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| Me Ame Com Ternura (2025) | Imovision |
Após viver separada do marido por alguns anos, Clémence Debré (Vicky Krieps) começa a se reinventar na vida, enquanto constrói uma relação com o filho, Paul, como o título sugere, cheia de ternura. Toda essa rotina dessa nova vida começa a azedar, quando ela anuncia a Laurent (Antoine Reinartz), seu distante marido, que se redescobriu como uma mulher lésbica e oficializa o pedido de divórcio. É certo de que ele não irá aceitar de jeito nenhum essa notícia, mas o que Clemance não sabe é que Laurent manipulará Paul a rejeitar a mãe, enquanto entra com um violento processo de guarda da criança.
A partir desse ponto, Clémence irá lutar diversas batalhas para se afirmar no seu próprio direito como mulher e mãe, e para não deixar o laço com seu filho morrer dentro desse período. Me Ame Com Ternura é um livro autobiográfico escrito pela autor Constance Dedré (no longa, chamada de Clémence), lançado em 2020, e foi adaptado para as telas pela realizadora Anna Cazenave Cambet; integrando parte da programação da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2025.
Existe aqui uma urgência em trazer esse relato para as telas: a jornada de Clémence/Constance no sistema judiciário em meio a misoginia e homofobia estrutural evidenciam justamente a falência do aparato público, mesmo em uma sociedade de "primeiro mundo" que se diz ser "avançada", como é o caso de vários países europeus. Cambet se ancora em sua narrativa de denuncia para exemplificar a realidade como as relações de poder e de gêneros acabam afetando e destruído os laços familiares, passando por cima dos direitos individuais e, aparentemente, universais.
Sua grande aliada nesta missão de recontar a história de Debré é a atriz e produtora Vicky Krieps que, por sua vez, carrega o filme nas costas com uma ótima e sensível atuação como a nossa heroína, deixando o público interessado no desenvolvimento emocional de sua personagem ao logo da narrativa. A diretora, ao adaptar o romance, escolhe em focalizar toda sua atenção em Clémence, dando tempo e espaço necessário para o trabalho de Krieps florescer, para desenvolver melhor a relação entre mãe e filho e a busca pela alegria queer da protagonista, e como o processo de guarda pode atrapalhar sua vida amorosa. Nestes pontos, o filme acaba sendo bem-sucedido e com grande poder de sensibilizar seus interlocutores.
Porém, a escolha de uma narrativa centrada em um única personagem que transita entre a agir e a passividade, acaba limitando o escopo da narrativa, já que não há um "insight" significativo em relação ao personagem do filho que não seja as poucas cenas em que aparece; e o antagonismo para com Clémence é apresentado quase de forma onipresente, deixando a trama sem um contraponto marcado. Obviamente, Cambet escolheu seguir a estrutura do livro de Debré, sem fugir muito da obra de partida, o que é bastante compreensível; mas deixa o longa-metragem, como obra isolada, bastante prosaico.
Portanto, se o filme tem um problema, não está na mensagem, mas sim na forma, que não foge das convenções de um drama convencional europeu contemporâneo: muito se fala, muito se narra, mas pouco é mostrado, não há tensão entre personagens que seja palpável. É um filme que vive de vários momentos isolados que são costurados por vários momentos de narrações (que são lindas por sinal), mas que, sem uma direção desafiadora ou instigante, sendo mais uma narrativa dramática confortável. Funciona em parte como um filme de formação e em parte como um filme denúncia, mas falta uma coisa a mais nesta equação, algo que eleve a trama para fora do espaço do trivial. É um filme bonito, mas ordinário.
Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.
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