Elas são, de acordo com o verbete Caldas Aulete, “insetos himenópteros que se dividem em sociais, solitárias e parasitas, sendo as sociais as que produzem mel em abundância.” A relação entre as abelhas sociais e sua abelha-rainha é posta como um paralelo com as dinâmicas interpessoais entre humanos: o proletariado e a burguesia. Porém, por causa da ganância e de uma transformação rápida do mundo que abusa dos recursos naturais e libera resíduos químicos, a população de himenópteros, e, consequentemente, a polinização, diminui. A longo prazo, isso pode ter um efeito catastrófico para a humanidade.
Esse é um problema bem real, inclusive para uma narrativa que parte do mundo concreto para o campo do absurdo. É assim que começam os primeiros minutos de Bugonia (2025), o nono longa-metragem do diretor grego Yorgos Lanthimos, retomando a parceria com a Emma Stone e o Jesse Plemons de seu projeto anterior, Tipos de Gentileza (2024). Esta nova empreitada é, na verdade, um remake de um filme coreano lançado em 2003: Salvem o Planeta Verde! A obra de partida foi lançada em período em que o cinema coreano e alguns de seus diretores mais populares, como Park Chan-Wook e Boon Joon-Ho, começaram a ser exportados para o ocidente e a fazer sucesso internacional. E o filme de 2003 se tornou um clássico cult contemporâneo para o público ocidental.
A trama do original é bem parecida com recriação feita por Lanthimos e sua equipe: um jovem conspiracionista sequestra um grande executivo farmacêutico na suspeita deste ser um alienígena que planeja uma invasão de larga escala. O laço entre os dois fica cada vez mais estreito quando é revelado que este homem tem relação com uma tragédia familiar na vida deste jovem, em particular.
O diretor do filme original, Jang Joon-Hwan, esteve envolvido nos estágios iniciais de pré-produção, quando o remake foi anunciado em 2020; mas se afastou devido à problemas de saúde, ficando com o título de produtor executivo desta nova versão. O anúncio de Yorgos Lanthimos como diretor da produção veio no início de 2024, no que Jang achou uma escolha apropriada ao projeto, pois o estilo do realizador grego conversava com a narrativa e seu tom de extremos.
O Bugonia de Lanthimos não foge da premissa base, mas adiciona um tempero a mais à mistura. Teddy Gatz (Jesse Plemons) é um trabalhador de uma linha de distribuição de uma grande farmacêutica, no meio-oeste americano. Levado a acreditar em teorias da conspiração, após uma tragédia familiar, ele acredita que uma raça de alienígenas se infiltrou no planeta terra para acabar com todas as formas de vida que existem. E a CEO do conglomerado em que trabalha, Michelle Fuller (Emma Stone), seria na verdade uma Andromedana disfarçada. Com a ajuda de seu primo, Don (Aiden Delbis), ele sequestra e aprisiona Michelle no porão de sua casa para impedir uma possível invasão e, portanto, evitar a extinção humana.
Se, na obra fonte, há uma demarcação clara entre o bem e mal, aqui temos o encontro, com seus valores dúbios, das duas piores pessoas que você vai encontrar na sua vida: um conspiracionista com tendências sociopatas e uma girlboss industrialista, uma mistura de Jeff Bezos e Virgínia Fonseca (para abrasileirar as referências), que explora de forma cruel a sua classe operária. Existe uma dualidade na relação das personagens: "será que existe mesmo um alienígena entre nós ou será que estamos acompanhando uma sessão de tortura de um serial killer?" Esta sensação se repete aqui, agora em um cenário estadunidense.
Por mais que Teddy passe por todos os espectros políticos, ainda há um resquício de um comportamento “redpill” pela maneira em que a personagem se porta em cena; principalmente, a caracterização suja e descuidada de Plemons flerta com essa imagética (ele emana uma energia de um jovem Willem Dafoe desligado). Enquanto que Fuller tenha uma aparência mais normalizada, ela demonstra ser uma pessoa fria e calculista, que sempre teve a vantagem a seu favor. Uma abelha-rainha em prol do capital, que se protege atrás uma máscara de falsa progressista explorando seus funcionários até a exaustão.
Enquanto a versão coreana tem uma variedade de tons e de gêneros interconectados entre si e de forma bastante intensa, Lanthimos diminui um pouco o volume dos diversos tons para construir algo que sabe fazer de melhor: arquitetar um senso trágico, de que algo ruim está prestes a acontecer. Um outro filme de sua filmografia que dialoga com este projeto, em termos de escopo, é O Sacrifício do Cervo Sagrado, lançado em 2017. (Inclusive a paleta do design de produção.)
Em ambas as obras, temos a hybris da classe burguesa que afeta a vida do proletariado, levando a uma retaliação do por parte do(s) oprimido(s) [Fun fact: a atriz Alicia Silverstone está presente nos dois filmes e, em ambos, faz o papel da mãe da personagem “pobre”]. Em Bugonia, a hybris existe, mas ela se torna cada vez mais ambivalente e o público se pergunta quem será o causador dos infortúnios: Michelle, com seu comportamento arrogante e testes farmacêuticos capazes de destruir vidas ou Teddy, ao deliberadamente sequestrar e torturar uma pessoa, que causou diretamente um mal para ele, em prol de um ativismo bastante radical?
O mundo aqui é palpável e verossímil, a princípio parece um ambiente “normal”, mas a situação e a sucessão de acontecimentos que a narrativa desenvolve se calca no absurdo, que foge dessa sensação mundana em que o filme nos apresenta de início. Na verdade, nada é, de fato, normal. A disrupção de uma rotina banal para a algo extraordinário, digamos assim, nos mostra, como humanidade, a relativização de ações exploratórias cristalizada na normalidade. Se alguma empresa causa algum desastre natural, ou hospitaliza pessoas, para fins lucrativos, o caso é facilmente acobertado e não há nenhuma represália por parte da sociedade (O desastre de Brumadinho causado pela ganância da Vale me vem à memória, por exemplo). Portanto, existe algo de catártico e conturbado para o público se identificar com a personagem de Plemons.
Além disso, o realizador grego dimensiona Teddy, para além do proletariado conspiracionista, uma persona trágica: é revelado que ele sofre com a hospitalização da mãe, causada pela empresa de Michelle, e também que foi vítima de abuso (que pode ser tanto física, quanto psicológica ou sexual pelo pouco que sabemos) na juventude pela sua babá, Casey, que agora é o xerife local (Stavros Halkias). Aos poucos, temos vislumbres da personalidade complexa e do páthos da personagem, mas, ao mesmo tempo, isso contribui para a dúvida de seu caráter: será que ele tem razão sobre Fuller e a conspiração andromedana ou será que vive uma em fantasia traumática e busca um final para esse ciclo?
Apesar do trágico, o filme possui um humor que se demonstra bem sutil, mais do que sua contraparte coreana que é extremamente marcada, seja pela situação ou conflito entre classes. O roteiro de Will Tracy também tem um humor bem ácido e marcado, até mesmo o usa para aliviar a tensão em tela. Mas a escolha de não exagerar nessa marcação foi feita para valorizar o trabalho e a performance de Stone e Plemons; são dois atores gigantes que, aqui, estão em lados opostos e em pé de igualdade. A forma em que sustentam os diálogos e ações de suas respectivas personagens funcionam como um fio condutor da narrativa, deixando a trilha sonora de Jerskin Fendrix somente nos momentos de explosão e ápice emocional.
A combinação entre a farsa e o trágico, a paródia e o suspense, funciona de forma harmônica durante as duas horas de duração. Vemos uma partida de xadrez entre lados extremos em jogo. A cada passo, e mais peças saem do tabuleiro, mas ainda há uma dúvida que paira no ar e só é respondida quando esta termina. Conhecido como um cineasta que “inaugurou” uma nova estranha onda no cinema grego, Lanthimos flerta com o cinema comercial e uma abordagem estética, próxima de seus projetos experimentais; o que faz sentido em onde ele se encontra artisticamente: entre o seu longa mais comercial (Pobres Criaturas, 2023) e sua volta às raízes ao experimentalismo (Tipos de Gentileza, 2024), ou seja, um meio termo criativo.
O diretor conserva o sabor agridoce oriundo da obra base, porém, desenvolve a sensação de desamparo e a falha das relações interpessoais, administradas dentro de um sistema capitalista, com um pouco mais de escárnio. Há algo de viscoso sobre a obra que atravessa na fotografia de Robbie Ryan, a poeira, a sujeira, o insípido, a escuridão que traduz uma sensação que seja assustadora quanto falida. Algo engraçado e desesperado vem por aí. E de fato, a ironia impregnada pela conclusão da obra a lança no gênero filme-piada, como Tár (2022) e Segredos de um Escândalo (2023), que tem entrado em evidência no circuito norte-americano nos últimos anos.
Acredito que o maior trunfo do filme, neste momento, dentre várias categorias que podem ser citadas aqui, seja de recriar a essência de sua fonte base, atualizando o texto para um novo contexto cultural, ambiental e geopolítico. É uma mistura agridoce, de caminhos tortuosos e de caráter duvidoso, que mostra a grandeza das pequenas tragédias humanas e escancara as relações de poder interpessoais pela acidez que só o cinema de Lanthimos proporciona. O tipo de filme que é impossível de desviar o olhar, sequestrando a atenção do espectador até o fim. Agora fica a questão: será que a Chappell Roan faria sucesso em outras galáxias?
Well... Good Luck, Babe!
Autor:
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.