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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) e o Medo do Inconsciente

 

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) | Imagem Filmes

O conceito de espaços liminares se tornou uma estética bastante recorrente na internet, influenciando o gênero de suspense e horror, com histórias envolvendo creepypastas e lendas urbanas: um espaço amplo, vazio, muitas vezes abandonado, quase familiar dentro de uma memória coletiva, uma nostalgia por uma época relativamente próxima, mas não vivida; porém desorientador, silencioso, manipuladora das percepções humanas, e lar para o desconhecido... Um medo (talvez ou não) irracional do vazio. 

Quando o jovem Kane Parsons lançou um found footage no YouTube chamado The Backrooms (2022), o vídeo se tornou uma fenômeno cultural com mais 70 milhões visualizações na plataforma. Com o sucesso do primeiro vídeo, Parsons continuou a explorar esse universo em outros vídeos, disponíveis em seu canal, chamando a atenção dos estúdios e produtoras de cinema estadunidenses. Porém, a bolha cinéfila foi pega de surpresa quando, pouco tempo depois, a A24 anunciou que estava desenvolvendo um filme baseado no universo de Backrooms, dirigido por Parsons (na época, com cerca de 18 anos; agora com 21!), com produção de nomes como Shawn Levy, James Wan e Osgood Perkins, e estrelado por dois atores de peso: Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve. De certo, sejam os céticos e/ou os curiosos, todos começaram a ficar curiosos para ver o resultado final.

A ação se passa nos anos 90, Mary (Reinsve) é uma psicóloga que ainda carrega traumas do passado, ligados à sua casa de infância, enquanto que seu paciente Clark (Ejiofor) é um arquiteto frustrado que nunca conseguiu seguir seus sonhos que trabalha em uma loja de móveis falida. Após uma série de incidentes, Clark descobre uma passagem secreta que dá para um labirinto infinito de salas, reproduzindo uma realidade distorcida do mundo real. Após seu paciente ficar cada vez mais envolvido com esse microcosmo, Mary vai atrás dele e adentra nesse universo.

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) é um filme que se destaca pelo visual, a justaposição entre o mundo real com uma variedade de cores e tons e o labirinto minimalista com tons amarelados de sinestesia nauseante, e pelo sensorial, o folley e a edição de som são importantes para imersão do expectador. Parsons, que estreia na direção, parece estar confiante com o universo, no qual desenvolveu durante anos, e acredito que se beneficiou da experiência ao máximo. Não posso ainda dizer se ele é ou não um bom diretor, pois ainda é muito cedo para fazer tal declaração direta, e talvez reducionista; mas parece segurar bem a onda aqui. Seu trabalho, embora estamos falando de uma nova IP com chances (caso fizer sucesso nas bilheterias mundiais) de se tornar um carro chefe de uma nova franquia para um estúdio norte-americano, transborda um certo carinho e atenção aos detalhes estéticos e jogo de linguagens cinematográficas em uso. Em suma, é uma direção segura no que pretende.

Visual e esteticamente falando, o filme se garante; porém talvez seu ponto fraco esteja no roteiro da obra, que utiliza das caraterísticas conceituais do universo como parte de uma metáfora situacional para suas personagens, mas nem sempre consegue desenvolver seus temas de forma orgânica, principalmente no terceiro ato, quando o filme começa a flertar com o onírico, enquanto tenta enquadrar com uma subplot que envolve uma teoria da conspiração. O texto não é ruim, mas talvez a relação entre o inconsciente das personagens com a genealogia do backrooms pode ser, ao mesmo tempo, algo fascinante ou um pouco básico (afinal, estamos falando de um filme da A24), dependendo do espectador. Este crítico, tende para o primeiro lado; pois é o ponto em que se sustenta parte do horror do filme: o da percepção da mente humana em situações austeras e da ressignificação dos pesadelos. Quando o filme afunda dentro da própria loucura, ele acaba se tornando mais envolvente com o desenrolar das ações.

Para além da direção confiante de Parsons, o que ajuda elevar uma narrativa fragilizada é o combo de atuações de Ejiofor e Reinsve, que, com todos seus talentos em cena, elevam a dinâmica entre as personagens e parte do desenvolvimento pessoal de cada uma. Se suas características parecem bastante unidimensionais no papel, em cena, com estes intérpretes, a ideia ganha matéria e, portanto, suas crises parecem, ao público, reais. E diante do improvável, lentamente, o chão afunda e a realidade começa a se dissipar. Há uma cena bastante interessante que acontece no primeiro ato e acaba reaparecendo no terceiro, em uma mise en scène que me lembrou um pouco com o clímax de Massacre da Serra Elétrica de Tobe Hooper (1974): uma conversa entre a duas personagens, o texto é quase idêntico, porém o ambiente e a situação mudam o tom dessa interação espelhada. O irreal e real acabam, então, por se confundir e criar um entremeio. Se não fosse pelo trabalho dos atores, talvez o resultado poderia ser didático ou superficial demais, para um espectador com olhos já treinados para filmes de terror com um ângulo dramático acentuado.

Como um filme de estreia, Backrooms (2026) é uma obra eficiente que se debruça a explicar e explorar sua própria mitologia para seu público. Quem for fã da estética, ou do gênero, ou quem tiver uma mente mais aberta para ideias inusitadas, pode aproveitar mais o filme do que o espectador mais cético.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Mortal Kombat 2 - Entre fatalidades e fan service, o filme encontra sua força

Mortal Kombat 2 | Warner Bros. Pictures


Johnny Cage se junta a outros lutadores na batalha definitiva, sem regras, para derrotar o domínio sombrio de Shao Kahn, um poderoso tirano que ameaça a própria existência do Plano Terreno e seus defensores.

Os jogos da franquia nunca tiveram a história como principal destaque, e aqui a trama segue essa mesma linha: é simples e direta — derrotar o vilão que ameaça destruir a Terra. No entanto, isso está longe de ser um problema. Nem todo filme precisa se sustentar em uma narrativa complexa; há espaço para obras que priorizam a experiência visual e a ação. Um bom paralelo é Mad Max: Estrada da Fúria, que basicamente acompanha um trajeto de ida e volta, mas se destaca justamente pela intensidade e criatividade de suas cenas de ação. Em Mortal Kombat 2, essa proposta também funciona. 

O filme entrega coreografias de luta bem elaboradas, valorizando as características individuais de cada personagem. Johnny Cage, por exemplo, se diferencia por não possuir poderes sobrenaturais, confiando apenas em sua habilidade como lutador — algo que reforça sua humanidade dentro daquele universo. Já Kitana combina técnica com o uso de seus leques afiados, criando um estilo de combate mais versátil e perigoso. Esse contraste torna o confronto entre os dois interessante, especialmente por ser a primeira vez em que Johnny realmente se vê em dificuldades diante de um oponente tão distinto. Com isso, o filme transforma cada confronto em algo visualmente distinto, evitando que as cenas de ação se tornem repetitivas.

No filme anterior, o protagonista era Cole Young, um personagem criado exclusivamente para adaptação e apresentado como descendente de Scorpion, um dos nomes mais icônicos da franquia. Já nesta sequência, a escolha de colocar Johnny Cage como protagonista se mostra mais assertiva, justamente por se tratar de um personagem clássico dos jogos e bastante querido pelo público. Aqui, Johnny assume a posição de figura central, quase como o arquétipo do “escolhido”. Afinal, é ele quem acaba convocado para o torneio Mortal Kombat. 

Antes disso, ele era apenas um ator de Hollywood que, apesar de já ter experimentado o sucesso, enfrentava um momento de baixa na carreira. Essa transição ajuda a dar mais camadas ao personagem, equilibrando humor e desenvolvimento. Sua personalidade continua sendo um dos grandes destaques: Johnny é cínico, exibido e extremamente debochado. O humor se mostra eficiente porque não soa forçado — ele usa as piadas como uma espécie de mecanismo de defesa, especialmente nas situações de perigo. Momentos como quando ele encontra Raiden e faz a brincadeira “mande lembranças a Gandalf” reforçam esse tom leve e irreverente. 

O filme apresenta diversas referências diretas aos jogos de Mortal Kombat, e, no geral, elas funcionam mais como reforço da identidade da obra do que como simples fan service. Um dos exemplos mais marcantes é a icônica frase Finish Him, utilizada no momento final de um combate, quando o adversário já está derrotado e resta apenas o golpe decisivo. Esse é o clímax da luta, e sua inclusão no filme preserva o peso simbólico que a expressão tem nos jogos. Ao colocá-la na fala de Shao Kahn, o roteiro acerta, pois integra a referência de maneira coerente ao contexto da cena, evitando que soe gratuita. Para quem não conhece a franquia, pode passar apenas como uma fala de efeito comum. Outro exemplo interessante está na construção visual de uma das lutas. Em determinado momento, a câmera assume um enquadramento lateral, replicando a perspectiva clássica dos jogos, onde os lutadores são vistos de perfil. Essa escolha facilita a leitura dos movimentos e cria uma conexão imediata com a experiência original. No entanto, o recurso é usado de forma breve, apenas no início da cena, antes de retornar ao padrão cinematográfico.

Mortal Kombat 2 consegue entregar uma adaptação fiel ao espírito dos jogos, valorizando a ação, o carisma dos personagens e a identidade visual dos combates. Ao compreender aquilo que tornou a franquia popular, o filme encontra sua principal força justamente no entretenimento direto e na maneira como transforma cada luta em um espetáculo próprio. Sem tentar reinventar a franquia, o longa entende exatamente o que o público quer ver — e transforma isso em seu maior acerto.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Vestidos Lindos e Intrigas Ainda Estão em Moda em O Diabo Veste Prada 2 (2026)

 

O Diabo Veste Prada 2 (2026) | 20th Century Studios


Após vinte anos, o diabo ainda veste prada? 

Durante um desastre editorial da Runway, a poderosa editora da moda Miranda Priestly (Meryl Streep) é obrigada a se reunir com Andrea/Andy Sachs (Anne Hathaway) para salvar a reputação da revista e assim como de suas carreiras.  Lançado em 2006, O Diabo Veste Prada foi um filme secular dentro da esfera das comédias dramáticas/românticas estadunidenses nos meados dos anos 2000; tornando-se um marco do gênero e conquistando uma quantidade considerável de fãs que perdura até hoje. 

Baseado no livro homônimo de Lauren Weisberger, o longa original se debruçava nos bastidores do mundo da moda através da personagem de Hathaway que é vista e tratada como uma outsider, uma presa perfeita para a antagonista de Streep, que por sua vez tem inspirações com a (agora) ex-editora chefe de Vogue US, Anna Wintour. Apesar de Sachs passar por uma série de provações quase sadomasochistas e, eventualmente, subir no conceito de Priestly, a mocinha desiste da carreira na Runway para seguir com no jornalismo. 

Como, então, realizar um filme tão amado e querido por tantas pessoas que cresceram com ele? Chamar a mesma equipe criativa do primeiro filme: o diretor (David Frankel), roteirista (Aline Brosh McKenna), produtora (Wendy Finerman), diretor de fotografia (Florian Balhaus), elenco e por aí vai... Dando assim uma continuidade artística que mantém parte de sua identidade visual anterior e um desenvolvimento de personagens muito contundente para aquele universo. No entanto, o roteiro periga pelo limiar entre uma sequencia direta e uma legacy sequel, já que na sua primeira metade, vemos que as situações arquitetadas são novas, mas nem tanto. Por mais que Andy seja uma jornalista premiada, ela ainda é tratada na Runway como se fosse a mesma de vinte anos atrás; e há também vários frames que fazem a alusão com o filme anterior como um paralelismo iconográfico do que algo de importante para a narrativa. A partir da segunda metade, o roteiro flui bem melhor, a trama fica mais interessante e o filme começa a ter mais independência de seu antecessor.

O aspecto temático mais interessante do primeiro filme, para mim, não necessariamente era a questão se Miranda era uma chefe abusiva por questões pessoais, se Andy tinha um péssimo namorado e um círculo de amigos não muito legais (por mais também que sejam pontos contundentes e temas de debates até hoje), mas era a sutil intersecção entre o mundo da moda e do capitalismo: os bastidores da indústria, as máquina institucionais do poder interno e o papel da moda em ditar aquilo que deve ser consumido e quem devem consumir. Aqui, a abordagem é unicamente direcionada ao sufocamento do jornalismo por influências de grandes conglomerados midiáticos: Andy começa a trama recebendo um prêmio e uma demissão em massa; enquanto que Miranda tenta impedir que o novo dono do conglomerado (BJ Novak) venda a Runway para um milionário. É uma mensagem direta ao estado atual do jornalismo em um filme envolto dentro uma fantasia confortável e divertida, mesmo que a abordagem seja, ainda, muito idealista e pouco desenvolvida. 

No final, o filme mescla sua crítica real a um certo ideal pós-moderno do sonho americano e o recicla em uma linda embalagem, daquelas que dá até pena de rasgar para abrir o produto: todo mundo precisa terminar bem. Essa abordagem inclusive, vem das screwball comedies dos anos 30 e 40 e, quase um século mais tarde, ainda é um recurso que é utilizado para um filme dito 'contemporâneo'; o que tem suas vantagens (sua agilidade e leveza na condução e desenvolvimento dos eventos) e desvantagens (o apego sentimental capitalista por meio do trabalho e do sucesso no mundo corporativo), é claro. Uma fantasia escapista em pleno século XXI.

Além disso, o retorno de Emily Blunt como Emily e Stanley Tucci como Nigel é mais do que bem-vindo, mas essencial e seus personagens tem mais importância nesta nova parte; principalmente a de Blunt, já que Emily é agora trabalha como chefe de departamento na Dior e tem recursos financeiros para pôr Miranda, e portanto a Runway, na palma de suas mãos e fará e tudo para conseguir o que deseja. 

Se o roteiro é um pouco irregular (até mesmo para atender por uma mensagem mais popular), a escrita das personagens e o trabalho do elenco principal conseguem cativar e prender a atenção dos espectadores, antigos e novos; e assistir estes velhos personagens ganhando novas facetas e desdobramentos que pareça natural, dado o contexto do filme, é um dos seus maiores méritos. Outro ponto positivo, se tratando de um filme sobre a indústria da moda, é, claro, o figurino lindíssimo de alta costura que é apresentado em tela (neste caso, posso dizer "gowns, beautiful gowns" de forma não irônica). Quem assina a produção de figurino é Molly Rogers que colaborou no longa anterior com Patricia Field, que é uma lenda no departamento de figurinos em Hollywood. E como pode ser visto, parece que foi suado para conseguir reunir todas as peças utilizadas no filme (inclusive várias personalidades no mundo da moda como Donatella Versace e Marc Jacobs, e etc. aparecem em pontas ao longo do projeto).

O Diabo Veste Prada 2 (2026) não apresenta muitas inovações narrativas em relação ao anterior e, com certeza, não deve converter quem não gostou da primeira parte para esta nova; porém, para aqueles que cresceram ou que são apaixonados pelo filme de 2006, este novo abraça o espectador para dentro de sua idiossincrasia fantástica, milimetricamente concebida nos pequenos detalhes: um mundo luxuoso e cheio de perigos institucionais e morais. É um reencontro de titãs, por mais que dessacralizados, mas que ainda mantém uma ou outra qualidade. Um filme feito para ficar feliz no simples, daqueles que a máquina hollywoodiana sabia fazer há uns 20 anos atrás...

Respondendo a pergunta no início do texto: sim, o diabo ainda veste prada; desta vez, são dois pares. Pois um clássico nunca sai de moda.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra: Quando o apocalipse chega… mas primeiro precisa juntar um grupo no modo “reunião de condomínio caótica”

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra | Paris Filmes


Afirmando ser do futuro, um homem faz reféns em uma lanchonete de Los Angeles para recrutar heróis improváveis que o ajudem a salvar o mundo.

Quem assina a direção é Gore Verbinski, o mesmo responsável por O Chamado, pela primeira trilogia de Piratas do Caribe e por Rango. Nesses últimos trabalhos, o diretor explora uma combinação de comédia caricata com aventura, apresentando protagonistas marcados pelo exagero e pela expressividade. É o caso de Jack Sparrow, cuja caracterização começa pelo corpo: ele caminha de forma cambaleante, como se estivesse constantemente bêbado ou tentando se equilibrar em meio a uma tempestade — mesmo quando está em terra firme. 

Seus gestos são espalhafatosos, com mãos trêmulas, olhares rápidos e mudanças bruscas de direção, reforçando seu aspecto excêntrico. Já em Rango, o protagonista é caricato de outra maneira: trata-se de um ator perdido dentro da própria vida. Seus movimentos são nervosos, exagerados e repletos de poses dramáticas, como se estivesse sempre encenando para uma plateia invisível.  Neste filme em questão, a proposta mistura ficção científica com comédia e também apresenta um protagonista caricato: o “Homem do futuro”. Logo ao chegar ao restaurante, ele chama a atenção de todos ao subir sobre a mesa, marchando e fazendo caretas, evidenciando, mais uma vez, o gosto de Verbinski por personagens marcados pelo exagero físico e pela performance expressiva.

A premissa é, ao mesmo tempo, instigante e excêntrica: combina viagem no tempo, ansiedade tecnológica e um grupo improvável reunido em uma situação limite. Há uma clara influência da ficção científica contemporânea que problematiza a dependência digital, a inteligência artificial e o isolamento humano. O grande mérito da trama está justamente nessa ideia central — o mundo não chega ao fim por meio de uma explosão ou uma guerra convencional, mas por uma espécie de rendição silenciosa à tecnologia. Por outro lado, a experiência acaba sendo prejudicada pela duração excessiva. Com duas horas e quatorze minutos, o filme se estende além do necessário, e a narrativa certamente se beneficiaria de um corte mais enxuto, reduzindo cerca de trinta minutos para manter o ritmo mais dinâmico e envolvente.

O filme apresenta cada personagem desse grupo improvável em capítulos antes de chegarem à lanchonete, cada um apresentando os seus motivos e também sendo vítimas da tecnologia. Pegando um desses capítulos sem dar spoilers, os personagens Mark e Janet são professores que lidam com uma turma completamente absorvida pelos celulares, a ponto de isso afetar o comportamento dos alunos de maneira inquietante. Diante dessa situação cada vez mais estranha, eles acabam recorrendo a uma solução alternativa na tentativa de entender — e conter — o que está acontecendo. Essa escolha de contar a motivação de cada um, funciona, pois permite que o espectador compreenda melhor cada personagem e crie uma conexão mais sólida com o grupo como um todo.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra se sustenta pela originalidade da proposta e pela forma como articula humor, absurdo e crítica social em torno da relação humana com a tecnologia. Gore Verbinski reafirma seu interesse por personagens excêntricos e situações que beiram o caótico, construindo uma narrativa que, mesmo irregular em ritmo, consegue se destacar pela própria identidade. Apesar dos excessos — especialmente na duração e em certos momentos mais alongados —, a obra compensa ao provocar reflexão sem abrir mão do entretenimento. Ao apostar em um grupo improvável e em uma ameaça atual, o filme encontra um equilíbrio interessante entre o cômico e o inquietante, deixando uma impressão final curiosa e relevante dentro da ficção científica contemporânea.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Eles Vão Te Matar - O horror direto que prende o espectador do início ao fim

Eles Vão te Matar | Warner Bros. Pictures


Uma jovem que não tem nada a perder precisa sobreviver à noite no Virgil, o misterioso e mortal esconderijo de um culto demoníaco, para evitar se tornar a próxima oferenda.

Pegue um liquidificador, jogue Kill Bill e misture com o gênero terror — é dessa combinação que nasce Eles Vão Te Matar. Mas a semelhança para por aí. Enquanto Kill Bill transforma a violência em espetáculo estilizado e quase elegante, o filme aposta no oposto: brigas propositalmente caóticas, rápidas e desconfortáveis, que às vezes sacrificam clareza visual em nome do impacto. A diferença central está na protagonista: ao contrário de Beatrix Kiddo, que domina cada confronto com precisão quase mítica, Asia Reaves é constantemente engolida pela situação, reagindo mais do que agindo. Isso torna a experiência mais visceral, mas também menos catártica.

O terror se sustenta na tensão constante e na sensação de vulnerabilidade. Asia está cercada por ameaças imprevisíveis, e cada corredor ou porta pode esconder perigo, criando medo psicológico de inevitabilidade. A violência é gráfica e grotesca, reforçando o desconforto, enquanto os elementos ritualísticos do culto aumentam a estranheza e o suspense. O resultado é um terror contínuo, que desgasta e mantém o espectador em alerta do começo ao fim.

A trama não se prende a complexidades narrativas desnecessárias. Sua trama é relativamente simples, mas isso funciona a favor da experiência: permite que o espectador mergulhe completamente na tensão, no horror e nas cenas de combate, aproveitando cada momento sem se perder em subtramas complicadas. Mesmo sendo direta, a narrativa consegue envolver e entreter, mostrando que não é preciso uma história excessivamente elaborada para causar impacto e emoção.

O cenário do hotel onde Asia está presa é dominado por tons avermelhados. Embora o vermelho seja uma escolha previsível — já que remete diretamente ao perigo e ao sangue, ambos centrais na proposta do filme —, seu uso constante acaba funcionando mais como um reforço óbvio do clima do que como um recurso visual realmente sofisticado. Ainda assim, a insistência nessa paleta contribui para manter a sensação de ameaça contínua e, em certos momentos, ajuda a criar uma identidade visual coerente, que intensifica a atmosfera sufocante e o estado emocional da protagonista.

O trabalho de câmera merece destaque: explorando ângulos inusitados e movimentos ágeis que fogem do convencional, a cinematografia se torna uma ferramenta narrativa por si só. Cada enquadramento cuidadosamente pensado, cada plano-sequência e cada aproximação ou afastamento de lente não acompanha a história, mas permite que o espectador vivencie os acontecimentos de maneira mais profunda. Criando uma sensação de dinamismo e tensão, enquanto movimentos suaves e fluídos podem transmitir intimidade ou serenidade.

Eles Vão Te Matar combina violência intensa, terror e elementos visuais marcantes para entregar uma experiência cinematográfica envolvente e visceral. Apesar de sua trama relativamente simples, o filme consegue manter o espectador preso do início ao fim, explorando habilmente a tensão, o suspense e o caos das cenas de ação. A estética do cenário, a paleta de cores e o trabalho de câmera não apenas reforçam a narrativa, mas ampliam a imersão, tornando cada momento mais impactante e emocionalmente carregado. Demonstram que intensidade, criatividade visual e ritmo bem construído são suficientes para criar uma experiência marcante.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Super Mario Galaxy - O Filme: Das Raízes do Reino dos Cogumelos às Maravilhas do Universo

Super Mario Galaxy : O Filme | Illumination Entertainment


Depois de salvar o Reino dos Cogumelos, Mario e seus amigos se encontram em uma missão intergaláctica para deter um novo vilão ameaçador.

A animação, como diz o título, adapta a duologia Super Mario Galaxy, jogos em que Mario viaja pelo espaço para salvar a princesa Peach e salva a galáxia das garras do Bowser. A escolha em adaptar esses jogos, é interessante e ambiciosa, já que traz um escopo mais grandioso e visualmente rico, explorando diferentes planetas, gravidade e uma atmosfera quase mágica — algo que funciona muito bem em termos de espetáculo e criatividade. Ainda assim, sinto que essa decisão acaba pulando uma etapa importante do universo da franquia. Particularmente, eu teria preferido que antes fosse feita uma adaptação de Super Mario World, que apresenta uma aventura dentro do próprio mundo onde se localiza o reino dos cogumelos que é onde Mario, Luigi e a Princesa Peach vivem. Embora Galaxy traga uma expansão interessante do universo ao literalmente levá-lo para o espaço, acredito que ainda havia muito a ser explorado dentro do próprio mundo do Mario antes de dar esse salto. Uma adaptação de Super Mario World poderia desenvolver melhor os reinos e as dinâmicas clássicas da série. Assim, quando chegasse o momento de explorar o cosmos em Galaxy, o impacto narrativo seria ainda maior.

Rosalina é retratada como uma humana que habita o espaço sideral e governa o Observatório do Cometa, desempenhando um papel essencial dentro do universo em que está inserida. Sua caracterização como uma figura materna benevolente para os Lumas não apenas reforça sua dimensão emocional, mas também acrescenta profundidade à narrativa, ao apresentar uma líder que combina autoridade com cuidado genuíno. Além disso, sua atuação na proteção da galáxia contra ameaças externas evidencia um equilíbrio interessante entre sensibilidade e responsabilidade, tornando-a uma personagem admirável e bem construída dentro da franquia.

Yoshi é outro personagem introduzido no filme, e sua presença acrescenta um charme especial à narrativa. Extremamente carismático e cativante, ele mantém a característica clássica dos jogos ao se comunicar basicamente repetindo seu próprio nome, o que reforça sua identidade fiel à obra original. Esse detalhe, longe de limitar o personagem, contribui para seu apelo universal, tornando-o facilmente reconhecível e querido pelo público. Além disso, sua fofura e expressividade ajudam a equilibrar momentos mais intensos da história, mostrando como elementos simples podem ser eficazes na construção de um personagem memorável e envolvente.

A trilha sonora é um ponto a se destacar. Os arranjos de temas clássicos dos jogos, cria uma experiência mais autêntica. Valorizando o material de origem e melhora a imersão, equilibrando nostalgia e renovação. O resultado é uma trilha mais coesa, marcante e cheia de personalidade. Como por exemplo The Star Festival é mais que um tema festivo: combina leveza e sofisticação para criar encanto e emoção, refletindo perfeitamente o clima mágico e efêmero do festival dentro desse universo. Sua melodia simples, mas harmoniosamente complexa, serve como fio condutor emocional da narrativa, equilibrando maravilhamento infantil e grandiosidade cósmica . Seu poder está na sutileza, que transforma momentos de alegria em experiências memoráveis.

Super Mario Galaxy - O Filme consegue equilibrar ambição, fidelidade à franquia e criatividade visual de maneira admirável. Apesar de pular etapas do universo original ao adaptar diretamente Galaxy, o filme compensa com um espetáculo cósmico impressionante, personagens bem construídos como Rosalina e Yoshi, e uma trilha sonora nostálgica e tocante. A obra mostra que é possível expandir o mundo de Mario sem perder sua essência, oferecendo emoção, charme e um senso de aventura que conquista tanto fãs antigos quanto novos espectadores.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


A Conspiração Condor - Uma jornalista entre a verdade e o perigo

A Operação Condor | Pandora Filmes


Brasil, 1976. Quem matou Juscelino Kubitschek? Quem matou João Goulart? Diante da morte misteriosa de dois ex-presidentes no mesmo ano, a jornalista Silvana decide investigar colocando em risco a sua própria segurança.

Após a morte de Juscelino Kubitschek e, pouco tempo depois, a de João Goulart, oficialmente atribuída a um ataque cardíaco, surgem dúvidas que vão além das versões oficiais. O contexto político da época — marcado pela repressão, censura e perseguição a opositores — levanta questionamentos sobre a transparência dessas investigações e a possível conveniência dessas mortes para o regime vigente. Movida por esse cenário de incertezas e lacunas, Silvana passa a confrontar não apenas fatos, mas também narrativas construídas, arriscando-se em um ambiente onde buscar a verdade pode significar se tornar o próximo alvo. 

A condução da narrativa se destaca pela segurança e sensibilidade com que desenvolve a protagonista, explorando suas múltiplas camadas de forma envolvente. Há um equilíbrio entre traços aparentemente contrastantes — como sua excentricidade e momentos de desorientação, contrapostos à sua perspicácia e sensibilidade — que a tornam profundamente humana e cativante. Essa construção cuidadosa faz com que o público não apenas acompanhe sua jornada, mas se conecte emocionalmente com suas motivações, passando a torcer por ela mesmo diante dos riscos e incertezas que enfrenta.

Embora a protagonista e os outros personagens centrais sejam fictícios, o enredo conspiratório se apoia em eventos reais, tornando a história instigante e provocadora. A aproximação com fatos históricos desperta curiosidade e um olhar crítico sobre o passado, equilibrando liberdade criativa e verossimilhança. A narrativa usa a ficção para explorar lacunas e controvérsias históricas, convidando o público a refletir sobre o que é documentado, interpretado ou possivelmente nunca esclarecido.

A trilha sonora recorre a tons tensos e sutis para sinalizar perigo iminente, criando uma atmosfera de constante inquietação. Em determinados momentos, o suspense não vem de ações explícitas, mas de pequenos detalhes carregados de estranheza — como quando Silvana faz uma ligação querendo falar com uma certa pessoa e, do outro lado da linha, a pessoa pergunta se a dita cuja era a que trabalhava no local da interlocutora. A escolha sonora que foi o piano, nesse tipo de cena, intensifica o desconforto e a sensação de que há algo profundamente errado, sugerindo ameaças invisíveis e ampliando a carga dramática sem precisar recorrer a revelações diretas.

Os relatos dos enterros de Juscelino Kubitschek e João Goulart se baseiam em imagens reais exibidas na televisão na época. Ao incorporar esse material, a narrativa ganha autenticidade e cria um contraste entre fatos históricos e ficção, estimulando o espectador a refletir sobre a memória coletiva e o impacto simbólico dessas mortes.

Conspiração Condor consegue equilibrar ficção e realidade histórica de forma envolvente, combinando uma protagonista complexa, uma trama conspiratória instigante e elementos sonoros que intensificam a tensão. Provocando reflexão sobre eventos do passado e a maneira como a memória coletiva é construída, transformando cada cena em uma oportunidade de questionar, imaginar e compreender os meandros de uma época marcada pela incerteza e pela vigilância. O resultado é uma narrativa cuidadosamente construída, que permanece na mente do espectador muito depois de os créditos finais rolarem.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


terça-feira, 17 de março de 2026

O Testamento de Ann Lee (2025) é o Berghain de Mona Fastvold

 

O Testamento de Ann Lee (2025) | Searchlight Pictures

Em "Berghain", single do álbum Lux, a cantora Rosalía canta, em uma mistura de alemão e espanhol, sobre a pequenez do ser diante de algo sobre o qual não tem controle: neste caso, em específico, o choque de cultura no icônico complexo clubber de Berlim que dá o nome da canção. Existe uma justaposição entre a tendência de ceder desconhecido entre música eletrônica, drogas e sexo e o medo quase infantil de seu eu-lírico na primeira metade da letra. 

A boate Berghain é, além monumento da cultura noturna da cidade alemã, também é exclusiva, pois muitas pessoas que não são da "cena" tentam entrar, o que descaracteriza o seu aspecto underground e alternativo. Porém o que me chama a atenção é como a cantora, na segunda parte da música, parece estreitar a relação, quase opositora, entre religião e o profano: enquanto que a participação da cantora islandesa Björk reforça a ideia de uma experiência divina libertadora, os versos finais de Yves Tumor reforçam a ideia de que o sexo (portanto, a "pequena morte") é também uma experiência religiosa.

E por mais que sejam obras de artes diferentes, não pude parar de fazer a associação da canção de Rosalía e o mais novo projeto da realizadora Mona Fastvold, enquanto eu assistia ao Testamento de Ann Lee (2025); estrelado por Amanda Seyfried no papel-título. Aqui, Fastvold escreve o guião junto de seu parceiro na profissão (e na vida) Brady Corbet, de O Brutalista (2024); retomando, um dos temas do projeto anterior: a experiência da imigração de refugiados europeus aos Estados Unidos em busca de uma nova oportunidade. No longa de 24, o contexto era o pós Segunda Guerra Mundial e a emigração judaica, neste aqui é o período colonial norte-americano e a intolerância religiosa (no mundo anglófono).

No século XVIII, Ann Lee foi a líder uma religião minoritária chamados de Shakers, pelo seu hábito de cantarem louvores como meio para se conectarem com Deus. Como é mostrado na narrativa, Lee não foi a criadora dessa vertente religiosa, mas se tornou uma figura importante para o grupo e se proclamava como ora como a segunda vinda de Jesus Cristo na terra, ora como a esposa de Jesus. Após de várias perseguições com a comunidade local em Manchester, Inglaterra (Lee é presa e atacada várias vezes, por exemplo), ela e seus seguidores seguem para os Estados Unidos com um sonho de fundar uma comunidade que os aceitem como são. Com cantoria e tudo.

(A) Mona entende que boa parte da psique de Lee vem de um local de repressão sexual, causado tanto pelas instituições religiosas quanto pela violência sexual que as mulheres são passíveis de sofrer, o que causa, como efeito, a imposição do celibato para todos os praticantes Shakers como preceito; pois, na filosofia da personagem, é um ato impuro que contém a mácula do "pecado original" (Vale ressaltar que a Lee passa por quatro partos malsucedidos que aumenta sua percepção do sexo como algo vil; portanto, sexo é visto como uma prisão física e metafórica de uma sociedade machista). Porém, por mais irônico que seja, com a negação do sexo, Fastvold filma as sequencias musicais com um certo gosto quase orgástico, seja pela energia do coro de vozes ou seja pela composição do ambiente em que os praticantes fazem de uma suas cerimônias ao ar livre em meio a elementos fálicos da natureza. Existe um gosto particular da direção que transparece nas conduções das sequências, algo entre o jocoso, o empático e o brutal.

As canções em que os Shakers usam aqui partem de um elemento natural do que de um tema religioso, é algo primal: a fome, o tempo, a natureza. São letras que tem sua qualidade estética e são muito bem utilizadas pela direção de Fastvold, pela fotografia em 35mm de William Rexer e pelo trabalho do compositor Daniel Blumberg. Sem as pieguices fascistas-pentecostais que dominam o cenário da música. A sensação é de ouvir uma cantiga medieval sendo cantada por um coral acapella.

Porém, se os elementos musicais e visuais são os pontos fortes do longa, o roteiro é um de seus pontos fracos, pois existe uma discrepância entre a disposição entre ação e tempo que ocorre na maioria das cinebiografias que decidem contar a história de vida de uma personagem. Apesar de sua divisão de capítulos, nem sempre a passagem de tempo é uniforme, dependendo bastante da narração em off para situar o espectador no decorrer do filme. No entanto, a dupla Fastvold-Corbet parece ser mais econômico e assertivo em Ann Lee do que em Brutalista, o que demonstra uma evolução expressiva  entre projetos. O potencial está ali. Talvez precisem refinar um pouco mais seus próximos roteiros.

E não tem como falar sobre O Testamento de Ann Lee sem falar um pouco sobre o trabalho de Amanda Seyfried no papel: existe uma grandeza para uma personagem um pouco polêmica e/ou controversa, na qual a atriz consegue pôr de coração e alma em sua performance. Se seus seguidores a chamam de "mãe" no filme, seus fãs chamam de "mãe" de volta. É um trabalho sensível e honesto que faz, ao mesmo tempo, o possível e o impossível em cena. Um trabalho de personagem complexo e vivaz, sem cair em trejeitos ou cacoetes que, às vezes, acometem uma performance. Quando Seyfried está em cena, o filme evolui junto com ela. Se não aparece, a obra desanda. 

Apesar de uma recepção esnobada na temporada, Ann Lee tem o que é preciso para se tornar um clássico do cinema contemporâneo. Pelo menos, nos círculos certos. Vejam. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Emerald Fennell Sequestra e 'Parodia' Emily Brontë em "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)


"O Morro dos Ventos Uivantes" (2026) | Warner Bros.

 "I was thinking, 'What is this place?'
I thought it would be perfect
I thought, 'I want it to be perfect'
Please, let it be perfect
Am I living in another world? Another world I created
For what?
If it's beauty, do you see beauty?
If there's beauty, say it's enough
I think I'm gonna die in this house..."
(House - Charli XCX e John Cale)

O Morro dos Ventos Uivantes (1847) é o fantasma que Emily Brontë deixou ao mundo, um conto visceral sobre como a sociedade inglesa é capaz de ser cruel, criar traumas e monstros. O pano de fundo é a relação caótica entre Catherine Earnshaw e Heathcliff, que atravessa gerações, e seu amor, rejeitado e não consumado, que destrói tudo ao seu redor.  Existe uma grande tradição no cinema de adaptar a narrativa de Brontë para o cinema desde 1920, com a versão de William Wyler de 1939, estrelada por Merle Oberon e Laurence Oliver, como a planta baixa para possíveis recepções futuras. 

Friso bastante a versão clássica hollywoodiana, pois penso que faz parte dentro do imaginário da diretora inglesa Emerald Fennell, de Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), que assina a direção do adaptação de 2026. Em ambas as obras, o cerne central é a evolução (e também destruição) da relação entre os dois protagonistas, desde a infância até a fase adulta. Quando Cathy, ao aceitar a mão de um vizinho de terra, rejeita, automaticamente, o amor de Heathcliff, mesmo amando-o, por temer uma vida degradada na sociedade. Como vingança, o jovem some da vida da moça para depois voltar rico e arruinar seu casamento com Edgar Linton; inclusive usando e casando com sua cunhada, Isabella, para atiçá-la. Porém, a versão de Fennell se agarra ao nível superficial da narrativa e, por consequência, em detrimento aos níveis profundos desse conto, que revelam o lado selvagem e "nada civis" das personagens.  

 Nenhum personagem existe sem um contexto ou uma história que a molda. Se Heathcliff é uma personagem trágica, um órfão que é acolhido pela família Earnshaw para depois ser maltratado e humilhado quase que diariamente pelos membros da casa. Seu escapismo é o amor que sente por Catherine, mas a linha entre amor e ódio começa a ficar tênue quando ambos se separam. Fennell trata a obra base de Brontë muito mais como romance do que drama, suavizando toda a jornada da personagem interpretada por Jacob Elordi. O que diminui todo o discurso da obra clássica. O anti-herói é visto como um selvagem daquele ambiente, porém, ao deter um poder financeiro enquanto adulto, ele é percebido como alguém a ser temido, construindo assim uma tensão naquela sociedade.

Se, por exemplo, na adaptação de Luis Buñuel, Abismos de Pasión (1954), Heathcliff/Alejandro é uma figura hostilizada e, ao mesmo tempo hostil, capaz de seguir e/ou de ser atraído por Cathy/Catalina até os confins da morte, dentro uma atmosfera gótica; já a diretora Andrea Arnold traz um olhar mais realista em sua adaptação de 2011 em que Heathcliff sofre não só por questão de classe, mas também por racismo da sociedade, como sugerido no romance de Brontë. Sem falar na formidável adaptação japonesa Arashi ga oka, dirigida por Yoshishige Yoshida, de 1988, que transpõe a narrativa para o Japão Feudal, sem abrir a mão dos temas e caraterísticas da obra de partida: o sistema de classes, a paixão, a crueldade, o psicológico e o macabro, por exemplo. Trago os contrapontos anteriores aqui para ilustrar uma drástica mudança no tratamento do livro clássico nas mãos de Fennell. 

Sobre o projeto tradutório: como o título, com as aspas, desta nova versão sugere, não é uma adaptação, mas uma "adaptação". E em entrevistas, ela já mandou a real. De acordo com a mesma, não é uma tradução direta ao livro, mas sim uma recriação da leitura que tinha feito quando adolescente. Ou seja, seu projeto de adaptação é bastante pessoal e contaminado por influências abertamente externas ao livro. A realizadora apropria os elementos narrativos básicos de Brontë e cria sua própria versão, sem qualquer relação de fidelidade estreita com a obra base. Para alguns, ela acaba realizando uma adaptação livre, para outros, uma fanfic erótica de banca de jornal que beira ao kitsch. Como espectador e pesquisador sobre recepção, adaptação e tradução, fico entre essas duas opções; pois uma coisa não exclui automaticamente a outra. 

A filmografia de Fennell é composta de obras que tentam escancarar as relações de gênero e de classe social, por meio meio de uma vertente vulgar, seja por uma tentativa de sexploitation ou seja pelo suspense erótico. Porém, uma crítica válida que lhe feita em cada obra que a diretora lança ao mundo parece ser constante: é belo, mas tem substância? Não só o caso se repete aqui, mas também é o grande triunfo e maldição deste filme.  

O que a realizadora tem de bom olho, também possui de mal gosto. Muito dos diálogos originais de Brontë não encontram a força que outrora tinham, parecendo falas vazias do que sentimentos complexos e, até, contraditórios. Quando Cathy, em determinado ponto da trama, confessa que: "ele se parece comigo, mais do que eu mesma. Do que será que são feitas nossas almas, elas são iguais... Eu sou Heathcliff!" É um momento importante para a narrativa, pois nós como espectadores entendemos a linha de raciocínio impulsiva de Earnshaw e seus verdadeiros sentimentos. No entanto, com uma base superficial e a mistura das falas clássicas com os pobres diálogos "emeraldianos'', tiram a intensidade dramática e deixam cenas importantes com um ar de mediocridade. 

A direção de Fennell é justamente juvenil no encadeamentos das ações e na construção das personagens: a Catherine de Margot Robbie é visivelmente mais velha do que no livro, já que, de acordo com seu pai, "passou da idade de se esposar", ou seja, por volta dos 25 anos (E, de súbito, me lembrei da frase viral de Orgulho e Preconceito de 2005: "Eu tenho 27 anos, não tenho dinheiro, nem prospectos de vida, sou um fardo para meus pais e... estou com medo"), mas que ainda se comporta como uma adolescente tola e mimada de 16 anos, e é reprimida sexualmente. Enquanto isso, o Heathcliff de Jacob Elordi é tratado como um "pau pra toda obra" bruto, mas carinhoso; retirando-lhe toda a complexidade e amargura que iria configurar seu desenvolvimento em um homem cruel. Com isso, torna-se fácil para Fennell desenhar Cathy dentro de suas sensibilidades enquanto mulher branca, e Heathcliff como um herói erótico, cuja face de Elordi evoca as feições de Sir Olivier da adaptação de 1939. 

Porém, a mais insensata, e talvez cretina, abordagem feita pela diretora seja da questão racial, em que as injustiças que Heathcliff sofre no romance (uma vez que ele é sugerido por Brontë como um "cigano" e de "pele escura"), são passadas para uma outra personagem: Nelly Dean (Hong Chau), uma mulher sino britânica, filha bastarda de um lorde que é acolhida pela família Earnshaw como a dama de companhia de Cathy. Enquanto para Heathcliff, ela o trata como se fosse um bicho de estimação com doçura e petulância, para Nelly, Cathy é cruel e rasteira, mandando-a sempre a não sair do seu papel subalterno. E, portanto, Nelly acaba se tornando, sutilmente ou não, cruel, ao desejar e fazer de tudo para acabar com o relacionamento entre os dois protagonistas, que são tratados como dois coitados. Dessa forma, Fennell não consegue abordar de forma interessante as relações raciais dentro de um contexto (em teoria) do final do século XVIII, calcando-se de uma tamanha superficialidade irresponsável.  

Se, então, o "Morro dos Ventos Uivantes" (2026) é uma adaptação pífia e vazia, por que deveríamos ir ao cinema assistir? A resposta é tão simples e básica quanto o filme: porque é puramente divertido. Emerald Fennell prova que não entende as dimensões temáticas de Brontë, para além do relacionamento central, mas consegue fabricar espetáculos visuais, brincando entre o "chique" e o tacanho, e de um humor esdruxulamente sexual. Existe um prazer involuntário em assistir aos exageros e ao analfabetismo temático da diretora, algo que me parece autoconsciente à ela, pois conhece suas limitações e gosta de brincar com a expectativa do público. Um acordo que é feito entre artista e o público, de dominação e submissão: ela tem o chicote, mas o golpe é mais prazeroso do que doloroso. É a mesma sensação de assistir de uma paródia.

É um filme muito jovem, com uma abordagem temática muito adulta. A combinação entre algo fantasioso e tara, exalta a visão maximalista da obra. Para um público mais velho, é um estilo kitsch ou, mesmo, camp bastante assumido desde a primeira cena em que vemos uma cena de execução em praça pública com conotações mórbidas e eróticas.  Parece exagero, mas é para já ilustrar qual será o tom do filme; o do espetáculo, pão & circo, o da magia e o da rejeição de um realismo. 

A lindíssima fotografia de Linus Sandgren evoca filmes clássicos em tecnicolor como E o vento levou... (1939), filmado em um luxuoso Vistavision com cores fortes e pungentes que conversam com o design de produção de Susie Davis - que invoca Cocteau, Coppola, Jarman e, possivelmente, Waters, ao mesmo tempo - e o figurino de Jacqueline Durran: dramáticos e logisticamente incompreensíveis como uma nightgown transparente como se fosse um papel celofane, e saias vermelhas que parecem ser feitas com couro falso (vulgo plástico), mas ajuda a demarcar a jornada e o sentimento das personagens. Além disso, a trilha sonora de Anthony Willis e as canções de Charli XCX são peças complementares entre si e ajudam a elevar o material de Fennell. 

Já para o público jovem (isto é, adolescente que nunca viram nenhuma adaptação ou leram o livro), bastará somente a trama principal; uma vez que Robbie e Elordi, mesmo inapropriados para seus papéis, são bons atores e, pasmem!, eles tem química em cena; e conseguem vender o roteiro caótico e a direção de Fennell ao público. A disputa moral que existe entre os dois na segunda metade se torna uma forma de preliminar cruel para satisfazer seus desejos, uma "brincadeira boba e deliciosa". A dor se torna pura diversão, um motivo de gozo e riso. 

Um exemplo disso é Isabella Linton (Alison Oliver): no romance de Brontë, é uma moça ingênua e, para irritar Cathy, caí em um relacionamento abusivo com Heathcliff; já no filme, é uma personagem codificada anacronicamente como uma jovem CDF (já que nerd é uma palavra muito moderna neste caso), precoce e sexualmente não realizada. Sua relação com Heathcliff é por interesse e puramente sexual, no qual ela se submete, com certo prazer e pouco amor próprio, a uma relação sadomasoquista no decorrer da narrativa. É uma leitura tão exagerada da personagem, mas que retratada com tanta convicção numa performance que acredita (e confia) na visão da diretora, é impossível desviar o olhar, tocando, ao mesmo tempo, na sensibilidade do público feminino e gay, que com certeza irá devorar este filme e a personagem. 

Porém, todo esse apoio no exagero estético e tonal do filme, acaba por prejudicá-lo quando Fennell precisa virar a chave para o dramático e o convencional (o que pode prejudicar e/ou frustrar parte do público treinado para esperar uma grande virada no meio da estória). A diretora flerta com trabalhos de cineastas como Sofia Coppola e Radley Metzger, em Maria Antonieta (2006) e Camille 2000 (1969) respectivamente, me vêm a mente por exemplo, na tentativa de vender estética e transgressão sexual, porém a visão da diretora ainda falta um refinamento das intenções; pois sua ideia da palavra transgressora está mais para uma "transgressão". Após um bom momento de reflexão e de ironia, Saltburn me parece uma adaptação livre mais bem-sucedida, uma vez que os paralelos entre Fennell e Brontë são melhores estabelecidos, do que esta "nova" versão.

De Brontë, "O Morro dos Ventos Uivantes" só tem o título, pois, em sua forma final, a leitura da realizadora se divorcia demasiadamente da obra em que é baseada, mesmo que haja uma intenção de adaptação, mas sem uma sólida base original. Apesar das falhas e dos tropeços (e depois de matar muitos fãs puristas da obra original de desgosto ou do coração) que ocorrem neste projeto, talvez Emerald Fennell fez, ironicamente ou não, a sua maior transgressão de todas: uma adaptação camp de Emily Brontë. Se será um clássico do gênero, resta ao tempo dizer. 

Agora só resta dar stream no álbum "Wuthering Heights". 

* A cabine de imprensa foi realizada na sala IMAX do UCI New York City Center, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

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