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domingo, 4 de outubro de 2026

Elefantes na Névoa (2026) e a via crucis da mulher trans

 

Elefantes na Névoa | Imovision


Para falar sobre Elefantes na Névoa (2026), filme do realizador nepalense Abinash Bikram Shah, gostaria de começar pelo final. Parece-me cativante começar desta forma: 

Pirati (Puspa Thing Lama), uma religiosa Kinnar, que após ser perseguida pela comunidade local e humilhada pelas autoridades dos órgãos públicos, vê sua casa pegar fogo e decide ir adentrar a floresta da deusa sagrada, na qual elefantes, também sagrados, vivem e passam ali. A floresta foi cercada pelos líderes locais para manter a população do vilarejo em segurança. É noite, mal se vê uma viva alma e Pirati está desesperada. Qualquer mal poderá lhe suceder. Para sua surpresa, ela se de encontro com desses elefantes sagrados que, ao invés de atacá-la ou esmagá-la, para diante dela, como uma igual. Após o encontro, a religiosa se recompõe e, com a palma das mãos, ela faz um chamado, o qual outras irmãs da ordem se juntam, e os animais, presos em cativeiro, se rebelam, destroem a cerca elétrica que os aprisionavam e avançam contra o vilarejo ao som das palmas das mulheres.

A cena é poderosa, pois promove uma catarse ao público, após de ser alimentado uma séries de episódios transfóbicos, filmados com certo sadismo deprimente, é alimento por um senso de justiça e de reação diante da passividade que o mundo impõe as suas personagens. Mas será que a exposição e a encenação de traumas e de decepções é de fato bem conduzida? Tenho minhas dúvidas. Sai da sessão exausto, por mais que o momento final me revigorou, a obra me cansou em seu discurso denunciativo, que flertava mais com o fetiche da dor de mulheres trans do que expor sua crítica de um modo naturalista, não exploratório. 

Tive uma sensação agridoce quando, no ano passado, assisti O Olhar Misterioso do Flamingo (2025) no Festival do Rio, aqui a sensação é muito pior. A sensação da violência pela violência, que senti um cena em particular do longa chileno, aqui se configura como uma base cíclica da narrativa. Se há uma crítica, e há uma de fato, chega fatigada em sua apoteose. O que nós, o público, acompanhamos é a via crucis de uma mulher trans, cujo páthos precisa ser extraído até o máximo: se no início, há o drama se Pirati deveria deixar a ordem para ir a Nova Delhi com um homem que a ama, do meio pro final, vemos a mesma personagem passar por diversas humilhações em busca de justiça e, consequentemente, ser jogada na lama pela a população que não respeita, mas, superficialmente, até certo ponto, a tolera. 

Existe uma hybris em jogo aqui: se a população não consegue respeitar as divindades e nem suas sarcedotisas, será que a ordem daquela comunidade poderá ainda se manter de pé? Esta uma das características que configuram um mito trágico e sim, podemos pensar no filme numa tragédia, afinal o longa aborda temas como feminicídio, religião e, a já mencionada anteriormente, transfobia. As irmãs Kinnar estão a mercê muito mais do que o estado e da população, mas do pacto cisgênero que as colocam em posição inferior. As únicas que tentam, de alguma forma, acudi-las são algumas mulheres que investigam o caso do desaparecimento de Aspera (Aliz Ghimire), filha adotiva de Pirati, uma jovem rebelde com passado problemático, que some durante uma ronda noturna na floresta e, provavelmente, é assassinada por alguém da aldeia.

Por mais que o longa-metragem peca em justamente dar um ênfase quase em tons de fetiche e tortura psicológica na abordagem do sofrimento de sua protagonista, ele ganha a atenção do público por outros elementos que me parecem muito mais interessante: o dia-a-dia das Kinnar, as práticas religiosas quase meditativas, a sororidade entre sacerdotisas e noviças, a relação maternal que embala a primeira parte da narrativa são doces e convidam o público a se projetar dentro duma visão alterna à tradicional, mesmo que a fotografia seja embalada em tons frios e cinzentos (prenunciando o tom deprimente da segunda metade da obra).

Ancorada por uma performance magistral de Puspa Thing Lama, Elefantes na Névoa é um filme ambivalente, pois pode causar clemência e compaixão quanto exaurir o público. Apesar de adotar uma estética naturalista, existe uma certa falta de cuidado no tom que almeja alcançar. Uma obra que deseja realizar uma denuncia através da ficção, mas que acaba caindo nas próprias armadilhas do "filme denúncia": a mensagem pela mensagem. Então fica a questão: para quem interessa esse filme, ao público trans ou cis? 

Mas, por mais que minha opinião possa ou não importar para você, care leitore, uma coisa precisa se reforçada neste texto: Protejam as bonecas!

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 
                                  


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Me Ame Com Ternura (2025) Aposta em Ótima Performance para um Gênero Confortável

Me Ame Com Ternura (2025) | Imovision

 Após viver separada do marido por alguns anos, Clémence Debré (Vicky Krieps) começa a se reinventar na vida, enquanto constrói uma relação com o filho, Paul, como o título sugere, cheia de ternura. Toda essa rotina dessa nova vida começa a azedar, quando ela anuncia a Laurent (Antoine Reinartz), seu distante marido, que se redescobriu como uma mulher lésbica e oficializa o pedido de divórcio. É certo de que ele não irá aceitar de jeito nenhum essa notícia, mas o que Clemance não sabe é que Laurent manipulará Paul a rejeitar a mãe, enquanto entra com um violento processo de guarda da criança. 

A partir desse ponto, Clémence irá lutar diversas batalhas para se afirmar no seu próprio direito como mulher e mãe, e para não deixar o laço com seu filho morrer dentro desse período. Me Ame Com Ternura é um livro autobiográfico escrito pela autor Constance Dedré (no longa, chamada de Clémence), lançado em 2020, e foi adaptado para as telas pela realizadora Anna Cazenave Cambet; integrando parte da programação da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2025. 

Existe aqui uma urgência em trazer esse relato para as telas: a jornada de Clémence/Constance no sistema judiciário em meio a misoginia e homofobia estrutural evidenciam justamente a falência do aparato público, mesmo em uma sociedade de "primeiro mundo" que se diz ser "avançada", como é o caso de vários países europeus. Cambet se ancora em sua narrativa de denuncia para exemplificar a realidade como as relações de poder e de gêneros acabam afetando e destruído os laços familiares, passando por cima dos direitos individuais e, aparentemente, universais. 

Sua grande aliada nesta missão de recontar a história de Debré é a atriz e produtora Vicky Krieps que, por sua vez, carrega o filme nas costas com uma ótima e sensível atuação como a nossa heroína, deixando o público interessado no desenvolvimento emocional de sua personagem ao logo da narrativa. A diretora, ao adaptar o romance, escolhe em focalizar toda sua atenção em Clémence, dando tempo e espaço necessário para o trabalho de Krieps florescer, para desenvolver melhor a relação entre mãe e filho e a busca pela alegria queer da protagonista, e como o processo de guarda pode atrapalhar sua vida amorosa. Nestes pontos, o filme acaba sendo bem-sucedido e com grande poder de sensibilizar seus interlocutores. 

Porém, a escolha de uma narrativa centrada em um única personagem que transita entre a agir e a passividade, acaba limitando o escopo da narrativa, já que não há um "insight" significativo em relação ao personagem do filho que não seja as poucas cenas em que aparece; e o antagonismo para com Clémence é apresentado quase de forma onipresente, deixando a trama sem um contraponto marcado. Obviamente, Cambet escolheu seguir a estrutura do livro de Debré, sem fugir muito da obra de partida, o que é bastante compreensível; mas deixa o longa-metragem, como obra isolada, bastante prosaico. 

Portanto, se o filme tem um problema, não está na mensagem, mas sim na forma, que não foge das convenções de um drama convencional europeu contemporâneo: muito se fala, muito se narra, mas pouco é mostrado, não há tensão entre personagens que seja palpável. É um filme que vive de vários momentos isolados que são costurados por vários momentos de narrações (que são lindas por sinal), mas que, sem uma direção desafiadora ou instigante, sendo mais uma narrativa dramática confortável. Funciona em parte como um filme de formação e em parte como um filme denúncia, mas falta uma coisa a mais nesta equação, algo que eleve a trama para fora do espaço do trivial. É um filme bonito, mas ordinário.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

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