Na esperança de provar sua bravura ao Seu Sirigueijo, Bob Esponja segue um misterioso e aventureiro pirata fantasma conhecido como Holandês Voador em uma aventura marítima que o leva às profundezas do oceano.
Este é o quarto filme da famosa série da Nickelodeon. O primeiro longa-metragem, lançado em 2004, foi concebido originalmente como o encerramento definitivo da animação — e confesso que aluguei esse filme inúmeras vezes na saudosa locadora do bairro. Anos depois, vieram Um Herói Fora D’Água (2015) e O Incrível Resgate (2020), este último planejado para os cinemas, mas que acabou sendo lançado diretamente no streaming por conta da pandemia de Covid-19.
Tenho um carinho genuíno pela série e, principalmente, pelo primeiro longa, que marcou profundamente a minha infância. No entanto, mesmo reconhecendo esse valor afetivo, acredito que a franquia deveria ter sido encerrada ainda em 2004. A sensação é de que, ao longo do tempo, a criatividade foi se diluindo e o humor perdeu parte de sua força. Antes, a obra conseguia equilibrar muito bem seu visual extremamente colorido com um humor escrachado e, em vários momentos, surpreendente. Hoje, porém, a comédia parece exagerada e menos inspirada, como se postasse apenas no excesso para compensar a falta de ideias novas. O resultado é uma série que já não provoca o mesmo impacto de antes e parece existir mais por insistência comercial do que por necessidade artística — e isso vale para o filme também.
Diferente dos filmes anteriores, este não gira em torno da clássica rivalidade entre o Seu Sirigueijo e o Plankton, Conflito recorrente no desenho. Dono do restaurante Balde de Lixo, Plankton nunca consegue atrair clientes, principalmente por conta de sua comida nada apetitosa, e por isso vive tentando roubar a fórmula do hambúrguer de Siri do Sirí Cascudo, empreendimento de grande sucesso comandado pelo Seu Sirigueijo. Esse embate entre os dois personagens já estava bastante desgastado. Em O Incrível Resgate, ele ainda aparece de forma pontual, mas o foco da narrativa era a busca por Gary, que havia sido sequestrado. Já neste filme, a atenção se volta principalmente para a aventura de Bob Esponja ao lado do Holandês Voador. Plankton surge apenas de forma pontual em uma cena e, após isso, não tem mais qualquer relevância para a história, o que reforça a sensação de que o roteiro não sabe muito bem o que fazer com um de seus personagens mais icônicos.
No Primeiro filme, Bob Esponja queria provar que já era um homem, não apenas para os outros, mas também para si mesmo. Ele se sentia constantemente subestimado, visto como um garoto apenas por gostar do amendobobo, uma figura infantil dentro do universo do desenho, e por se encantar com coisas simples como estourar bolhas. Esses pequenos prazeres, que para ele eram sinais de alegria e pureza, acabavam sendo interpretados pelos outros como imaturidade. É a partir desse olhar julgador que nasce o conflito do personagem. Aqui, o protagonista tenta provar que é corajoso, movido pelo desejo de ser levado a sério e de mostrar que também é capaz de enfrentar desafios.
O símbolo dessa prova de coragem surge na forma de uma montanha-russa que ele sonhava em conhecer. Para Bob Esponja, ir até aquele brinquedo representava um rito de passagem, uma chance de se afirmar. No entanto, ao chegar ao parque, ele se depara com a realidade: a montanha-russa era muito perigosa do que ele imaginava. O medo aparece, mas junto dele vem a necessidade de seguir em frente. Não se trata apenas de entrar no brinquedo, mas de encarar seus próprios limites, superar o pavor e mostrar que coragem não é ausência de medo, e sim a decisão de enfrentá-lo.
O filme utiliza a animação em 3D, assim como seu antecessor. Não que a animação 3D seja algo negativo — ela funciona bem dentro da proposta e acompanha os padrões atuais do cinema de animação —, mas confesso que senti falta do estilo 2D clássico do desenho. A animação bidimensional sempre fez parte da identidade visual de Bob Esponja, e é difícil não associar o personagem a esse traço mais simples e expressivo, que carrega muito do seu charme original. O filme de 2004 e o de 2015 optaram majoritariamente pelo 2D, o que, ao meu ver, ajudava a preservar essa essência. No longa de 2015, é verdade, há uma transição para o 3D quando os personagens vão para a superfície, mas ali essa mudança fazia sentido narrativo e funcionava quase como um recurso pontual, um contraste visual que destaca aquele outro mundo.
Bob Esponja: Em Busca da Calça Quadrada escancara o dilema de uma franquia que, embora ainda carregue o peso simbólico de ter marcado gerações, parece cada vez mais distante da inventividade que a tornou especial. O filme até recupera temas valiosos ao personagem — como a busca por amadurecimento e coragem. A tentativa de afastar a história da rivalidade desgastada com Plankton e apostar na parceria com o Holandês Voador é valida em intenção, mas limitada em execução, incapaz de sustentar um arco verdadeiramente memorável. O resultado é uma aventura funcional, visualmente competente, porém esvaziada de urgência criativa, que reforça a sensação de que Bob Esponja continua existindo mais por força da marca do que por necessidade artística. Para quem cresceu com o personagem, resta o carinho e a memória — porque a magia que um dia definiu essa esponja já não encontra, aqui, espaço para florescer com a mesma intensidade.
Autor:
Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.
