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| Jim Queen (2026) | Pandora Filmes |
De uns tempos para cá, as animações voltadas para o público LGBTQIAPN+, principalmente fora do eixo Disney, têm me dando uma certa curiosidade. Os estilos das animações, os traços que lembram os desenhos animados do Cartoon Network e Nickelodeon que cresci assistindo quando criança, os temas que topicalizam parte da nossa vivência dentro da comunidade (afinal, nenhuma experiência é exatamente única), como um espécie de piada interna nossa.
Há um prazer duplo em obras desse gênero: o prazer estético próprio do gênero da animação (neste caso, a animação 2D) e o prazer de se autoprojetar na obra de ficção: algo que o filósofo Walter Benjamin já alertava no conhecidíssimo ensaio "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica", redigida originalmente em 1931; nele Benjamin reflete sobre a perda da "aura' da obra de arte pelo advento, primeiro, da fotografia, e, logo em seguida, do cinema, que começou como experimentos da representação de cenas da vida mundana, como os filmetes experimentais dos irmãos Lumière, por exemplo. Eram, de certa forma, retratos do cotidiano e, ao mesmo tempo, produtos de sua câmera.
Durante a cobertura do Festival do Rio de 2025 (o qual cobri de forma extensiva e exclusiva para este blog) deixei passar um filme com uma pegada parecida com a do filme que escrevo agora: A Sapatona Galáctica (2025), animação 2D australiana em que tem como protagonista uma princesa bem sapatilha do planeta governado por lésbicas que precisa viajar pelo espaço para salvar a vida de sua (ex-)namorada de aliens heterossexuais cis masculinos. O filme fez sucesso no festival e ganhou o prêmio da Félix da edição, e foi lançado nos circuitos brasileiros no início do ano. Quando vi o filme nesse entremeio, por meios ilegais, fiquei com a sensação de arrependimento, pois poderia ter trocado algum filme que não gostei da edição anterior para vê-lo; pois é um filme divertidíssimo e possui uma certa leveza que me lembrava dos desenhos animados que via na infância.
Este ano, o filme que preenche a posição é Jim Queen (2026), animação francesa dirigida por Marco Nguyen e Nicolas Athane que teve sua estreia mundial na seleção de Midnight Movies do Festival de Cannes desse ano (e de acordo com a distribuidora brasileira, tem sido um sucesso de bilheteria na França). A mistura entre comédia e musical satiriza, de forma certeira e engraçada, os comportamentos não só entre gays e héteros, mas também dentro dos diferentes cosmos do mundo gay contemporâneo. Uma espécie de espelho deformado, para dar o poder de nós, como pessoas gays e queers, podermos ter o privilégio de rir de nós mesmos, das nossas atitudes e desgraças; a qual se dá através de uma epidemia que suscita a memória tanto da crise da AIDS/HIV quanto a mais recente da COVID-19.
Na trama, Jim Queen, também conhecido como Jim "Parfait" (perfeito), é um influencer e ícone sexy da cena gay parisiense. Seu nome é um trocadilho com o termo "Gym Queen", ou seja, uma gay padrão que ama malhar e ser musculosa. É arrogante, egocêntrico e vive para dar o close nas baladas e pegar várias gays que se parecem com ele. Sua vidinha é um recorte muito específico da vivência de muitos homens homossexuais (principal público-alvo do longa) que vivem do básico e que se importam mais com a aparência e ostentar um modo de vida aparentemente perfeito.
Porém, ao nosso protagonista, sua rotina vira do avesso quando contrai Heterotopzis, um vírus estranho que transforma homens gays... bem, em héteros. A partir de então, todos viram as costas pra ele – exceto seu último seguidor (e primeiro admirador), Lucien, um jovem twink (nada demoníaco, mas, ao contrário), doce, meigo e inseguro ainda em busca de autoaceitação e confrontar sua mãe, uma ministra de saúde bastante conservadora. Juntos, eles partirão em busca da Cloroqueer, um antídoto misterioso capaz de curar Jim e evitar a extinção da sua comunidade, mas que, em consequência, pode colocar a vida de Lucien em jogo.
Se pensarmos numa conjunção entre Jim Queen e Sapatona Galáctica, podermos pensar em algumas características que para identificarmos o que faz uma animação LGBTQIAPN+ para fazer sucesso ou para possuir algum apelo:
1- O traço em animação tradicional como um ponto estético, que remete à nostalgia de uma memória afetiva para criar um espaço seguro;
2-Personagens que precisam passar por uma 'jornada do herói", o que ocorre em ambas as obras;
3- Referências a influencia a uma formação queer na cultura pop, uma vez que há uma referência a uma cena que remente uma sequência envolvendo a atriz bissexual Kristen Stewart em Sapatona, enquanto isso, em Jim, toda a jornada de Lucien, a twink, é decalque direto da narrativa de Ariel em A Pequena Sereia (1989), no qual o personagem confronta sua mãe autoritária e homofóbica, tal como a icônica sereia se rebela contra o rei Tritão;
4- O confronto entre a comunidade com a heterossexualidade e, por consequência, pela homofobia, representado por uma ameaça que envolve relações de poder (no caso da animação francesa) e/ou de sexismo (no da australiana). Para além disso, em Jim Queen, há uma questão cultural bastante proeminente, já que a ameaça da trama, o vírus Heterotopzis, não só apaga a sexualidade dos corpos, mas também de sua cultura e sua expressão e inscrição no mundo;
O longa-metragem em si é bastante redondo, quase cíclico e episódico, pensando especificamente para o público gay (e a própria animação é autoconsciente em relação a isso), brincando justamente em sua concepção com questões como tribos, kinks, cruising, mulheres viadas e drag shows entre outros. E mesmo assim, existe uma fragmentação na forma que comunidade gay se fragiliza diante de um perigo em comum; mas o filme não pesa o clima em relação a isso. As tribos aqui são caracterizadas seguindo a uma linha camp que o projeto almeja: as drags queens com a maquiagem exagerada; as ursas literalmente representadas como animais que dão o nome da própria tribo; os puppies play bem próximas aos trejeitos de um cão; os víciados em chem-sex como semicadáveres; os fetichistas como generais sádicos (que literalmente criam uma "gaystapo" para converter os adoentados para sua forma gay original)...
As representações são mediadas pelo exagero e pela comicidade que o roteiro exige das situações, o que pode aparentar um pouco superficial, em termos de abordagem, mas, ainda assim, me diverti com as situações que o filme apresenta nesse entendimento entre obra e público-alvo. A autoprojeção das experiências em comum da comunidade faz com que boa parte do público se identifique em seus personagens, a partir de sua ótica fantasiosa. Esse exercício talvez faça com que o público ative sua suspensão de descrença ou até mesmo um visão crítica daquele mundo caricato. Inclusive há um personagem, uma gay invejosa que deseja destronar Jim, que é caricatura de homens padrão como François Sagat (que você pode reconhecer de filmes pornô, ou os filmes de Bruce LaBruce ou até mesmo um cameo aleatório em Jogos Mortais VI) que é justamente dublado em francês por... François Sagat!
Talvez se tivesse um ponto contrário a fazer em relação ao filme é justamente seria, ao mesmo tempo, apontar e reforçar, dentro da lógica da piada interna, a objetificação e o consumo de twinks, como algo a ser possuído, devorado e possuído. Lucien, que é a chave para cura deste universo (tal como a Alice de Milla Jovovich nos filmes de Resident Evil de P.W.S. Anderson), passa por uma espécie de coming of age tardia, tem uma certa inocência que precisa ver devorada física e metaforicamente pelo o mundo que o cerca, caracterizando uma ideia um pouco predatória, por mais que o roteiro não esvazie o personagem de ter uma posição e uma identidade dentro daquele universo. Porém, até que ponto da narrativa Jim pode parar para pensar suas práticas e ser ativo com Lucien para salvar o mundo gay? Bem, essa é piada do filme: "to stop and think or top a twink? that's the question!". Libertar-se das convenções sociais e pessoais para salvar a todes. Mas no final, podemos ainda nos dar o luxo de poder rir da situação. E, talvez, esse seja o objetivo principal da obra: a autoironia. O poder de não se levar tão a sério, o poder do riso.
Mas Jim Queen, em toda sua glória animada e camp, acaba consolidando a representação de uma comunidade de maneira carnavalizada e autoconsciente, quase estrategicamente desenhada para seu principal público-alvo. É, e digo isto de forma bastante honesta, um filme fofo, que me divertiu muito durante a sessão e preza por nivelar as experiências para agradar todas as tribos.
*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (cuja sessão foi precedida, obviamente, por uma bateção de leques para fins publicitários).
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

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