta os momentos de vulnerabilidade da personagem quanto na forma como transmite sua determinação e seus sonhos. Duda consegue construir Sabrina com muita maestria, fazendo com que a personagem pareça genuína e permitindo que suas escolhas, inseguranças e conquistas tenham peso dentro da narrativa, é uma atuação que não depende apenas de grandes momentos dramáticos, mas também de pequenos gestos e expressões que ajudam a revelar quem Sabrina é.

A construção dos personagens, inclusive, é um dos aspectos mais interessantes de Funk, o filme consegue apresentar pessoas com sonhos, dificuldades, ambições e contradições próprias, fazendo com que elas existam para além da trajetória da protagonista. Existe uma preocupação em tornar esses personagens reais, com objetivos que fazem sentido dentro de suas próprias histórias e que podem gerar identificação no público. Isso também evita aquela sensação comum em algumas produções de que os personagens secundários existem apenas como “chaveirinhos” da protagonista, servindo exclusivamente para ajudá-la ou movimentar sua narrativa. Ao acompanhar personagens que possuem sonhos possíveis, conflitos reais e diferentes formas de enxergar o futuro, o longa permite que o público se reconheça naquela realidade. Mais do que contar a história de uma menina que deseja ser MC, a produção apresenta pessoas tentando encontrar seu próprio caminho dentro das possibilidades que possuem. Existe inspiração justamente porque o longa não transforma seus personagens em figuras idealizadas: eles são apresentados com suas dificuldades, limitações e desejos, tornando suas conquistas ainda mais significativas.

No fim, Funk encontra sua maior força na autenticidade com que escolhe contar essa história. Aly Muritiba constrói um longa que entende a importância do funk para seus personagens e utiliza seus elementos técnicos para fazer com que esse universo esteja presente não apenas no roteiro, mas também na imagem e no som. A trilha sonora se destaca, a fotografia e a direção de arte ajudam a estabelecer uma identidade própria, enquanto Duda Santos entrega uma atuação extremamente envolvente como Sabrina. É um filme que abraça seu universo sem medo e encontra justamente nessa autenticidade uma de suas maiores qualidades.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Feito Pipa - Carta de amor, brilho e liberdade à infância

Feito Pipa | Paris Filmes

O longa brasileiro dirigido por Allan Deberton e estrelado por Yuri Gomes e Lázaro Ramos, acompanha Gugu, um menino de 11 anos que vive com sua avó Dilma nas proximidades de uma barragem. Enquanto o garoto aproveita sua infância com a coragem e a curiosidade próprias de sua idade, Dilma começa a enfrentar o avanço do Alzheimer, fazendo com que as lembranças e a própria percepção da realidade se tornem cada vez mais frágeis. Conforme a condição da avó se agrava, Gugu passa a esconder o que está acontecendo por medo de ser afastado dela e acabar vivendo com o pai, um homem homofóbico. Entre momentos de afeto, descobertas e o inevitável avanço do esquecimento, o filme acompanha a relação dos dois diante de um futuro cada vez mais incerto.

É justamente a partir dessa relação que Feito Pipa constrói sua narrativa, encontrando sua principal força na perspectiva de Gugu. Ao longo da história, acompanhamos não apenas a deterioração da memória de Dilma, mas também o amadurecimento precoce de um menino que tenta lidar sozinho com uma situação que ultrapassa aquilo que sua idade deveria exigir. A produção apresenta ainda uma representação do Ceará que foge de algumas imagens mais recorrentes associadas ao estado no cinema, trazendo uma região mais genuína, viva e próxima de seus personagens. Essa ambientação contribui para que o longa encontre uma identidade própria e faça do cenário uma parte importante da experiência.

Por outro lado, essa própria escolha acaba sendo parcialmente compensada pela maneira como Yuri Gomes domina as telas, o ator entrega um Gugu extremamente envolvente e consegue fazer com que o espectador acompanhe a história quase inteiramente através do seu olhar. Sua interpretação estabelece uma conexão tão forte com o personagem que passamos a compartilhar sua percepção sobre as pessoas ao seu redor, conhecendo-as conforme ele as conhece. Isso faz com que o público nem sempre tenha tempo para construir suas próprias conclusões sobre os demais personagens, já que a narrativa está constantemente filtrada pela experiência de Gugu.

A relação entre Gugu e sua avó, interpretada por Teca Pereira, é outro grande destaque, a química entre os dois é impressionante e existe uma naturalidade na maneira como Yuri Gomes e Teca Pereira dividem a tela, que faz parecer que ambos nasceram para aqueles papéis. A relação de avó e neto é construída com afeto, cumplicidade e também com uma emoção que não depende de grandes discursos para funcionar. Pequenos gestos, olhares e momentos compartilhados são suficientes para transmitir a importância que um tem na vida do outro. É uma dinâmica que consegue criar alguns dos momentos mais emocionantes do filme justamente porque parece verdadeira.

Feito Pipa entrou na corrida brasileira pelo Oscar 2027, algo que também acrescenta uma dimensão importante à trajetória do longa. A produção possui características que podem representar muito bem o cinema brasileiro internacionalmente, principalmente pela maneira como transforma uma história profundamente particular em uma experiência capaz de dialogar com temas universais, como família, memória, afeto, amadurecimento e pertencimento. Mais do que levar uma produção brasileira para uma premiação internacional, o filme tem a oportunidade de apresentar ao público estrangeiro uma narrativa marcada por personagens genuínos e por uma representação do Ceará que foge de estereótipos. É justamente essa identidade própria que faz com que o longa tenha potencial para ser um representante bastante significativo do Brasil nessa corrida. 

Feito Pipa encontra em Yuri Gomes seu grande ponto de equilíbrio. O ator domina a narrativa e transforma Gugu em um protagonista carismático, envolvente e capaz de conduzir o espectador por sua própria perspectiva. A relação construída com Teca Pereira é outro grande acerto e entrega uma das conexões mais fortes e emocionantes do filme. Embora alguns personagens secundários deixem a sensação de que poderiam ter sido mais desenvolvidos, a força da dupla central compensa parte dessas limitações. É um longa que encontra sua identidade na simplicidade das relações e, principalmente, na capacidade de fazer o público enxergar aquele universo através dos olhos de Gugu.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Morra, Amor (2025) - O Grito de Dor de Uma Mulher em Chamas

 

Morra, Amor (2025) | Paris Filmes, MUBI

Como é possível apagar um fogo incontrolável que há de queimar pela vegetação seca? Como sufocar a explosão do desejo, sem nenhum tipo de efeito colateral? Como respirar se você se sente sufocada em uma nova posição, que nunca havia cogitado de estar ali? Como é a sensação entre andar entre a realidade e o pesadelo? Como é a diferença entre a memória e a ficção? Como é ir contra a sua natureza?

São questões que o longa-metragem Morra, Amor (Die, My Love, 2025), da realizadora Lynne Ramsay, se propõe a fazer ao público. O filme é baseado no livro de mesmo nome de Ariana Harwicz, tem produção do Martin Scorsese e tem um elenco ancorado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, dois atores que cultivaram um público desde a década passada e que tiveram carreiras bem sucedidas, fora das franquias que os lançaram ao estrelato. A escolha de Lawrence e Pattinson é inspirada e cheia de energia, com química exorbitante, a sinergia entre as personagens em cena é algo selvagem, quase animalesco, e difícil de ser domado.

Grace (Lawrence) acaba de ser mãe de primeira viagem. Aspirante a escritora, decide sair de Nova Iorque em busca de uma vida mais calma e se muda para a antiga casa de infância de Jackson (Pattinson), seu marido, na zona rural de Montana. A casa originalmente era do tio de Jackson que acabou tirando a própria vida na propriedade; além disso, durante a gravidez que Grace, descobrimos que o pai dele (Nick Nolte) também sofre de Alzheimer, o que acaba também deixando uma marca na mãe, Pam (Sissy Spacek).

À princípio, tudo vai bem. Aparentemente. Grace e Jackson conseguem se adaptar a vida de pais de um recém nascido, sem perder a identidade; mas, após o primeiro trimestre, ela começa a enfrentar sentimentos de isolamento espacial e psicológico, afetando seu trabalho como escritora, e se dedica exclusivamente ao bebê. Ou seja, ela fica isolada dentro de casa por horas, com pouquíssimo contato com outras pessoas e Jackson começa a se mostrar cada vez mais displicente com o passar do tempo. Com a saúde mental em declínio nesse período de pós-parto, a realidade do casal vai levando o relacionamento a um território instável.

A narrativa transita entre o drama psicológico e o humor ácido, porém sutil, para desarmar seu público, dando ao projeto um sabor e uma identidade própria; uma mistura bem balanceada pela equipe de roteiristas (Ramsay, Alice Birch, Enda Walsh) e pela direção, trazendo a temática da depressão pós-parto para um lado cru, mas sem cair no melodrama exacerbado. 

O exercício de personagem aqui é investigar como alguém tão cheio de vida como Grace possa se encontrar nas amarras da depressão e perder-se dentro si, seguindo migalhas no labirinto da mente; e o desespero, não só para ser amada e compreendida, de se entender como pessoa, após uma nova etapa na vida. Sua depressão é calcada em uma disformia mental: uma pessoa que passa a narrativa em busca do próprio reflexo; mesmo que nós, os espectadores, a vemos nua de corpo e alma. Grace grita, briga, chora, destrói, sofre com uma repressão sexual, tem tendências violentas e autodestrutivas, sua mente lhe prega peças, enquanto, automaticamente, a colocam dentro de uma caixinha, no qual ela deve se contentar. Mas que nunca será suficiente. Ela é muito mais do que só uma mãe. Em primeiro lugar, é uma mulher livre (e quase um arquétipo de uma personagem da Lana Del Rey, se pararmos para pensar um pouco... This Is What Makes Us Girls, Let Me Love You Like a Woman, Wildflower Wildfire, e por aí vai).

Ramsey e Lawrence constroem a personagem de Grace dentro de um prisma dialético do psíquico e do onírico, da carências dos prazeres; histórias que ela ouve de pessoas fazendo atos estranhos e pessoas misteriosas que aparecem em seu caminho, ocupam sua mente, enquanto isso, os dias passam tediosamente e sua realidade parece ficar cada vez mais sem vida, sem gozo. Jackson não a ajuda muito; não reconhecendo que há algo de estranho com a esposa e tomando algumas ações que mais contribuem para o problema do que para solucioná-lo, de fato. A única personagem que consegue enxergá-la seja a sogra Pam, com quem há um grau de cumplicidade enquanto mulheres cis e mães, que lidam com os efeitos colaterais da maternidade e tudo aquilo que acarreta.

Talvez o grande problema do filme esteja justamente em sua estrutura cíclica que acaba por repetir, muita das vezes, os temas abordados do projeto sem que haja um desenvolvimento mais direto e claro, deixando a sensação ao espectador que o filme esteja insistindo muito no que quer dizer; e no processo de montagem, cujo ritmo perde fôlego considerável, contribuindo na característica repetitiva e um tanto truncada da narrativa. Isto, honestamente, pode fazer com que parte do público tenha problemas de fruição ao longo de sua duração.

Mas, apesar disso, é um filme que vemos um cuidado, entre o artesanal e o industrial, que Ramsey tem. Em termos temáticos e formais, vemos que há um contraponto entre Morra, Amor e Jeanne Dielman (1975): se Akerman realiza uma fábula rigorosa sobre a rotina entediante de uma mulher viúva de meia-idade numa grande metrópole, aqui temos o inverso; a cidade torna-se o campo, a selva de concreto contra a natureza, a filmagem estática ganha movimento, a mecanicidade das ações dá o espaço ao naturalismo e ao imprevisível, a linearidade e o psicológico... A única coisa em que as obras se conversam é na realidade das mulheres que são confinadas em uma realidade doméstica, relegadas a uma subvida, a uma função. Se Seyrig tem uma performance contemplativa, a de Lawrence é explosiva, deixando-a um pouco próxima de Gena Rowlands, por exemplo. 

Porém, é claro, isto trata-se somente uma divagação temática, que me pareceu apropriada neste momento, pois uma comparação, de fato, concreta poderia, por enquanto, soar um pouco injusto de minha parte. Mas enfim...

Morra, Amor é uma explosão que ousa queimar forte e acaba se queimando um pouco no processo; representa a ideia de uma mulher que grita para o universo e não é correspondida, é o desespero fragilizado de uma pessoa que sofre com o apagamento e a solidão. Um sonho que se transforma em pesadelo febril, contraditório da falta do ser. Ou, como diria Mario de Sá-Carneiro em seu poema Dispersão: "E hoje, quando me sinto, é com saudades de mim.\Passei pela minha vida feito um astro doido a sonhar"; enquanto, nas Heroicas, Hilda Hilst diria: "Mil vezes me refaço e me recrio de dor".

É um filme que, mesmo com a mensagem martelada, ainda tem algo a dizer de interessante sobre maternidade, o papel da mulher e a depressão pós-parto, que foge de um convencionalismo barato e, demasiadamente, esvaziado. A atuação de suas protagonistas eleva a experiência da obra, que é daqueles tipos de filmes que crescem (ou não) durante uma revisão com o passar do tempo. A sensação que fica que é um filme escrito com tinta e leite. Amor incondicional não é a solução.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

The Mastermind (2025) é a balada de um himbo alienado

 

The Mastermind (2025) | MUBI, Imagem Filmes

Imagina o seguinte cenário: estamos no meio-oeste americano, nos anos 1970. O presidente é Richard Nixon e os Estados Unidos estão no meio da contracultura e da guerra do Vietnã. O clima é tensão e de crise no ar. Mas JB Mooney (Josh O'Connor) não poderia se importar menos com isso, afinal ele tem outras coisas em mente. 

JB era um promissor um aluno de artes visuais que desistiu da cadeira e agora ele trabalha mal ou bem como marceneiro. Ele mora em uma cidade de Massachusetts, é casado com Terri (Alana Haim), com quem tem dois adoráveis filhos, um deles, Tommy (Jasper Thompson), é muito ligado nele. Além disso, não tem uma boa relação com o pai (Bill Camp) que é um juiz e, eventualmente, recorre à mãe (Hope Davis) por um dinheiro extra. Apesar da esposa trabalhar como secretária, ele fica à deriva, largado entre trabalhos.

Em uma visita do museu de arte local, JB fica fascinado por uma série de pinturas abstratas de um artista ligado ao seu passado. E, ao perceber que a segurança da sala em que obras estão expostas é bem ineficaz, ele começa a maquinar um plano, um tanto ingênuo, de roubar estas pinturas do museu para revendê-las no mercado clandestino. Ele pega mais uma quantia com a mãe, monta um esquema e uma equipe bem precária, porém de mestre do crime, ele não tem nada. E o tiro pode sair pela culatra.

The Mastermind (2025), que acabou de passar no Festival do Rio e chega nos cinemas dia 16/10, é o novo filme da diretora Kelly Reichardt. Os filmes de Reichardt são contemplativos e que tomam um tempo antes da narrativa engrenar de fato (caso o espectador não estiver familiarizado com seu estilo), mas a sua construção de personagens é tão cativante que torna-se o principal fio condutor de suas narrativas. Ou seja, o estudo de personagem é o que sustenta suas obras. 

Existe uma certa ironia no título do longa, pois JB acha que tem o controle meticuloso de todo o esquema que arquiteta, mas fundo é ele quem está menos preparado. A performance magnífica de Josh O'Connor brilha com essa personagem passiva e ambiciosa, de expressão paciente e perdida. Reichardt desenvolve os desejos e as motivações da protagonista para cometer tal crime, mesmo não perdendo o tom cômico que impregna na obra. Se ele apresenta de forma "apolítica" no exterior, JB faz parte de uma geração perdida, alienada, que está na corda bamba; seus desejos são frustrados e encontra, no sentimento de rebelião moral, uma reinvenção própria. 

Comete o crime para se reconectar com quem ele havia sido antes, porém as pessoas mudam; e essa busca pela esta imagem passada é vã. Por mais que a personagem de O'Connor seja patética aos olhos do público, a direção consegue dar uma dimensão emocional que nos faz sentir empatia por ele, ao focar nos seus dilemas morais, como um retrato de uma "americana" decadente durante um período histórico turbulento. O american way of life é deprimente, e todo departamento de design de produção e de fotografia deixam isso aparente com muitos tons frios e terrosos. A vida quase sendo uma natureza morta. E trilha sonora de jazz é potente, os sons de Rob Mazurek dão uma vida ao filme que contrasta com seu visual pálido.

Além de O'Connor, o elenco está muito bem de forma geral. Alana Haim tem um performance bem contida, mas que consegue transparecer todas as inseguranças e sentimentos de sua personagem, principalmente relacionadas ao seu casamento. As crianças que fazem os filhos de JB, Sterling e Jasper Thompson, são carismáticos e uns amores em tela. Mas também gostaria de ressaltar a ponta de John Magaro e Gabby Hoffmann que fazem um casal de amigos de JB, com quem ele encontra durante sua fuga da polícia.

Reichardt cria aqui uma comédia de erros, que não deseja transformar sua protagonista em uma caricatura, mas como uma representação de uma geração alienada em meio a uma crise. Uma personagem que se reinventa, mas sem consertar os erros. A busca pela moral de um homem precipitado. A busca pelos fantasmas do passado em meio a um futuro incerto. Uma tentativa de homenagem a Louis Malle e Robert Bresson. Tem ironia, mas, debaixo de todo o frio, também há um coração.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 27o Festival do Rio, realizado em 2025, visto em cabine de imprensa.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

Valor Sentimental (2025) mostra que a ferida é profunda

 

Valor Sentimental (2025) | MUBI

A casa é uma personagem, um ponto de referência. Dentro do seu espaço delimitado, mas nunca parado, pode conter diversas histórias, pessoas e traumas que faz parte de sua genealogia. Suas fundações são o palco em que outras narrativas se desenvolvem ao longos dos anos, décadas e séculos. E elas deixam marcas, rachaduras que, se cuidar bem delas, podem ser remediadas. A casa da família Borg, que sobreviveu por gerações, é uma delas.  
 
O diretor de cinema, Gustav (Stellan Skarsgård), morava lá com a esposa e as duas filhas, Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). Os pais não se davam bem e a relação afundava tão violentamente que este desentendimento afeta principalmente Nora que irá desenvolver um problema gravíssimo de ansiedade e de depressão. E após o divórcio, Gustav se torna o famoso "pai ausente" da família; muito mais focado no trabalho do que no cotidiano das filhas.

 Anos se passam, as filhas se tornam já adultas e independentes, Nora se torna uma atriz, enquanto Agnes, que atuou em algumas obras de seu pai quando criança, é uma pesquisadora acadêmica. E a mãe delas, que ainda morava na casa, falece. E com isso, Gustav volta ao cotidiano da família. Para o pavor de Nora, que tem assuntos não bem resolvidos com seu pai, ele oferece a ela o papel principal de um novo projeto que, em teoria, teria a ver com a história da família. Achando que Gustav está tentando se aproveitar do momento atual, ela recusa, com uma certeza absoluta, o papel. 

No entanto, em uma viagem de trabalho Gustav acaba conhecendo a atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning) que é fã justamente do filme que ele faz com Agnes vários anos atrás. E, depois disso, ele volta a Noruega com o financiamento do filme e com Rachel no papel principal, o que abala as estruturas emocionais de Nora e de toda dinâmica familiar.

Valor Sentimental (2025) é novo longa de Joachim Trier, no qual ele repete a parceria com a Renate Reinsve no papel principal e com o roteiro de Eskil Vogt de seu projeto anterior, A Pior Pessoa do Mundo (2021). Se Trier e Vogt exploram a vida e o crescimento pessoal e emocional de uma personagem na obra passada, agora eles exploram todo um micro ecossistema com mais agentes para brincar. Todas as personagens -  Nora, Gustav, Agnes e Rachel - possuem um arco narrativo que se entrelaçam entre si. Elas investigam, de uma forma ou outra, as feridas que atormentam a sua psique. 

Existe uma certa homenagem ao trabalho da obra de Bergman em certos momentos e planos: o uso de um ambiente central, das imagens do duplo, dos perfis destacados, os pontos de vista; em especial, ao filme Gritos e Sussurros (1972), que a dupla criativa constrói, sem deixar uma visão autoral de lado. De fato, as alusões existem, mas são sutis e não dominam a trama vigente. Gustav poderia ser qualquer diretor aclamado com relacionamento familiar disfuncional, e não necessariamente uma caricatura direta do diretor sueco. Afinal,  há exemplos deste "tipo" de personagem para fora da Escandinávia, um certo "apelo universal" se podemos dizer assim. 

Mas isso é uma cereja de um saboroso de um bolo que é preparado com um tempo, de sabores complexos, e bem estruturado. A direção de Trier continua sendo bastante forte e o roteiro de Vogt tem uma maturidade impressionante. Se A Pior Pessoa tem uma energia ligada a juventude, Valor possui uma contemplação geracional que fisga o espectador pela construção de personagem e a dinâmica articulada aqui.

Nora e Gustav, atriz e diretor, são comunicadores culturais, porém não conseguem falar aquilo que um pensa sobre o outro. Há uma tentativa, mas as feridas abertas, ainda cobertas de sangue e sal, não os deixam falar. Suas almas gritam pelo anseio pela comunicação, mas os corpos travam, criam barreiras em que as duas partes não se encontram no meio. Se Renate Reinsve encantou o público com a sua Julie no longa anterior do realizador, aqui, como a introspectiva Nora, ela dá o outro lado da moeda. Existe algo muito palpável em sua performance que toca lugares profundos, sem cair em maneirismos e exageros na atuação. Ela consegue capturar a sensação da personagem estar sem chão que é arrasadora. 

E não muito longe do departamento da atuação está o veterano Stellan Skarsgård, que rouba a cena com o carismático Gustav aos olhos públicos, mas que esconde dentro de si aquele olhar de uma tristeza profunda. Sua personagem se depara com o legado de sua carreira que, apesar da importância, não há novo durante décadas e com a própria brevidade da vida. Tem pose de bon vivant, mas, no fundo, existe uma solidão que paira sobre sua cabeça. Skarsgård está no seu melhor papel de sua carreira até agora e rouba a cena quando aparece.

Também é preciso destacar as performances de Lilleaas e Fanning que estão ótimas em seus respectivos papéis. Agnes é a mediadora de Nora e Gustav e, ao saber que o pai quer escalar seu filho no projeto, ela vai atrás da história de família para tentar descobrir as intenções do texto de Gustav. Agnes é linha que liga a narrativa principal com a subtrama da qual somos introduzidos no início, através dela descobrimos marcas e traumas do passado que fizeram parte da história da genealogia familiar. Ela é mensageira de algo maior. 

Enquanto isso, Rachel, uma outsider, enfrenta problemas com a construção de sua personagem. Apesar de dar seu melhor, ela sente que algo está errado com projeto. Seria que ela entende o texto decifrado de Gustav ou seria ela o problema? A pessoa errada no momento errado? Qual seria o verdadeiro significado a esta personagem?

 Em suma, Valor Sentimental triangula gerações de família e de artistas para tocar temas que transpassam aspectos públicos e privados. É um conto sobre traumas e questões existenciais. A possibilidade plural da arte em tocar em assuntos sensíveis ou pessoais. De certa forma, um filme performático, cujas páginas do roteiro são a vida de suas personagens. Um trabalho maduro e sólido.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 27o Festival do Rio, realizado em 2025.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

O Riso e a Faca (2025) viaja pelos diversos universos da Guiné-Bissau

 

O Riso e a Faca (2025) | Vitrine Filmes

A Guiné-Bissau conquistou sua independência do colonialismo europeu em 1973. O país se divide no continente e as ilhas ao redor. Antes da chegada dos portugueses, a região integrava o Reino de Gabu (1537-1867) e o Império Mali (1235-1670), habitada pelas etnias balantas, fulas e malinquês. Mesmo com uma ávida resistência, se tornou um entreposto, junto com Cabo-Verde, das rotas dos navios negreiros e se tornou uma região negligenciada pelos europeus. E, ao contrário de Angola e Moçambique, por exemplo, é uma nação rural (caboverdianos, por exemplo, a enxergam historicamente como uma "roça") e focada na agricultura. Além disso, a região é englobada por colônias francesas com grupos islamizados. 

A partir do século XIX, a situação pirou: a mão da metrópole pesou nas colônias africanas, após a independência do Brasil, o que causou em uma série de violências físicas e institucionais (o estatuto de indigenato, o regime de contrato) que se perpetuaram no século XX com o regime salazarista. A libertação só foi possível através de uma luta armada  que durou entre 1963 a 73 e Portugal somente reconheceu a independência, em 1974, após a morte de Salazar. No entanto, o país tem um histórico recorrente de instabilidade política, no que resultou em uma Guerra Civil no final dos anos 90. Não é à toa que a produção tem a participação da poeta Odete Semedo (1959-) em uma ponta em que sua personagem reconta na língua criola as dificuldades de seus ancestrais durante esse período.

Portanto, temos aqui um nação com um passado rico, um trauma colonial, uma história de resistência política e problemas políticos e econômicos. E é neste cenário diverso que Sérgio (Sérgio Coragem), um engenheiro ambiental bissexual português, vai acabar se deparando em O Riso e a Faca (2025), o novo épico do diretor Pedro Pinho. O filme é uma coprodução entre Portugal, Brasil e França, participou da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, em que ganhou prêmio de atuação feminina. E o mais importante para o público que for conferir, ele tem três horas e meia de duração; o que pode ser um empecilho para alguns espectadores, mas ainda é uma obra engajante.

Bem... Sérgio viaja de carro desde Lisboa para Bissau, atravessando o deserto do Saara, para trabalhar a serviço de uma ONG para conduzir um estudo ambiental sobre a viabilidade de uma construção de uma nova estrada que conecta o litoral do país até o deserto, de modo que passe pelas várias aldeias do interior. Muitos cidadãos são favor e outros são contra a construção. O problema é que a construção não pode causar o desmatamento de uma área e nem afetar a prática do cultivo do arroz, feita de maneira milenar e artesanalmente por meio de barragens, e ela tem que começar antes do período das chuvas. O que bota uma baita pressão nas costas de Sérgio, uma vez que o benfeitor da obra quer que ela comece o mais rápido possível.

Além disso, o caminho dele irá se cruzar com mais duas personagens importantes para a narrativa: Diara (Cleo Diára), uma jovem que vive fazendo corres de compra e revenda pelos centros urbanos da Guiné-Bissau e Guilherme (Jonathan Guilherme), um imigrante brasileiro que tenta se reconectar com suas raízes e mantem, junto com Diara, uma espécie de salão-bar no subúrbio da cidade. E obviamente, Sérgio irá gravitar entre os dois de modo que não sabem quais são suas verdadeiras intenções desse europeu recém chegado. Enquanto conduz a sua pesquisa, Sérgio vai começar a criar uma paranoia, um certo medo de que algo ruim está prestes a acontecer com ele.

Pedro Pinho tem um material rico em mãos e tem a ambição de explorar diversas facetas e histórias que a terra de Guiné-Bissau tem a oferecer. A direção tem um olhar quase semidocumental, com olhar antropológico, e o roteiro colaborativo escrito por 10(!) roteiristas transmite tal ambição, embora, ao mesmo tempo, ponha o trabalho em uma posição vulnerável, uma vez que muitos chefs na mesma cozinha possa dar errado. Mas o tempo de tela consegue dar o foco necessário do ponto A a Z, sem que haja uma parte subdesenvolvida. 

O que acontece é o contrário. Muitas as cenas do longa são bastante longas com direitos a monólogos e com direito a grandes momentos de atuação, que são ótimos, mas seguidos de um após outro se torna um tanto cansativo numa primeira vista. Porém, a atuação naturalista dos atores segura muito bem a bola que a direção joga a eles, principalmente a cativante Cleo Diára que é magnética em cena.

Sérgio, apesar de ser bem presente no cotidiano das pessoas que estão ao seu redor, seja na capital, seja nas aldeias, seja com as equipes de construção, seja com pessoas em posições vulneráveis do que ele, tem duas grandes questões: é muito ingênuo - a ponto de cometar as mais diversas gafes - e, a pior coisa que um branco possa fazer em um país africano, tem uma síndrome de salvador. Ele é a caricatura de uma geração que pensa ser descontruída, mas de desconstrução não tem nada (como aponta uma trabalhadora do sexo, provavelmente traficada, em dado momento da trama).

É essa característica do engenheiro que remonta a um passado do pensamento civilizatório colonial que Gui e Diára identificam de cara e nunca estão 100% à vontade com ele, por mais que haja uma atração das duas partes pela mesma pessoa. (O momento em que Diára fala: "Sabes que eu acho nojento, Sérgio? Nojento é poder recusar 150 mil euros e depois sentir-se melhor consigo." está gravado na minha mente até agora)

Além disso, filme também discute sobre a questão a "mãe África" e o do pensamento do pan-africanismo através da personagem de Gui, que se instala em Guiné-Bissau em busca de uma ancestralidade perdida e tem um choque de realidade ao interagir com a população nativa que não o vê com um deles. O que para um público brasileiro, promoveria debates interessantes sobre percepções etnoculturais dentro dos espaços da negritude.

O Riso e a Faca é um conto sobre a cacofonia de uma terra pilhada de suas tradições e culturas e a falta de conexão do ser e o espaço. É sobre dicotomia entre o que deve ser preservado e o progresso promovido pela restrita burguesia. É sobre laços que são atados e desatados, uma correnteza que puxa as pessoas uma com as outras. O retrato de uma terra que ainda está sendo pilhada em nome do progresso neoliberal. A dicotomia e contradição de um povo. Conflitos de interesses. O passado e o futuro na balança. O que resiste é são as relações que são feitas naquele espaço e tempo. Assim que Sérgio compreender isso, ele pode se livrar as amarras do passado colonial, enxergar o que realmente importa e ter uma chance de ficar em pé de igualdade com os nativos. Uma nova perspectiva. É um filme que viaja pelos diversos universos da Guiné-Bissau e a jornada, por mais que instável, é recompensadora.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 27o Festival do Rio, realizado em 2025, visto em cabine de imprensa.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

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