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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Prima Facie - Uma voz que grita por justiça

Prima Facie | Sony Pictures

Estrelado por Cynthia Erivo, Prima Facie parte de uma obra que já carrega uma forte identidade teatral. Baseado no monólogo, de mesmo nome, de Suzie Miller, que ganhou destaque nos palcos e também recebeu uma montagem brasileira protagonizada por Débora Falabella, o filme parece assumir conscientemente algumas características de sua origem. A fotografia, em especial, apresenta uma composição que remete constantemente ao teatro, com enquadramentos e escolhas visuais que dão a sensação de estarmos acompanhando uma peça sendo transportada para o cinema. Essa decisão ajuda a preservar parte da essência do material original, mas também evidencia uma das principais dificuldades da adaptação: encontrar uma linguagem cinematográfica capaz de expandir aquilo que funcionava tão bem no palco.

Cynthia Erivo é, sem dúvida, o principal ponto de sustentação da produção, ela se entrega completamente à personagem e demonstra um domínio muito grande das emoções exigidas pela narrativa, especialmente nos momentos de maior vulnerabilidade e tensão. Existe um esforço evidente para carregar o filme praticamente sobre seus ombros, utilizando sua presença em cena para manter o envolvimento do espectador mesmo quando o roteiro começa a perder força. Erivo consegue transmitir o impacto emocional de determinadas situações e faz com que a trajetória da personagem continue despertando interesse, ainda que a adaptação nem sempre ofereça a ela elementos narrativos à altura de sua atuação.

O problema está justamente na transição do palco para a tela, o longa parece encontrar dificuldades para compreender completamente o que precisa ser transformado quando uma história construída essencialmente a partir de um monólogo teatral passa a ocupar o espaço do cinema. O que no teatro pode funcionar pela proximidade entre atriz e público, pela força da interpretação e pela própria dinâmica do palco, nas telas acaba dependendo de uma linguagem mais ampla para manter o mesmo impacto. Essa questão se torna ainda mais evidente quando a produção aborda seu principal tema: a violência sexual contra mulheres e as dificuldades enfrentadas pelas vítimas dentro de estruturas que deveriam acolhê-las. A intenção de conscientizar e provocar reflexão é bastante clara, e o filme consegue transmitir a dimensão emocional e social desse debate. Entretanto, alguns dos recursos utilizados para reforçar sua mensagem acabam sendo excessivamente óbvios. Determinadas situações parecem construídas para garantir uma reação específica do espectador, enquanto algumas soluções de roteiro simplificam questões que poderiam receber um tratamento mais complexo e menos previsível.

Isso não significa que a reflexão proposta pelo filme deixe de funcionar. Pelo contrário, Prima Facie consegue provocar questionamentos importantes sobre consentimento, violência sexual, julgamento das vítimas e a maneira como determinados sistemas lidam com esses casos.

Ainda assim, existe mérito na decisão de levar essa história para um público maior. A adaptação preserva a potência de um material que nasceu no teatro e utiliza a força de Cynthia Erivo para manter vivo o peso emocional da protagonista. Mesmo com suas limitações, o filme não deixa de cumprir uma função importante ao colocar a violência sexual e suas consequências no centro da narrativa, estimulando o espectador a refletir sobre questões que continuam extremamente relevantes. No fim, é uma obra que ainda consegue provocar discussões importantes, mas que deixa a sensação de que o material original possuía uma força que o cinema nem sempre conseguiu reproduzir.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Eu sei o que vocês fizeram no verão passado (2025) - Afiado, porém enferrujado

 

Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025) | Sony Pictures

O cheiro da maresia, uma brisa suave, o som das ondas batendo nas rochas, os fogos de artifício explodindo no céu do quatro de julho… Não importa que seja em 1997 ou 2025, se você for jovem e dirigir pela estrada da cidadezinha de Southport é bem provável que cause a morte de um desconhecido e este mesmo indivíduo queira retribuir o favor com chantagem e sangue.

 Após o sucesso de Pânico (Scream, 1996), o roteirista Kevin Williamson apresentou para os executivos da Columbia Pictures a ideia de adaptar o livro infanto-juvenil de Lois Duncan sobre um dilema moral em uma nova franquia de slasher. Eis que surge a versão de 1997 do clássico terror teen Eu sei o que vocês fizeram no verão passado, em que quatro amigos são perseguidos por um stalker vestido de pescador sobre um crime que cometeram um ano antes e acobertam desde então.

Após uma recepção morna da crítica, o primeiro filme foi um sucesso de público e bilheteria. O estúdio lança uma continuação apressada no ano seguinte, Eu ainda sei o que vocês fizeram no verão passado (1998), que é detonada pela crítica e desagrada parte dos espectadores do longa anterior. A franquia entra em um limbo, nunca se concretizando como uma franquia longeva de sucesso, mesmo fazendo parte do imaginário pop dos anos 90. Houveram duas tentativas de ressuscitá-la: como uma continuação em um filme para Home Video em 2006 e como um reboot no formato de série, produzido por James Wan, para Amazon Prime Video em 2021. Ambas falharam.

Após o cancelamento da série de streaming, a diretora Jennifer Kaytin Robinson apresentou aos produtores da franquia sua ideia para revivê-la no cinema, bem no estilo do que ocorreu na franquia Pânico, sua concorrente, em 2022. Interessados no conceito, apesar do fracasso recente, anunciam a produção da nova versão da franquia, que a Sony lança mundialmente, em pleno verão estadunidense.

O longa-metragem de 2025 pega o ponto de partida do primeiro: após causarem um acidente de carro fatal, cinco  amigos (Madelyn Cline, Chase Sui Wonders, Jonah Hauer-King, Tyriq Withers, Sarah Pidgeon) prometem guardar segredo sobre a tragédia que causaram e seguir em frente com suas vidas. Mas, um ano depois, o passado volta para assombrá-los quando são perseguidos pela figura do pescador. Enquanto as autoridades ignoram que uma nova onda de assassinatos esteja acontecendo na cidade, os jovens vão atrás dos dois únicos sobreviventes do Massacre de Southport para conseguirem ajuda: Julie James (Jennifer Love Hewitt) e Ray Bronson (Freddie Prinze Jr.).

Robinson, que também corroteiriza esta versão, parece ter um carinho com o filme original, mas que, dentro da lógica do soft reboot, não consegue transparecer tão bem em tela. A sensação, durante o decorrer da narrativa, é que não se sabe até certo ponto quando o filme entra na homenagem de suas raízes ou no modo paródico. O tom do filme parece, a todo custo, ir de um ponto ao outro. Não é um problema exclusivo desta franquia, mas que se repete aqui.

Se a versão de 97 explora o imaginário das lendas urbanas, as tensões morais e psicológicas, classes sociais e o choque de realidade de suas personagens, a de 25 utiliza do fator nostalgia para fazer um comentário raso a fenômenos que vivemos desde a década passada: gentrificação, a ascensão do true crime, podcasters, o apagamento de histórias e traumas coletivos, a crítica aos ricos. São temas pertinentes, se fossem bem desenvolvidos. As questões morais e de classe aparecem, mas não por muito tempo.

O roteiro aqui tem sua sagacidade, mas é frágil. Ele emula a narrativa do primeiro filme, mas sem as suas nuances. Recorre a situações que aconteceram em versões anteriores. As personagens são arquétipos que servem, muitas das vezes, como reflexos geracionais, desconstruídos ou não, da primeira interação. A figura do pescador é mais agressiva, contudo, menos sociopata. Tem composições interessantes. As cenas das perseguições e mortes, no geral, são satisfatórias, mas não atmosféricas o suficiente para serem memoráveis. A tensão existe, mas é bem encurtada.

Apesar de Robinson tomar escolhas arriscadas no terceiro ato, o que é interessante, elas não se sustentam. A revelação do pescador? Poderia ser melhor. O que aconteceu exatamente entre Julie e Ray em duas décadas? Nunca saberemos. Muitas informações são jogadas sem uma corroboração que seja satisfatória, e outras sem o desenvolvimento apropriado.  É incerto definir se a trama faz um comentário sobre nostalgia ou se apropria puramente dela.

A direção é pautada na ironia, o que é, ao mesmo tempo, o diferencial e o erro do longa. Ela brinca com humor e a tensão durante sequências em que personagens estão correndo risco de vida (como edição paralela da cena do ataque de arpão cortando para outra personagem na banheira alheia ao ataque, por exemplo). Há um flerte com o camp, mas sem se comprometer em ser de fato (o que é um crime!), principalmente em uma cena envolvendo uma personagem icônica para alegria de muitos. Além disso, a carga dramática que foi essencial para o desenvolvimento da versão original é deixada de lado, o que esvazia a obra de alguma conexão genuína e humana. Sutilezas que poderiam elevar uma narrativa.

Mesmo com uma boa interação mútua do elenco, as personagens de Ava e Danica são as mais desenvolvidas na nova versão e suas intérpretes, Wonders e Cline respectivamente, fazem maravilhas com as limitações do roteiro: uma é a protagonista, a outra é o alívio cômico que rouba a cena. O mesmo não pode ser dito para as personagens de Hauer-King, Withers e Pidgeon, que não possibilitam os atores a saírem da caixinha.  A ponta de Gabbriette é divertida. É ótimo ver Hewitt e Prinze Jr. retornarem como Julie e Ray, mas, apesar de serem importantes à trama, seus papéis sofrem de uma escrita fraca, deixando-os deslocados em relação ao novo elenco.

É um filme divertido, sem “barrigas”, para ver com amigos, mas que ainda não encontrou a sua identidade própria. É um reboot ou uma paródia? É genuíno ou irônico? Quer ser cunty, mas sem a garra necessária? Tem alguns acertos, principalmente de elenco, porém é perdido na base de sua proposta, que é bem oca. O problema é o que virá a seguir: o final deixa pontas abertas para uma possível continuação, mas será que a versão de Robinson terá fôlego para carregar uma nova franquia nas costas? O gancho do pescador ainda está afiado, porém enferrujado. Funciona, mas precisa ser mais polido de vez em quando.

                                                                  Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Aqui - Um Filme que Passa a Vida Inteira Sem Sair do Mesmo Lugar

Aqui | Sony Pictures


Em Aqui, produção do diretor Robert Zemeckis, se ambienta em um único lugar: a sala de uma casa. Acompanhando diversas famílias ao longo de gerações, todas conectadas por este espaço tempo que um dia chamaram de lar. Usando esse espaço único para ilustrar as transformações ocorridas em diversas eras, desde os primórdios da humanidade. Richard (Tom Hanks) e Margaret (Robin Wright) são um casal prestes a deixar o lar onde colecionaram uma emocionante jornada de amor, perdas, risos e memória, que transportaram desde o passado mais distante até um futuro próximo. Apresentando uma viagem pela linha do tempo da humanidade, contada de forma emocionante e surpreendente, onde tudo acontece em um único lugar: Aqui.

A direção do filme, conforme indicado na sinopse, é atribuída a Robert Zemeckis, renomado cineasta responsável pela aclamada trilogia De Volta para o Futuro, Forrest Gump, O Expresso Polar, Os Fantasmas de Scrooge e pelo polêmico live-action Pinóquio (2022), que, embora tenha gerado controvérsias, é apreciado por uma parte do público. Neste trabalho, Zemeckis apresenta uma narrativa que, assim como Forrest Gump, tem a capacidade de provocar risos, emoções intensas e reflexões profundas sobre a vida.

Embora o filme aborda várias gerações ao longo de sua narrativa, a escolha de manter a câmera fixa no mesmo local durante toda a projeção é uma decisão ousada e intrigante. Essa abordagem, além de transmitir uma sensação de continuidade e imersão, convida o espectador a se concentrar profundamente nos diálogos e nas nuances dos personagens, sem a distração de mudanças visuais constantes. Tal escolha acrescenta uma camada de profundidade ao filme, permitindo que a atenção se volte para a evolução emocional e narrativa das personagens, o que se revela uma ideia cinematograficamente rica e eficaz.

Embora o filme explore a história de várias gerações no mesmo cenário, o foco principal está na trajetória de Richard Young e Margaret Young. O público é profundamente cativado pela evolução de Richard, acompanhando sua jornada desde o nascimento até a infância, adolescência — quando conhece Margaret —, passando pela fase adulta e chegando à velhice. Essa narrativa dinâmica e multifacetada é eficaz em criar uma conexão emocional com o espectador, permitindo que ele testemunhe o amadurecimento de Richard ao longo do tempo e a transformação de seu relacionamento com Margaret. A riqueza dos personagens e a maneira como suas vidas se entrelaçam ao longo das décadas adicionam uma profundidade única à trama, tornando-a não apenas uma história de amor, mas também uma reflexão sobre o ciclo da vida e as mudanças que o tempo impõe.

Robert Zemeckis utilizou inteligência artificial para modificar digitalmente as imagens de Tom Hanks e Robin Wright, permitindo que interpretassem versões mais jovens e velhas de suas personagens ao longo de cinquenta anos. Desenvolvida pela Metaphysic, a tecnologia elimina a necessidade de pós-produção, mas seu uso levanta sérias questões éticas e artísticas. A técnica pode comprometer a essência da interpretação, reduzindo a complexidade e a expressividade humana em prol de um artifício tecnológico.

Aqui é uma obra emocionante que, com a direção de Robert Zemeckis, explora o ciclo da vida e as transformações ao longo das gerações, ambientando toda a narrativa em um único espaço. A história de Richard e Margaret cativa pela profundidade emocional, refletindo sobre o amor, as perdas e o legado que deixamos, proporcionando uma experiência cinematográfica íntima e impactante.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator em formação e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

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