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terça-feira, 17 de março de 2026

O Testamento de Ann Lee (2025) é o Berghain de Mona Fastvold

 

O Testamento de Ann Lee (2025) | Searchlight Pictures

Em "Berghain", single do álbum Lux, a cantora Rosalía canta, em uma mistura de alemão e espanhol, sobre a pequenez do ser diante de algo sobre o qual não tem controle: neste caso, em específico, o choque de cultura no icônico complexo clubber de Berlim que dá o nome da canção. Existe uma justaposição entre a tendência de ceder desconhecido entre música eletrônica, drogas e sexo e o medo quase infantil de seu eu-lírico na primeira metade da letra. 

A boate Berghain é, além monumento da cultura noturna da cidade alemã, também é exclusiva, pois muitas pessoas que não são da "cena" tentam entrar, o que descaracteriza o seu aspecto underground e alternativo. Porém o que me chama a atenção é como a cantora, na segunda parte da música, parece estreitar a relação, quase opositora, entre religião e o profano: enquanto que a participação da cantora islandesa Björk reforça a ideia de uma experiência divina libertadora, os versos finais de Yves Tumor reforçam a ideia de que o sexo (portanto, a "pequena morte") é também uma experiência religiosa.

E por mais que sejam obras de artes diferentes, não pude parar de fazer a associação da canção de Rosalía e o mais novo projeto da realizadora Mona Fastvold, enquanto eu assistia ao Testamento de Ann Lee (2025); estrelado por Amanda Seyfried no papel-título. Aqui, Fastvold escreve o guião junto de seu parceiro na profissão (e na vida) Brady Corbet, de O Brutalista (2024); retomando, um dos temas do projeto anterior: a experiência da imigração de refugiados europeus aos Estados Unidos em busca de uma nova oportunidade. No longa de 24, o contexto era o pós Segunda Guerra Mundial e a emigração judaica, neste aqui é o período colonial norte-americano e a intolerância religiosa (no mundo anglófono).

No século XVIII, Ann Lee foi a líder uma religião minoritária chamados de Shakers, pelo seu hábito de cantarem louvores como meio para se conectarem com Deus. Como é mostrado na narrativa, Lee não foi a criadora dessa vertente religiosa, mas se tornou uma figura importante para o grupo e se proclamava como ora como a segunda vinda de Jesus Cristo na terra, ora como a esposa de Jesus. Após de várias perseguições com a comunidade local em Manchester, Inglaterra (Lee é presa e atacada várias vezes, por exemplo), ela e seus seguidores seguem para os Estados Unidos com um sonho de fundar uma comunidade que os aceitem como são. Com cantoria e tudo.

(A) Mona entende que boa parte da psique de Lee vem de um local de repressão sexual, causado tanto pelas instituições religiosas quanto pela violência sexual que as mulheres são passíveis de sofrer, o que causa, como efeito, a imposição do celibato para todos os praticantes Shakers como preceito; pois, na filosofia da personagem, é um ato impuro que contém a mácula do "pecado original" (Vale ressaltar que a Lee passa por quatro partos malsucedidos que aumenta sua percepção do sexo como algo vil; portanto, sexo é visto como uma prisão física e metafórica de uma sociedade machista). Porém, por mais irônico que seja, com a negação do sexo, Fastvold filma as sequencias musicais com um certo gosto quase orgástico, seja pela energia do coro de vozes ou seja pela composição do ambiente em que os praticantes fazem de uma suas cerimônias ao ar livre em meio a elementos fálicos da natureza. Existe um gosto particular da direção que transparece nas conduções das sequências, algo entre o jocoso, o empático e o brutal.

As canções em que os Shakers usam aqui partem de um elemento natural do que de um tema religioso, é algo primal: a fome, o tempo, a natureza. São letras que tem sua qualidade estética e são muito bem utilizadas pela direção de Fastvold, pela fotografia em 35mm de William Rexer e pelo trabalho do compositor Daniel Blumberg. Sem as pieguices fascistas-pentecostais que dominam o cenário da música. A sensação é de ouvir uma cantiga medieval sendo cantada por um coral acapella.

Porém, se os elementos musicais e visuais são os pontos fortes do longa, o roteiro é um de seus pontos fracos, pois existe uma discrepância entre a disposição entre ação e tempo que ocorre na maioria das cinebiografias que decidem contar a história de vida de uma personagem. Apesar de sua divisão de capítulos, nem sempre a passagem de tempo é uniforme, dependendo bastante da narração em off para situar o espectador no decorrer do filme. No entanto, a dupla Fastvold-Corbet parece ser mais econômico e assertivo em Ann Lee do que em Brutalista, o que demonstra uma evolução expressiva  entre projetos. O potencial está ali. Talvez precisem refinar um pouco mais seus próximos roteiros.

E não tem como falar sobre O Testamento de Ann Lee sem falar um pouco sobre o trabalho de Amanda Seyfried no papel: existe uma grandeza para uma personagem um pouco polêmica e/ou controversa, na qual a atriz consegue pôr de coração e alma em sua performance. Se seus seguidores a chamam de "mãe" no filme, seus fãs chamam de "mãe" de volta. É um trabalho sensível e honesto que faz, ao mesmo tempo, o possível e o impossível em cena. Um trabalho de personagem complexo e vivaz, sem cair em trejeitos ou cacoetes que, às vezes, acometem uma performance. Quando Seyfried está em cena, o filme evolui junto com ela. Se não aparece, a obra desanda. 

Apesar de uma recepção esnobada na temporada, Ann Lee tem o que é preciso para se tornar um clássico do cinema contemporâneo. Pelo menos, nos círculos certos. Vejam. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

A Verdadeira Dor – E Nossos Mecanismos de Defesa

 

A Verdadeira Dor | Searchlight Pictures

A segunda direção de Jesse Eisenberg foi uma agradabilíssima surpresa. Tenho uma admiração pessoal pelos filmes que conseguem demonstrar o quadro geral da obra logo em seu primeiro plano, o que é exatamente o caso. Começamos com um fade in decorado com a clássica Nocturne de Frédéric Chopin e um travelling lateral lento em um aeroporto, com incontáveis figurantes, alguns em movimento outros em sua tediosa espera pelo próprio voo, até que damos uma volta para seguirmos então com o travelling, agora frontal, que nos revelará então, aparecendo entre as pessoas, um dos nossos dois protagonistas, Benji, interpretado por Kieran Culkin, e terminamos o shot em um close-up frontal no ator com uma expressão neutra. É daqui que vemos que o trabalho de escolha de elenco foi perfeito. 

Cada ator transmite uma emoção específica quando se põe com o rosto neutro ou em descanso. Na maioria das vezes a leitura que se faz é de raiva, ou com atores mais jovens, como seria o caso de Culkin, inocência, às vezes medo. Mas o que vemos, também influenciado pelo próprio título do filme que aparece quase em cima do protagonista, é tristeza. Recentemente me chegou a informação de que Culkin quase teve de sair do elenco do filme, por complicações em sua agenda, mas Emma Stone (Pobres Criaturas, La La Land), sendo uma das produtoras do filme, o convenceu a ficar, mesmo com as dificuldades, e ainda bem, pois em ele teríamos talvez um filme ligeiramente diferente, e ligeiramente fora do ponto.

Logo após esses maravilhosos 50 segundos, que já haviam me ganhado completamente, somos introduzidos ao nosso segundo protagonista, primo de Benji, interpretado por Jesse Eisenberg, que mesmo participando do filme como escritor e diretor, não perde a mão de sua atuação, e o mais interessante de tudo, sabe exatamente que tipo de personagem aproveita melhor de seus específicos talentos, voz e forma. Seu personagem David sai de casa com o telefone na orelha, ligando incessantemente para Benji, que nunca retorna à ligação. David é ansioso, nervoso, nunca calmo. Parece estar constantemente incomodado, como se passasse a vida se segurando para não correr para dentro de um buraco para se esconder para sempre. Então quando David finalmente chega ao aeroporto recebemos um susto – Benji aparece e recebe David com um sorriso gigante no rosto. Mas com o decorrer da história, vamos perceber o motivo desse suposto engano.

David e Benji embarcam em uma viagem para a Polônia (justificando a escolha de Chopin, compositor polaco, durante o filme) para honrar a memória de sua recém-falecida avó, que ambos amavam, e aproveitam para conhecer melhor sua história através de um tour dedicado a descendentes de judeus vítimas do holocausto. O filme é um clássico exemplo de road movie, em que a viagem em si transforma e aproxima dois personagens centrais, com participações importantes de alguns adjacentes. Não demora muito até que a obra nos arranque as primeiras risadas, com um tipo de comédia muito específico e interessante que se torna cada vez mais presente em filmes estadunidenses, que trabalha uma naturalidade de micro tiradas, pequenas gags dedicadas a causar aquela risada nasal quase imperceptível, ajudando a ter uma imersão um pouco mais pessoal no filme. Benji é tão irritante e ao mesmo tempo carismático, e David quase se contorce ao não saber lidar com a extroversão do primo, num ambiente onde nossos atores criam uma improvável química, que não só funciona como também contagia.

Kieran Culkin nos dá uma de suas melhores performances, com esse personagem extremamente humano, real e relacionável a nós mesmos, escondida nessa comédia. Ao descobrirmos que seu personagem fez uma tentativa de suicídio numa cena também de impecável atuação de Eisenberg, percebemos que talvez o tema central a ser conversado no filme sejam as nossas máscaras do dia-a-dia, que usamos para lidar com nossas dores. 

Benji age sem remorso de suas ações e falas, ele diz o que pensa, faz o que quer, trata as coisas com leveza, tudo tentando abstrair do próprio sofrimento pessoal, expondo suas emoções a todo o momento, enquanto David faz quase o oposto, ele acredita que seus problemas são apenas seus, e não existe razão nem desculpa para buscar ajuda. Os dois são opostos mas os mesmos, e um não quer viver a vida sem o outro, e mesmo entendendo que nunca serão capazes de curar um ao outro de seus problemas pessoais, passam a pelo menos compreender o outro lado, fechando o filme com o mesmo Close-up em Benji, no mesmo lugar no aeroporto, mas dessa vez com o título no lado oposto da tela, mostrando que cada lado de uma história tem a sua própria verdadeira dor.  

Autor:


Henrique Linhales, licenciado em Cinema pela Universidade da Beira Interior - Covilhã, Portugal. Diretor e Roteirista de 6 curta-metragens com seleções e premiações internacionais. Eterno pesquisador e amante do cinema.

O Testamento de Ann Lee (2025) é o Berghain de Mona Fastvold

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