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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Tigre de Papel - Meio que uma Homenagem ao James Gray

Tigre de Papel | Diamond Films

No começo de Tigre de Papel, temos a família ideal norte-americana. E bem? Quantas vezes não vimos isso. A luz das janelas reflete na piscina de maneira perfeita, e os abraços de Miles Teller e Scarlett Johansson nos filhos são calorosos. O que gera a pergunta de: "até quando?", pois a perfeição é tamanha que parece falsa, e o filme até por meio de algumas cenas sugere que realmente ela é.

Mas a genialidade de Tigre de Papel está em nunca apresentar o conflito, pois ele não existe. Por 30 minutos, o sonho americano existe no único espaço onde ele realmente foi possível: no cinema. Até quando somos apresentadas ao personagem de Adam Driver, o irmão de Miles Teller no filme, que é um policial que anda sempre armado e tem uma queda pela violência, temos uma impressão de que o mesmo não era passível de nenhum tipo de maldade maior.

James Gray nos hipnotiza com essa realidade nos 30 primeiros minutos de Tigre de Papel. Porém, como já diria Abbas Kiarostami, o cinema é uma realidade duplamente possível, pois quando se tem dois ou mais takes, a realidade deixa de ser realidade. E com dois ou mais planos, James Gray desmonta o sonho americano, como já havia feito em seu filme Era Uma Vez em Nova York.

Ao fazer o dolly se tornar uma questão de sobrevivência no filme - a cena em que Miles Teller olha para o lago é o exemplo disto - percebemos que o sonho americano também é um sonho não intencionalmente destrutivo. Ao filmar o lago podre, James Gray também filma o sonho americano tanto quanto filmou no início do filme.

Assim me vem a memória Watchmen do Alan Moore, quando o comediante está jogando seu lança-chamas para cima da multidão e o Coruja pergunta aonde foi parar o sonho americano, gerando a rápida resposta do Comediante de que aquilo também era o sonho americano. Pois bem, a violência da segunda parte do filme, que se arrasta até o final também é, de algum modo ou outro, parte do sonho americano do início do filme.

O exercício de Gray é justamente o de como se filmar esse desejo inconsciente pela violência, pois nos seus primeiros filmes essa violência fazia parte de um ciclo direto, aqui o ciclo é totalmente indireto.

Aqui faço um exercício: a cena em que o pai de Reuben bate no rapaz em Fuga Para Odessa, enquanto a porta fecha. Temos ali a visão do que seria a violência familiar, que depois passa a ser institucionalizada. Em Tigre de Papel, temos o total contrário: na cena em que Miles Teller briga com seus filhos após tomar um apavoro da máfia e se tornar paranoico com segurança, temos uma violência que deixa a instituição (máfia) pra se tornar familiar.

O conflito atinge diretamente a personagem da Scarlett Johansson, enquanto a mesma encontra na morte uma fuga da violência familiar, que uma vez apresentada será sacralizada, como parte ritualística da família, como sempre é nos filmes de James Gray.

No fim, Paper Tiger é uma volta de James Gray aos seus filmes mais pessoais e complexos num todo. Se quisermos falar sobre como Paper Tiger é um filme que fala sobre o mesmo que em todos, deixamos isso para o futuro. Aqui, vejo uma desconstrução do que já me foi apresentado. Depois, vejo mais.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



segunda-feira, 28 de julho de 2025

Fuga Para Odessa - A Tragédia Sagrada de James Gray

Fuga Para Odessa | Paramount Pictures

Fuga Para Odessa (1994) retrata, por meio de tradições da tragédia russa, a vida do jovem Reuben (Edward Furlong) no bairro de Brighton Beach, no Brooklyn, que vê o regresso de seu irmão Joshua (Tim Roth) após anos sem contato. A ocasião é desconfortável, pois a mãe de ambos (Vanessa Redgrave) está no leito de morte, e o pai dos dois (Maximilian Schell) não se mostra nem um pouco complacente com a presença de Joshua, que se tornou um criminoso nos anos de ausência.

James Gray – o diretor do filme - retrata o Brooklyn de uma maneira muito menos encantada que diretores como Martin Scorsese ou até mesmo Brian De Palma o retrataram. A fumaça dos bueiros é tóxica, o ambiente é desconfortavelmente frio, e os espaços mais vazios daquele movimentado lugar são inóspitos. As pessoas daquele bairro são traiçoeiras, e o protagonista Reuben soa tão passivo a essa situação quanto os espectadores.

Os ambientes claustrofóbicos da casa da família Shapira, ajudam a reforçar o aspecto de desconforto que o filme causa. Reuben é frequentemente agredido pelo seu pai, porém essas agressões se mostram escondidas entre as paredes e portas. Recurso este que poderia soar como covarde, porém servem de agregador ao sentimento de passividade do espectador diante aos acontecimentos, essencial nessa tragédia.

O filme, além de um drama familiar, possui elementos de filme de máfia, porém ele rejeita por muito a tradição clássica do gênero, e a subverte com influencias da tradição moderna. As mortes não são glamorosas como em Os Bons Companheiros (1990), mas frias e realistas como em Roma, Cidade Aberta (1945) ou os maiores clássicos do neorrealismo italiano.

E não é só nas ocasiões mais típicas do gênero de máfia que Gray mostra suas inspirações modernas. Nas relações religiosas que Gray estabelece no filme – provenientes da cultura judaica dos protagonistas – é visto uma clara referencia do autor a cineastas como Bresson e Visconti, que reconheciam a importância do rito religioso como uma força cinematográfica.

A tragédia é filmada nos últimos minutos do filme da mesma forma que Gray filmou o Brooklyn, seco e frio. Nada é moralista, como nos filmes de Scorsese, nem tenta mostrar uma evolução do protagonista, como nos filmes do Coppola. É só o cumulo de tudo aquilo que Gray nos mostra em aprox. 90 minutos de rodagem, com várias perguntas, e uma única resposta: “É isso aí”. 

Fuga Para Odessa é a obra-prima do cineasta James Gray, que recentemente buscou fazer filmes de estúdio, como Ad Astra – Rumo às Estrelas (2019) e Armageddon Time (2022), mas que nas suas origens possui trabalhos de cunho realmente singular, e que por muitas vezes são ignorados pela critica americana. Porém que não devem ser ignorados pela cinefilia, que sempre deve buscar o resgate da memória da linguagem cinematográfica.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

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