terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Os Assassinos (1964) - O Parasitismo Capitalista Pintado com Sangue e Luz

 

Os Assassinos | Universal Pictures

A obra de Don Siegel é um remake do filme de 1946, dirigido por Robert Siodmak e estrelado por Burt Lancaster. Em ambas as obras, existe uma resposta direta sobre a situação dos Estados Unidos em seus respectivos momentos. Enquanto a versão de 1946 é um filme Noir que carrega o pessimismo de uma era de violência que tomava conta do país e sobre a desonestidade das relações humanas em um momento de incertezas por conta da pós Segunda Guerra Mundial e entrando na Guerra Fria, a versão de Don Siegel apresenta uma versão onde a violência aqui se apresenta mais visceral e sem rodeios. Siegel é tão certeiro no que queria dizer, que não esperou 10 minutos para matar um dos personagens de melhor índole naquele cenário. 

Nossos protagonistas são 2 homens, o mais experiente e com mais idade, Charlie Strom(interpretado pelo ator Lee Marvin), e seu parceiro, um jovem sádico chamado Lee(interpretado pelo Clu Gulager). Quando ambos fazem o trabalho que foi pedido, matar um homem que fugiu com 1 milhão de dólares de um assalto em uma casa de assistência para pessoas cegas, nosso protagonista mais experiente fica perplexo em perceber que tal figura não fugiu e nem esboçou nenhuma reação quando viu ambos personagens com suas armas apontadas para ele e prontos para disparar. 

Esse homem, Johnny North(interpretado pelo ator e diretor John Cassavetes), nossa primeira vítima do filme, é a representação perfeita do cidadão norte americano cansado das promessas de uma vida promissora e de um amor honesto, sua jornada em cima de fashblacks contados por aqueles que estavam com ele nos últimos momentos, mostram seu cansaço em até tentar pensar em se salvar diante os homens armados. North é a imagem perfeita do cansaço do cidadão comum dentro do Sonho Americano. 

Enquanto a jornada de Lancaster no filme original, mostra uma história linear que no final tem a reviravolta de uma traição, Siegel aqui decide seguir um caminho completamente oposto. Esquece o Noir, nossa narrativa acontece 90% do tempo à luz do dia, filme completamente colorido e com o sangue a mostra. Enquanto o filme original é uma resposta de uma época corrupta e violenta dos Estados Unidos, Don Siegel faz uma versão onde tudo isso resulta em uma hipocrisia dentro de um cenário estético. Anos 60, começa uma revolução cultural e social, Nova Hollywood e a era dos hippies, além da grande leva de pessoas sendo contra a guerra do Vietnã, e é exatamente por conta disso que Siegel decide seguir sua linha estética. 

Produções Hollywoodianas imensas e recheadas de cores, junto com muito carisma e dança, completamente desproporcional ao que o povo Americano vivia. A violência, a corrupção e o desemprego voltavam a ficar em alta e o Sonho Americano se encontrava completamente desbotado. Siegel mostra a violência pairando todo o país com dois personagens sem escrúpulos e certos de que a violência é a melhor resposta para todas as ocasiões. E oque faz a tensão do filme chegar ao ápice é saber que eles não se encontram sozinhos na forma de agir. Os personagens funcionam em sua maioria parasitando aquele que for de melhor serventia, e aqueles com um pingo de humanidade são mortos, ou e afogam em um alcoolismo enrustido, como o caso do amigo e parceiro de trabalho de North, o mecânico Earl(interpretado pelo ator Claude Akins). 

Quando chegamos na conclusão da obra, todos foram aniquilados em sua maioria. Nosso assassino mais experiente carrega a mala de dinheiro com todas as suas forças, invés de tentar ter forças para ficar em pé, ele a coloca por inteiro em seus braços. Charlie se rasteja com um pouco de ajuda de suas pernas em movimento com o sangue que o faz escorregar, até ele desistir de sua arma e conseguir se levantar com a mala. Infelizmente, no momento que ele começa a caminhar, o som de uma viatura policial se aproxima, seu corpo começa a rodopiar até cair morto por completo com a maleta aberta e com o dinheiro voando. Nessas últimas cenas, Siegel cumpre sua promessa com a primeira cena da violência e da morte como ciclo vicioso e sem piedade. Novatos e experientes, todos se encontram no mesmo barco que se afunda e sem esperança enquanto a solução for quem vai levar mais em meio a tormenta. 

Don Siegel mostra o retrato da cobiça e da decadência do capitalismo dentro das relações sociais e afetivas entre seres humanos lutando e sugando até a última gota do que poderia sobrar e humanidade para sobreviver em tal cenário. E para aqueles que não suportam viver nessa mentira em cores, só espera o inevitável chegar sem fugir, e sem lutar. North é a resposta da bondade humana em exaustão. 

TEXTO DE ADRIANO JABBOUR 

Extermínio: O Templo Dos Ossos - Quando o apocalipse tem ótimas ideias, mas esquece de desenvolvê-las.

Extermínio: Templo dos Ossos | Sony Pictures


O Dr. Kelson se vê envolvido em um novo e chocante relacionamento com consequências que podem mudar o mundo como ele o conhece. Enquanto isso, o líder de uma seita Jimmy Crystal instiga medo e violência por onde passa.

O filme é uma continuação direta de Extermínio: A Evolução. Após um surto devastador do vírus da raiva, as ilhas Britânicas permanecem isoladas, e anos depois Spike vive com os pais em uma comunidade segura, mas conflitos familiares o fazem fugir com a mãe doente e gravida para o continente, onde enfrentam infectados e descobrem que ela sofre de câncer terminal; após sua morte, Spike recusa-se a voltar para casa, deixa o bebê recém nascido em segurança e segue sozinho, até ser encontrado por um grupo liderado por Jimmy Crystal, agora adulto, que representa uma nova ameaça. Pouco depois, Spike permanece em quarentena na Grã-Bretanha com esse grupo, os Fingers, uma gangue violenta que sobrevive pela intimidação e pela força, mas é instável e impulsiva: fisicamente fortes e organizados na violência, carecem de propósito, coesão moral e da habilidade de construir algo duradouro, tornando-se vulneráveis tanto à própria instabilidade quanto à humanidade daqueles que enfrentam.


Desde o primeiro filme da franquia, os infectados funcionam como gatilho narrativo, evidenciando como a sociedade, desprovida de qualquer estrutura, rapidamente mergulha no caos, como nos militares do filme original, após o colapso da civilização abandonam qualquer ética, agindo de forma brutal e autoritária sob o pretexto de reconstruir o mundo; atualmente, essa abordagem é recorrente em produções sobre zumbis, retratando um mundo sem leis no qual à máscara da humanidade é gradualmente removida, e nos convida, como espectadores, a sentir medo, compaixão e questionar como reagiremos se fôssemos colocados à prova em um cenário tão desolador.


Há uma sub-trama na narrativa sobre um grupo de sobreviventes que vive em uma fazenda, mas ela foi mal desenvolvida. Ela é introduzida com certo destaque, sugerindo que terá importância para o desenvolvimento da história ou para os temas centrais, mas essa expectativa não se sustenta ao longo da narrativa. Os personagens e o cenário são apresentados de maneira relativamente cuidadosa, criando a impressão de que haverá consequências ou desdobramentos relevantes.


No entanto, essa linha narrativa acaba servindo apenas como um evento pontual, sem impacto duradouro. Após cumprir sua função imediata, a sub-trama é deixada de lado e não volta a ser explorada, o que pode causar estranhamento no espectador. Essa escolha enfraquece a construção do enredo, pois transmite a sensação de que a fazenda foi usada apenas como um recurso momentâneo de tensão, e não como um elemento integrado à história maior. No fim, fica a impressão de uma ideia que parecia promissora, mas que foi apresentada e depois simplesmente ignorada.


A ideia de explorar o conflito entre fé e ciência em um cenário apocalíptico já é um tema bastante recorrente, mas ainda pode funcionar como um clichê empregado quando bem inserido. No entanto, em Extermínio: Templo dos Ossos, essa tensão se mantém superficial. Por um lado, temos o Dr. Ian Kelson, representante do raciocínio científico, que busca entender e curar os efeitos do Vírus da raiva no Alpha infectado Samson através de experimentos e manipulação química. Por outro lado, Jimmy Crystal e seu culto satânico simboliza uma forma distorcida de fé e fanatismo, usando a violência ritualizada como instrumento de poder. Apesar desse contraste aparente, o conflito entre ciência e crença não é desenvolvido de forma significativa. As interações entre Kelson e Jimmy — assim como entre os demais personagens — permanecem focadas na ação e na sobrevivência, sem que haja um verdadeiro debate filosófico ou moral sobre ética, racionalidade ou a natureza do mal. A ciência de Kelson é apresentada principalmente como uma ferramenta prática, enquanto o fanatismo de Jimmy é um motor para cenas de terror e caos. essa abordagem resulta em uma tensão que é funcional para o desenrolar da narrativa, mas que não se aprofunda. Os diálogos que mencionam o embate entre fé e razão aparecem apenas de maneira rápida e pontual, como ordens ou justificativas de personagens, e não evoluem para um conflito consistente ou reflexivo. Assim, o filme utiliza o contraste entre religião e ciência como pano de fundo estilístico, reforçando o clima de horror e a escalada da ação, sem transformar essa oposição em tema central ou questionamento moral relevante. Sendo assim, tocando na clássica dicotomia entre fé e ciência, mas apenas de forma superficial, como instrumento narrativo, sem explorar o potencial dramático ou filosófico que esse confronto poderia oferecer.


Extermínio: Templo dos Ossos mantém o clima de horror e violência característico da franquia ao mostrar como o colapso social expõe a fragilidade moral humana. Embora apresente personagens e ideias promissoras — como o conflito entre fé e ciência e novas comunidades de sobreviventes — o filme desenvolve esses elementos de forma superficial. Sub-tramas são abandonadas e temas centrais não se aprofundam, fazendo com que a obra funcione mais pela tensão e atmosfera do que pela reflexão consistente. O resultado é um filme eficaz no gênero, mas aquém do potencial que a sua proposta sugere.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Marty Supreme (2025) Corre Adoidado, Mas Não Sabe o Que Quer da Vida

 

Marty Supreme (2025) | Diamond Films

Sensação da temporada de premiações de 2025-26, chega aos cinemas brasileiros o longa-metragem Marty Supreme (2025), do diretor Josh Safdie, e encabeçado por Timothée Chalamet. O personagem principal, Marty Mauser, é levemente inspirado na figura do jogador de tênis de mesa Marty Reisman, embora que o filme se passe no âmbito ficcional do que no biográfico; pois, embora inspirado, Mauser é um (anti)herói safdieniano com todos seus trejeitos e manias.

 Ambientado durante os anos 1950, o filme acompanha a trajetória do jogador de tênis de mesa nova iorquino Marty Mauser (Chalamet) e a busca de saciar a sede de ser tornar um dos maiores nomes de sua modalidade. Seu percalço aumenta quando este perde uma importante partida em torneio na Inglaterra contra um oponente japonês, Endo (Koto Kawaguchi), dificultando um importante patrocínio de um magnata (Kevin O'Leary), que envolve o orgulho de Mauser; e, também, quando descobre que não possui mais os recursos para um campeonato mundial no Japão. Para piorar a situação, o jovem atleta descobre que engravidou uma amiga próxima a ele, Rachel (Odessa A'Zion), enquanto mantem um caso com a esposa do magnata, Kay Stone (Gwyneth Paltrow), uma socialite e atriz de cinema que tenta se reinventar na carreira.

 Josh Safdie não é estranho com filmes, cujos protagonistas são empurrados ao limite diante das circunstâncias do mundo; afinal ele e seu irmão, Benny, dirigiram filmes como Good Time (2016) e Joias Brutas (2019), que tinham essa mesma característica em comum. Porém, agora, a dupla de irmãos se separou, e parte do que funcionava nessa abordagem de narrativa e de estudo de personagem se dissipou um pouco. Visto como um "americano mimado", de acordo com uma das personagens, Marty Mauser é o tipo de pessoa egocêntrica que suga todas ao seu redor para um vórtex de perdição própria, ao envolvê-las em suas artimanhas para seguir com seu sonho.

Contudo, a direção de Safdie não consegue decidir se Mauser é uma personagem trágica ou patética dentro do escopo da narrativa: o roteiro, coescrito pelo realizador e o colaborador Ronald Bronstein, direciona para um leitura crítica e ácida, porém a performance de Chalamet, faz o oposto, engrandecendo-o pela sua pequenez. É notável a construção de uma personagem contraditória, cheia de ideais e defeitos, mas a conta dessa operação artística não fecha. Ao mesmo tempo que existe a fascinação com o protagonista, há também uma grande apatia e um desejo secreto do espectador de que ele fracasse de forma espetacular. 

E talvez, esse seja o propósito. Será que é possível amar alguém tão centrado em si mesmo e que usa as pessoas para tirar proveito da situação? No entanto, não me faltou nada além de uma apatia imensa a essa figura central. Talvez seja da forma que Mauser é escrito, ou talvez seja por causa da autoconfiança exacerbada da atuação de Timothée Chamalet que molda uma personagem tão insuportável para um parcela da população. O que existe de carisma, também há de arrogância, e a atuação de Chamalet vai de um extremo ao outro como uma bola de tênis de mesa. 

Apesar do roteiro de Safdie e Bronstein ter uma estrutura de interconexão entre vários arcos de personagens até cuidadosa, o argumento não consegue manter o fôlego durante sua duração: há muitas ideias e prioridades não tão confiantes nelas; na minha opinião, como crítico e escritor, é que algumas subtramas poderiam ter sido cortadas ou reformuladas, como a do mafioso interpretado por Abel Ferrara, com o intuito de deixar a ritmo narrativo mais claro. Porém, isso seria contra as concepções de escala épica do projeto que retroalimenta um imaginário oriundo de cineastas da Nova Hollywood como Scorsese e Coppola, por exemplo. 

O problema, neste caso, é que o filme se afunda em uma mitologia imagética própria da filmografia de Safdie, sem a renovação ou a inovação que dá uma identidade única ao projeto, o que acarreta comparações com trabalhos anteriores, como em Joias Brutas, cuja tensão crescente era melhor arquitetada do que aqui. Portanto, uma questão puramente epistemológica e no âmbito de seu discurso. 

A direção criativa precisa decidir se deve recriar passagens das memórias de Reisman, como em várias passagens que envolvem partidas de apostas, shows de variedades e contextos de campeonatos, com a construção safdieniana de personagens dúbios e escandalosos. Contudo, as escolhas feitas me parecem um pouco contraditórias e nem sempre satisfatórias, pois Safdie não consegue achar um meio-termo ideal entre o real e o ficcional. Talvez se a construção de Marty se inclinasse ao ficcional e fosse mais dúbia e sacana, de um modo mais sutil, a narrativa teria ganho níveis absurdos de nuance e de interesse.

Ademais, as decisões tomadas no terceiro ato da narrativa acabam por enfraquecer toda a ironia e crítica ao um específico sentimento americano que se vinha construindo até então, ao abraçar, para a redenção, ou não, talvez anticlimática da protagonista, a partir do aspecto paternal. Uma analogia a este caso seria de uma piada acabou se perdendo a graça antes/ou durante do punchline; pois, não se sabe, se tal benevolência faz parte do humor de Safdie ou se existe uma "mea culpa, mea maxima culpa" por parte da equipe criativa com a personagem. (Pessoalmente, acredito que seja uma mistura de ambos.)

O que, honestamente, é uma pena, pois de talentos o filme não falta: seja pela trilha de Daniel Lopatin (algum fã de Oneohtrix Point Never aqui?), ou seja a fotografia panorâmica em 35mm com cores e texturas de Darius Khondji que nos transporta ao passado, ou seja pelo elenco calibrado reunido aqui. Odessa A'Zion tem um papel importante na narrativa que demanda uma complexidade de sua interprete, que a encarna com todas as dimensões; enquanto isso, Gwyneth Paltrow tem aqui um dos melhores papeis de sua carreira: uma mulher madura, que consegue enxergar através das outras pessoas, mas que ainda possui um pouco de ingenuidade na sua aura; o que combina bem com o perfil da atriz dentro e fora das câmeras...  

A questão é que o filme tem muitas ideias e momentos a seu favor, como o energético torneio do British Open, todas as cenas entre Chalamet e Paltrow, e até mesmo uma cena queer coded que envolve mel (ótima por sinal!), por exemplo; mas, diante de tudo isso, falta uma direção que as deixem uma narrativa afiada. Não desejo por uma abordagem palatável (isso nunca!), porém uma condução que evita convenções do drama americano e que não tem medo afundar nas ironias cruéis da vida.  A sensação de assistir Marty Supreme é de atirar em um grande alvo à distância, mas sem a coordenação de conseguir acertar o centro. Mauser faz os seus corres, corre adoidado, causa destruição e caos aonde passa, mas, no fundo, não sabe o que quer realmente da vida. 

O golpe da bola laranja tá aí, cai quem quer.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


 

Os Assassinos (1964) - O Parasitismo Capitalista Pintado com Sangue e Luz

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