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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Extermínio: O Templo Dos Ossos - Quando o apocalipse tem ótimas ideias, mas esquece de desenvolvê-las.

Extermínio: Templo dos Ossos | Sony Pictures


O Dr. Kelson se vê envolvido em um novo e chocante relacionamento com consequências que podem mudar o mundo como ele o conhece. Enquanto isso, o líder de uma seita Jimmy Crystal instiga medo e violência por onde passa.

O filme é uma continuação direta de Extermínio: A Evolução. Após um surto devastador do vírus da raiva, as ilhas Britânicas permanecem isoladas, e anos depois Spike vive com os pais em uma comunidade segura, mas conflitos familiares o fazem fugir com a mãe doente e gravida para o continente, onde enfrentam infectados e descobrem que ela sofre de câncer terminal; após sua morte, Spike recusa-se a voltar para casa, deixa o bebê recém nascido em segurança e segue sozinho, até ser encontrado por um grupo liderado por Jimmy Crystal, agora adulto, que representa uma nova ameaça. Pouco depois, Spike permanece em quarentena na Grã-Bretanha com esse grupo, os Fingers, uma gangue violenta que sobrevive pela intimidação e pela força, mas é instável e impulsiva: fisicamente fortes e organizados na violência, carecem de propósito, coesão moral e da habilidade de construir algo duradouro, tornando-se vulneráveis tanto à própria instabilidade quanto à humanidade daqueles que enfrentam.


Desde o primeiro filme da franquia, os infectados funcionam como gatilho narrativo, evidenciando como a sociedade, desprovida de qualquer estrutura, rapidamente mergulha no caos, como nos militares do filme original, após o colapso da civilização abandonam qualquer ética, agindo de forma brutal e autoritária sob o pretexto de reconstruir o mundo; atualmente, essa abordagem é recorrente em produções sobre zumbis, retratando um mundo sem leis no qual à máscara da humanidade é gradualmente removida, e nos convida, como espectadores, a sentir medo, compaixão e questionar como reagiremos se fôssemos colocados à prova em um cenário tão desolador.


Há uma sub-trama na narrativa sobre um grupo de sobreviventes que vive em uma fazenda, mas ela foi mal desenvolvida. Ela é introduzida com certo destaque, sugerindo que terá importância para o desenvolvimento da história ou para os temas centrais, mas essa expectativa não se sustenta ao longo da narrativa. Os personagens e o cenário são apresentados de maneira relativamente cuidadosa, criando a impressão de que haverá consequências ou desdobramentos relevantes.


No entanto, essa linha narrativa acaba servindo apenas como um evento pontual, sem impacto duradouro. Após cumprir sua função imediata, a sub-trama é deixada de lado e não volta a ser explorada, o que pode causar estranhamento no espectador. Essa escolha enfraquece a construção do enredo, pois transmite a sensação de que a fazenda foi usada apenas como um recurso momentâneo de tensão, e não como um elemento integrado à história maior. No fim, fica a impressão de uma ideia que parecia promissora, mas que foi apresentada e depois simplesmente ignorada.


A ideia de explorar o conflito entre fé e ciência em um cenário apocalíptico já é um tema bastante recorrente, mas ainda pode funcionar como um clichê empregado quando bem inserido. No entanto, em Extermínio: Templo dos Ossos, essa tensão se mantém superficial. Por um lado, temos o Dr. Ian Kelson, representante do raciocínio científico, que busca entender e curar os efeitos do Vírus da raiva no Alpha infectado Samson através de experimentos e manipulação química. Por outro lado, Jimmy Crystal e seu culto satânico simboliza uma forma distorcida de fé e fanatismo, usando a violência ritualizada como instrumento de poder. Apesar desse contraste aparente, o conflito entre ciência e crença não é desenvolvido de forma significativa. As interações entre Kelson e Jimmy — assim como entre os demais personagens — permanecem focadas na ação e na sobrevivência, sem que haja um verdadeiro debate filosófico ou moral sobre ética, racionalidade ou a natureza do mal. A ciência de Kelson é apresentada principalmente como uma ferramenta prática, enquanto o fanatismo de Jimmy é um motor para cenas de terror e caos. essa abordagem resulta em uma tensão que é funcional para o desenrolar da narrativa, mas que não se aprofunda. Os diálogos que mencionam o embate entre fé e razão aparecem apenas de maneira rápida e pontual, como ordens ou justificativas de personagens, e não evoluem para um conflito consistente ou reflexivo. Assim, o filme utiliza o contraste entre religião e ciência como pano de fundo estilístico, reforçando o clima de horror e a escalada da ação, sem transformar essa oposição em tema central ou questionamento moral relevante. Sendo assim, tocando na clássica dicotomia entre fé e ciência, mas apenas de forma superficial, como instrumento narrativo, sem explorar o potencial dramático ou filosófico que esse confronto poderia oferecer.


Extermínio: Templo dos Ossos mantém o clima de horror e violência característico da franquia ao mostrar como o colapso social expõe a fragilidade moral humana. Embora apresente personagens e ideias promissoras — como o conflito entre fé e ciência e novas comunidades de sobreviventes — o filme desenvolve esses elementos de forma superficial. Sub-tramas são abandonadas e temas centrais não se aprofundam, fazendo com que a obra funcione mais pela tensão e atmosfera do que pela reflexão consistente. O resultado é um filme eficaz no gênero, mas aquém do potencial que a sua proposta sugere.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Anaconda (2025) - Fazendo Cinema Até a Cobra Acordar

Anaconda(2025) | Sony Pictures


Os melhores amigos Griff e Doug partem para as selvas da Amazônia para filmar um reboot de seu filme favorito de todos os tempos, Anaconda. No entanto, a vida logo imita a arte quando uma anaconda gigantesca com sede de sangue começa a caçá-los.

Jack Black vive um cineasta tão obcecado por cinema que resolve arrastar uma equipe inteira para o território selvagem. O plano era fazer arte. O resultado? Uma criatura gigante, gritaria, correria e a ambição cinematográfica sendo atropelada pela luta básica pela sobrevivência. Pela sinopse, dá até a impressão de que estamos falando de King Kong (2005) — só faltou o macaco pegar o Oscar. Mas, calma: estamos diante de um reboot assumidamente auto-paródico de Anaconda. E, apesar da coincidência conceitual, as semelhanças com King Kong param por aí. Aqui, o filme abraça o exagero, ri de si mesmo e entende exatamente o tipo de diversão que quer entregar. Não é sobre grandiosidade épica, e sim sobre entretenimento descompromissado, consciente do próprio absurdo — e isso, curiosamente, acaba sendo seu maior acerto.

Doug (Jack Black) e Griff (Paul Rudd) querem realizar o sonho de filmar a cobra gigante, um desejo que nasce não apenas da ambição criativa, mas de uma amizade construída ao longo dos anos e sustentada por um amor sincero pelo cinema. Há algo de bonito — e ao mesmo tempo ingênuo — nessa parceria: dois amigos que acreditam no poder da arte mesmo quando a realidade insiste em mostrar seus limites. O filme observa essa relação com carinho, deixando claro que a paixão pelo cinema pode ser inspiradora, mas também cega, capaz de transformar entusiasmo em imprudência. É nesse equilíbrio entre afeto, ilusão e choque com o real que Doug e Griff se tornam mais humanos — e a história, mais interessante.

A geografia do filme é tratada com um descaso evidente, beirando o caricato. Ao chegar ao Brasil, é mostrado para o público o Rio de Janeiro e, em um corte abrupto, já estão imersos na Amazônia, como se a maior floresta tropical do mundo estivesse literalmente ao lado da cidade. Essa escolha não apenas ignora a imensa dimensão territorial do país, como também reduz o Brasil a um amontoado de cartões-postais genéricos, usados apenas como pano de fundo exótico para a trama. O problema não está na liberdade criativa — algo que o próprio filme abraça em outros aspectos —, mas na falta de intenção crítica ou humorística nesse erro específico. Diferente de uma sátira assumida, a sequência soa como desinformação pura, reforçando estereótipos antigos que o cinema estrangeiro insiste em reciclar, a comparação com o episódio polêmico de Os Simpsons é inevitável, episódio esse no qual eles vão para o Rio de janeiro e ocorre essa mesma falha geográfica. Esse equívoco quebra a imersão e evidencia uma negligência narrativa que contrasta com o cuidado que o filme demonstra em sua proposta metalinguística. É um detalhe que pode parecer pequeno, mas revela uma visão superficial do cenário retratado — e isso pesa negativamente no conjunto da obra.

Anaconda (2025) funciona melhor quando assume sua própria natureza exagerada e autoconsciente, encontrando força no humor, na metalinguagem e na relação afetuosa entre seus protagonistas. A paixão pelo cinema que move Doug e Griff dá ao filme um coração sincero, capaz de tornar o absurdo mais palatável e até cativante. No entanto, esse mesmo cuidado não se estende a todos os aspectos da produção. O tratamento superficial do Brasil e os deslizes geográficos evidenciam uma negligência que enfraquece a imersão e expõe velhos vícios do cinema estrangeiro. Assim, Anaconda (2025) se mantém como um entretenimento divertido e honesto em sua proposta, mas irregular: acerta ao rir de si mesmo, e tropeça quando prefere o estereótipo fácil ao olhar mais atento.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Natal Sangrento (2025) - Um Remake "Levado da Breca"

 

Natal Sangrento (2025) | Diamond Films

Durante a véspera de Natal, o jovem Billy visita o avô no hospital que acaba tendo um acidente medicinal e morre em frente ao garoto. De noite, voltando de carro com seus pais, a família de Billy é interceptada por uma figura estranha vestida de Papai Noel. Para piorar a situação de um dia que já estava ruim, esse "Noel" ataca e mata os pais de Billy , antes de morrer. A ação corta para o futuro e aquela criança se torna um psicopata adulto (Rohan Campbell): ele ouve uma voz na sua cabeça que diz para se vestir de Papai Noel e matar um certo número de pessoas consideradas "levadas" durante a época do fim de ano.

Logo, Billy não para quieto. Ele é um nômade, basicamente. Vai de um canto a outro, cria álibis temporários, não tem nenhum tipo de amizade ou relacionamento que não seja com essa voz onipresente, guiando-o em seus instintos assassinos. Esse modus operandi começa a se complicar quando Billy chega em uma cidadezinha de interior e começa a ficar interessado em Pam (Ruby Modine), uma moça que trabalha em uma loja de produtos natalinos. O que ele faz? Fica na cidade e arruma um emprego nesse estabelecimento para ficar perto dela. A Pam é uma jovem mulher, muito na dela e bem doce, que e também tem seus traumas e, em alguns momentos, parece que é tão desiquilibrada emocionalmente quanto o Billy. 

Porém, a situação começa a ficar complicada quando o rastro de destruição de Billy toca em pequenos segredos da comunidade que pode pôr um alvo nas suas costas, revelando a sua verdadeira face para todos. Natal Sangrento (2025) que entra em cartaz, justamente em Dezembro, o mês do Natal, aqui no Brasil, é o remake de um clássico do slasher estadunidense oitentista: Silent Night, Deadly Night (1984). 

No entanto, os dois filmes tem mais características diferentes do que em comum. A primeira interação da estória focava no desenvolvimento psicossexual e do irracional de Billy. Seu medo à figura de Noel lhe é incutido pelo avô e vítima de abusos físicos e psicológicos pela Madre Superiora do orfanato, e tudo isto ressurge com força quando é obrigado pelo patrão da loja em que trabalha como estoquista a ser vestir do "bom velhinho". É um filme lento, mas que consegue, dentro de suas limitações orçamentárias ou artísticas, construir a personagem principal de modo bastante palpável e psicologicamente amedrontador. A pulsão entre amor e morte e a transmissão de traumas geracionais dão um poder de valor, ao que poderia ser considerado hoje como "uma produção B malfeita" ou "de baixo escalão artístico" ou "um filme bobo e ridículo" (como um colega cinquentão desconhecido a mim de profissão estava defendendo, mais ou menos assim, na fila da cabine).

Apesar disso, os temas da narrativa engrandeceram este clássico, um pouco trágico e camp, do terror natalino. Inclusive as cenas que envolvem efeitos práticos ainda tem seu valor e resultado material, quarenta anos depois. O remake de 2025 mira nessa combinação, mas nem passa perto das pulsões originais.

Escrito e dirigido por Mike P. Nelson, essa nova versão quer atualizar a trama para um contexto atual, dividindo o protagonismo de Billy com Pam, esta personagem baseada em uma da obra de origem. Ela, nesta versão, ganha mais dimensão e facetas do que sua contraparte dos anos 80, um arquétipo da mocinha inocente, simpática e sexualizada das produções daquela época. A evolução de tratamento da personagem era necessária, até mesmo pelo contexto artístico e social ter rompido com cristalização do feminino no terror. 

Porém, o filme de Nelson está cheio de boas ideias e intenções, porém não consegue entregar o que promete ao público. Os diálogos são pavorosos, o gore e o humor são fracos, a fotografia é escura e sem vida, com muitas cenas mal decupadas, confusas e até mesmo mal montadas (devido aos problemas mencionados). Campbell e Modine tentam embarcar na onda do filme, mas não conseguem salvá-lo de um insólito mar de mesmice e de tédio mortal.

 Afinal, este crítico não esperava nada grandioso, já que a produtora responsável pelo remake é também responsável pela franquia Terrifier. Portanto, já esperava encontrar um filme bem trash, com muita violência, com cor e com muitos absurdos... E mesmo assim, nem isso foi entregue nas mãos da direção. Há uma sequencia em que nosso "Noel" assassino acaba caindo um covil de nazistas local e ele deve matar cada um. A ideia é divertida, exagerada e dá uma adrenalina ao filme, mas a execução é uma bagunça preguiçosa e semicompreensível. É de uma péssima capacidade de contar algo pela linguagem cinematográfica que não vejo desde Transformers 4, por exemplo, em que o espectador consegue entender como começa e termina a cena, mas não o percurso de ações que vai do ponto A ao B.

Somado a um trabalho de direção preguiçoso e confuso, que muitas vezes beira ao básico do gênero, mas sem nenhuma profundidade ou timing, há um problema de identidade muito proeminente: não sabe se é uma nova adaptação do filme de 84, ou se quer ser Dexter, ou Venom, ou Kingsman... Essa autofagia pop acaba prejudicando muito mais do que enriquecendo a obra. A sensação é de mastigar carvão, enquanto sou obrigado a ver o filme mais clichê possível. (Enquanto isso, o coleguinha que tinha falado mal do filme original, abraçou esta versão e, na sua mediocridade, o filme conseguiu "dar a volta" para ele...)

Natal Sangrento tem ideias interessantes para atualizar o conto macabro que lhe deu origem, mas é uma pena que nunca saíram da oficina do Noel. Uma pena...

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


Five Nights At Freddy´s 2 - Cinco Noites, Muitos Sustos e Zero Paz de Espírito

Five Nights At Freddy's 2 | Universal Pictures 


‘Five Nights At Freddy’s 2‘, sequência do maior sucesso da história da Blumhouse, traz Mike, Abby e Vanessa tentando encontrar uma maneira de sobreviver por mais cinco noites quando um novo grupo de animatrônicos sai da pizzaria e causa o caos na cidade.


O filme se passa um ano após os eventos do longa anterior. Mike, ainda carregando as marcas do passado, tenta seguir em frente. Antes frio e retraído pela dor de ter perdido seu irmão caçula, ele agora demonstra um amadurecimento tocante — fruto da convivência com Abby, que, mesmo sem perceber, o ajuda a reencontrar partes de si que acreditava ter perdido. Abby, por sua vez, sente a ausência dos animatrônicos que passou a ver como amigos. Para ela, aqueles laços eram mais do que simples encontros; eram fontes de conforto em meio à solidão. Seu desejo de revê-los nasce de um coração que busca companhia e compreensão. Mike, porém, teme por ela. Carrega o medo constante de que algo possa machucá-la, mesmo enquanto tenta ser o irmão carinhoso e presente que ela merece. O filme explora com delicadeza esse conflito — o amor cuidadoso de Mike, a sensibilidade de Abby e a complexidade dos laços que conectam ambos ao passado. 


Vanessa também carrega seus próprios traumas, profundamente ligados ao passado ao lado de seu pai, William Afton. As lembranças dolorosas e a influência emocional que ele exerceu sobre ela ainda ecoam em sua mente, surgindo em forma de ilusões que, em diversos momentos, a tiram do foco e interferem em sua rotina diária. Apesar disso, o filme apresenta a trajetória de Vanessa com muita sensibilidade, evidenciando não apenas sua vulnerabilidade, mas também sua coragem silenciosa. Ela luta constantemente para não ser definida pelo peso de sua história, buscando recuperar sua autonomia emocional e construir um caminho mais saudável para si mesma. Essa abordagem dá profundidade à personagem, valorizando sua resiliência e mostrando como, mesmo cercada pelas sombras do passado, ela segue tentando encontrar luz.


O filme anterior parece que abandonou muito o lado terror, aqui o terror está presente e conseguindo render muitas cenas de sustos. O novo animatrônico chamado de “O Fantoche”, que nos jogos já me dava muito medo, aqui no filme não é diferente. O animatrônico é assustador por sua aparência inquietante e seu comportamento silencioso. Ele é alto e esguio, com membros longos e movimentos fluidos que parecem antinaturais. Seu rosto branco, marcado por “lágrimas” roxas e olhos completamente negros, transmite uma frieza perturbadora. Ele não caminha — desliza, surgindo sem aviso. A combinação de silêncio, olhar vazio e presença quase sobrenatural faz do fantoche uma das figuras mais ameaçadoras e desconfortantes da franquia.


Five Nights at Freddy´s 2 se destaca por unir emoção e terror de forma mais equilibrada do que o primeiro filme. A trama aprofunda seus personagens, mostrando que os monstros não estão apenas do lado de fora, mas também dentro das dores e memórias que cada um carrega. Mike, Abby e Vanessa formam um trio marcado por traumas diferentes, mas conectados pela vontade de seguir adiante, mesmo quando o passado insiste em persegui-los. Ao mesmo tempo, o filme resgata o horror característico da franquia, entregando sustos eficientes e criaturas realmente perturbadoras, como o Fantoche. O resultado é uma continuação mais madura e mais sombria — uma história que assusta, mas também toca, mostrando que, para sobreviver a cinco noites, às vezes é preciso enfrentar não apenas os animatrônicos, mas os próprios fantasmas internos.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.





terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim: O verdadeiro terror é perceber que os animatrônicos assustam menos que a vida adulta de Mike.

Five Nights at Freddy's | Universal Pictures

No Freddy Fazbear's Pizza, robôs animados fazem a festa das crianças durante o dia. Quando chega a noite, eles se transformam em assassinos psicopatas.

Eu nunca fui profundamente familiarizado com toda a lore de Five Nights at Freddy´s, mas acompanhava muitos gameplays no Youtube em 2014, época em que o jogo explodiu em popularidade na plataforma. Cheguei até a jogá-lo, embora sempre com bastante receio — afinal, os jumpscares dos animatrônicos são inesperados e realmente dão aquele susto clássico. Quanto ao visual do protagonista, Michael Schmidt, o jogo não revela sua aparência, o que reforça o mistério e a imersão do jogador. Já na adaptação cinematográfica, ele recebe uma caracterização clara e definida. Essa diferença evidencia como cada mídia escolhe explorar o personagem: o jogo aposta no anonimato e no suspense, enquanto o filme destaca sua humanidade e vulnerabilidade. Como toda adaptação para o cinema, foi necessário ter uma trama e de uma identidade visual.

A história segue Mike Schmidt, um segurança que, após ser demitido, aceita trabalhar como vigia noturno da abandonada Freddy Fazbear´s Pizza para evitar que sua irmã mais nova, Abby, seja colocada sob custódia da tia deles. Ao longo das noites, Mike passa a ter pesadelos recorrentes sobre o desaparecimento de seu irmão, enquanto descobre que o local guarda segredos perturbadores ligados a crianças que desapareceram nos anos 1980. Conforme Mike se aprofunda no mistério, ele percebe que os animatrônicos do restaurante parecem estar vivos e têm uma conexão direta com os acontecimentos sombrios do passado. Entre proteger Abby e desvendar a verdade, Mike acaba envolvido em uma trama que mistura trauma, memórias e fenômenos inexplicáveis. O filme equilibra cenas de suspense com momentos de sensibilidade, criando um protagonista mais relacionável do que em seu material original. 

Mike é um personagem marcado por dor e responsabilidade, alguém que carrega mais peso emocional do que consegue expressar. Sua aparente frieza é, na verdade, um mecanismo de defesa construído após anos de culpa e trauma. Ele vive dividido entre o cansaço que o consome e a necessidade quase desesperada de proteger quem ama, especialmente Abby. Impulsivo em momentos de tensão, mas profundamente justo, Mike revela uma sensibilidade silenciosa: mesmo ferido, continua tentando fazer o certo. Sua personalidade é a de alguém que aprendeu a sobreviver, mas ainda busca uma forma de viver — e, acima de tudo, de encontrar paz para si e para sua irmã caçula.

O filme parece se esquecer do próprio gênero ao qual se propõe, deixando de lado justamente a essência que tornou o jogo tão popular. É importante dizer com clareza: Five Nights at Freddy´s se destacou por seus sustos, jumpscares e pela atmosfera de terror — elementos que, na adaptação, acabam ofuscados por uma narrativa focada novamente no tema do luto, apenas ambientada no universo da franquia. Pensando bem, não consigo lembrar de nenhum momento em que realmente senti medo durante a sessão.

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim acerta ao humanizar seus personagens e dar profundidade emocional à jornada de Mike, mas acaba se afastando daquilo que definiu a identidade da franquia nos jogos. Embora apresente elementos visuais marcantes e uma trama acessível ao público geral, o filme deixa a desejar no aspecto mais esperado: o terror. A falta de tensão genuína e de momentos realmente assustadores enfraquece a experiência para quem buscava reviver o clima inquietante do jogo. Ainda assim, a obra tem seu mérito ao propor uma leitura mais dramática e sensível do universo, mesmo que isso signifique sacrificar parte da essência que tornou FNAF um fenômeno cultural.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.





quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sombras no Deserto (2025) fica em cima do muro

 

Sombras no Deserto (2025) | Imagem Filmes


Crescer é um inferno: a passagem da infância à vida adulta é um ritual bastante natural e transformador, a pessoa que você era antes deixa de existir e começa a ficar exposta as mudanças interiores e exteriores que todes sofrem com este amadurecimento. É como uma troca de pele, seu corpo muda, suas percepções e crenças também... A reação é assustadora. No entanto, ao retratar esse momento específico da vida de uma figura mitológica/religiosa pode abrir espaço para debates e (não como me importasse muito) controvérsias.

Em Sombras no Deserto (The Carpenter's Son, no original, 2025) retrata a adolescência da figura de Jesus Cristo dentro de um gênero cinematográfico inusitado para esse tipo de estória ligado a tradição eclesiástica: o terror. O filme é dirigido por Lotfy Nathan e tem o dedo de Nicolas Cage na produção, que também interpreta José de Nazaré, o pai adotivo de Jesus. Enquanto o título nacional tem um nome genérico, o original explicita sua relação com a teologia.

Quando este projeto foi anunciado muitas pessoas ficaram ou com uma curiosidade mórbida ou completamente ultrajadas por alguém adaptar a vida de um símbolo cristão em filme de terror; afinal, para um crente, a ideia de retratá-lo de uma "forma negativa" seria uma blasfêmia. E até semanas antes do lançamento o projeto está sofrendo com um boicote online em portais e agregadores de cinema (uma semana antes do lançamento oficial, no IMDB, a nota está em 3.5). 

Como um bom agnóstico/ateu que este crítico é, me enquadro no primeiro grupo; pois é muito raro ver este tipo de abordagem sendo feita, porém, como não é muito comum, as chances do longa ser um desastre incompreensível são altas. De fato, Nathan se baseia em textos apócrifos, que não fazem parte do cânone do cristianismo, dando uma liberdade de contar algo, digamos, extraoficial, ou seja, indo em direção ao paródico, ao paralelo de tal cânone já consolidado.

Nathan não dá nomes aos seus personagens de cara, e, quando dá, utiliza os nomes em judaico, mas codifica as personagens mitológicas de forma que o público os identifique de cara: o Carpinteiro (Cage), a Esposa (FKA Twigs) e o Filho (Noah Jupe). José, Maria e Jesus. Simples assim. Não é preciso muitas explicações.

O longa começa com um prólogo que retrata o nascimento de Jesus no dia de Natal e a fuga de seus pais das tropas romanas. Depois, a narrativa corta para anos depois. O Carpinteiro e sua família são nômades, com medo de descobrirem a verdade sobre o Filho. Eles se instalam em uma vila egípcia, cujas as habilidades do patriarca da família são necessárias. Mas o Filho não é mais nenhuma criança e seus pais sentem um medo de que ele logo caia em tentações e atraia a presença de Satanás. O Carpinteiro é rude e ríspido em sua educação, alienando mais o filho do que o ajudando. Enquanto isso, o jovem é assolado por sonhos que preconizam sua morte.

A situação complica quando o Filho conhece uma Criança (Isla Jonhston) muito estranha e de estilo bastante andrógeno, talvez Satanás em pessoa ou não, que empurra Jesus para fora da faceta construída pelos pais e sim para o santo milagroso do qual seria conhecido: seja por curar leprosos ou exorcizar espíritos demoníacos em pessoas inocentes. Porém, isso pode, em contrapartida, acarretar em acusações de bruxaria e paganismo contra o jovem, já que a população local não sabe de seu verdadeiro destino. Causando, deste modo, aflição e medo no seio familiar.

Partindo de uma abordagem histórica, querendo ou não, o cinema bíblico está presente no cinema, desde a época dos filmes mudos, com os épicos de DeMille, por exemplo. Mas o que antes era visto como algo épico e luxuoso, hoje em dia virou em um gênero escabrosamente decadente que serve mais converter os espectadores ao cristianismo e reforçar as temáticas religiosas para o público protestante. O que era um subtexto, virou algo muito maior, mais aborrecido e pedante: uma obra planfetária para vender uma ideologia, flertando com um fascismo religioso. E talvez, esteja uma das controvérsias do filme. Ele foge desse roteiro. Ao retratar os poderes de Cristo como algo assustador e que causa pânico, automaticamente, o projeto rejeita o discurso engessado de produções recentes. Foge do estilo da Angel Studios e da Affirm Films que protestantes estadunidenses querem enfiar goela abaixo nos espectadores, junto de sua agenda. E nem chega a ter tons ofensivos a outras religiões como A Paixão de Gibson, em que há um subtexto antissemita.

Nathan abraça o caráter humanístico de Jesus, descrevendo-o como ele é: um ser divino, mas mortal, como qualquer ser humano. Tem muito como um referencial temático os trabalhos de Scorsese e (o saudoso) Pasolini, de certa forma. A narrativa de horror se desenvolve dentro da lógica do bildungsroman, com Cristo desconhecendo de seus poderes e do terror que isto possa causar na psique. Há um certo fascínio, quanto uma realização temerosa ao mesmo tempo. Cristo, influenciado pela Criança demoníaca, quer descobrir suas próprias tentações e poderes. Mas José, difícil e controlador, é o único obstáculo em seu caminho. 

Aqui não há só uma batalha entre o bem e o mal, mas também geracional, entre a fé e o desespero, o etéreo e a carne. Existe uma linha tênue entre a teologia e a psicanálise que é anunciada, mas nem sempre tem algo a dizer de inovador ou de perspicaz. Deste modo apresentando ideias interessantes, que parecem mais inteligentes e profundas do que elas são de verdade. Essa dicotomia entre bem e mal ou pai e filho é um dos dispositivos mais antigos do mundo. Existe uma gravidade nesta relação, dando um peso à narrativa; a figura bíblica da serpente como uma figuração do pecado, do mau caminho, da perdição, é recorrente, embora que seja repetitiva. O problema aqui é que a direção e a construção de mundo estão intrinsecamente ligadas a tradição mitológica e, mesmo brincando com seus signos, nem sempre consegue escapar da sensação de que a trama está "chovendo no molhado". 

Se em termos temáticos, o filme não acrescente nada de novo, apesar do gênero escolhido, também sofre com algumas decisões que afetam a estética da obra. Talvez o maior pecado do filme é pegar o trabalho do diretor de fotografia Simon Beaufils (de Anatomia de uma queda (2023) e Faca no coração (2018), um favorito meu, por exemplo), com seu trabalho de cores e texturas, para, provavelmente na pós, escurecer algumas cenas que prejudicam o trabalho de fotografia naturalista realizado aqui. Algumas cenas noturnas são demasiadamente escuras, sem a necessidade tal escolha, sem que haja uma sombra e luz para contrabalancear.

Nathan consegue dirigir o longa ao redor da figura de Cage, mesmo que este seja o único dentre os atores com um "sotaque europeu" no projeto, com certa competência que deixa o nível da trama com as batidas de desenvolvimento necessárias para seu desenvolvimento: não deixá-lo roubar a cena. O ator conhecido pelo seu estilo hiperbólico conseguiu dar, na última década, uma reviravolta na carreira ao embarcar em projetos que contemplassem seu estilo de performance e com realizadores que conseguiriam trabalhar em volta dessa figura na direção. Há momentos que vemos o Cage explosivo, no qual, por muitos anos, ele infamemente ficou conhecido; mas são bem espalhados, no mar de contenção e de naturalidade, e contribuem para o arco narrativo da narrativa e de sua personagem. 

Além disso, o diretor consegue com que haja um diálogo de cena entre Nic Cage e seus colegas, de modo que as interações não fiquem exageradas ou beirando ao território do camp. Por mais que o filme se venda na figura de Cage, o foco de toda trama é o desenvolvimento de Jesus que é está bem nas mãos de Noah Jupe, que consegue vender sua versão, esforçada até, de um Cristo infante, ainda ingênuo. Já FKA Twigs, que foi de Maria Madalena para Maria de Nazaré (quem entendeu a referência, entendeu), não está em uma posição vulnerável em cena, como foi o caso da versão de O Corvo do ano passado, no qual a diva do pop indie sofreu com uma péssima direção, prejudicando seu trabalho no projeto que foi severamente criticado na época; aqui ela consegue estar a par da cena. Porém, sua personagem é retratada de uma forma bastante passiva, quase tornando a sua presença um acessório narrativo, do que como parte integral da trama.

Em suma, Sombras no Deserto causa pela ideia, no campo do discurso, pela ousadia de um terror bíblico, como uma vertente dos filmes de terror religiosos, como Exorcista e Invocação do Mal, por exemplo. Mas o longa-metragem propõe uma transgressão de valores do qual não a assume, com um desenvolvimento temático, já feito no passado, que flerta com o genérico e o mediano. A balança entre naturalismo e a teologia está voltada ao espetáculo abrasivo que tenta ser "desconstruído", sem sê-lo. É uma mistura de um filme europeu pretencioso com um filme B. Talvez o pior pecado, se podemos chamá-lo assim, deste projeto seja uma ambivalência de valores transgressores e conservadores que fazem o filme pairar dentro de um limbo para agradar vários gostos e visões polarizadas de mundo. Em outras palavras, é uma obra que fica em cima do muro em um mar de mesmice autoral. Interessante, mas um pouco esquecível. Contudo, não merece esse hate episcopal.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Frankenstein (2025) - Pense duas vezes antes de rejeitar alguém

 

Frankestein (2025) | Netflix

Publicado em 1818, Frankenstein, de Mary Shelley, apresenta uma visão crítica da sociedade a partir do paradigma criador/criatura, tornando-se, desde então, um clássico aclamado com diversas adaptações. De outro lado, temos o diretor Guillermo Del Toro, conhecido por levar às telas criaturas e monstros visualmente inesquecíveis, atrelados quase sempre a narrativas que buscam refletir sobre um período histórico de seu país de origem: a Espanha. Dessa forma, o anúncio de que a obra de Frankenstein seria adaptada por Guillermo Del Toro gerou grandes expectativas.

O longa inicia-se com Capitão Anderson (Lars Mikkelsen) e sua tripulação confrontando a Criatura (Jacob Elordi), após darem abrigo a Victor Frankenstein (Oscar Isaac). Eles o encontraram na neve depois que o navio encalhou no gelo, enquanto rumavam ao Polo Norte. Após conseguirem se desvencilhar do monstro, inicia-se uma série de flashbacks onde Victor conta sua versão dos fatos até ali. O longa é separado por capítulos, os quais servem para orientar o espectador na narrativa, tal qual um livro. Del Toro investe bons minutos do filme nos mostrando a infância de Victor e o que o leva a tornar-se um médico obstinado obcecado por vencer a morte, um acerto do roteiro, uma vez que aumenta o interesse no personagem, que é um dos protagonistas da obra.

Conforme novos personagens são introduzidos, fica perceptível como Del Toro os utiliza para se aprofundar em seus protagonistas. Por exemplo, Elizabeth Lavenza (Mia Goth), esposa de William Frankenstein (Felix Kammerer), irmão caçula de Victor, é uma mulher independente e ousada, com ideias próprias, que provoca Victor. Mesmo sabendo que ela estava comprometida com seu irmão, ele se declara, mas é rejeitado. Quando Elizabeth demonstra empatia pela Criatura, isso invoca uma cólera de inveja e ira em Victor, que rejeita e tenta destruir sua criação, o que põe à prova quem de fato seria o monstro.

Quanto aos aspectos técnicos, a direção de arte se destaca. Os cenários grandiosos e repletos de elementos de cena, como os pedaços de corpos no laboratório de Victor, ajudam na imersão e tornam os planos vistosos e dignos de serem enquadrados. Ademais, os figurinos e, em especial, a caracterização de Jacob Elordi como a Criatura se afastam da caracterização clássica do filme de 1931 e abraçam a descrição do livro de Mary Shelley, trazendo um personagem mais realista e humanizado, ainda que grotesco. Infelizmente, por vezes, é possível perceber que algumas cenas abusaram do CGI na composição do cenário, o que o torna um pouco artificial, mas não a ponto de estragar a experiência. Já a trilha musical, assinada por Alexandre Desplat, agrega-se à composição das cenas e forma um casamento harmônico, onde cada cena tem seu tom. A trilha por vezes é mais tímida ou cresce, dependendo da necessidade, um mérito da montagem, mas também de Desplat por ter feito uma composição tão rica que se encaixa em diferentes momentos da trama.

A despeito das atuações, é impossível não falar de Jacob Elordi, que entrega uma Criatura de olhos tão doces, apesar de sua forma amorfa, suas mãos grandes e desajeitadas, demonstrando uma ingenuidade quase digna de pena. A exemplo disso, pode-se citar a sequência com o velho cego, onde é possível perceber toda a desenvoltura do ator para entregar uma Criatura que luta contra a rejeição e busca provar que pode ser boa.

Frankenstein é uma adaptação que abraça e respeita sua obra base, mas sem deixar de ser original, apresentando elementos técnicos inspirados e atuações que se destacam. Apesar de todo seu mérito, o longa possui um caráter apressado. Seu desenvolvimento é orgânico, mas parece deixar pontas soltas. Talvez Del Toro não tenha tido tanta liberdade, ou talvez só não estivesse tão inspirado em algumas partes do filme. Em suma, Frankenstein não é perfeito, mas entrega o que promete e, certamente, é até então a melhor adaptação da obra de 1818 já feita para o cinema.

Autor:


Mateus José é graduando de Licenciatura em Cinema e Audiovisual pela UFF, escritor, poeta, montador e aspirante a diretor de fotografia. Apaixonado pelas artes, literatura, música e principalmente o cinema, dedica-se a consumir, estudar e dissecar as camadas mais profundas do cinema e da arte.

Bom Menino - Mais que um amigo fiel: um especialista em monstros domésticos

Bom Menino | Paris Filmes


Um homem se muda para uma nova casa onde forças sobrenaturais se escondem nas sombras. Quando entidades sombrias começam a ameaçá-lo, seu corajoso cachorro aparece para salvá-lo.

Ao assistir ao trailer do filme, é quase inevitável lembrar da clássica animação Coragem, o Cão Covarde, e muitos comentam nas redes que o filme fuinciona como uma espécie de versão live action do desenho. A comparação é natural: em ambas as obras, apenas o cachorro percebe as presenças sobrenaturais que passam despercebidas pelos humanos, estabelecendo uma dualidade fascinante entre sensibilidade e ignorância. Essa perspectiva evidencia como os animais podem ser muito mais perceptivos do que imaginamos, enquanto os humanos permanecem alheios ou descrentes diante do inéxplicável.


Segundo estudos sobre comportamento canino, os cães latem não apenas para alertar sobre perigos concretos, mas também como resposta a estímulos que só eles — sons, cheiros ou presenças sutis que fogem à fogem à nossa percepção. Essa característica é explorada de maneira criativa nas duas narrativas: O latido do cachorro deixa de ser apenas um recurso sonoro e se torna um símbolo de alerta, isolamento e incompreensão. O Bom Menino adota uma abordagem mais realista e emocional, dando profundidade ao vínculo entre o cão e seu dono. O latido, aqui, se transforma em metáfora de solidão, medo e da dificuldade de ser compreendido, mostrando como o animal, mesmo vulnerável, se torna o verdadeiro herói da história.


Contar uma história de terror sob a perspectiva de um animal de estimação é uma proposta muito bem executada. Ao adotar esse ponto de vista, o filme ganha uma camada extra de sensibilidade, transformando o medo em algo mais íntimo, quase inocente, e profundamente emocional. A direção explora com inteligência a limitação do olhar do cachorro, restringindo o campo de visão à altura do chão e aos ruídos distantes. Essa escolha aproxima o público do protagonista, fazendo com que cada som, movimento ou ausência de luz seja sentido com a mesma vulnerabilidade que ele.


Além de intesificar a tensão, essa perspectiva reforça a conexão afetiva entre o espectador e o animal, que se torna um espelho de emoções humanas como o medo, a lealdade e o instinto de proteção. O resultado é um terror que vai além dos sustos e das aparições sobrenaturais — é uma experiência emocional, que faz o público torcer, temer e sofrer junto com o cachorro.


O roteiro força um pouco a barra ao apresentar um homem gravemente doente decide se mudar justamente para uma casa cercada de mistérios — e, mesmo percebendo que há algo errado, resolve ficar. Ainda mais estranho é saber que todas as famílias que viveram ali tiveram finais trágicos, com mortes prematuras e sempre na companhia de seus cachorros. Essa escolha soa forçada e pode causar certo estranhamento, já que o comportamento do personagem nem sempre faz sentido dentro da própria história. Mesmo assim, quem embarca na proposta consegue aproveitar o suspense e o clima sombrio que o filme constrói com eficiência.


O Bom Menino se destaca por unir sensibilidade e terror de uma forma pouco comum no gênero. Ao colocar um cachorro como verdadeiro herói da trama, o filme vai além dos sustos e constrói uma história sobre lealdade, empatia e a solidão de quem enxerga o que os outros se recusam a ver. Apesar de algumas decisões de roteiro soarem forçadas, a obra compensa com uma direção envolvente, um clima tenso e uma perspectiva original que desperta emoção. É um terror que dialoga com o coração — e prova que, às vezes, o olhar mais puro é também o que melhor entende o medo.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Telefone Preto 2 - Do Suspense Psicológico para a Hora do Pesadelo

Telefone Preto 2 | Universal Pictures

Pesadelos assombram Gwen, de 15 anos, enquanto ela recebe chamadas do telefone preto e tem visões perturbadoras de três rapazes sendo perseguidos em um acampamento de inverno. Com a ajuda de seu irmão, ela deve agora confrontar um assassino que se tornou ainda mais poderoso na morte.

O Primeiro Telefone Preto seguiu a linha do suspensa psicológico, centrado em um garoto sequestrado por um assassino em série. Com elementos sobrenaturais, o protagonista encontra um telefone antigo em seu cativeiro, o que lhe permite se comunicar com as vítimas anteriores do criminoso e, assim, tentar escapar. No segundo filme da franquia, a história se expande, mas mantém algumas semelhanças com o primeiro. O telefone não está mais no cativeiro, mas sim em uma cabine telefônica, localizada em um acampamento onde o protagonista, Finney, vai com sua irmã, Gwen. Ao contrário do primeiro filme, Finney não está preso, mas a tensão permanece. A principal novidade é que Gwen, irmã de Finney, começa a ter pesadelos premonitórios sobre o assassino, o que faz lembrar o clássico A Hora do Pesadelo. Ela também corre o risco de morrer na vida real caso morra em seus sonhos, criando um paralelismo com os eventos que envolvem o assasino e seu irmão.

Embora o filme traga algumas boas ideias e a continuidade dos elementos sobrenaturais que funcionaram no primeiro, a sequência não consegue replicar a tensão psicológica que fez o original tão eficaz. Apesar da premissa do telefone ter mudado, o desenvolvimento do mistério se arrastar um pouco mais do que no seu antecessor. A comparação com A Hora do Pesadelo é interessante, especialmente pela dinâmica dos pesadelos premonitórios, mas, no geral, o filme falha em aproveitar plenamente o potencial da trama. Isso faz com que a sequência se sustente mais por nostalgia e elementos familiares do que por inovação.

No primeiro filme, o foco estava no protagonista, Finney, que era a principal vítima do sequestrador. Gwen, embora tivesse um papel relevante, era mais uma figura de apoio — a irmã caçula que buscava pistas sobre o desaparecimento do irmão. No entanto, em Telefone Preto 2, gostei de ver uma expansão signficativa de seu papel. Agora, ela não é apenas uma personagem secundária, mas uma parte fundamental da trama. Além de continuar sendo uma presença importante na busca por Finney, Gwen também se vê em perigo, pois seus pesadelos premonitórios a colocam em risco, ampliando ainda mais a tensão e o suspense da história. Esse aprofundamento no papel de Gwen traz uma dinâmica mais interessante, especialmente porque ela deixa de ser uma mera coadjuvante para se tornar uma protagonista no enfrentamento do assassino. A sequência acerta ao dar a ela mais espaço, equilibrando a narrativa e oferecendo uma perspectiva adicional sobre a ameaça que paira sobre os personagens. Essa ampliação da trama, ao mesmo tempo em que mantém o suspense, torna o filme mais envolvente e menos centrado apenas no sofrimento de Finney, o que traz um ar de frescor e evolução ao enredo.

Nos sonhos de Gwen, a alteração da estética da câmera, dando-lhe a aparência de um filme antigo, quase como se estivesse sendo visto através de uma lente embaçada ou desgastada. Esse recurso visual não só cria uma distinção clara entre os mundos oníricos e reais, mas também intensifica a atmosfera de mistério e tensão dos pesadelos de Gwen. A escolha de simular esse estilo "retrô" remete a filmes clássicos de terror, estabelecendo uma conexão com o gênero de forma sutil e eficaz. Quando os sonhos terminam e Gwen retorna ao mundo real, a câmera volta ao seu formato habitual, o que reforça ainda mais a ideia de que, nos momentos em que ela está dormindo, está em uma realidade completamente diferente — mais distorcida e perigosa. Essa técnica é habilidosa porque não só serve a uma função narrativa, mas também contribui para a construção da tensão emocional e visual da história. Ao longo do filme, essa mudança estilística ajuda a mergulhar o espectador na experiência de Gwen, tornando seus pesadelos ainda mais palpáveis e imersivos.

Telefone Preto 2 expande a história do primeiro filme, mas, embora traga algumas novidades interessantes, não consegue capturar a mesma tensão psicológica que fez o original tão impactante. A principal adição, que é o aprofundamento no papel de Gwen, funciona bem em termos de dar à personagem mais relevância e complexidade, mas o desenvolvimento do mistério acaba sendo mais arrastado do que no primeiro filme. A inclusão dos pesadelos de Gwen, é um bom toque, mas não consegue gerar a mesma sensação de desespero que o cativeiro de Finney proporcionava.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Love Kills (2025) - Anjos da Noite na Cracolândia não surte efeito

Love Kills (2025) | Filmland International


Como diria Lady Gaga, na era The Fame Monster, este filme me deixou "speechless"...

Love Kills (2025) é o primeiro longa-metragem da diretora Luisa Shelling Tubaldini, que produziu diversos projetos como Qualquer Gato Vira-Lata (2011), O Vendedor de Sonhos (2016), Divórcio (2017) e Motorrad (2017), e é uma adaptação do quadrinho de mesmo nome de Danilo Beyruth, lançado pela Darkside em 2019. A história trata de vampiros vivendo no centro de um grande centro urbano brasileiro. Portanto, uma adaptação potencialmente queer de uma obra de uma editora de certa importância no gênero terror apresenta-se como uma proposta interessantíssima.

Mas como preconiza a letra da Vera Fischer Era Clubber, ao som da voz de Crystal: "Eu sem depressão, sou uma outra proposta..."  E por mais que a citação ao lado seja uma piada interna deste crítico, realmente o que foi proposto não chega ao resultado final de pé (ou com cabeça) e "depreciativo" aos meus olhos.

No centro de São Paulo, devastado pelo crack, uma vampira, Helena (Thaís Lago), assombra um café sujo, cativando um garçom ingênuo, Marcus (Gabriel Stauffer). À medida que ele descobre os segredos dela, assim como o submundo da cidade, passa a ser atraído para um mundo perigoso de intrigas imortais, liderado por um "ex" comparsa dela, Leander (Erom Cordeiro).

O lado positivo dessa experiência é que Tubaldini tem um ótimo olho para fotografia e iluminação das cenas compostas aqui e, além disso, tem as referências de obras vampirescas do cinema na ponta da língua, recriando um estilo neo gótico Y2K que foi popular em filmes dos anos 90 e 2000 como Matrix (1998-2001) e, muito especialmente, a franquia Anjos da Noite (Underworld, 2001-2016). 

Tal como as personagens de Kate Beckinsale e Scott Speedman, no primeiro filme da franquia, há a mesma dinâmica em que um humano mortal acaba entrando no meio de um submundo no qual o desconhece, a ingenuidade de Marcus equivale ao fascínio. Em uma trama em que Helena, uma vampira milenar, deveria assumir o protagonismo, o filme foca mais na personagem masculina e em seus dilemas como um ex-enfrator que recomeça sua vida em um emprego de merda. Porém, tal figura do outsider, seja bem batida a esse ponto (péssimas recordações de quando assisti Eu, Frankenstein nos cinemas séculos atrás...), mais atrapalha do que a ajuda a progressão narrativa.

Se a personagem de Marcus seria o único elo entre o filme e a Cracolândia Paulistana, honestamente, é um desperdício de ambientação. Apesar de ser uma realidade social bastante proeminente no município, a Cracolândia é vista - na verdade, o centro histórico de São Paulo no geral - como um ambiente dispensável, usada por razões puramente estética do que uma grande personagem espacial. 

Existe uma correlação entre o vampirismo e da decadência e o estar à margem da sociedade (este último um tema bastante recorrente e presente nas vivências queer) que, surpreendentemente, é mal feita e em detrimento de plot points que a equipe criativa julga mais essenciais. Há figuras representativas da comunidade no longa, por mais que sejam tão acessórios e mal utilizadas. Do que adianta ter une vamprie chefe não-binarie cheio da grana e de atitude, se o roteiro trata esta personagem como figurante de luxo? Pessoas e personagens LGBTQIAPN+ e periféricos precisam sim ocupar espaços e narrativas. Exemplos não faltam, bons inclusive. Esse não é um deles.

Por mais que a história tenha referências ao lore vampiresco, a obra falha em justamente dar a sua própria versão da mitologia da figura do vampiro, há muitos diálogos expositivos e falas vagas, as regras e as relações do submundo são quase inexistentes. O pior que é o expectador nunca sabe o certo retraduzir os acontecimentos do filme de forma inteligível, afinal como Helena transformou e deu poderes a Leander? Qual é o propósito desse vilão gostoso?  (Sério, Erom Cordeiro caracterizado numa mistura anacrônica de Conde Orlok com Drácula de Lugosi me deixou interessado, em um personagem que só aprece nos últimos dez minutos e... vocês já sabem o resto.) 

Há claramente ruídos no roteiro e a direção é engessada. Para ser caridoso com a diretora, não sei se ela ficou refém do material de partida ou de uma visão mercadológica para uma visibilidade financeira e comercial da produção; afinal, o filme será distribuído pela Warner no ano que vem. No entanto, o filme é limpo demais para ser trash, se leva muito a sério para ser camp, possuí uma estética acima de substância, e impessoal demais para que seja uma reflexão ou metáfora para os espectadores.

Em suma, Love Kills é uma tentativa de cinema comercial brasileiro, com potenciais promissores, mas que nunca são entregues por uma narrativa sem atmosfera e personalidade sedutoras, deixando de sublinhar os pontos de interesse do gênero do horror e da ação. Um estética que vende algo que não é. Um banquete mofado trancafiado no armário. 

Logo... "what doesn't kill you, makes you stronger?" Hum... não sei. 

Te deixa anêmico? Talvez.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 27o Festival do Rio, realizado em 2025.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

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