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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Relâmpagos de Críticas, Murmúrios de Metafísicas - Não Entre Em Pânico

Relâmpago de Criticas, Murmúrios de Metafísica | TB Produções


“Ao transpor a porta para a rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos.”

— Memorial de Aires, Machado de Assis

Júlio Bressane, diretor do longa, utiliza durante toda a rodagem apenas sequências de filmes brasileiros já lançados – sejam eles de sua autoria, ou não. Neste seu projeto, são utilizados 48 filmes, o primeiro de 1898 e o ultimo, de 2022.

A odisséia da invenção sem futuro nas terras brasileiras não é tratada como uma jornada de resistência. O cunho poético de Bressane jaze justamente no ponto em que durante todo período em que possuímos o cinematógrafo, a arte de gravar foi impossível.

Limite, Carnaval da Lama e Signo do Caos. Três filmes de épocas distintas, que são juntados na rodagem do filme de Bressane, são obras que não estão em uma memória. Tudo que está em tela, não é aquilo que estava na película, a memória do cinema brasileiro já nasceu morta.

Em um país onde sempre houveram dificuldades em gravar, o cinema só passou a ser visto como resistência em um período onde o cinematógrafo se tornou mais acessível que o pincel e a tela. Mas por quê?

Bem, a arte, como já pontuada por Bressane, não é resistência, é uma anomalia. “Sem Essa, Aranha”; “O Anjo Nasceu” e “Copacabana Meu Amor” são, portanto, filmes políticos. “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui” não são filmes político, são tentativas de resistência (veja que não faço juízo de valor às obras, só estou constatando).

A obra de Bressane é, portanto, política? Diria que sim, mais poética que política, mas é de fato política em sua essência. Mas não entre em pânico, haverão outras, felizmente. Elas serão famosas? Definitivamente não.

Isso me relembra a conversa entre Don Siegel e Godard:

— Você tem algo que quero: liberdade. — disse Don.

— Você tem algo que também quero: dinheiro. — retrucou Godard.

Filmar continuará sendo impossível para aqueles que querem anomalia, mas me solidarizo. Júlio sem filmar fez o ultimo filme político do Brasil, e podemos também.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

Entrevista com Laura Mora (cineasta) realizada na Mostra de SP - Rodolfo Vieira

Laura Mora


KORO FILMES(Rodolfo Luiz Vieira): Gostaria de perguntar primeiramente: qual foi seu primeiro contato com o cinema brasileiro?

LAURA MORA: Essa é fácil, foi Glauber Rocha. Continuo fã dos seus filmes, e ainda os revisito bastante. E eu acho que foi isso que me fez perceber o quão perto são nossas culturas, as duas nações (Colômbia e Brasil). Ainda penso que as perguntas que ele faz acerca do cinema e da forma de se fazer cinema guiaram meu trabalho.

KF(Rodolfo Luiz Vieira): Você pensa que o cinema latino está ganhando mais espaço no escopo do cinema mundial com o Oscar de Ainda Estou Aqui e outros filmes ganhando atenção do publico?

LM: Eu penso... Tem uma coisa eu realmente amo sobre o que está acontecendo com o cinema latino agora, e é realmente diverso. Não conseguimos falar sobre um cinema, tem muitos cinemas, apenas por dizer. Eu penso que isso pode mostrar nossas diferenças, embora temos cicatrizes e dores que unificam nosso continente. Eu penso que festivais e o Oscar são pontos especiais em um meio contraditório. E também as plataformas como Netflix, onde filmes depois de irem a festivais e ao cinema, eles podem ir às plataformas. Tenho assistido mais cinema latino por causa disso do que costumava, porque os países não compartilham muita distribuição, distribuição nos cinemas, digo. É o que falo.

KF(Rodolfo Luiz Vieira): Como você acha que a Mostra pode mostrar o cinema latino ao mundo?

LM: Eu digo, a Mostra é um festival muito importante para nós. É uma forte tradição cinematográfica. E é muito grande. Não temos um festival desses em nenhum dos outros países. Penso que quanto mais filmes latino americanos são apresentados na Mostra, temos mais conversação para nos reconhecer melhor como latino americanos, também.

KF(Rodolfo Luiz Vieira): Última pergunta: Que mensagem você dá para cineastas latino-americanos jovens? Que tentam ganhar espaço.

LM: O que diria é que é um caminho difícil. Seja regulado tanto quanto apaixonado... Leia muito, não apenas assista filmes. Seja curioso com o mundo, e seja contra também.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Labirinto dos Meninos Perdidos (2025) - O lugar para se perder e se reencontrar

O Labirinto dos Meninos Perdidos (2025) | Filmicca

 

No imaginário popular, São Paulo é a máquina de moer gente, um labirinto que a cada esquina pode dar um caminho ou num beco sem saída, com suas lendas e paranoias. Pessoas migram à metrópole para se perder e se reencontrar; mas crescer em um ambiente assim, às vezes, pode ser predatório e vulnerável. Para cada história de sucesso, há também suas tragédias. Um lugar real que não existe, cuja realidade está mais próxima dos sonhos e da psicanálise do que de algo concreto, palatável. É nesta contradição que Miguel se encontra. Ele é jovem e está na cidade para prestar um vestibular. Seu caminho cruza com diferentes personagens excêntricos em Labirinto dos Meninos Perdidos (2025), o novo lançamento do realizador queer independente Matheus Marchetti. 

Se a filmografia de Marchetti, até agora, se passa dentro de um olhar infantil do mundo, como em O Bosque dos Sonâmbulos (2016) e Verão Fantasma (2022), aqui ele está disposto a crescer um pouco para uma abordagem entre a adolescência e a vida adulta. Ele é um romântico macabro, com uma sensibilidade emocional apurada. Mesmo com um orçamento limitado, quase do próprio bolso, ele tem ideias ambiciosas. Ele é novo, mas tem a alma dos cineastas de décadas passadas, que fizeram cinema com muito pouco; abraçando com braços de mãe os triunfos e os defeitos de seus filmes (Quem for fã de giallo vai notar do que falo aqui). São obras que imprimem o teatral, o performático, o plástico, que flertam com o onírico e a recusa da realidade e sua lógica verossímil. (Inclusive boa parte de seu elenco vem do teatro paulistano) 

Aqui, sua São Paulo é não a personagem espacial que imaginamos. Marchetti explora algo muito mais íntimo e secreto: é uma casa mal assombrada, uma vizinhança erma, um museu ou um aquário vazio. A dimensão trabalhada pela direção é psíquica do que física, portanto, a cidade é vista mais como uma abstração do que uma representação real. (Apesar de terem filmado numa exposição de terror que foi bastante popular do MIS, na qual este crítico até compareceu em uma ocasião!!!)

Seus filmes são coloridos e possui uma forte influência estética do cinema europeu dos anos 60 e 70. Porém, aqui ele flerta com um gênero bastante brasileiro: a chanchada. As situações e a sequências de dates e ficadas em série lembram muito o absurdismo cômico das comédias eróticas produzidas pela boca nos anos 70. Quase se Superbad (2007) e After Hours (1985) tivesse um primo latino-americano viado, um pouco mais tímido e teatral, e com acesso às mansões das vizinhanças ricas paulistanas. Cheio de desejos e escabrosidades. com mais tara também. Marchetti sabe como filmar uma cena de sexo e causar as sensações apropriadas em seu público-alvo, sabendo explorar a dimensão dos corpos e do prazer que eles sentem. Eles suam, gemem, mijam e gozam.

Para além da comédia sexual, também há o aspecto do terror, exprimido na figura do aparente serial killer que assola os gays da cidade. No entanto, tal como o filme Cruising (1980), o filme trabalha com as implicações psicológicas e sociais da notícia do assassino á solta, do que focalizar em sua figura (como um favorito meu, Faca no Coração lançado em 2018). Todas as pulsões sexuais de Miguel e todos os dates podem levá-lo ao seu fim. A busca pelo gozo é a busca pelo assassino, que, por si, é uma abstração de um pensamento neurótico. 

Mas Matheus Marchetti não deixa de lado a alusão à monstruosidade em sua narrativa, que também almeja e precisa do gozo, a sensação de ser amado, de pertencimento. E o caminho de Miguel irá se cruzar com esse monstro, assim como Christine Daaé ouve o canto do Fantasma da Ópera pelas catacumbas de Paris. A São Paulo cosmopolita, com seus encantos frios e seus prazeres aleatórios, é a ruína em que Miguel deverá percorrer, juntos aos seus perigos, para achar a voz que clama por ele. Percorrer o labirinto em que jovens se perdem, se traem e se humilham para garantir seu posto. Em todos eles há um pouco de Dr. Jekyll e Sr. Hyde, prontos para saírem durante à noite, revelando seus amores e desejos sombrios. O amor moderno e a pegação por aplicativos nunca foram tão monstruosos quanto agora.

 *Este filme faz parte da seleção da 49a Mostra Internacional de São Paulo, realizada em 2025, visto em screener, cedido pela produção do projeto.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

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