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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Extermínio: O Templo Dos Ossos - Quando o apocalipse tem ótimas ideias, mas esquece de desenvolvê-las.

Extermínio: Templo dos Ossos | Sony Pictures


O Dr. Kelson se vê envolvido em um novo e chocante relacionamento com consequências que podem mudar o mundo como ele o conhece. Enquanto isso, o líder de uma seita Jimmy Crystal instiga medo e violência por onde passa.

O filme é uma continuação direta de Extermínio: A Evolução. Após um surto devastador do vírus da raiva, as ilhas Britânicas permanecem isoladas, e anos depois Spike vive com os pais em uma comunidade segura, mas conflitos familiares o fazem fugir com a mãe doente e gravida para o continente, onde enfrentam infectados e descobrem que ela sofre de câncer terminal; após sua morte, Spike recusa-se a voltar para casa, deixa o bebê recém nascido em segurança e segue sozinho, até ser encontrado por um grupo liderado por Jimmy Crystal, agora adulto, que representa uma nova ameaça. Pouco depois, Spike permanece em quarentena na Grã-Bretanha com esse grupo, os Fingers, uma gangue violenta que sobrevive pela intimidação e pela força, mas é instável e impulsiva: fisicamente fortes e organizados na violência, carecem de propósito, coesão moral e da habilidade de construir algo duradouro, tornando-se vulneráveis tanto à própria instabilidade quanto à humanidade daqueles que enfrentam.


Desde o primeiro filme da franquia, os infectados funcionam como gatilho narrativo, evidenciando como a sociedade, desprovida de qualquer estrutura, rapidamente mergulha no caos, como nos militares do filme original, após o colapso da civilização abandonam qualquer ética, agindo de forma brutal e autoritária sob o pretexto de reconstruir o mundo; atualmente, essa abordagem é recorrente em produções sobre zumbis, retratando um mundo sem leis no qual à máscara da humanidade é gradualmente removida, e nos convida, como espectadores, a sentir medo, compaixão e questionar como reagiremos se fôssemos colocados à prova em um cenário tão desolador.


Há uma sub-trama na narrativa sobre um grupo de sobreviventes que vive em uma fazenda, mas ela foi mal desenvolvida. Ela é introduzida com certo destaque, sugerindo que terá importância para o desenvolvimento da história ou para os temas centrais, mas essa expectativa não se sustenta ao longo da narrativa. Os personagens e o cenário são apresentados de maneira relativamente cuidadosa, criando a impressão de que haverá consequências ou desdobramentos relevantes.


No entanto, essa linha narrativa acaba servindo apenas como um evento pontual, sem impacto duradouro. Após cumprir sua função imediata, a sub-trama é deixada de lado e não volta a ser explorada, o que pode causar estranhamento no espectador. Essa escolha enfraquece a construção do enredo, pois transmite a sensação de que a fazenda foi usada apenas como um recurso momentâneo de tensão, e não como um elemento integrado à história maior. No fim, fica a impressão de uma ideia que parecia promissora, mas que foi apresentada e depois simplesmente ignorada.


A ideia de explorar o conflito entre fé e ciência em um cenário apocalíptico já é um tema bastante recorrente, mas ainda pode funcionar como um clichê empregado quando bem inserido. No entanto, em Extermínio: Templo dos Ossos, essa tensão se mantém superficial. Por um lado, temos o Dr. Ian Kelson, representante do raciocínio científico, que busca entender e curar os efeitos do Vírus da raiva no Alpha infectado Samson através de experimentos e manipulação química. Por outro lado, Jimmy Crystal e seu culto satânico simboliza uma forma distorcida de fé e fanatismo, usando a violência ritualizada como instrumento de poder. Apesar desse contraste aparente, o conflito entre ciência e crença não é desenvolvido de forma significativa. As interações entre Kelson e Jimmy — assim como entre os demais personagens — permanecem focadas na ação e na sobrevivência, sem que haja um verdadeiro debate filosófico ou moral sobre ética, racionalidade ou a natureza do mal. A ciência de Kelson é apresentada principalmente como uma ferramenta prática, enquanto o fanatismo de Jimmy é um motor para cenas de terror e caos. essa abordagem resulta em uma tensão que é funcional para o desenrolar da narrativa, mas que não se aprofunda. Os diálogos que mencionam o embate entre fé e razão aparecem apenas de maneira rápida e pontual, como ordens ou justificativas de personagens, e não evoluem para um conflito consistente ou reflexivo. Assim, o filme utiliza o contraste entre religião e ciência como pano de fundo estilístico, reforçando o clima de horror e a escalada da ação, sem transformar essa oposição em tema central ou questionamento moral relevante. Sendo assim, tocando na clássica dicotomia entre fé e ciência, mas apenas de forma superficial, como instrumento narrativo, sem explorar o potencial dramático ou filosófico que esse confronto poderia oferecer.


Extermínio: Templo dos Ossos mantém o clima de horror e violência característico da franquia ao mostrar como o colapso social expõe a fragilidade moral humana. Embora apresente personagens e ideias promissoras — como o conflito entre fé e ciência e novas comunidades de sobreviventes — o filme desenvolve esses elementos de forma superficial. Sub-tramas são abandonadas e temas centrais não se aprofundam, fazendo com que a obra funcione mais pela tensão e atmosfera do que pela reflexão consistente. O resultado é um filme eficaz no gênero, mas aquém do potencial que a sua proposta sugere.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Anaconda (2025) - Fazendo Cinema Até a Cobra Acordar

Anaconda(2025) | Sony Pictures


Os melhores amigos Griff e Doug partem para as selvas da Amazônia para filmar um reboot de seu filme favorito de todos os tempos, Anaconda. No entanto, a vida logo imita a arte quando uma anaconda gigantesca com sede de sangue começa a caçá-los.

Jack Black vive um cineasta tão obcecado por cinema que resolve arrastar uma equipe inteira para o território selvagem. O plano era fazer arte. O resultado? Uma criatura gigante, gritaria, correria e a ambição cinematográfica sendo atropelada pela luta básica pela sobrevivência. Pela sinopse, dá até a impressão de que estamos falando de King Kong (2005) — só faltou o macaco pegar o Oscar. Mas, calma: estamos diante de um reboot assumidamente auto-paródico de Anaconda. E, apesar da coincidência conceitual, as semelhanças com King Kong param por aí. Aqui, o filme abraça o exagero, ri de si mesmo e entende exatamente o tipo de diversão que quer entregar. Não é sobre grandiosidade épica, e sim sobre entretenimento descompromissado, consciente do próprio absurdo — e isso, curiosamente, acaba sendo seu maior acerto.

Doug (Jack Black) e Griff (Paul Rudd) querem realizar o sonho de filmar a cobra gigante, um desejo que nasce não apenas da ambição criativa, mas de uma amizade construída ao longo dos anos e sustentada por um amor sincero pelo cinema. Há algo de bonito — e ao mesmo tempo ingênuo — nessa parceria: dois amigos que acreditam no poder da arte mesmo quando a realidade insiste em mostrar seus limites. O filme observa essa relação com carinho, deixando claro que a paixão pelo cinema pode ser inspiradora, mas também cega, capaz de transformar entusiasmo em imprudência. É nesse equilíbrio entre afeto, ilusão e choque com o real que Doug e Griff se tornam mais humanos — e a história, mais interessante.

A geografia do filme é tratada com um descaso evidente, beirando o caricato. Ao chegar ao Brasil, é mostrado para o público o Rio de Janeiro e, em um corte abrupto, já estão imersos na Amazônia, como se a maior floresta tropical do mundo estivesse literalmente ao lado da cidade. Essa escolha não apenas ignora a imensa dimensão territorial do país, como também reduz o Brasil a um amontoado de cartões-postais genéricos, usados apenas como pano de fundo exótico para a trama. O problema não está na liberdade criativa — algo que o próprio filme abraça em outros aspectos —, mas na falta de intenção crítica ou humorística nesse erro específico. Diferente de uma sátira assumida, a sequência soa como desinformação pura, reforçando estereótipos antigos que o cinema estrangeiro insiste em reciclar, a comparação com o episódio polêmico de Os Simpsons é inevitável, episódio esse no qual eles vão para o Rio de janeiro e ocorre essa mesma falha geográfica. Esse equívoco quebra a imersão e evidencia uma negligência narrativa que contrasta com o cuidado que o filme demonstra em sua proposta metalinguística. É um detalhe que pode parecer pequeno, mas revela uma visão superficial do cenário retratado — e isso pesa negativamente no conjunto da obra.

Anaconda (2025) funciona melhor quando assume sua própria natureza exagerada e autoconsciente, encontrando força no humor, na metalinguagem e na relação afetuosa entre seus protagonistas. A paixão pelo cinema que move Doug e Griff dá ao filme um coração sincero, capaz de tornar o absurdo mais palatável e até cativante. No entanto, esse mesmo cuidado não se estende a todos os aspectos da produção. O tratamento superficial do Brasil e os deslizes geográficos evidenciam uma negligência que enfraquece a imersão e expõe velhos vícios do cinema estrangeiro. Assim, Anaconda (2025) se mantém como um entretenimento divertido e honesto em sua proposta, mas irregular: acerta ao rir de si mesmo, e tropeça quando prefere o estereótipo fácil ao olhar mais atento.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Chainsaw Man: O Filme – Arco da Reze – O Romance Sangrento Que Revela o Coração do Homem-Motosserra

Chainsaw Man: O Filme - Arco da Reze | Sony Pictures


Denji vive como o temido Homem-Motosserra, um jovem com coração de demônio que integra a Divisão Especial 4 de Caçadores de Demônios. Após um encontro marcante com Makima, a mulher de seus sonhos, ele busca refúgio da chuva e acaba conhecendo Reze, a misteriosa atendente de um café.

O arco dá continuidade de onde parou a primeira temporada, na qual somos apresentados a esse universo maluco com demônios e caçadores de demônios. Um desses caçadores é um garoto que se transforma em uma motosserra e usa esse poder para enfrentar os demônios. Em sua primeira temporada, eu não gostava do protagonista Denji pelo simples fato do objetivo dele ser apertar os seios femininos. Diferente de outros protagonistas de animes do gênero shounen — obras voltadas para meninos jovens —, que possuem metas capazes de fazer o público torcer para que eles consigam realizar seus sonhos, como em Naruto, em que o protagonista deseja se tornar Hokage (Título dado ao líder da vila onde ele mora, considerado o ninja mais forte do local e responsável por proteger e manter a paz dentro desse universo). 


Mas, apesar desse problema, Chainsaw Man impressiona pelas suas cenas de ação brutais e pela animação de altíssima qualidade. Cada batalha é coreografada de forma intensa e visceral, transmitindo perfeitamente o caos e a violência do mundo da obra. Os movimentos são fluidos, os cortes de câmera dinâmicos e o uso de efeitos visuais, como o sangue e as partículas de motosserra, cria uma sensação de impacto real em cada golpe. Além disso, o estúdio MAPPA faz um trabalho excepcional ao misturar animação tradicional com CGI, mantendo um visual cinematográfico e sombrio que combina perfeitamente com o tom do universo. As lutas não são apenas visualmente impressionantes, mas também carregadas de emoção e desespero, reforçando a brutalidade e a humanidade dos personagens.


Este arco, diferente dos anteriores na primeira temporada, adiciona o gênero romance — mas não é aquele tipo de romance à la Makoto Shinkai, diretor de Kimi no na Wa e Suzume, ou de qualquer outro filme romântico tradicional, do tipo bonitinho em que o público torce para que o casal fique junto. Este arco aprofunda os sentimentos do protagonista de uma forma muito mais humana. Na primeira temporada, Denji demonstrava afeto principalmente por Pochita — o demônio da motosserra que era seu fiel “bichinho de estimação” — e por Makima, sua chefe, por quem nutria uma paixão confusa e imatura, muitas vezes movida pelo desejo físico. 


Enquanto enfrentava demônios, ele parecia não se importar com as pessoas que acabava salvando, dizendo que não estava nem aí — mas, no fim, sempre as salvava. No entanto, esta nova fase mostra um Denji mais introspectivo, começando a lidar com emoções que ele próprio não entende completamente. O filme retrata isso de maneira delicada, em cenas como a de Denji e Makima no cinema, assistindo a diferentes tipos de filmes. Enquanto as pessoas ao redor choram em um momento emocionante, Denji se vê incapaz de compreender por que todos estão tristes — e essa falta de entendimento revela não frieza, mas uma inocência dolorosa de alguém que nunca teve espaço para sentir. 


Essa sequência é simples, mas profundamente simbólica: mostra que Denji, acostumado à violência e à sobrevivência, ainda está aprendendo o que significa ser humano. É uma abordagem sensível e surpreendentemente poética, que toca o espectador e faz com que vejamos o protagonista sob uma nova luz — não mais como o caçador impetuoso, mas como um jovem em busca de um coração que possa finalmente entender o que é amar e ser amado.


O filme adiciona uma camada de terror centrada na personagem Reze, cuja presença traz uma tensão constante à história. À primeira vista, ela parece uma garota doce e misteriosa, mas aos poucos o espectador percebe que há algo profundamente inquietante em sua natureza. Essa dualidade — entre o charme e o perigo — cria um clima de suspense que se aproxima do terror psicológico. Reze é imprevisível, e cada gesto seu carrega a sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, tornando suas cenas intensas e perturbadoras.


Apesar da profundidade que a personagem Reze traz à narrativa, suas roupas acabam seguindo um padrão bastante comum em animes: a sexualização feminina desnecessária. Seu figurino, composto por roupas curtas e justas, parece mais voltado para destacar seu corpo do que para refletir sua personalidade ou tom sombrio da história. A sensualidade poderia ter sido utilizada de forma mais sutil e simbólica, como parte do charme e da ambiguidade natural da Reze, sem recorrer à exposição gratuita. Essa escolha estética acaba reforçando um estereótipo recorrente nessas produções, em que personagens femininas complexas ainda são retratadas através de um olhar masculino que reduz seu impacto emocional. Mesmo assim, a personagem consegue se sobressair como figura marcante e trágica, o que só reforça de que ela merecia um tratamento visual mais condizente com a força e a sensibilidade de sua história.


Chainsaw Man: O Filme - Arco da Reze continua o universo de demônios e caçadores com Denji, o Homem-Motosserra, agora mais introspectivo e humano. O arco combina ação brutal, animação impressionante e momentos de romance e terror, explorando a complexidade emocional do protagonista e de personagens como Reze. Apesar da sexualização desnecessária de Reze, sua presença adiciona tensão e profundidade à narrativa. No geral, a obra equilibra violência, emoção e suspense, mostrando que até em um mundo caótico é possível contar histórias que tocam e fazem refletir sobre humanidade e sentimentos.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Twinless (2025) - O Vazio da Alma Gêmea

Twinless (2025) | Sony Pictures

A primeira cena oculta a ação dos olhos do espectador, no entanto, depredemos que ocorreu um acidente de trânsito, antes a edição nos transportar para um funeral. Roman (Dylan O'Brien) perdeu seu irmão gêmeo gay, Rocky, naquele acidente. A situação é triste e extremamente desconfortável para ele. Não só porque todos os presentes ali o deixam assim, mas o Roman tá passando por um luto brutalíssimo, no qual a dor e a raiva dele são uma única coisa. A morte do irmão é como se tivessem tirado parte de sua própria identidade afetiva.  

Aos trancos e barrancos, ele busca alternativas de lidar com esse período e ele começa a frequentar um grupo de apoio de pessoas que perderam seus irmãos gêmeos. Lá, ele conhece o Dennis (James Sweeney), um rapaz tímido e taciturno que parece a se afeiçoar ao Roman desde o primeiro instante, sendo muito solicito e agradável. Por sua vez, Roman projeta um sentimento fraternal no Dennis, pois ele acaba correlacionando algumas coisas neste novo amigo com o irmão dele. Porém, a sinergia que há entre dois nunca tá bem calibrada de fato, e o motivo que haver com o acidente de Rocky.

Twinless (2025) é o longa-metragem dirigido e escrito por James Sweeney, lançado no Festival de Sundance deste ano e conquistou o prêmio popular. O realizador já tinha feito outros projetos, mas este aqui catapultou o nome dele. Quando um artista tem várias funções múltiplas dentro e fora da câmera, o resultado nem sempre é bom ou é considerado um "projeto de vaidade". O caso de Twinless é o contrário, Sweeney tem um bom senso de direção e o seu roteiro possui uma escrita inteligente e "quirky" e trabalha muito em cima da tensão que existe entre as duas protagonistas.

 Existem dois pontos de vista que a narrativa se divide que guiam a trama: a do Roman e a do Dennis; inclusive, quando ocorre a mudança desse pov, a chave da história que estava sendo contada até aqui muda drasticamente, em uma sequência de erros consecutivos que levam ao início da narrativa. Dylan O'Brien é o coração do filme, enquanto James Sweeney é o ponto central. A obra não funcionaria sem um ou outro. 

O'Brien traz camadas muito diversas e eficazes nos dois personagem que interpreta: traz á tona todo luto e confusão que assola Roman, enquanto traz uma personalidade mais confiante e sexualmente aparente como Rocky. Por outro lado, Sweeney tem a performance de uma pessoa solitária (possivelmente neuro divergente) e anseia por uma conexão para preencher um vazio existencial; ao mesmo tempo que sua personagem seja arrogante e condescendente com os outros ao seu redor, em especial com Marcie (Aisling Franciosi), sua colega de trabalho. 

Há uma química muito palpável entre os atores principais seja em contexto de amizade, seja em um contexto mais íntimo. A situação entre os dois muda quando Dennis deixa alguém de sua vida entrar no caminho de Roman, arriscando mudar a percepção e a providência de sua relação. A partir desse ponto, começa um jogo de sedução e culpa que irá, eventualmente, afetar a amizade existente entre as protagonistas. Sweeney trabalha com temas complexos que o roteiro tenta balancear entre o drama e a comédia, sem que um tom não sobreponha ao outro. Enquanto o retrato de luto é convincente em sua abordagem, o debate mesmo é como o público irá reagir pelas ações egóicas e problemáticas de Dennis que, apesar do roteiro mostrar de onde a personagem parte emocional e mentalmente, beiram ao invasivo e o antiético. 

Twinless não só marca bem essa fronteira com também a bagunça e revira de ponta cabeça, entre o ser e o não ser, a verdade e a mentira. Somente superando essa barreira é que Roman e Dennis podem finalmente entrar em sincronia. Certamente, é um filme que vai dialogar mais com certas bolhas e gerações do que outras.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 27o Festival do Rio, realizado em 2025, visto em cabine de imprensa.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

A Grande Viagem Da Sua Vida (2025) - Entre o real e a performance

 

A Grande Viagem da Sua Vida | Sony Pictures

Nos primeiros minutos do filme, conhecemos David (Colin Farrell), um homem balzaquiano, solteiro, preparando-se para ir a um evento. Ele descobre que o carro dele foi multado e vai até uma agência, muito suspeita por sinal, para alugar um automóvel. A atendente da empresa (Phoebe Waller-Bridge) é bem peculiar, trata David, um cliente, como se fosse uma diretora de casting, e oferece um modelo de carro antigo com GPS a ele.

David, não tendo outra alternativa, aluga o carro e chega ao evento: um casamento de um amigo, no qual ele nota Sarah (Margot Robbie), pela primeira vez. Eles acabam se conhecendo um pouco e há uma certa química no ar; mas, como os dois são emocionalmente indisponíveis, há também uma certa distância. A partir do ponto em que o GPS do carro de David sugere que ele tem de socorrer Sarah, cujo automóvel para de funcionar no meio do caminho, e seguir por meio de uma jornada mística, o nosso filme, de fato, começa.

A Grande Viagem Da Sua Vida (2025) é o novo filme dirigido pelo Kogonada, de Columbus (2017) e After Yang (2021); e quem conhece o trabalho do diretor vai notar que este lançamento da Sony é, ao mesmo tempo, uma mudança de ângulo e uma continuação temática de sua filmografia. Kogonada tem um profundo olhar estético do cinema como forma: o modo que decupa, filma e edita é formidável; e seus filmes de ficção buscam pela essência das relações humanas ou/e pelo sentimento de humanidade. 

O roteiro assinado Seth Reiss, de O Menu (2022), se apropria de arquétipos e de metáforas já manjadas para criar novas ideias mais interessantes, apesar do texto soar muito como livro de autoajuda em um momento ou outro; muito açucarado para o meu gosto. Porém, a abordagem da narrativa através do fantástico talvez seja o maior trunfo do roteiro, já que as regras do mundo dito real não se aplicam na lógica da obra e permite novas camadas a serem exploradas.

A viagem que David e Sarah embarcam é para dentro de si e de entender qual é o próprio papel em sua respectiva narrativa. São pessoas diferentes: ele aparenta ser mais soturno, ela bem solar. David foi uma criança superprotegida pelos pais, tem problemas com rejeição e um complexo de conquistador; enquanto Sarah tem questões pessoais mal resolvidas por não estar presente e se culpa eternamente por isso, levando a não criar nenhum vínculo emocional com ninguém. Para poderem se conectar e se misturar, eles precisam justamente entrar em seus próprios mundos e olhar para a pessoa que um dia foram com outro par de olhos. 

David e Sarah são tratados como dois performers que ainda não acharam a identidade de suas personagens, e, portanto, não podem começar um relacionamento. Há um jogo bastante interessante aqui. O amor não é só um sentimento, mas também uma performance afetiva. Por trás da fantasia, há um jogo de cena em que precisam tomar partido. 

As protagonistas acabam encarando recriações de seus passados para conseguir ter o vislumbre de como devem agir, sentir e portar em sua performance. O amor torna-se a fantasia que David e Sarah devem justamente incorporar; e, a cada porta que abrem, eles ficam a passos mais próximos, ou distantes, de não só se conectarem, mas de transformar essa fantasia em realidade. Esse jogo metalinguístico, mesmo que sutil, se torna mais claro ao espectador à medida que a narrativa se desenrola. Estariam eles se apaixonando ou próximos de interpretar uma versão apaixonada de si mesmos?

Em mãos menos habilidosas, A Grande Viagem poderia se tornar um filme bem qualquer coisa, pesando a mão no sentimentalismo barato em busca de uma “edificação” do espírito; mas Kogonada soube bem equilibrar o tom meio “sessão da tarde” com o existencialismo, muito próximo de seus projetos anteriores. O diretor cria toda uma atmosfera colorida, cheia de vida, mas traz consigo a sensação da distância, do silêncio, das pausas e do uso da trilha sonora do fabuloso compositor Joe Hisaishi, dando um ar mais sofisticado à narrativa.

Apesar do filme ser um experimento voltado ao mainstream, nem tudo no filme funciona como esperado e, por sinal, alguns pontos chegam a ser rasos; mas ainda há uma sinergia em tela que não deixa o longa afundar dentro de si tão profundamente. Farrell e Robbie parecem estar confortáveis com seus papéis, caindo de cabeça no conceito da trama e suas variantes, e sem a química que há entre eles, a história não funcionaria desde o início. 

A Grande Viagem é aquele tipo de “filme conforto” que, entre acertos e tropeços, atinge de alguma forma o espectador que está disposto a embarcar na jornada. É necessário um pouco de paciência, mas o caminho vale a pena.


Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd

Os Assassinos (1964) - O Parasitismo Capitalista Pintado com Sangue e Luz

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