segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Natal Sangrento (2025) - Um Remake "Levado da Breca"

 

Natal Sangrento (2025) | Diamond Films

Durante a véspera de Natal, o jovem Billy visita o avô no hospital que acaba tendo um acidente medicinal e morre em frente ao garoto. De noite, voltando de carro com seus pais, a família de Billy é interceptada por uma figura estranha vestida de Papai Noel. Para piorar a situação de um dia que já estava ruim, esse "Noel" ataca e mata os pais de Billy , antes de morrer. A ação corta para o futuro e aquela criança se torna um psicopata adulto (Rohan Campbell): ele ouve uma voz na sua cabeça que diz para se vestir de Papai Noel e matar um certo número de pessoas consideradas "levadas" durante a época do fim de ano.

Logo, Billy não para quieto. Ele é um nômade, basicamente. Vai de um canto a outro, cria álibis temporários, não tem nenhum tipo de amizade ou relacionamento que não seja com essa voz onipresente, guiando-o em seus instintos assassinos. Esse modus operandi começa a se complicar quando Billy chega em uma cidadezinha de interior e começa a ficar interessado em Pam (Ruby Modine), uma moça que trabalha em uma loja de produtos natalinos. O que ele faz? Fica na cidade e arruma um emprego nesse estabelecimento para ficar perto dela. A Pam é uma jovem mulher, muito na dela e bem doce, que e também tem seus traumas e, em alguns momentos, parece que é tão desiquilibrada emocionalmente quanto o Billy. 

Porém, a situação começa a ficar complicada quando o rastro de destruição de Billy toca em pequenos segredos da comunidade que pode pôr um alvo nas suas costas, revelando a sua verdadeira face para todos. Natal Sangrento (2025) que entra em cartaz, justamente em Dezembro, o mês do Natal, aqui no Brasil, é o remake de um clássico do slasher estadunidense oitentista: Silent Night, Deadly Night (1984). 

No entanto, os dois filmes tem mais características diferentes do que em comum. A primeira interação da estória focava no desenvolvimento psicossexual e do irracional de Billy. Seu medo à figura de Noel lhe é incutido pelo avô e vítima de abusos físicos e psicológicos pela Madre Superiora do orfanato, e tudo isto ressurge com força quando é obrigado pelo patrão da loja em que trabalha como estoquista a ser vestir do "bom velhinho". É um filme lento, mas que consegue, dentro de suas limitações orçamentárias ou artísticas, construir a personagem principal de modo bastante palpável e psicologicamente amedrontador. A pulsão entre amor e morte e a transmissão de traumas geracionais dão um poder de valor, ao que poderia ser considerado hoje como "uma produção B malfeita" ou "de baixo escalão artístico" ou "um filme bobo e ridículo" (como um colega cinquentão desconhecido a mim de profissão estava defendendo, mais ou menos assim, na fila da cabine).

Apesar disso, os temas da narrativa engrandeceram este clássico, um pouco trágico e camp, do terror natalino. Inclusive as cenas que envolvem efeitos práticos ainda tem seu valor e resultado material, quarenta anos depois. O remake de 2025 mira nessa combinação, mas nem passa perto das pulsões originais.

Escrito e dirigido por Mike P. Nelson, essa nova versão quer atualizar a trama para um contexto atual, dividindo o protagonismo de Billy com Pam, esta personagem baseada em uma da obra de origem. Ela, nesta versão, ganha mais dimensão e facetas do que sua contraparte dos anos 80, um arquétipo da mocinha inocente, simpática e sexualizada das produções daquela época. A evolução de tratamento da personagem era necessária, até mesmo pelo contexto artístico e social ter rompido com cristalização do feminino no terror. 

Porém, o filme de Nelson está cheio de boas ideias e intenções, porém não consegue entregar o que promete ao público. Os diálogos são pavorosos, o gore e o humor são fracos, a fotografia é escura e sem vida, com muitas cenas mal decupadas, confusas e até mesmo mal montadas (devido aos problemas mencionados). Campbell e Modine tentam embarcar na onda do filme, mas não conseguem salvá-lo de um insólito mar de mesmice e de tédio mortal.

 Afinal, este crítico não esperava nada grandioso, já que a produtora responsável pelo remake é também responsável pela franquia Terrifier. Portanto, já esperava encontrar um filme bem trash, com muita violência, com cor e com muitos absurdos... E mesmo assim, nem isso foi entregue nas mãos da direção. Há uma sequencia em que nosso "Noel" assassino acaba caindo um covil de nazistas local e ele deve matar cada um. A ideia é divertida, exagerada e dá uma adrenalina ao filme, mas a execução é uma bagunça preguiçosa e semicompreensível. É de uma péssima capacidade de contar algo pela linguagem cinematográfica que não vejo desde Transformers 4, por exemplo, em que o espectador consegue entender como começa e termina a cena, mas não o percurso de ações que vai do ponto A ao B.

Somado a um trabalho de direção preguiçoso e confuso, que muitas vezes beira ao básico do gênero, mas sem nenhuma profundidade ou timing, há um problema de identidade muito proeminente: não sabe se é uma nova adaptação do filme de 84, ou se quer ser Dexter, ou Venom, ou Kingsman... Essa autofagia pop acaba prejudicando muito mais do que enriquecendo a obra. A sensação é de mastigar carvão, enquanto sou obrigado a ver o filme mais clichê possível. (Enquanto isso, o coleguinha que tinha falado mal do filme original, abraçou esta versão e, na sua mediocridade, o filme conseguiu "dar a volta" para ele...)

Natal Sangrento tem ideias interessantes para atualizar o conto macabro que lhe deu origem, mas é uma pena que nunca saíram da oficina do Noel. Uma pena...

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


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