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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ponto Sem Retorno - Em qual ponto vamos chegar?

Ponto sem Retorno | Walt Disney Studios


Ponto Sem Retorno acompanha Hig, um piloto que sobreviveu a uma pandemia global de gripe que dizimou a humanidade, que vive em um hangar no Colorado com seu cachorro e um ex-fuzileiro, sua rotina muda ao captar uma misteriosa transmissão de rádio. O longa constrói sua narrativa a partir de uma proposta mais intimista e reflexiva, utilizando a trajetória de seus personagens para desenvolver uma mensagem clara sobre as escolhas e consequências que surgem ao longo da vida. O longa não parece interessado em esconder aquilo que deseja transmitir ao público, apresentando sua reflexão de maneira direta e deixando que os acontecimentos funcionem como parte dessa construção. Mesmo quando a história assume caminhos mais dramáticos, existe uma preocupação em tornar sua mensagem acessível, sem depender de interpretações excessivamente complexas para que o espectador compreenda sua proposta.

A narrativa se desenvolve lentamente e tenta, em diversos momentos, criar uma sensação de tensão diante dos acontecimentos, mas nem sempre consegue fazer com que essa expectativa tenha o impacto necessário. Existem situações que parecem preparar o terreno para algo mais intenso, porém acabam se resolvendo de maneira morna ou sem a força que o desenvolvimento sugeria. 

O desenvolvimento do romance também é uma das escolhas que pode dividir opiniões. Desde o primeiro encontro entre os personagens, a relação transmite uma sensação de algo forçado, como se o roteiro precisasse estabelecer aquele vínculo antes que a conexão realmente acontecesse de maneira natural.

Ainda assim, Ponto Sem Retorno consegue encontrar maneiras de tornar sua experiência mais leve, os momentos cômicos surgem de forma sutil e pontual, sem quebrar completamente o tom da narrativa, funcionando como pequenas pausas em meio às situações mais sérias. Esse humor não domina a trama, mas ajuda a criar uma dinâmica mais agradável entre os personagens e impede que o filme se torne excessivamente pesado. São justamente esses pequenos momentos que contribuem para trazer mais humanidade à história. 

Outro acerto está, justamente, no desenvolvimento dos personagens. Cada um possui um passado que, aos poucos, encontra espaço dentro da narrativa e se encaixa nos acontecimentos principais. O filme consegue fazer com que suas histórias anteriores não sejam apenas informações jogadas para justificar comportamentos, mas elementos que ajudam a compreender suas decisões e a maneira como se relacionam uns com os outros.

Ponto Sem Retorno (2026) possui uma mensagem reflexiva bem definida e encontra seus melhores momentos no desenvolvimento de personagens que carregam histórias e experiências capazes de contribuir para a narrativa principal. O longa possui qualidades suficientes para sustentar sua proposta e deixa uma reflexão clara sobre os caminhos escolhidos e as consequências que surgem quando já não existe mais volta.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Homem-Aranha: Um Novo Dia - O peso de ser herói nunca foi tão grande para Peter Parker

Homem Aranha: Um Novo Dia | Sony Pictures 


Peter vive completamente sozinho, tendo apagado sua existência da memória de quem ama. Enquanto protege uma Nova York que já não conhece seu nome, dedica-se integralmente a ser o Homem-Aranha. Mas a pressão constante desencadeia uma misteriosa evolução física que ameaça sua própria existência, ao mesmo tempo em que uma onda de crimes revela uma das ameaças mais poderosas que ele já enfrentou.

O início do filme apresenta Peter Parker como Homem-Aranha combatendo o crime, mostrando que ele já vive essa nova realidade há bastante tempo e que já conhece até mesmo o Justiceiro. É como se o espectador abrisse um quadrinho no meio de uma história já em andamento, sem acompanhar a origem do herói. Essa escolha dá uma sensação de que essa nova fase do protagonista já existia antes do início do filme, em vez de ser apresentada junto ao público.

A trama mostra como Peter se sente sozinho após todos terem se esquecido dele. Sua vida passa a se resumir ao combate ao crime em Nova York. Ele perdeu seu melhor amigo, Ned Leeds, e sua namorada MJ, e não tem coragem de tentar reconstruir a relação que tinha com eles, pois teme colocá-los em perigo novamente. Embora suas intenções sejam altruístas, essa decisão representa um sacrifício de sua própria felicidade, o que lhe impõe um alto custo emocional.

A relação entre o Homem-Aranha e o Justiceiro rende momentos cômicos pelo contraste entre suas personalidades. Enquanto o Homem-Aranha evita matar seus inimigos, o Justiceiro recorre à violência letal sem hesitação. O filme explora esse contraste em cenas como aquela em que Peter joga teia na boca do Justiceiro para impedir que ele use um palavrão. A piada funciona porque brinca com a diferença entre o tom mais adulto das histórias do Justiceiro e a abordagem mais acessível das produções do Homem-Aranha, reforçando a química entre os personagens e tornando o humor mais natural, sem comprometer a identidade de nenhum dos dois.

Apesar de eu gostar muito dos filmes anteriores do Tom Holland como Homem-Aranha — que, inclusive, é o meu intérprete favorito do personagem no cinema —, sempre senti falta de mais cenas mostrando o herói balançando pelas teias entre os prédios de Nova York. Felizmente, este filme atende a essa expectativa e entrega sequências que valorizam esse aspecto clássico do personagem. Os voos de teia são bem coreografados, passam uma verdadeira sensação de liberdade e tornam a ação mais envolvente, além de reforçarem a identidade do herói.

Mesmo tendo gostado muito do filme e ficado feliz em ver Peter em uma trama mais urbana, senti que a duração acabou prejudicando a minha experiência. Em determinado momento, a história passa a impressão de que já alcançou um desfecho satisfatório, mas novos conflitos surgem e prolongam a narrativa além do necessário. Embora esses acontecimentos tenham importância para a trajetória do protagonista, o ritmo perde força em alguns trechos, fazendo com que o filme pareça mais longo do que realmente é.

Homem-Aranha: Um Novo Dia me deixou com um sorriso no rosto ao final da sessão. O filme entrega boas cenas de ação, resgata a essência do herói e explora bem a solidão e os desafios de Peter Parker. Apesar de alguns problemas de ritmo, continua sendo uma experiência divertida e uma adaptação que resgata elementos essenciais do personagem, entregando a sensação de estar acompanhando uma verdadeira aventura do Homem-Aranha.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Toy Story 5 - Adeus, chão do quarto. Olá, algoritmo

Toy Story 5 | Disney


Buzz, Woody, Jessie e os demais brinquedos tradicionais são desafiados pela nova obsessão das crianças do século XXI: os dispositivos eletrônicos.

A era dos brinquedos parece ter chegado ao fim, e eles temem não serem mais brincados por seus donos. As crianças estão cada vez mais interessadas em tablets e outras formas de entretenimento digital, algo que reflete uma realidade atual em que a tecnologia ocupa um espaço cada vez maior na infância e redefine os modos de brincar. A ideia de abordar esse tema é interessante porque permite que o filme discute as transformações nos hábitos das novas gerações e suas consequências emocionais. Essa discussão já havia sido ensaiada em Toy Story: Esquecidos Pelo Tempo, que explora o conflito entre videogames e brinquedos tradicionais. O novo filme retoma essa ideia, mas a amplia ao trazer o impacto dos tablets e da pressão social na infância contemporânea.

O longa não tem a intenção de retratar a tecnologia como algo negativo, mas sim de refletir sobre o impacto que ela exerce nos hábitos e comportamentos das novas gerações. A trama sugere que Bonnie passa a sentir vergonha de brincar com seus brinquedos ao perceber que outras crianças preferem tablets e formas de entretenimento digital. Esse conflito vai além da simples disputa entre brinquedos e tecnologia, tornando-se uma reflexão sobre aceitação e o medo de julgamento, algo com o qual o público de diferentes idades pode se identificar. Nesse contexto, a narrativa também evidencia a pressão social que leva crianças — e até adultos — a esconder interesses considerados “infantis”, transformando o conflito em uma discussão sobre identidade, pertencimento e auto aceitação.

O passado de Jessie, já introduzido em Toy Story 2, retorna como elemento emocional importante. O filme aprofunda sua dor do abandono e trabalha sua aceitação de forma mais madura e sensível, o que justifica seu destaque como protagonista nesta nova fase da franquia. Falando na personagem, a escolha de Jessie como protagonista de Toy Story 5 é interessante, já que Woody já teve sua trajetória bem desenvolvida ao longo da franquia, enquanto Jessie ainda não recebeu tanto destaque no filme anterior. Dessa forma, o longa amplia o espaço narrativo da personagem e permite um aprofundamento emocional mais consistente dentro da história.

Do ponto de vista técnico, o filme apresenta uma evolução evidente. O flashback de Jessie, por exemplo, ganha nova vida com iluminação mais equilibrada, vegetação mais detalhada e maior profundidade de cenário, reforçando a sensação de realismo. A estética mantém o tom quente do original, mas com um acabamento mais natural e imersivo, contribuindo para uma experiência visual mais refinada. Além disso, a composição das cenas valoriza melhor o espaço e a ambientação, tornando o resultado final mais consistente e envolvente.

Toy Story 5 equilibra nostalgia e atualização ao revisitar temas da infância contemporânea e aprofundar personagens como Jessie. A evolução técnica da animação reforça a imersão, embora a narrativa siga uma estrutura relativamente segura dentro da franquia. Ainda assim, o filme mantém sua força emocional e sua relevância para diferentes gerações. Assim, o filme reafirma a capacidade da franquia de emocionar ao mesmo tempo em que se adapta às mudanças do tempo, preservando sua identidade e conquistando novos públicos sem perder a essência que a tornou marcante.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Toy Story (1995) - O Conflito Emocional

Toy Story | Disney


Buzz Lightyear é o novo e sofisticado astronauta de brinquedo do garoto Andy. O que Buzz não imaginava é que a crise de ciúmes de Woody, que até então era o brinquedo preferido de Andy, os colocaria em uma confusão tão grande. Longe do quarto, os dois vão ter de se unir para escapar do perigo.

Woody, acostumado a ser o centro da atenção de Andy, passa a se sentir deslocado e em posição vulnerável com a chegada de Buzz. Esse deslocamento desencadeia uma rivalidade que, inicialmente, parece apenas uma disputa por status, mas que aos poucos revela um conflito mais profundo: a necessidade de validação e o medo de perder relevância. Nesse sentido, os personagens podem ser lidos como representações de emoções humanas universais, especialmente a ansiedade diante de mudanças nas relações afetivas. A dinâmica entre eles também pode ser comparada à de irmãos, em que o mais velho sente sua posição ser questionado com a chegada de um novo integrante na família.

Além da dimensão emocional, o filme também pode ser interpretado dentro de um contexto cultural e industrial. Woody remete a um imaginário clássico do faroeste, enquanto Buzz representa a ascensão da ficção científica e da cultura tecnológica dos anos 1990. Essa oposição simbólica reforça a ideia de transição de eras dentro do próprio cinema e da cultura popular.

O longa é frequentemente considerado o primeiro filme totalmente feito em computador, o que gera uma polêmica, já que Cassiopéia também reivindica esse pioneirismo. Embora Toy Story tenha sido revolucionário, sua produção utilizou modelos físicos de argila que foram digitalizados e inseridos na animação. Já Cassiopéia foi produzido inteiramente em ambiente digital, sem o uso de elementos físicos, o que sustenta o argumento de ser a primeira animação totalmente em computação gráfica. Em contrapartida, Toy Story teve grande impacto na indústria e consolidou a Pixar como referência em animação digital. Assim, a definição de “primeiro filme em CGI” depende dos critérios adotados. Enquanto um destaca o impacto histórico e a inovação de Toy Story, outro valoriza a produção totalmente digital de Cassiopéia, tornando o debate mais complexo do que apenas a ordem de lançamento.

O filme apresenta uma trilha sonora marcante, com destaque para Amigo Estou Aqui, interpretada no original por Randy Newman e, na versão brasileira, por Zé da Viola. A canção possui uma sonoridade suave e acolhedora, conduzida principalmente pelo piano, criando uma atmosfera de conforto e proximidade. Ela é usada no início do filme para reforçar a relação entre Woody e Andy, evidenciando o vínculo de amizade, confiança e companheirismo entre os dois. Já Coisas Estranhas acompanha o momento em que Woody começa a perceber que está sendo substituído por Buzz Lightyear. Com um tom mais tenso e introspectivo, a música contrasta com a anterior e evidencia o conflito emocional do personagem. Sua instrumentação utiliza cordas mais dramáticas, percussão leve e um piano em tom mais sombrio, ajudando a transmitir a instabilidade emocional, tensão competitiva e a sensação de mudança vivida por Woody. Assim, as duas canções não apenas complementam a narrativa, mas também ajudam a traduzir musicalmente os estados emocionais dos personagens ao longo da história.

Toy Story é uma obra que vai além da história de brinquedos, abordando sentimentos como medo de substituição, insegurança e a busca por validação na relação entre Woody e Buzz. O filme também tem grande importância histórica na animação digital, embora exista um debate sobre o pioneirismo do CGI em comparação com Cassiopéia. Essa discussão mostra que diferentes critérios podem ser usados para definir inovação no cinema. Assim, o longa se destaca tanto pelo impacto emocional quanto pelo avanço tecnológico, consolidando seu lugar na história da animação.

Autor:



Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Socorro! - Ela sobreviveu ao sistema. Ele só sabia existir dentro dele.

Socorro! | Disney


Dois colegas ficam presos em uma ilha deserta após serem os únicos sobreviventes de um acidente de avião. Na ilha, eles precisam superar antigos ressentimentos e trabalhar juntos para sobreviver, mas, no fim, trata-se de uma inquietante batalha de vontades e perspicácia, marcada por humor ácido, para sair com vida.

A protagonista, Linda Liddle, é construída como a figura da competência invisível. Ela representa profissionais — especialmente mulheres — que seguem todas as regras do sistema corporativo, mas continuam presas a um teto simbólico feito de preconceito, estética, comportamento e expectativa social. Sua frustração não nasce de ambição vazia, mas da promessa quebrada de reconhecimento. O roteiro deixa claro que Linda não quer apenas subir de cargo; ela quer ser validada. 

Criticamente, porém, Linda não é uma heroína clássica. À medida que ganha autonomia, sua trajetória levanta uma questão incômoda: até que ponto a libertação pessoal justifica a perda de limites éticos? A Narrativa parece sugerir que anos de repressão produzem não apenas força, mas também ressentimento acumulado, e Linda passa a confundir sobrevivência com controle absoluto. Ela deixa de reagir ao sistema e passa a reproduzir sua lógica, ocupando apenas outro lugar nele. Linda é, portanto, uma personagem potente justamente por não ser confortável: expõe como o discurso de empoderamento pode se tornar distorcido quando não é acompanhado de responsabilidade moral. Sua transformação não é uma redenção — é uma advertência.

Bradley, por sua vez, encarna o privilégio herdado. Sua autoridade não é construída, mas entregue, o que o torna frágil fora das estruturas que o sustentam. Ele confunde liderança com comando, e respeito com medo ou obediência. No ambiente corporativo, isso funciona; fora dele, sua insegurança se expõe. Bradley, não é apenas um antagonista individual, mas um símbolo sistêmico: representa um tipo de poder que se mantém não por competência, mas por exclusão. Seu desprezo por Linda não nasce de uma crueldade consciente, mas de uma incapacidade profunda de enxergá-la como igual. Ainda assim, o longa evita torná-lo um vilão unidimensional. Bradley é patético, contraditório e, em certos momentos, desesperado por afeto e validação. Essa vulnerabilidade não o absolve, mas o humaniza, reforçando a crítica central: o privilégio não prepara para a perda, apenas para a negação dela.

A relação entre Linda e Bradley é apresentada como um conflito de poder imposto pelas circunstâncias, não como uma parceria genuína. Eles partem de uma hierarquia desigual: Bradley sustentado por autoridade herdada, Linda marcada pela competência desvalorizada. À medida que o contexto muda, essa estrutura se desloca, expondo a fragilidade do poder dele e o fortalecimento gradual dela. O vínculo nunca se baseia em confiança, mas em dependência e tensão, funcionando como um espelho das desigualdades que moldaram ambos. Não se trata de afeto, mas de inversão de quem controla e quem obedece.

O filme é dirigido por Sam Raimi, conhecido pela trilogia Homem-Aranha com Tobey Maguire e por A Morte do Demônio, obras que consolidaram seu estilo marcado por violência estilizada e humor ácido. Embora o início do filme pareça mais contido e distante dessa assinatura, essa abordagem funciona como preparação. Com o avanço da narrativa, a presença de Raimi se torna cada vez mais clara, e o tom inicial “enganoso” dá lugar a uma condução visceral e provocadora típica de seu cinema. 

Um exemplo marcante é a cena em que Linda mata um javali durante sua luta pela sobrevivência. Mais do que uma ação, esse momento representa uma virada na personagem: evidencia sua adaptação ao ambiente hostil e a ruptura definitiva com a vida que levava antes. A cena é intensa, sem glamourizar a violência, reforçando o caráter instintivo da sobrevivência. Ao mesmo tempo, sintetiza temas centrais do filme, como transformação, resistência e a construção de poder fora das estruturas sociais convencionais. É uma demonstração clara de como o filme comunica muito sobre Linda sem precisar dizer demais, deixando que a ação e a imagem falem por si.

Socorro! vai além da história de sobrevivência para explorar relações de poder e desigualdade. Colocando Linda e Bradley em um ambiente extremo, o filme revela a fragilidade do privilégio, o acúmulo de ressentimento e a transformação de quem precisa lutar para ser reconhecido. Sob a direção de Sam Raimi, a obra equilibra humor ácido, violência estilizada e tensão psicológica, mostrando que a verdadeira luta não é apenas contra o ambiente hostil, mas contra os conflitos internos e morais dos personagens. Linda se torna símbolo de autonomia complexa, enquanto Bradley representa um poder que nunca foi conquistado, reforçando a crítica social central do filme.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Homem de Ferro - Um bilionário, um reator e um péssimo senso de limites

Homem de Ferro | Disney


Quando é capturado em território inimigo, o genial magnata Tony Stark constrói uma armadura de alta tecnologia para escapar. Agora, ele tem a missão de salvar o mundo como um herói que não nasceu.

Esse foi o primeiro filme a integrar um dos maiores universos cinematográficos e se tornou uma importante referência. Antes tínhamos filmes de heróis que pertenciam apenas aquele núcleo, como é o caso da trilogia Homem-Aranha de Sam Raimi, da trilogia X-Men do ano 2000 e Quarteto Fantástico. A grande inovação foi justamente conectar diferentes personagens e histórias em um mesmo universo compartilhado, algo que elevou o padrão das produções do gênero e transformou a maneira como o público passou a acompanhar essas narrativas no cinema.


A origem de Tony Stark como o Homem de Ferro apresenta um personagem inicialmente debochado, arrogante e obcecado por tecnologia — um gênio bilionário cuja fortuna é construída sobre a fabricação de armas de destruição em massa. No entanto, o destino o força a encarar as consequências de suas próprias criações. Durante uma demonstração de seus armamentos, Stark é gravemente ferido por uma explosão provocada justamente pelas armas que ele mesmo projetou. Estilhaços de metal ficam alojados próximos ao seu coração, e para sobreviver ele cria um reator arc, uma fonte de energia miniaturizada que alimenta um eletroímã, impedindo que os fragmentos o matem.

 

Esse mesmo reator se torna o núcleo de algo ainda maior: a armadura do Homem de Ferro, um traje de alta tecnologia que proporciona voo, força sobre-humana e um poderoso arsenal. Mais do que uma ferramenta de combate, a armadura simboliza a transformação de Tony Stark  — de um homem guiado pelo lucro e pela vaidade para alguém que reconhece o impacto devastador de suas invenções.


A experiência o faz abrir os olhos para o fato de que suas armas alimentaram guerras e causaram incontáveis mortes. A partir desse despertar, Stark passa a questionar o papel da tecnologia e da responsabilidade ética por trás do poder que ela concede. Assim, o Homem de ferro não nasce apenas do ferro e do fogo, mas também de um profundo senso de culpa e desejo de redenção.


Só vemos o herói em ação de verdade depois de aproximadamente uma hora e quinze minutos de filme — e, quando isso acontece, é simplesmente espetacular. A cena marca o momento em que Tony Stark veste pela primeira vez a armadura completa, a clássica vermelha e dourada, e parte para o combate. O som metálico, os disparos precisos e o voo poderoso criam uma sequência de tirar o fôlego, que consagra de vez o nascimento do heró que mudaria todo o Universo Cinematográfico da Marvel.


Por mais que o filme tenha um protagonista carismático e cenas marcantes, a narrativa se torna um pouco monótona em certos momentos. O ritmo lento, aliado a longas sequências de exposição e diálogos explicativos, faz com que a parte da história se arraste, diminuindo a sensação de urgência e tensão. Há momentos em que o enredo parece caminhar sem pressa, deixando o espectador aguardando ansiosamente pelo ponto de virada em que o Tony Stark finalmente assume seu papel de herói. Essa espera prolongada faz com que a chegada da armadura completa seja ainda mais impactante, mas também evidencia que o filme só encontra seu verdadeiro ritmo na segunda metade.

O vilão Monge de Ferro, Obadiah Stane, é retratado como um magnata inescrupuloso e manipulador, movido apenas pela ganância e pela inveja do sucesso de Tony Stark. Apesar de sua postura de mentor e aliado nos primeiros momentos, logo se revela um antagonista previsível, cuja malícia carece de profundidade. Seu papel como vilão funciona, mas não chega a impressionar — é mais uma figura de poder corrompido do que um inimigo realmente memorável.


Homem de Ferro não é apenas um filme de origem de super-herói; ele marca o início de uma nova era no cinema de heróis ao estabelecer as bases do Universo cinematográfico da Marvel. A narrativa foca na transformação de Tony Stark, que evolui de um magnata arrogante e egoísta para um herói consciente de suas responsabilidades, simbolizada pela criação e uso da armadura. Apesar de um ritmo inicial mais lento e de um vilão relativamente previsível, o filme se destaca pela construção de personagem, pelo impacto visual das cenas de ação e pelo potencial inovador de conectar diferentes histórias em um universo compartilhado.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


O Incrível Hulk (2008) - Um homem, dois tons de verde e muitas fugas mal planejadas

O Incrível Hulk | Disney


Vivendo escondido e longe de Betty Ross, a mulher que ama, o cientista Bruce Banner busca um meio de retirar a radiação gama que está em seu sangue. Ao mesmo tempo ele precisa fugir da perseguição do general Ross, seu grande inimigo, e da máquina militar que tenta capturá-lo, na intenção de explorar o poder que faz com que Banner se transforme no Hulk.

O filme acerta ao pular o tradicional arco de origem dos super-heróis — algo que já havia sido explorado em Hulk (2003) — e optar por uma abordagem mais direta e madura. Essa escolha narrativa demonstra confiança no público, que não precisa ser novamente apresentado às circunstâncias que levaram à transformação do personagem. Ao invés de gastar tempo com explicações repetitivas, o roteiro direciona sua energia para o desenvolvimento da trama e para a construção de um protagonista mais consciente de seus poderes e dilemas. Essa escolha também ajuda a diferenciar o filme dentro do gênero de super-heróis, evitando a estrutura repetitiva de “descoberta de poderes” e focando em algo mais introspectivo: o peso de conviver com eles. O espectador acompanha um personagem que já entende sua própria força, mais ainda luta para aceitá-la, o que adiciona uma dimensão mais trágica e humana à narrativa. Assim, o foco se desloca do “como ele se tornou o Hulk” para “como ele aprende a viver sendo o Hulk”, transformando o conflito em algo mais psicológico e existencial.

A narrativa se desenvolve de maneira muito reta, sem grandes surpresas ou mudanças significativas ao longo da história. As situações parecem sempre conduzir o protagonista ao mesmo ponto de partida, criando a sensação de que ele está preso em um ciclo constante de fuga, perseguição e conflito. Cada novo obstáculo leva a uma reação previsível, e as consequências raramente transformam de fato o rumo da trama ou o estado emocional dos personagens. Essa repetição de eventos faz com que o enredo pareça girar em torno das mesmas ideais e conflitos, sem introduzir variações que tragam novas camadas ou desafios diferentes. A história, portanto, avança sem grandes viradas ou momentos de descoberta. Tudo acontece em sequência, de modo direto, e o público consegue antecipar facilmente o que vem a seguir. Essa linearidade acabam tornando o filme menos envolvente, pois faltam complexidade, variação emocional e surpresas capazes de renovar o interesse e dar profundidade à jornada do personagem.

O design do Hulk é o destaque do filme. A criatura tem aparência realista, com músculos bem definidos, pele detalhada e expressões que mantém a conexão com Bruce Banner. Sua movimentação transmite peso e força, tornando o personagem crível e imponente. O tom de verde mais escuro e o visual mais orgânico reforçam seu lado selvagem, resultando em um Hulk poderoso, convincente e visualmente marcante.

O incrível Hulk se destaca por sua abordagem direta e por apostar em uma narrativa mais madura dentro do gênero de super-heróis. Embora a trama apresente certa linearidade e repita alguns padrões de conflito, o filme compensa com uma execução técnica sólida e um bom equilíbrio entre ação e drama. O visual impressionante do Hulk e o esforço em humanizar Bruce Banner garantem momentos de intesidade e empatia, mesmo quando o roteiro não se arrisca tanto em novas direções. No fim, o longa funciona como uma peça importante na construção do personagem dentro do universo cinematográfico da Marvel, entregando uma experiência envolvente, visualmente marcante e emocionalmente contida, mas eficaz.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

sábado, 11 de outubro de 2025

Tron: Ares - Um Retorno Sem Impacto

Tron : Ares | Disney


Tron: Ares acompanha o programa Ares, uma espécie de computador altamente qualificado e melhor desenvolvido do que os demais presentes na Terra. Em uma importante missão, Ares é retirado do mundo digital para conseguir resolver os problemas do mundo real, no entanto, os perigos apresentados pelo novo trabalho serão capazes de fazê-lo desacreditar de seus próprios códigos.

Este é o terceiro filme de uma franquia que, apesar de ter sido inovadora quando o primeiro longa foi lançado — graças ao uso pioneiro de efeitos especiais com gráficos gerados por computador (CGI) para criar ambientes e personagens digitais — acabou sendo esquecida com o tempo e não se tornou verdadeiramente memorável. Embora os efeitos tenham sido uma novidade na época, já pareciam datados.

Tron: O Legado (2010) apresentou visuais muito mais impressionantes: as Light Cycles e outras cenas de ação foram aprimoradas com gráficos dinâmicos e realistas. Esse, aliás, eu assisti no cinema e criei certo carinho por ele. Quando criança, cheguei a desejar uma continuação, mas os anos passaram, e acabei deixando a franquia de lado... até que Tron: Ares foi anunciado. Não me empolguei muito para assistir, mas resolvi conferir — e, de certa forma, bateu aquela nostalgia da infância.

Claro que isso não significa que eu tenha gostado tanto do novo filme quanto do anterior. Nesta nova produção, a inteligência artificial não é exatamente explorada como um tema central voltado à reflexão mais profunda ou filosófica. Em vez disso, ela funciona mais como um pano de fundo conveniente — um recurso narrativo que serve apenas para conduzir uma jornada visualmente estilizada, mas que, no fim das contas, gira em torno do vazio existencial do protagonista.

Ares, protagonista do longa, é apresentado como uma entidade artificial que, aos poucos, começa a demonstrar traços de compaixão e humanidade. No entanto, sua construção emocional permanece supercial, e o filme não consegue estabelecer uma conexão verdadeira entre ele e o público. Apesar da proposta de uma jornada de autodescoberta, Ares carece de carisma e profundidade suficientes para despertar empatia genuína no espectador.

Por outro lado, Eve Kim, a personagem humana da história, demonstra muito mais presença e carisma. Ela é retratada como uma jovem nerd que trabalha na Encom e se dedica a decifrar o código deixado por Flynn. É nesse contexto que acaba cruzando o caminho de Ares. Eve traz humanidade e dinamismo à narrativa, funcionando como um contraponto necessário à frieza programada do protagonista. Sua participação confere leveza e maior apelo emocional à trama.

O filme até tenta desenvolver um romance entre os dois personagens. Embora a proposta possa parecer clichê, não haveria problema se tivesse sido bem executada. No entanto, a forma como essa relação foi construída ficou bastante superficial — a interação se resumiu a longos olhares e tentativas de paquera que, soaram até constrangedoras.

Um ponto que achei interessante foi a participação de Julian Dillinger, presidente da Dillinger System, empresa concorrente da Encom — uma multinacional estadunidense de tecnologia responsável pelo desenvolvimento de diversos programas e inovações fundamentais, incluindo o hardware e software que digitalizam dentro do universo do filme. Na cena em que Dillinger ordena o lançamento de Ares em um ataque cibernético ao mainframe da Encom, o personagem invade esse ambiente virtual como se estivesse invadindo um território inimigo, enfrentando guardiões digitais da empresa. Essa representação da batalha no mundo virtual me pareceu criativa e eficaz, adicionando tensão e dinamismo à narrativa.

A trilha sonora do filme é impressionante, incorporando elementos típicos do estilo cyberpunk, como sons eletrônicos, sintetizadores envolventes e batidas pulsantes. Essa combinação contribui para criar uma atmosfera futurista e imersiva, que reforça o clima tecnológico, ajudando a transportar o espectador para dentro do universo digital retratado na tela.

Tron: Ares é como um prato servido com uma apresentação impecável, cores vibrantes e aroma instigante — mas que, ao ser provado, revela um sabor raso e sem tempero. Visualmente, ele impressiona e até desperta aquela nostalgia de um prato que você adorava na infância, mas que hoje, ao experimentar novamente, percebe que faltam ingredientes essenciais. O protagonista é mal temperado e a inteligência artificial — que poderia ser o ingrediente principal — acaba sendo usado apenas como enfeite no prato. No fim, o filme até pode matar a fome de curiosidade dos fãs, mas dificilmente deixará um gosto marcante ou vontade de repetir.

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Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Irmão Urso - A Joia Subestimada da Era Experimental da Disney

Irmão Urso | Disney


Kenai é um jovem índigena que tem aversão a ursos. Após um trágico evento envolvendo seu irmão Sitka, Kenai se vê transformado em um urso. Agora, ele precisa contar com a ajuda de Koda, um filhote de urso, para chegar a uma montanha mágica onde acredita poder voltar à sua forma humana.

Irmão Urso foi um dos filmes lançados durante a era experimental da Disney, um período em que muitos filmes não receberam o reconhecimento merecido em sua época, mas com o passar dos anos se tornaram cultuados. Lançado nos anos 2000, o filme pode ser considerado injustiçado, pois carrega uma mensagem profunda sobre amadurecimento e autodescoberta. A história de Kenai, que inicialmente não entende o significado do seu totem (o urso do amor), reflete a luta contra uma masculinidade tóxica que o impede de aceitar sentimentos mais profundos, como o amor.

A animação ensina que o amor transcende barreiras e que, assim como os humanos, os ursos também são capazes de amar. Percebendo isso ao conhecer Koda, um urso filhote alegre e carinhoso, Kenai começa a entender o verdadeiro significado de seu totem. Koda, que o vê como um irmão mais velho, cria um vínculo genuíno e afetuoso com Kenai, desafiando suas crenças anteriores. 

A obra se destaca pelo seu estilo de arte belíssimo e expressivo. O filme apresenta paisagens deslumbrantes inspiradas na natureza selvagem da América do Norte, com florestas densas, montanhas majestosas, rios cristalinos e céus coloridos pela aurora boreal. A animação aposta em cores vibrantes e contrastes marcantes, criando uma atmosfera visual rica que reforça o tom espiritual e poético da história. Um detalhe artístico notável é a mudança sutil no formato da imagem ao longo do filme: no início, a tela tem proporções mais estreitas e cores mais frias, refletindo a visão limitada e endurecida de Kenai. Quando ele se transforma em urso, o formato se expande para widescreen e a paleta de cores se torna mais quente e viva, simbolizando sua abertura a uma nova perspectiva e conexão com o mundo natural.

Desde criança, nunca enxerguei Denahi — o irmão mais velho de Kenai — como o vilão. Na verdade, sua motivação é compreensível: ele acredita que Kenai foi morto por um urso, sem saber que seu irmão havia sido transformado em um. Movido pela dor da perda e pelo desejo de vingança, Denahi parte em busca do animal, sem imaginar a verdade por trás da situação. Logo no início, já é possível perceber a dinâmica entre os irmãos. Kenai e Denahi vivem se provocando, com Denahi frequentemente implicando com o irmão caçula de forma bem-humorada, como parte daquela típica rivalidade fraterna. Essas interações ajudam a construir uma relação crível e afetuosa entre eles, tornando os acontecimentos seguintes ainda mais impactantes emocionalmente.

Para Koda, que desconhece o passado de Kenai como humano, Denahi parece ser o verdadeiro vilão da história. No entanto, é importante entender que Denahi é, na verdade, um antagonista — e antagonista não é sinônimo de vilão. Um antagonista é simplesmente alguém (ou algo) que se opõe ao protagonista e representa um obstáculo em sua jornada. Ele não necessariamente age por maldade, mas por ter objetivos ou crenças que entram em conflito com os do personagem principal. Nesse sentido, Denahi representa mais uma figura trágica do que mal-intencionada, reforçando a complexidade emocional do filme e a forma como ele trata temas como dor, perda, amadurecimento e reconciliação.

Irmão Urso é muito mais do que uma simples animação infantil — é uma obra sensível e reflexiva que aborda temas universais como amadurecimento, empatia, perdão e a capacidade de amar. Com personagens cativantes, uma direção de arte deslumbrante e uma narrativa emocionalmente envolvente, o filme convida o espectador a olhar o mundo com outros olhos, assim como Kenai aprende a fazer ao longo de sua jornada. Mesmo tendo sido subestimado em seu lançamento, a profundidade da sua mensagem e a beleza de sua execução fazem com que a animação mereça ser redescoberta e valorizada como uma das joias emocionais da era experimental da Disney.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda (2025) - Mesmo raio, contextos diferentes

Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda | Disney


Ao entrar na cabine deste filme, este crítico caiu em lembranças longínquas de ir ao cinema, quando criança que aprendeu a não ter medo do escuro, acompanhado de sua mãe e avó. Muitos dos filmes vistos nesse breve período de tempo, se tornaram marcos cinematográficos de uma geração de jovens. Um desses filmes foi Sexta-Feira Muito Louca, lançado em 2003, que se tornou um clássico entre os late millenials que cresceram nos anos 2000 e foi revisitado pela gen z pela sua estética Y2K nos últimos anos. Mas a história desse filme vem muito antes do século XXI.

Freaky Friday, título no original, é um livro infanto-juvenil escrito por Mary Rodgers, lançado em 1972, que teve seus direitos comprados pela Disney logo após sua publicação. A obra foi adaptada, desde os anos 70, para o cinema, televisão e teatro. Suas duas principais adaptações para o cinema foram: Se eu fosse minha mãe (1976), com Barbara Harris e Jodie Foster; e o já mencionado filme de 2003, com Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan no elenco. 

Na trama desta última versão, Curtis e Lohan são Tess e Anna Coleman, respectivamente, uma mãe psicóloga e uma filha roqueira, que não se dão bem às vésperas do novo casamento de Tess. Após ambas lerem uma profecia em um biscoito da sorte, elas acordam no corpo uma da outra, no dia seguinte. Assim, mãe e filha devem descobrir como reverter a profecia, enquanto tentam convencer a todos em seus novos papéis. Reavaliando antes de assistir sua sequência, é um filme que continua bastante divertido e energético, apesar de apresentar elementos orientalistas, que acabam sendo centrais no decolar da narrativa. 

No entanto, antes de assistir a versão de 2025, este crítico se perguntava de vez em quando: “por que fazer uma continuação desse filme?” Afinal, é um questionamento válido em que a indústria cinematográfica, especialmente a estadunidense, mercantiliza a nostalgia por filmes de épocas passadas, com remakes e continuações. Além disso, precisamos lembrar que estamos falando da Disney, que qualquer animação com mais de dez anos de lançamento seja considerada para ser transformada em um live action. Então, a chance de ser mais uma jogada “caça níquel” da empresa é alta. Felizmente, este não é o caso.

Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda (2025), título brasileiro imenso por sinal, é uma continuação que parte diretamente da adaptação de 2003, e não dos outros livros de Rodgers. 

Vinte e dois anos depois dos eventos do primeiro filme, Anna Coleman (Lindsay Lohan) agora é uma ex-guitarrista e agente musical de uma gravadora de sucesso que cuida de sua filha Harper (Julia Butters), com a ajuda de sua mãe Tess (Jamie Lee Curtis). Após Anna conhecer o viúvo Eric (Manny Jacinto), eles entram em um relacionamento e, meses depois, decidem se casar. Porém, sua filha e sua futura enteada, Lily (Sophia Hammons), se detestam e odeiam o fato de que seus pais irão se unir em matrimônio. E durante os desafios que surgem da união de duas famílias, Tess e Anna descobrem que um raio cai sim duas vezes no mesmo lugar, uma vez que as quatros mulheres, jovens e maduras, trocam de corpos entre si. Enquanto isso, Harper e Lily fazem de tudo para que o casamento de seus pais não aconteça.

Como a sinopse sugere, a nova versão não só continua a história das personagens do primeiro quanto também funciona como um soft reboot ou uma legacy sequel, uma vez que o roteiro de Jordan Weiss se apropria da base narrativa, quase identicamente, do longa anterior. Então, para continuar esta análise, devemos fazer uma pergunta: “quais são os motivos por trás desse filme e o querem provar com isso?”

Sexta-Feira de 2003 foi um sucesso de crítica especializada e público e Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan ficaram imortalizadas em seus papéis. Apesar de serem artistas bastante diferentes, as carreiras de Curtis e Lohan passaram por altos e baixos em mais de vinte anos.

Este foi um dos últimos papéis de Curtis antes de sua brevíssima aposentadoria, por cerca de dois anos, e voltou à atuação em filmes que foram mal de crítica. Trabalhou também na televisão e em dublagens de animação. Sua carreira começou a ter mais visibilidade novamente com a série cult de “terrir” Scream Queens (2015-16) e os legacy sequels da franquia Halloween (2018-22). Em 2023, Curtis ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante no divisivo Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022). 

Já a carreira de Lohan chegou a um apogeu como uma estrela teen com o lançamento de Sexta-Feira e de Meninas Malvadas (2004), ambos filmes dirigidos por Mark Waters por sinal. Além da atuação, ela também tentou uma carreira musical. Porém, por problemas de ordens pessoais e midiáticas, afastou-se da atuação por um breve tempo para se recuperar. Entre melhoras e recaídas, a atriz tentou, no início da década de 2010, retomar como atriz em dramas biográficos e suspenses psicossexuais que foram fracasso de crítica. Lohan mirou em projetos na televisão como documentários e pontas em seriados durante o restante da década. 

Em 2022, voltou a trabalhar em filmes de streaming nos gêneros de comédia e romance que a consagraram na juventude. Sexta-Feira 2, vamos chamar assim, é o seu primeiro lançamento como protagonista nos cinemas, após The Canyons (2013).

E com este novo ressurgimento no mercado hollywoodiano, temos duas mulheres que, através de uma obra que teve um impacto significativo em suas vidas profissionais, principalmente Lohan, querem provar que ainda possuem o mesmo carisma e energia como protagonistas. De fato, elas esbanjam isso neste filme.

As duas atrizes estão muito confortáveis em seus papéis e continuam ter a mesma química que as fizeram ser elogiadas na dinâmica original. Enquanto Curtis se diverte os divertidos choques de realidade da terceira idade, Lohan tem um papel muito mais central aqui - afinal, o primeiro plano do longa é uma visão idealizada de sua personagem para quem cresceu com o filme - visto que a narrativa foca na sua relação entre Anna e sua filha, assim também com seu noivo. No drama, nem sempre sua atuação flui, mas, na comédia, ela brilha.

Curtis e Lohan se entregam ao ridículo, à comédia corporal, com espontaneidade bastante latente, sem medo do caricato, sem amarras que limitam suas performances e nem o humor leve e bobo da obra. Uma das melhores cenas com as duas em cena envolve Lohan flertando com feições macarrônicas, enquanto Curtis se esconde atrás de vinil de Björk e de outras divas pop. 

Elas, já com uma experiência na atuação, também tem química com as novatas Julia Butters e Sophia Hammons, que conseguem se encaixar no tom do filme e seguraram bem seus papéis; simbolizando a triangulação entre intergeracional entre geração boomer, millenial e gen z que a trama quer promover, de forma orgânica. Aliás, os atores estão bem, nunca extrapolando aquilo que é pedido deles; entendendo quem são seus personagens, como devem agir em cena  e não perdendo o timing cômico de suas piadas. 

A diretora Nisha Ganatra, que tem experiência com filmes de comédia, entende muito bem para quem este longa-metragem está sendo feito e faz um trabalho competente em criar o clima da história. Há sim um apelo nostálgico a versão de 2003, mas, na direção de Ganatra, isso nunca se torna um tópico exagerado, em comparação com outros filmes apelam para a nostalgia e o fan service (detesto essa palavra!); aqui, somente o necessário. O roteiro aqui tem um contexto explicativo que poderia ser um pouco mais enxuto, mas funciona. Além disso, há um esforço da produção em remediar o orientalismo da versão anterior, colocando atores de ascendência asiática em papéis de destaque e agência, e trocando o dispositivo do bolinho da sorte por uma quiromante fracassada (uma participação divertida de Vanessa Bayer).

Comédias como Sexta-Feira 1 e 2, antigamente, eram feitas para ser lançadas diretamente no cinema e com o passar dos anos, tornou-se um gênero bastante nichado para o streaming. Então, é interessante ver um filme do gênero sendo produzido em formato cinematográfico, emulando um estilo de filme que não se produz muito no cenário atual. Porém, mesmo com investimento e uma boa direção, o filme tem um trabalho de fotografia um pouco aquém, menos ousado, se compararmos o longa de 2003; substituindo movimentos e jogos de câmera com efeitos visuais cafonas e baratos que parecem vindo de algum filtro do tiktok. 

A continuação de 2025, com seus acertos e erros, é uma comédia leve e divertida, que revisita seu antecessor, dando o devido respeito que lhe cabe na trama e personagens, com performances cômicas sólidas de seu elenco e sem exagerar demais no quesito da nostalgia. É um longa-metragem que nos lembra o motivo de termos gostado do primeiro filme, em primeiro lugar; mesmo que não tenha o mesmo frescor de outrora. Mesmo raio, contextos diferentes. 

O único questionamento que me permito a fazer, após o filme, é este: será que este estilo de narrativa de troca de corpos e amadurecimento seria um tema atemporal, ou será que é o efeito de mais uma sexta-feira louca nos cinemas? Talvez o tempo nos dará esta resposta.


                                                                  Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

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