sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Chronovisor - Por Outros Olhos

Chronovisor | Grasshopper Film

A primeira coisa que me chama a atenção em Cronovisor, primeiro projeto dos diretores Jack Auen e Kevin Waler, é a ausência de qualquer recurso material para a realização do filme, num âmbito geral. O filme teve o orçamento de 55 mil dólares, algo que parece muito de primeira, mas é pouquíssimo ao se tratar do cenário do cinema independente norte-americano, ainda mais se tratando de um filme de terror com uma ideia até mesmo grandiosa.

A segunda coisa que me interessa em Cronovisor é justamente a solução que os dois cineastas encontraram para realizar a obra: não filmar o medo. Pois, hoje em dia, o cenário de terror (vulgarmente e péssimamente taxado de terror elevado) tem esse grande vício. Se filma muito o medo, algo que o cinema de terror nunca fez intencionalmente, e nem materialmente. Se pensarmos nos melhores filmes de Kiyoshi Kurosawa ou nos melhores terrores com temática fantasmagórica, o medo está justamente no mistério que a ausência das imagens deixa no espectador.

E é essa ideia que os dois diretores mais tem êxito ao fazer o filme. Cronovisor é sim uma obra misteriosa, ao mesmo tempo que ele dá sim uma conclusão ao espectador. A grande coisa da obra independente é que ele não precisa filmar o medo, e isso ele não o faz.

O filme é quase que inteiramente baseado na leitura de obras não-ficcionais fictícias (algo que soa cômico quando escrito), e em algumas poucas cenas onde a protagonista do filme reflete sobre essas obras e tenta conseguir mais outras. O que gera a pergunta, e causa questionamento de boa parte da crítica de cinema se Cronovisor não se trata de literatura e não cinema.

Pois aqui invoco, ironicamente, uma leitura marxista do filme. Ao filmarem os trechos das obras, o sólido (literatura) se desmaterializa, tornando-se assim cinema. Portanto, Cronovisor além de uma obra cinematográfica, torna-se um comentário sobre seu meio em si.

A obra é, após tudo isso, um dos maiores terrores da década, e um dos filmes mais misteriosos dos últimos tempos. Algo que me lembra um pouco os melhores filmes do Osgood Perkins e os primeiros do Kiyoshi Kurosawa. Muito a se dizer sobre, pouco a se mostrar por cima.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



Mouse - Como Se Filma o Luto?

Mouse | Visit Films

Mouse parece ao momento ser um coming-of-age comum ao início. O filme parece que seguirá uma linha muito tenuê, que muitos filmes tem seguidos nos últimos anos: universo estabilizado<tragédia<volta da estrutura de maneira parcial. Entretanto, o filme trata de descontruir essa ideia logo nos primeiros minutos, quando a tragédia é apresentada de maneira tão abrupta quanto seria na vida real.

Entretanto, ao encarar os efeitos na tragédia, Mouse não faz como a maioria dos filmes coming-of-age. A obra da dupla Alex Thompson e Kelly O'Sullivan (que realizou um outro filme o qual não assisti) decide encarar as emoções de seus personagens no face a face. 

A tragédia, que no filme se trata da morte da personagem Callie (Chloe Coleman), a melhor amiga de Minnie (Katherin Mallen Kupferer). Algo que, apesar de ser crucial para o filme, é necessário de ser relatado para a continuidade do texto.

Ao filmarem o luto da protagonista do filme, a Minnie, a dupla de diretores tem uma decisão ousada. Ao invés de filmarem tudo como sendo pura tristeza, a dupla enfatiza a reação clara de ironia da protagonista diante do ambiente, ao invés de reforçar o quanto ele é opressor para sua vivência dessa fase. Entretanto, a dupla também enfoca que todos ali, de certa forma estão vivendo um luto.

Cara (Audrey Grace Marshall), personagem que sabemos que é uma pessoa ruim, pelo que é apresentado durante a trama, não é filmada pela dupla como alguém opressiva durante o luto, mas como uma pessoa que, como todas lá, está vivendo um luto. O filme faz questão de enfatizar que ela é uma pessoa ruim, porém, ela não é filmada como uma pessoa ruim quando está sofrendo o luto, pois neste momento, o filme abandonada todo e qualquer juízo de valor.

Ao filmar a realidade, Mouse não faz um juízo de valor claro, apesar de manter suas posições. Até porquê, o filme não se isenta nunca no debate, existem sim pessoas ruins, porém não existe uma maneira de se viver o luto de maneira certa ou errada, todos o vivem.

Talvez isso seja o que mais transparece pela relação extremamente próxima de Minnie com Helen (Sophie Okonedo), a mãe de Callie que passa por um divórcio logo depois da morte da filha. A relação das duas tem estágios muito interessantes: o primeiro é de entendimento mútuo e tentativa de suporte, o segundo é o de desentendimento das fases, e o terceiro e mais crucial é o do entendimento e do afastamento. Helen entende que para Minnie é melhor as duas longes, e isso está bom, pois, na realidade, tudo deve ser respeitado quando se está vivendo o luto.

Mouse é uma obra que não é sobre o luto em si, e sim as diferentes formas de se filmar o luto (ou a inexistência da possibilidade de filmar o luto coletivo, pois nenhuma hora a câmera do filme acompanha as fases do luto dos personagens, e constrói a visão do espectador quase de como um outsider) e de se viver o luto, que é uma fase da vida tão importante quanto a juventude que o filme parece que irá retratar. 

Pois todos nós enterraremos nossos pais, alguns de nós já enterraram os avós, e tragicamente alguns enterrarão seus filhos, mas é a vida, e a vida é o cinema.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



Everytime - Minecraft, Papel e Ano Passado em Marienbad

Everytime | Charades

É incomum um filme como Everytime saindo nos dias de hoje. Não porquê seja de um tema difícil de ser falado - pelo contrário, não falar sobre o tema se tornou quase que obsoleto - mas é curioso a maneira em que a diretora Sandra Wollner escolhe para falar sobre ele.

No início do filme, somos apresentados a uma família excessivamente imperfeita, composta pela mãe Ella (Birgit Minichmayr) e suas duas filhas: Jessie (Carla Huttermann) e Merlli (Lotte Keiling). Jessie é a mais velha e a mais problemática, pois é uma adolescente em seus últimos anos na fase, e tem constantes brigas com sua irmã mais nova. A mesma namora Lux (Tristán López), que é um rapaz que parece ser muito passivo diante a tudo, até no momento em que ele sobe num prédio com sua namorada, e apenas observa ela caindo de mais de 20 andares, e caindo com tudo no chão, assim morrendo. Assim começa Everytime.

A jornada que o filme percorre para falar sobre luto é diferente. Sandra filma quase todos os personagens de muito longe, somos quase que obrigados a não sentirmos empatia por eles, pelo motivo de que muito pouco se sabia de Jessie, e se sabe ainda menos sobre cada um dos personagens.

Entra aí o Minecraft, um dos elementos mais importantes para a trama. A diretora escolhe por muitos momentos filmar uma jogatina do jogo da Mojang, em um de seus modos mais curiosos: o de espectador. Onde o player pode atravessar os espaços com total liberdade e sem nenhuma noção de materialidade.

E, de certo modo, Sandra escolhe que será dessa maneira em que ela abordará o luto: pela desconstrução total do espaço (no jogo, um mundo plano, no filme, Tenerife na Espanha) e escolhe filmar tudo se desmanchando diante os personagens, quase como se a realidade material tivesse se dissolvido por inteiro após a morte de Jessie.

Isso se torna ainda mais onírico quando o filme abandona completamente o senso temporal de espaço, pois o cinema também é espaço-tempo. No fim, tudo se torna cada vez menos nítido, e observamos lentamente a desconstrução da realidade material, para um mundo que se comporta cada vez mais como incerto e estranho, algo nos moldes na obra de Alan Resnais: Ano Passado em Marienbad. 

O sol, no fim, é o sol do Minecraft. Não existem limites para a realidade em Everytime, até porque ela já foi completamente trucidada no fim. Alguns lampejos são o voice-over de Ellen no fim do filme, mas sabemos que o que existia foi finalizado muito antes: quando Jessie despenca daquele prédio como papel e é amassada como uma folha.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



Tigre de Papel - Meio que uma Homenagem ao James Gray

Tigre de Papel | Diamond Films

No começo de Tigre de Papel, temos a família ideal norte-americana. E bem? Quantas vezes não vimos isso. A luz das janelas reflete na piscina de maneira perfeita, e os abraços de Miles Teller e Scarlett Johansson nos filhos são calorosos. O que gera a pergunta de: "até quando?", pois a perfeição é tamanha que parece falsa, e o filme até por meio de algumas cenas sugere que realmente ela é.

Mas a genialidade de Tigre de Papel está em nunca apresentar o conflito, pois ele não existe. Por 30 minutos, o sonho americano existe no único espaço onde ele realmente foi possível: no cinema. Até quando somos apresentadas ao personagem de Adam Driver, o irmão de Miles Teller no filme, que é um policial que anda sempre armado e tem uma queda pela violência, temos uma impressão de que o mesmo não era passível de nenhum tipo de maldade maior.

James Gray nos hipnotiza com essa realidade nos 30 primeiros minutos de Tigre de Papel. Porém, como já diria Abbas Kiarostami, o cinema é uma realidade duplamente possível, pois quando se tem dois ou mais takes, a realidade deixa de ser realidade. E com dois ou mais planos, James Gray desmonta o sonho americano, como já havia feito em seu filme Era Uma Vez em Nova York.

Ao fazer o dolly se tornar uma questão de sobrevivência no filme - a cena em que Miles Teller olha para o lago é o exemplo disto - percebemos que o sonho americano também é um sonho não intencionalmente destrutivo. Ao filmar o lago podre, James Gray também filma o sonho americano tanto quanto filmou no início do filme.

Assim me vem a memória Watchmen do Alan Moore, quando o comediante está jogando seu lança-chamas para cima da multidão e o Coruja pergunta aonde foi parar o sonho americano, gerando a rápida resposta do Comediante de que aquilo também era o sonho americano. Pois bem, a violência da segunda parte do filme, que se arrasta até o final também é, de algum modo ou outro, parte do sonho americano do início do filme.

O exercício de Gray é justamente o de como se filmar esse desejo inconsciente pela violência, pois nos seus primeiros filmes essa violência fazia parte de um ciclo direto, aqui o ciclo é totalmente indireto.

Aqui faço um exercício: a cena em que o pai de Reuben bate no rapaz em Fuga Para Odessa, enquanto a porta fecha. Temos ali a visão do que seria a violência familiar, que depois passa a ser institucionalizada. Em Tigre de Papel, temos o total contrário: na cena em que Miles Teller briga com seus filhos após tomar um apavoro da máfia e se tornar paranoico com segurança, temos uma violência que deixa a instituição (máfia) pra se tornar familiar.

O conflito atinge diretamente a personagem da Scarlett Johansson, enquanto a mesma encontra na morte uma fuga da violência familiar, que uma vez apresentada será sacralizada, como parte ritualística da família, como sempre é nos filmes de James Gray.

No fim, Paper Tiger é uma volta de James Gray aos seus filmes mais pessoais e complexos num todo. Se quisermos falar sobre como Paper Tiger é um filme que fala sobre o mesmo que em todos, deixamos isso para o futuro. Aqui, vejo uma desconstrução do que já me foi apresentado. Depois, vejo mais.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



O Samurai e o Prisioneiro - Um(ns) Conto(s) Moral(is)

O Samurai e o Prisioneiro | Shochiku 

Kiyoshi Kurosawa - diretor do filme - já vinha explorando em Cloud, seu filme mais recente de 2024, as características morais de seus personagens. Isso é derivado de sua paixão por cineastas como John Cassavetes, que sempre foi um que explorava todos os atributos e conflitos tanto externos quanto internos de seus personagens.

Em O Samurai e o Prisioneiro, Kiyoshi coloca todos esses dilemas e dúvidas sobre os personagens em um ambiente muito interessante. A princípio, o filme se mostra como um drama de ação samurai aos moldes de Akira Kurosawa ou Kobayashi, mas depois dos dois primeiros contos do filme (isso mesmo, contos, o filme é dividido em quatro contos representando as 4 estações do ano), o filme se torna um drama moral.

Kiyoshi filma os personagens de dentro pra fora, em moldes melodramáticos. O primor que são as cenas internas nos templos é sentido não só por virtuosismo estético, mas também pela pulsão do lugar, que é o ambiente mais neutro de toda obra. Quando se filma o externo, por outro lado, é aonde temos a parcialidade e a internalidade de toda obra canonizada. Kyioshi nesse filme não podia ser mais Rohmeriano.

É como se filma a natureza que chegamos no ponto em que O Samurai e Prisioneiro mais se sobressai. A natureza diante os olhos do diretor, é a arma mais traiçoeira para provocar os conflitos que permeiam a obra. Ao invés da aparente harmonia dos primeiros planos de inverno, temos a raiva dos planos de primavera, para passar por uma neutralidade nos planos de outono.

Se aqui se espera um trabalho parecido com os outros do cineasta japonês, temo em dizer que pouco será encontrado na primeira parte, mas muito na segunda. Entretanto, este filme demonstra um claro amadurecimento quanto as questões morais e até mesmo estéticas que vimos em Cloud.

O Samurai e o Prisioneiro é, das obras que vi de Kurosawa, a mais intimista, e a mais singular do cineasta, algo muito incrível para alguém que já tem uma carreira consolidada desde pelo menos o início dos anos 90.

Autor:

Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.



quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Street Fighter (2026) - Entre a nostalgia e o caos

Street Fighter | Paramount Pictures


Ambientado em 1993, os lutadores Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo) são colocados de volta em combate quando o misterioso Chun-Li (Callina Liag) os recruta para o próximo Torneio do Guerreiro Global: uma briga brutal de socos, destinos e fúria. Porém, por trás dessa batalha por glória está uma conspiração mortal que os força a se enfrentarem entre si e seus demônios do passado. E se não enfrentarem, é game over!

A trama tem como foco Ryu e Ken, protagonistas de uma das rivalidades mais famosas dos videogames. Apesar de serem adversários, os dois são melhores amigos e irmãos de treinamento, mantendo uma relação baseada no respeito mútuo e na admiração, e não em inimizade. A quantidade excessiva de personagens tira o foco da história, que se perde entre situações e conflitos que pouco acrescentam à narrativa, parecendo querer apenas agradar os fãs. Enquanto desenvolve a rivalidade entre Ryu e Ken e explora os traumas que marcam o passado do primeiro, a narrativa também precisa apresentar Chun-li, Bison e uma série de outros lutadores, cada um com suas próprias motivações. Com personagens sem dar a todos espaço suficiente para se desenvolverem. A falta de equilíbrio também aparece no tom: de um lado, há uma comédia exagerada, sustentada pelas provocações de Ken e pelas figuras caricatas de Guile, Zangief e Don Sauvage; de outro, o longa tenta construir um drama mais sério em torno dos conflitos internos de Ryu. As duas abordagens raramente se complementam, e as piadas frequentes acabam enfraquecendo o impacto dos momentos que exigiriam maior carga emocional. Com isso, o filme tem dificuldade para estabelecer uma identidade própria e fazer com que suas diferentes tramas funcionem de maneira coesa.

Eu gostei da abertura do filme, que recorre à animação em estilo anime para estabelecer a relação entre os protagonistas e contextualizar a rivalidade que move a história. A escolha visual confere personalidade ao prólogo e se estende aos flashbacks de outros personagens, criando uma identidade estética que diferencia esses momentos do restante da narrativa. O mesmo cuidado visual, porém, não se reflete no roteiro, que dedica tempo excessivo à explicação do Hado, uma energia fundamental ao universo da franquia. Em vez de permitir que o conceito seja assimilado organicamente durante os combates, o filme recorre a uma exposição prolongada que enfraquece o ritmo da introdução.

O filme não demora a colocar seus personagens em combate e encontra seu ritmo quando os primeiros golpes começam a ser desferidos. A ação combina coreografias precisas, movimentos exagerados e momentos de heroísmo. Apesar disso, o torneio, que conduz boa parte da narrativa, acaba perdendo espaço ao longo da trama. As lutas incorporam o humor característico da produção, alternando momentos de adrenalina com situações cômicas que nem sempre funcionam. A quantidade de piadas também prejudica o ritmo das cenas, que frequentemente passam de uma situação a outra antes que o espectador tenha tempo de apreciar cada momento. As sequências são muito bem executadas pela equipe de dublês e por integrantes do elenco, como Andrew Koji, que conseguem realizar as cenas mais complexas por conta própria. No entanto, à medida que a trama avança, Street Fighter passa a depender cada vez mais de efeitos visuais para incrementar a ação, o que acrescenta muito pouco ao impacto visceral das lutas.

Street Fighter (2026) encontra nas lutas e no carisma de parte de seu elenco seus maiores trunfos, mas não consegue fazer com que esses elementos sustentem uma narrativa coesa. O excesso de personagens, a dificuldade em equilibrar drama e comédia e a insistência em piadas que interrompem momentos importantes enfraquecem o potencial da produção. Apesar de compreender o apelo visual e a personalidade extravagante da franquia, o filme parece mais preocupado em reunir referências e agradar aos fãs do que em desenvolver uma história consistente. O resultado é um espetáculo divertido em momentos pontuais, mas irregular, que deixa a sensação de que Street Fighter poderia ter ido muito além se tivesse encontrado um melhor equilíbrio entre ação, humor e desenvolvimento narrativo.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.



O Bosque Selvagem (2026) - A nova pièce de résistance da Laika Studios

 

O Bosque Selvagem (2026) | Imagem Filmes

Quando a jovem Prue McKeel passea, por uma tarde qualquer em Portland, ignorando o aviso dos pais, com seu irmão mais novo, Mac, tudo parecia em ordem. Porém, depois do bebê ser raptado no parque por um bando de corvos, ela e um colega de escola, Curtis, precisam salva-lo e o rasto das aves os levam para uma floresta que, à princípio, é impenetrável, mas os jovens conseguem adentra-la. Lá, os jovens descobrem um mundo mágico à beira do colapso governamental e que sua jornada se entrelaça com os planos de Alexandra, a governadora viúva, que pretende usar o irmãozinho de Prue para se vingar e conquistar aquilo que perdeu.

O Bosque Selvagem (2026), ou Wildwood no original, é o novo filme do estúdio de animação Laika Studios, depois de longos sete anos quando lançaram Link Perdido (2019), e adaptação de uma série de livros infanto-juvenis de mesmo nome escrita por Colin Melroy e ilustrada por Carson Ellis, cujo o primeiro livro serve como base da animação. O projeto de Travis Knight é, assim como a narrativa, ambicioso e consegue dar uma escala ao potencial de grandiosidade quando o assistimos. Não quero entrar em muitos detalhes, pois desejo que você, care leitore, vá ao cinema e descubra o filme por conta própria, sem saber muito do desenrolar. Apenas que, de certo, este longa animado é uma aposta arriscada. 

Aqui, em primeiro plano, temos uma animação de stop-motion, técnica na qual o estúdio é conhecida, rica em detalhes que se integra com alguns efeitos especiais em CGI, principalmente nas cenas de planos abertos e/ou que exigem um certo teor de complexidade. A questão aqui é que se trata de um projeto humano, feito por humanos por técnicas artesanais e que demandam tempo e dedicação à arte; enquanto isso, o mundo discute sobre a implementação de IA generativa não só na arte, mas também no nosso cotidiano. Existe magia, mas a magia somente é feita pela imaginação e a técnica humana, a partir daí, a ilusão nasce. 

Nosso contemporâneo atual tende a mecanizar as ações, as fantasias e a capacidade de sonhar a um patamar insosso, cuja personalidade e encantamento se perdem. Porém, fazer cinema é criar uma ilusão. Projetar a imagem dentro de pequenas cavernas e nos iludir com aquilo que vemos na nossa frente. Cinema é magia, portanto precisa de truques, técnicas e humanidade. Sem isso, arte, como um todo, perde sua essência, tanto como expressão (o cinema como forma, autoria e experimento) quanto mercadoria (pensando no cinema comercial hollywoodiano, por exemplo). 

Bosque Selvagem/Wildwood, nesse sentido, nada contra a corrente das produções atuais, por mais que não repele a todas as suas práticas contemporâneas; porém, a venda da obra como algo artesanal, feito à mãos humanas, não é só uma questão de prática, mas também de branding dentro do cenário estadunidense como um estúdio que produz animações com um certo teor de 'espírito', o qual é rejeitado pelas grandes produtoras. E dá para sentir tudo isso, enquanto assistimos um épico fantástico com cerca de duas horas e dez minutos na tela grande. Tudo é pensando para engrandecer à narrativa e à forma. Me parece que Knight e a Laika conseguem convencer o público de seus filmes que o stop-motion é uma arte pertinente e única, mesmo em tempos de inteligência artificial. O que, de certa forma, é algo lindo de se presenciar. (Não vou entrar na questão entre Laika e Nike neste texto, o que poderia problematizar o argumento.)

A animação em si é de excelente qualidade e boa parte dos detalhes técnicos que envolvem a obra são bem feitos, o roteiro tem um ritmo um pouco irregular às vezes (acho que poderia ser um filme um pouco mais longo), mas, ao mesmo tempo, abraça a ousadia de contar uma história que envolve o fantástico sem embelezar os perigos que existem em narrativas do gênero. Um desenho animado épico, uma pièce de résistance de um estúdio milionário que não rende ótimas bilheterias, mas que, ainda assim, continua a existir e a criar uma nova leva de fãs (eu lembro da época em que Coraline [2009] lançou nos cinema tá?!). Se tivesse visto esse filme com uns dez anos de idade, teria alterado a química do meu cérebro, com certeza. Com quase trinta, saí impressionado da cabine. 

Talvez ainda tenha um espaço para a magia no cinema?

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 
                                  

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Feito Pipa - Matéria de Laisa Lima (Festival do Rio 2026)


Feito Pipa | Paris Filmes

Considerado um destaque do Festival do Rio em 2026, o filme “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, é uma fábula sobre amadurecimento, liberdade e leveza, ambientada no interior do Ceará. Através dos olhos de Gugu (Yuri Gomes), uma criança que se afasta dos padrões de masculinidade por ter trejeitos e gostos ditos “femininos”, vivendo sua infância do jeito inocente que ela deve ser, encontramos ensinamentos valiosos sutilmente colocados na tela. Enquanto a avó Dilma (Teca Pereira) representa o acolhimento de um colo sempre compreensivo, o pai Batista (Lázaro Ramos) evoca a figura autoritária de quem ainda vive preso aos moldes sociais julgados “aceitáveis” para o comportamento de um menino.

Entretanto, a magia de viver livre ao lado de alguém igualmente empoderado e vaidoso, como Dilma, se esvai para Gugu no momento em que o Alzheimer da avó passa a representar um risco para o bem-estar dos dois. O personagem, então, necessita encarar os padrões retrógrados de Batista quando passa a conviver com ele, sendo, assim, privado de uma realidade cheia de cor, tal qual era de costume. Apesar disso, as vestimentas purpurinadas e a autenticidade de Gugu nunca são deixadas de lado.

Para entender melhor a criação do universo leve e descontraído do protagonista — levando em consideração a narrativa dramática por si só —, a KOROFILMES conversou um pouco com o diretor, Allan Deberton: “De inspiração, eu tiro o cinema em que acredito, que é aquele que diverte, mas também transforma; que fala sobre a intimidade de seus personagens com verdade acima de tudo.”

O enredo de “Feito Pipa” parece simplório, sem rodeios. É aí que está a mágica do longa-metragem: retirar de uma história cotidiana, que abarca o passar do tempo, suas consequências e a infeliz realidade de indivíduos que não podem ser o que são, um diamante lapidado.

“Gosto muito de histórias simples e gosto muito de histórias às quais eu pertenço. Eu cresci no interior do Ceará, e o roteirista André Araújo também, então é um lugar de pertencimento. Tudo isso traz uma verdade”, diz o diretor.

O filme, tratado com delicadeza ao abordar temáticas que requerem maior cuidado e seriedade, torna-se uma grande lição por não abandonar o foco de ser visto por intermédio de uma criança. Apesar de todo o sofrimento, Gugu enxerga situações complexas, como o avanço da doença da avó, com imaginação e boas doses de esperança. A direção reforça esse sentimento ao exibir um Ceará vivaz, na paleta de cores escolhida, e contemplativo, devido às várias panorâmicas.

Segundo Allan: “O filme fala sobre conversa. É muito importante que a gente tenha um olhar muito aberto sobre a necessidade do brasileiro de conversar, respeitar o outro e respeitar as diferenças.”

A respeito da representação do Alzheimer na personagem da brilhante Teca Pereira, Deberton diz: “É preciso ter um olhar atento para a terceira idade, um olhar de cuidado e atenção.”

A KOROFILMES também esteve com o intérprete de Gugu, Yuri Gomes, que enfatiza a importância da obra para os pequenos: “O Gugu tem a ensinar que nós, crianças, temos, sim, que sonhar e ter respeito pelo outro. Não podemos desistir dos nossos sonhos.”

O ator mirim sintetiza em poucas palavras o conceito do filme: “Tem a ensinar a ter mais apego aos seus familiares e não dar ouvidos à negatividade dos outros, porque não vai te trazer coisas boas, só vai fazer você ficar mal.”

O artista completa: “Persista na sua carreira e nunca desista dos seus sonhos. Se você quiser dançar, dance. Você é livre, pode ser o que quiser.”

Engrandecido por ótimas atuações, principalmente do trio principal (Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos), “Feito Pipa” é um deleite para quem possui uma sensibilidade aguçada. Tocante e divertido na medida certa, a produção, indicada para levar o Brasil até o Oscar em 2027, provoca questionamentos pertinentes, levando o espectador a uma viagem filosófica sobre os valores de comunidade e amor aos demais. Sob a ótica infantil, toda tristeza pode ser revertida em criatividade; não há situação, por mais difícil que seja, sem escapatória. Na verdade, o que existe é a capacidade de mostrar-se ao mundo sem tabus ou preconceitos; é levar uma vida em que o colorido vence o taciturno de forma incansável.

Autora:


Laisa Lima 

25 anos, formada em cinema, roteirista, crítica, videomaker e moradora do Rio de Janeiro, minha paixão pelo cinema transcende as telas. 
De “Guarda-Chuvas do Amor” até “Laranja Mecânica”, meu amor pela arte não se prende a nenhum gênero, mas sim ao que me toca. 
Também sou apaixonada pelos pormenores da vida, que se apresentam sem nenhum roteiro. 
Logo, imaginação não falta em mim. 
Sou de tudo um pouco, e procuro sempre expor minha versão mais democrática, que enfrenta a realidade com a maior criatividade possível.



Maria de Maria - O verdadeiro ouro está mais perto do que você imagina

Maria de Maria | O2 Play


No longa, dirigido por Luiza Shelling, acompanhamos a trajetória de Maria, uma jovem cangaceira que, após descobrir uma gravidez e perder seu bando em um massacre, precisa abandonar a vida que conhecia para tentar recomeçar em outra região do país. Em fuga para o Centro-Oeste, ela encontra no programa governamental Marcha para o Oeste, criado durante o governo de Getúlio Vargas, a possibilidade de conquistar um pedaço de terra e construir um futuro diferente para si e para seu filho. Em meio às promessas de uma nova vida, Maria precisa enfrentar os desafios de um território desconhecido, as dificuldades de reconstruir sua identidade e os conflitos que surgem quando seus desejos entram em choque com as estruturas de poder da época.

Um dos principais problemas do longa está na maneira como o roteiro tenta abordar uma quantidade considerável de assuntos ao longo da narrativa e ao explorar diferentes questões sociais, políticas e históricas, o filme acaba dividindo sua atenção entre pautas que, individualmente, poderiam render discussões muito mais profundas. Como consequência, alguns desses temas parecem ser apresentados apenas superficialmente, sem receber o tempo necessário para que suas implicações sejam realmente exploradas. A sensação é de que existe uma vontade de dizer muitas coisas, mas nem sempre há espaço suficiente para desenvolver todas elas com a sensibilidade que merecem, algumas questões poderiam ter um impacto muito maior se fossem trabalhadas com mais sutileza, permitindo que seus significados surgissem naturalmente a partir das experiências dos personagens, em vez de serem apenas incorporados à trama.

Apesar dessa limitação, a narrativa consegue estabelecer um ritmo bastante consistente durante boa parte de sua duração, como a trajetória de Maria que se desenvolve de maneira envolvente, acompanhando suas tentativas de reconstruir a própria vida enquanto precisa lidar com as incertezas de um futuro que está longe de ser garantido. O longa consegue manter o interesse do espectador ao apresentar os obstáculos que surgem nesse processo, equilibrando os momentos mais íntimos com os conflitos externos que ameaçam a estabilidade conquistada pela protagonista. Entretanto, esse equilíbrio se perde justamente no ápice do confronto entre Maria e os militares, depois de construir uma tensão que sugere consequências muito mais intensas, o filme resolve esse conflito de maneira excessivamente simples, sem explorar todo o peso emocional que a situação poderia carregar para quem assiste.

Se o roteiro apresenta algumas dificuldades, a fotografia surge como o grande destaque técnico da produção. O trabalho visual complementa de maneira admirável a visão de Luiza Shelling, contribuindo para estabelecer a atmosfera da narrativa, a composição dos enquadramentos e a maneira como os espaços são apresentados ajudam a construir a relação entre Maria e o ambiente ao seu redor, fazendo com que a paisagem tenha uma presença que vai além da função de cenário. É um trabalho que demonstra como as escolhas estéticas podem contribuir diretamente para a narrativa, tornando a fotografia o aspecto técnico mais admirável do longa.

Entretanto, o verdadeiro coração de Maria de Maria está na relação construída entre Nanda Costa, João Campos e o ator mirim que interpreta o filho da protagonista. A química entre os três é impressionante e faz com que o espectador se envolva profundamente com essa “família”, acompanhando seus momentos de afeto, suas dificuldades e suas tentativas de encontrar alguma estabilidade em meio às adversidades. Nanda Costa entrega uma Maria que carrega as marcas de seu passado, mas que também encontra na maternidade e na possibilidade de recomeçar uma motivação para continuar lutando. Sua interpretação ganha ainda mais força quando dividida com os demais integrantes desse núcleo, criando uma dinâmica que transmite proximidade e cumplicidade sem depender de diálogos.

Maria de Maria é um longa que encontra força na trajetória de sua protagonista e, principalmente, nas relações que ela estabelece ao longo do caminho. No fim, é uma obra com qualidades evidentes, mas que poderia alcançar um impacto muito maior caso confiasse mais nas narrativas centrais de seus personagens e permitisse que algumas de suas questões fossem desenvolvidas com a profundidade que merecem.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

Bucking Fastard (2026): Herzog e sua fábula de codependência

 

Bucking Fastard | HanWay Films


Como entender a natureza contraditória das coisas? Os cernes das emoções? O desejo do irracional? A vontade de amar e ser amado? De nadar contra a corrente? De se destacar? Existe uma dialética na compreensão, algo não dito nas relações humanas, cuja a maioria, ao longo da vida, consegue decifrar. As irmãs Holbrooke, Jean (Kate Mara) e Joan (Rooney Mara), ainda não conseguem decifrar os outros; mas, em compensação, elas se conectam de forma simbiótica, em uníssono falam, pensam, agem e sonham em comunhão consigo mesmas. Incompreendidas por todos, elas almejam o amor e a liberdade de serem elas mesmas. 

Em Bucking Fastard (2026), Werner Herzog nunca trata suas protagonistas (cujas interpretes são irmãs na vida real) de forma negativa, se na trama há um humor causado pela estranheza, ele está lá e é absolutamente  delicioso, mas o guião nunca põe Jean e Joan como o alvo da piada. Elas são uma representação da natureza. Sua psiquê em comum é diferente das outras pessoas: entre a co-dependência e comportamento obsessivo, elas veem o mundo de uma perspectiva diferente, por mais que, para os demais personagens e até mesmo ao público, tenham uma visão egocêntrica e deturpada. Existe uma certa inocência no cerne do estudo de personagem que Herzog desenvolve que é impossível, aos poucos, não compreendê-las. Seu amor é maior do que si mesmas. Elas vivem das emoções que as retroalimentam e, portanto, precisam da esperança de serem amadas.

Após se apaixonarem por um vizinho galanteador (Orlando Bloom), as irmãs Holbrooke sofrem um escrutino público quando este homem as processa por assédio moral e garante um ordem de restrição, em uma hilariante e estupenda cena de tribunal. Há uma perda de controle, um estrago foi feito. E, de um jeito ou de outro, Jean e Joan precisam pagar o preço de suas emoções e, em um longo processo de auto conhecimento, precisam recolher os cacos de sua destruição moral. Nada é fácil, estão vulneráveis, mesmo presas no seu próprio mundo particular. São mulheres inconvenientes, difíceis de lidar e possivelmente neurodivergentes; mas a câmera nos convida a adentrar seu mundo, a presenciar o dia-a-dia, os abusos, as dificuldades e os desejos das personagens... Aliás, diga-se de passagem de fotografia digital é um melhores feitos nos últimos anos, entendo a noção da profundidade que me parece ter sido esquecida no cinema atual com planos chapados e desfocados.

Herzog usa de uma estrutura fabular para desenvolver o longa-metragem: primeiro uma comédia de erros, e, em segundo, um drama familiar. Existe uma cisão de tom no meio do filme que pode causar o estranhamento para alguns membros da audiência, mas que em nada me incomodou. O trabalho de atuação das irmãs Mara é robusto e convincente, fugindo muito da lógica do casting por publicidade; desenvolvendo suas personagens de um jeito convincente para acreditarmos em seu absurdismo. Acreditamos que as Mara são as Holbrooke e, em momento algum, as colocamos em uma posição de descrença em respeito a atuação. 

Quando o filme enfoca na reconstituição das protagonistas e em sua busca por uma ilha prometida, Herzog vira a chave. Se as irmãs são um símbolo da natureza, pueril e, relativamente, inocente, o mundo quer as destruírem em benefício próprio. Para ele, elas sempre serão vistas como aberrações, como o próprio final da obra sugere. portanto, sua codependência não é somente consigo, mas também com este mundo que as aprisiona, explorando-as. O realizador se coloca na posição de pôr a luz na alteridade e nos mostra como é, de modo desconcertante, é estar nesse lugar. Mas nunca em tom trágico. São pardais a cantar dentro de uma gaiola. Precisam encantar para sobreviver; e sobreviver para sonhar com um  mundo além das grades. Um sonho de liberdade e autonomia.


*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (na fatídica sessão no Cinesystem Belas Artes Botafogo em que, por desleixo da produção do evento, decidiu exibir o filme, falando em língua inglesa, sem legendas para um público brasileiro. O que aconteceu com o pensar no coletivo? Entendi o filme bem, mas mesmo assim não é um bom precedente ao festival... Mais um trauma para a lista!)

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

Club Kid (2026): Amadurecimento e Paternidade

 

Club Kid (2026) | Califórnia Filmes

"You fell in love with America

When you were twelve years old

And by seventeen you knew you had to see it all

You loved your dad and the love he had for your mother so

You had to get out and go chasin' it's sweet call[...]

 And you said, "Hey, do you wanna see the West with me?

'Cause love's out there and I can't leave it be"

And I said, "Honey, love's never meant much to me

But I'll come with you if you're sure it's what you need"

(Ethel Cain - Throughfare)

Sempre existe um antes e um pós. A vida é composta por momentos de viradas que nem sempre acontecerão de forma planeja. Viver é complicado e cada passo é um novo aprendizado, amadurecemos na medida em que envelhecemos. Em Club Kid (2026), filme de estreia do diretor e comediante Jordan Firstman (da fama de Rotting in the Sun e I Love L.A.), filme de encerramento da 28a edição do Festival do Rio, é uma dessas histórias. 

Peter (Firstman) é um promoter de baladas em Nova York que vive uma rotina agitada em boates e inferninhos do cenários clubber da cidade. No auge de seus trinta e poucos anos, nosso protagonista é a alma da festa, mas, no mundo real, é completamente desorganizado: sua rotina é caótica, e abusa do uso de substancias, custando-o a perda de uma sociedade com uma colega influente (Cara Delevigne) da cena nova iorquina. Mas, seu choque de realidade vem quando Arlo (Reggie Absolom), seu filho que não sabia que existia, é deixado na porta de sua casa, após a morte da mãe (com quem, sem querer, Peter fez um ménage em uma darkroom anos atrás). A partir daí, o caldo entorna e Peter precisa, aos poucos, começar a amadurecer e se conectar com o jovem.

Esse é o tipo de projeto que poderia dar muito errado, pelos motivos mais vãos e egocêntricos (já que estamos falando de um estudo de personagem interpretado pelo próprio diretor); porém, Jordan Firstman tem os sensos controlados aqui e não apresenta algum vício de linguagem ou algum sentimentalismo barato que seja prejudicial para a obra. A direção do filme é bem pensada tanto no sentido prático quanto no tom em que precisar dar a narrativa; e o roteiro, também assinado por Firstman, conjuga momentos e interações hilárias (em que vemos Peter lidando a sua nova realidade e pílulas da cena noturna) com momentos mais sóbrios e melancólicos (a conexão entre pai e filho e a possibilidade da perda). 

Duas coisas essenciais para que o filme funciona são: a relação entre Peter e Arlo (vulgo "a criança mais legal do mundo!") que é muito bem desenvolvida, o cerne da trama, e o desenrolar desse relacionamento me pareceu genuíno e lindo; e a construção de uma comunidade LGBTQIAPN+ (e, portanto, do senso de uma) de forma orgânica, a partir de vivências e lugares em comum, sem apelar a estratégias apelativas, como situações de dor e sofrimento, e a abordagens panfletárias, que, às vezes, acometem filmes LGBTs e/ou de temática queer no cinema. Sem isso, o filme, de jeito nenhum, funcionaria. Pequenos atos de candura, de diálogo e de, até, sacrifícios que movem a narrativa e seus personagens. Entrar num mundo e não querer sair. Mas qual será escolha de Peter: a cena clubber ou o bem-estar do filho? 

Em alguma hora, a balança vai começar a pesar e os dados deverão ser lançados. Apesar o filme entrar em certa contradição nos últimos 25 minutos, uma vez que as ações de Peter serão questionados pelas autoridades, existe um diálogo com outros filmes que exploram relação entre pais e filhos, como Ladrões de Bicicletas (1946) de Vittorio de Sica e Aftersun (2022) de Charlotte Wells, por exemplo, em que é preciso um ponto de quebra, de falha e/ou de impotência. Se o filme desenvolve a população queer como uma naturalidade oposta a uma sociedade normativa, é porque nossa sociedade é assim. Não existem grandes perseguições ou uma série seguidas de crimes acometidas para com os personagens (ainda bem, ninguém aguenta mais esse trope!), mas não exclui que o protagonista precisa passar por alguma aprovação pela catarse. 

Porém, a catarse sempre esteve no filme, na forma em que a relação entre Peter e Arlo se desenvolve aos olhos do público. Um estudo de personagem que nos permite ter empatia e se colocar no lugar do protagonista; por mais que as situações fogem um pouco do controle. Club Kid se preocupa mais com seus personagens do que passar alguma crítica social e talvez, seja feliz, assim, no simples. Um filme redondo, competente de um talento que precisamos acompanhar seu desenvolvimento nos próximos anos.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026 (cuja cabine de imprensa no Estação Claro Rio teve um problema técnico e a obra foi exibida sem o acompanhamento de legendas.)

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 
                                  

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026): Trauma e Raiva na Infância

 

Josephine - Fragmentos de um Crime (2026) | Retrato Filmes

O mundo de Josephine (Mason Reeves), de apenas oitos anos, parece aparentemente normal: seus pais, sua rotina na escola, seus sonhos, sua aptidão para o futebol. Porém, uma manhã em específico, ela e seu pai (Channing Tatum), vão muito cedo para um parque na região de São Francisco para praticar esportes ao ar livre; algo saudável, útil e parte do cotidiano deles. 

A criança corre na frente do pai e, entre as árvores, perto do banheiro público, ela vê uma corredora entrar lá. Logo em seguida, um homem aparece ali, entra no local, persegue a mulher, a ataca, imobilizando e batendo sua cabeça contra o chão. Desacordada, o sujeito tira a roupa de ambos e começa a viola-la, repetidas vezes. Ela acaba se recobrando, mas ele a enforca durante a penetração, abafando os gritos da vítima. E vemos todo o crime se desenrolar através dos olhos de Josephine, que atordoada, é a única testemunha ocular da ação. 

É dessa maneira em que começa o longa Josephine - Fragmentos de um Crime (2026), dirigido pela diretora brasileira Beth de Araújo, de uma maneira inesperada e brutal. A cena em si é explicita, bem-feita, dolorida e deixou algumas pessoas na sessão da cabine de imprensa um pouco desconfortável (algo, que devo dizer, é raro no cinema contemporâneo atual, em que as ações são higienizadas para o público). Talvez essa o objetivo do filme, começar uma discussão e fragilizar o público; por mais que a diretora acaba repetindo a fragilização, de modo quase gratuito.

Os pais de Josephine (Tatum e Gemma Chan) não sabem o que fazer com a filha, que traumatizada com o ocorrido, se vê perseguida pela sua vulnerabilidade e o medo de estar, em um futuro próximo, na mesma posição do que a vítima. Ela se torna mais fechada, violenta e incompreendida. Seu mundo é incerto. Com o fantasma do abuso a perseguindo, o agressor aparecendo como uma espécie de 'amigo imaginário', e a falta de um apoio psicológico apropriado, Josephine entre num mundo de ódio e indignação, na qual ela não tem maturidade para compreender a raiva que sente; quase se tornando uma proto-femcel no processo, ressentindo ao mundo masculino, revoltando-se com a intimidade dos pais, agredindo colegas importunos e até quase provocando um aborto.

O trabalho de Araújo, quando se concentra em sua protagonista, maravilhosamente interpretada por Reeves, consegue se desenvolver; porém, quando o foco se volta aos pais de Josephine, fica tímido, um pouco banal. Sua câmera se move, tem perspectiva, é ágil em diferentes sequências em que vemos um campo de visão amplo, porém, em outros momentos, o movimento torna-se repetitivo, como um truque. Além de algumas sequências de montagens, bem no estilo videoclipe, que me tiram completamente da narrativa em alguns momentos. Se um filme consegue ser conciso, quando uma mãe diz a uma filha que não consegue curar sua dor, sua raiva, mas que ela precisa doma-la; como, ao mesmo tempo, beira ao um certo fetichismo de sofrimento coletivo para expressar a mesma mensagem? O feminino precisa expressar sua raiva diante de uma tentativa de violência e de feminicídio, um tópico bastante pertinente, mas quando o filme somente quer dar ênfase na raiva, acaba diluindo muito o que tanto almeja: mensagem, catarse e crítica.

O longa-metragem tem seus excessos, alguns bons e outros não, mas quando é direto no ponto e no que deseja dizer, acaba se tornando algo poderoso, especialmente as espectadoras que vivem com o mesmo medo que a protagonista. A mensagem é importante, mas narrativa e forma, também ser levado ao mesmo grau de importância. Felizmente, a obra não acaba se perdendo numa abordagem panfletária e nem num fetiche completo de dor. Talvez, de estilo e narrativa, poderia ter mais sutilezas, mas ainda assim tem ambição de contar não só uma história, um estado de espírito. 

*Esta crítica faz parte da cobertura do 28o Festival do Rio, realizado em 2026.

Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

                                  

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Funk - Na corrida pelo seu sonho!

Funk | Paris Filmes

Funk (2026), dirigido por Aly Muritiba, assume com coragem e ousadia a realidade do funk e apresenta ao público a trajetória de uma jovem da favela que sonha em conquistar seu espaço como MC, iniciando sua carreira pelos bailes das favelas cariocas. A narrativa acompanha Sabrina, uma menina que encontra na música não apenas uma possibilidade de carreira, mas também uma forma de expressar seus desejos, sua identidade e a realidade ao seu redor. O longa acerta ao não tratar esse universo de maneira superficial ou estereotipada, permitindo que o funk faça parte da própria construção da história e da identidade de seus personagens.

Um dos grandes destaques da produção está justamente na maneira como seus elementos técnicos são utilizados para construir essa realidade, como por exemplo: a trilha sonora é excepcional e aparece de maneira pontual ao longo da narrativa, não funcionando apenas como acompanhamento das cenas, mas como uma ferramenta importante para desenvolver os acontecimentos e transmitir aquilo que os personagens estão vivendo. A música ajuda a estabelecer o ritmo do filme e, principalmente, a aproximar o espectador do universo de Sabrina. Da mesma forma, a fotografia e a direção de arte contribuem para representar o funk de maneira mais transparente, trazendo para a tela ambientes, estética e elementos que fazem parte desse universo sem tentar suavizá-los ou transformá-los em algo distante de sua realidade.

Duda Santos é outro grande acerto do longa, a atriz consegue prender a atenção do espectador desde os primeiros momentos em que Sabrina aparece e sustenta essa conexão até o final. Existe uma entrega muito evidente ao papel, tanto na maneira como ela interpreta os momentos de vulnerabilidade da personagem quanto na forma como transmite sua determinação e seus sonhos. Duda consegue construir Sabrina com muita maestria, fazendo com que a personagem pareça genuína e permitindo que suas escolhas, inseguranças e conquistas tenham peso dentro da narrativa, é uma atuação que não depende apenas de grandes momentos dramáticos, mas também de pequenos gestos e expressões que ajudam a revelar quem Sabrina é.

A construção dos personagens, inclusive, é um dos aspectos mais interessantes de Funk, o filme consegue apresentar pessoas com sonhos, dificuldades, ambições e contradições próprias, fazendo com que elas existam para além da trajetória da protagonista. Existe uma preocupação em tornar esses personagens reais, com objetivos que fazem sentido dentro de suas próprias histórias e que podem gerar identificação no público. Isso também evita aquela sensação comum em algumas produções de que os personagens secundários existem apenas como “chaveirinhos” da protagonista, servindo exclusivamente para ajudá-la ou movimentar sua narrativa. Ao acompanhar personagens que possuem sonhos possíveis, conflitos reais e diferentes formas de enxergar o futuro, o longa permite que o público se reconheça naquela realidade. Mais do que contar a história de uma menina que deseja ser MC, a produção apresenta pessoas tentando encontrar seu próprio caminho dentro das possibilidades que possuem. Existe inspiração justamente porque o longa não transforma seus personagens em figuras idealizadas: eles são apresentados com suas dificuldades, limitações e desejos, tornando suas conquistas ainda mais significativas.

No fim, Funk encontra sua maior força na autenticidade com que escolhe contar essa história. Aly Muritiba constrói um longa que entende a importância do funk para seus personagens e utiliza seus elementos técnicos para fazer com que esse universo esteja presente não apenas no roteiro, mas também na imagem e no som. A trilha sonora se destaca, a fotografia e a direção de arte ajudam a estabelecer uma identidade própria, enquanto Duda Santos entrega uma atuação extremamente envolvente como Sabrina. É um filme que abraça seu universo sem medo e encontra justamente nessa autenticidade uma de suas maiores qualidades.

Autora:
Me chamo Mariana Alves, tenho 22 anos, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda porém formada em Design Gráfico e Técnico em Alimentos, já atuo no mercado como Marketing. Sou apaixonada por filmes e videogames, adoro ir ao cinema e falar sobre The Last of Us.

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