terça-feira, 26 de maio de 2026

Hamnet (2025) - Do amor à perda

 

Hamnet | Universal Pictures

Uma obra, para comover efetivamente o público, precisa trabalhar a sensibilidade e a empatia desde o roteiro até o olhar dos espectadores. E essa não é uma tarefa tão simples quanto parece.

Chloe Zhao, ao dirigir Hamnet, explora a dualidade entre o amor e o luto sob diferentes perspectivas ao longo do filme. A narrativa acompanha Agnes (Jessie Buckley), uma mulher modesta criada em um ambiente quase místico, profundamente conectada à natureza. O encontro entre Agnes e William (Paul Mescal) desperta uma nova faísca na vida da mulher de espírito livre, desenvolvendo rapidamente um romance intenso.

O filme oferece ao público um olhar materno sobre a dor agonizante de perder um filho tragicamente. William e Agnes vivenciam fragmentações causadas pelas diferentes formas de lidar com o luto; Will se fecha para a poesia e o teatro, enquanto Agnes sente a perda intensamente em seu corpo, alma e na própria conexão com a natureza.

Sob uma nova ótica, Zhao oferece maior visibilidade à esposa de William Shakespeare, figura historicamente ignorada, colocando Agnes no centro da narrativa como protagonista. Devastada, Agnes busca motivações para resistir à tamanha perda sozinha logo após presenciar os últimos suspiros de seu filho, levado pela peste bubônica. A dor da personagem não se limita apenas ao sofrimento psicológico; a diretora conduz o luto como uma experiência física, silenciosa e contemplativa. Cada espaço vazio, o contato com a natureza e os olhares sem rumo algum reforçam a sensação de ausência constante que consome Agnes lentamente.

Jessie Buckley entrega uma atuação sensível e dolorosamente humana, transmitindo emoções profundas mesmo nos momentos de completo silêncio. A atriz carrega consigo o peso da maternidade interrompida através de expressões sutis, tornando tangível a devastação interna da personagem. Paul Mescal, por outro lado, oferece um William contido emocionalmente, utilizando a distância como mecanismo para sobreviver ao próprio sofrimento.

Visualmente, Hamnet encontra beleza até mesmo em sua melancolia. Zhao utiliza a fotografia de maneira quase etérea, aproximando os elementos naturais para o estado emocional de Agnes. O vento, a terra, os campos e a água deixam de funcionar apenas como ambientação e passam a representar extensões do vazio e da memória.

Ao retirar William Shakespeare do centro da narrativa e conceder protagonismo à mulher historicamente apagada ao seu redor, o filme humaniza uma figura frequentemente reduzida à condição de “esposa do poeta”. Agnes deixa de existir apenas como suporte para a genialidade masculina e passa a ocupar o espaço de alguém atravessada pela dor, pelo amor e pela própria identidade.

Hamnet não busca manipular o espectador através de exageros dramáticos. Sua comoção nasce justamente da delicadeza com que entende o luto: silencioso, solitário e eterno. Chloe Zhao transforma a perda em algo quase íntimo para quem assiste, fazendo do vazio deixado pela morte a presença mais forte em cena. 

Autor:

Bárbara Borges é do Rio de Janeiro e estudante de Jornalismo. Apaixonada por cinema desde criança, sempre foi movida por histórias intensas, especialmente as de terror, seu gênero favorito. Em 2024, dirigiu o documentário Além do Recinto, que levanta questionamentos sobre o bem-estar de animais silvestres em zoológicos e o impacto do confinamento longe de seus habitats naturais. Gosta de pensar no cinema como uma forma de provocar, sentir e transformar. Vive atualizando seu Letterboxd com comentários sinceros e, às vezes, emocionados. Entre seus filmes favoritos estão Laranja Mecânica, Psicopata Americano, Pânico, Pearl e Premonição 3.

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