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| A Herança | Ozualdo Candeias |
No inicio deste ano, li a obra “Hamlet” de William Shakespeare. Coincidentemente ou não, neste mesmo ano foi lançada a obra “Hamnet” de Chloe Zhao, cuja projeção colocou o filme na temporada de premiações. Este filme segundamente citado não é adaptação da obra primeiramente citada, mas a possui como um dos objetos centrais da trama.
Neste bolo todo de filme do Oscar e da
obra de Shakespeare fiquei sabendo da existência de “A Herança”, do brilhante
Ozualdo Candeias — diretor da perfeição “A Margem” — e lançado em 1970. A obra
que tem como objetivo trazer o Hamlet para o cenário brasileiro, mais para ser
especifico a cidade de Dumont (curiosamente, à aproximadamente 196 quilômetros
da cidade que vivo).
Sem muitas falas, apenas quatro, pelas
minhas contas, sendo destas apenas uma composta de mais de uma palavra: “to be
or not to be”, A Herança é mais um estudo em cima de Hamlet que uma releitura ou
uma adaptação direta. Ozualdo faz algo perto do que Neville fez em “Jardim de
Guerra”, um espaço onde animais estão comandando os outros, onde não se sabe
quem ou o que os controla, mas se tem noção de uma vontade maior que seus
próprios impulsos ou desejos.
Um cenário de Western, de fato, algo
como Ozualdo gostava de fazer, visto que este tinha o gênero como um de seus
favoritos. Ele filma o interior como se fosse, de fato, um cenário de Howard
Hawks ou de John Ford, mas pega na câmera como um verdadeiro cineasta moderno,
que busca subverter a relação entre o espaço e o plano.
Me chamou atenção a cena onde o pai de
Hamlet aparece a primeira vez ao garoto. A assombração não é como se fosse algo
de fato uma presença espiritual, ela atua mais como uma mancha na câmera, algo
que não deveria ser gravado, mas por ventura foi gravado. E, por curiosidade,
este fantasma parece falar mais que muitos personagens vivos. Neste momento me
veio à memória a interpretação dupla das ultimas palavras de Hamlet: “the rest
is silence”, que é traduzida como: “o resto é silencio”, mas que também pode
ser: “o descanso é silencio”, e como não há o descanso, não há o silencio,
portanto.
O cinema brasileiro nasceu do completo
silencio, onde as obras mudas como “Limite” de Mário Peixoto usavam o silencio
para causar esse barulho ensurdecedor. Mesmo que naquela época não fosse possível
haver o silencio absoluto, pois este era tão absoluto que deixava de existir.
Na chegada do som, se criou o que é de fato o silencio, como já era pontuado
por Robert Bresson. Mas o nosso cinema sempre foi pautado neste silencio, e
foram os outros cinemas que tiveram de buscar.
O cinema brasileiro está de olho no
silencio, e muitos cineastas de hoje em dia pautam o silencio como se fosse
apenas a ausência de diálogos, sendo que não é assim que funciona, jamais foi. A
nossa filosofia está além do céu e da terra, pois estas coisas são abjetas e inúteis.
Nossa filosofia é o resto, e o resto é silencio.
Autor:
Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.
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