quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Chainsaw Man: O Filme – Arco da Reze – O Romance Sangrento Que Revela o Coração do Homem-Motosserra

Chainsaw Man: O Filme - Arco da Reze | Sony Pictures


Denji vive como o temido Homem-Motosserra, um jovem com coração de demônio que integra a Divisão Especial 4 de Caçadores de Demônios. Após um encontro marcante com Makima, a mulher de seus sonhos, ele busca refúgio da chuva e acaba conhecendo Reze, a misteriosa atendente de um café.

O arco dá continuidade de onde parou a primeira temporada, na qual somos apresentados a esse universo maluco com demônios e caçadores de demônios. Um desses caçadores é um garoto que se transforma em uma motosserra e usa esse poder para enfrentar os demônios. Em sua primeira temporada, eu não gostava do protagonista Denji pelo simples fato do objetivo dele ser apertar os seios femininos. Diferente de outros protagonistas de animes do gênero shounen — obras voltadas para meninos jovens —, que possuem metas capazes de fazer o público torcer para que eles consigam realizar seus sonhos, como em Naruto, em que o protagonista deseja se tornar Hokage (Título dado ao líder da vila onde ele mora, considerado o ninja mais forte do local e responsável por proteger e manter a paz dentro desse universo). 


Mas, apesar desse problema, Chainsaw Man impressiona pelas suas cenas de ação brutais e pela animação de altíssima qualidade. Cada batalha é coreografada de forma intensa e visceral, transmitindo perfeitamente o caos e a violência do mundo da obra. Os movimentos são fluidos, os cortes de câmera dinâmicos e o uso de efeitos visuais, como o sangue e as partículas de motosserra, cria uma sensação de impacto real em cada golpe. Além disso, o estúdio MAPPA faz um trabalho excepcional ao misturar animação tradicional com CGI, mantendo um visual cinematográfico e sombrio que combina perfeitamente com o tom do universo. As lutas não são apenas visualmente impressionantes, mas também carregadas de emoção e desespero, reforçando a brutalidade e a humanidade dos personagens.


Este arco, diferente dos anteriores na primeira temporada, adiciona o gênero romance — mas não é aquele tipo de romance à la Makoto Shinkai, diretor de Kimi no na Wa e Suzume, ou de qualquer outro filme romântico tradicional, do tipo bonitinho em que o público torce para que o casal fique junto. Este arco aprofunda os sentimentos do protagonista de uma forma muito mais humana. Na primeira temporada, Denji demonstrava afeto principalmente por Pochita — o demônio da motosserra que era seu fiel “bichinho de estimação” — e por Makima, sua chefe, por quem nutria uma paixão confusa e imatura, muitas vezes movida pelo desejo físico. 


Enquanto enfrentava demônios, ele parecia não se importar com as pessoas que acabava salvando, dizendo que não estava nem aí — mas, no fim, sempre as salvava. No entanto, esta nova fase mostra um Denji mais introspectivo, começando a lidar com emoções que ele próprio não entende completamente. O filme retrata isso de maneira delicada, em cenas como a de Denji e Makima no cinema, assistindo a diferentes tipos de filmes. Enquanto as pessoas ao redor choram em um momento emocionante, Denji se vê incapaz de compreender por que todos estão tristes — e essa falta de entendimento revela não frieza, mas uma inocência dolorosa de alguém que nunca teve espaço para sentir. 


Essa sequência é simples, mas profundamente simbólica: mostra que Denji, acostumado à violência e à sobrevivência, ainda está aprendendo o que significa ser humano. É uma abordagem sensível e surpreendentemente poética, que toca o espectador e faz com que vejamos o protagonista sob uma nova luz — não mais como o caçador impetuoso, mas como um jovem em busca de um coração que possa finalmente entender o que é amar e ser amado.


O filme adiciona uma camada de terror centrada na personagem Reze, cuja presença traz uma tensão constante à história. À primeira vista, ela parece uma garota doce e misteriosa, mas aos poucos o espectador percebe que há algo profundamente inquietante em sua natureza. Essa dualidade — entre o charme e o perigo — cria um clima de suspense que se aproxima do terror psicológico. Reze é imprevisível, e cada gesto seu carrega a sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, tornando suas cenas intensas e perturbadoras.


Apesar da profundidade que a personagem Reze traz à narrativa, suas roupas acabam seguindo um padrão bastante comum em animes: a sexualização feminina desnecessária. Seu figurino, composto por roupas curtas e justas, parece mais voltado para destacar seu corpo do que para refletir sua personalidade ou tom sombrio da história. A sensualidade poderia ter sido utilizada de forma mais sutil e simbólica, como parte do charme e da ambiguidade natural da Reze, sem recorrer à exposição gratuita. Essa escolha estética acaba reforçando um estereótipo recorrente nessas produções, em que personagens femininas complexas ainda são retratadas através de um olhar masculino que reduz seu impacto emocional. Mesmo assim, a personagem consegue se sobressair como figura marcante e trágica, o que só reforça de que ela merecia um tratamento visual mais condizente com a força e a sensibilidade de sua história.


Chainsaw Man: O Filme - Arco da Reze continua o universo de demônios e caçadores com Denji, o Homem-Motosserra, agora mais introspectivo e humano. O arco combina ação brutal, animação impressionante e momentos de romance e terror, explorando a complexidade emocional do protagonista e de personagens como Reze. Apesar da sexualização desnecessária de Reze, sua presença adiciona tensão e profundidade à narrativa. No geral, a obra equilibra violência, emoção e suspense, mostrando que até em um mundo caótico é possível contar histórias que tocam e fazem refletir sobre humanidade e sentimentos.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Bom Menino - Mais que um amigo fiel: um especialista em monstros domésticos

Bom Menino | Paris Filmes


Um homem se muda para uma nova casa onde forças sobrenaturais se escondem nas sombras. Quando entidades sombrias começam a ameaçá-lo, seu corajoso cachorro aparece para salvá-lo.

Ao assistir ao trailer do filme, é quase inevitável lembrar da clássica animação Coragem, o Cão Covarde, e muitos comentam nas redes que o filme fuinciona como uma espécie de versão live action do desenho. A comparação é natural: em ambas as obras, apenas o cachorro percebe as presenças sobrenaturais que passam despercebidas pelos humanos, estabelecendo uma dualidade fascinante entre sensibilidade e ignorância. Essa perspectiva evidencia como os animais podem ser muito mais perceptivos do que imaginamos, enquanto os humanos permanecem alheios ou descrentes diante do inéxplicável.


Segundo estudos sobre comportamento canino, os cães latem não apenas para alertar sobre perigos concretos, mas também como resposta a estímulos que só eles — sons, cheiros ou presenças sutis que fogem à fogem à nossa percepção. Essa característica é explorada de maneira criativa nas duas narrativas: O latido do cachorro deixa de ser apenas um recurso sonoro e se torna um símbolo de alerta, isolamento e incompreensão. O Bom Menino adota uma abordagem mais realista e emocional, dando profundidade ao vínculo entre o cão e seu dono. O latido, aqui, se transforma em metáfora de solidão, medo e da dificuldade de ser compreendido, mostrando como o animal, mesmo vulnerável, se torna o verdadeiro herói da história.


Contar uma história de terror sob a perspectiva de um animal de estimação é uma proposta muito bem executada. Ao adotar esse ponto de vista, o filme ganha uma camada extra de sensibilidade, transformando o medo em algo mais íntimo, quase inocente, e profundamente emocional. A direção explora com inteligência a limitação do olhar do cachorro, restringindo o campo de visão à altura do chão e aos ruídos distantes. Essa escolha aproxima o público do protagonista, fazendo com que cada som, movimento ou ausência de luz seja sentido com a mesma vulnerabilidade que ele.


Além de intesificar a tensão, essa perspectiva reforça a conexão afetiva entre o espectador e o animal, que se torna um espelho de emoções humanas como o medo, a lealdade e o instinto de proteção. O resultado é um terror que vai além dos sustos e das aparições sobrenaturais — é uma experiência emocional, que faz o público torcer, temer e sofrer junto com o cachorro.


O roteiro força um pouco a barra ao apresentar um homem gravemente doente decide se mudar justamente para uma casa cercada de mistérios — e, mesmo percebendo que há algo errado, resolve ficar. Ainda mais estranho é saber que todas as famílias que viveram ali tiveram finais trágicos, com mortes prematuras e sempre na companhia de seus cachorros. Essa escolha soa forçada e pode causar certo estranhamento, já que o comportamento do personagem nem sempre faz sentido dentro da própria história. Mesmo assim, quem embarca na proposta consegue aproveitar o suspense e o clima sombrio que o filme constrói com eficiência.


O Bom Menino se destaca por unir sensibilidade e terror de uma forma pouco comum no gênero. Ao colocar um cachorro como verdadeiro herói da trama, o filme vai além dos sustos e constrói uma história sobre lealdade, empatia e a solidão de quem enxerga o que os outros se recusam a ver. Apesar de algumas decisões de roteiro soarem forçadas, a obra compensa com uma direção envolvente, um clima tenso e uma perspectiva original que desperta emoção. É um terror que dialoga com o coração — e prova que, às vezes, o olhar mais puro é também o que melhor entende o medo.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Telefone Preto 2 - Do Suspense Psicológico para a Hora do Pesadelo

Telefone Preto 2 | Universal Pictures

Pesadelos assombram Gwen, de 15 anos, enquanto ela recebe chamadas do telefone preto e tem visões perturbadoras de três rapazes sendo perseguidos em um acampamento de inverno. Com a ajuda de seu irmão, ela deve agora confrontar um assassino que se tornou ainda mais poderoso na morte.

O Primeiro Telefone Preto seguiu a linha do suspensa psicológico, centrado em um garoto sequestrado por um assassino em série. Com elementos sobrenaturais, o protagonista encontra um telefone antigo em seu cativeiro, o que lhe permite se comunicar com as vítimas anteriores do criminoso e, assim, tentar escapar. No segundo filme da franquia, a história se expande, mas mantém algumas semelhanças com o primeiro. O telefone não está mais no cativeiro, mas sim em uma cabine telefônica, localizada em um acampamento onde o protagonista, Finney, vai com sua irmã, Gwen. Ao contrário do primeiro filme, Finney não está preso, mas a tensão permanece. A principal novidade é que Gwen, irmã de Finney, começa a ter pesadelos premonitórios sobre o assassino, o que faz lembrar o clássico A Hora do Pesadelo. Ela também corre o risco de morrer na vida real caso morra em seus sonhos, criando um paralelismo com os eventos que envolvem o assasino e seu irmão.

Embora o filme traga algumas boas ideias e a continuidade dos elementos sobrenaturais que funcionaram no primeiro, a sequência não consegue replicar a tensão psicológica que fez o original tão eficaz. Apesar da premissa do telefone ter mudado, o desenvolvimento do mistério se arrastar um pouco mais do que no seu antecessor. A comparação com A Hora do Pesadelo é interessante, especialmente pela dinâmica dos pesadelos premonitórios, mas, no geral, o filme falha em aproveitar plenamente o potencial da trama. Isso faz com que a sequência se sustente mais por nostalgia e elementos familiares do que por inovação.

No primeiro filme, o foco estava no protagonista, Finney, que era a principal vítima do sequestrador. Gwen, embora tivesse um papel relevante, era mais uma figura de apoio — a irmã caçula que buscava pistas sobre o desaparecimento do irmão. No entanto, em Telefone Preto 2, gostei de ver uma expansão signficativa de seu papel. Agora, ela não é apenas uma personagem secundária, mas uma parte fundamental da trama. Além de continuar sendo uma presença importante na busca por Finney, Gwen também se vê em perigo, pois seus pesadelos premonitórios a colocam em risco, ampliando ainda mais a tensão e o suspense da história. Esse aprofundamento no papel de Gwen traz uma dinâmica mais interessante, especialmente porque ela deixa de ser uma mera coadjuvante para se tornar uma protagonista no enfrentamento do assassino. A sequência acerta ao dar a ela mais espaço, equilibrando a narrativa e oferecendo uma perspectiva adicional sobre a ameaça que paira sobre os personagens. Essa ampliação da trama, ao mesmo tempo em que mantém o suspense, torna o filme mais envolvente e menos centrado apenas no sofrimento de Finney, o que traz um ar de frescor e evolução ao enredo.

Nos sonhos de Gwen, a alteração da estética da câmera, dando-lhe a aparência de um filme antigo, quase como se estivesse sendo visto através de uma lente embaçada ou desgastada. Esse recurso visual não só cria uma distinção clara entre os mundos oníricos e reais, mas também intensifica a atmosfera de mistério e tensão dos pesadelos de Gwen. A escolha de simular esse estilo "retrô" remete a filmes clássicos de terror, estabelecendo uma conexão com o gênero de forma sutil e eficaz. Quando os sonhos terminam e Gwen retorna ao mundo real, a câmera volta ao seu formato habitual, o que reforça ainda mais a ideia de que, nos momentos em que ela está dormindo, está em uma realidade completamente diferente — mais distorcida e perigosa. Essa técnica é habilidosa porque não só serve a uma função narrativa, mas também contribui para a construção da tensão emocional e visual da história. Ao longo do filme, essa mudança estilística ajuda a mergulhar o espectador na experiência de Gwen, tornando seus pesadelos ainda mais palpáveis e imersivos.

Telefone Preto 2 expande a história do primeiro filme, mas, embora traga algumas novidades interessantes, não consegue capturar a mesma tensão psicológica que fez o original tão impactante. A principal adição, que é o aprofundamento no papel de Gwen, funciona bem em termos de dar à personagem mais relevância e complexidade, mas o desenvolvimento do mistério acaba sendo mais arrastado do que no primeiro filme. A inclusão dos pesadelos de Gwen, é um bom toque, mas não consegue gerar a mesma sensação de desespero que o cativeiro de Finney proporcionava.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

The Mastermind (2025) é a balada de um himbo alienado

 

The Mastermind (2025) | MUBI, Imagem Filmes

Imagina o seguinte cenário: estamos no meio-oeste americano, nos anos 1970. O presidente é Richard Nixon e os Estados Unidos estão no meio da contracultura e da guerra do Vietnã. O clima é tensão e de crise no ar. Mas JB Mooney (Josh O'Connor) não poderia se importar menos com isso, afinal ele tem outras coisas em mente. 

JB era um promissor um aluno de artes visuais que desistiu da cadeira e agora ele trabalha mal ou bem como marceneiro. Ele mora em uma cidade de Massachusetts, é casado com Terri (Alana Haim), com quem tem dois adoráveis filhos, um deles, Tommy (Jasper Thompson), é muito ligado nele. Além disso, não tem uma boa relação com o pai (Bill Camp) que é um juiz e, eventualmente, recorre à mãe (Hope Davis) por um dinheiro extra. Apesar da esposa trabalhar como secretária, ele fica à deriva, largado entre trabalhos.

Em uma visita do museu de arte local, JB fica fascinado por uma série de pinturas abstratas de um artista ligado ao seu passado. E, ao perceber que a segurança da sala em que obras estão expostas é bem ineficaz, ele começa a maquinar um plano, um tanto ingênuo, de roubar estas pinturas do museu para revendê-las no mercado clandestino. Ele pega mais uma quantia com a mãe, monta um esquema e uma equipe bem precária, porém de mestre do crime, ele não tem nada. E o tiro pode sair pela culatra.

The Mastermind (2025), que acabou de passar no Festival do Rio e chega nos cinemas dia 16/10, é o novo filme da diretora Kelly Reichardt. Os filmes de Reichardt são contemplativos e que tomam um tempo antes da narrativa engrenar de fato (caso o espectador não estiver familiarizado com seu estilo), mas a sua construção de personagens é tão cativante que torna-se o principal fio condutor de suas narrativas. Ou seja, o estudo de personagem é o que sustenta suas obras. 

Existe uma certa ironia no título do longa, pois JB acha que tem o controle meticuloso de todo o esquema que arquiteta, mas fundo é ele quem está menos preparado. A performance magnífica de Josh O'Connor brilha com essa personagem passiva e ambiciosa, de expressão paciente e perdida. Reichardt desenvolve os desejos e as motivações da protagonista para cometer tal crime, mesmo não perdendo o tom cômico que impregna na obra. Se ele apresenta de forma "apolítica" no exterior, JB faz parte de uma geração perdida, alienada, que está na corda bamba; seus desejos são frustrados e encontra, no sentimento de rebelião moral, uma reinvenção própria. 

Comete o crime para se reconectar com quem ele havia sido antes, porém as pessoas mudam; e essa busca pela esta imagem passada é vã. Por mais que a personagem de O'Connor seja patética aos olhos do público, a direção consegue dar uma dimensão emocional que nos faz sentir empatia por ele, ao focar nos seus dilemas morais, como um retrato de uma "americana" decadente durante um período histórico turbulento. O american way of life é deprimente, e todo departamento de design de produção e de fotografia deixam isso aparente com muitos tons frios e terrosos. A vida quase sendo uma natureza morta. E trilha sonora de jazz é potente, os sons de Rob Mazurek dão uma vida ao filme que contrasta com seu visual pálido.

Além de O'Connor, o elenco está muito bem de forma geral. Alana Haim tem um performance bem contida, mas que consegue transparecer todas as inseguranças e sentimentos de sua personagem, principalmente relacionadas ao seu casamento. As crianças que fazem os filhos de JB, Sterling e Jasper Thompson, são carismáticos e uns amores em tela. Mas também gostaria de ressaltar a ponta de John Magaro e Gabby Hoffmann que fazem um casal de amigos de JB, com quem ele encontra durante sua fuga da polícia.

Reichardt cria aqui uma comédia de erros, que não deseja transformar sua protagonista em uma caricatura, mas como uma representação de uma geração alienada em meio a uma crise. Uma personagem que se reinventa, mas sem consertar os erros. A busca pela moral de um homem precipitado. A busca pelos fantasmas do passado em meio a um futuro incerto. Uma tentativa de homenagem a Louis Malle e Robert Bresson. Tem ironia, mas, debaixo de todo o frio, também há um coração.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 27o Festival do Rio, realizado em 2025, visto em cabine de imprensa.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

Valor Sentimental (2025) mostra que a ferida é profunda

 

Valor Sentimental (2025) | MUBI

A casa é uma personagem, um ponto de referência. Dentro do seu espaço delimitado, mas nunca parado, pode conter diversas histórias, pessoas e traumas que faz parte de sua genealogia. Suas fundações são o palco em que outras narrativas se desenvolvem ao longos dos anos, décadas e séculos. E elas deixam marcas, rachaduras que, se cuidar bem delas, podem ser remediadas. A casa da família Borg, que sobreviveu por gerações, é uma delas.  
 
O diretor de cinema, Gustav (Stellan Skarsgård), morava lá com a esposa e as duas filhas, Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). Os pais não se davam bem e a relação afundava tão violentamente que este desentendimento afeta principalmente Nora que irá desenvolver um problema gravíssimo de ansiedade e de depressão. E após o divórcio, Gustav se torna o famoso "pai ausente" da família; muito mais focado no trabalho do que no cotidiano das filhas.

 Anos se passam, as filhas se tornam já adultas e independentes, Nora se torna uma atriz, enquanto Agnes, que atuou em algumas obras de seu pai quando criança, é uma pesquisadora acadêmica. E a mãe delas, que ainda morava na casa, falece. E com isso, Gustav volta ao cotidiano da família. Para o pavor de Nora, que tem assuntos não bem resolvidos com seu pai, ele oferece a ela o papel principal de um novo projeto que, em teoria, teria a ver com a história da família. Achando que Gustav está tentando se aproveitar do momento atual, ela recusa, com uma certeza absoluta, o papel. 

No entanto, em uma viagem de trabalho Gustav acaba conhecendo a atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning) que é fã justamente do filme que ele faz com Agnes vários anos atrás. E, depois disso, ele volta a Noruega com o financiamento do filme e com Rachel no papel principal, o que abala as estruturas emocionais de Nora e de toda dinâmica familiar.

Valor Sentimental (2025) é novo longa de Joachim Trier, no qual ele repete a parceria com a Renate Reinsve no papel principal e com o roteiro de Eskil Vogt de seu projeto anterior, A Pior Pessoa do Mundo (2021). Se Trier e Vogt exploram a vida e o crescimento pessoal e emocional de uma personagem na obra passada, agora eles exploram todo um micro ecossistema com mais agentes para brincar. Todas as personagens -  Nora, Gustav, Agnes e Rachel - possuem um arco narrativo que se entrelaçam entre si. Elas investigam, de uma forma ou outra, as feridas que atormentam a sua psique. 

Existe uma certa homenagem ao trabalho da obra de Bergman em certos momentos e planos: o uso de um ambiente central, das imagens do duplo, dos perfis destacados, os pontos de vista; em especial, ao filme Gritos e Sussurros (1972), que a dupla criativa constrói, sem deixar uma visão autoral de lado. De fato, as alusões existem, mas são sutis e não dominam a trama vigente. Gustav poderia ser qualquer diretor aclamado com relacionamento familiar disfuncional, e não necessariamente uma caricatura direta do diretor sueco. Afinal,  há exemplos deste "tipo" de personagem para fora da Escandinávia, um certo "apelo universal" se podemos dizer assim. 

Mas isso é uma cereja de um saboroso de um bolo que é preparado com um tempo, de sabores complexos, e bem estruturado. A direção de Trier continua sendo bastante forte e o roteiro de Vogt tem uma maturidade impressionante. Se A Pior Pessoa tem uma energia ligada a juventude, Valor possui uma contemplação geracional que fisga o espectador pela construção de personagem e a dinâmica articulada aqui.

Nora e Gustav, atriz e diretor, são comunicadores culturais, porém não conseguem falar aquilo que um pensa sobre o outro. Há uma tentativa, mas as feridas abertas, ainda cobertas de sangue e sal, não os deixam falar. Suas almas gritam pelo anseio pela comunicação, mas os corpos travam, criam barreiras em que as duas partes não se encontram no meio. Se Renate Reinsve encantou o público com a sua Julie no longa anterior do realizador, aqui, como a introspectiva Nora, ela dá o outro lado da moeda. Existe algo muito palpável em sua performance que toca lugares profundos, sem cair em maneirismos e exageros na atuação. Ela consegue capturar a sensação da personagem estar sem chão que é arrasadora. 

E não muito longe do departamento da atuação está o veterano Stellan Skarsgård, que rouba a cena com o carismático Gustav aos olhos públicos, mas que esconde dentro de si aquele olhar de uma tristeza profunda. Sua personagem se depara com o legado de sua carreira que, apesar da importância, não há novo durante décadas e com a própria brevidade da vida. Tem pose de bon vivant, mas, no fundo, existe uma solidão que paira sobre sua cabeça. Skarsgård está no seu melhor papel de sua carreira até agora e rouba a cena quando aparece.

Também é preciso destacar as performances de Lilleaas e Fanning que estão ótimas em seus respectivos papéis. Agnes é a mediadora de Nora e Gustav e, ao saber que o pai quer escalar seu filho no projeto, ela vai atrás da história de família para tentar descobrir as intenções do texto de Gustav. Agnes é linha que liga a narrativa principal com a subtrama da qual somos introduzidos no início, através dela descobrimos marcas e traumas do passado que fizeram parte da história da genealogia familiar. Ela é mensageira de algo maior. 

Enquanto isso, Rachel, uma outsider, enfrenta problemas com a construção de sua personagem. Apesar de dar seu melhor, ela sente que algo está errado com projeto. Seria que ela entende o texto decifrado de Gustav ou seria ela o problema? A pessoa errada no momento errado? Qual seria o verdadeiro significado a esta personagem?

 Em suma, Valor Sentimental triangula gerações de família e de artistas para tocar temas que transpassam aspectos públicos e privados. É um conto sobre traumas e questões existenciais. A possibilidade plural da arte em tocar em assuntos sensíveis ou pessoais. De certa forma, um filme performático, cujas páginas do roteiro são a vida de suas personagens. Um trabalho maduro e sólido.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 27o Festival do Rio, realizado em 2025.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

O Riso e a Faca (2025) viaja pelos diversos universos da Guiné-Bissau

 

O Riso e a Faca (2025) | Vitrine Filmes

A Guiné-Bissau conquistou sua independência do colonialismo europeu em 1973. O país se divide no continente e as ilhas ao redor. Antes da chegada dos portugueses, a região integrava o Reino de Gabu (1537-1867) e o Império Mali (1235-1670), habitada pelas etnias balantas, fulas e malinquês. Mesmo com uma ávida resistência, se tornou um entreposto, junto com Cabo-Verde, das rotas dos navios negreiros e se tornou uma região negligenciada pelos europeus. E, ao contrário de Angola e Moçambique, por exemplo, é uma nação rural (caboverdianos, por exemplo, a enxergam historicamente como uma "roça") e focada na agricultura. Além disso, a região é englobada por colônias francesas com grupos islamizados. 

A partir do século XIX, a situação pirou: a mão da metrópole pesou nas colônias africanas, após a independência do Brasil, o que causou em uma série de violências físicas e institucionais (o estatuto de indigenato, o regime de contrato) que se perpetuaram no século XX com o regime salazarista. A libertação só foi possível através de uma luta armada  que durou entre 1963 a 73 e Portugal somente reconheceu a independência, em 1974, após a morte de Salazar. No entanto, o país tem um histórico recorrente de instabilidade política, no que resultou em uma Guerra Civil no final dos anos 90. Não é à toa que a produção tem a participação da poeta Odete Semedo (1959-) em uma ponta em que sua personagem reconta na língua criola as dificuldades de seus ancestrais durante esse período.

Portanto, temos aqui um nação com um passado rico, um trauma colonial, uma história de resistência política e problemas políticos e econômicos. E é neste cenário diverso que Sérgio (Sérgio Coragem), um engenheiro ambiental bissexual português, vai acabar se deparando em O Riso e a Faca (2025), o novo épico do diretor Pedro Pinho. O filme é uma coprodução entre Portugal, Brasil e França, participou da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, em que ganhou prêmio de atuação feminina. E o mais importante para o público que for conferir, ele tem três horas e meia de duração; o que pode ser um empecilho para alguns espectadores, mas ainda é uma obra engajante.

Bem... Sérgio viaja de carro desde Lisboa para Bissau, atravessando o deserto do Saara, para trabalhar a serviço de uma ONG para conduzir um estudo ambiental sobre a viabilidade de uma construção de uma nova estrada que conecta o litoral do país até o deserto, de modo que passe pelas várias aldeias do interior. Muitos cidadãos são favor e outros são contra a construção. O problema é que a construção não pode causar o desmatamento de uma área e nem afetar a prática do cultivo do arroz, feita de maneira milenar e artesanalmente por meio de barragens, e ela tem que começar antes do período das chuvas. O que bota uma baita pressão nas costas de Sérgio, uma vez que o benfeitor da obra quer que ela comece o mais rápido possível.

Além disso, o caminho dele irá se cruzar com mais duas personagens importantes para a narrativa: Diara (Cleo Diára), uma jovem que vive fazendo corres de compra e revenda pelos centros urbanos da Guiné-Bissau e Guilherme (Jonathan Guilherme), um imigrante brasileiro que tenta se reconectar com suas raízes e mantem, junto com Diara, uma espécie de salão-bar no subúrbio da cidade. E obviamente, Sérgio irá gravitar entre os dois de modo que não sabem quais são suas verdadeiras intenções desse europeu recém chegado. Enquanto conduz a sua pesquisa, Sérgio vai começar a criar uma paranoia, um certo medo de que algo ruim está prestes a acontecer com ele.

Pedro Pinho tem um material rico em mãos e tem a ambição de explorar diversas facetas e histórias que a terra de Guiné-Bissau tem a oferecer. A direção tem um olhar quase semidocumental, com olhar antropológico, e o roteiro colaborativo escrito por 10(!) roteiristas transmite tal ambição, embora, ao mesmo tempo, ponha o trabalho em uma posição vulnerável, uma vez que muitos chefs na mesma cozinha possa dar errado. Mas o tempo de tela consegue dar o foco necessário do ponto A a Z, sem que haja uma parte subdesenvolvida. 

O que acontece é o contrário. Muitas as cenas do longa são bastante longas com direitos a monólogos e com direito a grandes momentos de atuação, que são ótimos, mas seguidos de um após outro se torna um tanto cansativo numa primeira vista. Porém, a atuação naturalista dos atores segura muito bem a bola que a direção joga a eles, principalmente a cativante Cleo Diára que é magnética em cena.

Sérgio, apesar de ser bem presente no cotidiano das pessoas que estão ao seu redor, seja na capital, seja nas aldeias, seja com as equipes de construção, seja com pessoas em posições vulneráveis do que ele, tem duas grandes questões: é muito ingênuo - a ponto de cometar as mais diversas gafes - e, a pior coisa que um branco possa fazer em um país africano, tem uma síndrome de salvador. Ele é a caricatura de uma geração que pensa ser descontruída, mas de desconstrução não tem nada (como aponta uma trabalhadora do sexo, provavelmente traficada, em dado momento da trama).

É essa característica do engenheiro que remonta a um passado do pensamento civilizatório colonial que Gui e Diára identificam de cara e nunca estão 100% à vontade com ele, por mais que haja uma atração das duas partes pela mesma pessoa. (O momento em que Diára fala: "Sabes que eu acho nojento, Sérgio? Nojento é poder recusar 150 mil euros e depois sentir-se melhor consigo." está gravado na minha mente até agora)

Além disso, filme também discute sobre a questão a "mãe África" e o do pensamento do pan-africanismo através da personagem de Gui, que se instala em Guiné-Bissau em busca de uma ancestralidade perdida e tem um choque de realidade ao interagir com a população nativa que não o vê com um deles. O que para um público brasileiro, promoveria debates interessantes sobre percepções etnoculturais dentro dos espaços da negritude.

O Riso e a Faca é um conto sobre a cacofonia de uma terra pilhada de suas tradições e culturas e a falta de conexão do ser e o espaço. É sobre dicotomia entre o que deve ser preservado e o progresso promovido pela restrita burguesia. É sobre laços que são atados e desatados, uma correnteza que puxa as pessoas uma com as outras. O retrato de uma terra que ainda está sendo pilhada em nome do progresso neoliberal. A dicotomia e contradição de um povo. Conflitos de interesses. O passado e o futuro na balança. O que resiste é são as relações que são feitas naquele espaço e tempo. Assim que Sérgio compreender isso, ele pode se livrar as amarras do passado colonial, enxergar o que realmente importa e ter uma chance de ficar em pé de igualdade com os nativos. Uma nova perspectiva. É um filme que viaja pelos diversos universos da Guiné-Bissau e a jornada, por mais que instável, é recompensadora.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 27o Festival do Rio, realizado em 2025, visto em cabine de imprensa.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

Fernão de Magalhães (2025) disserta sobre o processo colonizatório

 

Fernão de Magalhães (2025) | Filmes do Estação

A virada do século XV para o século XVI não só marcou o fim da Idade Média na Europa, mas também foi marcada pelas Grandes Navegações que os reinos europeus promoviam para justamente encontrar novas rotas comerciais de especiarias. Todos queriam achar o mais rápido e ter o controle total dessa "mina de ouro". 

E como todo brasileiro sabe, porque isso acarreta um pouco na nossa formação histórica, a maior potência naquela época era o reino de Portugal. Enquanto o território brasileiro não sofria das intervenções das garras coloniais, a vítima da vez eram as nações asiáticas. E durante a brutal ocupação de Malaca, que hoje pertence à Malásia, pelo Vice-Rei das Índias Portuguesas que conhecemos Fernão de Magalhães, o objeto de estudo do novo épico do diretor filipino Lav Diaz.

Fernão de Magalhães (1480-1522) foi um soldado do exército imperial que chegou ao posto de capitão e, a mando do rei de Portugal, foi enviado para auxiliar na conquista de territórios das Índias, que, após se ferir em batalha, volta para a metrópole para se recuperar, junto com alguns espólios, e começa a maquinar uma nova rota de navegação que, à princípio, iria assegurar a posição de Portugal, contra os avanços das expedições castelhanas: uma rota que desse uma volta ao globo. 

No entanto, para a sua surpresa o rei rejeita a proposta e o expulsa da corte portuguesa. Sentindo-se traído, Magalhães vai, então, para o reino de Castela (Espanha) que financia a expedição da nova rota. E talvez o rei português tenha razão, pois a viagem é tumultuada com Fernão passando cada dia mais esquizofrênico, tentativa de motim e boa parte de sua tripulação perecendo pelos diversos tipos de doenças e insolações durante o percurso. Para sua sorte o trajeto de Magalhães o leva para o reino de Mactan, na ilha de Cebu, região que hoje forma parte das Filipinas. 

O roteiro nós conhecemos bem... Magalhães conhece o líder da comunidade, traz presentes para firmar uma relação mais estreita, introduz os nativos ao cristianismo e, depois disso, quem não estiver de acordo com a visão de mundo dos colonizadores, será alvo de uma represália em nome da corte e da igreja. E essa tentativa de dominar  esse povo que será a ruína ou, melhor dizendo o último prego no caixão de Magalhães.

Nesta obra, Lav Diaz, apesar de fazer um filme que dialoga muito ao estilo do cinema português, não tem nenhuma intenção de glorificar o passado de uma nação europeia, ao invés disso, ele usa dessa personagem histórica para construir uma ponte cultural e temporal que tem a ver com o início de uma transformação muito importante e traumática da história das Filipinas. 

Porém, Diaz tem uma intenção de dimensionar algo que foi tão particular, para uma universalização ampla do contexto colonizatório. Algo com que possamos nos relacionar. Um exemplo disso já aparece na primeira cena do filme, ainda em Malaca, em que vemos uma mulher no rio coletando água numa jarra e quando ela vê os portugueses se aproximando, a expressão dela muda para um terror absoluto, como se o chão estivesse sendo tirado dela, ficando á mercê da morte.

Fernão não sabe, mas ele tem dentro de si, uma autodestruição  que causa tanto mal aqueles que se opõem à coroa quanto aos seus entes queridos. Quem interpreta o Magalhães do título é o ator mexicano Gael García Bernal, que está bem no papel, apesar de esbarrar na fronteira entre o português e o espanhol em alguns momentos. 

Apesar da personagem ter sido considerada como um "herói" (e com muitas aspas!) por bons séculos na história portuguesa, aqui vemos um Magalhães pequeno que tenta desafiar as forças que o mundo externo põe sobre seus ombros, um homem com suas complexidades e dores, mas que também, à mando de quem serve, um homem crudelíssimo e paranoico. 

Fernão, aqui, não é só uma personagem, mas uma representação da ambição do projeto colonial. Um garimpeiro em busca de seu ouro, mesmo que às custas de uma população, com sua truculência política e espiritual. Um instrumento do estado e do papa. Um agente do genocídio. Por todo lado que passa, ele causa o pânico e a destruição.

Por outro lado, Diaz desvia a atenção de Magalhães para outras personagens que servem para contar esse capítulo da história, pessoas marginalizadas e povos que tiveram contato com a expedição, como Enrique (Amado Arjay Babon), um filipino escravizado que serve como o tradutor oficial de Magalhães durante a viagem, e Rajah Humabon (Ronnie Lazaro), o líder dos Mactan que, após os espanhóis forçarem seu poder e forçarem os nativos ao cristianismo, irá declarar guerra contra a armada de Fernão. 

Diaz compõe tableaux vivants assustadoramente lindos, demonstrando a beleza e a violência do mundo, tudo em cena é meticulosamente posto, em planos longos que dão o tempo do espectador paciente de absorver e devorar cada detalhe. O uso da fotografia e iluminação é um espetáculo à parte. E todo o trabalho de som do longa é interessantíssimo, ao produzir uma textura muito única e de focar nos sons da natureza que envolvem o espectador para dentro de seu mundo. É um orgasmo visual e auditivo: em um momento, você se sente relaxado com o som do mato ou da chuva; e no outro, você leva um susto com o som dos tiros dos canhões em alto mar. 

O realizador faz parte do movimento do slow cinema, em que realizadores fazem filmes mais lentos e/ou contemplativos. Se, dentro do cinema asiático, o diretor tailandês Apichatpong Weerathakul é o exemplo mais popular, Lav Diaz é o mais extremo: seus projetos tem fama de serem considerados alguns dos filmes mais longos da história com oito ou até dez horas de duração. Fernão de Magalhães (2025) tem somente duas horas e meia de duração, o que torna um de seus longas mais acessíveis ao público. 

No entanto, a impressão que passa é de um corte mais comercial, dado em vista que o filme foi selecionado para o Festival de Cannes deste ano e é o representante das Filipinas a uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026. A sensação que fica é, apesar de ter passado uma jornada inteira, ainda falta alguma coisa a mais. Talvez menos tempo na caravela e um pouco mais de tempo desenvolvendo o núcleo filipino no terceiro ato do filme? Talvez é provável Diaz trabalhe mesmo no corte de nove horas, citado durante sua passagem em Cannes, para algum momento no futuro, e, possivelmente, teremos as respostas. 

Mas o que temos agora é um épico sobre um homem que tenta impor sua glória que um dia, certamente, caíra por aqueles que tentaram oprimir. Uma obra de arte que precisa ser apreciada no seu próprio tempo e ritmo. Uma dissertação sobre o processo colonizatório: as veias abertas das Filipinas. Perfeito para ver num fim de tarde, acompanhado de um bom café.

*Esta crítica faz parte da cobertura do 27o Festival do Rio, realizado em 2025.

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Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

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