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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Chronovisor - Por Outros Olhos

Chronovisor | Grasshopper Film

A primeira coisa que me chama a atenção em Cronovisor, primeiro projeto dos diretores Jack Auen e Kevin Waler, é a ausência de qualquer recurso material para a realização do filme, num âmbito geral. O filme teve o orçamento de 55 mil dólares, algo que parece muito de primeira, mas é pouquíssimo ao se tratar do cenário do cinema independente norte-americano, ainda mais se tratando de um filme de terror com uma ideia até mesmo grandiosa.

A segunda coisa que me interessa em Cronovisor é justamente a solução que os dois cineastas encontraram para realizar a obra: não filmar o medo. Pois, hoje em dia, o cenário de terror (vulgarmente e péssimamente taxado de terror elevado) tem esse grande vício. Se filma muito o medo, algo que o cinema de terror nunca fez intencionalmente, e nem materialmente. Se pensarmos nos melhores filmes de Kiyoshi Kurosawa ou nos melhores terrores com temática fantasmagórica, o medo está justamente no mistério que a ausência das imagens deixa no espectador.

E é essa ideia que os dois diretores mais tem êxito ao fazer o filme. Cronovisor é sim uma obra misteriosa, ao mesmo tempo que ele dá sim uma conclusão ao espectador. A grande coisa da obra independente é que ele não precisa filmar o medo, e isso ele não o faz.

O filme é quase que inteiramente baseado na leitura de obras não-ficcionais fictícias (algo que soa cômico quando escrito), e em algumas poucas cenas onde a protagonista do filme reflete sobre essas obras e tenta conseguir mais outras. O que gera a pergunta, e causa questionamento de boa parte da crítica de cinema se Cronovisor não se trata de literatura e não cinema.

Pois aqui invoco, ironicamente, uma leitura marxista do filme. Ao filmarem os trechos das obras, o sólido (literatura) se desmaterializa, tornando-se assim cinema. Portanto, Cronovisor além de uma obra cinematográfica, torna-se um comentário sobre seu meio em si.

A obra é, após tudo isso, um dos maiores terrores da década, e um dos filmes mais misteriosos dos últimos tempos. Algo que me lembra um pouco os melhores filmes do Osgood Perkins e os primeiros do Kiyoshi Kurosawa. Muito a se dizer sobre, pouco a se mostrar por cima.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



Mouse - Como Se Filma o Luto?

Mouse | Visit Films

Mouse parece ao momento ser um coming-of-age comum ao início. O filme parece que seguirá uma linha muito tenuê, que muitos filmes tem seguidos nos últimos anos: universo estabilizado<tragédia<volta da estrutura de maneira parcial. Entretanto, o filme trata de descontruir essa ideia logo nos primeiros minutos, quando a tragédia é apresentada de maneira tão abrupta quanto seria na vida real.

Entretanto, ao encarar os efeitos na tragédia, Mouse não faz como a maioria dos filmes coming-of-age. A obra da dupla Alex Thompson e Kelly O'Sullivan (que realizou um outro filme o qual não assisti) decide encarar as emoções de seus personagens no face a face. 

A tragédia, que no filme se trata da morte da personagem Callie (Chloe Coleman), a melhor amiga de Minnie (Katherin Mallen Kupferer). Algo que, apesar de ser crucial para o filme, é necessário de ser relatado para a continuidade do texto.

Ao filmarem o luto da protagonista do filme, a Minnie, a dupla de diretores tem uma decisão ousada. Ao invés de filmarem tudo como sendo pura tristeza, a dupla enfatiza a reação clara de ironia da protagonista diante do ambiente, ao invés de reforçar o quanto ele é opressor para sua vivência dessa fase. Entretanto, a dupla também enfoca que todos ali, de certa forma estão vivendo um luto.

Cara (Audrey Grace Marshall), personagem que sabemos que é uma pessoa ruim, pelo que é apresentado durante a trama, não é filmada pela dupla como alguém opressiva durante o luto, mas como uma pessoa que, como todas lá, está vivendo um luto. O filme faz questão de enfatizar que ela é uma pessoa ruim, porém, ela não é filmada como uma pessoa ruim quando está sofrendo o luto, pois neste momento, o filme abandonada todo e qualquer juízo de valor.

Ao filmar a realidade, Mouse não faz um juízo de valor claro, apesar de manter suas posições. Até porquê, o filme não se isenta nunca no debate, existem sim pessoas ruins, porém não existe uma maneira de se viver o luto de maneira certa ou errada, todos o vivem.

Talvez isso seja o que mais transparece pela relação extremamente próxima de Minnie com Helen (Sophie Okonedo), a mãe de Callie que passa por um divórcio logo depois da morte da filha. A relação das duas tem estágios muito interessantes: o primeiro é de entendimento mútuo e tentativa de suporte, o segundo é o de desentendimento das fases, e o terceiro e mais crucial é o do entendimento e do afastamento. Helen entende que para Minnie é melhor as duas longes, e isso está bom, pois, na realidade, tudo deve ser respeitado quando se está vivendo o luto.

Mouse é uma obra que não é sobre o luto em si, e sim as diferentes formas de se filmar o luto (ou a inexistência da possibilidade de filmar o luto coletivo, pois nenhuma hora a câmera do filme acompanha as fases do luto dos personagens, e constrói a visão do espectador quase de como um outsider) e de se viver o luto, que é uma fase da vida tão importante quanto a juventude que o filme parece que irá retratar. 

Pois todos nós enterraremos nossos pais, alguns de nós já enterraram os avós, e tragicamente alguns enterrarão seus filhos, mas é a vida, e a vida é o cinema.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



Tigre de Papel - Meio que uma Homenagem ao James Gray

Tigre de Papel | Diamond Films

No começo de Tigre de Papel, temos a família ideal norte-americana. E bem? Quantas vezes não vimos isso. A luz das janelas reflete na piscina de maneira perfeita, e os abraços de Miles Teller e Scarlett Johansson nos filhos são calorosos. O que gera a pergunta de: "até quando?", pois a perfeição é tamanha que parece falsa, e o filme até por meio de algumas cenas sugere que realmente ela é.

Mas a genialidade de Tigre de Papel está em nunca apresentar o conflito, pois ele não existe. Por 30 minutos, o sonho americano existe no único espaço onde ele realmente foi possível: no cinema. Até quando somos apresentadas ao personagem de Adam Driver, o irmão de Miles Teller no filme, que é um policial que anda sempre armado e tem uma queda pela violência, temos uma impressão de que o mesmo não era passível de nenhum tipo de maldade maior.

James Gray nos hipnotiza com essa realidade nos 30 primeiros minutos de Tigre de Papel. Porém, como já diria Abbas Kiarostami, o cinema é uma realidade duplamente possível, pois quando se tem dois ou mais takes, a realidade deixa de ser realidade. E com dois ou mais planos, James Gray desmonta o sonho americano, como já havia feito em seu filme Era Uma Vez em Nova York.

Ao fazer o dolly se tornar uma questão de sobrevivência no filme - a cena em que Miles Teller olha para o lago é o exemplo disto - percebemos que o sonho americano também é um sonho não intencionalmente destrutivo. Ao filmar o lago podre, James Gray também filma o sonho americano tanto quanto filmou no início do filme.

Assim me vem a memória Watchmen do Alan Moore, quando o comediante está jogando seu lança-chamas para cima da multidão e o Coruja pergunta aonde foi parar o sonho americano, gerando a rápida resposta do Comediante de que aquilo também era o sonho americano. Pois bem, a violência da segunda parte do filme, que se arrasta até o final também é, de algum modo ou outro, parte do sonho americano do início do filme.

O exercício de Gray é justamente o de como se filmar esse desejo inconsciente pela violência, pois nos seus primeiros filmes essa violência fazia parte de um ciclo direto, aqui o ciclo é totalmente indireto.

Aqui faço um exercício: a cena em que o pai de Reuben bate no rapaz em Fuga Para Odessa, enquanto a porta fecha. Temos ali a visão do que seria a violência familiar, que depois passa a ser institucionalizada. Em Tigre de Papel, temos o total contrário: na cena em que Miles Teller briga com seus filhos após tomar um apavoro da máfia e se tornar paranoico com segurança, temos uma violência que deixa a instituição (máfia) pra se tornar familiar.

O conflito atinge diretamente a personagem da Scarlett Johansson, enquanto a mesma encontra na morte uma fuga da violência familiar, que uma vez apresentada será sacralizada, como parte ritualística da família, como sempre é nos filmes de James Gray.

No fim, Paper Tiger é uma volta de James Gray aos seus filmes mais pessoais e complexos num todo. Se quisermos falar sobre como Paper Tiger é um filme que fala sobre o mesmo que em todos, deixamos isso para o futuro. Aqui, vejo uma desconstrução do que já me foi apresentado. Depois, vejo mais.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O Bosque Selvagem (2026) - A nova pièce de résistance da Laika Studios

 

O Bosque Selvagem (2026) | Imagem Filmes

Quando a jovem Prue McKeel passea, por uma tarde qualquer em Portland, ignorando o aviso dos pais, com seu irmão mais novo, Mac, tudo parecia em ordem. Porém, depois do bebê ser raptado no parque por um bando de corvos, ela e um colega de escola, Curtis, precisam salva-lo e o rasto das aves os levam para uma floresta que, à princípio, é impenetrável, mas os jovens conseguem adentra-la. Lá, os jovens descobrem um mundo mágico à beira do colapso governamental e que sua jornada se entrelaça com os planos de Alexandra, a governadora viúva, que pretende usar o irmãozinho de Prue para se vingar e conquistar aquilo que perdeu.

O Bosque Selvagem (2026), ou Wildwood no original, é o novo filme do estúdio de animação Laika Studios, depois de longos sete anos quando lançaram Link Perdido (2019), e adaptação de uma série de livros infanto-juvenis de mesmo nome escrita por Colin Melroy e ilustrada por Carson Ellis, cujo o primeiro livro serve como base da animação. O projeto de Travis Knight é, assim como a narrativa, ambicioso e consegue dar uma escala ao potencial de grandiosidade quando o assistimos. Não quero entrar em muitos detalhes, pois desejo que você, care leitore, vá ao cinema e descubra o filme por conta própria, sem saber muito do desenrolar. Apenas que, de certo, este longa animado é uma aposta arriscada. 

Aqui, em primeiro plano, temos uma animação de stop-motion, técnica na qual o estúdio é conhecida, rica em detalhes que se integra com alguns efeitos especiais em CGI, principalmente nas cenas de planos abertos e/ou que exigem um certo teor de complexidade. A questão aqui é que se trata de um projeto humano, feito por humanos por técnicas artesanais e que demandam tempo e dedicação à arte; enquanto isso, o mundo discute sobre a implementação de IA generativa não só na arte, mas também no nosso cotidiano. Existe magia, mas a magia somente é feita pela imaginação e a técnica humana, a partir daí, a ilusão nasce. 

Nosso contemporâneo atual tende a mecanizar as ações, as fantasias e a capacidade de sonhar a um patamar insosso, cuja personalidade e encantamento se perdem. Porém, fazer cinema é criar uma ilusão. Projetar a imagem dentro de pequenas cavernas e nos iludir com aquilo que vemos na nossa frente. Cinema é magia, portanto precisa de truques, técnicas e humanidade. Sem isso, arte, como um todo, perde sua essência, tanto como expressão (o cinema como forma, autoria e experimento) quanto mercadoria (pensando no cinema comercial hollywoodiano, por exemplo). 

Bosque Selvagem/Wildwood, nesse sentido, nada contra a corrente das produções atuais, por mais que não repele a todas as suas práticas contemporâneas; porém, a venda da obra como algo artesanal, feito à mãos humanas, não é só uma questão de prática, mas também de branding dentro do cenário estadunidense como um estúdio que produz animações com um certo teor de 'espírito', o qual é rejeitado pelas grandes produtoras. E dá para sentir tudo isso, enquanto assistimos um épico fantástico com cerca de duas horas e dez minutos na tela grande. Tudo é pensando para engrandecer à narrativa e à forma. Me parece que Knight e a Laika conseguem convencer o público de seus filmes que o stop-motion é uma arte pertinente e única, mesmo em tempos de inteligência artificial. O que, de certa forma, é algo lindo de se presenciar. (Não vou entrar na questão entre Laika e Nike neste texto, o que poderia problematizar o argumento.)

A animação em si é de excelente qualidade e boa parte dos detalhes técnicos que envolvem a obra são bem feitos, o roteiro tem um ritmo um pouco irregular às vezes (acho que poderia ser um filme um pouco mais longo), mas, ao mesmo tempo, abraça a ousadia de contar uma história que envolve o fantástico sem embelezar os perigos que existem em narrativas do gênero. Um desenho animado épico, uma pièce de résistance de um estúdio milionário que não rende ótimas bilheterias, mas que, ainda assim, continua a existir e a criar uma nova leva de fãs (eu lembro da época em que Coraline [2009] lançou nos cinema tá?!). Se tivesse visto esse filme com uns dez anos de idade, teria alterado a química do meu cérebro, com certeza. Com quase trinta, saí impressionado da cabine. 

Talvez ainda tenha um espaço para a magia no cinema?

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 
                                  

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Funk - Na corrida pelo seu sonho!

Funk | Paris Filmes

Funk (2026), dirigido por Aly Muritiba, assume com coragem e ousadia a realidade do funk e apresenta ao público a trajetória de uma jovem da favela que sonha em conquistar seu espaço como MC, iniciando sua carreira pelos bailes das favelas cariocas. A narrativa acompanha Sabrina, uma menina que encontra na música não apenas uma possibilidade de carreira, mas também uma forma de expressar seus desejos, sua identidade e a realidade ao seu redor. O longa acerta ao não tratar esse universo de maneira superficial ou estereotipada, permitindo que o funk faça parte da própria construção da história e da identidade de seus personagens.

Um dos grandes destaques da produção está justamente na maneira como seus elementos técnicos são utilizados para construir essa realidade, como por exemplo: a trilha sonora é excepcional e aparece de maneira pontual ao longo da narrativa, não funcionando apenas como acompanhamento das cenas, mas como uma ferramenta importante para desenvolver os acontecimentos e transmitir aquilo que os personagens estão vivendo. A música ajuda a estabelecer o ritmo do filme e, principalmente, a aproximar o espectador do universo de Sabrina. Da mesma forma, a fotografia e a direção de arte contribuem para representar o funk de maneira mais transparente, trazendo para a tela ambientes, estética e elementos que fazem parte desse universo sem tentar suavizá-los ou transformá-los em algo distante de sua realidade.

Duda Santos é outro grande acerto do longa, a atriz consegue prender a atenção do espectador desde os primeiros momentos em que Sabrina aparece e sustenta essa conexão até o final. Existe uma entrega muito evidente ao papel, tanto na maneira como ela interpreta os momentos de vulnerabilidade da personagem quanto na forma como transmite sua determinação e seus sonhos. Duda consegue construir Sabrina com muita maestria, fazendo com que a personagem pareça genuína e permitindo que suas escolhas, inseguranças e conquistas tenham peso dentro da narrativa, é uma atuação que não depende apenas de grandes momentos dramáticos, mas também de pequenos gestos e expressões que ajudam a revelar quem Sabrina é.

A construção dos personagens, inclusive, é um dos aspectos mais interessantes de Funk, o filme consegue apresentar pessoas com sonhos, dificuldades, ambições e contradições próprias, fazendo com que elas existam para além da trajetória da protagonista. Existe uma preocupação em tornar esses personagens reais, com objetivos que fazem sentido dentro de suas próprias histórias e que podem gerar identificação no público. Isso também evita aquela sensação comum em algumas produções de que os personagens secundários existem apenas como “chaveirinhos” da protagonista, servindo exclusivamente para ajudá-la ou movimentar sua narrativa. Ao acompanhar personagens que possuem sonhos possíveis, conflitos reais e diferentes formas de enxergar o futuro, o longa permite que o público se reconheça naquela realidade. Mais do que contar a história de uma menina que deseja ser MC, a produção apresenta pessoas tentando encontrar seu próprio caminho dentro das possibilidades que possuem. Existe inspiração justamente porque o longa não transforma seus personagens em figuras idealizadas: eles são apresentados com suas dificuldades, limitações e desejos, tornando suas conquistas ainda mais significativas.

No fim, Funk encontra sua maior força na autenticidade com que escolhe contar essa história. Aly Muritiba constrói um longa que entende a importância do funk para seus personagens e utiliza seus elementos técnicos para fazer com que esse universo esteja presente não apenas no roteiro, mas também na imagem e no som. A trilha sonora se destaca, a fotografia e a direção de arte ajudam a estabelecer uma identidade própria, enquanto Duda Santos entrega uma atuação extremamente envolvente como Sabrina. É um filme que abraça seu universo sem medo e encontra justamente nessa autenticidade uma de suas maiores qualidades.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

One Piece – O Grande Pirata do Ouro : 55 Minutos de Aventura e 5 de Jango

One Piece ; O Grande Pirata do Ouro | Paris Filmes

Em One Piece - O Filme, Luffy e sua tripulação partem em busca do lendário tesouro do pirata Woonan, enquanto enfrentam Eldorago, um pirata ambicioso que também persegue a fortuna.

O filme é uma “aventura filler”, ou seja, uma história que não é canônica no mangá, obra original de One Piece. Animes de longa duração costumam recorrer a episódios filler, criados principalmente para evitar que a adaptação alcance a história original, especialmente quando a série é exibida semanalmente. Esses episódios funcionam como um preenchimento, dando tempo para que o mangá avance antes que o anime continue sua adaptação. 

Sendo um filme, One Piece - O Filme acaba funcionando como uma espécie de episódio esticado — assim como o próprio protagonista, que tem o poder de se esticar. A trama é uma aventura independente e bastante direta. Luffy e sua tripulação descobrem a existência do lendário tesouro de Woonan, um pirata que teria acumulado uma quantidade gigantesca de ouro durante sua vida. A localização desse tesouro serve como ponto de partida para a aventura, enquanto o mapa que leva até ele desperta o interesse de diferentes piratas. A premissa estabelece um paralelo interessante com a própria busca pelo One Piece, já que ambas as histórias partem da ideia de algo valioso escondido que motiva uma jornada pelo mar. Entre os interessados está Eldorado, principal antagonista do longa, um pirata movido pela ganância que parte em busca do tesouro acompanhado de sua tripulação. 

A partir daí, o filme estrutura seu conflito como uma tradicional caça ao tesouro, colocando os Chapéus de Palha e os piratas de Eldorado em uma disputa para descobrir quem chegará primeiro à fortuna de Woonan. O filme entende que seu objetivo é proporcionar uma aventura rápida aos Chapéus de Palha, sem interferir na história principal da obra. O problema é que essa mesma simplicidade também faz com que o conflito pareça pouco significativo. Eldorago é um antagonista bastante convencional, movido principalmente pela ganância, e a disputa pelo tesouro não apresenta grandes surpresas.

Antes do filme, é exibido o curta-metragem Carnaval de Dança de Jango (2001), com cinco minutos e trinta segundos de duração. Ele foi originalmente lançado junto ao segundo longa-metragem de One Piece, Clockwork Island Adventure (2001). É possível que a escolha tenha ocorrido porque o filme possui apenas 55 minutos, fazendo com que, com a inclusão do curta, a duração total totalizasse exatamente uma hora. No entanto, colocar essa produção antes do longa deixa a ordem dos acontecimentos confusa, já que, no curta, Sanji já faz parte da tripulação, enquanto o filme se passa antes de sua entrada nos Chapéus de Palha. Essa inversão temporal pode causar estranhamento, especialmente para espectadores que acompanham a série e reconhecem a importância da ordem dos acontecimentos para a construção da narrativa. A trama acompanha Luffy e seus companheiros chegando à ilha Bola de Espelhos, se encontrando com o Jango, um dos vilões que eles enfrentam no arco Syrup Village. Embora funcione como uma produção independente e essencialmente cômica, sua posição antes do longa acaba interferindo na coerência cronológica da sessão.

O longa-animado foi feito com tinta e pintura tradicionais, o visual é diferente da série lançada em 1999 que está até hoje em exibição, tendo uma aparência dos animes produzidos no final da década de 1990, marcada por linhas firmes e expressivas, contornos bem definidos e uma composição visual que valoriza a sensação de movimento. O uso de cores chapadas e contrastantes, acompanhado por sombras desenhadas de forma direta e sem excesso de gradações, confere ao filme uma aparência gráfica forte e, ao mesmo tempo, preserva a sensação de animação desenhada à mão. O estilo se destaca justamente por não depender de um acabamento excessivamente polido. Pequenas irregularidades nos contornos, a textura da imagem e a aplicação manual das cores ajudam a conferir personalidade ao quadro. O resultado é uma estética dinâmica e expressiva, na qual a imperfeição do processo tradicional se transforma em parte de sua identidade visual. 

One Piece - O Filme funciona como uma experiência mais simples e independente dentro do universo da obra, apostando em uma aventura de caça ao tesouro que reproduz, em menor escala, alguns dos elementos centrais de One Piece. Embora sua narrativa seja pouco complexa e seu antagonista siga uma fórmula bastante convencional, o longa consegue compensar parte dessas limitações por meio de seu ritmo direto, do caráter descontraído da aventura e, principalmente, de sua identidade visual. 

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ponto Sem Retorno - Em qual ponto vamos chegar?

Ponto sem Retorno | Walt Disney Studios


Ponto Sem Retorno acompanha Hig, um piloto que sobreviveu a uma pandemia global de gripe que dizimou a humanidade, que vive em um hangar no Colorado com seu cachorro e um ex-fuzileiro, sua rotina muda ao captar uma misteriosa transmissão de rádio. O longa constrói sua narrativa a partir de uma proposta mais intimista e reflexiva, utilizando a trajetória de seus personagens para desenvolver uma mensagem clara sobre as escolhas e consequências que surgem ao longo da vida. O longa não parece interessado em esconder aquilo que deseja transmitir ao público, apresentando sua reflexão de maneira direta e deixando que os acontecimentos funcionem como parte dessa construção. Mesmo quando a história assume caminhos mais dramáticos, existe uma preocupação em tornar sua mensagem acessível, sem depender de interpretações excessivamente complexas para que o espectador compreenda sua proposta.

A narrativa se desenvolve lentamente e tenta, em diversos momentos, criar uma sensação de tensão diante dos acontecimentos, mas nem sempre consegue fazer com que essa expectativa tenha o impacto necessário. Existem situações que parecem preparar o terreno para algo mais intenso, porém acabam se resolvendo de maneira morna ou sem a força que o desenvolvimento sugeria. 

O desenvolvimento do romance também é uma das escolhas que pode dividir opiniões. Desde o primeiro encontro entre os personagens, a relação transmite uma sensação de algo forçado, como se o roteiro precisasse estabelecer aquele vínculo antes que a conexão realmente acontecesse de maneira natural.

Ainda assim, Ponto Sem Retorno consegue encontrar maneiras de tornar sua experiência mais leve, os momentos cômicos surgem de forma sutil e pontual, sem quebrar completamente o tom da narrativa, funcionando como pequenas pausas em meio às situações mais sérias. Esse humor não domina a trama, mas ajuda a criar uma dinâmica mais agradável entre os personagens e impede que o filme se torne excessivamente pesado. São justamente esses pequenos momentos que contribuem para trazer mais humanidade à história. 

Outro acerto está, justamente, no desenvolvimento dos personagens. Cada um possui um passado que, aos poucos, encontra espaço dentro da narrativa e se encaixa nos acontecimentos principais. O filme consegue fazer com que suas histórias anteriores não sejam apenas informações jogadas para justificar comportamentos, mas elementos que ajudam a compreender suas decisões e a maneira como se relacionam uns com os outros.

Ponto Sem Retorno (2026) possui uma mensagem reflexiva bem definida e encontra seus melhores momentos no desenvolvimento de personagens que carregam histórias e experiências capazes de contribuir para a narrativa principal. O longa possui qualidades suficientes para sustentar sua proposta e deixa uma reflexão clara sobre os caminhos escolhidos e as consequências que surgem quando já não existe mais volta.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Coyote vs. Acme — Depois de décadas apanhando, o Coyote finalmente cobra a conta

Coyote vs Acme | WarnerBros. Pictures


Após os produtos da Acme falharem muitas vezes em sua perseguição incansável ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide contratar um advogado de porta de cadeia para processar a Acme Corporation. 

Esse é o quarto filme dos Looney Tunes a combinar live action com animação, após Space Jam: O Jogo do Século (1996), Looney Tunes: De Volta à Ação (2003) e Space Jam: Um Novo Legado (2021). Diferentemente das produções anteriores, que tinham o Pernalonga como protagonista, o filme coloca o Coyote no centro da história. Embora tenha conquistado notoriedade em seus curtas clássicos, o personagem sempre ocupou uma posição menos central na marca global dos Looney Tunes em comparação ao Pernalonga, principal mascote do estúdio. Sua participação esteve, na maior parte das vezes, limitada à perseguição ao Papa-Léguas e, fora dessa dinâmica, raramente assumia um papel de destaque no universo dos personagens.

Enquanto o Pernalonga se envolve com diferentes personagens e enfrenta situações com criatividade, inteligência e sarcasmo, o Coyote costuma ser mais reservado, concentrando-se em seus próprios fracassos e nas engenhocas da Acme. Essa característica fez com que ele permanecesse, por muito tempo, em uma posição mais secundária dentro da franquia.

Essa mudança representa uma escolha interessante, pois permite aprofundar uma das relações mais características do personagem: sua dependência das invenções da Acme. Ao transformar seus fracassos recorrentes em motivo para enfrentar a empresa judicialmente, o filme ressignifica uma dinâmica tradicional dos curtas e encontra nela o conflito necessário para desenvolver sua história.

Neste filme, porém, essa dinâmica ganha um novo significado. Após anos utilizando os produtos da Acme em suas tentativas frustradas de capturar o Papa-Léguas, o Coyote decide processar a empresa, alegando que suas invenções foram responsáveis por tantos de seus fracassos. A ideia transforma uma característica que antes servia apenas como fonte de humor em um conflito que conduz a narrativa. Seus fracassos deixam de ser somente uma sequência de situações cômicas e passam a funcionar como o ponto de partida para uma história própria.

O longa preserva o humor e a estética dos Looney Tunes, trazendo de volta seus personagens clássicos e suas tradicionais cenas de ação exageradas. A animação mantém a violência cartunesca característica, com o Coyote sendo explodido, atropelado e arremessado, enquanto outros personagens enfrentam situações igualmente absurdas. Dessa forma, o filme não abandona os elementos que tornaram o personagem conhecido, mas procura incorporá-los a uma narrativa diferente.

A produção combina atores reais com personagens animados, inserindo ambos em um mesmo universo. Os personagens de animação contracenam com pessoas, objetos e ambientes reais, criando cenas de humor físico marcadas pelo exagero e pela linguagem visual característica dos desenhos. Os personagens apresentam uma aparência tridimensional, mas recebem uma camada adicional de sombreamento e pintura digital que busca reproduzir o visual característico dos clássicos curtas de animação. Esse tratamento ajuda a integrar os personagens ao universo do longa, preservando suas formas, cores e expressões tradicionais, enquanto adapta sua estética para uma produção contemporânea.

No fim, a principal força de Coyote vs Acme está na maneira como o filme consegue expandir uma dinâmica simples dos desenhos clássicos sem abandonar sua essência. Além disso, a combinação entre live action e animação, aliada à violência cartunesca, ao humor físico e ao cuidado visual com os personagens, preserva a identidade dos Looney Tunes sem impedir que a produção apresente uma proposta diferente. Dessa forma, a obra mostra que personagens tradicionalmente secundários também podem sustentar histórias próprias, desde que suas características mais conhecidas sejam reinterpretadas de maneira criativa.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Carne, Fluídos e Frango Frito no Acampamento Miasma (2026)


Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026) | MUBI, Retrato Filmes

"porque uma mulher boa/ é uma mulher limpa/e se ela é uma mulher limpa/ ela é uma mulher boa/ há milhões, milhões de anos/ pôs-se sobre duas patas/ a mulher era braba e suja/ braba e suja e ladrava/ porque uma mulher braba/ não é  uma mulher boa/ e uma mulher boa/ é uma mulher limpa" 

(Freitas, Angélica. uma mulher limpa, 2017, p.11) 

Em Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026), terceiro longa-metragem de Jane Schoenbrun, a diretora usa dos elementos do universo slasher como metáfora para o despertar da sexualidade queer e/ou tardia. No universo inspirado em filmes como Sexta-Feira 13 (1980 - 2009) e Sleepway Camp (1983 - 2008), Camp Miasma foi uma franquia bastante lucrativa durante os anos 80 que foi a precursora de filmes slasher cuja premissa tinha a figura de "Little Death" (Jack Heaven) que persegue monitores adolescentes, safados e cheios de hormônios, no acampamento que dá nome aos filmes.  Aqui, Shoenbrun (re)cria a atmosfera desse gênero do horror e conjuga, como parte integral à trama, a questão queer e com a presença da monstruosidade em cenário cis e heterossexual: Little Death não corresponde às normas de gênero, ficando à parte da sociedade, e, portanto, uma vítima desta. 

Sexo, sexualidade e identidade de gênero parecem estar intrinsecamente interligadas na concepção do universo de Shoenbrun: miasma, que parece com asma, mas não é um sinônimo, tem como origem a palavra grega μιάσμα, uma mancha, sujeira; que, expandido seu sentido ao contexto da obra, torna-se um equivalente a algo vergonhoso, ruim e contra a ordem moral do mundo. Como diria a poeta Angélica Freitas em seu livro "o útero é do tamanho do punho", a sujeira da aparência, neste caso do gozo, do sexo, é um traço de feiura, de descarte, de subalterna. 

Esse é o lugar em que Kris (Hannah Einbinder) se encontra: ela, uma diretora premiada em festivais e fã da franquia, é recrutada para reestruturar uma nova série de filmes para os estúdios detentores dos direitos. Para isso, ela viaja até a fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá para se encontrar com Billy Preston (Gillian Anderson), protagonista da franquia, no set do primeiro filme da franquia. Porém, Kris se encontra em um entre-lugar dentro da sua psique: existe uma fascinação, puramente sexual e artística, com Billy; porém ainda ela não consegue dar o próximo passo, algo que a puxa para dentro de suas próprias inseguranças, que a fazem a parecer infantilizada ao algo de Preston... Um monstro que precisa ser despertado e manifestado. Algo que somente "Little Death" pode dar um empurrãozinho ou coisa pior...

Schoenbrun elenca os temas principais do gênero ("flesh and fluids") e os desenvolve ao longo de sua narrativa que combina o onírico e o metafórico que, por vezes didático ou "too much on the nose" do público mais esperto, impulsiona a condução narrativa do filme. O trabalho da diretora é sedutor em vários momentos, usando da química mortal entre Einbinder e Anderson, e divertido em outros (por mais que o uso de CGI não me convenceu muito bem em algumas sequências). A obra acaba usufruindo demais de seu universo e de piadas internas do gênero, mas a intenção de emular um gênero é diferente do que criar um diferente naquele gênero cinematográfico em especifico e isso é uma noção que ela sabe bem. É um "slasher" dentro de um slasher. Talvez quando o filme acaba se tornado autoconsciente ao público de sua própria natureza, não me incomoda, mas seu charme queer diminui um pouco, no entanto, quando ele abraça sua forma e trama como um experimento e não só uma simples-narrativa-meta-sobre-um-gênero-cinematográfico, o resultado é muito interessante.

Gosto do trabalho da realizadora, que também fez I Saw The TV Glow (2024), e como ela trabalha com a noção de identidade e da perda de subjetividade, de aproximar o olhar periférico, quase passivo, e se colocar na pele, neste caso nos olhos, do subjugado pela sociedade. É evidente que há um tema a ser desenvolvido por Schoenbrun ao longo de sua carreira como uma "autora" de gênero e de que estamos vivendo um filme de terror particular no nosso dia-a-dia. Gozar é morrer, e vice-versa. A realidade é uma ficção que nós mesmos inventamos  Depois disso, a vida continua, mas "Little Death" sempre estará no fundo do lago, pronto para ressurgir uma nova vez.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Anatomia do Caos - A Memória de uma Tragédia Nacional

Anatomia do Caos | Descoloniza Filmes


O documentário traz depoimentos dos bastidores da CPI da COVID-19. Um registro profundo de um dos momentos mais críticos da pandemia no Brasil. 

Ao abordar um dos momentos mais trágicos da história recente, o documentário Anatomia do Caos evidencia que milhares de brasileiros morreram de COVID-19 antes mesmo de terem a chance de receber uma vacina. Esse cenário foi agravado pela postura irresponsável do governo federal, que minimizou a gravidade da doença ao chamá-la de “gripezinha”, disseminou desinformação e demorou a negociar a compra de vacinas. Essas decisões tiveram consequências profundas para a população, contribuindo para o aumento do número de mortes e dificultando o enfrentamento da pandemia. Além disso, o apoio de parte da população ao discurso negacionista reforçou a circulação de informações falsas, comprometendo medidas essenciais de prevenção e proteção coletiva. O documentário também evidencia como a falta de coordenação entre as autoridades e o desprezo pelas recomendações científicas geraram insegurança e desconfiança em um momento em que a população precisava de respostas rápidas baseadas em evidências. Ao expor esses acontecimentos, a obra convida o espectador a refletir sobre a importância da responsabilidade política, da valorização da ciência e da preservação da memória histórica, para que tragédias como essa não sejam minimizadas nem repetidas no futuro.

A produção reúne imagens de arquivo, declarações de Jair Bolsonaro, cenas marcantes, como a imitação de pessoas com falta de ar, a atuação dos ministros, o chamado gabinete paralelo, as valas coletivas e os relatos de familiares que perderam entes queridos. Esses elementos ajudam a reconstruir os acontecimentos que marcaram a condução da pandemia no Brasil e evidenciam o impacto das decisões políticas sobre a população. Embora não traga novas revelações e apresente acontecimentos amplamente conhecidos, o documentário cumpre um papel importante ao registrar um dos períodos mais sombrios da história recente do País. Mesmo sem trazer novas revelações, a obra preserva a memória coletiva e reforça a importância de refletir sobre as consequências das escolhas feitas durante a pandemia, destacando a necessidade de responsabilidade pública e do respeito à ciência para evitar que erros semelhantes se repitam.

O uso de planos panorâmicos, acompanhado pela exibição do número de vítimas fatais na tela e por uma trilha sonora de suspense, intensifica o impacto emocional da narrativa. Além disso, o uso predominante de imagens de arquivo confere autenticidade ao relato e reforça a sensação de que o espectador revisita acontecimentos ainda recentes. Esses recursos audiovisuais despertam sentimentos de angústia, reflexão e empatia diante dos acontecimentos apresentados. A combinação entre imagens marcantes, sons tensos e leva o espectador a compreender a gravidade dos fatos retratados e a refletir sobre as consequências humanas, sociais e históricas desse episódio de grande relevância.

Anatomia do Caos registra um dos períodos mais marcantes da pandemia no Brasil, preservando a memória dos acontecimentos e incentivando a reflexão sobre responsabilidade política, valorização da ciência e os impactos das decisões tomadas durante a crise sanitária. Por meio de imagens de arquivo, depoimentos e registros históricos, o documentário constrói uma narrativa envolvente que evidencia a dimensão humana e social da tragédia. Ao revisitar esse período, a obra reforça a importância da memória coletiva e convida o público a refletir criticamente sobre os erros do passado para que situações semelhantes não se repitam.


Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.



quinta-feira, 25 de junho de 2026

Segredos Obscuros - Mais uma obra que centraliza a aparência e a idade como parâmetros sociais rígidos

Segredos Obscuros | Paris Filmes

Determinadas pautas atuais chegaram com força até o audiovisual. A busca pela longevidade da juventude pode ser descrita de diversas formas, desde as mais cômicas às mais sombrias. No Brasil, vimos uma trama parecida com a descrita na novela Beleza Fatal (2025), grande sucesso da HBO Max. Já em Hollywood, a principal expoente recentemente possui o título de A Substância (Coralie Fargeat, 2024). É nesta última que o lançamento do diretor Max Minghella é, pelo que parece, inspirado. Segredo Obscuro (2024) torna-se mais uma obra que centraliza a aparência e a idade como parâmetros sociais rígidos.

Samantha (Elizabeth Moss) é uma atriz em decadência. Enquanto o tempo passa, sua carreira se mostra mais datada; culpa da falta de renovação e do padrão estético não convencional da personagem. Um belo dia, Sam conhece a Shell, uma empresa que promete vitalidade eterna por meio de um tratamento. Embora relutante, as inseguranças da protagonista a fazem se submeter aos procedimentos da “clínica”, na qual a CEO, Zoe Shannon, é a glamorosa porta-voz. Ambas formam uma amizade, mas segredos perigosos estão por trás da relação e de toda perfeição exibida por Zoe e seu negócio.

Logo no primeiro momento, nos deparamos com uma insatisfação já utilizada em outros longas-metragens: trajetórias no mundo artístico que se declinam por conta da superficialidade geral. O assunto é revelado através de Sam que, como muitas, não se encontra no molde estadunidense de hoje. Entretanto, é inexistente a diferença de como é mostrado tal preocupação, em uma demonstração expositiva, sem rodeios e sem chances de muita conexão com a personagem principal. O filme em si é visto como mais um em que a protagonista procura seu espaço, cede aos encantos de uma solução duvidosa, e encara consequências por conta disto.

A Substância é visivelmente uma comparação inevitável a Segredo Obscuro, que escolhe até o mesmo caminho do suspense e do body horror para ser conduzido. Porém, neste os recursos estilísticos e narrativos chamam atenção pela maior pobreza e perda de identidade. Tudo aqui já foi visto antes, além de nada ser um grande mistério. O filme traça um caminho já esperado desde o começo, não alcançando sua intenção de ser chocante ou tenso. O próprio terror, que demora a ser percebido, possui manejos que não dão certo em seu conjunto.

O ritmo volúvel, a trilha sonora notadamente deslocada (mais parecida com a de um filme de ação, não suspense) e até as boas intenções do diretor de criar um universo com itens retrô e futuristas concomitantemente, são falhas que descaracterizam o longa-metragem; sem identidade, até as mais aterrorizantes descobertas de Sam são deficientes de emoção e estilo próprio, ainda que tente.

Entretanto, o filme é carregado por duas boas interpretações. Elizabeth Moss retrata bem uma artista desesperada e ingênua, ainda com a esperança de reaver seus tempos dourados. Sua intimidade posterior com a excêntrica e, ao mesmo tempo, amigável, Zoe, feita de forma não caricatural por Kate Hudson, é a maior qualidade da obra, tendo isto como ponto central para que o espectador não desista da trama.

Segredo Obscuro não é trash, não é terror, não é gore e nem é um suspense que consiga prender a atenção do público. Ainda que suas empreitadas para ser tudo isso existam, a produção pouco se solidifica como um destes gêneros. Ademais, o enredo batido, ao passo que é relevante e merece ser discutido a finco, deixa rastros que não criarão memórias nem resquícios. A dupla de atrizes que comanda o filme é boa, mas não suficiente para atingir a proposta requerida: assustar e fazer pensar. Talvez em uma próxima chance o cinema novamente seja palco para histórias que permeiam a estética, o envelhecimento e o julgamento da sociedade.

Autora:


Lais Lima 

25 anos, formada em cinema, roteirista, crítica, videomaker e moradora do Rio de Janeiro, minha paixão pelo cinema transcende as telas. 
De “Guarda-Chuvas do Amor” até “Laranja Mecânica”, meu amor pela arte não se prende a nenhum gênero, mas sim ao que me toca. 
Também sou apaixonada pelos pormenores da vida, que se apresentam sem nenhum roteiro. 
Logo, imaginação não falta em mim. 
Sou de tudo um pouco, e procuro sempre expor minha versão mais democrática, que enfrenta a realidade com a maior criatividade possível.

Toy Story 5 - Adeus, chão do quarto. Olá, algoritmo

Toy Story 5 | Disney


Buzz, Woody, Jessie e os demais brinquedos tradicionais são desafiados pela nova obsessão das crianças do século XXI: os dispositivos eletrônicos.

A era dos brinquedos parece ter chegado ao fim, e eles temem não serem mais brincados por seus donos. As crianças estão cada vez mais interessadas em tablets e outras formas de entretenimento digital, algo que reflete uma realidade atual em que a tecnologia ocupa um espaço cada vez maior na infância e redefine os modos de brincar. A ideia de abordar esse tema é interessante porque permite que o filme discute as transformações nos hábitos das novas gerações e suas consequências emocionais. Essa discussão já havia sido ensaiada em Toy Story: Esquecidos Pelo Tempo, que explora o conflito entre videogames e brinquedos tradicionais. O novo filme retoma essa ideia, mas a amplia ao trazer o impacto dos tablets e da pressão social na infância contemporânea.

O longa não tem a intenção de retratar a tecnologia como algo negativo, mas sim de refletir sobre o impacto que ela exerce nos hábitos e comportamentos das novas gerações. A trama sugere que Bonnie passa a sentir vergonha de brincar com seus brinquedos ao perceber que outras crianças preferem tablets e formas de entretenimento digital. Esse conflito vai além da simples disputa entre brinquedos e tecnologia, tornando-se uma reflexão sobre aceitação e o medo de julgamento, algo com o qual o público de diferentes idades pode se identificar. Nesse contexto, a narrativa também evidencia a pressão social que leva crianças — e até adultos — a esconder interesses considerados “infantis”, transformando o conflito em uma discussão sobre identidade, pertencimento e auto aceitação.

O passado de Jessie, já introduzido em Toy Story 2, retorna como elemento emocional importante. O filme aprofunda sua dor do abandono e trabalha sua aceitação de forma mais madura e sensível, o que justifica seu destaque como protagonista nesta nova fase da franquia. Falando na personagem, a escolha de Jessie como protagonista de Toy Story 5 é interessante, já que Woody já teve sua trajetória bem desenvolvida ao longo da franquia, enquanto Jessie ainda não recebeu tanto destaque no filme anterior. Dessa forma, o longa amplia o espaço narrativo da personagem e permite um aprofundamento emocional mais consistente dentro da história.

Do ponto de vista técnico, o filme apresenta uma evolução evidente. O flashback de Jessie, por exemplo, ganha nova vida com iluminação mais equilibrada, vegetação mais detalhada e maior profundidade de cenário, reforçando a sensação de realismo. A estética mantém o tom quente do original, mas com um acabamento mais natural e imersivo, contribuindo para uma experiência visual mais refinada. Além disso, a composição das cenas valoriza melhor o espaço e a ambientação, tornando o resultado final mais consistente e envolvente.

Toy Story 5 equilibra nostalgia e atualização ao revisitar temas da infância contemporânea e aprofundar personagens como Jessie. A evolução técnica da animação reforça a imersão, embora a narrativa siga uma estrutura relativamente segura dentro da franquia. Ainda assim, o filme mantém sua força emocional e sua relevância para diferentes gerações. Assim, o filme reafirma a capacidade da franquia de emocionar ao mesmo tempo em que se adapta às mudanças do tempo, preservando sua identidade e conquistando novos públicos sem perder a essência que a tornou marcante.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra: Quando o apocalipse chega… mas primeiro precisa juntar um grupo no modo “reunião de condomínio caótica”

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra | Paris Filmes


Afirmando ser do futuro, um homem faz reféns em uma lanchonete de Los Angeles para recrutar heróis improváveis que o ajudem a salvar o mundo.

Quem assina a direção é Gore Verbinski, o mesmo responsável por O Chamado, pela primeira trilogia de Piratas do Caribe e por Rango. Nesses últimos trabalhos, o diretor explora uma combinação de comédia caricata com aventura, apresentando protagonistas marcados pelo exagero e pela expressividade. É o caso de Jack Sparrow, cuja caracterização começa pelo corpo: ele caminha de forma cambaleante, como se estivesse constantemente bêbado ou tentando se equilibrar em meio a uma tempestade — mesmo quando está em terra firme. 

Seus gestos são espalhafatosos, com mãos trêmulas, olhares rápidos e mudanças bruscas de direção, reforçando seu aspecto excêntrico. Já em Rango, o protagonista é caricato de outra maneira: trata-se de um ator perdido dentro da própria vida. Seus movimentos são nervosos, exagerados e repletos de poses dramáticas, como se estivesse sempre encenando para uma plateia invisível.  Neste filme em questão, a proposta mistura ficção científica com comédia e também apresenta um protagonista caricato: o “Homem do futuro”. Logo ao chegar ao restaurante, ele chama a atenção de todos ao subir sobre a mesa, marchando e fazendo caretas, evidenciando, mais uma vez, o gosto de Verbinski por personagens marcados pelo exagero físico e pela performance expressiva.

A premissa é, ao mesmo tempo, instigante e excêntrica: combina viagem no tempo, ansiedade tecnológica e um grupo improvável reunido em uma situação limite. Há uma clara influência da ficção científica contemporânea que problematiza a dependência digital, a inteligência artificial e o isolamento humano. O grande mérito da trama está justamente nessa ideia central — o mundo não chega ao fim por meio de uma explosão ou uma guerra convencional, mas por uma espécie de rendição silenciosa à tecnologia. Por outro lado, a experiência acaba sendo prejudicada pela duração excessiva. Com duas horas e quatorze minutos, o filme se estende além do necessário, e a narrativa certamente se beneficiaria de um corte mais enxuto, reduzindo cerca de trinta minutos para manter o ritmo mais dinâmico e envolvente.

O filme apresenta cada personagem desse grupo improvável em capítulos antes de chegarem à lanchonete, cada um apresentando os seus motivos e também sendo vítimas da tecnologia. Pegando um desses capítulos sem dar spoilers, os personagens Mark e Janet são professores que lidam com uma turma completamente absorvida pelos celulares, a ponto de isso afetar o comportamento dos alunos de maneira inquietante. Diante dessa situação cada vez mais estranha, eles acabam recorrendo a uma solução alternativa na tentativa de entender — e conter — o que está acontecendo. Essa escolha de contar a motivação de cada um, funciona, pois permite que o espectador compreenda melhor cada personagem e crie uma conexão mais sólida com o grupo como um todo.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra se sustenta pela originalidade da proposta e pela forma como articula humor, absurdo e crítica social em torno da relação humana com a tecnologia. Gore Verbinski reafirma seu interesse por personagens excêntricos e situações que beiram o caótico, construindo uma narrativa que, mesmo irregular em ritmo, consegue se destacar pela própria identidade. Apesar dos excessos — especialmente na duração e em certos momentos mais alongados —, a obra compensa ao provocar reflexão sem abrir mão do entretenimento. Ao apostar em um grupo improvável e em uma ameaça atual, o filme encontra um equilíbrio interessante entre o cômico e o inquietante, deixando uma impressão final curiosa e relevante dentro da ficção científica contemporânea.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Chronovisor - Por Outros Olhos

Chronovisor | Grasshopper Film A primeira coisa que me chama a atenção em Cronovisor, primeiro projeto dos diretores Jack Auen e Kevin Waler...