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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Marty Supreme (2025) Corre Adoidado, Mas Não Sabe o Que Quer da Vida

 

Marty Supreme (2025) | Diamond Films

Sensação da temporada de premiações de 2025-26, chega aos cinemas brasileiros o longa-metragem Marty Supreme (2025), do diretor Josh Safdie, e encabeçado por Timothée Chalamet. O personagem principal, Marty Mauser, é levemente inspirado na figura do jogador de tênis de mesa Marty Reisman, embora que o filme se passe no âmbito ficcional do que no biográfico; pois, embora inspirado, Mauser é um (anti)herói safdieniano com todos seus trejeitos e manias.

 Ambientado durante os anos 1950, o filme acompanha a trajetória do jogador de tênis de mesa nova iorquino Marty Mauser (Chalamet) e a busca de saciar a sede de ser tornar um dos maiores nomes de sua modalidade. Seu percalço aumenta quando este perde uma importante partida em torneio na Inglaterra contra um oponente japonês, Endo (Koto Kawaguchi), dificultando um importante patrocínio de um magnata (Kevin O'Leary), que envolve o orgulho de Mauser; e, também, quando descobre que não possui mais os recursos para um campeonato mundial no Japão. Para piorar a situação, o jovem atleta descobre que engravidou uma amiga próxima a ele, Rachel (Odessa A'Zion), enquanto mantem um caso com a esposa do magnata, Kay Stone (Gwyneth Paltrow), uma socialite e atriz de cinema que tenta se reinventar na carreira.

 Josh Safdie não é estranho com filmes, cujos protagonistas são empurrados ao limite diante das circunstâncias do mundo; afinal ele e seu irmão, Benny, dirigiram filmes como Good Time (2016) e Joias Brutas (2019), que tinham essa mesma característica em comum. Porém, agora, a dupla de irmãos se separou, e parte do que funcionava nessa abordagem de narrativa e de estudo de personagem se dissipou um pouco. Visto como um "americano mimado", de acordo com uma das personagens, Marty Mauser é o tipo de pessoa egocêntrica que suga todas ao seu redor para um vórtex de perdição própria, ao envolvê-las em suas artimanhas para seguir com seu sonho.

Contudo, a direção de Safdie não consegue decidir se Mauser é uma personagem trágica ou patética dentro do escopo da narrativa: o roteiro, coescrito pelo realizador e o colaborador Ronald Bronstein, direciona para um leitura crítica e ácida, porém a performance de Chalamet, faz o oposto, engrandecendo-o pela sua pequenez. É notável a construção de uma personagem contraditória, cheia de ideais e defeitos, mas a conta dessa operação artística não fecha. Ao mesmo tempo que existe a fascinação com o protagonista, há também uma grande apatia e um desejo secreto do espectador de que ele fracasse de forma espetacular. 

E talvez, esse seja o propósito. Será que é possível amar alguém tão centrado em si mesmo e que usa as pessoas para tirar proveito da situação? No entanto, não me faltou nada além de uma apatia imensa a essa figura central. Talvez seja da forma que Mauser é escrito, ou talvez seja por causa da autoconfiança exacerbada da atuação de Timothée Chamalet que molda uma personagem tão insuportável para um parcela da população. O que existe de carisma, também há de arrogância, e a atuação de Chamalet vai de um extremo ao outro como uma bola de tênis de mesa. 

Apesar do roteiro de Safdie e Bronstein ter uma estrutura de interconexão entre vários arcos de personagens até cuidadosa, o argumento não consegue manter o fôlego durante sua duração: há muitas ideias e prioridades não tão confiantes nelas; na minha opinião, como crítico e escritor, é que algumas subtramas poderiam ter sido cortadas ou reformuladas, como a do mafioso interpretado por Abel Ferrara, com o intuito de deixar a ritmo narrativo mais claro. Porém, isso seria contra as concepções de escala épica do projeto que retroalimenta um imaginário oriundo de cineastas da Nova Hollywood como Scorsese e Coppola, por exemplo. 

O problema, neste caso, é que o filme se afunda em uma mitologia imagética própria da filmografia de Safdie, sem a renovação ou a inovação que dá uma identidade única ao projeto, o que acarreta comparações com trabalhos anteriores, como em Joias Brutas, cuja tensão crescente era melhor arquitetada do que aqui. Portanto, uma questão puramente epistemológica e no âmbito de seu discurso. 

A direção criativa precisa decidir se deve recriar passagens das memórias de Reisman, como em várias passagens que envolvem partidas de apostas, shows de variedades e contextos de campeonatos, com a construção safdieniana de personagens dúbios e escandalosos. Contudo, as escolhas feitas me parecem um pouco contraditórias e nem sempre satisfatórias, pois Safdie não consegue achar um meio-termo ideal entre o real e o ficcional. Talvez se a construção de Marty se inclinasse ao ficcional e fosse mais dúbia e sacana, de um modo mais sutil, a narrativa teria ganho níveis absurdos de nuance e de interesse.

Ademais, as decisões tomadas no terceiro ato da narrativa acabam por enfraquecer toda a ironia e crítica ao um específico sentimento americano que se vinha construindo até então, ao abraçar, para a redenção, ou não, talvez anticlimática da protagonista, a partir do aspecto paternal. Uma analogia a este caso seria de uma piada acabou se perdendo a graça antes/ou durante do punchline; pois, não se sabe, se tal benevolência faz parte do humor de Safdie ou se existe uma "mea culpa, mea maxima culpa" por parte da equipe criativa com a personagem. (Pessoalmente, acredito que seja uma mistura de ambos.)

O que, honestamente, é uma pena, pois de talentos o filme não falta: seja pela trilha de Daniel Lopatin (algum fã de Oneohtrix Point Never aqui?), ou seja a fotografia panorâmica em 35mm com cores e texturas de Darius Khondji que nos transporta ao passado, ou seja pelo elenco calibrado reunido aqui. Odessa A'Zion tem um papel importante na narrativa que demanda uma complexidade de sua interprete, que a encarna com todas as dimensões; enquanto isso, Gwyneth Paltrow tem aqui um dos melhores papeis de sua carreira: uma mulher madura, que consegue enxergar através das outras pessoas, mas que ainda possui um pouco de ingenuidade na sua aura; o que combina bem com o perfil da atriz dentro e fora das câmeras...  

A questão é que o filme tem muitas ideias e momentos a seu favor, como o energético torneio do British Open, todas as cenas entre Chalamet e Paltrow, e até mesmo uma cena queer coded que envolve mel (ótima por sinal!), por exemplo; mas, diante de tudo isso, falta uma direção que as deixem uma narrativa afiada. Não desejo por uma abordagem palatável (isso nunca!), porém uma condução que evita convenções do drama americano e que não tem medo afundar nas ironias cruéis da vida.  A sensação de assistir Marty Supreme é de atirar em um grande alvo à distância, mas sem a coordenação de conseguir acertar o centro. Mauser faz os seus corres, corre adoidado, causa destruição e caos aonde passa, mas, no fundo, não sabe o que quer realmente da vida. 

O golpe da bola laranja tá aí, cai quem quer.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


 

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