quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Feito Pipa - Carta de amor, brilho e liberdade à infância

Feito Pipa | Paris Filmes

O longa brasileiro dirigido por Allan Deberton e estrelado por Yuri Gomes e Lázaro Ramos, acompanha Gugu, um menino de 11 anos que vive com sua avó Dilma nas proximidades de uma barragem. Enquanto o garoto aproveita sua infância com a coragem e a curiosidade próprias de sua idade, Dilma começa a enfrentar o avanço do Alzheimer, fazendo com que as lembranças e a própria percepção da realidade se tornem cada vez mais frágeis. Conforme a condição da avó se agrava, Gugu passa a esconder o que está acontecendo por medo de ser afastado dela e acabar vivendo com o pai, um homem homofóbico. Entre momentos de afeto, descobertas e o inevitável avanço do esquecimento, o filme acompanha a relação dos dois diante de um futuro cada vez mais incerto.

É justamente a partir dessa relação que Feito Pipa constrói sua narrativa, encontrando sua principal força na perspectiva de Gugu. Ao longo da história, acompanhamos não apenas a deterioração da memória de Dilma, mas também o amadurecimento precoce de um menino que tenta lidar sozinho com uma situação que ultrapassa aquilo que sua idade deveria exigir. A produção apresenta ainda uma representação do Ceará que foge de algumas imagens mais recorrentes associadas ao estado no cinema, trazendo uma região mais genuína, viva e próxima de seus personagens. Essa ambientação contribui para que o longa encontre uma identidade própria e faça do cenário uma parte importante da experiência.

Por outro lado, essa própria escolha acaba sendo parcialmente compensada pela maneira como Yuri Gomes domina as telas, o ator entrega um Gugu extremamente envolvente e consegue fazer com que o espectador acompanhe a história quase inteiramente através do seu olhar. Sua interpretação estabelece uma conexão tão forte com o personagem que passamos a compartilhar sua percepção sobre as pessoas ao seu redor, conhecendo-as conforme ele as conhece. Isso faz com que o público nem sempre tenha tempo para construir suas próprias conclusões sobre os demais personagens, já que a narrativa está constantemente filtrada pela experiência de Gugu.

A relação entre Gugu e sua avó, interpretada por Teca Pereira, é outro grande destaque, a química entre os dois é impressionante e existe uma naturalidade na maneira como Yuri Gomes e Teca Pereira dividem a tela, que faz parecer que ambos nasceram para aqueles papéis. A relação de avó e neto é construída com afeto, cumplicidade e também com uma emoção que não depende de grandes discursos para funcionar. Pequenos gestos, olhares e momentos compartilhados são suficientes para transmitir a importância que um tem na vida do outro. É uma dinâmica que consegue criar alguns dos momentos mais emocionantes do filme justamente porque parece verdadeira.

Feito Pipa entrou na corrida brasileira pelo Oscar 2027, algo que também acrescenta uma dimensão importante à trajetória do longa. A produção possui características que podem representar muito bem o cinema brasileiro internacionalmente, principalmente pela maneira como transforma uma história profundamente particular em uma experiência capaz de dialogar com temas universais, como família, memória, afeto, amadurecimento e pertencimento. Mais do que levar uma produção brasileira para uma premiação internacional, o filme tem a oportunidade de apresentar ao público estrangeiro uma narrativa marcada por personagens genuínos e por uma representação do Ceará que foge de estereótipos. É justamente essa identidade própria que faz com que o longa tenha potencial para ser um representante bastante significativo do Brasil nessa corrida. 

Feito Pipa encontra em Yuri Gomes seu grande ponto de equilíbrio. O ator domina a narrativa e transforma Gugu em um protagonista carismático, envolvente e capaz de conduzir o espectador por sua própria perspectiva. A relação construída com Teca Pereira é outro grande acerto e entrega uma das conexões mais fortes e emocionantes do filme. Embora alguns personagens secundários deixem a sensação de que poderiam ter sido mais desenvolvidos, a força da dupla central compensa parte dessas limitações. É um longa que encontra sua identidade na simplicidade das relações e, principalmente, na capacidade de fazer o público enxergar aquele universo através dos olhos de Gugu.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

 

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