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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Socorro! - Ela sobreviveu ao sistema. Ele só sabia existir dentro dele.

Socorro! | Disney


Dois colegas ficam presos em uma ilha deserta após serem os únicos sobreviventes de um acidente de avião. Na ilha, eles precisam superar antigos ressentimentos e trabalhar juntos para sobreviver, mas, no fim, trata-se de uma inquietante batalha de vontades e perspicácia, marcada por humor ácido, para sair com vida.

A protagonista, Linda Liddle, é construída como a figura da competência invisível. Ela representa profissionais — especialmente mulheres — que seguem todas as regras do sistema corporativo, mas continuam presas a um teto simbólico feito de preconceito, estética, comportamento e expectativa social. Sua frustração não nasce de ambição vazia, mas da promessa quebrada de reconhecimento. O roteiro deixa claro que Linda não quer apenas subir de cargo; ela quer ser validada. 

Criticamente, porém, Linda não é uma heroína clássica. À medida que ganha autonomia, sua trajetória levanta uma questão incômoda: até que ponto a libertação pessoal justifica a perda de limites éticos? A Narrativa parece sugerir que anos de repressão produzem não apenas força, mas também ressentimento acumulado, e Linda passa a confundir sobrevivência com controle absoluto. Ela deixa de reagir ao sistema e passa a reproduzir sua lógica, ocupando apenas outro lugar nele. Linda é, portanto, uma personagem potente justamente por não ser confortável: expõe como o discurso de empoderamento pode se tornar distorcido quando não é acompanhado de responsabilidade moral. Sua transformação não é uma redenção — é uma advertência.

Bradley, por sua vez, encarna o privilégio herdado. Sua autoridade não é construída, mas entregue, o que o torna frágil fora das estruturas que o sustentam. Ele confunde liderança com comando, e respeito com medo ou obediência. No ambiente corporativo, isso funciona; fora dele, sua insegurança se expõe. Bradley, não é apenas um antagonista individual, mas um símbolo sistêmico: representa um tipo de poder que se mantém não por competência, mas por exclusão. Seu desprezo por Linda não nasce de uma crueldade consciente, mas de uma incapacidade profunda de enxergá-la como igual. Ainda assim, o longa evita torná-lo um vilão unidimensional. Bradley é patético, contraditório e, em certos momentos, desesperado por afeto e validação. Essa vulnerabilidade não o absolve, mas o humaniza, reforçando a crítica central: o privilégio não prepara para a perda, apenas para a negação dela.

A relação entre Linda e Bradley é apresentada como um conflito de poder imposto pelas circunstâncias, não como uma parceria genuína. Eles partem de uma hierarquia desigual: Bradley sustentado por autoridade herdada, Linda marcada pela competência desvalorizada. À medida que o contexto muda, essa estrutura se desloca, expondo a fragilidade do poder dele e o fortalecimento gradual dela. O vínculo nunca se baseia em confiança, mas em dependência e tensão, funcionando como um espelho das desigualdades que moldaram ambos. Não se trata de afeto, mas de inversão de quem controla e quem obedece.

O filme é dirigido por Sam Raimi, conhecido pela trilogia Homem-Aranha com Tobey Maguire e por A Morte do Demônio, obras que consolidaram seu estilo marcado por violência estilizada e humor ácido. Embora o início do filme pareça mais contido e distante dessa assinatura, essa abordagem funciona como preparação. Com o avanço da narrativa, a presença de Raimi se torna cada vez mais clara, e o tom inicial “enganoso” dá lugar a uma condução visceral e provocadora típica de seu cinema. 

Um exemplo marcante é a cena em que Linda mata um javali durante sua luta pela sobrevivência. Mais do que uma ação, esse momento representa uma virada na personagem: evidencia sua adaptação ao ambiente hostil e a ruptura definitiva com a vida que levava antes. A cena é intensa, sem glamourizar a violência, reforçando o caráter instintivo da sobrevivência. Ao mesmo tempo, sintetiza temas centrais do filme, como transformação, resistência e a construção de poder fora das estruturas sociais convencionais. É uma demonstração clara de como o filme comunica muito sobre Linda sem precisar dizer demais, deixando que a ação e a imagem falem por si.

Socorro! vai além da história de sobrevivência para explorar relações de poder e desigualdade. Colocando Linda e Bradley em um ambiente extremo, o filme revela a fragilidade do privilégio, o acúmulo de ressentimento e a transformação de quem precisa lutar para ser reconhecido. Sob a direção de Sam Raimi, a obra equilibra humor ácido, violência estilizada e tensão psicológica, mostrando que a verdadeira luta não é apenas contra o ambiente hostil, mas contra os conflitos internos e morais dos personagens. Linda se torna símbolo de autonomia complexa, enquanto Bradley representa um poder que nunca foi conquistado, reforçando a crítica social central do filme.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


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