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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O Samurai e o Prisioneiro - Um(ns) Conto(s) Moral(is)

O Samurai e o Prisioneiro | Shochiku 

Kiyoshi Kurosawa - diretor do filme - já vinha explorando em Cloud, seu filme mais recente de 2024, as características morais de seus personagens. Isso é derivado de sua paixão por cineastas como John Cassavetes, que sempre foi um que explorava todos os atributos e conflitos tanto externos quanto internos de seus personagens.

Em O Samurai e o Prisioneiro, Kiyoshi coloca todos esses dilemas e dúvidas sobre os personagens em um ambiente muito interessante. A princípio, o filme se mostra como um drama de ação samurai aos moldes de Akira Kurosawa ou Kobayashi, mas depois dos dois primeiros contos do filme (isso mesmo, contos, o filme é dividido em quatro contos representando as 4 estações do ano), o filme se torna um drama moral.

Kiyoshi filma os personagens de dentro pra fora, em moldes melodramáticos. O primor que são as cenas internas nos templos é sentido não só por virtuosismo estético, mas também pela pulsão do lugar, que é o ambiente mais neutro de toda obra. Quando se filma o externo, por outro lado, é aonde temos a parcialidade e a internalidade de toda obra canonizada. Kyioshi nesse filme não podia ser mais Rohmeriano.

É como se filma a natureza que chegamos no ponto em que O Samurai e Prisioneiro mais se sobressai. A natureza diante os olhos do diretor, é a arma mais traiçoeira para provocar os conflitos que permeiam a obra. Ao invés da aparente harmonia dos primeiros planos de inverno, temos a raiva dos planos de primavera, para passar por uma neutralidade nos planos de outono.

Se aqui se espera um trabalho parecido com os outros do cineasta japonês, temo em dizer que pouco será encontrado na primeira parte, mas muito na segunda. Entretanto, este filme demonstra um claro amadurecimento quanto as questões morais e até mesmo estéticas que vimos em Cloud.

O Samurai e o Prisioneiro é, das obras que vi de Kurosawa, a mais intimista, e a mais singular do cineasta, algo muito incrível para alguém que já tem uma carreira consolidada desde pelo menos o início dos anos 90.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Mononoke: O Fantasma na Chuva - Uma experiência visual e sensorial


Mononoke: O Fantasma na Chuva | Netflix

Dirigido por Kenji Nakamura, Mononoke: O Fantasma na Chuva, é um filme que vai além de contar uma simples história: ele oferece uma experiência completa para o espectador. Com apenas 91 minutos de duração, o longa nos conduz a um universo que mistura o sobrenatural com uma estética marcante e experimental de uma forma única. Baseado no anime de 2007, é notável que Kenji se mantém fiel e preserva a essência da obra original com a atmosfera carregada de visuais que parecem pinturas em movimento. 

Um dos maiores impactos é a animação. O traço lembra um quadrinho vivo, repleto de cores e texturas. Muitos personagens que se tornam figurantes no filme, aparecem sem o rosto, sendo substituídos por uma espiral em um fundo azul ou preto. Este recurso estético reforça um mistério e uma sensação de estranhamento, aproximando a película de um sonho distorcido. 

Tanto a arte quanto a história por si só, buscam o estilo tradicional japonês com elementos psicodélicos, criando algo definitivamente único. Tal atmosfera funciona perfeitamente na prática pelo simples motivo de que os mononokes, espíritos nascidos de emoções humanas negativas, são representados como distorções do real. Cada cor e cada movimento transmitem sentimentos, transformando as emoções em imagens. Um dos personagens principais, que fica conhecido como O Boticário, é o centro da narrativa. Seu design é tão marcante quanto a sua presença, extremamente imponente. Não se torna necessário o uso excessivo de falas para ele; apenas a sua postura enigmática para guiar a história.

A trama inicialmente pode parecer confusa, principalmente para aqueles que não assistiram ao anime que antecede o filme, mas a obra consegue conduzir muito bem o espectador. As intrigas políticas do Ooku e o espírito vingativo dão o ritmo à narrativa, que se equilibra entre a tensão e o espetáculo visual. Não é uma obra que entrega explicações fáceis.

O grande destaque está na direção de arte. As cores vibrantes e os movimentos calculados fazem cada cena parecer uma pintura viva. O psicodelismo nunca soa como algo gratuito: ele representa o caos emocional que dá origem aos mononokes, tornando o filme uma experiência quase sensorial.

O final fica um pouco aberto, o que pode dividir muitas opiniões. Há espaço para uma continuação, como foi o caso com a continuação que estreou neste ano, mas também funciona como uma forma de manter o verdadeiro mistério da película. É uma escolha extremamente coerente perante a proposta da obra, que nunca buscou ser muito óbvia ou totalmente explicada.

No fim, Mononoke: O Fantasma na Chuva se destaca como uma experiência extraordinariamente única. Enigmático em alguns pontos, mas sempre envolvente, é um filme que prende o espectador atráves do olhar e pela forma como traduz os sentimentos humanos em imagens. Kenji Nakamura reafirma aqui o potencial de uma animação ir além da narrativa, visando em como é possível transformá-la em uma verdadeira arte em movimento. 

Autor:

Bárbara Borges é do Rio de Janeiro e estudante de Jornalismo. Apaixonada por cinema desde criança, sempre foi movida por histórias intensas, especialmente as de terror, seu gênero favorito. Em 2024, dirigiu o documentário Além do Recinto, que levanta questionamentos sobre o bem-estar de animais silvestres em zoológicos e o impacto do confinamento longe de seus habitats naturais. Gosta de pensar no cinema como uma forma de provocar, sentir e transformar. Vive atualizando seu Letterboxd com comentários sinceros e, às vezes, emocionados. Entre seus filmes favoritos estão Laranja Mecânica, Psicopata Americano, Pânico, Pearl e Premonição 3.






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