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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Saudade, lirismo e pós colonialismo em Nosso Segredo (2026)

 

Nosso Segredo (2026) | Vitrine Filmes

Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Ken mostrá-be es kaminhu lonje?
Es kaminhu pa Santumé
Sodade, sodade
Sodade des nha térra Saniklau
Sodade, sodade

Sodade des nha térra Saniklau       (Sodade - Cesária Évora, composição: Amandio Cabral).

Durante a ausência, alguém mostra sua marca. Um espectro, conjecturado pelo inconsciente saudoso para suprir sua falta no mundo. Dizem que o mundos pertencem aos vivos, e não aos mortos; mas se os vivos quiserem, podem conjurar suas imagens para assombrá-los. Em Nosso Segredo (2026), longa-metragem de Grace Passô na direção, há um duplo fantasma: aquele que vive na memória e outro que se manifesta na inscrição de um ser no mundo. Passô, atriz e dramaturga celebrada, já vem desenvolvendo um belo trabalho sobre protagonismo feminino e a ausência do masculino em seu corpus teatral, dentre os quais vem a peça que inspira o filme (a qual não li, portanto irei me basear somente na adaptação fílmica aqui) e Mata teu pai (que já li e vi nos palcos). 

Ambas as obras apresentam uma matriarca lidando com as forças do mundo ao redor e pela falta do amor que lhe foi tirada. Em Segredo, Suely (Ju Colombo) lida com a morte misteriosa e repentina de seu marido, que acaba mudando a dinâmica de sua família; já em Mata, Medeia é abandonada por Jasão, buscando conforto nas mulheres de sua vizinha e nas filhas, com quem tem uma relação ambivalente ao longo da peça. O que Passô transmite com essas obras não é a importância de um homem, mas a ausência do amor, um sentimento considerado universal e, por sua vez, lhe é negado as suas personagens. No caso do longa em questão, não é que o amor morreu, mas empalideceu-se diante das circunstâncias, tornando-se um elo muito frágil a ser rompido a qualquer momento. Mas, ao contrário de Mata, Passô não concentra a ação em uma única personagens, trabalhando em um pequeno ecossistema orgânico que desenvolve ao logo da trama. A dor, a sua maneira, é compartilhada. Por enquanto,  voltemos ao argumento da obra: 

Em Belo Horizonte, uma família negra tenta lidar com a morte repentina de seu patriarca, um homem branco: mãe, Suely, sofre com a solidão; o filho mais velho, Gilson (Robert Frank), trabalha como motorista de aplicativo e torna-se viciado na rotina, renunciando ao sono; a filha, Grazi (Jéssica Gaspar), lida com uma depressão em segredo do namorado, Sidney (Juan Queiroz); o filho do meio, Guto (Flip), torna-se cada mais afastado da família; já o caçula da família, Tutu (Efraim Santos), tenta levar uma rotina doméstica durante esse período e ele é a única pessoa do seio familiar que conhece o segredo que levou à tragédia, o qual ele guarda com garra e força. 

A composição dos quadros, em tons azulados, em planos fechados, em closes e detalhes, a presença de coisas não ditas nos diálogos, constroem um clima ora de proximidade, ora claustrofóbico e mistério que flerta com o universo dos gêneros de suspense e do terror... Até certo ponto, muitos podem considerá-la como um "terror elevado" brasileiro, porém seria reducionista com a obra ao tacha-la nesse âmbito, já que a ficção latino-americana (ou seria nesse caso amefricana, se pensarmos em Lélia Gonzalez?) tem um farto histórico com o realismo fantástico, algo que está bem na alçada do filme. Algo fora do alcance do possível, de grandes transformações. O mistério sobre o que paira e o modo que e desenrolado é o que move a trama; mas Passô tem tempo para descrever o humano dentro de sua narrativa, mesmo que não se prenda a aspectos psicológicos e densos. O importante à obra é a transmissão da sensibilidade do público aos seus personagens, utilizando de uma construção de personagem coletiva vívida e plural, e que cause uma identificação com uma certa realidade brasileira: molhar e pôr a palavra para fora. Irromper com as amarras da dor, fortalecer o laço. 

A diretora não faz, em si, um filme político, ou de uma safra que se diz político que se generalizou na última década por uma sensação de urgência diante a situação política e social do país e produziu uma série de filmes didáticos e/ou superficiais sobre várias vertentes e gêneros (recomendo a leitura do ensaio de Hermano Callou sobre essa questão no cinema brasileiro), mas toca em elementos sociais e raciais pela tensão e pela fantasia. As tensões aumentam quando Tutu tenta avisar, de forma desajustada, e impedir que a namorada branca, Lêda (Glaúcia Vanderveld), de sua tia lésbica, Anamélia (Marisa Revert), que também vive na casa junto ao restante da família, de entrar na sua casa. Em outro momento, as mulheres conversam sobre essa questão, no qual Anamélia responde que há algo na casa, vindo de longe, que não deseja que a mulher entre dentro daquele universo. 

O filme de Passô me faz lembrar de um filme que assisti ano passado: O Riso e a Faca (2025), de Pedro Pinho (o qual já escrevi no blog na ocasião), que tem uma situação parecida. No longa de Pinho, o personagem Sérgio, um engenheiro português branco em Guiné-Bissau, vai até a casa de Cléo, uma mulher negra que conhece na sua viagem, sem ser avisado e esperando ser convidado a entrar. O embaraço começa. Claramente, Cleo não o espera, mas não deseja ser indelicada com o rapaz; ela o deixa entrar e serve um chá, mas a conversa entre os dois é fria e distante e, logo, consegue "expulsá-lo" de casa. Por mais que a situação no filme de Passô seja mediada pelo fantástico, há uma abordagem que dialoga entre as duas obras e que sintetizam o embraço do passado colonial na era do pós-colonialismo. A presença de um corpo alheio, estranho, que quer se fazer presente dentro de um espaço que não lhe pertence. A força pela insistência carrega, nestes contextos, em si, um certo pensamento que remonta a época de invasão e de escravização de pessoas africanas pelo império português. Algo que possa provocar um descompasso dentro da ordem das coisas.

Portanto, se voltarmos ao início do texto, nós temos dois espectros em jogo dentro da narrativa: um da memória e do afeto familiar; outro do colonialismo e de seus traumas que atravessam os séculos. Nosso Segredo não é urgente ou político, mas contemplativo e lírico, com um toque sobrenatural, que penetra no mundano. Convida seu público a participar e descobrir seu universo particular. Um afago no peito, uma verdade não dita, um olhar para o abismo, a descoberta de uma herança, uma história sobre identidade e de pertencimento ao mundo dos vivos: cheio de dores e encantos cotidianos. Viver um dia de cada vez. Lidar com a saudade, palavra mística da língua portuguesa, indeclinável e intraduzível; que ainda persegue no período pós-colonial.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

Corrida dos Bichos - Façam suas apostas!

Corrida dos Bichos | Amazon Prime


A produção do Prime Video, se passa em um futuro distópico no Rio de Janeiro, onde o mar secou após uma catástrofe climática e o tradicional jogo do bicho foi transformado em uma corrida mortal voltada para a elite. Nesse cenário, acompanhamos Mano, um jovem rebelde que é obrigado a participar da competição para salvar sua irmã, utilizada como garantia em uma aposta clandestina. A premissa já estabelece uma combinação interessante entre ação, ficção científica e elementos da cultura brasileira, utilizando um Rio de Janeiro completamente transformado como palco para uma disputa na qual cada participante precisa lutar pela própria sobrevivência. 

O roteiro segue uma estrutura relativamente simples e não busca apresentar uma trama excessivamente complexa. Porém, isso acaba funcionando a favor do filme, já que Corrida dos Bichos sabe exatamente o que deseja entregar e conduz sua história de maneira bastante direta. A narrativa apresenta seus conflitos, estabelece seus objetivos e segue em direção às corridas sem criar desvios desnecessários. É uma história simples, mas que cumpre aquilo que promete e consegue manter o interesse do espectador justamente por não tentar transformar sua premissa em algo maior do que ela precisa ser. 

Um dos grandes acertos do longa está em seu elenco, que consegue tornar os personagens bastante cativantes. Mesmo dentro de uma narrativa marcada por competição, perigo e conflitos, existe uma preocupação em fazer com que o público se envolva com aqueles que acompanhamos. As interpretações ajudam a estabelecer personalidades distintas e fazem com que as relações entre os personagens funcionem como um dos elementos responsáveis por sustentar a trama. É justamente esse envolvimento que faz com que os momentos de maior perigo tenham mais peso, já que existe uma conexão construída com os participantes da corrida. 

As corridas são outro grande destaque da produção. As sequências são muito bem feitas e conseguem transmitir a velocidade, o perigo e a dimensão da competição, utilizando a ação de maneira bastante eficiente. Existe uma preocupação em fazer com que esses momentos tenham impacto visual e não pareçam apenas uma repetição da mesma situação, mantendo a sensação de disputa e imprevisibilidade. O resultado são sequências empolgantes que funcionam muito bem como espetáculo e conseguem prender a atenção do espectador, principalmente quando os personagens são colocados diante de situações cada vez mais arriscadas. 

Construir um Rio de Janeiro distópico após uma catástrofe climática poderia facilmente resultar em um cenário genérico, mas o filme consegue aproveitar características reconhecíveis da cidade para criar sua própria identidade. O desaparecimento do mar e as transformações provocadas pelo desastre climático ajudam a estabelecer um futuro diferente daquele que conhecemos, enquanto a estética da elite que acompanha as corridas contrasta com a realidade daqueles que participam delas. 

Corrida dos Bichos é um filme que entende bem sua proposta e não tenta ser mais complexo do que precisa. No fim, o longa consegue unir ação, entretenimento e uma ambientação criativa em uma produção que aproveita uma premissa bastante brasileira para construir uma aventura de ficção científica divertida e direta.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Honestino (2026) - Juntos na luta pela educação e democracia

Honestino | Pandora Filmes

Honestino (2026), dirigido por Aurélio Michiles, resgata a trajetória de Honestino Guimarães, ex-presidente da UNE e um dos principais líderes do movimento estudantil brasileiro durante a ditadura militar, estudante da UnB e importante voz da geração de 1968, preso cinco vezes e sequestrado em 1973 aos 26 anos. Ao apresentar sua trajetória política e pessoal, o filme busca humanizar uma figura frequentemente lembrada apenas pelos acontecimentos que marcaram seu desaparecimento, evidenciando seus ideais, conflitos e relações ao longo desse período turbulento da história do Brasil.

A direção de Aurélio Michiles demonstra sensibilidade ao equilibrar momentos de forte carga dramática com uma narrativa de ritmo constante, evitando transformar a obra em uma sucessão de acontecimentos históricos. O diretor aposta em uma linguagem intimista, permitindo que os personagens conduzam a narrativa por meio de seus depoimentos enquanto os cortes gravados por atores ilustram os momentos citados. A montagem, principalmente, favorece o desenvolvimento da narrativa ao organizar os acontecimentos de forma clara, permitindo que o espectador acompanhe a evolução política de Honestino sem comprometer o entendimento da cronologia, já a trilha sonora é utilizada de maneira mais  pontual, reforçando a tensão dos momentos mais dramáticos sem competir com as emoções transmitidas pelos personagens.

Bruno Gagliasso assume a responsabilidade de interpretar Honestino Guimarães de maneira contida e respeitosa, sua atuação transmite convicção nos momentos de maior tensão política, ao mesmo tempo em que evidencia a humanidade de Honestino por meio de pequenos gestos e expressões, tornando mais palpáveis seus medos, convicções e sacrifícios. A escolha de intercalar essas cenas dramatizadas com registros de arquivo, cartas, poemas e depoimentos de figuras que conviveram ou estudaram o período reforça a autenticidade da narrativa. Em vez de competir com o material documental, a interpretação de Gagliasso funciona como um elo entre a ficção e a memória histórica, contribuindo para aproximar o espectador de uma figura conhecida nos livros de História.

Entretanto, o ritmo mais contemplativo pode causar a sensação de lentidão para parte do público e possivelmente anticlimático, especialmente nos trechos em que o longa dedica mais tempo às discussões políticas do que aos conflitos do protagonista. Ainda assim, essas escolhas não comprometem a proposta da obra, que permanece coerente com sua intenção de preservar a memória de Honestino Guimarães e do período retratado. 

Honestino (2026) se destaca pela qualidade de sua reconstrução histórica e pelo cuidado técnico empregado em todos os aspectos da produção. Mesmo apresentando um ritmo mais contido, o longa cumpre seu papel ao provocar reflexão sobre um período marcante da história brasileira e reafirmar a importância da preservação da memória e da democracia. 

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Anatomia do Caos - A Memória de uma Tragédia Nacional

Anatomia do Caos | Descoloniza Filmes


O documentário traz depoimentos dos bastidores da CPI da COVID-19. Um registro profundo de um dos momentos mais críticos da pandemia no Brasil. 

Ao abordar um dos momentos mais trágicos da história recente, o documentário Anatomia do Caos evidencia que milhares de brasileiros morreram de COVID-19 antes mesmo de terem a chance de receber uma vacina. Esse cenário foi agravado pela postura irresponsável do governo federal, que minimizou a gravidade da doença ao chamá-la de “gripezinha”, disseminou desinformação e demorou a negociar a compra de vacinas. Essas decisões tiveram consequências profundas para a população, contribuindo para o aumento do número de mortes e dificultando o enfrentamento da pandemia. Além disso, o apoio de parte da população ao discurso negacionista reforçou a circulação de informações falsas, comprometendo medidas essenciais de prevenção e proteção coletiva. O documentário também evidencia como a falta de coordenação entre as autoridades e o desprezo pelas recomendações científicas geraram insegurança e desconfiança em um momento em que a população precisava de respostas rápidas baseadas em evidências. Ao expor esses acontecimentos, a obra convida o espectador a refletir sobre a importância da responsabilidade política, da valorização da ciência e da preservação da memória histórica, para que tragédias como essa não sejam minimizadas nem repetidas no futuro.

A produção reúne imagens de arquivo, declarações de Jair Bolsonaro, cenas marcantes, como a imitação de pessoas com falta de ar, a atuação dos ministros, o chamado gabinete paralelo, as valas coletivas e os relatos de familiares que perderam entes queridos. Esses elementos ajudam a reconstruir os acontecimentos que marcaram a condução da pandemia no Brasil e evidenciam o impacto das decisões políticas sobre a população. Embora não traga novas revelações e apresente acontecimentos amplamente conhecidos, o documentário cumpre um papel importante ao registrar um dos períodos mais sombrios da história recente do País. Mesmo sem trazer novas revelações, a obra preserva a memória coletiva e reforça a importância de refletir sobre as consequências das escolhas feitas durante a pandemia, destacando a necessidade de responsabilidade pública e do respeito à ciência para evitar que erros semelhantes se repitam.

O uso de planos panorâmicos, acompanhado pela exibição do número de vítimas fatais na tela e por uma trilha sonora de suspense, intensifica o impacto emocional da narrativa. Além disso, o uso predominante de imagens de arquivo confere autenticidade ao relato e reforça a sensação de que o espectador revisita acontecimentos ainda recentes. Esses recursos audiovisuais despertam sentimentos de angústia, reflexão e empatia diante dos acontecimentos apresentados. A combinação entre imagens marcantes, sons tensos e leva o espectador a compreender a gravidade dos fatos retratados e a refletir sobre as consequências humanas, sociais e históricas desse episódio de grande relevância.

Anatomia do Caos registra um dos períodos mais marcantes da pandemia no Brasil, preservando a memória dos acontecimentos e incentivando a reflexão sobre responsabilidade política, valorização da ciência e os impactos das decisões tomadas durante a crise sanitária. Por meio de imagens de arquivo, depoimentos e registros históricos, o documentário constrói uma narrativa envolvente que evidencia a dimensão humana e social da tragédia. Ao revisitar esse período, a obra reforça a importância da memória coletiva e convida o público a refletir criticamente sobre os erros do passado para que situações semelhantes não se repitam.


Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Saneamento Básico, O Filme - O longa em que a ficção fede menos que a realidade

Saneamento Básico: O Filme | Vitrine Filmes


Moradores de uma pequena vila se juntam para pleitear a construção de uma estação de tratamento de esgoto. Para conseguir o dinheiro, eles precisam fazer um filme de ficção.

O filme é uma comédia que combina humor crítico sobre o uso irresponsável de recursos públicos com uma abordagem voltada às questões ambientais, além de retratar os desafios e situações inusitadas da produção de um filme independente no Brasil. A história acompanha os moradores de uma cidade fictícia do interior do Rio Grande do Sul, que se mobilizam para exigir a revitalização de um arroio, incomodados com o mau cheiro próximo às suas casas. Apesar da reivindicação, a prefeitura alega não ter recursos para a obra, dispondo apenas de cerca de R$10 mil para a produção de um vídeo. Diante disso, a comunidade decide realizar um filme como forma de chamar a atenção para o problema e a buscar uma solução. O filme valoriza a ação coletiva, a inventividade popular e o poder do engajamento social como caminhos possíveis para enfrentar problemas estruturais e buscar soluções concretas.

Um dos aspectos do longa que considero mais engraçado — e que costuma gerar confusão — é o mal-entendido em torno do edital, que exigia a produção de um filme de ficção. Os personagens interpretam essa exigência de forma literal, acreditando que precisariam criar uma história com seres fantásticos. A partir dessa leitura equivocada, decidem incluir um monstro na narrativa que estão produzindo. Esse equívoco funciona como um recurso cômico eficaz, mas também revela, de maneira leve e inteligente, a distância entre a linguagem burocrática dos editais e a compreensão de quem está fora do meio técnico do audiovisual. Ao transformar a confusão em humor, o filme valoriza a criatividade popular e reforça seu olhar afetuoso sobre pessoas comuns que, mesmo sem domínio formal da linguagem cinematográfica, se arriscam a criar e contar histórias.

Os personagens do filme são inspirados na commedia dell'arte, um gênero de teatro popular surgido na Itália no século XVI, marcado por personagens fixos, improvisação a partir de roteiros simples (canovaccio) e forte comédia física. Essa influência no exagero cômico, nos tipos bem definidos e nas situações corporais, contribuindo para o tom leve, popular e humorístico da narrativa. Marina encarna uma mulher determinada, que busca provar ao pai ser capaz de cumprir uma tarefa que ele não conseguiu realizar. Joaquim é um cômico inspirado no Arlequim: tenta agradar a todos, mas frequentemente fracassa. Silene e Fabrício formam o casal de enamorados, com traços opostos e complementares — ela é bela e consciente de seu charme, enquanto ele é vaidoso, convencido e fanfarrão. Já Otaviano e Antônio representam pólos contrastantes: o primeiro vem de uma nobreza em decadência, enquanto o segundo ascende economicamente sem grandes méritos. No conjunto, o filme utiliza esses arquétipos clássicos de forma inteligente, transformando a comédia em uma ferramenta para observar e questionar comportamentos e hierarquias sociais, sem perder o tom popular e divertido.

Saneamento básico, O Filme combina humor, crítica social e reflexão ambiental de maneira criativa e acessível. Ao unir uma história de engajamento comunitário, situações cômicas derivadas de mal-entendidos e personagens inspirados na tradição da commedia dell’arte, a obra consegue entreter e, ao mesmo tempo, provocar pensamento crítico sobre questões como o uso de recursos públicos, desigualdades sociais e a importância da ação coletiva. O filme celebra a inventividade popular e a força das pessoas comuns, mostrando que, mesmo diante de limitações, é possível transformar desafios em soluções com criatividade, humor e coragem.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

A Herança - Para Além de Hamlet

A Herança | Ozualdo Candeias


No inicio deste ano, li a obra “Hamlet” de William Shakespeare. Coincidentemente ou não, neste mesmo ano foi lançada a obra “Hamnet” de Chloe Zhao, cuja projeção colocou o filme na temporada de premiações. Este filme segundamente citado não é adaptação da obra primeiramente citada, mas a possui como um dos objetos centrais da trama.

Neste bolo todo de filme do Oscar e da obra de Shakespeare fiquei sabendo da existência de “A Herança”, do brilhante Ozualdo Candeias — diretor da perfeição “A Margem” — e lançado em 1970. A obra que tem como objetivo trazer o Hamlet para o cenário brasileiro, mais para ser especifico a cidade de Dumont (curiosamente, à aproximadamente 196 quilômetros da cidade que vivo).

Sem muitas falas, apenas quatro, pelas minhas contas, sendo destas apenas uma composta de mais de uma palavra: “to be or not to be”, A Herança é mais um estudo em cima de Hamlet que uma releitura ou uma adaptação direta. Ozualdo faz algo perto do que Neville fez em “Jardim de Guerra”, um espaço onde animais estão comandando os outros, onde não se sabe quem ou o que os controla, mas se tem noção de uma vontade maior que seus próprios impulsos ou desejos.

Um cenário de Western, de fato, algo como Ozualdo gostava de fazer, visto que este tinha o gênero como um de seus favoritos. Ele filma o interior como se fosse, de fato, um cenário de Howard Hawks ou de John Ford, mas pega na câmera como um verdadeiro cineasta moderno, que busca subverter a relação entre o espaço e o plano.

Me chamou atenção a cena onde o pai de Hamlet aparece a primeira vez ao garoto. A assombração não é como se fosse algo de fato uma presença espiritual, ela atua mais como uma mancha na câmera, algo que não deveria ser gravado, mas por ventura foi gravado. E, por curiosidade, este fantasma parece falar mais que muitos personagens vivos. Neste momento me veio à memória a interpretação dupla das ultimas palavras de Hamlet: “the rest is silence”, que é traduzida como: “o resto é silencio”, mas que também pode ser: “o descanso é silencio”, e como não há o descanso, não há o silencio, portanto.

O cinema brasileiro nasceu do completo silencio, onde as obras mudas como “Limite” de Mário Peixoto usavam o silencio para causar esse barulho ensurdecedor. Mesmo que naquela época não fosse possível haver o silencio absoluto, pois este era tão absoluto que deixava de existir. Na chegada do som, se criou o que é de fato o silencio, como já era pontuado por Robert Bresson. Mas o nosso cinema sempre foi pautado neste silencio, e foram os outros cinemas que tiveram de buscar.

O cinema brasileiro está de olho no silencio, e muitos cineastas de hoje em dia pautam o silencio como se fosse apenas a ausência de diálogos, sendo que não é assim que funciona, jamais foi. A nossa filosofia está além do céu e da terra, pois estas coisas são abjetas e inúteis. Nossa filosofia é o resto, e o resto é silencio.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Labirinto dos Meninos Perdidos (2025) - O lugar para se perder e se reencontrar

O Labirinto dos Meninos Perdidos (2025) | Filmicca

 

No imaginário popular, São Paulo é a máquina de moer gente, um labirinto que a cada esquina pode dar um caminho ou num beco sem saída, com suas lendas e paranoias. Pessoas migram à metrópole para se perder e se reencontrar; mas crescer em um ambiente assim, às vezes, pode ser predatório e vulnerável. Para cada história de sucesso, há também suas tragédias. Um lugar real que não existe, cuja realidade está mais próxima dos sonhos e da psicanálise do que de algo concreto, palatável. É nesta contradição que Miguel se encontra. Ele é jovem e está na cidade para prestar um vestibular. Seu caminho cruza com diferentes personagens excêntricos em Labirinto dos Meninos Perdidos (2025), o novo lançamento do realizador queer independente Matheus Marchetti. 

Se a filmografia de Marchetti, até agora, se passa dentro de um olhar infantil do mundo, como em O Bosque dos Sonâmbulos (2016) e Verão Fantasma (2022), aqui ele está disposto a crescer um pouco para uma abordagem entre a adolescência e a vida adulta. Ele é um romântico macabro, com uma sensibilidade emocional apurada. Mesmo com um orçamento limitado, quase do próprio bolso, ele tem ideias ambiciosas. Ele é novo, mas tem a alma dos cineastas de décadas passadas, que fizeram cinema com muito pouco; abraçando com braços de mãe os triunfos e os defeitos de seus filmes (Quem for fã de giallo vai notar do que falo aqui). São obras que imprimem o teatral, o performático, o plástico, que flertam com o onírico e a recusa da realidade e sua lógica verossímil. (Inclusive boa parte de seu elenco vem do teatro paulistano) 

Aqui, sua São Paulo é não a personagem espacial que imaginamos. Marchetti explora algo muito mais íntimo e secreto: é uma casa mal assombrada, uma vizinhança erma, um museu ou um aquário vazio. A dimensão trabalhada pela direção é psíquica do que física, portanto, a cidade é vista mais como uma abstração do que uma representação real. (Apesar de terem filmado numa exposição de terror que foi bastante popular do MIS, na qual este crítico até compareceu em uma ocasião!!!)

Seus filmes são coloridos e possui uma forte influência estética do cinema europeu dos anos 60 e 70. Porém, aqui ele flerta com um gênero bastante brasileiro: a chanchada. As situações e a sequências de dates e ficadas em série lembram muito o absurdismo cômico das comédias eróticas produzidas pela boca nos anos 70. Quase se Superbad (2007) e After Hours (1985) tivesse um primo latino-americano viado, um pouco mais tímido e teatral, e com acesso às mansões das vizinhanças ricas paulistanas. Cheio de desejos e escabrosidades. com mais tara também. Marchetti sabe como filmar uma cena de sexo e causar as sensações apropriadas em seu público-alvo, sabendo explorar a dimensão dos corpos e do prazer que eles sentem. Eles suam, gemem, mijam e gozam.

Para além da comédia sexual, também há o aspecto do terror, exprimido na figura do aparente serial killer que assola os gays da cidade. No entanto, tal como o filme Cruising (1980), o filme trabalha com as implicações psicológicas e sociais da notícia do assassino á solta, do que focalizar em sua figura (como um favorito meu, Faca no Coração lançado em 2018). Todas as pulsões sexuais de Miguel e todos os dates podem levá-lo ao seu fim. A busca pelo gozo é a busca pelo assassino, que, por si, é uma abstração de um pensamento neurótico. 

Mas Matheus Marchetti não deixa de lado a alusão à monstruosidade em sua narrativa, que também almeja e precisa do gozo, a sensação de ser amado, de pertencimento. E o caminho de Miguel irá se cruzar com esse monstro, assim como Christine Daaé ouve o canto do Fantasma da Ópera pelas catacumbas de Paris. A São Paulo cosmopolita, com seus encantos frios e seus prazeres aleatórios, é a ruína em que Miguel deverá percorrer, juntos aos seus perigos, para achar a voz que clama por ele. Percorrer o labirinto em que jovens se perdem, se traem e se humilham para garantir seu posto. Em todos eles há um pouco de Dr. Jekyll e Sr. Hyde, prontos para saírem durante à noite, revelando seus amores e desejos sombrios. O amor moderno e a pegação por aplicativos nunca foram tão monstruosos quanto agora.

 *Este filme faz parte da seleção da 49a Mostra Internacional de São Paulo, realizada em 2025, visto em screener, cedido pela produção do projeto.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

sábado, 11 de outubro de 2025

O Agente Secreto (2025) - Memória, Medo e Resistência Sob o Véu da Ditadura

O Agente Secreto | Vitrine Filmes

Em 1977, um especialista em tecnologia foge de um passado misterioso e retorna à sua cidade natal, Recife, em busca de paz. Ele logo percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que busca.

Com a vida constantemente ameaçada, cercado pela sombra da repressão e pela vigilância opressiva do regime, Marcelo luta para preservar não apenas a própria sobrevivência, mas também a dignidade. Em meio ao caos, seu maior desejo é garantir segurança ao filho pequeno, que vive sob os cuidados dos avós maternos — o avô, um projecionista silenciosamente resistente, mantem viva a arte e a memória coletiva no emblemático Cinema São Luiz. Em busca de respostas sobre a história fragmentada de sua família, especialmente a verdade sobre a situação civil de sua mãe falecida, Marcelo assume uma identidade falsa e passa a trabalhar num cartório — um espaço onde vidas são registradas, mas onde muitas também são apagadas pelo silêncio institucional. 

Em sua jornada, ele encontra um respiro em um "aparelho" — um lar clandestino compartilhado com outros corpos e vozes excluídos pelo sistema: um casal angolano exilado, o velho e sábio Euclides, e Dona Sebastiana, mulher de força tranquila que se torna um porto afetivo e político. Esse convívio, entre traumas e solidariedades, revela que, mesmo na adversidade extrema, persiste o desejo coletivo por justiça, pertencimento e liberdade. Marcelo sonha em deixar o país, mas não foge — resiste. E, ao fazê-lo, sua trajetória revela as fissuras de uma nação marcada pelo autoritarismo, onde o amor, a memória e a esperança ainda insistem em brotar, mesmo sob a terra dura da repressão.

Dona Sebastiana é, sem dúvida, a personagem mais marcante do filme. Com sua língua afiada e um humor afetuosamente irreverente, ela cumpre o papel de alívio cômico — mas vai muito além disso. Representa um tipo humano tão genuíno e familiar que é quase impossível não se lembrar de alguém parecido que já cruzou nosso caminho. Sua presença em cena é magnética, equilibrando leveza e profundidade, e merecia, sem exagero, um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Dona Sebastiana é dessas figuras que ficam com a gente muito depois do fim da sessão.

O longa resgata a figura da perna cabeluda, lenda urbana profundamente enraizada no imaginário popular do Recife. Famosa lenda urbanda recifense dos anos 1970, como metáfora da repressão durante a ditadura militar. A cena que fala da lenda urbana faz uma homenagem aos filmes trash e slasher dos anos 80, trazendo um elemento de horror popular que conecta o folclore local a uma estética cult e de terror, reforçando o clima de medo e violência. Com sons tensos, minimalistas e uma batida hipnótica, a música cria uma sensação constante de suspense e ameaça iminente, reforçando a presença aterrorizante da criatura. Essa escolha sonora não só remete ao universo trash e de horror da época, mas também potencializa a metáfora da repressão e do medo que permeiam o filme, transformando a perna em um símbolo de terror coletivo.

O Agente Secreto combina memória histórica, folclore e suspense para retratar a repressão da ditadura militar de forma sensível e impactante. Com personagens fortes, o filme mostra como o medo e a resistência coexistem, deixando marcas profundas, mas também uma esperança persistente por liberdade.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

O Último Azul - A luz apagou, mas ainda funciono

O Último Azul | Vitrine Filmes

Em um Brasil distópico, o governo impõe uma política controversa: todos os cidadãos com mais de 75 anos são transferidos compulsoriamente para uma instituição conhecida como "Colônia". A justificativa oficial é que essa medida contribuiria para a produtividade da nação, liberando a população ativa do encargo de cuidar de seus familiares idosos.

É nesse cenário que conhecemos Tereza (Denise Weinberg ), uma mulher de 77 anos. Moradora de uma pequena cidade industrial na Amazônia, sua vida é abruptamente transformada quando recebe a ordem de se mudar para a Colônia. Essa ruptura a leva a uma profunda reflexão: Tereza se dá conta de que ainda nutre sonhos e desejos não realizados, entre eles, o anseio de voar de avião. Determinada a não se submeter ao destino imposto, ela decide fugir com a ajuda de Cadu, um pescador, em uma jornada em busca de sua liberdade.

Dirigido por Gabriel Mascaro, de Divino Amor (2019) e Boi Neon (2015), o filme estabelece com maestria a base de sua narrativa. A trama contextualiza de forma eficaz a vida da protagonista, contrastando-a com a dura realidade imposta aos idosos. Esse conflito é evidenciado em momentos-chave, como na cena em que Tereza expressa sua angústia e desalento ao colega de trabalho, revelando não se sentir preparada para o destino que a aguarda na Colônia.

Mascaro conduz essa jornada com profundidade, construindo personagens que, de certa forma, também buscam se libertar de algo que os aflige. Dessa forma, cada encontro e desencontro vivenciado por Tereza costura sua jornada, tornando o filme coeso, leve e imersivo, com situações que se encaixam organicamente à narrativa e, ao mesmo tempo, preservam o caráter inesperado.

O longa também utiliza muitas metáforas em seu desenvolvimento, desde o caramujo de baba azul que amplia os horizontes da mente, até os pneus na beira do rio. Esses elementos dão um tom místico e um tanto alegórico ao filme. Além disso, Tereza, inicialmente cética em relação aos “sinais” que a vida lhe envia, gradualmente cede, permitindo uma jornada de autodescoberta.

Quanto aos aspectos técnicos, a direção de fotografia, assinada por Guillermo Garza, retrata o cenário da Amazônia com um misto de contemplação e intensidade, dialogando com os sentimentos da personagem, seja através do reflexo da luz no rio ou de pássaros que voam ao alvorecer. Outro aspecto que merece destaque é a direção de arte de Dayse Barreto, que através da mise-en-scène cria cenários cheios de vida que integram e complementam a narrativa.

Sobre as performances, duas se destacam. Tereza (Denise Weinberg) é uma mulher desiludida, mas aguerrida, que apesar de cética se lança no mundo para conquistar sua liberdade. Weinberg entrega uma personagem multifacetada que se adequa aos cenários e situações do filme, sempre de maneira espontânea e em sintonia com o tom das cenas. Já Cadu (Rodrigo Santoro) é um homem fechado que guarda suas dores para si, mas demonstra-se muito frágil através da voz trêmula e dos olhos marejados.

Em linhas gerais, apesar de não possuir uma tarefa simples, O Último Azul não se esquiva da tarefa de expor o etarismo, a instrumentalização e o descarte de indivíduos que já não têm mais serventia para o sistema. Lúcido, o filme mergulha no peso de sua narrativa com uma sensibilidade que evita qualquer caricatura, construindo em Tereza a antítese do idoso fragilizado. Além disso, ao retratar as "Colônias" como ambientes de descarte, o longa faz um paralelo com os campos de concentração, onde aqueles indesejáveis pelo governo vigente são levados e esquecidos. Ao aproveitar a beleza de seu cenário e a profundidade de seus personagens, o filme nos faz refletir sobre uma história que, apesar de parecer estar no fim, na verdade está apenas começando.

Autor:


Mateus José é graduando de Licenciatura em Cinema e Audiovisual pela UFF, escritor, poeta, montador e aspirante a diretor de fotografia. Apaixonado pelas artes, literatura, música e principalmente o cinema, dedica-se a consumir, estudar e dissecar as camadas mais profundas do cinema e da arte.

A Praia do Fim do Mundo — O Pessimismo para Festivais

A Praia do Fim do Mundo | Sereia Filmes


Lançado em festivais no ano de 2021, mas com lançamento comercial apenas no ano de 2025, Praia do Fim do Mundo conta a estória da cidade fictícia de Ciarema, interior do Ceará, onde o nível do mar começa a aumentar em níveis catastróficos, prenunciando o fim daquela cidade. Com o tempo contado, Alice (Fátima Macedo), uma jovem ambientalista, tenta convencer sua mãe (Marcélia Catarxo) a abandonar a cidade, porém a mesma se recusa a deixar o lugar onde cresceu. O longa ainda conta com a presença na pré-lista do Brasil para o Oscar 2025.

Apesar do filme ainda contar com temas de cunho ambientalista, a dimensão estabelecida pelo diretor Petrus Cariry é muito mais onírica que realista. Ele preza por essa noção meio Tarkovski de planos abertos e longos, o que já virou tradicional no cinema brasileiro de festivais em filmes como Arábia, de Affonso Ûcho ou até mesmo Pedágio, da Carolina Markowicz. Entretanto, a lógica realista desses filmes é subvertida nesse longa.

Ao mostrar a cidade em ruínas, Petrus questiona se aquele lugar que parece estar em seu fim já não de fato acabou. O trabalho é semelhante ao de arqueologia, onde parecemos ter pequenos pedaços do que já foi uma cidade turística e cheia de visitantes, e que é definitivamente a protagonista do longa-metragem.

E ao fixar a direção, Petrus parece estar muito bem decidido no que planeja fazer com Praia do Fim do Mundo. Todavia, toda a visão dele ainda me parece estar muito interligada com a lógica de filme de festival, que infelizmente limita completamente toda a visão dramatúrgica do longa, que é extremamente mal feita.

Abdicando de qualquer elemento dramático maior, Petrus deixa de lado muitos momentos que poderiam engrandecer a obra em favor de um mistério que se distancia muito de uma pergunta realizada ao espectador. Até os momentos mais exclusivos da personagem de Marcélia Catarxo soam como avulsos em meio a essa unidade tão gourmetizada.

Contém sim alguns momentos que são verdadeiramente interessantes, mas ficam por isso mesmo, já que nunca são levados adiante. É o mesmo problema que eu vejo nos longas da cineasta Anitta da Rocha Silveira, que parecem confundir mistério com perguntas, e acabam anulando sua unidade.

E no fim, Praia do Fim do Mundo é um longa que faz um comentário pessimista a realidade brasileira da maneira mais “gringa” possível e se mantém numa postura de filme de festival quase em todo momento, sendo nunca o que prometeu ser: um filme.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

No Céu da Pátria Nesse Instante - Cinema Sem Amor

No Céu da Pátria Nesse Instante | O2 Play


O longa criticado abaixo descreve os acontecimentos da eleição de 2022 desde o mês de janeiro do mesmo ano até os ataques terroristas a sede dos três poderes em Brasília em janeiro do ano seguinte.

Assistindo No Céu da Pátria Nesse Instante — novo longa da cineasta Sandra Kogut — veio-me a mente um texto do Paulo Emílio Salles Gomes (não lembro o nome no momento), onde o critico comenta que diversas pessoas da época largaram suas profissões corriqueiras pelo amor ao cinema para se tornarem alguns dos maiores cineastas de todos os tempos: Dziga Vertov, Sergei Eisenstein, Dovjenko, etc. E esse amor era completamente político, a dialética do cinema trazia a esses cineastas a exploração dessas idéias revolucionárias, que traziam acima de tudo o questionamento acima daquele ideal para haver enfim a afirmação.

No documentário brasileiro, ocorre o total oposto. Somos avassalados por 1 hora e 45 minutos com a cineasta buscando reafirmar suas idéias sem trazer qualquer dialética ou questionamento, tornando o longa apolítico, e até mesmo pobre em idéias.

 A idéia de não haver narração e de mostrar os acontecimentos da maneira em que ocorreram é até que interessante, contudo há essa obsessão em pintar o lado de Luiz Inácio Lula da Silva como salvador da pátria — de maneira quase que maniqueísta, diga-se de passagem — que nos torna como indiferentes a qualquer um dos acontecimentos do longa. É a realidade como ela é, mas você não parte do cinema para fazer realidade, e sim da realidade para se fazer o cinema.

Quando o longa alterna com os bolsonaristas, há sim uma possível tentativa de buscar uma dialética, porém ela é suprimida pela euforia de Sandra Kogut ao representar os apoiadores de Lula, e ficar nessa luta de bem e mal. Algo este que pode existir na realidade, mas estamos aqui falando de cinema, e filmes muito piores como “Transe” de Carolina Jabbor fizeram imensamente melhor que essa obra.

E no fim, No Céu da Pátria Desse Instante fica por isso mesmo, auto-afirmação com um teor quase que banal na medida em que os acontecimentos se desenrolam. E em nenhum momento cumpre a promessa de ser realmente uma análise. Encerro o texto com palavras de Eduardo Coutinho:

 “O filme com perguntas é o que presta, o com as respostas você joga no lixo.” 

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

Ponto Sem Retorno - Em qual ponto vamos chegar?

Ponto sem Retorno | Walt Disney Studios Ponto Sem Retorno acompanha Hig, um piloto que sobreviveu a uma pandemia global de gripe que dizimo...