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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Feito Pipa - Matéria de Laisa Lima (Festival do Rio 2026)


Feito Pipa | Paris Filmes

Considerado um destaque do Festival do Rio em 2026, o filme “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, é uma fábula sobre amadurecimento, liberdade e leveza, ambientada no interior do Ceará. Através dos olhos de Gugu (Yuri Gomes), uma criança que se afasta dos padrões de masculinidade por ter trejeitos e gostos ditos “femininos”, vivendo sua infância do jeito inocente que ela deve ser, encontramos ensinamentos valiosos sutilmente colocados na tela. Enquanto a avó Dilma (Teca Pereira) representa o acolhimento de um colo sempre compreensivo, o pai Batista (Lázaro Ramos) evoca a figura autoritária de quem ainda vive preso aos moldes sociais julgados “aceitáveis” para o comportamento de um menino.

Entretanto, a magia de viver livre ao lado de alguém igualmente empoderado e vaidoso, como Dilma, se esvai para Gugu no momento em que o Alzheimer da avó passa a representar um risco para o bem-estar dos dois. O personagem, então, necessita encarar os padrões retrógrados de Batista quando passa a conviver com ele, sendo, assim, privado de uma realidade cheia de cor, tal qual era de costume. Apesar disso, as vestimentas purpurinadas e a autenticidade de Gugu nunca são deixadas de lado.

Para entender melhor a criação do universo leve e descontraído do protagonista — levando em consideração a narrativa dramática por si só —, a KOROFILMES conversou um pouco com o diretor, Allan Deberton: “De inspiração, eu tiro o cinema em que acredito, que é aquele que diverte, mas também transforma; que fala sobre a intimidade de seus personagens com verdade acima de tudo.”

O enredo de “Feito Pipa” parece simplório, sem rodeios. É aí que está a mágica do longa-metragem: retirar de uma história cotidiana, que abarca o passar do tempo, suas consequências e a infeliz realidade de indivíduos que não podem ser o que são, um diamante lapidado.

“Gosto muito de histórias simples e gosto muito de histórias às quais eu pertenço. Eu cresci no interior do Ceará, e o roteirista André Araújo também, então é um lugar de pertencimento. Tudo isso traz uma verdade”, diz o diretor.

O filme, tratado com delicadeza ao abordar temáticas que requerem maior cuidado e seriedade, torna-se uma grande lição por não abandonar o foco de ser visto por intermédio de uma criança. Apesar de todo o sofrimento, Gugu enxerga situações complexas, como o avanço da doença da avó, com imaginação e boas doses de esperança. A direção reforça esse sentimento ao exibir um Ceará vivaz, na paleta de cores escolhida, e contemplativo, devido às várias panorâmicas.

Segundo Allan: “O filme fala sobre conversa. É muito importante que a gente tenha um olhar muito aberto sobre a necessidade do brasileiro de conversar, respeitar o outro e respeitar as diferenças.”

A respeito da representação do Alzheimer na personagem da brilhante Teca Pereira, Deberton diz: “É preciso ter um olhar atento para a terceira idade, um olhar de cuidado e atenção.”

A KOROFILMES também esteve com o intérprete de Gugu, Yuri Gomes, que enfatiza a importância da obra para os pequenos: “O Gugu tem a ensinar que nós, crianças, temos, sim, que sonhar e ter respeito pelo outro. Não podemos desistir dos nossos sonhos.”

O ator mirim sintetiza em poucas palavras o conceito do filme: “Tem a ensinar a ter mais apego aos seus familiares e não dar ouvidos à negatividade dos outros, porque não vai te trazer coisas boas, só vai fazer você ficar mal.”

O artista completa: “Persista na sua carreira e nunca desista dos seus sonhos. Se você quiser dançar, dance. Você é livre, pode ser o que quiser.”

Engrandecido por ótimas atuações, principalmente do trio principal (Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos), “Feito Pipa” é um deleite para quem possui uma sensibilidade aguçada. Tocante e divertido na medida certa, a produção, indicada para levar o Brasil até o Oscar em 2027, provoca questionamentos pertinentes, levando o espectador a uma viagem filosófica sobre os valores de comunidade e amor aos demais. Sob a ótica infantil, toda tristeza pode ser revertida em criatividade; não há situação, por mais difícil que seja, sem escapatória. Na verdade, o que existe é a capacidade de mostrar-se ao mundo sem tabus ou preconceitos; é levar uma vida em que o colorido vence o taciturno de forma incansável.

Autora:


Laisa Lima 

25 anos, formada em cinema, roteirista, crítica, videomaker e moradora do Rio de Janeiro, minha paixão pelo cinema transcende as telas. 
De “Guarda-Chuvas do Amor” até “Laranja Mecânica”, meu amor pela arte não se prende a nenhum gênero, mas sim ao que me toca. 
Também sou apaixonada pelos pormenores da vida, que se apresentam sem nenhum roteiro. 
Logo, imaginação não falta em mim. 
Sou de tudo um pouco, e procuro sempre expor minha versão mais democrática, que enfrenta a realidade com a maior criatividade possível.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Entrevista com Laura Mora (cineasta) realizada na Mostra de SP - Rodolfo Vieira

Laura Mora


KORO FILMES(Rodolfo Luiz Vieira): Gostaria de perguntar primeiramente: qual foi seu primeiro contato com o cinema brasileiro?

LAURA MORA: Essa é fácil, foi Glauber Rocha. Continuo fã dos seus filmes, e ainda os revisito bastante. E eu acho que foi isso que me fez perceber o quão perto são nossas culturas, as duas nações (Colômbia e Brasil). Ainda penso que as perguntas que ele faz acerca do cinema e da forma de se fazer cinema guiaram meu trabalho.

KF(Rodolfo Luiz Vieira): Você pensa que o cinema latino está ganhando mais espaço no escopo do cinema mundial com o Oscar de Ainda Estou Aqui e outros filmes ganhando atenção do publico?

LM: Eu penso... Tem uma coisa eu realmente amo sobre o que está acontecendo com o cinema latino agora, e é realmente diverso. Não conseguimos falar sobre um cinema, tem muitos cinemas, apenas por dizer. Eu penso que isso pode mostrar nossas diferenças, embora temos cicatrizes e dores que unificam nosso continente. Eu penso que festivais e o Oscar são pontos especiais em um meio contraditório. E também as plataformas como Netflix, onde filmes depois de irem a festivais e ao cinema, eles podem ir às plataformas. Tenho assistido mais cinema latino por causa disso do que costumava, porque os países não compartilham muita distribuição, distribuição nos cinemas, digo. É o que falo.

KF(Rodolfo Luiz Vieira): Como você acha que a Mostra pode mostrar o cinema latino ao mundo?

LM: Eu digo, a Mostra é um festival muito importante para nós. É uma forte tradição cinematográfica. E é muito grande. Não temos um festival desses em nenhum dos outros países. Penso que quanto mais filmes latino americanos são apresentados na Mostra, temos mais conversação para nos reconhecer melhor como latino americanos, também.

KF(Rodolfo Luiz Vieira): Última pergunta: Que mensagem você dá para cineastas latino-americanos jovens? Que tentam ganhar espaço.

LM: O que diria é que é um caminho difícil. Seja regulado tanto quanto apaixonado... Leia muito, não apenas assista filmes. Seja curioso com o mundo, e seja contra também.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

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