Mostrando postagens com marcador natal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador natal. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Avatar: Fogo e Cinzas (2025) - A Nova Farofada Épica de Cameron Ainda Tem Seu Apelo

Avatar: Fogo e Cinzas (2025) | 20th Century Studios

 

Dizer que Avatar é uma narrativa épica geracional é, ao mesmo tempo, uma verdade e um eufemismo, pois o diretor James Cameron explora o mundo de Pandora dentro dessa seara e o público acompanha a jornada da família Sully, durante a tentativa de colonização do planeta por terráqueos. No primeiro filme, acompanhamos a jornada de Jake Sully (Sam Worthington), um militar que é enviado pelo governo estadunidense a se infiltrar em uma tribo Na'vi como um "avatar", mas após esse contato, ele se rebela contra o exército e lidera um revolta, à princípio, bem sucedida.  Já no segundo, ao lado de Neytiri (Zoe Saldaña), Jake forma uma família, enquanto são perseguidos pelo implacável Miles Quaritch (Stephen Lang), agora em seu "avatar". Agora, neste terceiro capítulo da saga, após de duas introduções ao universo aqui criado, o rumo da aventura fica mais soturno, mas sem as suas contradições.

Após a perda de seu filho mais velho, Jake e Neytiri e seus filhos sofrem com o luto, porém, após o encontro da família Sully com a tribo do povo das cinzas, liderados pela implacável líder xamânica Varang (Oona Chaplin), eles lutam pela sobrevivência, enquanto o governo prepara um novo plano para explorar os recursos naturais de Pandora. Nesta nova parte, Cameron desvia a atenção da personagem de Worthington para desenvolver melhor outras personagens em seu catálogo: Lo'ak (Britian Dalton) sente culpa pela morte do irmão mais velho, enquanto se empenha a salvar os tulkuns (também conhecidas como as "baleias de Pandora"); Neytiri começa a nutrir um ódio profundo a Spider (Jack Champion), o "humano de estimação" dos Sully e filho biológico e Quaritch, que começa a sofrer mutações, após Kiri (Sigourney Weaver), mesmo sofrendo com convulsões mortais, salvá-lo, através de Eywa; enquanto isso, Miles se aproxima de Varang para uma possível união contra os Sully. 

O maior acerto de Cameron neste novo filme de seu épico seja a escalação de Chaplin como a adversária dos protagonistas e sua eventual relação com a personagem de Lang. Varang se faz aqui necessária, para mostrar uma outra faceta dos Na'vi que faltava a franquia, alguém que volta contra os costumes para manter a própria sobrevivência e de seu clã. Aqui, o povo das cinzas, rompeu os laços com Eywa e querem destruição e chamas. A química que existe entre Chaplin e Lang nas cenas em que contracenam juntos, mesmo com todo o CGI, é intoxicante, para dizer o mínimo. Eles funcionam como um reflexo um do outro, do que uma balança para exaltar ou clarificar o outro personagem. Há uma sinergia que funciona bem que, certamente, deixará o público mais interessados nos antagonistas. Outra tensão que me chamou a atenção é a tensão existente entre Neytiri (que honestamente comecei a odiando e depois acabei me redimindo com ela) e Spider, que passam por transformações internas e externas, e dominam boa parte da narrativa. ao levantar questões sobre (não) pertencimento dentro de uma sociedade.

Por mais que James Cameron sabe como filmar cenas de ação, dominar com sofisticação tons narrativos e explorar todos os recursos tecnológicos a seu dispor, ele tem problemas sérios com a escrita de roteiro, o que já era um defeito recorrente da franquia. Na busca de narrativas épicas, oriundas de tradições de vários povos originários, Cameron parece ter pego todos esses elementos culturais e jogado numa roda da "jornada do herói". 

Ao mesmo tempo em que o realizador deseja avançar na narrativa e desenvolver o mundo e as personagem que criou, uma outra parte de seu ânimo parece que nunca superou o impacto cultural do primeiro Avatar, em 2009, e, não obstante, de Titanic, em 1997. Se isto já estava presente em O Caminho da Água (2022), que era uma farofada reciclada, o mesmo se aplica para Fogo e Cinzas (2025).  Aqui o protagonismo é muito mais coletivo do que nos outros filmes, o que torna o centro narrativo mais difuso (e talvez um pouco bagunçado), da mesma maneira que Cameron quer encerrar um ciclo para anunciar um próximo, mesmo que não seja da forma mais uniforme, com um terceiro ato corrido, em prol de uma grande batalha final, por exemplo. Mas, se tem uma coisa que essa produção tem é tempo e dinheiro, para não dar vexame. Sem isso, o filme não funcionaria, de um modo prático. Porém, o que Cameron falta na escrita, ele se segura na direção. 

A questão é: por quanto tempo o público será benevolente às falhas da franquia? Ou será que o público vai continuar a abraçar os filmes de Avatar como parte de seu ópio? Afinal, o mundo de Pandora, principalmente em 3D e numa tela grande como a da sala IMAX (o que faz uma grande diferença na experiência cinematográfica), é imersivo e salta aos olhos, o ritmo é agradável, e o ingresso de cinema, mesmo que custando caro, se torna mais em conta do que um ingresso de um mega parque de diversão. Ou será que Cameron agrada o olhar corporativo para tornar seu grande épico em pacto faustiano, em que para receber o ópio, precisamos deglutir um pão amanhecido e já sem o sabor de outrora?  

Avatar, para indústria hollywoodiana, é vista muito mais como um investimento do que uma obra de arte, e, por sinal, seu valor de custo é altíssimo. É bem certo a sensação de que a segunda e a terceira parte deveriam ser uma única obra, mas que foi dividida ao meio como longas interdependentes entre si. Para ter resultados de bilheteria mais uniformes, repete-se uma fórmula quantas vezes for preciso. E assim será o ritmo da dança. O que diferencia esta franquia do que outras, como a da Marvel por exemplo, que há alguém que entende de cinema e que põe anos de dedicação a estória que deseja contar. Por isso, Avatar é uma franquia de espetáculos, um tanto previsível, porém com um coração que, entre erros e acertos, ousa voar até ultrapassar o limite do que consegue abocanhar. E, com este novo filme, o caso não é diferente. 

Portanto, Fogo e Cinzas, mesmo funcionando dentro de um molde específico, tem espírito de uma era clássica, mas desconfigurada de tal apropriação, um filme instintivo e impulsivo do que metódico e centrado. No entanto, as sombras manipuladas aqui contam uma jornada um pouco mais instigante do que o predecessor de 2022, que troca chavões cafonas por algo algo mais cru e insensato, com personagens cheios de traumas. É uma longa volta, mas no final o nó parece firme o suficiente para aguentar o caminho a frente. Para quem for fã da franquia, a farofada à Na'vi de Cameron ainda tem seu apelo e é tão igualmente deliciosa quanto as anteriores, basta somente apreciar e lamber os beiços.

 Autor:

                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 



Os Assassinos (1964) - O Parasitismo Capitalista Pintado com Sangue e Luz

  Os Assassinos | Universal Pictures A obra de Don Siegel é um remake do filme de 1946, dirigido por Robert Siodmak e estrelado por Burt Lan...