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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Mouse - Como Se Filma o Luto?

Mouse | Visit Films

Mouse parece ao momento ser um coming-of-age comum ao início. O filme parece que seguirá uma linha muito tenuê, que muitos filmes tem seguidos nos últimos anos: universo estabilizado<tragédia<volta da estrutura de maneira parcial. Entretanto, o filme trata de descontruir essa ideia logo nos primeiros minutos, quando a tragédia é apresentada de maneira tão abrupta quanto seria na vida real.

Entretanto, ao encarar os efeitos na tragédia, Mouse não faz como a maioria dos filmes coming-of-age. A obra da dupla Alex Thompson e Kelly O'Sullivan (que realizou um outro filme o qual não assisti) decide encarar as emoções de seus personagens no face a face. 

A tragédia, que no filme se trata da morte da personagem Callie (Chloe Coleman), a melhor amiga de Minnie (Katherin Mallen Kupferer). Algo que, apesar de ser crucial para o filme, é necessário de ser relatado para a continuidade do texto.

Ao filmarem o luto da protagonista do filme, a Minnie, a dupla de diretores tem uma decisão ousada. Ao invés de filmarem tudo como sendo pura tristeza, a dupla enfatiza a reação clara de ironia da protagonista diante do ambiente, ao invés de reforçar o quanto ele é opressor para sua vivência dessa fase. Entretanto, a dupla também enfoca que todos ali, de certa forma estão vivendo um luto.

Cara (Audrey Grace Marshall), personagem que sabemos que é uma pessoa ruim, pelo que é apresentado durante a trama, não é filmada pela dupla como alguém opressiva durante o luto, mas como uma pessoa que, como todas lá, está vivendo um luto. O filme faz questão de enfatizar que ela é uma pessoa ruim, porém, ela não é filmada como uma pessoa ruim quando está sofrendo o luto, pois neste momento, o filme abandonada todo e qualquer juízo de valor.

Ao filmar a realidade, Mouse não faz um juízo de valor claro, apesar de manter suas posições. Até porquê, o filme não se isenta nunca no debate, existem sim pessoas ruins, porém não existe uma maneira de se viver o luto de maneira certa ou errada, todos o vivem.

Talvez isso seja o que mais transparece pela relação extremamente próxima de Minnie com Helen (Sophie Okonedo), a mãe de Callie que passa por um divórcio logo depois da morte da filha. A relação das duas tem estágios muito interessantes: o primeiro é de entendimento mútuo e tentativa de suporte, o segundo é o de desentendimento das fases, e o terceiro e mais crucial é o do entendimento e do afastamento. Helen entende que para Minnie é melhor as duas longes, e isso está bom, pois, na realidade, tudo deve ser respeitado quando se está vivendo o luto.

Mouse é uma obra que não é sobre o luto em si, e sim as diferentes formas de se filmar o luto (ou a inexistência da possibilidade de filmar o luto coletivo, pois nenhuma hora a câmera do filme acompanha as fases do luto dos personagens, e constrói a visão do espectador quase de como um outsider) e de se viver o luto, que é uma fase da vida tão importante quanto a juventude que o filme parece que irá retratar. 

Pois todos nós enterraremos nossos pais, alguns de nós já enterraram os avós, e tragicamente alguns enterrarão seus filhos, mas é a vida, e a vida é o cinema.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



O Samurai e o Prisioneiro - Um(ns) Conto(s) Moral(is)

O Samurai e o Prisioneiro | Shochiku 

Kiyoshi Kurosawa - diretor do filme - já vinha explorando em Cloud, seu filme mais recente de 2024, as características morais de seus personagens. Isso é derivado de sua paixão por cineastas como John Cassavetes, que sempre foi um que explorava todos os atributos e conflitos tanto externos quanto internos de seus personagens.

Em O Samurai e o Prisioneiro, Kiyoshi coloca todos esses dilemas e dúvidas sobre os personagens em um ambiente muito interessante. A princípio, o filme se mostra como um drama de ação samurai aos moldes de Akira Kurosawa ou Kobayashi, mas depois dos dois primeiros contos do filme (isso mesmo, contos, o filme é dividido em quatro contos representando as 4 estações do ano), o filme se torna um drama moral.

Kiyoshi filma os personagens de dentro pra fora, em moldes melodramáticos. O primor que são as cenas internas nos templos é sentido não só por virtuosismo estético, mas também pela pulsão do lugar, que é o ambiente mais neutro de toda obra. Quando se filma o externo, por outro lado, é aonde temos a parcialidade e a internalidade de toda obra canonizada. Kyioshi nesse filme não podia ser mais Rohmeriano.

É como se filma a natureza que chegamos no ponto em que O Samurai e Prisioneiro mais se sobressai. A natureza diante os olhos do diretor, é a arma mais traiçoeira para provocar os conflitos que permeiam a obra. Ao invés da aparente harmonia dos primeiros planos de inverno, temos a raiva dos planos de primavera, para passar por uma neutralidade nos planos de outono.

Se aqui se espera um trabalho parecido com os outros do cineasta japonês, temo em dizer que pouco será encontrado na primeira parte, mas muito na segunda. Entretanto, este filme demonstra um claro amadurecimento quanto as questões morais e até mesmo estéticas que vimos em Cloud.

O Samurai e o Prisioneiro é, das obras que vi de Kurosawa, a mais intimista, e a mais singular do cineasta, algo muito incrível para alguém que já tem uma carreira consolidada desde pelo menos o início dos anos 90.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O Bosque Selvagem (2026) - A nova pièce de résistance da Laika Studios

 

O Bosque Selvagem (2026) | Imagem Filmes

Quando a jovem Prue McKeel passea, por uma tarde qualquer em Portland, ignorando o aviso dos pais, com seu irmão mais novo, Mac, tudo parecia em ordem. Porém, depois do bebê ser raptado no parque por um bando de corvos, ela e um colega de escola, Curtis, precisam salva-lo e o rasto das aves os levam para uma floresta que, à princípio, é impenetrável, mas os jovens conseguem adentra-la. Lá, os jovens descobrem um mundo mágico à beira do colapso governamental e que sua jornada se entrelaça com os planos de Alexandra, a governadora viúva, que pretende usar o irmãozinho de Prue para se vingar e conquistar aquilo que perdeu.

O Bosque Selvagem (2026), ou Wildwood no original, é o novo filme do estúdio de animação Laika Studios, depois de longos sete anos quando lançaram Link Perdido (2019), e adaptação de uma série de livros infanto-juvenis de mesmo nome escrita por Colin Melroy e ilustrada por Carson Ellis, cujo o primeiro livro serve como base da animação. O projeto de Travis Knight é, assim como a narrativa, ambicioso e consegue dar uma escala ao potencial de grandiosidade quando o assistimos. Não quero entrar em muitos detalhes, pois desejo que você, care leitore, vá ao cinema e descubra o filme por conta própria, sem saber muito do desenrolar. Apenas que, de certo, este longa animado é uma aposta arriscada. 

Aqui, em primeiro plano, temos uma animação de stop-motion, técnica na qual o estúdio é conhecida, rica em detalhes que se integra com alguns efeitos especiais em CGI, principalmente nas cenas de planos abertos e/ou que exigem um certo teor de complexidade. A questão aqui é que se trata de um projeto humano, feito por humanos por técnicas artesanais e que demandam tempo e dedicação à arte; enquanto isso, o mundo discute sobre a implementação de IA generativa não só na arte, mas também no nosso cotidiano. Existe magia, mas a magia somente é feita pela imaginação e a técnica humana, a partir daí, a ilusão nasce. 

Nosso contemporâneo atual tende a mecanizar as ações, as fantasias e a capacidade de sonhar a um patamar insosso, cuja personalidade e encantamento se perdem. Porém, fazer cinema é criar uma ilusão. Projetar a imagem dentro de pequenas cavernas e nos iludir com aquilo que vemos na nossa frente. Cinema é magia, portanto precisa de truques, técnicas e humanidade. Sem isso, arte, como um todo, perde sua essência, tanto como expressão (o cinema como forma, autoria e experimento) quanto mercadoria (pensando no cinema comercial hollywoodiano, por exemplo). 

Bosque Selvagem/Wildwood, nesse sentido, nada contra a corrente das produções atuais, por mais que não repele a todas as suas práticas contemporâneas; porém, a venda da obra como algo artesanal, feito à mãos humanas, não é só uma questão de prática, mas também de branding dentro do cenário estadunidense como um estúdio que produz animações com um certo teor de 'espírito', o qual é rejeitado pelas grandes produtoras. E dá para sentir tudo isso, enquanto assistimos um épico fantástico com cerca de duas horas e dez minutos na tela grande. Tudo é pensando para engrandecer à narrativa e à forma. Me parece que Knight e a Laika conseguem convencer o público de seus filmes que o stop-motion é uma arte pertinente e única, mesmo em tempos de inteligência artificial. O que, de certa forma, é algo lindo de se presenciar. (Não vou entrar na questão entre Laika e Nike neste texto, o que poderia problematizar o argumento.)

A animação em si é de excelente qualidade e boa parte dos detalhes técnicos que envolvem a obra são bem feitos, o roteiro tem um ritmo um pouco irregular às vezes (acho que poderia ser um filme um pouco mais longo), mas, ao mesmo tempo, abraça a ousadia de contar uma história que envolve o fantástico sem embelezar os perigos que existem em narrativas do gênero. Um desenho animado épico, uma pièce de résistance de um estúdio milionário que não rende ótimas bilheterias, mas que, ainda assim, continua a existir e a criar uma nova leva de fãs (eu lembro da época em que Coraline [2009] lançou nos cinema tá?!). Se tivesse visto esse filme com uns dez anos de idade, teria alterado a química do meu cérebro, com certeza. Com quase trinta, saí impressionado da cabine. 

Talvez ainda tenha um espaço para a magia no cinema?

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 
                                  

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Feito Pipa - Matéria de Laisa Lima (Festival do Rio 2026)


Feito Pipa | Paris Filmes

Considerado um destaque do Festival do Rio em 2026, o filme “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, é uma fábula sobre amadurecimento, liberdade e leveza, ambientada no interior do Ceará. Através dos olhos de Gugu (Yuri Gomes), uma criança que se afasta dos padrões de masculinidade por ter trejeitos e gostos ditos “femininos”, vivendo sua infância do jeito inocente que ela deve ser, encontramos ensinamentos valiosos sutilmente colocados na tela. Enquanto a avó Dilma (Teca Pereira) representa o acolhimento de um colo sempre compreensivo, o pai Batista (Lázaro Ramos) evoca a figura autoritária de quem ainda vive preso aos moldes sociais julgados “aceitáveis” para o comportamento de um menino.

Entretanto, a magia de viver livre ao lado de alguém igualmente empoderado e vaidoso, como Dilma, se esvai para Gugu no momento em que o Alzheimer da avó passa a representar um risco para o bem-estar dos dois. O personagem, então, necessita encarar os padrões retrógrados de Batista quando passa a conviver com ele, sendo, assim, privado de uma realidade cheia de cor, tal qual era de costume. Apesar disso, as vestimentas purpurinadas e a autenticidade de Gugu nunca são deixadas de lado.

Para entender melhor a criação do universo leve e descontraído do protagonista — levando em consideração a narrativa dramática por si só —, a KOROFILMES conversou um pouco com o diretor, Allan Deberton: “De inspiração, eu tiro o cinema em que acredito, que é aquele que diverte, mas também transforma; que fala sobre a intimidade de seus personagens com verdade acima de tudo.”

O enredo de “Feito Pipa” parece simplório, sem rodeios. É aí que está a mágica do longa-metragem: retirar de uma história cotidiana, que abarca o passar do tempo, suas consequências e a infeliz realidade de indivíduos que não podem ser o que são, um diamante lapidado.

“Gosto muito de histórias simples e gosto muito de histórias às quais eu pertenço. Eu cresci no interior do Ceará, e o roteirista André Araújo também, então é um lugar de pertencimento. Tudo isso traz uma verdade”, diz o diretor.

O filme, tratado com delicadeza ao abordar temáticas que requerem maior cuidado e seriedade, torna-se uma grande lição por não abandonar o foco de ser visto por intermédio de uma criança. Apesar de todo o sofrimento, Gugu enxerga situações complexas, como o avanço da doença da avó, com imaginação e boas doses de esperança. A direção reforça esse sentimento ao exibir um Ceará vivaz, na paleta de cores escolhida, e contemplativo, devido às várias panorâmicas.

Segundo Allan: “O filme fala sobre conversa. É muito importante que a gente tenha um olhar muito aberto sobre a necessidade do brasileiro de conversar, respeitar o outro e respeitar as diferenças.”

A respeito da representação do Alzheimer na personagem da brilhante Teca Pereira, Deberton diz: “É preciso ter um olhar atento para a terceira idade, um olhar de cuidado e atenção.”

A KOROFILMES também esteve com o intérprete de Gugu, Yuri Gomes, que enfatiza a importância da obra para os pequenos: “O Gugu tem a ensinar que nós, crianças, temos, sim, que sonhar e ter respeito pelo outro. Não podemos desistir dos nossos sonhos.”

O ator mirim sintetiza em poucas palavras o conceito do filme: “Tem a ensinar a ter mais apego aos seus familiares e não dar ouvidos à negatividade dos outros, porque não vai te trazer coisas boas, só vai fazer você ficar mal.”

O artista completa: “Persista na sua carreira e nunca desista dos seus sonhos. Se você quiser dançar, dance. Você é livre, pode ser o que quiser.”

Engrandecido por ótimas atuações, principalmente do trio principal (Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos), “Feito Pipa” é um deleite para quem possui uma sensibilidade aguçada. Tocante e divertido na medida certa, a produção, indicada para levar o Brasil até o Oscar em 2027, provoca questionamentos pertinentes, levando o espectador a uma viagem filosófica sobre os valores de comunidade e amor aos demais. Sob a ótica infantil, toda tristeza pode ser revertida em criatividade; não há situação, por mais difícil que seja, sem escapatória. Na verdade, o que existe é a capacidade de mostrar-se ao mundo sem tabus ou preconceitos; é levar uma vida em que o colorido vence o taciturno de forma incansável.

Autora:


Laisa Lima 

25 anos, formada em cinema, roteirista, crítica, videomaker e moradora do Rio de Janeiro, minha paixão pelo cinema transcende as telas. 
De “Guarda-Chuvas do Amor” até “Laranja Mecânica”, meu amor pela arte não se prende a nenhum gênero, mas sim ao que me toca. 
Também sou apaixonada pelos pormenores da vida, que se apresentam sem nenhum roteiro. 
Logo, imaginação não falta em mim. 
Sou de tudo um pouco, e procuro sempre expor minha versão mais democrática, que enfrenta a realidade com a maior criatividade possível.



Bucking Fastard (2026): Herzog e sua fábula de codependência

 

Bucking Fastard | HanWay Films


Como entender a natureza contraditória das coisas? Os cernes das emoções? O desejo do irracional? A vontade de amar e ser amado? De nadar contra a corrente? De se destacar? Existe uma dialética na compreensão, algo não dito nas relações humanas, cuja a maioria, ao longo da vida, consegue decifrar. As irmãs Holbrooke, Jean (Kate Mara) e Joan (Rooney Mara), ainda não conseguem decifrar os outros; mas, em compensação, elas se conectam de forma simbiótica, em uníssono falam, pensam, agem e sonham em comunhão consigo mesmas. Incompreendidas por todos, elas almejam o amor e a liberdade de serem elas mesmas. 

Em Bucking Fastard (2026), Werner Herzog nunca trata suas protagonistas (cujas interpretes são irmãs na vida real) de forma negativa, se na trama há um humor causado pela estranheza, ele está lá e é absolutamente  delicioso, mas o guião nunca põe Jean e Joan como o alvo da piada. Elas são uma representação da natureza. Sua psiquê em comum é diferente das outras pessoas: entre a co-dependência e comportamento obsessivo, elas veem o mundo de uma perspectiva diferente, por mais que, para os demais personagens e até mesmo ao público, tenham uma visão egocêntrica e deturpada. Existe uma certa inocência no cerne do estudo de personagem que Herzog desenvolve que é impossível, aos poucos, não compreendê-las. Seu amor é maior do que si mesmas. Elas vivem das emoções que as retroalimentam e, portanto, precisam da esperança de serem amadas.

Após se apaixonarem por um vizinho galanteador (Orlando Bloom), as irmãs Holbrooke sofrem um escrutino público quando este homem as processa por assédio moral e garante um ordem de restrição, em uma hilariante e estupenda cena de tribunal. Há uma perda de controle, um estrago foi feito. E, de um jeito ou de outro, Jean e Joan precisam pagar o preço de suas emoções e, em um longo processo de auto conhecimento, precisam recolher os cacos de sua destruição moral. Nada é fácil, estão vulneráveis, mesmo presas no seu próprio mundo particular. São mulheres inconvenientes, difíceis de lidar e possivelmente neurodivergentes; mas a câmera nos convida a adentrar seu mundo, a presenciar o dia-a-dia, os abusos, as dificuldades e os desejos das personagens... Aliás, diga-se de passagem de fotografia digital é um melhores feitos nos últimos anos, entendo a noção da profundidade que me parece ter sido esquecida no cinema atual com planos chapados e desfocados.

Herzog usa de uma estrutura fabular para desenvolver o longa-metragem: primeiro uma comédia de erros, e, em segundo, um drama familiar. Existe uma cisão de tom no meio do filme que pode causar o estranhamento para alguns membros da audiência, mas que em nada me incomodou. O trabalho de atuação das irmãs Mara é robusto e convincente, fugindo muito da lógica do casting por publicidade; desenvolvendo suas personagens de um jeito convincente para acreditarmos em seu absurdismo. Acreditamos que as Mara são as Holbrooke e, em momento algum, as colocamos em uma posição de descrença em respeito a atuação. 

Quando o filme enfoca na reconstituição das protagonistas e em sua busca por uma ilha prometida, Herzog vira a chave. Se as irmãs são um símbolo da natureza, pueril e, relativamente, inocente, o mundo quer as destruírem em benefício próprio. Para ele, elas sempre serão vistas como aberrações, como o próprio final da obra sugere. portanto, sua codependência não é somente consigo, mas também com este mundo que as aprisiona, explorando-as. O realizador se coloca na posição de pôr a luz na alteridade e nos mostra como é, de modo desconcertante, é estar nesse lugar. Mas nunca em tom trágico. São pardais a cantar dentro de uma gaiola. Precisam encantar para sobreviver; e sobreviver para sonhar com um  mundo além das grades. Um sonho de liberdade e autonomia.


*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (na fatídica sessão no Cinesystem Belas Artes Botafogo em que, por desleixo da produção do evento, decidiu exibir o filme, falando em língua inglesa, sem legendas para um público brasileiro. O que aconteceu com o pensar no coletivo? Entendi o filme bem, mas mesmo assim não é um bom precedente ao festival... Mais um trauma para a lista!)

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

Club Kid (2026): Amadurecimento e Paternidade

 

Club Kid (2026) | Califórnia Filmes

"You fell in love with America

When you were twelve years old

And by seventeen you knew you had to see it all

You loved your dad and the love he had for your mother so

You had to get out and go chasin' it's sweet call[...]

 And you said, "Hey, do you wanna see the West with me?

'Cause love's out there and I can't leave it be"

And I said, "Honey, love's never meant much to me

But I'll come with you if you're sure it's what you need"

(Ethel Cain - Throughfare)

Sempre existe um antes e um pós. A vida é composta por momentos de viradas que nem sempre acontecerão de forma planeja. Viver é complicado e cada passo é um novo aprendizado, amadurecemos na medida em que envelhecemos. Em Club Kid (2026), filme de estreia do diretor e comediante Jordan Firstman (da fama de Rotting in the Sun e I Love L.A.), filme de encerramento da 28a edição do Festival do Rio, é uma dessas histórias. 

Peter (Firstman) é um promoter de baladas em Nova York que vive uma rotina agitada em boates e inferninhos do cenários clubber da cidade. No auge de seus trinta e poucos anos, nosso protagonista é a alma da festa, mas, no mundo real, é completamente desorganizado: sua rotina é caótica, e abusa do uso de substancias, custando-o a perda de uma sociedade com uma colega influente (Cara Delevigne) da cena nova iorquina. Mas, seu choque de realidade vem quando Arlo (Reggie Absolom), seu filho que não sabia que existia, é deixado na porta de sua casa, após a morte da mãe (com quem, sem querer, Peter fez um ménage em uma darkroom anos atrás). A partir daí, o caldo entorna e Peter precisa, aos poucos, começar a amadurecer e se conectar com o jovem.

Esse é o tipo de projeto que poderia dar muito errado, pelos motivos mais vãos e egocêntricos (já que estamos falando de um estudo de personagem interpretado pelo próprio diretor); porém, Jordan Firstman tem os sensos controlados aqui e não apresenta algum vício de linguagem ou algum sentimentalismo barato que seja prejudicial para a obra. A direção do filme é bem pensada tanto no sentido prático quanto no tom em que precisar dar a narrativa; e o roteiro, também assinado por Firstman, conjuga momentos e interações hilárias (em que vemos Peter lidando a sua nova realidade e pílulas da cena noturna) com momentos mais sóbrios e melancólicos (a conexão entre pai e filho e a possibilidade da perda). 

Duas coisas essenciais para que o filme funciona são: a relação entre Peter e Arlo (vulgo "a criança mais legal do mundo!") que é muito bem desenvolvida, o cerne da trama, e o desenrolar desse relacionamento me pareceu genuíno e lindo; e a construção de uma comunidade LGBTQIAPN+ (e, portanto, do senso de uma) de forma orgânica, a partir de vivências e lugares em comum, sem apelar a estratégias apelativas, como situações de dor e sofrimento, e a abordagens panfletárias, que, às vezes, acometem filmes LGBTs e/ou de temática queer no cinema. Sem isso, o filme, de jeito nenhum, funcionaria. Pequenos atos de candura, de diálogo e de, até, sacrifícios que movem a narrativa e seus personagens. Entrar num mundo e não querer sair. Mas qual será escolha de Peter: a cena clubber ou o bem-estar do filho? 

Em alguma hora, a balança vai começar a pesar e os dados deverão ser lançados. Apesar o filme entrar em certa contradição nos últimos 25 minutos, uma vez que as ações de Peter serão questionados pelas autoridades, existe um diálogo com outros filmes que exploram relação entre pais e filhos, como Ladrões de Bicicletas (1946) de Vittorio de Sica e Aftersun (2022) de Charlotte Wells, por exemplo, em que é preciso um ponto de quebra, de falha e/ou de impotência. Se o filme desenvolve a população queer como uma naturalidade oposta a uma sociedade normativa, é porque nossa sociedade é assim. Não existem grandes perseguições ou uma série seguidas de crimes acometidas para com os personagens (ainda bem, ninguém aguenta mais esse trope!), mas não exclui que o protagonista precisa passar por alguma aprovação pela catarse. 

Porém, a catarse sempre esteve no filme, na forma em que a relação entre Peter e Arlo se desenvolve aos olhos do público. Um estudo de personagem que nos permite ter empatia e se colocar no lugar do protagonista; por mais que as situações fogem um pouco do controle. Club Kid se preocupa mais com seus personagens do que passar alguma crítica social e talvez, seja feliz, assim, no simples. Um filme redondo, competente de um talento que precisamos acompanhar seu desenvolvimento nos próximos anos.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (cuja cabine de imprensa no Estação Claro Rio teve um problema técnico e a obra foi exibida sem o acompanhamento de legendas.)

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 
                                  

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026): Trauma e Raiva na Infância

 

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026) | Retrato Filmes

O mundo de Josephine (Mason Reeves), de apenas oitos anos, parece aparentemente normal: seus pais, sua rotina na escola, seus sonhos, sua aptidão para o futebol. Porém, uma manhã em específico, ela e seu pai (Channing Tatum), vão muito cedo para um parque na região de São Francisco para praticar esportes ao ar livre; algo saudável, útil e parte do cotidiano deles. 

A criança corre na frente do pai e, entre as árvores, perto do banheiro público, ela vê uma corredora entrar lá. Logo em seguida, um homem aparece ali, entra no local, persegue a mulher, a ataca, imobilizando e batendo sua cabeça contra o chão. Desacordada, o sujeito tira a roupa de ambos e começa a viola-la, repetidas vezes. Ela acaba se recobrando, mas ele a enforca durante a penetração, abafando os gritos da vítima. E vemos todo o crime se desenrolar através dos olhos de Josephine, que atordoada, é a única testemunha ocular da ação. 

É dessa maneira em que começa o longa Josephine - Fragmentos de um Crime (2026), dirigido pela diretora brasileira Beth de Araújo, de uma maneira inesperada e brutal. A cena em si é explicita, bem-feita, dolorida e deixou algumas pessoas na sessão da cabine de imprensa um pouco desconfortável (algo, que devo dizer, é raro no cinema contemporâneo atual, em que as ações são higienizadas para o público). Talvez essa o objetivo do filme, começar uma discussão e fragilizar o público; por mais que a diretora acaba repetindo a fragilização, de modo quase gratuito.

Os pais de Josephine (Tatum e Gemma Chan) não sabem o que fazer com a filha, que traumatizada com o ocorrido, se vê perseguida pela sua vulnerabilidade e o medo de estar, em um futuro próximo, na mesma posição do que a vítima. Ela se torna mais fechada, violenta e incompreendida. Seu mundo é incerto. Com o fantasma do abuso a perseguindo, o agressor aparecendo como uma espécie de 'amigo imaginário', e a falta de um apoio psicológico apropriado, Josephine entre num mundo de ódio e indignação, na qual ela não tem maturidade para compreender a raiva que sente; quase se tornando uma proto-femcel no processo, ressentindo ao mundo masculino, revoltando-se com a intimidade dos pais, agredindo colegas importunos e até quase provocando um aborto.

O trabalho de Araújo, quando se concentra em sua protagonista, maravilhosamente interpretada por Reeves, consegue se desenvolver; porém, quando o foco se volta aos pais de Josephine, fica tímido, um pouco banal. Sua câmera se move, tem perspectiva, é ágil em diferentes sequências em que vemos um campo de visão amplo, porém, em outros momentos, o movimento torna-se repetitivo, como um truque. Além de algumas sequências de montagens, bem no estilo videoclipe, que me tiram completamente da narrativa em alguns momentos. Se um filme consegue ser conciso, quando uma mãe diz a uma filha que não consegue curar sua dor, sua raiva, mas que ela precisa doma-la; como, ao mesmo tempo, beira ao um certo fetichismo de sofrimento coletivo para expressar a mesma mensagem? O feminino precisa expressar sua raiva diante de uma tentativa de violência e de feminicídio, um tópico bastante pertinente, mas quando o filme somente quer dar ênfase na raiva, acaba diluindo muito o que tanto almeja: mensagem, catarse e crítica.

O longa-metragem tem seus excessos, alguns bons e outros não, mas quando é direto no ponto e no que deseja dizer, acaba se tornando algo poderoso, especialmente as espectadoras que vivem com o mesmo medo que a protagonista. A mensagem é importante, mas narrativa e forma, também ser levado ao mesmo grau de importância. Felizmente, a obra não acaba se perdendo numa abordagem panfletária e nem num fetiche completo de dor. Talvez, de estilo e narrativa, poderia ter mais sutilezas, mas ainda assim tem ambição de contar não só uma história, um estado de espírito. 

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026.

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

domingo, 4 de outubro de 2026

Coração Selvagem - A lealdade se torna uma forma de sobrevivência.

Coração Selvagem | Paramount Pictures


Um ex-soldado ferido e seu cão de guerra aposentado lutam para sobreviver na região do Alasca e encontrar o caminho de volta para casa após um acidente.

A trama do filme é simples: um homem e seu cachorro lutam para sobreviver em um ambiente hostil. Ainda assim, o espectador se apega facilmente aos dois personagens. James, o protagonista, sofre de uma doença cardíaca, enquanto Odin demonstra uma lealdade incondicional ao dono. No entanto, Odin não é retratado apenas como um animal indefeso que depende da proteção de James, mas como um verdadeiro combatente e sobrevivente. Essa característica se torna ainda mais evidente quando são reveladas as marcas deixadas por seu passado. Trata-se de um cão de combate, coberto por cicatrizes de guerra e que, assim como James, parece carregar consigo traumas que permanecem mesmo após o fim de sua atuação militar. Seus pesadelos e reações diante de determinadas situações remetem às experiências vividas durante esse período, revelando que algumas lembranças continuam presentes e são capazes de despertar seus gatilhos emocionais.


O filme apresenta os traumas de James de maneira mais sutil. Suas experiências são percebidas principalmente em sua preferência pelo isolamento e na maneira cuidadosa e racional com que enfrenta cada dificuldade. Nesse sentido, James e Odin estabelecem um paralelo interessante: ambos são veteranos marcados pelas experiências da guerra e precisam aprender a sobreviver longe do ambiente para o qual foram treinados. Enquanto James enfrenta suas próprias limitações e lembranças, Odin reage aos acontecimentos carregando as marcas físicas e emocionais de seu passado. A relação entre os dois, portanto, vai além da companhia entre homem e animal, mostrando como ambos encontram um no outro uma forma de enfrentar os traumas e as dificuldades que ainda os acompanham.


A confiança entre James e Odin ao longo da jornada. Em situações de perigo, os dois dependem um do outro para continuar avançando, o que torna a sobrevivência uma experiência compartilhada. A presença de Odin também ajuda a humanizar James, mostrando um personagem que, apesar de sua postura resistente e de sua experiência militar, possui fragilidades e demonstra afeto. Ao mesmo tempo, James oferece a Odin segurança e proteção, criando uma relação baseada na reciprocidade. A jornada pelo Alasca não representa apenas uma luta contra as condições naturais, mas também um processo de enfrentamento dos próprios medos e das marcas deixadas pelo passado.


A paisagem do Alasca tem um papel importante na construção visual do filme. As grandes tomadas que mostram a imensidão do cenário e os movimentos de câmera, ajudam a destacar a beleza e a grandiosidade do ambiente. Em contrapartida, a fotografia evidencia o caráter perigoso e hostil da região. As florestas extensas, as águas geladas e as mudanças imprevisíveis do clima reforçam a sensação de isolamento vivida pelos personagens. Nos momentos de maior tranquilidade, a câmera permite que o espectador observe a paisagem com mais calma, criando uma pausa antes que novos desafios surjam.


Coração Selvagem utiliza uma narrativa simples de sobrevivência para desenvolver temas como trauma, lealdade, companheirismo e superação. A relação entre James e Odin é o principal elemento emocional da obra, pois os dois compartilham não apenas um vínculo de amizade, mas também as marcas físicas e psicológicas deixadas pela guerra. Ao enfrentarem juntos os desafios do ambiente selvagem, ambos encontram no outro uma forma de lidar com suas próprias limitações e seguir em frente.


Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Verity - Por quem a verdade foi manipulada?

Verity | Sony Pictures


A adaptação cinematográfica do best-seller de Colleen Hoover, acompanha Lowen Ashleigh, uma escritora contratada para concluir a série de livros de Verity Crawford, uma autora de sucesso que ficou impossibilitada de continuar seu trabalho após um grave acidente. Ao se mudar temporariamente para a casa da família Crawford, Lowen começa a descobrir evidências cada vez mais perturbadoras sobre o passado da escritora, enquanto sua relação com Jeremy, marido de Verity, se torna mais próxima. O longa constrói sua narrativa a partir desse mistério e da dúvida constante sobre aquilo que realmente aconteceu dentro daquela casa, criando uma atmosfera que mistura suspense, romance e momentos de tensão.

Alguns elementos presentes no livro foram retirados ou simplificados e, apesar de ser compreensível que uma adaptação precise fazer escolhas, determinadas mudanças poderiam ter agregado bastante à narrativa cinematográfica. Alguns trechos poderiam ajudar a construir uma atmosfera de suspense ainda mais intensa e contribuir para aumentar a sensação de desconfiança em relação aos personagens. Com essas alterações, o filme acaba perdendo algumas oportunidades de explorar melhor o desconforto e a paranoia que fazem parte da experiência de acompanhar a história.

Também tive a sensação de que o longa parece ter medo de ser mais longo, ele apresenta acontecimentos que poderiam receber mais tempo de desenvolvimento, mas rapidamente passa de uma situação para outra, como se estivesse constantemente preocupado em chegar ao próximo ponto importante da trama. Essa pressa não chega a comprometer completamente a experiência, mas faz com que determinadas relações e descobertas pareçam menos desenvolvidas do que poderiam. Em uma história cujo principal combustível é justamente o suspense, permitir que algumas situações respirassem um pouco mais, poderia tornar a experiência ainda mais sufocante e aumentar o impacto das revelações. 

O maior desafio da adaptação, porém, está no mistério central da história. Uma das grandes forças do livro é justamente conseguir dividir opiniões sobre aquilo que realmente aconteceu, fazendo com que diferentes interpretações possam surgir e gerar discussões entre os espectadores. No filme, entretanto, a maneira como determinadas informações são apresentadas pode tornar a tomada de decisão um pouco mais tendenciosa. Isso pode ser especialmente perceptível para quem nunca teve contato com o livro, já que algumas escolhas da adaptação acabam conduzindo o público para uma determinada interpretação com mais facilidade.

Por outro lado, a química entre o elenco funciona muito bem e é um dos grandes responsáveis por sustentar a narrativa. As relações entre os personagens possuem uma dinâmica convincente, principalmente quando o filme alterna entre momentos de intimidade e situações de desconfiança. Essa conexão entre os atores ajuda a tornar os personagens mais interessantes e faz com que o público se envolva com aquilo que está acontecendo dentro daquela casa. Mesmo quando o roteiro acelera determinadas passagens, o elenco consegue compensar parte dessas limitações ao transmitir as emoções necessárias para cada momento.

Verity é, no fim, uma boa adaptação, especialmente quando consegue transformar o suspense da obra original em momentos capazes de provocar reações diferentes no espectador. O filme possui passagens divertidas, outras bastante desconfortáveis e algumas que realmente conseguem deixar o público sem ar, principalmente quando a tensão entre os personagens chega ao limite. Embora pudesse ter aproveitado melhor determinados elementos do livro, desenvolvido algumas situações com mais calma e preservado uma ambiguidade maior em seu principal mistério, a produção consegue encontrar sua própria identidade e entregar uma experiência que funciona tanto pelo suspense quanto pela dinâmica de seu elenco. É uma adaptação que talvez pudesse ter ido mais longe, mas que ainda encontra bons momentos para prender a atenção e provocar o seu público.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Digger - O homem mais poderoso do mundo VS mãe natureza

Digger | Warner Bros. Pictures


Digger Rockwell (Tom Cruise) é um poderoso empresário do setor petrolífero que acaba envolvido em uma crise de proporções internacionais após um acidente em uma de suas instalações na Groenlândia provocar o deslocamento de uma gigantesca massa de gelo. À medida que a geleira avança em direção ao continente europeu e ameaça desencadear consequências catastróficas, o empresário se vê no centro de uma disputa que ultrapassa seus interesses pessoais. Governos de diferentes países entram em choque enquanto tentam lidar com uma situação inédita, colocando Digger diante de decisões capazes de afetar não apenas seu próprio futuro, mas o equilíbrio político e econômico de todo o mundo. Dirigido por Alejandro González Iñárritu, o longa parte de uma premissa bastante interessante para construir uma sátira política que transita entre o absurdo, o humor ácido e uma visão propositalmente desconfortável da sociedade contemporânea. Digger é inserido em uma narrativa que utiliza o exagero para apresentar figuras e situações que parecem caricaturas de um sistema político cada vez mais preocupado com espetáculo, poder e interesses próprios. O interessante é que, mesmo assumindo uma abordagem extremamente estereotipada, o filme consegue transformar esse exagero em parte fundamental de seu humor e de sua crítica. Um dos grandes acertos está na maneira como a fotografia e a direção de arte contribuem para contar essa história, a estética do filme não funciona apenas como uma escolha visual, mas como uma extensão da própria narrativa, criando uma atmosfera propositalmente pálida, desgastada e quase sem vida. Os ambientes, as cores e a composição dos enquadramentos ajudam a transmitir a sensação de um mundo esvaziado, no qual os personagens parecem estar presos dentro de uma realidade tão absurda quanto deprimente. Essa identidade visual reforça a sensação de farsa e faz com que o espectador perceba que existe algo artificial por trás de praticamente tudo o que está sendo apresentado. O longa consegue flertar muito bem com a comédia ácida, fazendo com que algumas cenas sejam engraçadas justamente pela maneira como exageram comportamentos que reconhecemos na realidade. O filme não precisa transformar seus personagens em representações completamente realistas para transmitir sua mensagem; pelo contrário, é através do exagero que encontra sua principal ferramenta de crítica. Tom Cruise incorpora Digger com bastante maestria, existe uma entrega evidente na maneira como o ator abraça as características excêntricas do personagem e entende que a interpretação precisa acompanhar o tom absurdo estabelecido por Iñárritu. Outro aspecto que chama atenção é a maneira como o longa parece, em alguns momentos, construído para dialogar diretamente com a temporada de premiações. A grandiosidade da produção, a presença de Alejandro González Iñárritu na direção e, principalmente, o espaço dado a Tom Cruise fazem com que o longa transmita uma certa sensação de “filme para Oscar”. A própria construção de roteiro parece oferecer ao ator uma oportunidade de explorar diferentes nuances e mostrar uma faceta mais dramática e excêntrica de sua atuação, quase como se o projeto também carregasse a intenção de ampliar ainda mais sua coleção de troféus. Mesmo sem ser possível afirmar que essa tenha sido a motivação por trás da produção, essa impressão está presente na experiência, especialmente quando o filme aposta em elementos tradicionalmente associados a produções de prestígio. Digger consegue, portanto, encontrar força justamente na união entre sua narrativa absurda e suas escolhas técnicas. O ótimo trabalho de fotografia e direção de arte estabelece uma identidade visual que contribui diretamente para a história, enquanto a sátira política utiliza o exagero e o humor ácido para construir uma experiência propositalmente caricata. Tom Cruise entrega uma atuação que entende perfeitamente a proposta de Digger, e Iñárritu transforma toda essa estrutura em uma grande farsa sobre a política atual. É um filme que encontra no absurdo, na palidez de sua estética e no exagero de seus personagens uma maneira bastante particular de fazer rir enquanto apresenta um mundo que, por vezes, parece assustadoramente próximo da realidade.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Jim Queen (2026) precisa escolher entre "Parar e Pensar" ou "Top a Twink"

 

Jim Queen (2026) | Pandora Filmes

De uns tempos para cá, as animações voltadas para o público LGBTQIAPN+, principalmente fora do eixo Disney, têm me dando uma certa curiosidade. Os estilos das animações, os traços que lembram os desenhos animados do Cartoon Network e Nickelodeon que cresci assistindo quando criança, os temas que topicalizam parte da nossa vivência dentro da comunidade (afinal, nenhuma experiência é exatamente única), como um espécie de piada interna nossa. 

Há um prazer duplo em obras desse gênero: o prazer estético próprio do gênero da animação (neste caso, a animação 2D) e o prazer de se autoprojetar na obra de ficção: algo que o filósofo Walter Benjamin já alertava no conhecidíssimo ensaio "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica", redigida originalmente em 1931; nele Benjamin reflete sobre a perda da "aura' da obra de arte pelo advento, primeiro, da fotografia, e, logo em seguida, do cinema, que começou como experimentos da representação de cenas da vida mundana, como os filmetes experimentais dos irmãos Lumière, por exemplo. Eram, de certa forma, retratos do cotidiano e, ao mesmo tempo, produtos de sua câmera.  

Durante a cobertura do Festival do Rio de 2025 (o qual cobri de forma extensiva e exclusiva para este blog) deixei passar um filme com uma pegada parecida com a do filme que escrevo agora: A Sapatona Galáctica (2025), animação 2D australiana em que tem como protagonista uma princesa bem sapatilha do planeta governado por lésbicas que precisa viajar pelo espaço para salvar a vida de sua (ex-)namorada de aliens heterossexuais cis masculinos. O filme fez sucesso no festival e ganhou o prêmio da Félix da edição, e foi lançado nos circuitos brasileiros no início do ano. Quando vi o filme nesse entremeio, por meios ilegais, fiquei com a sensação de arrependimento, pois poderia ter trocado algum filme que não gostei da edição anterior para vê-lo; pois é um filme divertidíssimo e possui uma certa leveza que me lembrava dos desenhos animados que via na infância. 

Este ano, o filme que preenche a posição é Jim Queen (2026), animação francesa dirigida por Marco Nguyen e Nicolas Athane que teve sua estreia mundial na seleção de Midnight Movies do Festival de Cannes desse ano (e de acordo com a distribuidora brasileira, tem sido um sucesso de bilheteria na França). A mistura entre comédia e musical satiriza, de forma certeira e engraçada, os comportamentos não só entre gays e héteros, mas também dentro dos diferentes cosmos do mundo gay contemporâneo. Uma espécie de espelho deformado, para dar o poder de nós, como pessoas gays e queers, podermos ter o privilégio de rir de nós mesmos, das nossas atitudes e desgraças; a qual se dá através de uma epidemia que suscita a memória tanto da crise da AIDS/HIV quanto a mais recente da COVID-19.

Na trama, Jim Queen, também conhecido como Jim "Parfait" (perfeito), é um influencer e ícone sexy da cena gay parisiense. Seu nome é um trocadilho com o termo "Gym Queen", ou seja, uma gay padrão que ama malhar e ser musculosa. É arrogante, egocêntrico e vive para dar o close nas baladas e pegar várias gays que se parecem com ele.  Sua vidinha é um recorte muito específico da vivência de muitos homens homossexuais (principal público-alvo do longa) que vivem do básico e que se importam mais com a aparência e ostentar um modo de vida aparentemente perfeito. 

Porém, ao nosso protagonista, sua rotina vira do avesso quando contrai Heterotopzis, um vírus estranho que transforma homens gays... bem, em héteros. A partir de então, todos viram as costas pra ele – exceto seu último seguidor (e primeiro admirador), Lucien, um jovem twink (nada demoníaco, mas, ao contrário), doce, meigo e inseguro ainda em busca de autoaceitação e confrontar sua mãe, uma ministra de saúde bastante conservadora. Juntos, eles partirão em busca da Cloroqueer, um antídoto misterioso capaz de curar Jim e evitar a extinção da sua comunidade, mas que, em consequência, pode colocar a vida de Lucien em jogo. 

Se pensarmos numa conjunção entre Jim Queen e Sapatona Galáctica, podermos pensar em algumas características que para identificarmos o que faz uma animação LGBTQIAPN+ para fazer sucesso ou para possuir algum apelo: 

1- O traço em animação tradicional como um ponto estético, que remete à nostalgia de uma memória afetiva para criar um espaço seguro; 

2-Personagens que precisam passar por uma 'jornada do herói", o que ocorre em ambas as obras; 

3- Referências a influencia a uma formação queer na cultura pop, uma vez que há uma referência a uma cena que remente uma sequência envolvendo a atriz bissexual Kristen Stewart em Sapatona, enquanto isso, em Jim, toda a jornada de Lucien, a twink, é decalque direto da narrativa de Ariel em A Pequena Sereia (1989), no qual o personagem confronta sua mãe autoritária e homofóbica, tal como a icônica sereia se rebela contra o rei Tritão; 

4- O confronto entre a comunidade com a heterossexualidade e, por consequência, pela homofobia, representado por uma ameaça que envolve relações de poder (no caso da animação francesa) e/ou de sexismo (no da australiana). Para além disso, em Jim Queen, há uma questão cultural bastante proeminente, já que a ameaça da trama, o vírus Heterotopzis, não só apaga a sexualidade dos corpos, mas também de sua cultura e sua expressão e inscrição no mundo;

O longa-metragem em si é bastante redondo, quase cíclico e episódico, pensando especificamente para o público gay (e a própria animação é autoconsciente em relação a isso), brincando justamente em sua concepção com questões como tribos, kinks, cruising, mulheres viadas e drag shows entre outros.  E mesmo assim, existe uma fragmentação na forma que comunidade gay se fragiliza diante de um perigo em comum; mas o filme não pesa o clima em relação a isso. As tribos aqui são caracterizadas seguindo a uma linha camp que o projeto almeja: as drags queens com a maquiagem exagerada; as ursas literalmente representadas como animais que dão o nome da própria tribo; os puppies play bem próximas aos trejeitos de um cão; os víciados em chem-sex como semicadáveres; os fetichistas como generais sádicos (que literalmente criam uma "gaystapo" para converter os adoentados para sua forma gay original)... 

As representações são mediadas pelo exagero e pela comicidade que o roteiro exige das situações, o que pode aparentar um pouco superficial, em termos de abordagem, mas, ainda assim, me diverti com as situações que o filme apresenta nesse entendimento entre obra e público-alvo. A autoprojeção das experiências em comum da comunidade faz com que boa parte do público se identifique em seus personagens, a partir de sua ótica fantasiosa. Esse exercício talvez faça com que o público ative sua suspensão de descrença ou até mesmo um visão crítica daquele mundo caricato. Inclusive há um personagem, uma gay invejosa que deseja destronar Jim, que é caricatura de homens padrão como François Sagat (que você pode reconhecer de filmes pornô, ou os filmes de Bruce LaBruce ou até mesmo um cameo aleatório em Jogos Mortais VI) que é justamente dublado em francês por... François Sagat!

Talvez se tivesse um ponto contrário a fazer em relação ao filme é justamente seria, ao mesmo tempo, apontar e reforçar, dentro da lógica da piada interna, a objetificação e o consumo de twinks, como algo a ser possuído, devorado e possuído. Lucien, que é a chave para cura deste universo (tal como a Alice de Milla Jovovich nos filmes de Resident Evil de P.W.S. Anderson), passa por uma espécie de coming of age tardia, tem uma certa inocência que precisa ver devorada física e metaforicamente pelo o mundo que o cerca, caracterizando uma ideia um pouco predatória, por mais que o roteiro não esvazie o personagem de ter uma posição e uma identidade dentro daquele universo. Porém, até que ponto da narrativa Jim pode parar para pensar suas práticas e ser ativo com Lucien para salvar o mundo gay? Bem, essa é piada do filme: "to stop and think or top a twink? that's the question!". Libertar-se das convenções sociais  e pessoais para salvar a todes. Mas no final, podemos ainda nos dar o luxo de poder rir da situação. E, talvez, esse seja o objetivo principal da obra: a autoironia. O poder de não se levar tão a sério, o poder do riso.

Mas Jim Queen, em toda sua glória animada e camp, acaba consolidando a representação de uma comunidade de maneira carnavalizada e autoconsciente, quase estrategicamente desenhada para seu principal público-alvo. É, e digo isto de forma bastante honesta, um filme fofo, que me divertiu muito durante a sessão e preza por nivelar as experiências para agradar todas as tribos.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (cuja sessão foi precedida, obviamente, por uma bateção de leques para fins publicitários).

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

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