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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Coração de Tinta: O Livro Mágico - Quando ler se torna uma aventura… literal!

Coração de Tinta | PlayArte Pictures


Um homem com habilidade de dar vida a personagens de livros acidentalmente convoca um dos vilões mais perversos da literatura. Agora, ele tem que enviar o vilão de volta para o seu mundo, antes que seja tarde demais!

Mo Folchart e sua filha Maggie, de 12 anos, têm uma forte ligação com os livros e com a leitura, hábito cultivado desde a infância pela influência do pai, que trabalha como encadernador. Mo é um cara tranquilo e de boa com a vida, além de ser um pai muito dedicado, sempre disposto a fazer o que for necessário para proteger a família. Sua postura cuidadosa e responsável não só mostra o quanto ele valoriza quem ama, mas também reforça a credibilidade do personagem como um herói cotidiano, cuja coragem se manifesta de forma prática e emocional.

Maggie é uma menina inteligente, curiosa e com grande imaginação, que sonha em se tornar escritora no futuro. Apesar de às vezes se frustrar por não conseguir escrever como gostaria, isso revela não apenas senso crítico, mas também disciplina e desejo genuíno de aprimoramento, qualidades que a tornam uma personagem admirável e inspiradora. Em alguns momentos, ela pode ser teimosa, mas essa característica também revela coragem, iniciativa e determinação, como quando questiona decisões do pai diante de situações difíceis. A relação entre pai e filha não apenas traz emoção genuína e conexões humanas autênticas, mas também fortalece o núcleo emocional do filme, tornando-o mais envolvente e significativo para o público

A história se destaca por misturar fantasia e literatura de forma instigante, transformando a leitura em algo mais do que um simples passatempo: ela se apresenta como uma força viva. O enredo prende o espectador ao criar um universo em que os livros funcionam como portais, conectando realidade e imaginação de forma fluida e criativa. Cada ação dos personagens dentro desse universo tem repercussões inesperadas, reforçando a ideia de que palavras e histórias carregam peso e poder. Além disso, a trama explora o impacto emocional das narrativas, mostrando como a paixão pelos livros pode moldar relações, decisões e até destinos, tornando a história envolvente pela dimensão afetiva que transmite. Ao mesmo tempo, a maneira como filme combina aventura e elementos literários evidencia um cuidado narrativo que valoriza tanto o ritmo da história quanto a profundidade temática, destacando-se como uma obra que consegue entreter e provocar reflexão sobre o papel da leitura na vida das pessoas.

O filme se destaca por suas referências literárias, tornando a história um verdadeiro tributo aos clássicos. São citadas ou mostradas obras como Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, Lewis Caroll, contos dos Irmãos Grimm como Chapeuzinho Vermelho e João e Maria, além de clássicos como O Jardim Secreto, Heidi e Beleza Negra.Também aparecem autores renomados com Charles Dickens, com Um Conto de Natal e Barnaby Rudge, Oscar Wilde (O retrato de Dorian Gray), Robert Louis Stevenson (A Ilha do Tesouro) e Mark Twain (As aventuras de Huckleberry Finn), além de contos como Cinderela, Rapunzel e Ali Babá e os Quarenta Ladrões. Essas referências, muitas vezes mostradas fisicamente ou citadas em diálogos, não apenas enriquecem a ambientação do filme, mas também demonstram um cuidado narrativo que valoriza a cultura literária e incentiva o público a explorar essas obras. Ao integrar clássicos de forma orgânica à trama, o filme reforça seu tema central — o poder dos livros e da imaginação de transformar a realidade —, ao mesmo tempo em que oferece uma experiência educativa e estimulante, mostrando como uma literatura pode dialogar com a fantasia e com a vida cotidiana de forma significativa.

Coração de Tinta: O Livro Mágico consegue unir aventura, emoção e literatura de maneira envolvente, criando um mundo onde a imaginação ganha vida e cada livro se torna uma ponte entre realidade e fantasia. A combinação de personagens cativantes, uma relação familiar genuína e referências literárias clássicas transforma a história em uma celebração do poder das palavras e da leitura, mostrando que os livros têm a capacidade de inspirar, desafiar e transformar quem os lê. É uma narrativa que encanta tanto pela ação e aventura quanto pela riqueza afetiva e cultural que oferece, deixando uma mensagem duradoura sobre coragem, criatividade e o amor pelos livros.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Isso ainda está de pé? - Quando a Vida é um Palco (e o Casamento Também)

Isso Ainda está de Pé? | Disney


O casamento de um casal é destruído enquanto ele persegue a comédia em Nova York e ela se reencontra. Juntos, aprendam a redefinir sua relação e dinâmica familiar em meio a grandes mudanças.

A trama é sobre o casal Alex e Tess Novak que após a separação, cada um inicia um processo de redescoberta pessoal. Ele mergulha no universo do stand-up, transformando experiências íntimas em material cômico, como por exemplo o fim de seu casamento. Enquanto ela retorna antigos sonhos e reconstrói sua identidade além do papel de esposa. No caminho, ambos enfrentam inseguranças, novos relacionamentos e os desafios de manter a parceria na criação dos filhos, mesmo já não sendo um casal. É nisso que a obra se destaca, por tratar o fim do casamento com sensibilidade e maturidade, explorando as nuances emocionais de duas pessoas que ainda compartilham laços profundos. Ao equilibrar humor e drama, a narrativa evita simplificações e oferece uma reflexão honesta sobre crescimento individual, corresponsabilidade parental e a possibilidade de redefinir o amor em novos moldes.

Alex utiliza o stand-up como uma forma de transformar o fim do casamento e outras frustrações pessoais em piadas, revelando como humor pode funcionar como um verdadeiro mecanismo de defesa. Ao subir no palco, ele reorganiza suas dores em narrativas engraçadas, o que lhe permite certo controle sobre experiências que, fora dali, parecem difíceis de enfrentar. Nesse sentido, o riso não elimina o sofrimento, mas o torna mais suportável. Essa postura reflete algo bastante comum: muitas pessoas recorrem à ironia e ao auto deboche para suavizar situações dolorosas. Rir de si mesmo pode ser uma maneira de antecipar o julgamento alheio ou de mascarar vulnerabilidades, criando uma espécie de proteção emocional. No caso de Alex, a comédia funciona simultaneamente como catarse e como escudo — ao mesmo tempo em que ele expõe suas fragilidades ao público, também as filtra por meio do humor, evitando um confronto direto com a própria tristeza.

Tess é retratada como uma mulher que, diante do fim do casamento, inicia um processo de redescoberta pessoal. Ao retomar antigos interesses e investir em seus próprios objetivos, ela passa a reconstruir sua identidade de forma mais autônoma, buscando equilíbrio entre a vida profissional, a maternidade e seus desejos individuais. Sua trajetória evidencia as inseguranças e desafios que acompanham grandes mudanças, mas também revela determinação e amadurecimento. A personagem se destaca por ser construída com profundidade e realismo, fugindo de rótulos simplistas. Tess representa a complexidade de quem precisa se reinventar sem perder de vista suas responsabilidades e afetos. A narrativa valoriza sua força emocional e sua capacidade de crescimento, oferecendo uma visão sensível sobre independência, autoconhecimento e a importância de manter a própria individualidade mesmo em meio às transformações da vida adulta.

Os filhos do casal ensaiam a música Under Pressure para o show de talentos, e essa música combina com a trama porque fala sobre as tensões e expectativas que pesam sobre as pessoas, especialmente dentro dos relacionamentos. A ideia de que a pressão afeta ambos (pressing down on you, pressing down on me) dialoga com a dinâmica do casal, mostrando que os conflitos são compartilhados, não individuais. Ao mesmo tempo, a música destaca a importância do amor e da empatia como resposta às dificuldades. Assim, ela reforça o tema central da história: enfrentar os desafios da vida adulta e das relações sob pressão, aprendendo a lidar com eles de forma mais consciente e humana.

No longa, a câmera é muito próxima dos atores para que o público sentisse de perto as emoções dos personagens, sem a sensação de distância ou segurança que cenas filmadas de longe podem criar. Essa escolha permite que cada expressão, gesto e olhar do casal, se torne mais intenso e significativo, aproximando o espectador de suas alegrias, frustrações e tensões. Para que a experiência refletisse o que é estar dentro do mundo desses personagens, desde a pressão e nervosismo de subir no palco em apresentações de stand-up até os momentos delicados das conversas entre o casal. Essa proximidade faz com que o público vivencia junto os conflitos e dilemas do relacionamento, tornando a narrativa mais envolvente e emocionalmente impactante. Essa decisão estética demonstra como a proximidade visual pode ser usada para aprofundar a conexão emocional e a compreensão das complexidades do relacionamento, mostrando que a vulnerabilidade dos personagens é o verdadeiro motor da narrativa.

Isso Ainda Está de Pé? constrói um retrato sensível e contemporâneo sobre o fim de um casamento e os caminhos possíveis após a ruptura. Ao acompanhar Alex e Tess em seus processos individuais de amadurecimento, a narrativa mostra que separações não precisam ser tratadas apenas como fracasso, mas também como oportunidades de autoconhecimento e transformação. O humor, no caso de Alex, e a redescoberta pessoal, no caso da Tess, revelam formas distintas — porém igualmente legítimas — de lidar com a dor e com as mudanças. 

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Justiça Artificial - O dia em que terceirizamos a ética para um algoritmo

Justiça Artificial | Amazon Prime


Em um futuro próximo, um detetive (Chris Pratt) está sendo julgado, acusado de assassinar sua esposa. Ele tem 90 minutos para provar sua inocência à avançada justiça de Inteligência Artificial (Rebecca Ferguson) que ele mesmo ajudou a implementar, antes que ela determine seu destino.

A maior parte do filme se concentra na interação entre o protagonista Chris — personagem que, de forma interessante, compartilha o mesmo nome do ator que o interpreta — e a juíza Maddox. Abalado pelos acontecimentos recentes, Chris demonstra confusão e fragilidade emocional, sem conseguir compreender plenamente o que está acontecendo ao seu redor. Durante o diálogo entre os dois, são exibidas gravações do próprio protagonista, incluindo uma briga de bar da qual ele não se lembrava ter participado, além de registros de algumas de suas operações como detetive. Esse recurso narrativo fortalece o impacto psicológico da trama, aprofundando o conflito interno do personagem e instigando o espectador a questionar a confiabilidade de sua memória e identidade.

Sobre os vídeos no meio dos diálogos, interage com a estética do Found Footage ao construir sua narrativa por meio de câmeras corporais, recurso que confere maior proximidade e imersão à história. Essas câmeras não apenas funcionam como ferramentas de registro, mas também preservam a mesma sensação de imediatismo e realismo típica desse estilo, fazendo com que o espectador se sinta parte dos acontecimentos. Ao adotar esse ponto de vista, a obra intensifica a experiência sensorial e emocional, reforçando a tensão e a subjetividade do protagonista, além de contribuir para uma narrativa mais envolvente e verossímil.

Ao ampliar o escopo de seu mistério para além da pergunta do responsável pela morte da vítima, a produção se distancia das convenções mais tradicionais desse gênero e permite explorar camadas mais profundas do crime. Em vez de se limitar à resolução do enigma, a narrativa volta seu olhar para as motivações que impulsionam as ações dos personagens, relacionando-as diretamente ao contexto sociocultural em que estão inseridos. Esse deslocamento de foco faz com que a obra saia de sua própria zona de conforto, apostando em uma abordagem mais reflexiva e humana, na qual o crime deixa de ser apenas um evento isolado e passa a ser compreendido como resultado de tensões sociais, psicológicas e morais mais amplas. Dessa forma, o filme constrói um suspense que não se sustenta apenas na revelação final, mas no processo de investigação interna e coletiva que se desenrola ao longo da narrativa.

O filme propõe uma reflexão pertinente sobre o poder crescente da inteligência artificial e seus impactos éticos e sociais. Embora dialogue com um discurso contemporâneo que reconhece os riscos da IA nem sempre avança para a ação, a obra expõe a tensão entre consciência crítica e inércia prática. Ao mostrar como decisões complexas passam a ser delegadas a sistemas automatizados, O filme confronta o espectador com a erosão da responsabilidade humana e com a transferência deliberada da autonomia moral para sistemas tecnológicos que operam sem possibilidade de contestação efetiva. A inteligência artificial é apresentada como um agente institucional de poder que, embora não personificado como vilão, exerce controle direto sobre a vida dos indivíduos ao operar decisões irreversíveis sob a aparência de racionalidade. Ao assumir o papel de árbitra das decisões humanas, a inteligência artificial não apenas incorpora valores e vieses sociais, mas os consolida e legitima por meio de um sistema que transforma desigualdades históricas em sentenças automatizadas.

Justiça Artificial se destaca ao articular suspense, drama psicológico e reflexão social, utilizando a ficção científica como ferramenta para questionar dilemas contemporâneos. Ao deslocar o foco da simples resolução do crime para as motivações humanas e para o impacto das estruturas tecnológicas sobre a vida social, a narrativa constrói uma experiência envolvente e provocadora. O embate entre o protagonista e o sistema de inteligência artificial evidencia a assimetria de poder entre o indivíduo e uma estrutura tecnológica que se apresenta como infalível. expõe como a automação da justiça compromete a memória, fragmenta a identidade do sujeito e reduz a noção de justiça a um cálculo técnico desprovido de responsabilidade ética. Assim, a obra expõe os riscos de um modelo de sociedade que abdica do julgamento humano em favor de sistemas automatizados, revelando que a transferência da decisão não elimina a culpa, apenas a oculta sob a lógica do algoritmo.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Emerald Fennell Sequestra e 'Parodia' Emily Brontë em "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)


"O Morro dos Ventos Uivantes" (2026) | Warner Bros.

 "I was thinking, 'What is this place?'
I thought it would be perfect
I thought, 'I want it to be perfect'
Please, let it be perfect
Am I living in another world? Another world I created
For what?
If it's beauty, do you see beauty?
If there's beauty, say it's enough
I think I'm gonna die in this house..."
(House - Charli XCX e John Cale)

O Morro dos Ventos Uivantes (1847) é o fantasma que Emily Brontë deixou ao mundo, um conto visceral sobre como a sociedade inglesa é capaz de ser cruel, criar traumas e monstros. O pano de fundo é a relação caótica entre Catherine Earnshaw e Heathcliff, que atravessa gerações, e seu amor, rejeitado e não consumado, que destrói tudo ao seu redor.  Existe uma grande tradição no cinema de adaptar a narrativa de Brontë para o cinema desde 1920, com a versão de William Wyler de 1939, estrelada por Merle Oberon e Laurence Oliver, como a planta baixa para possíveis recepções futuras. 

Friso bastante a versão clássica hollywoodiana, pois penso que faz parte dentro do imaginário da diretora inglesa Emerald Fennell, de Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), que assina a direção do adaptação de 2026. Em ambas as obras, o cerne central é a evolução (e também destruição) da relação entre os dois protagonistas, desde a infância até a fase adulta. Quando Cathy, ao aceitar a mão de um vizinho de terra, rejeita, automaticamente, o amor de Heathcliff, mesmo amando-o, por temer uma vida degradada na sociedade. Como vingança, o jovem some da vida da moça para depois voltar rico e arruinar seu casamento com Edgar Linton; inclusive usando e casando com sua cunhada, Isabella, para atiçá-la. Porém, a versão de Fennell se agarra ao nível superficial da narrativa e, por consequência, em detrimento aos níveis profundos desse conto, que revelam o lado selvagem e "nada civis" das personagens.  

 Nenhum personagem existe sem um contexto ou uma história que a molda. Se Heathcliff é uma personagem trágica, um órfão que é acolhido pela família Earnshaw para depois ser maltratado e humilhado quase que diariamente pelos membros da casa. Seu escapismo é o amor que sente por Catherine, mas a linha entre amor e ódio começa a ficar tênue quando ambos se separam. Fennell trata a obra base de Brontë muito mais como romance do que drama, suavizando toda a jornada da personagem interpretada por Jacob Elordi. O que diminui todo o discurso da obra clássica. O anti-herói é visto como um selvagem daquele ambiente, porém, ao deter um poder financeiro enquanto adulto, ele é percebido como alguém a ser temido, construindo assim uma tensão naquela sociedade.

Se, por exemplo, na adaptação de Luis Buñuel, Abismos de Pasión (1954), Heathcliff/Alejandro é uma figura hostilizada e, ao mesmo tempo hostil, capaz de seguir e/ou de ser atraído por Cathy/Catalina até os confins da morte, dentro uma atmosfera gótica; já a diretora Andrea Arnold traz um olhar mais realista em sua adaptação de 2011 em que Heathcliff sofre não só por questão de classe, mas também por racismo da sociedade, como sugerido no romance de Brontë. Sem falar na formidável adaptação japonesa Arashi ga oka, dirigida por Yoshishige Yoshida, de 1988, que transpõe a narrativa para o Japão Feudal, sem abrir a mão dos temas e caraterísticas da obra de partida: o sistema de classes, a paixão, a crueldade, o psicológico e o macabro, por exemplo. Trago os contrapontos anteriores aqui para ilustrar uma drástica mudança no tratamento do livro clássico nas mãos de Fennell. 

Sobre o projeto tradutório: como o título, com as aspas, desta nova versão sugere, não é uma adaptação, mas uma "adaptação". E em entrevistas, ela já mandou a real. De acordo com a mesma, não é uma tradução direta ao livro, mas sim uma recriação da leitura que tinha feito quando adolescente. Ou seja, seu projeto de adaptação é bastante pessoal e contaminado por influências abertamente externas ao livro. A realizadora apropria os elementos narrativos básicos de Brontë e cria sua própria versão, sem qualquer relação de fidelidade estreita com a obra base. Para alguns, ela acaba realizando uma adaptação livre, para outros, uma fanfic erótica de banca de jornal que beira ao kitsch. Como espectador e pesquisador sobre recepção, adaptação e tradução, fico entre essas duas opções; pois uma coisa não exclui automaticamente a outra. 

A filmografia de Fennell é composta de obras que tentam escancarar as relações de gênero e de classe social, por meio meio de uma vertente vulgar, seja por uma tentativa de sexploitation ou seja pelo suspense erótico. Porém, uma crítica válida que lhe feita em cada obra que a diretora lança ao mundo parece ser constante: é belo, mas tem substância? Não só o caso se repete aqui, mas também é o grande triunfo e maldição deste filme.  

O que a realizadora tem de bom olho, também possui de mal gosto. Muito dos diálogos originais de Brontë não encontram a força que outrora tinham, parecendo falas vazias do que sentimentos complexos e, até, contraditórios. Quando Cathy, em determinado ponto da trama, confessa que: "ele se parece comigo, mais do que eu mesma. Do que será que são feitas nossas almas, elas são iguais... Eu sou Heathcliff!" É um momento importante para a narrativa, pois nós como espectadores entendemos a linha de raciocínio impulsiva de Earnshaw e seus verdadeiros sentimentos. No entanto, com uma base superficial e a mistura das falas clássicas com os pobres diálogos "emeraldianos'', tiram a intensidade dramática e deixam cenas importantes com um ar de mediocridade. 

A direção de Fennell é justamente juvenil no encadeamentos das ações e na construção das personagens: a Catherine de Margot Robbie é visivelmente mais velha do que no livro, já que, de acordo com seu pai, "passou da idade de se esposar", ou seja, por volta dos 25 anos (E, de súbito, me lembrei da frase viral de Orgulho e Preconceito de 2005: "Eu tenho 27 anos, não tenho dinheiro, nem prospectos de vida, sou um fardo para meus pais e... estou com medo"), mas que ainda se comporta como uma adolescente tola e mimada de 16 anos, e é reprimida sexualmente. Enquanto isso, o Heathcliff de Jacob Elordi é tratado como um "pau pra toda obra" bruto, mas carinhoso; retirando-lhe toda a complexidade e amargura que iria configurar seu desenvolvimento em um homem cruel. Com isso, torna-se fácil para Fennell desenhar Cathy dentro de suas sensibilidades enquanto mulher branca, e Heathcliff como um herói erótico, cuja face de Elordi evoca as feições de Sir Olivier da adaptação de 1939. 

Porém, a mais insensata, e talvez cretina, abordagem feita pela diretora seja da questão racial, em que as injustiças que Heathcliff sofre no romance (uma vez que ele é sugerido por Brontë como um "cigano" e de "pele escura"), são passadas para uma outra personagem: Nelly Dean (Hong Chau), uma mulher sino britânica, filha bastarda de um lorde que é acolhida pela família Earnshaw como a dama de companhia de Cathy. Enquanto para Heathcliff, ela o trata como se fosse um bicho de estimação com doçura e petulância, para Nelly, Cathy é cruel e rasteira, mandando-a sempre a não sair do seu papel subalterno. E, portanto, Nelly acaba se tornando, sutilmente ou não, cruel, ao desejar e fazer de tudo para acabar com o relacionamento entre os dois protagonistas, que são tratados como dois coitados. Dessa forma, Fennell não consegue abordar de forma interessante as relações raciais dentro de um contexto (em teoria) do final do século XVIII, calcando-se de uma tamanha superficialidade irresponsável.  

Se, então, o "Morro dos Ventos Uivantes" (2026) é uma adaptação pífia e vazia, por que deveríamos ir ao cinema assistir? A resposta é tão simples e básica quanto o filme: porque é puramente divertido. Emerald Fennell prova que não entende as dimensões temáticas de Brontë, para além do relacionamento central, mas consegue fabricar espetáculos visuais, brincando entre o "chique" e o tacanho, e de um humor esdruxulamente sexual. Existe um prazer involuntário em assistir aos exageros e ao analfabetismo temático da diretora, algo que me parece autoconsciente à ela, pois conhece suas limitações e gosta de brincar com a expectativa do público. Um acordo que é feito entre artista e o público, de dominação e submissão: ela tem o chicote, mas o golpe é mais prazeroso do que doloroso. É a mesma sensação de assistir de uma paródia.

É um filme muito jovem, com uma abordagem temática muito adulta. A combinação entre algo fantasioso e tara, exalta a visão maximalista da obra. Para um público mais velho, é um estilo kitsch ou, mesmo, camp bastante assumido desde a primeira cena em que vemos uma cena de execução em praça pública com conotações mórbidas e eróticas.  Parece exagero, mas é para já ilustrar qual será o tom do filme; o do espetáculo, pão & circo, o da magia e o da rejeição de um realismo. 

A lindíssima fotografia de Linus Sandgren evoca filmes clássicos em tecnicolor como E o vento levou... (1939), filmado em um luxuoso Vistavision com cores fortes e pungentes que conversam com o design de produção de Susie Davis - que invoca Cocteau, Coppola, Jarman e, possivelmente, Waters, ao mesmo tempo - e o figurino de Jacqueline Durran: dramáticos e logisticamente incompreensíveis como uma nightgown transparente como se fosse um papel celofane, e saias vermelhas que parecem ser feitas com couro falso (vulgo plástico), mas ajuda a demarcar a jornada e o sentimento das personagens. Além disso, a trilha sonora de Anthony Willis e as canções de Charli XCX são peças complementares entre si e ajudam a elevar o material de Fennell. 

Já para o público jovem (isto é, adolescente que nunca viram nenhuma adaptação ou leram o livro), bastará somente a trama principal; uma vez que Robbie e Elordi, mesmo inapropriados para seus papéis, são bons atores e, pasmem!, eles tem química em cena; e conseguem vender o roteiro caótico e a direção de Fennell ao público. A disputa moral que existe entre os dois na segunda metade se torna uma forma de preliminar cruel para satisfazer seus desejos, uma "brincadeira boba e deliciosa". A dor se torna pura diversão, um motivo de gozo e riso. 

Um exemplo disso é Isabella Linton (Alison Oliver): no romance de Brontë, é uma moça ingênua e, para irritar Cathy, caí em um relacionamento abusivo com Heathcliff; já no filme, é uma personagem codificada anacronicamente como uma jovem CDF (já que nerd é uma palavra muito moderna neste caso), precoce e sexualmente não realizada. Sua relação com Heathcliff é por interesse e puramente sexual, no qual ela se submete, com certo prazer e pouco amor próprio, a uma relação sadomasoquista no decorrer da narrativa. É uma leitura tão exagerada da personagem, mas que retratada com tanta convicção numa performance que acredita (e confia) na visão da diretora, é impossível desviar o olhar, tocando, ao mesmo tempo, na sensibilidade do público feminino e gay, que com certeza irá devorar este filme e a personagem. 

Porém, todo esse apoio no exagero estético e tonal do filme, acaba por prejudicá-lo quando Fennell precisa virar a chave para o dramático e o convencional (o que pode prejudicar e/ou frustrar parte do público treinado para esperar uma grande virada no meio da estória). A diretora flerta com trabalhos de cineastas como Sofia Coppola e Radley Metzger, em Maria Antonieta (2006) e Camille 2000 (1969) respectivamente, me vêm a mente por exemplo, na tentativa de vender estética e transgressão sexual, porém a visão da diretora ainda falta um refinamento das intenções; pois sua ideia da palavra transgressora está mais para uma "transgressão". Após um bom momento de reflexão e de ironia, Saltburn me parece uma adaptação livre mais bem-sucedida, uma vez que os paralelos entre Fennell e Brontë são melhores estabelecidos, do que esta "nova" versão.

De Brontë, "O Morro dos Ventos Uivantes" só tem o título, pois, em sua forma final, a leitura da realizadora se divorcia demasiadamente da obra em que é baseada, mesmo que haja uma intenção de adaptação, mas sem uma sólida base original. Apesar das falhas e dos tropeços (e depois de matar muitos fãs puristas da obra original de desgosto ou do coração) que ocorrem neste projeto, talvez Emerald Fennell fez, ironicamente ou não, a sua maior transgressão de todas: uma adaptação camp de Emily Brontë. Se será um clássico do gênero, resta ao tempo dizer. 

Agora só resta dar stream no álbum "Wuthering Heights". 

* A cabine de imprensa foi realizada na sala IMAX do UCI New York City Center, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Me Ame Com Ternura (2025) Aposta em Ótima Performance para um Gênero Confortável

Me Ame Com Ternura (2025) | Imovision

 Após viver separada do marido por alguns anos, Clémence Debré (Vicky Krieps) começa a se reinventar na vida, enquanto constrói uma relação com o filho, Paul, como o título sugere, cheia de ternura. Toda essa rotina dessa nova vida começa a azedar, quando ela anuncia a Laurent (Antoine Reinartz), seu distante marido, que se redescobriu como uma mulher lésbica e oficializa o pedido de divórcio. É certo de que ele não irá aceitar de jeito nenhum essa notícia, mas o que Clemance não sabe é que Laurent manipulará Paul a rejeitar a mãe, enquanto entra com um violento processo de guarda da criança. 

A partir desse ponto, Clémence irá lutar diversas batalhas para se afirmar no seu próprio direito como mulher e mãe, e para não deixar o laço com seu filho morrer dentro desse período. Me Ame Com Ternura é um livro autobiográfico escrito pela autor Constance Dedré (no longa, chamada de Clémence), lançado em 2020, e foi adaptado para as telas pela realizadora Anna Cazenave Cambet; integrando parte da programação da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2025. 

Existe aqui uma urgência em trazer esse relato para as telas: a jornada de Clémence/Constance no sistema judiciário em meio a misoginia e homofobia estrutural evidenciam justamente a falência do aparato público, mesmo em uma sociedade de "primeiro mundo" que se diz ser "avançada", como é o caso de vários países europeus. Cambet se ancora em sua narrativa de denuncia para exemplificar a realidade como as relações de poder e de gêneros acabam afetando e destruído os laços familiares, passando por cima dos direitos individuais e, aparentemente, universais. 

Sua grande aliada nesta missão de recontar a história de Debré é a atriz e produtora Vicky Krieps que, por sua vez, carrega o filme nas costas com uma ótima e sensível atuação como a nossa heroína, deixando o público interessado no desenvolvimento emocional de sua personagem ao logo da narrativa. A diretora, ao adaptar o romance, escolhe em focalizar toda sua atenção em Clémence, dando tempo e espaço necessário para o trabalho de Krieps florescer, para desenvolver melhor a relação entre mãe e filho e a busca pela alegria queer da protagonista, e como o processo de guarda pode atrapalhar sua vida amorosa. Nestes pontos, o filme acaba sendo bem-sucedido e com grande poder de sensibilizar seus interlocutores. 

Porém, a escolha de uma narrativa centrada em um única personagem que transita entre a agir e a passividade, acaba limitando o escopo da narrativa, já que não há um "insight" significativo em relação ao personagem do filho que não seja as poucas cenas em que aparece; e o antagonismo para com Clémence é apresentado quase de forma onipresente, deixando a trama sem um contraponto marcado. Obviamente, Cambet escolheu seguir a estrutura do livro de Debré, sem fugir muito da obra de partida, o que é bastante compreensível; mas deixa o longa-metragem, como obra isolada, bastante prosaico. 

Portanto, se o filme tem um problema, não está na mensagem, mas sim na forma, que não foge das convenções de um drama convencional europeu contemporâneo: muito se fala, muito se narra, mas pouco é mostrado, não há tensão entre personagens que seja palpável. É um filme que vive de vários momentos isolados que são costurados por vários momentos de narrações (que são lindas por sinal), mas que, sem uma direção desafiadora ou instigante, sendo mais uma narrativa dramática confortável. Funciona em parte como um filme de formação e em parte como um filme denúncia, mas falta uma coisa a mais nesta equação, algo que eleve a trama para fora do espaço do trivial. É um filme bonito, mas ordinário.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Os Assassinos (1964) - O Parasitismo Capitalista Pintado com Sangue e Luz

 

Os Assassinos | Universal Pictures

A obra de Don Siegel é um remake do filme de 1946, dirigido por Robert Siodmak e estrelado por Burt Lancaster. Em ambas as obras, existe uma resposta direta sobre a situação dos Estados Unidos em seus respectivos momentos. Enquanto a versão de 1946 é um filme Noir que carrega o pessimismo de uma era de violência que tomava conta do país e sobre a desonestidade das relações humanas em um momento de incertezas por conta da pós Segunda Guerra Mundial e entrando na Guerra Fria, a versão de Don Siegel apresenta uma versão onde a violência aqui se apresenta mais visceral e sem rodeios. Siegel é tão certeiro no que queria dizer, que não esperou 10 minutos para matar um dos personagens de melhor índole naquele cenário. 

Nossos protagonistas são 2 homens, o mais experiente e com mais idade, Charlie Strom(interpretado pelo ator Lee Marvin), e seu parceiro, um jovem sádico chamado Lee(interpretado pelo Clu Gulager). Quando ambos fazem o trabalho que foi pedido, matar um homem que fugiu com 1 milhão de dólares de um assalto em uma casa de assistência para pessoas cegas, nosso protagonista mais experiente fica perplexo em perceber que tal figura não fugiu e nem esboçou nenhuma reação quando viu ambos personagens com suas armas apontadas para ele e prontos para disparar. 

Esse homem, Johnny North(interpretado pelo ator e diretor John Cassavetes), nossa primeira vítima do filme, é a representação perfeita do cidadão norte americano cansado das promessas de uma vida promissora e de um amor honesto, sua jornada em cima de fashblacks contados por aqueles que estavam com ele nos últimos momentos, mostram seu cansaço em até tentar pensar em se salvar diante os homens armados. North é a imagem perfeita do cansaço do cidadão comum dentro do Sonho Americano. 

Enquanto a jornada de Lancaster no filme original, mostra uma história linear que no final tem a reviravolta de uma traição, Siegel aqui decide seguir um caminho completamente oposto. Esquece o Noir, nossa narrativa acontece 90% do tempo à luz do dia, filme completamente colorido e com o sangue a mostra. Enquanto o filme original é uma resposta de uma época corrupta e violenta dos Estados Unidos, Don Siegel faz uma versão onde tudo isso resulta em uma hipocrisia dentro de um cenário estético. Anos 60, começa uma revolução cultural e social, Nova Hollywood e a era dos hippies, além da grande leva de pessoas sendo contra a guerra do Vietnã, e é exatamente por conta disso que Siegel decide seguir sua linha estética. 

Produções Hollywoodianas imensas e recheadas de cores, junto com muito carisma e dança, completamente desproporcional ao que o povo Americano vivia. A violência, a corrupção e o desemprego voltavam a ficar em alta e o Sonho Americano se encontrava completamente desbotado. Siegel mostra a violência pairando todo o país com dois personagens sem escrúpulos e certos de que a violência é a melhor resposta para todas as ocasiões. E oque faz a tensão do filme chegar ao ápice é saber que eles não se encontram sozinhos na forma de agir. Os personagens funcionam em sua maioria parasitando aquele que for de melhor serventia, e aqueles com um pingo de humanidade são mortos, ou e afogam em um alcoolismo enrustido, como o caso do amigo e parceiro de trabalho de North, o mecânico Earl(interpretado pelo ator Claude Akins). 

Quando chegamos na conclusão da obra, todos foram aniquilados em sua maioria. Nosso assassino mais experiente carrega a mala de dinheiro com todas as suas forças, invés de tentar ter forças para ficar em pé, ele a coloca por inteiro em seus braços. Charlie se rasteja com um pouco de ajuda de suas pernas em movimento com o sangue que o faz escorregar, até ele desistir de sua arma e conseguir se levantar com a mala. Infelizmente, no momento que ele começa a caminhar, o som de uma viatura policial se aproxima, seu corpo começa a rodopiar até cair morto por completo com a maleta aberta e com o dinheiro voando. Nessas últimas cenas, Siegel cumpre sua promessa com a primeira cena da violência e da morte como ciclo vicioso e sem piedade. Novatos e experientes, todos se encontram no mesmo barco que se afunda e sem esperança enquanto a solução for quem vai levar mais em meio a tormenta. 

Don Siegel mostra o retrato da cobiça e da decadência do capitalismo dentro das relações sociais e afetivas entre seres humanos lutando e sugando até a última gota do que poderia sobrar e humanidade para sobreviver em tal cenário. E para aqueles que não suportam viver nessa mentira em cores, só espera o inevitável chegar sem fugir, e sem lutar. North é a resposta da bondade humana em exaustão. 

TEXTO DE ADRIANO JABBOUR 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

A Grande Viagem Da Sua Vida (2025) - Entre o real e a performance

 

A Grande Viagem da Sua Vida | Sony Pictures

Nos primeiros minutos do filme, conhecemos David (Colin Farrell), um homem balzaquiano, solteiro, preparando-se para ir a um evento. Ele descobre que o carro dele foi multado e vai até uma agência, muito suspeita por sinal, para alugar um automóvel. A atendente da empresa (Phoebe Waller-Bridge) é bem peculiar, trata David, um cliente, como se fosse uma diretora de casting, e oferece um modelo de carro antigo com GPS a ele.

David, não tendo outra alternativa, aluga o carro e chega ao evento: um casamento de um amigo, no qual ele nota Sarah (Margot Robbie), pela primeira vez. Eles acabam se conhecendo um pouco e há uma certa química no ar; mas, como os dois são emocionalmente indisponíveis, há também uma certa distância. A partir do ponto em que o GPS do carro de David sugere que ele tem de socorrer Sarah, cujo automóvel para de funcionar no meio do caminho, e seguir por meio de uma jornada mística, o nosso filme, de fato, começa.

A Grande Viagem Da Sua Vida (2025) é o novo filme dirigido pelo Kogonada, de Columbus (2017) e After Yang (2021); e quem conhece o trabalho do diretor vai notar que este lançamento da Sony é, ao mesmo tempo, uma mudança de ângulo e uma continuação temática de sua filmografia. Kogonada tem um profundo olhar estético do cinema como forma: o modo que decupa, filma e edita é formidável; e seus filmes de ficção buscam pela essência das relações humanas ou/e pelo sentimento de humanidade. 

O roteiro assinado Seth Reiss, de O Menu (2022), se apropria de arquétipos e de metáforas já manjadas para criar novas ideias mais interessantes, apesar do texto soar muito como livro de autoajuda em um momento ou outro; muito açucarado para o meu gosto. Porém, a abordagem da narrativa através do fantástico talvez seja o maior trunfo do roteiro, já que as regras do mundo dito real não se aplicam na lógica da obra e permite novas camadas a serem exploradas.

A viagem que David e Sarah embarcam é para dentro de si e de entender qual é o próprio papel em sua respectiva narrativa. São pessoas diferentes: ele aparenta ser mais soturno, ela bem solar. David foi uma criança superprotegida pelos pais, tem problemas com rejeição e um complexo de conquistador; enquanto Sarah tem questões pessoais mal resolvidas por não estar presente e se culpa eternamente por isso, levando a não criar nenhum vínculo emocional com ninguém. Para poderem se conectar e se misturar, eles precisam justamente entrar em seus próprios mundos e olhar para a pessoa que um dia foram com outro par de olhos. 

David e Sarah são tratados como dois performers que ainda não acharam a identidade de suas personagens, e, portanto, não podem começar um relacionamento. Há um jogo bastante interessante aqui. O amor não é só um sentimento, mas também uma performance afetiva. Por trás da fantasia, há um jogo de cena em que precisam tomar partido. 

As protagonistas acabam encarando recriações de seus passados para conseguir ter o vislumbre de como devem agir, sentir e portar em sua performance. O amor torna-se a fantasia que David e Sarah devem justamente incorporar; e, a cada porta que abrem, eles ficam a passos mais próximos, ou distantes, de não só se conectarem, mas de transformar essa fantasia em realidade. Esse jogo metalinguístico, mesmo que sutil, se torna mais claro ao espectador à medida que a narrativa se desenrola. Estariam eles se apaixonando ou próximos de interpretar uma versão apaixonada de si mesmos?

Em mãos menos habilidosas, A Grande Viagem poderia se tornar um filme bem qualquer coisa, pesando a mão no sentimentalismo barato em busca de uma “edificação” do espírito; mas Kogonada soube bem equilibrar o tom meio “sessão da tarde” com o existencialismo, muito próximo de seus projetos anteriores. O diretor cria toda uma atmosfera colorida, cheia de vida, mas traz consigo a sensação da distância, do silêncio, das pausas e do uso da trilha sonora do fabuloso compositor Joe Hisaishi, dando um ar mais sofisticado à narrativa.

Apesar do filme ser um experimento voltado ao mainstream, nem tudo no filme funciona como esperado e, por sinal, alguns pontos chegam a ser rasos; mas ainda há uma sinergia em tela que não deixa o longa afundar dentro de si tão profundamente. Farrell e Robbie parecem estar confortáveis com seus papéis, caindo de cabeça no conceito da trama e suas variantes, e sem a química que há entre eles, a história não funcionaria desde o início. 

A Grande Viagem é aquele tipo de “filme conforto” que, entre acertos e tropeços, atinge de alguma forma o espectador que está disposto a embarcar na jornada. É necessário um pouco de paciência, mas o caminho vale a pena.


Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Salomé (2024) - Ou amor à flor de loló

Salomé | Vitrine Filmes


Uma mana vê um mano, ele retribui de volta. Eles se encontram na pista de dança. Os sentimentos ficam à flor da pele. Ele cheira uma latinha de loló, depois oferece para a garota. Ela inala a substância…  E o que ela vê é mágico, transformador, quase angelical. Este é um dos pontapés iniciais do longa-metragem Salomé (2024), dirigido por André Antônio, que vem conquistando festivais e mostras de cinema desde sua estreia no 57o Festival de Brasília.

No melodrama queer, nossa protagonista é Cecília (Aura do Nascimento), uma modelo de sucesso que mora em São Paulo. Ela retorna para Recife, para passar o natal com a mãe, Helena (Renata Carvalho). Cecília reencontra João (Fellipy Sizernando), um vizinho da infância, e fica fascinada pela beleza dele. Uma noite, João apresenta para ela um loló diferente, esverdeado, que leva a ligação entre os dois para um lugar de obsessão e mistério envolvendo um culto secreto em torno da figura de Salomé, a luxuosa princesa bíblica.

A personagem “Salomé” teve como sua maior recepção nas artes a peça homônima do escritor irlandês Oscar Wilde, texto foi publicado em francês no ano de 1893, mas sua tradução ao inglês foi censurada na Grã-Bretanha no ano seguinte. A versão de Wilde, um autor queer, penetrou no imaginário popular ao longo dos anos. 

No cinema, a peça inglesa deu origem a duas adaptações bastante interessantes a este crítico: Salomé (1922) de Alla Nazimova e Charles Bryant, com um elenco inteiramente LGBT, e A última dança de Salomé (1988) de Ken Russell, que reconstitui de forma livre a primeira (e clandestina) montagem da obra na Inglaterra e o atrito entre Wilde e seu amante, Lord Alfred Douglas. Felizmente, Antônio consegue costurar aqui um filme tão icônico quanto as adaptações mencionadas, mesmo que o intuíto seja mais conversar com o clássico de Oscar Wilde, do que recriar fielmente seu texto.

Assim como a peça, Salomé de Antônio é sobre desejo e anseio, mas o realizador atualiza a relação para a geração das relações líquidas, vazias, das redes sociais, do chemsex: o mundo do “pós-alguma coisa”, repleto de afetos artificiais e desilusões amorosas. 

A jornada de Cecília, nossa Salomé, é complexa, pois o desejo dela não é só passional, mas sim de tomar decisões, de enfrentar o impossível, ter as rédeas do próprio futuro. Isto vai de contra os desejos de Helena, sua mãe, que reza e tenta manipular um caminho para a filha, tal como Herodias tenta convencer Salomé a não ceder aos seus instintos e não usar e contrariar seu padrasto Herodes, o Tetrarca da Judéia.

Enquanto a personagem de Wilde é imponente e manipuladora para conseguir realizar o gozo de beijar Ionakaan, Cecília possuí uma inocência e um páthos, uma dor, que constroem sua personagem de forma humana e sensível. A intérprete, Aura do Nascimento, usa da pose e de seu carão como uma proteção de Cecília ao mundo exterior, mas consegue desmanchar para mostrar a vulnerabilidade da jovem em sua intimidade. 

Outro destaque do elenco, claramente, é a atriz Renata Carvalho, magistral como a mãezona Helena, pondo uma emoção palpável em cada palavra que diz e em cada reação que aparece na tela. Uma frase banal em sua boca carrega um sentimento profundo. Aqui, Carvalho não só incorpora um tipo específico de mãe, ela dá a luz a uma mãe na tela.

Salomé é muitas coisas, uma releitura de um clássico da literatura, uma história de amadurecimento tardio, de transformação interior, de paixões; um filme entre mãe e filha com representação trans… Mas o importante é que se trata de um “filme queer”, e Antônio e cia não só sabem disso, mas como dominam a linguagem do estranho, do diferente: 

O camp e o kitsch estão presentes na tela, como parte do léxico da obra e não como algo acidental. As cores são fortes e atraentes, quase almodovarianas, sendo o verde, remetente a cobra do jardim do Éden, a mais recorrente de todas. Tem uma mise en scène criativa. A edição cede ao experimental em certos momentos. O culto de Salomé, que tem uma importância significativa, parece uma versão reptiliana de Hot Boys ou Irmãos Dotados, saído de um filho híbrido entre Araki e Bressane. Com este trabalho, André Antônio consegue se sedimentar como um dos nomes mais interessantes do cinema queer brasileiro atual, ao lado de Daniel Nolasco e George Pedrosa.

É um filme com gosto (e cheiro de loló), senso de humor e muita ousadia de enxergar o mundo fora dos padrões, de brincar com as expectativas. Uma produção afiadíssima. A obra de Wilde culmina na tragédia, mas o filme de Antônio, na libertação. 

[Filme assistido durante o 14o Rio LGBTQIA+ - Festival Internacional de Cinema, realizado em 2025]



                                                                  Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

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