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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Os Assassinos (1964) - O Parasitismo Capitalista Pintado com Sangue e Luz

 

Os Assassinos | Universal Pictures

A obra de Don Siegel é um remake do filme de 1946, dirigido por Robert Siodmak e estrelado por Burt Lancaster. Em ambas as obras, existe uma resposta direta sobre a situação dos Estados Unidos em seus respectivos momentos. Enquanto a versão de 1946 é um filme Noir que carrega o pessimismo de uma era de violência que tomava conta do país e sobre a desonestidade das relações humanas em um momento de incertezas por conta da pós Segunda Guerra Mundial e entrando na Guerra Fria, a versão de Don Siegel apresenta uma versão onde a violência aqui se apresenta mais visceral e sem rodeios. Siegel é tão certeiro no que queria dizer, que não esperou 10 minutos para matar um dos personagens de melhor índole naquele cenário. 

Nossos protagonistas são 2 homens, o mais experiente e com mais idade, Charlie Strom(interpretado pelo ator Lee Marvin), e seu parceiro, um jovem sádico chamado Lee(interpretado pelo Clu Gulager). Quando ambos fazem o trabalho que foi pedido, matar um homem que fugiu com 1 milhão de dólares de um assalto em uma casa de assistência para pessoas cegas, nosso protagonista mais experiente fica perplexo em perceber que tal figura não fugiu e nem esboçou nenhuma reação quando viu ambos personagens com suas armas apontadas para ele e prontos para disparar. 

Esse homem, Johnny North(interpretado pelo ator e diretor John Cassavetes), nossa primeira vítima do filme, é a representação perfeita do cidadão norte americano cansado das promessas de uma vida promissora e de um amor honesto, sua jornada em cima de fashblacks contados por aqueles que estavam com ele nos últimos momentos, mostram seu cansaço em até tentar pensar em se salvar diante os homens armados. North é a imagem perfeita do cansaço do cidadão comum dentro do Sonho Americano. 

Enquanto a jornada de Lancaster no filme original, mostra uma história linear que no final tem a reviravolta de uma traição, Siegel aqui decide seguir um caminho completamente oposto. Esquece o Noir, nossa narrativa acontece 90% do tempo à luz do dia, filme completamente colorido e com o sangue a mostra. Enquanto o filme original é uma resposta de uma época corrupta e violenta dos Estados Unidos, Don Siegel faz uma versão onde tudo isso resulta em uma hipocrisia dentro de um cenário estético. Anos 60, começa uma revolução cultural e social, Nova Hollywood e a era dos hippies, além da grande leva de pessoas sendo contra a guerra do Vietnã, e é exatamente por conta disso que Siegel decide seguir sua linha estética. 

Produções Hollywoodianas imensas e recheadas de cores, junto com muito carisma e dança, completamente desproporcional ao que o povo Americano vivia. A violência, a corrupção e o desemprego voltavam a ficar em alta e o Sonho Americano se encontrava completamente desbotado. Siegel mostra a violência pairando todo o país com dois personagens sem escrúpulos e certos de que a violência é a melhor resposta para todas as ocasiões. E oque faz a tensão do filme chegar ao ápice é saber que eles não se encontram sozinhos na forma de agir. Os personagens funcionam em sua maioria parasitando aquele que for de melhor serventia, e aqueles com um pingo de humanidade são mortos, ou e afogam em um alcoolismo enrustido, como o caso do amigo e parceiro de trabalho de North, o mecânico Earl(interpretado pelo ator Claude Akins). 

Quando chegamos na conclusão da obra, todos foram aniquilados em sua maioria. Nosso assassino mais experiente carrega a mala de dinheiro com todas as suas forças, invés de tentar ter forças para ficar em pé, ele a coloca por inteiro em seus braços. Charlie se rasteja com um pouco de ajuda de suas pernas em movimento com o sangue que o faz escorregar, até ele desistir de sua arma e conseguir se levantar com a mala. Infelizmente, no momento que ele começa a caminhar, o som de uma viatura policial se aproxima, seu corpo começa a rodopiar até cair morto por completo com a maleta aberta e com o dinheiro voando. Nessas últimas cenas, Siegel cumpre sua promessa com a primeira cena da violência e da morte como ciclo vicioso e sem piedade. Novatos e experientes, todos se encontram no mesmo barco que se afunda e sem esperança enquanto a solução for quem vai levar mais em meio a tormenta. 

Don Siegel mostra o retrato da cobiça e da decadência do capitalismo dentro das relações sociais e afetivas entre seres humanos lutando e sugando até a última gota do que poderia sobrar e humanidade para sobreviver em tal cenário. E para aqueles que não suportam viver nessa mentira em cores, só espera o inevitável chegar sem fugir, e sem lutar. North é a resposta da bondade humana em exaustão. 

TEXTO DE ADRIANO JABBOUR 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Five Nights At Freddy´s 2 - Cinco Noites, Muitos Sustos e Zero Paz de Espírito

Five Nights At Freddy's 2 | Universal Pictures 


‘Five Nights At Freddy’s 2‘, sequência do maior sucesso da história da Blumhouse, traz Mike, Abby e Vanessa tentando encontrar uma maneira de sobreviver por mais cinco noites quando um novo grupo de animatrônicos sai da pizzaria e causa o caos na cidade.


O filme se passa um ano após os eventos do longa anterior. Mike, ainda carregando as marcas do passado, tenta seguir em frente. Antes frio e retraído pela dor de ter perdido seu irmão caçula, ele agora demonstra um amadurecimento tocante — fruto da convivência com Abby, que, mesmo sem perceber, o ajuda a reencontrar partes de si que acreditava ter perdido. Abby, por sua vez, sente a ausência dos animatrônicos que passou a ver como amigos. Para ela, aqueles laços eram mais do que simples encontros; eram fontes de conforto em meio à solidão. Seu desejo de revê-los nasce de um coração que busca companhia e compreensão. Mike, porém, teme por ela. Carrega o medo constante de que algo possa machucá-la, mesmo enquanto tenta ser o irmão carinhoso e presente que ela merece. O filme explora com delicadeza esse conflito — o amor cuidadoso de Mike, a sensibilidade de Abby e a complexidade dos laços que conectam ambos ao passado. 


Vanessa também carrega seus próprios traumas, profundamente ligados ao passado ao lado de seu pai, William Afton. As lembranças dolorosas e a influência emocional que ele exerceu sobre ela ainda ecoam em sua mente, surgindo em forma de ilusões que, em diversos momentos, a tiram do foco e interferem em sua rotina diária. Apesar disso, o filme apresenta a trajetória de Vanessa com muita sensibilidade, evidenciando não apenas sua vulnerabilidade, mas também sua coragem silenciosa. Ela luta constantemente para não ser definida pelo peso de sua história, buscando recuperar sua autonomia emocional e construir um caminho mais saudável para si mesma. Essa abordagem dá profundidade à personagem, valorizando sua resiliência e mostrando como, mesmo cercada pelas sombras do passado, ela segue tentando encontrar luz.


O filme anterior parece que abandonou muito o lado terror, aqui o terror está presente e conseguindo render muitas cenas de sustos. O novo animatrônico chamado de “O Fantoche”, que nos jogos já me dava muito medo, aqui no filme não é diferente. O animatrônico é assustador por sua aparência inquietante e seu comportamento silencioso. Ele é alto e esguio, com membros longos e movimentos fluidos que parecem antinaturais. Seu rosto branco, marcado por “lágrimas” roxas e olhos completamente negros, transmite uma frieza perturbadora. Ele não caminha — desliza, surgindo sem aviso. A combinação de silêncio, olhar vazio e presença quase sobrenatural faz do fantoche uma das figuras mais ameaçadoras e desconfortantes da franquia.


Five Nights at Freddy´s 2 se destaca por unir emoção e terror de forma mais equilibrada do que o primeiro filme. A trama aprofunda seus personagens, mostrando que os monstros não estão apenas do lado de fora, mas também dentro das dores e memórias que cada um carrega. Mike, Abby e Vanessa formam um trio marcado por traumas diferentes, mas conectados pela vontade de seguir adiante, mesmo quando o passado insiste em persegui-los. Ao mesmo tempo, o filme resgata o horror característico da franquia, entregando sustos eficientes e criaturas realmente perturbadoras, como o Fantoche. O resultado é uma continuação mais madura e mais sombria — uma história que assusta, mas também toca, mostrando que, para sobreviver a cinco noites, às vezes é preciso enfrentar não apenas os animatrônicos, mas os próprios fantasmas internos.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.





terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim: O verdadeiro terror é perceber que os animatrônicos assustam menos que a vida adulta de Mike.

Five Nights at Freddy's | Universal Pictures

No Freddy Fazbear's Pizza, robôs animados fazem a festa das crianças durante o dia. Quando chega a noite, eles se transformam em assassinos psicopatas.

Eu nunca fui profundamente familiarizado com toda a lore de Five Nights at Freddy´s, mas acompanhava muitos gameplays no Youtube em 2014, época em que o jogo explodiu em popularidade na plataforma. Cheguei até a jogá-lo, embora sempre com bastante receio — afinal, os jumpscares dos animatrônicos são inesperados e realmente dão aquele susto clássico. Quanto ao visual do protagonista, Michael Schmidt, o jogo não revela sua aparência, o que reforça o mistério e a imersão do jogador. Já na adaptação cinematográfica, ele recebe uma caracterização clara e definida. Essa diferença evidencia como cada mídia escolhe explorar o personagem: o jogo aposta no anonimato e no suspense, enquanto o filme destaca sua humanidade e vulnerabilidade. Como toda adaptação para o cinema, foi necessário ter uma trama e de uma identidade visual.

A história segue Mike Schmidt, um segurança que, após ser demitido, aceita trabalhar como vigia noturno da abandonada Freddy Fazbear´s Pizza para evitar que sua irmã mais nova, Abby, seja colocada sob custódia da tia deles. Ao longo das noites, Mike passa a ter pesadelos recorrentes sobre o desaparecimento de seu irmão, enquanto descobre que o local guarda segredos perturbadores ligados a crianças que desapareceram nos anos 1980. Conforme Mike se aprofunda no mistério, ele percebe que os animatrônicos do restaurante parecem estar vivos e têm uma conexão direta com os acontecimentos sombrios do passado. Entre proteger Abby e desvendar a verdade, Mike acaba envolvido em uma trama que mistura trauma, memórias e fenômenos inexplicáveis. O filme equilibra cenas de suspense com momentos de sensibilidade, criando um protagonista mais relacionável do que em seu material original. 

Mike é um personagem marcado por dor e responsabilidade, alguém que carrega mais peso emocional do que consegue expressar. Sua aparente frieza é, na verdade, um mecanismo de defesa construído após anos de culpa e trauma. Ele vive dividido entre o cansaço que o consome e a necessidade quase desesperada de proteger quem ama, especialmente Abby. Impulsivo em momentos de tensão, mas profundamente justo, Mike revela uma sensibilidade silenciosa: mesmo ferido, continua tentando fazer o certo. Sua personalidade é a de alguém que aprendeu a sobreviver, mas ainda busca uma forma de viver — e, acima de tudo, de encontrar paz para si e para sua irmã caçula.

O filme parece se esquecer do próprio gênero ao qual se propõe, deixando de lado justamente a essência que tornou o jogo tão popular. É importante dizer com clareza: Five Nights at Freddy´s se destacou por seus sustos, jumpscares e pela atmosfera de terror — elementos que, na adaptação, acabam ofuscados por uma narrativa focada novamente no tema do luto, apenas ambientada no universo da franquia. Pensando bem, não consigo lembrar de nenhum momento em que realmente senti medo durante a sessão.

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim acerta ao humanizar seus personagens e dar profundidade emocional à jornada de Mike, mas acaba se afastando daquilo que definiu a identidade da franquia nos jogos. Embora apresente elementos visuais marcantes e uma trama acessível ao público geral, o filme deixa a desejar no aspecto mais esperado: o terror. A falta de tensão genuína e de momentos realmente assustadores enfraquece a experiência para quem buscava reviver o clima inquietante do jogo. Ainda assim, a obra tem seu mérito ao propor uma leitura mais dramática e sensível do universo, mesmo que isso signifique sacrificar parte da essência que tornou FNAF um fenômeno cultural.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.





Bugonia (2025) reina entre a farsa e o trágico

 

Bugonia (2025) | Universal Pictures

Nos primeiros minutos do ecrã, uma voz explica ao espectador o porquê da polinização ser extrema importância para a sociedade, enquanto vemos imagens de abelhas realizando este ato.  

Elas são, de acordo com o verbete Caldas Aulete, “insetos himenópteros que se dividem em sociais, solitárias e parasitas, sendo as sociais as que produzem mel em abundância.” A relação entre as abelhas sociais e sua abelha-rainha é posta como um paralelo com as dinâmicas interpessoais entre humanos: o proletariado e a burguesia. Porém, por causa da ganância e de uma transformação rápida do mundo que abusa dos recursos naturais e libera resíduos químicos, a população de himenópteros, e, consequentemente, a polinização, diminui. A longo prazo, isso pode ter um efeito catastrófico para a humanidade.

Esse é um problema bem real, inclusive para uma narrativa que parte do mundo concreto para o campo do absurdo. É assim que começam os primeiros minutos de Bugonia (2025), o nono longa-metragem do diretor grego Yorgos Lanthimos, retomando a parceria com a Emma Stone e o Jesse Plemons de seu  projeto anterior, Tipos de Gentileza (2024). Esta nova empreitada é, na verdade, um remake de um filme coreano lançado em 2003: Salvem o Planeta Verde! A obra de partida foi lançada em período em que o cinema coreano e alguns de seus diretores mais populares, como Park Chan-Wook e Boon Joon-Ho, começaram a ser exportados para o ocidente e a fazer sucesso internacional. E o filme de 2003 se tornou um clássico cult contemporâneo para o público ocidental. 

A trama do original é bem parecida com recriação feita por Lanthimos e sua equipe: um jovem conspiracionista sequestra um grande executivo farmacêutico na suspeita deste ser um alienígena que planeja uma invasão de larga escala. O laço entre os dois fica cada vez mais estreito quando é revelado que este homem tem relação com uma tragédia familiar na vida deste jovem, em particular. 

O diretor do filme original, Jang Joon-Hwan, esteve envolvido nos estágios iniciais de pré-produção, quando o remake foi anunciado em 2020; mas se afastou devido à problemas de saúde, ficando com o título de produtor executivo desta nova versão. O anúncio de Yorgos Lanthimos como diretor da produção veio no início de 2024, no que Jang achou uma escolha apropriada ao projeto, pois o estilo do realizador grego conversava com a narrativa e seu tom de extremos. 

O Bugonia de Lanthimos não foge da premissa base, mas adiciona um tempero a mais à mistura. Teddy Gatz (Jesse Plemons) é um trabalhador de uma linha de distribuição de uma grande farmacêutica, no meio-oeste americano. Levado a acreditar em teorias da conspiração, após uma tragédia familiar, ele acredita que uma raça de alienígenas se infiltrou no planeta terra para acabar com todas as formas de vida que existem. E a CEO do conglomerado em que trabalha, Michelle Fuller (Emma Stone), seria na verdade uma Andromedana disfarçada. Com a ajuda de seu primo, Don (Aiden Delbis), ele sequestra e aprisiona Michelle no porão de sua casa para impedir uma possível invasão e, portanto, evitar a extinção humana.

Se, na obra fonte, há uma demarcação clara entre o bem e mal, aqui temos o encontro, com seus valores dúbios, das duas piores pessoas que você vai encontrar na sua vida: um conspiracionista com tendências sociopatas e uma girlboss industrialista, uma mistura de Jeff Bezos e Virgínia Fonseca (para abrasileirar as referências), que explora de forma cruel a sua classe operária. Existe uma dualidade na relação das personagens: "será que existe mesmo um alienígena entre nós ou será que estamos acompanhando uma sessão de tortura de um serial killer?" Esta sensação se repete aqui, agora em um cenário estadunidense. 

Por mais que Teddy passe por todos os espectros políticos, ainda há um resquício de um comportamento “redpill” pela maneira em que a personagem se porta em cena; principalmente, a caracterização suja e descuidada de Plemons flerta com essa imagética (ele emana uma energia de um jovem Willem Dafoe desligado). Enquanto que Fuller tenha uma aparência mais normalizada, ela demonstra ser uma pessoa fria e calculista, que sempre teve a vantagem a seu favor. Uma abelha-rainha em prol do capital, que se protege atrás uma máscara de falsa progressista explorando seus funcionários até a exaustão.

Enquanto a versão coreana tem uma variedade de tons e de gêneros interconectados entre si e de forma bastante intensa, Lanthimos diminui um pouco o volume dos diversos tons para construir algo que sabe fazer de melhor: arquitetar um senso trágico, de que algo ruim está prestes a acontecer. Um outro filme de sua filmografia que dialoga com este projeto, em termos de escopo, é O Sacrifício do Cervo Sagrado, lançado em 2017. (Inclusive a paleta do design de produção.)

Em ambas as obras, temos a hybris da classe burguesa que afeta a vida do proletariado, levando a uma retaliação do por parte do(s) oprimido(s) [Fun fact: a atriz Alicia Silverstone está presente nos dois filmes e, em ambos, faz o papel da mãe da personagem “pobre”]. Em Bugonia, a hybris existe, mas ela se torna cada vez mais ambivalente e o público se pergunta quem será o causador dos infortúnios: Michelle, com seu comportamento arrogante e testes farmacêuticos capazes de destruir vidas ou Teddy, ao deliberadamente sequestrar e torturar uma pessoa, que causou diretamente um mal para ele, em prol de um ativismo bastante radical?

O mundo aqui é palpável e verossímil, a princípio parece um ambiente “normal”, mas a situação e a sucessão de acontecimentos que a narrativa desenvolve se calca no absurdo, que foge dessa sensação mundana em que o filme nos apresenta de início. Na verdade, nada é, de fato, normal. A disrupção de uma rotina banal para a algo extraordinário, digamos assim, nos mostra, como humanidade, a relativização de ações exploratórias cristalizada na normalidade. Se alguma empresa causa algum desastre natural, ou hospitaliza pessoas, para fins lucrativos, o caso é facilmente acobertado e não há nenhuma represália por parte da sociedade (O desastre de Brumadinho causado pela ganância da Vale me vem à memória, por exemplo). Portanto, existe algo de catártico e conturbado para o público se identificar com a personagem de Plemons.

Além disso, o realizador grego dimensiona Teddy, para além do proletariado conspiracionista, uma persona trágica: é revelado que ele sofre com a hospitalização da mãe, causada pela empresa de Michelle, e também que foi vítima de abuso (que pode ser tanto física, quanto psicológica ou sexual pelo pouco que sabemos) na juventude pela sua babá, Casey, que agora é o xerife local (Stavros Halkias). Aos poucos, temos vislumbres da personalidade complexa e do páthos da personagem, mas, ao mesmo tempo, isso contribui para a dúvida de seu caráter: será que ele tem razão sobre Fuller e a conspiração andromedana ou será que vive uma em fantasia traumática e busca um final para esse ciclo?  

Apesar do trágico, o filme possui um humor que se demonstra bem sutil, mais do que sua contraparte coreana que é extremamente marcada, seja pela situação ou conflito entre classes. O roteiro de Will Tracy também tem um humor bem ácido e marcado, até mesmo o usa para aliviar a tensão em tela. Mas a escolha de não exagerar nessa marcação foi feita para valorizar o trabalho e a performance de Stone e Plemons; são dois atores gigantes que, aqui, estão em lados opostos e em pé de igualdade. A forma em que sustentam os diálogos e ações de suas respectivas personagens funcionam como um fio condutor da narrativa, deixando a trilha sonora de Jerskin Fendrix somente nos momentos de explosão e ápice emocional. 

A combinação entre a farsa e o trágico, a paródia e o suspense, funciona de forma harmônica durante as duas horas de duração. Vemos uma partida de xadrez entre lados extremos em jogo. A cada passo, e mais peças saem do tabuleiro, mas ainda há uma dúvida que paira no ar e só é respondida quando esta termina. Conhecido como um cineasta que “inaugurou” uma nova estranha onda no cinema grego, Lanthimos flerta com o cinema comercial e uma abordagem estética, próxima de seus projetos experimentais; o que faz sentido em onde ele se encontra artisticamente: entre o seu longa mais comercial (Pobres Criaturas, 2023) e sua volta às raízes ao experimentalismo (Tipos de Gentileza, 2024), ou seja, um meio termo criativo.

O diretor conserva o sabor agridoce oriundo da obra base, porém, desenvolve a sensação de desamparo e a falha das relações interpessoais, administradas dentro de um sistema capitalista, com um pouco mais de escárnio. Há algo de viscoso sobre a obra que atravessa na fotografia de Robbie Ryan, a poeira, a sujeira, o insípido, a escuridão que traduz uma sensação que seja assustadora quanto falida. Algo engraçado e desesperado vem por aí. E de fato, a ironia impregnada pela conclusão da obra a lança no gênero filme-piada, como Tár (2022) e Segredos de um Escândalo (2023), que tem entrado em evidência no circuito norte-americano nos últimos anos.

Acredito que o maior trunfo do filme, neste momento, dentre várias categorias que podem ser citadas aqui, seja de recriar a essência de sua fonte base, atualizando o texto para um novo contexto cultural, ambiental e geopolítico. É uma mistura agridoce, de caminhos tortuosos e de caráter duvidoso, que mostra a grandeza das pequenas tragédias humanas e escancara as relações de poder interpessoais pela acidez que só o cinema de Lanthimos proporciona. O tipo de filme que é impossível de desviar o olhar, sequestrando a atenção do espectador até o fim. Agora fica a questão: será que a Chappell Roan faria sucesso em outras galáxias? 

Well... Good Luck, Babe

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Anônimo 2 (2025) - Recalcula a rota

Anônimo 2 | Universal Pictures


Nem todos os filmes são considerados de primeira classe e está tudo bem. Nós, como espectadores, precisamos ver filmes B para distrair a cabeça ou ajudar na nossa dissociação diária. E tal como os filmes prestigiados, filmes B, seja de qualquer gênero narrativo, tem o seu valor. Porém o maior pecado que pode acometer uma produção desse porte é uma crise de identidade. Esse foi o caso do primeiro filme da franquia Anônimo, estrelado por Bob Odenkirk.

O longa-metragem foi lançado em 2021, durante o período de reabertura dos cinemas por causa da Covid-19. A produção tem o dedo da 87North, a mesma produtora da franquia John Wick: Derek Kolstad assina o roteiro e David Leitch, junto com Odenkirk, assume o cargo de produtor.

A premissa é clara. Um zé ninguém vive sua vidinha pacata junto de sua rotina entediante. Ele está preso em um ciclo sem fim. Quando um roubo acontece em sua casa e todos o veem como um pateta, esse mesmo homem acaba se envolvendo, em episódio de raiva, numa briga com um bando de jovens russos arruaceiros dentro de um ônibus. A partir desse ponto, nós, enquanto audiência, descobrimos que ele é um ex-agente e assassino da CIA com “habilidades especiais” e um dos jovens, que fica gravemente ferido, é o filho de um chefão da máfia. E esse mafioso vai querer retribuir o favor…

Se fizermos um exercício de memória coletiva e lembrarmos da sinopse do primeiro filme de John Wick, a premissa é quase idêntica.  Porém, ao invés do viúvo atlético de Reeves, temos a personagem de Bob Odenkirk, que é tratado pelo filme como um homem emasculado; principalmente pela sua esposa, que assume um papel mais ativo na família: há um plano muito específico no início do filme que marca essa posição de superioridade e inferioridade entre o casal. No entanto, apesar de ser bastante direto ao ponto, o roteiro de Kolstad se demonstra muito empobrecido de nuance com suas personagens. Quer tocar em uma psicanálise que nunca chega ao ponto que deseja. E a direção não ajuda muito com tom frio e seco, diminuindo o humor e a ironia presente no trabalho do roteirista. 

O primeiro filme tinha alguns planos e sequências interessantes, mas flertava com a cultura incel e deixou um gosto reacionário, bem amargo na boca. Era um lado B de John Wick, mas sisudo, sem o olhar que eleva a franquia rival. Mas, para a felicidade de todes envolvides, a produção foi bem de crítica e de público e Bob Odenkirk tinha agora uma franquia de ação para chamar de sua. E quatro anos após, veio a sequência do longa de 2021.

Dirigido por Timo Tjahjanto, Anônimo 2 (2025) acompanha Hutch Mansell (Bob Odenkirk), após voltar a trabalhar como assassino profissional, em sua nova rotina. Seu retorno à essa linha de trabalho se dá pela dívida que contraiu do submundo no episódio anterior. Ele e sua esposa, Becca (Connie Nielsen), estão sobrecarregados e a distância que havia entre eles voltou e está os separando novamente. 

Ao sentir que o seio familiar está cada vez mais desunido, Hutch decide levar a família toda a uma cidadezinha, em que há um parque temático, para uma pequena viagem de férias. É um local em que ele teve ótimas lembranças com o pai (Christopher Lloyd) e o irmão (RZA). No entanto, quando um encontro trivial com valentões locais, Hutch coloca a família na mira do dono do parque (John Ortiz), um xerife corrupto (Colin Hanks), e uma chefe do crime (Sharon Stone).

Se o primeiro filme é uma criação de uma nova franquia de ação, este segundo serve mais para fazer a manutenção das ideias do que expandir a narrativa à diante. O roteiro de Kolstad, que retorna para o projeto, usa da fórmula da obra anterior de novo: rotina incansável, relação entre Hutch e Becca instável, um evento que quebra a rotina da família, Hutch se envolve em um conflito violento, os antagonistas vão atrás do assassino em um vai-e-volta que culminará em um combate final à la “Esqueceram de Mim”...

Porém, com o tempo vem a sabedoria. Kolstad consegue, mesmo dentro de sua idiossincrasia já estabelecida, recalcular a rota. Aqui, temos uma narrativa que emula as tramas clássicas de filmes de ação dos anos 80 e 90, como a de um forasteiro que acaba criando uma rusga com os valentões de uma cidade do interior; e abraça um viés absurdista de sua situação, dando tanto ênfase no humor quanto nos momentos de ação. Se essa qualidade estava nas entrelinhas do anterior, aqui está mais explícito.  O mundo masculino desse universo tem sua expressão carrancuda transformada em uma paródia de si. Tal mudança de tom é bem-vinda, já que se trata de uma fantasia cheia testosterona com requintes de violência e crueldade e seu herói, uma figura altamente capaz, porém, ao mesmo tempo, patética.

Tjahjanto, ao contrário de Ilya Naishuller, diretor do primeiro filme, abraça o lado galhofa da narrativa e não tem medo do filme ser considerado straight camp por parte dos espectadores. Além disso, a decupagem das cenas de ação é fluída, como sangue, e de forma mais consistente. O diretor consegue imitar o jogo de planos e os movimentos de câmera que são parte essencial de filmes de ação como a já mencionada franquia John Wick, pois põe em evidência o trabalho de performance dos dublês da produção. Lembrem-se que, antes de se tornar diretor, David Leitch era coordenador de dublês em várias produções de Hollywood, e claro que, em uma produção dele, não poderia faltar um competente trabalho neste quesito.

Os filmes da franquia Anônimo, em seu âmago, servem para catapultar Bob Odenkirk, ator cômico e dramático, como um astro do cinema de ação. Aos 62 anos, o ator demonstra, em ambos os longas, uma agilidade e condicionamento físico bastante disciplinado. Neste novo capítulo, o Hutch de Odenkirk está, de fato, completamente humanizado, admite que tem problemas de raiva, apesar do filme tratá-lo como uma máquina de matar; muito diferente da personagem mecanizada que havíamos conhecido anteriormente, mas tão vigoroso quanto outrora.

Christopher Lloyd e RZA, que fizeram pontas no longa de 2021, respectivamente, como pai e irmão de Hutch, voltam para esta nova parte e roubam a cena nos momentos em que aparecem. Já a personagem de Connie Nielsen é mais explorada aqui e possui uma agência maior do que no longa anterior. O relacionamento dela com Hutch se torna parte central da narrativa, pois  o desgaste de seu relacionamento é mútuo, e não mais unilateral. Eles estão na mesma posição, em lados espectros. Nielsen já havia expressado anteriormente que gostaria de revisitar e desenvolver a sua Becca e, aqui, ela consegue fazer isso.

Do novo elenco, destaco dois personagens: o xerife de Colin Hanks, uma pessoa mesquinha e de má índole, que antagoniza com Hutch logo à primeira vista. Tal antagonismo possuí (na minha leitura) um queer coding do modo em que os planos são decupados, os olhares perdidos, a agressividade hiper-masculina e irracional, a posição de figuras fálicas entre as personagens: o tipo de performance de gênero que dá volta e ganha outras conotações. 

E a mafiosa Lendina de Sharon Stone, que parece estar se divertindo em tela. Uma personagem deliciosamente camp: expansiva, debochada, desnecessariamente cruel e de vez em quando fica dançando e dissociando do absoluto nada. Ela manipula o dono do parque (que por algum motivo narrativo também o prefeito da cidade) a fazer parte de seu esquema de contrabando. A razão para isso? Porque ela gosta. Faz sentido? Não; mas quem se importa a esse ponto? Mesmo com o pouco tempo de tela, Stone tem o carisma para vender a ideia de sua personagem em segundos.

Apesar da produção deste longa-metragem ter feito a escolha segura e sem sair muito de sua zona de conforto, sem nenhum desenvolvimento de universo, o ângulo de sua mira é um pouco diferente, e talvez para melhor. Ao assumir a identidade de um filme B de ação, Anônimo 2 torna-se um filme divertido de se assistir, sem pretensões que o traía a longo prazo. Agora, pelo menos, é um filme com personalidade. Não se preocupe, o Hutch não vai atrás de você e queimar seu dinheiro, se discordar dessa opinião.


  Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Os Caras Malvados 2 - Redenção difícil, zoeira garantida.

Os Caras Malvados 2 | Universal Pictures

Os Caras Malvados estão lutando para encontrar confiança e aceitação em suas novas vidas como mocinhos quando são retirados da aposentadoria e forçados a fazer “um último trabalho” por um esquadrão do crime composto apenas por mulheres.

No filme anterior, o grupo principal era rotulado como malvado principalmente por conta do preconceito que sofriam por serem animais considerados naturalmente selvagens, perigosos e, portanto, indesejados pela sociedade. Essa marginalização os empurrou para uma vida criminosa, já que, independentemente de suas intenções, eles nunca foram verdadeiramente aceitos ou compreendidos. No entanto, mesmo após sua redenção e os esforços genuínos para se tornarem heróis e fazerem o bem, Os Caras Malvados 2 mostra que a sociedade ainda não está pronta para perdoar ou esquecer o passado deles. A desconfiança persiste, revelando que mudar quem você é por dentro nem sempre é o suficiente quando o mundo ao seu redor continua preso a estigmas e julgamentos antigos. Esse conflito reforça a mensagem de que, muitas vezes, a maior batalha não é contra vilões ou obstáculos externos, mas contra os preconceitos profundamente enraizados nas estruturas sociais.

Esse filme é outro exemplo de sequência que supera seu antecessor, elevando tanto o humor quanto a profundidade emocional dos personagens. Os Caras Malvados 2 mergulha mais fundo nos dilemas internos do grupo, mostrando como cada um lida com a tentação de retornar à antiga vida de crimes enquanto tenta se manter no caminho da redenção. O filme traz o humor ousado característico da DreamWorks, como já vimos em Shrek, por exemplo, na cena em que Shrek chega a Duloc, repara no tamanho da torre do Lorde Farquaad e faz uma piada insinuando que ele estaria tentando compensar alguma coisa. Em Os Caras Malvados 2, o tom é semelhante, especialmente na relação entre o Sr. Cobra e a Sina (ou Susan). Apesar de serem espécies diferentes — algo recorrente nos filmes do estúdio, como o romance entre Melman, a girafa, e Glória, o hipopótamo, em Madagascar — aqui a parceria romântica é entre uma cobra e uma ave. Uma das cenas que melhor exemplifica esse humor mais ousado é os dois se beijando de forma exagerada, com o Sr. Cobra envolvendo totalmente o bico dela com a boca. Em outro momento, durante uma missão em que estão invadindo um cofre, os dois se comunicam por rádio, e o Sr. Cobra faz uma piada com duplo sentido sobre "arrombar o cofre". A conversa acaba sendo ouvida pelo Sr. Piranha, que, chocado, interrompe e pergunta se eles estão mesmo falando do cofre. Enquanto o primeiro filme foi bem mais tímido com esse tipo de piada, aqui os roteiristas se mostraram claramente mais à vontade para ousar — e o resultado é um humor mais afiado, provocativo e divertido.

Aqui, a animação traz bem mais cenas de ação, ao contrário do primeiro filme, que, embora tivesse sequências incríveis — como a cena inicial dos Caras Malvados fugindo da polícia e a da Diane na prisão derrubando os guardas —, apresentava poucas cenas desse tipo. Já nesta continuação, a ação ganha muito mais espaço. Logo no início, há uma sequência ambientada anos antes, quando o grupo ainda era do mal, durante um roubo eletrizante. Além disso, destaca-se a cena da luta livre, em que eles tentam impedir o roubo de um cinturão, trazendo ritmo e intensidade à trama.

A animação continua sendo um verdadeiro espetáculo visual, mantendo a estilosa mistura de 2D com 3D. Há momentos de humor visual bem marcantes, como, por exemplo, quando um dos personagens, em completo desespero, aparece gritando com uma expressão exagerada — totalmente em 2D —, criando um contraste cômico e expressivo com o restante da cena.

Os Caras Malvados 2 consegue ir além do que se espera de uma continuação, entregando um filme que é ao mesmo tempo mais ousado, mais engraçado e mais profundo que o original. Ele não apenas expande o universo e desenvolve ainda mais os personagens, como também reforça temas relevantes sobre identidade, preconceito e aceitação. Com uma animação vibrante, cenas de ação mais intensas e um humor afiado que não tem medo de brincar com os limites, o filme mostra que é possível evoluir sem perder o charme do que veio antes. Seja pela estética marcante, pelas relações inusitadas entre os personagens ou pela crítica social embutida na trama, essa sequência prova que os "caras malvados" ainda têm muito a dizer — e fazer — no mundo dos heróis improváveis. 

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Jurassic World: Recomeço - Recomeço? Parece Mais um Replay Mal Programado

Jurassic World: Recomeço | Universal Pictures

Agentes habilidosos são enviados a uma instalação de pesquisa em uma ilha para recuperar DNA capaz de salvar espécies de dinossauros. Conforme a missão ultrassecreta se torna cada vez mais perigosa, eles acabam descobrindo um segredo sinistro que tem sido escondido do mundo por décadas.

A consagrada saga Jurassic Park deveria ter terminado no terceiro filme. Porém, buscando lucrar com a nostalgia, lançaram Jurassic World em 2015. O filme até consegue ser divertido e traz uma ideia interessante, mas sua execução deixa a desejar. Em 2018, veio a continuação, que, sinceramente, não me agradou. Já em 2022, foi lançado o terceiro filme dessa nova trilogia, que eu, honestamente, odiei — conseguiu ser o pior da franquia. E agora, em 2025, para espremer até a última gota da nostalgia, decidiram lançar mais um filme da franquia. Porque, claro, nada grita “inovação” como mais do mesmo: dinossauros correndo em CGI que já cansam desde os anos 90. Mesmo que a recepção seja negativa, é quase certo que o filme terá um bom desempenho nas bilheterias.

O filme começa em um laboratório, onde tudo dá absurdamente errado por causa de um inocente saco de doces que um funcionário distraído estava comendo — cena digna de Premonição. É aquele tipo de momento que já sinaliza o descuido com a lógica interna da história, uma brecha que poderia ter sido evitada com um mínimo de atenção ao roteiro. A partir daí, o caos é inevitável e se espalha rapidamente, como uma bola de neve desgovernada. Na sequência, o roteiro entra no piloto automático clássico da franquia: um milionário excêntrico aparece com seus planos duvidosos e motivações ambíguas, montando uma expedição que mais parece uma armadilha para os protagonistas. E, claro, não poderia faltar a inserção de crianças — porque, afinal, é um dos clichês mais batidos do gênero, um artifício para aumentar o apelo familiar, mesmo que não faça sentido no contexto da história.

Com a proposta de apresentar animais mutantes, o filme quase não mostra essas criaturas — e, quando aparecem, mal sabem o que fazer com elas. Até a ‘grande ameaça’ da vez, o temido D-Rex, parece ter saído de um brainstorm apressado, servindo apenas como figurante de vilão.

Em 2015, Jurassic World já admitia que o público aparentemente não se interessava mais por dinossauros “puros”, então decidiram inventar híbridos genéticos para tentar reanimar a atenção e o entusiasmo do público. A ideia até tinha potencial para explorar questões éticas sobre manipulação genética e os perigos da ciência descontrolada, mas, no final das contas, serviu apenas como um artifício para criar monstros maiores, mais assustadores e visualmente chamativos. Já em Recomeço, o discurso se repete como uma sombra cansada — o filme tenta se apresentar como uma “reinvenção”, mas acaba tropeçando nas mesmas ideias recicladas. O curioso (ou curioso só para quem presta atenção) é que o tal híbrido que desencadeia toda a confusão da trama foi criado muito antes do parque sequer existir, o que contradiz diretamente tudo que foi estabelecido nos filmes anteriores. Essa desconexão mostra o descuido com a coerência interna da saga e a prioridade clara em criar cenas de ação e monstros para impressionar o público, em vez de construir uma narrativa sólida. Mas, afinal, quem liga para lógica quando se tem um T-Rex estampando o pôster? O que importa é o espetáculo visual e o apelo nostálgico — o resto fica para segundo plano.

Jurassic World: Recomeço parece mais uma tentativa desesperada de lucrar com o que já foi sucesso do que um esforço genuíno de inovar ou respeitar a história que conquistou tantas gerações. Entre furos de roteiro, clichês reciclados e dinossauros mal aproveitados, fica a sensação de que estamos diante de uma franquia que perdeu o rumo — e que talvez já devesse ter ficado no passado, onde seu legado realmente brilha. Mas, enquanto houver nostalgia (e dinheiro) para ser explorado, os dinossauros vão continuar correndo, mesmo que a corrida não faça mais muito sentido.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

terça-feira, 1 de julho de 2025

M3GAN 2.0 - O terror foi embora, mas o caos e o sarcasmo ficaram

M3GAN 2.0 | Universal Pictures



Uma arma robótica de nível militar conhecida como Amelia torna-se cada vez mais autoconsciente e perigosa para a raça humana. Na esperança de detê-la, Gemma decide ressuscitar M3GAN, tornando-a mais rápida, forte e letal.

Diferente do filme anterior, que seguia uma linha mais voltada ao terror psicológico e remetia a produções como Chucky, mas com uma roupagem moderna centrada em uma boneca robótica, M3GAN 2.0 adota uma abordagem mais inclinada à ação. A transição de gênero é evidente desde os primeiros minutos, com uma estrutura narrativa que prioriza cenas dinâmicas, confrontos intensos e uma protagonista ainda mais letal e autônoma. Apesar dessa mudança de tom, o longa não abandona completamente suas raízes. 

Elementos do suspense e do horror tecnológico continuam presentes, especialmente na forma como a inteligência artificial é tratada como uma ameaça imprevisível. A ambientação, por sua vez, permanece no mesmo universo high-tech do primeiro filme, com laboratórios futuristas, dispositivos inteligentes e dilemas éticos sobre o avanço da tecnologia. O longa  pode até trocar o clima de horror por uma narrativa mais explosiva e movimentada, mas ainda carrega, em sua essência, as mesmas provocações sobre o controle da tecnologia e os limites da criação humana. Trata-se, portanto, de uma evolução do conceito original, que busca explorar novos caminhos sem perder totalmente sua identidade.

Dessa vez, a ameaça não vem de M3GAN, mas de uma nova boneca assassina: Amelia, uma criação ainda mais avançada e instável, cuja inteligência artificial representa um perigo iminente para a humanidade. Diante dessa nova ameaça, Gemma, a engenheira responsável por criar M3GAN no primeiro filme, decide reativar sua antiga criação como último recurso. A grande sacada da trama está justamente na maneira como ela reposiciona M3GAN, não mais como vilã principal, mas como uma espécie de anti-heroína. Essa mudança de eixo narrativo dá à personagem camadas mais complexas, promovendo uma dualidade interessante entre o que ela representa como máquina e as emoções quase humanas que demonstra. Longe de ser uma simples repetição do longa original — algo bastante comum em continuações dentro do subgênero slasher — M3GAN 2.0 busca romper com a previsibilidade e expandir sua mitologia de maneira criativa e funcional. A sequência, portanto, não se limita a ser um produto derivado, mas se firma como uma continuação com identidade própria, capaz de abrir espaço para futuras explorações nesse universo tecnológico sombrio.

Mas isso não significa que eu tenha gostado do filme. Pode até ser superior ao seu antecessor em termos de escala e ousadia, mas ainda assim não considero um bom longa. O roteiro, por mais absurdo que seja em diversos momentos, parece existir apenas como uma desculpa para colocar M3GAN no centro das atenções. A trama não se preocupa em desenvolver uma narrativa sólida ou coerente, e sim em criar situações que sirvam de vitrine para a boneca fazer o que o público já espera: instaurar o caos, provocar desconfiança entre os personagens e, claro, roubar a cena com seu carisma sarcástico e seus maneirismos peculiares. Cada aparição de M3GAN é meticulosamente construída para exibir sua personalidade híbrida — ao mesmo tempo ameaçadora e divertida. Seja pelo olhar calculado, pelas falas afiadas ou pelas ações imprevisíveis, ela domina a tela com uma presença quase magnética. O filme sabe disso e aposta tudo nela, deixando o enredo em segundo plano.

M3GAN 2.0 aposta numa abordagem mais voltada para a ação e destaca o carisma da boneca, que continua sendo o principal atrativo do filme. No entanto, o roteiro deixa a desejar, apresentando uma narrativa que prioriza cenas impactantes e momentos de espetáculo, em vez de um desenvolvimento mais sólido dos personagens e da história. Apesar dessas falhas, o longa consegue entreter, especialmente para quem já conhece e gosta da personagem. Ainda assim, fica claro que, embora superior em alguns aspectos ao primeiro filme, M3GAN 2.0 não consegue se firmar como uma sequência memorável ou que realmente expanda o universo de forma consistente.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Ouija: Origem do Mal - O feitiço virou contra o feiticeiro

Ouija: Origem do Mal | Universal Pictures


Quando se trata de horror sobrenatural, é quase impossível não pensar em Mike Flanagan, responsável por títulos como A Maldição da Residência Hill (2018), A Maldição da Mansão Bly (2020) e, mais recentemente, a adaptação do clássico conto de Edgar Allan Poe, A Queda da Casa Usher (2023). Apesar de todos esses sucessos, o filme que irei analisar hoje é anterior à concepção desses projetos. Com direção, roteiro e montagem de Mike Flanagan, trago Ouija: Origem do Mal (2016).

O longa inicia-se nos apresentando a Alice Zander (Elizabeth Reaser), uma vidente que realiza uma sessão com um pai e sua filha em busca de contato com a falecida mãe da garota, esta, mais cética que o pai. A sessão é interrompida por algo que, à primeira vista, parece ser a manifestação de uma entidade. No entanto, logo após a saída dos clientes, descobrimos que todos os eventos sobrenaturais não passavam de uma encenação elaborada por Alice e suas filhas, Paulina Zander (Annalise Basso) e Doris Zander (Lulu Wilson), a caçula. Esta é a forma que a mãe encontrou de sustentar a família após a morte do patriarca. Essa introdução é muito eficaz, pois gera tensão logo nos primeiros minutos, quebra expectativas e apresenta a história e os personagens de maneira instigante e inusitada.

Por algum tempo, o filme foca em mostrar a relação entre mãe e filhas, sua rotina e como a ausência do pai afeta essa dinâmica, gerando uma conexão emocional entre o espectador e os dramas da família. A trama toma rumos ainda mais interessantes quando, em uma festa, Paulina tem contato com um tabuleiro Ouija. Apesar da expectativa de algo imediato, Flanagan brinca novamente com a ansiedade do espectador, distribuindo pistas sem revelar o destino da narrativa. Durante o jogo, nada acontece, mas logo em seguida vemos Doris sofrendo bullying na escola por conta do trabalho da mãe. Na sequência, Alice compra um tabuleiro Ouija. Essa ordem de eventos não é aleatória: a montagem brinca com a percepção do espectador e conecta os elementos de forma tão sutil que pode passar despercebida por olhos menos atentos.

À medida que o filme avança, Alice tenta interagir com o tabuleiro, sem sucesso. No entanto, vemos que a manifestação ocorre através de Doris, que está no quarto com Paulina. Até então, tudo bem, mas as coisas tomam um rumo mais bizarro quando a caçula afirma conseguir se comunicar com o pai. A partir daí, eventos estranhos e não manipulados começam a assombrar a rotina da família Zander. O que antes parecia um milagre passa a se revelar como uma possível maldição.

Quanto aos aspectos técnicos, é até difícil separá-los, já que Flanagan assina três funções fundamentais. Mas vale destacar os demais elementos, e não menos importantes. A direção de fotografia, assinada por Michael Fimognari, provoca curiosidade e apreensão ao manter o foco fixo em pontos específicos do cenário, estimulando o olhar de quem assiste, para depois usar luz e sombra como instrumentos de sugestão paranormal. Além disso, a câmera muitas vezes mostra simultaneamente o que acontece em primeiro e segundo plano, ampliando a tensão. Já o design de produção, assinado por David Yost, contribui muito para a imersão no universo do filme. A ambientação reproduz com eficácia a época em que a história se passa, que, embora nunca seja declarada abertamente, fica evidente através do figurino e decoração tratar-se de um período remoto. A casa, sombria e opressiva, transmite uma sensação constante de desconforto e confinamento, elementos que ajudam a reforçar a atmosfera de terror.

Em resumo, Ouija: Origem do Mal é um filme que cumpre com todos os requisitos técnicos e apresenta uma direção extremamente inspirada. Arrisco dizer que serviu de ensaio para os futuros trabalhos de Flanagan. É fato que a história em si não é inovadora, mas a maneira como ela é contada dá um toque especial ao que poderia ser apenas mais um filme genérico. As atuações são competentes: Elizabeth Reaser dá vida a uma mãe que ainda não superou o luto pela perda do marido — sua performance pode não ser repleta de nuances, mas tampouco prejudica a narrativa. Annalise Basso interpreta uma irmã mais velha que tenta viver sua puberdade enquanto lida com o próprio luto, os atritos com a mãe e a preocupação com a irmã mais nova; sua personagem, por vezes mimada, pode soar irritante. Já Lulu Wilson, apesar da pouca idade, rouba a cena: sua Doris é doce e misteriosa, despertando empatia no público ao mesmo tempo em que insinua algo inquietante por trás de sua figura inocente.

O filme entrega o que promete, e talvez até um pouco mais, com um plot twist que, embora não fosse necessário, desperta a curiosidade sobre o que virá a seguir. Em termos de qualidade, Ouija: Origem do Mal é uma obra ousada, que não deve nada ao seu antecessor Ouija: O Jogo dos Espíritos (2014) e que pode ser uma ótima escolha para quem está em busca de um bom terror sobrenatural.


Autor:


Mateus José é graduando de Licenciatura em Cinema e Audiovisual pela UFF, escritor, poeta, montador e aspirante a diretor de fotografia. Apaixonado pelas artes, literatura, música e principalmente o cinema, dedica-se a consumir, estudar e dissecar as camadas mais profundas do cinema e da arte.

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