Mostrando postagens com marcador warnerbros pictures. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador warnerbros pictures. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Watchmen: Capítulo II (2024) - Entre máscaras que caem e deuses que se afastam, o mundo aprende o custo de ser salvo


Watchmen: Capítulo 2 | Warner Bros. Pictures


Os ex-heróis aparentemente se tornaram alvos. Enquanto todos eles enfrentam a ética, demônios internos e uma sociedade voltada contra eles, correm contra o relógio para desvendar uma trama profunda que pode desencadear uma guerra nuclear global.

O capítulo 2 de Watchmen pega diretamente as tensões estabelecidas no primeiro e aprofunda tanto o conflito moral quanto psicológico dos personagens — especialmente depois da queda de figuras como Rorschach e o isolamento de Doutor Manhattan. Se o capítulo 1 funciona quase como um mistério noir centrado na investigação de um assassinato e na decadência dos heróis, o capítulo 2 muda o foco para as consequências. A narrativa se expande: deixa de ser apenas “quem matou?” e passa a questionar “o que isso significa para o mundo?”. Essa transição é um dos pontos mais fortes — a história ganha escala sem abandonar o peso individual de cada personagem. 

Um aspecto interessante é como o roteiro trabalha o contraste entre humanidade e distanciamento. Enquanto alguns personagens tentam resgatar propósito (Como Coruja e Silk Spectre), outros se afastam cada vez mais de qualquer empatia. Esse conflito não é tratado de forma simples: o capítulo sugere que tanto o apego emocional quanto o desapego extremo podem ser problemáticos. Também há um avanço importante no tom político. O capítulo anterior já insinuava tensões globais, mas aqui elas se tornam mais explícitas e inquietantes. A trama levanta questões éticas pesadas sobre segurança, verdade e sacrifício coletivo — sem oferecer respostas fáceis. Isso reforça uma das principais qualidades de Watchmen: a recusa em romantizar seus “heróis”. Por outro lado, esse capítulo pode parecer mais denso e menos direto. Ele exige mais atenção do espectador, porque há múltiplas linhas narrativas e discussões filosóficas acontecendo ao mesmo tempo. Para alguns, isso enriquece; para outros, pode quebrar o ritmo. 

A prisão de Rorschach marca o início da sua queda de forma clara. Até então, ele operava como uma força incontrolável, guiado por sua própria lógica de justiça. Quando é capturado e desmascarado, essa imagem se quebra: ele deixa de ser a figura quase mítica e volta a ser Walter Kovacs — alguém vulnerável, preso e cercado por inimigos. Mesmo assim, o mais trágico é que ele não muda. Preso ou livre, continua preso à própria rigidez, o que mostra que sua queda não é só física, mas também interna: ele não consegue evoluir. Já o exílio de Doutor Manhattan funciona como uma queda diferente, mais silenciosa. Ele não é derrotado, mas se afasta voluntariamente do mundo. Isso revela o quanto ele já está desconectado da humanidade — a ponto de abandonar tudo sem grade conflito emocional. Enquanto Rorschach cai por ser humano demais em sua dor e obsessão, Manhattan “cai” por se tornar humano de menos. Um perde a liberdade por não ceder; o outro abandona o mundo por não sentir mais que ele importa.

A música não chama muita atenção o tempo todo, mas cumpre bem seu papel ao criar um clima constante de tensão e mistério. Ela fica mais em segundo plano na maior parte do tempo, ajudando a construir a atmosfera sem distrair, o que combina com o tom mais denso da história. Já nos momentos mais intensos, o som muda e ganha uma pegada mais marcante, com uma vibe anos 80 que deixa tudo mais estiloso e diferente, dando mais impacto às cenas de ação. Ainda assim, faz falta não terem usado algumas músicas da HQ original. Canções que combinavam tão bem com momentos importantes acabaram ficando de fora, e isso tira um pouco daquele peso emocional que essas cenas poderiam ter. Para quem conhece a obra original, essa ausência é ainda mais perceptível, porque certas músicas ajudavam a dar identidade e reforçar o significado de algumas passagens. No fim, a trilha é eficiente, mas fica a sensação de que poderia ter sido ainda mais memorável se tivesse aproveitado melhor essas referências.

Watchmen - Capítulo 2 (2024) expande o primeiro ao focar menos no mistério e mais nas consequências. A história aprofunda conflitos morais e destaca extremos através de Rorschach e Doutor Manhattan, mostrando os custos tanto da rigidez quanto do distanciamento. Mesmo mais denso, o capítulo se mantém interessante pelas questões que levanta, sem dar respostas fáceis. A trilha funciona, mas poderia ser mais marcante. No fim, reforça a ideia central de Watchmen: não sobre salvar o mundo, mas sobre o preço disso.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


terça-feira, 26 de maio de 2026

Watchmen: Capítulo I (2024) - O clássico de Alan Moore em uma adaptação fiel.

Watchmen: Capítulo 1 | Warner Bros. Pictures


Em 1985, o assassinato de um super-herói que virou agente do governo chama a atenção de Rorschach, cuja investigação tira seus colegas foragidos da aposentadoria e os coloca em um mistério que ameaça suas vidas e um mundo à beira da guerra.

Essa é a segunda adaptação audiovisual do quadrinho, que na época de seu lançamento — em 1986, com conclusão no ano seguinte — representou uma desconstrução do gênero de super-heróis. Não estou considerando a série da HBO, já que ela apresenta uma história original que se passa após os eventos do quadrinho e do filme. Esta nova versão é um filme em formato de animação, combinando técnicas de 2D e 3D. Impressionante como a animação CGI é exuberante e muito fluida. A movimentação dos personagens é bem trabalhada, com cenas de ação claras e dinâmicas, e a combinação entre 2D e 3D funciona bem para recriar o estilo visual do quadrinho. A paleta de cores belíssima reforça a atmosfera sombria da história. Os contrastes e a iluminação ajudam a construir o clima urbano e melancólico do universo, enquanto alguns enquadramentos lembram diretamente painéis marcantes da obra original.

A história começa com o assasinato de Edward Blake que é o comediante, que leva Rorschach, a investigar a possibilidade de alguém estar eliminando antigos vigilantes mascarados. A investigação funciona como eixo da narrativa, mas a história se desenvolve principalmente através de lembranças e perspectivas de outros ex-heróis. Esses flashbacks mostram como os personagens se tornaram vigilantes, o que aconteceu depois que atividades de super-heróis foram proibidas em 1977 e como cada um lida com esse passado. Personagens como Laurie Juspeczyk e Dan Dreiberg vivem conflitos pessoais ligados à perda do ideal heróico, enquanto Doutor Manhattan representa o impacto de um poder quase ilimitado que o afasta emocionalmente da humanidade. Ambientada em uma versão alternativa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, a trama combina mistério, política e drama psicológico para questionar o mito do super-herói. Em vez de figuras idealizadas, os personagens são moralmente ambíguos e marcados por consequências psicológicas de suas escolhas, enquanto o mundo ao redor permanece tenso e instável. Assim, a obra usa a investigação inicial para discutir poder, responsabilidade e as contradições do vigilantismo.

Essa adaptação, diferente do filme de 2009 dirigido por Zack Snyder, é mais fiel ao material original. Enquanto o longa precisou resumir e modificar alguns trechos da trama, esta versão preserva com maior fidelidade os diálogos e o ritmo da obra. A animação também busca manter o tom mais realista presente na HQ, evitando o uso de câmera lenta e coreografias excessivamente estilizadas nas sequências de ação. Assim como os autores da minissérie em quadrinhos, Alan Moore e Dave Gibbons, retratam os confrontos de forma mais direta e urbana — sem grande destaque para ferimentos explícitos — a animação segue a mesma proposta. Isso fica particularmente evidente na cena em que os Knot Tops tentam assaltar Daniel Dreiberg e Laurie Juspeczyk em um beco, sem perceber que eles são o Coruja e a Silk Spectre II. A sequência evita mostrar fraturas expostas ou sangue de forma marcante, reforçando a ideia de que os protagonistas são lutadores muito habilidosos, embora não possuam habilidades sobre-humanas.

Apesar de manter a fidelidade, há algumas diferenças, o que é comum em adaptações. Os autores do quadrinho incluíram, ao longo das 12 edições, diversos materiais extras destinados a ampliar o universo da narrativa, como memórias, entrevistas e ensaios em prosa. Na adaptação animada Watchmen: Capítulo 1, que cobre as cinco primeiras edições, quase todo esse conteúdo foi deixado de fora — uma decisão compreensível, já que seria difícil integrar plenamente esses textos a um formato audiovisual. Ainda assim, a ausência desse material é relevante, pois ele é fundamental para a compreensão completa da obra original.

No universo de Watchmen, histórias de piratas como Contos do Cargueiro Negro funcionam como substitutas das tradicionais narrativas de super-heróis. Como vigilantes mascarados existem na realidade nesse mundo, o gênero de super-heróis em declínio nos quadrinhos, e personagens fictícios como Superman deixaram de ser populares poucos anos após sua criação, no final da década de 1930. Por isso, os criadores idealizaram uma história em quadrinhos de piratas, partindo da ideia de que os habitantes daquele universo, convivendo diariamente com super-heróis, provavelmente não teriam interesse em ler quadrinhos sobre eles. Essa substituição não é apenas uma mudança de gênero: funciona como uma reflexão crítica sobre o papel da ficção quando confrontada com a realidade. Ao mostrar que a presença de super-heróis reais torna obsoletas as fantasias heroicas, a narrativa sugere que a ficção serve como espelho das necessidades humanas por escapismo, mito e reflexão moral — elementos que só se valorizam quando a realidade não os oferece diretamente.

Watchmen: Capítulo 1 se destaca como uma adaptação bastante fiel ao quadrinho de Alan Moore e Dave Gibbons; preservando o tom reflexivo e a proposta de desconstrução do mito do super-herói. A combinação entre animação 2D e CGI recria bem a estética da obra original, enquanto a narrativa mantém o foco no mistério e nos conflitos morais e psicológicos dos personagens. Mesmo com a ausência de parte do material complementar presenta na HQ, o filme consegue transmitir os principais temas da história, funcionando como uma adaptação sólida e respeitosa do clássico dos quadrinhos.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Mortal Kombat 2 - Entre fatalidades e fan service, o filme encontra sua força

Mortal Kombat 2 | Warner Bros. Pictures


Johnny Cage se junta a outros lutadores na batalha definitiva, sem regras, para derrotar o domínio sombrio de Shao Kahn, um poderoso tirano que ameaça a própria existência do Plano Terreno e seus defensores.

Os jogos da franquia nunca tiveram a história como principal destaque, e aqui a trama segue essa mesma linha: é simples e direta — derrotar o vilão que ameaça destruir a Terra. No entanto, isso está longe de ser um problema. Nem todo filme precisa se sustentar em uma narrativa complexa; há espaço para obras que priorizam a experiência visual e a ação. Um bom paralelo é Mad Max: Estrada da Fúria, que basicamente acompanha um trajeto de ida e volta, mas se destaca justamente pela intensidade e criatividade de suas cenas de ação. Em Mortal Kombat 2, essa proposta também funciona. 

O filme entrega coreografias de luta bem elaboradas, valorizando as características individuais de cada personagem. Johnny Cage, por exemplo, se diferencia por não possuir poderes sobrenaturais, confiando apenas em sua habilidade como lutador — algo que reforça sua humanidade dentro daquele universo. Já Kitana combina técnica com o uso de seus leques afiados, criando um estilo de combate mais versátil e perigoso. Esse contraste torna o confronto entre os dois interessante, especialmente por ser a primeira vez em que Johnny realmente se vê em dificuldades diante de um oponente tão distinto. Com isso, o filme transforma cada confronto em algo visualmente distinto, evitando que as cenas de ação se tornem repetitivas.

No filme anterior, o protagonista era Cole Young, um personagem criado exclusivamente para adaptação e apresentado como descendente de Scorpion, um dos nomes mais icônicos da franquia. Já nesta sequência, a escolha de colocar Johnny Cage como protagonista se mostra mais assertiva, justamente por se tratar de um personagem clássico dos jogos e bastante querido pelo público. Aqui, Johnny assume a posição de figura central, quase como o arquétipo do “escolhido”. Afinal, é ele quem acaba convocado para o torneio Mortal Kombat. 

Antes disso, ele era apenas um ator de Hollywood que, apesar de já ter experimentado o sucesso, enfrentava um momento de baixa na carreira. Essa transição ajuda a dar mais camadas ao personagem, equilibrando humor e desenvolvimento. Sua personalidade continua sendo um dos grandes destaques: Johnny é cínico, exibido e extremamente debochado. O humor se mostra eficiente porque não soa forçado — ele usa as piadas como uma espécie de mecanismo de defesa, especialmente nas situações de perigo. Momentos como quando ele encontra Raiden e faz a brincadeira “mande lembranças a Gandalf” reforçam esse tom leve e irreverente. 

O filme apresenta diversas referências diretas aos jogos de Mortal Kombat, e, no geral, elas funcionam mais como reforço da identidade da obra do que como simples fan service. Um dos exemplos mais marcantes é a icônica frase Finish Him, utilizada no momento final de um combate, quando o adversário já está derrotado e resta apenas o golpe decisivo. Esse é o clímax da luta, e sua inclusão no filme preserva o peso simbólico que a expressão tem nos jogos. Ao colocá-la na fala de Shao Kahn, o roteiro acerta, pois integra a referência de maneira coerente ao contexto da cena, evitando que soe gratuita. Para quem não conhece a franquia, pode passar apenas como uma fala de efeito comum. Outro exemplo interessante está na construção visual de uma das lutas. Em determinado momento, a câmera assume um enquadramento lateral, replicando a perspectiva clássica dos jogos, onde os lutadores são vistos de perfil. Essa escolha facilita a leitura dos movimentos e cria uma conexão imediata com a experiência original. No entanto, o recurso é usado de forma breve, apenas no início da cena, antes de retornar ao padrão cinematográfico.

Mortal Kombat 2 consegue entregar uma adaptação fiel ao espírito dos jogos, valorizando a ação, o carisma dos personagens e a identidade visual dos combates. Ao compreender aquilo que tornou a franquia popular, o filme encontra sua principal força justamente no entretenimento direto e na maneira como transforma cada luta em um espetáculo próprio. Sem tentar reinventar a franquia, o longa entende exatamente o que o público quer ver — e transforma isso em seu maior acerto.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Eles Vão Te Matar - O horror direto que prende o espectador do início ao fim

Eles Vão te Matar | Warner Bros. Pictures


Uma jovem que não tem nada a perder precisa sobreviver à noite no Virgil, o misterioso e mortal esconderijo de um culto demoníaco, para evitar se tornar a próxima oferenda.

Pegue um liquidificador, jogue Kill Bill e misture com o gênero terror — é dessa combinação que nasce Eles Vão Te Matar. Mas a semelhança para por aí. Enquanto Kill Bill transforma a violência em espetáculo estilizado e quase elegante, o filme aposta no oposto: brigas propositalmente caóticas, rápidas e desconfortáveis, que às vezes sacrificam clareza visual em nome do impacto. A diferença central está na protagonista: ao contrário de Beatrix Kiddo, que domina cada confronto com precisão quase mítica, Asia Reaves é constantemente engolida pela situação, reagindo mais do que agindo. Isso torna a experiência mais visceral, mas também menos catártica.

O terror se sustenta na tensão constante e na sensação de vulnerabilidade. Asia está cercada por ameaças imprevisíveis, e cada corredor ou porta pode esconder perigo, criando medo psicológico de inevitabilidade. A violência é gráfica e grotesca, reforçando o desconforto, enquanto os elementos ritualísticos do culto aumentam a estranheza e o suspense. O resultado é um terror contínuo, que desgasta e mantém o espectador em alerta do começo ao fim.

A trama não se prende a complexidades narrativas desnecessárias. Sua trama é relativamente simples, mas isso funciona a favor da experiência: permite que o espectador mergulhe completamente na tensão, no horror e nas cenas de combate, aproveitando cada momento sem se perder em subtramas complicadas. Mesmo sendo direta, a narrativa consegue envolver e entreter, mostrando que não é preciso uma história excessivamente elaborada para causar impacto e emoção.

O cenário do hotel onde Asia está presa é dominado por tons avermelhados. Embora o vermelho seja uma escolha previsível — já que remete diretamente ao perigo e ao sangue, ambos centrais na proposta do filme —, seu uso constante acaba funcionando mais como um reforço óbvio do clima do que como um recurso visual realmente sofisticado. Ainda assim, a insistência nessa paleta contribui para manter a sensação de ameaça contínua e, em certos momentos, ajuda a criar uma identidade visual coerente, que intensifica a atmosfera sufocante e o estado emocional da protagonista.

O trabalho de câmera merece destaque: explorando ângulos inusitados e movimentos ágeis que fogem do convencional, a cinematografia se torna uma ferramenta narrativa por si só. Cada enquadramento cuidadosamente pensado, cada plano-sequência e cada aproximação ou afastamento de lente não acompanha a história, mas permite que o espectador vivencie os acontecimentos de maneira mais profunda. Criando uma sensação de dinamismo e tensão, enquanto movimentos suaves e fluídos podem transmitir intimidade ou serenidade.

Eles Vão Te Matar combina violência intensa, terror e elementos visuais marcantes para entregar uma experiência cinematográfica envolvente e visceral. Apesar de sua trama relativamente simples, o filme consegue manter o espectador preso do início ao fim, explorando habilmente a tensão, o suspense e o caos das cenas de ação. A estética do cenário, a paleta de cores e o trabalho de câmera não apenas reforçam a narrativa, mas ampliam a imersão, tornando cada momento mais impactante e emocionalmente carregado. Demonstram que intensidade, criatividade visual e ritmo bem construído são suficientes para criar uma experiência marcante.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Emerald Fennell Sequestra e 'Parodia' Emily Brontë em "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)


"O Morro dos Ventos Uivantes" (2026) | Warner Bros.

 "I was thinking, 'What is this place?'
I thought it would be perfect
I thought, 'I want it to be perfect'
Please, let it be perfect
Am I living in another world? Another world I created
For what?
If it's beauty, do you see beauty?
If there's beauty, say it's enough
I think I'm gonna die in this house..."
(House - Charli XCX e John Cale)

O Morro dos Ventos Uivantes (1847) é o fantasma que Emily Brontë deixou ao mundo, um conto visceral sobre como a sociedade inglesa é capaz de ser cruel, criar traumas e monstros. O pano de fundo é a relação caótica entre Catherine Earnshaw e Heathcliff, que atravessa gerações, e seu amor, rejeitado e não consumado, que destrói tudo ao seu redor.  Existe uma grande tradição no cinema de adaptar a narrativa de Brontë para o cinema desde 1920, com a versão de William Wyler de 1939, estrelada por Merle Oberon e Laurence Oliver, como a planta baixa para possíveis recepções futuras. 

Friso bastante a versão clássica hollywoodiana, pois penso que faz parte dentro do imaginário da diretora inglesa Emerald Fennell, de Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), que assina a direção do adaptação de 2026. Em ambas as obras, o cerne central é a evolução (e também destruição) da relação entre os dois protagonistas, desde a infância até a fase adulta. Quando Cathy, ao aceitar a mão de um vizinho de terra, rejeita, automaticamente, o amor de Heathcliff, mesmo amando-o, por temer uma vida degradada na sociedade. Como vingança, o jovem some da vida da moça para depois voltar rico e arruinar seu casamento com Edgar Linton; inclusive usando e casando com sua cunhada, Isabella, para atiçá-la. Porém, a versão de Fennell se agarra ao nível superficial da narrativa e, por consequência, em detrimento aos níveis profundos desse conto, que revelam o lado selvagem e "nada civis" das personagens.  

 Nenhum personagem existe sem um contexto ou uma história que a molda. Se Heathcliff é uma personagem trágica, um órfão que é acolhido pela família Earnshaw para depois ser maltratado e humilhado quase que diariamente pelos membros da casa. Seu escapismo é o amor que sente por Catherine, mas a linha entre amor e ódio começa a ficar tênue quando ambos se separam. Fennell trata a obra base de Brontë muito mais como romance do que drama, suavizando toda a jornada da personagem interpretada por Jacob Elordi. O que diminui todo o discurso da obra clássica. O anti-herói é visto como um selvagem daquele ambiente, porém, ao deter um poder financeiro enquanto adulto, ele é percebido como alguém a ser temido, construindo assim uma tensão naquela sociedade.

Se, por exemplo, na adaptação de Luis Buñuel, Abismos de Pasión (1954), Heathcliff/Alejandro é uma figura hostilizada e, ao mesmo tempo hostil, capaz de seguir e/ou de ser atraído por Cathy/Catalina até os confins da morte, dentro uma atmosfera gótica; já a diretora Andrea Arnold traz um olhar mais realista em sua adaptação de 2011 em que Heathcliff sofre não só por questão de classe, mas também por racismo da sociedade, como sugerido no romance de Brontë. Sem falar na formidável adaptação japonesa Arashi ga oka, dirigida por Yoshishige Yoshida, de 1988, que transpõe a narrativa para o Japão Feudal, sem abrir a mão dos temas e caraterísticas da obra de partida: o sistema de classes, a paixão, a crueldade, o psicológico e o macabro, por exemplo. Trago os contrapontos anteriores aqui para ilustrar uma drástica mudança no tratamento do livro clássico nas mãos de Fennell. 

Sobre o projeto tradutório: como o título, com as aspas, desta nova versão sugere, não é uma adaptação, mas uma "adaptação". E em entrevistas, ela já mandou a real. De acordo com a mesma, não é uma tradução direta ao livro, mas sim uma recriação da leitura que tinha feito quando adolescente. Ou seja, seu projeto de adaptação é bastante pessoal e contaminado por influências abertamente externas ao livro. A realizadora apropria os elementos narrativos básicos de Brontë e cria sua própria versão, sem qualquer relação de fidelidade estreita com a obra base. Para alguns, ela acaba realizando uma adaptação livre, para outros, uma fanfic erótica de banca de jornal que beira ao kitsch. Como espectador e pesquisador sobre recepção, adaptação e tradução, fico entre essas duas opções; pois uma coisa não exclui automaticamente a outra. 

A filmografia de Fennell é composta de obras que tentam escancarar as relações de gênero e de classe social, por meio meio de uma vertente vulgar, seja por uma tentativa de sexploitation ou seja pelo suspense erótico. Porém, uma crítica válida que lhe feita em cada obra que a diretora lança ao mundo parece ser constante: é belo, mas tem substância? Não só o caso se repete aqui, mas também é o grande triunfo e maldição deste filme.  

O que a realizadora tem de bom olho, também possui de mal gosto. Muito dos diálogos originais de Brontë não encontram a força que outrora tinham, parecendo falas vazias do que sentimentos complexos e, até, contraditórios. Quando Cathy, em determinado ponto da trama, confessa que: "ele se parece comigo, mais do que eu mesma. Do que será que são feitas nossas almas, elas são iguais... Eu sou Heathcliff!" É um momento importante para a narrativa, pois nós como espectadores entendemos a linha de raciocínio impulsiva de Earnshaw e seus verdadeiros sentimentos. No entanto, com uma base superficial e a mistura das falas clássicas com os pobres diálogos "emeraldianos'', tiram a intensidade dramática e deixam cenas importantes com um ar de mediocridade. 

A direção de Fennell é justamente juvenil no encadeamentos das ações e na construção das personagens: a Catherine de Margot Robbie é visivelmente mais velha do que no livro, já que, de acordo com seu pai, "passou da idade de se esposar", ou seja, por volta dos 25 anos (E, de súbito, me lembrei da frase viral de Orgulho e Preconceito de 2005: "Eu tenho 27 anos, não tenho dinheiro, nem prospectos de vida, sou um fardo para meus pais e... estou com medo"), mas que ainda se comporta como uma adolescente tola e mimada de 16 anos, e é reprimida sexualmente. Enquanto isso, o Heathcliff de Jacob Elordi é tratado como um "pau pra toda obra" bruto, mas carinhoso; retirando-lhe toda a complexidade e amargura que iria configurar seu desenvolvimento em um homem cruel. Com isso, torna-se fácil para Fennell desenhar Cathy dentro de suas sensibilidades enquanto mulher branca, e Heathcliff como um herói erótico, cuja face de Elordi evoca as feições de Sir Olivier da adaptação de 1939. 

Porém, a mais insensata, e talvez cretina, abordagem feita pela diretora seja da questão racial, em que as injustiças que Heathcliff sofre no romance (uma vez que ele é sugerido por Brontë como um "cigano" e de "pele escura"), são passadas para uma outra personagem: Nelly Dean (Hong Chau), uma mulher sino britânica, filha bastarda de um lorde que é acolhida pela família Earnshaw como a dama de companhia de Cathy. Enquanto para Heathcliff, ela o trata como se fosse um bicho de estimação com doçura e petulância, para Nelly, Cathy é cruel e rasteira, mandando-a sempre a não sair do seu papel subalterno. E, portanto, Nelly acaba se tornando, sutilmente ou não, cruel, ao desejar e fazer de tudo para acabar com o relacionamento entre os dois protagonistas, que são tratados como dois coitados. Dessa forma, Fennell não consegue abordar de forma interessante as relações raciais dentro de um contexto (em teoria) do final do século XVIII, calcando-se de uma tamanha superficialidade irresponsável.  

Se, então, o "Morro dos Ventos Uivantes" (2026) é uma adaptação pífia e vazia, por que deveríamos ir ao cinema assistir? A resposta é tão simples e básica quanto o filme: porque é puramente divertido. Emerald Fennell prova que não entende as dimensões temáticas de Brontë, para além do relacionamento central, mas consegue fabricar espetáculos visuais, brincando entre o "chique" e o tacanho, e de um humor esdruxulamente sexual. Existe um prazer involuntário em assistir aos exageros e ao analfabetismo temático da diretora, algo que me parece autoconsciente à ela, pois conhece suas limitações e gosta de brincar com a expectativa do público. Um acordo que é feito entre artista e o público, de dominação e submissão: ela tem o chicote, mas o golpe é mais prazeroso do que doloroso. É a mesma sensação de assistir de uma paródia.

É um filme muito jovem, com uma abordagem temática muito adulta. A combinação entre algo fantasioso e tara, exalta a visão maximalista da obra. Para um público mais velho, é um estilo kitsch ou, mesmo, camp bastante assumido desde a primeira cena em que vemos uma cena de execução em praça pública com conotações mórbidas e eróticas.  Parece exagero, mas é para já ilustrar qual será o tom do filme; o do espetáculo, pão & circo, o da magia e o da rejeição de um realismo. 

A lindíssima fotografia de Linus Sandgren evoca filmes clássicos em tecnicolor como E o vento levou... (1939), filmado em um luxuoso Vistavision com cores fortes e pungentes que conversam com o design de produção de Susie Davis - que invoca Cocteau, Coppola, Jarman e, possivelmente, Waters, ao mesmo tempo - e o figurino de Jacqueline Durran: dramáticos e logisticamente incompreensíveis como uma nightgown transparente como se fosse um papel celofane, e saias vermelhas que parecem ser feitas com couro falso (vulgo plástico), mas ajuda a demarcar a jornada e o sentimento das personagens. Além disso, a trilha sonora de Anthony Willis e as canções de Charli XCX são peças complementares entre si e ajudam a elevar o material de Fennell. 

Já para o público jovem (isto é, adolescente que nunca viram nenhuma adaptação ou leram o livro), bastará somente a trama principal; uma vez que Robbie e Elordi, mesmo inapropriados para seus papéis, são bons atores e, pasmem!, eles tem química em cena; e conseguem vender o roteiro caótico e a direção de Fennell ao público. A disputa moral que existe entre os dois na segunda metade se torna uma forma de preliminar cruel para satisfazer seus desejos, uma "brincadeira boba e deliciosa". A dor se torna pura diversão, um motivo de gozo e riso. 

Um exemplo disso é Isabella Linton (Alison Oliver): no romance de Brontë, é uma moça ingênua e, para irritar Cathy, caí em um relacionamento abusivo com Heathcliff; já no filme, é uma personagem codificada anacronicamente como uma jovem CDF (já que nerd é uma palavra muito moderna neste caso), precoce e sexualmente não realizada. Sua relação com Heathcliff é por interesse e puramente sexual, no qual ela se submete, com certo prazer e pouco amor próprio, a uma relação sadomasoquista no decorrer da narrativa. É uma leitura tão exagerada da personagem, mas que retratada com tanta convicção numa performance que acredita (e confia) na visão da diretora, é impossível desviar o olhar, tocando, ao mesmo tempo, na sensibilidade do público feminino e gay, que com certeza irá devorar este filme e a personagem. 

Porém, todo esse apoio no exagero estético e tonal do filme, acaba por prejudicá-lo quando Fennell precisa virar a chave para o dramático e o convencional (o que pode prejudicar e/ou frustrar parte do público treinado para esperar uma grande virada no meio da estória). A diretora flerta com trabalhos de cineastas como Sofia Coppola e Radley Metzger, em Maria Antonieta (2006) e Camille 2000 (1969) respectivamente, me vêm a mente por exemplo, na tentativa de vender estética e transgressão sexual, porém a visão da diretora ainda falta um refinamento das intenções; pois sua ideia da palavra transgressora está mais para uma "transgressão". Após um bom momento de reflexão e de ironia, Saltburn me parece uma adaptação livre mais bem-sucedida, uma vez que os paralelos entre Fennell e Brontë são melhores estabelecidos, do que esta "nova" versão.

De Brontë, "O Morro dos Ventos Uivantes" só tem o título, pois, em sua forma final, a leitura da realizadora se divorcia demasiadamente da obra em que é baseada, mesmo que haja uma intenção de adaptação, mas sem uma sólida base original. Apesar das falhas e dos tropeços (e depois de matar muitos fãs puristas da obra original de desgosto ou do coração) que ocorrem neste projeto, talvez Emerald Fennell fez, ironicamente ou não, a sua maior transgressão de todas: uma adaptação camp de Emily Brontë. Se será um clássico do gênero, resta ao tempo dizer. 

Agora só resta dar stream no álbum "Wuthering Heights". 

* A cabine de imprensa foi realizada na sala IMAX do UCI New York City Center, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

“Papai do ano” enfrenta país distópico em: Uma Batalha Após a Outra (2025)

Uma Batalha Após a Outra (2025) | Warner Bros. Pictures


Os Estados Unidos é um país bastante contraditório, quase dicotômico em sua organização cultural e social, em prol de um mito idealizador de uma grande nação e potência mundial. Porém, nem todos cineastas estadunidenses conseguem enxergar a contradição do próprio país como Paul Thomas Anderson.  

O realizador de 55 anos é fascinado pelas histórias que seu país proporciona e pelas questões culturais e sociais presentes em vários campos temporais. Seja pela mineração de petróleo no oeste norte-americano, o auge da era de ouro do cinema pornô, a solidão no contemporâneo, os corres e sonhos de uma juventude em meio uma crise financeira, os traumas da sociedade após a Segunda Guerra Mundial, ou até mesmo a ascensão de um culto manipulador e influente. Anderson costura comentários sobre os Estados Unidos a partir de parábolas, que muitas vezes, se passam em um passado recente. Mas agora, o diretor volta ao contemporâneo, após Embriagado de Amor (2001), e fala tão diretamente com o estado atual de seu mundo.

Assim como em seu Vício Inerente (2014), PTA retorna com a influência do escritor Thomas Pynchon (1937 -), desta vez, adaptando a ideia por trás do livro Vineland (1984). A obra é uma reflexão sobre o movimento da contracultura durante o governo Nixon, nos anos 60, e o contraste desta geração com os problemas enfrentados, agora, durante a reeleição de Reagan, nos anos 80. Por sua vez, o diretor recria a narrativa de Pynchon a um momento atual em que movimentos sociais de  antirracismo, antifascismo e pró imigração se enfrentam com um governo conservador e cada vez mais inclinado ao poderio fascista. E como os idealistas do passado podem não estar tão alinhados com os problemas atuais do mundo em que vivem. 

A partir dessa ideia e da transposição temporal, PTA cria sua própria Vineland. Em Uma Batalha Após a Outra (2025), lançamento da Warner Bros., Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) é um ex-integrante do French ‘75, um esquadrão de revolucionários contra o governo americano, e se vê na mira de um antigo inimigo, o coronel Lockjaw (Sean Penn), que está perseguindo-o, além de sua filha adolescente, Willa Ferguson (Chase Infiniti). Antes que seja tarde demais, Bob e Willa tentam se reencontrar, enquanto fogem de Lockjaw e atravessam em uma jornada pelas terras arenosas do deserto californiano.  

E de fato, é uma batalha após a outra, pois, além da corrida pela sua vida e de sua filha, a revolução mudou com o mundo, mas Bob continua estagnado em seu passado.

O Paul Thomas Anderson tem uma habilidade que nem todos os diretores possuem: ele consegue encaixar no filme uma variação de tons que vai da comédia à ação e ao drama de modo bastante suave. Afinal, os esforços de Lockjaw em achar os Ferguson são extremos e para fins puramente egóicos. Muitos filmes acabam se perdendo nessa mudança de tom, mas aqui todos esses elementos funcionam harmonicamente aqui; com base em uma montagem bastante ágil e suave, nos planos fluidos e muito bem posicionados (filmados em Vistavision!) que são marca registrada do diretor, na trilha sonora de Jonny Greenwood que marca o tom necessário para cada cena, e, principalmente, pelo elenco eletrizante que captura a atenção do espectador. 

Existe um gosto imensurável em ver o Leonardo DiCaprio como um pai semipresente, que, ao mesmo tempo, tem suas mágoas e traumas do passado e se aliena do mundo atual, através das entorpecentes. É um papel diferente para o ator que assume a manta de um herói esquecido e, por muitas vezes, incompetente. Benício del Toro e Regina Hall estão bem, mesmo em papéis secundários, a novata Chase Infinity brilha no terceiro ato do filme com uma força magnética; porém, os destaques do elenco são Sean Penn, como um antagonista que transita entre a hipocrisia e o cartunesco, e Teyana Taylor como Perfidia Beverly Hills, esposa de Bob e mãe de Willa, é uma força da natureza cativante.

O longa é uma parábola com várias camadas e significados, o abuso do poder, a falência das instituições, o preço da liberdade e da revolução, ou até mesmo uma batalha ao posto de “papai do ano”… Mas talvez a principal é como uma família pode ser fragmentada pelo poder abusivo do Estado contra sua mulheres, pessoas negras, imigrantes, pessoas LGBTQIAPN+, entre outros; e também como essa violência é informalmente normalizada. 

Se na primeira parte da narrativa acompanhamos a trajetória de Perfidia no auge do French ‘75, a segunda é focada na busca de Bob e Lockjaw, enquanto na terceira e última parte vemos a corrida de Willa para sobreviver. O roteiro de Anderson formaliza a relação entre família e Estado na própria estrutura da narrativa, em que temos uma hierarquia genealógica da tensão entre uma visão utópica e distópica do mundo. É dessa tensão que nascem as revoluções. E, se pensarmos no contexto político em que o filme está sendo lançado, é uma carta de amor aos idealistas e uma carta de ódio contra o governo atual.

Tal como Trama Fantasma (2017) e Licorice Pizza (2021), Uma Batalha é um dos filmes mais pessoais de PTA, porém, de certo, o seu mais político até aqui. Apesar do fôlego faltar um momento ou outro, o novo longa-metragem de Anderson é uma maratona, um épico moderno com toques de neo western; um cinema político engajante e dinâmico, cheio de personalidade e humor, longe de uma rigidez narrativa. Uma perseguição a um ideal, um filme de pai e filha, uma denúncia ao fascismo, uma pós tragédia, uma batalha pela sobrevivência contra um Estado assassino, um filme sobre a desilusão aos Estados Unidos. 

Não é à toa que a crítica está chamando o filme de “obra-prima” do cinema americano contemporâneo. Mas como foi dito antes, não é todo mundo que consegue enxergar os Estados Unidos do jeito que o PTA o faz e, por isso, ele tem a sua importância no cinema.


Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Invocação do Mal 4: O Últmo Ritual- OU DELÍRIO COLETIVO?

 

Invocação do Mal 4: O Último Ritual | Warner Bros. Pictures


Tudo que há de bom, tem que acabar. Em alguns casos, a bonança já foi embora algum tempo atrás…

 Um fenômeno do mundo do terror nasceu em 2013, uma assombração que pegou o público desprevenido e implorando por mais: a franquia Invocação do Mal (The Conjuring, no original), encabeçado pelo diretor James Wan, que pariu duas outras sagas do gênero, Jogos Mortais, em 2004, e Sobrenatural, em 2010. 

A série paranormal de filmes acompanha alguns dos casos mais espinhosos do casal Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga, respectivamente), especialistas, como eles dizem, do além e da demonologia. O primeiro filme arrecadou mais de 300 milhões de dólares mundiais contra um orçamento de 20, desencadeando, naturalmente, sequências e spin-offs interligados: como o da boneca Annabelle (2014-2019) e a demoníaca Valak, também conhecida como  A Freira (2018-2023). 

Os longas são dramatizações desses casos (o famoso/infame “baseado em fatos reais”) pela visão do casal, enraizada em crenças do catolicismo, que, por muito tempo, se envolveu em controvérsias sobre a documentação e veracidade dos fatos que tanto alegava para a mídia. Estas narrativas colocam os Warren como salvadores de um seio familiar diferente a cada filme, expurgando-lhes do mal que o devora por dentro: o caso da família Perron, no primeiro filme (2013); a possessão em Enfield, no segundo (2016); o julgamento de Arne Johnson, no terceiro (2021); e o poltergeist da família Smurl, agora nesta última parte (2025).

Ambientados nos anos 80, após os eventos do filme anterior, Ed e Lorraine Warren vivem uma pausa em sua carreira de investigadores paranormais, restringindo-se em realizar palestras sobre antigos casos, devido à problemas de saúde do patriarca. Lorraine começa a ter suspeitas de que a filha do casal, Judy (Mia Thomlison), que está prestes a se casar, esteja apresentando problemas em relação a sua mediunidade. Enquanto isso, em um subúrbio industrial da Pensilvânia, acompanhamos a assombração que atormenta os Smurl, uma família católica da classe operária; porém, a mesma entidade demoníaca tem uma ligação importante com o passado dos Warren e deseja reclamar Judy para si.

A franquia Invocação do Mal, desde os seus primórdios, usa da liberdade criativa, em graus variados ao longo dos filmes, para preencher as lacunas e incongruências dos relatos dos Warren e deixar a narrativa mais uniforme e linear; isto não é uma novidade. O que fez os primeiros capítulos desta saga funcionarem foram uma série de fatores estéticos e narrativos, muito além do “baseado em fatos”: a química entre Wilson e Farmiga como o casal de protagonistas; a direção afiada de James Wan que constrói com precisão a atmosfera sensorial da narrativa; o roteiro que desenvolve bem os personagens e arquiteta muito bem a suspensão da descrença, que é fundamental para um terror católico. 

Com a renovação da equipe criativa no terceiro filme -  sai Wan na direção e os irmãos Hayes no roteiro, respectivamente, e entra Michael Chaves e David Leslie Johnson-McGoldrick -  e duas das três qualidade citadas no parágrafo anterior são obliteradas por uma direção e um roteiro igualmente fracos. Deste modo, aproximando a qualidade da franquia principal com os seus derivados, que tiveram uma recepção mista em seus lançamentos. Agora, esta mesma equipe criativa tem a missão de encerrar o ciclo de narrativas dos Warrens, em um longa-metragem que promete muito e pouco se concretiza. Ou seja, o que não estava funcionando na obra anterior, ainda continua capenga.

Após a recepção divisiva de Invocação 3 entre críticos e fãs, principalmente pela estrutura de investigação procedural, a equipe, para este novo projeto, tenta a todo custo “voltar às origens”, ao estilo que fez a franquia ressoar bastante no público. Contudo, o filme apresenta uma narrativa que, ao mesmo tempo, é bastante redundante em si e mal desenvolvida ao ponto da franquia retomar a forma de outrora. 

Chaves tem uma direção mais direta e agressiva, cujo clima e tempo transcorrido é demasiado corriqueiro; enquanto o guião de Johnson-McGoldrick (e reescrito por Ian Goldberg e Richard Niang) é inflado, mas não tem muita sustância que o deixe firme. A interação entre os dois núcleos da trama é quase inexistente até o terceiro ato, deixando a sensação de que o espectador está assistindo a dois filmes completamente diferentes, amarrados de forma frouxa. 

Existe o sacrifício simbólico da relação entre os Warren e a família assombrada da vez, para focar na trajetória de Judy (e possível rosto do futuro da franquia), como uma vítima indefesa de uma possível e iminente tragédia, que é arquitetada pela obra. As relações interpessoais entre pessoas de diferentes contexto é substituída por um solipsismo piegas, projetado para a manipulação emocional escancarada do público. Os Smurl, como uma personagem coletiva, em contrapartida, são mal explorados aqui, uma escolha muito estranha; pois até o catolicismo é uma personagem mais proeminente na obra do que eles. O exagero na liberdade poética da produção acaba diminuindo o potencial narrativo e as situações parecem forçadas ao espectador, beirando ao sensacionalismo. A suspensão da descrença? Não existe aqui, desde que somos apresentados por uma cena com tons escancarados de “pró-vida” logo nos primeiros minutos. Que situação!

Apesar de ter poucos momentos bons, bem esparsos e todos envolvendo espelhos e cabos por sinal, os momentos de susto e de tensão são como uma piada sem graça: tem uma construção, mas não o punchline. Além disso, o filme usa referências e momentos dos capítulos anteriores como uma muleta: um punhado de truques baratos e soltos. Afinal, o longa não sabe se quer contar o caso ou ser uma homenagem que toma orgulho de se auto referenciar para agradar os fãs. São dois eixos que nunca acertam ao alvo, mas os quais a obra insiste em não querer largar a mão. 

O resultado final é um delírio maniqueísta que não consegue manter uma sobriedade, funcionando como um combustível reacionário de um conservadorismo religioso para questões atuais. É um filme que abraça e reforça a sua mediocridade narrativa e temática sem ter a vergonha de ser como tal; embalado como uma despedida a Wilson e Farmiga, como se fossem parte da sua família. A sensação que fica na boca é de um espectador que é obrigado a assistir ao final de novela religiosa da Record, enquanto mastiga cacos de vidro ao longo de sua enfadonha e incompreensível duração. A memória de que os filmes de Invocação foram minimamente bons, é coisa do passado. De certo, e sem chances de voltar atrás, essa franquia já virou um delírio coletivo.

                                                                  Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

Watchmen: Capítulo II (2024) - Entre máscaras que caem e deuses que se afastam, o mundo aprende o custo de ser salvo

Watchmen: Capítulo 2 | Warner Bros. Pictures Os ex-heróis aparentemente se tornaram alvos. Enquanto todos eles enfrentam a ética, demônios i...