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| Justiça Artificial | Amazon Prime |
Em um futuro próximo, um detetive (Chris Pratt) está sendo julgado, acusado de assassinar sua esposa. Ele tem 90 minutos para provar sua inocência à avançada justiça de Inteligência Artificial (Rebecca Ferguson) que ele mesmo ajudou a implementar, antes que ela determine seu destino.
A maior parte do filme se concentra na interação entre o protagonista Chris — personagem que, de forma interessante, compartilha o mesmo nome do ator que o interpreta — e a juíza Maddox. Abalado pelos acontecimentos recentes, Chris demonstra confusão e fragilidade emocional, sem conseguir compreender plenamente o que está acontecendo ao seu redor. Durante o diálogo entre os dois, são exibidas gravações do próprio protagonista, incluindo uma briga de bar da qual ele não se lembrava ter participado, além de registros de algumas de suas operações como detetive. Esse recurso narrativo fortalece o impacto psicológico da trama, aprofundando o conflito interno do personagem e instigando o espectador a questionar a confiabilidade de sua memória e identidade.
Sobre os vídeos no meio dos diálogos, interage com a estética do Found Footage ao construir sua narrativa por meio de câmeras corporais, recurso que confere maior proximidade e imersão à história. Essas câmeras não apenas funcionam como ferramentas de registro, mas também preservam a mesma sensação de imediatismo e realismo típica desse estilo, fazendo com que o espectador se sinta parte dos acontecimentos. Ao adotar esse ponto de vista, a obra intensifica a experiência sensorial e emocional, reforçando a tensão e a subjetividade do protagonista, além de contribuir para uma narrativa mais envolvente e verossímil.
Ao ampliar o escopo de seu mistério para além da pergunta do responsável pela morte da vítima, a produção se distancia das convenções mais tradicionais desse gênero e permite explorar camadas mais profundas do crime. Em vez de se limitar à resolução do enigma, a narrativa volta seu olhar para as motivações que impulsionam as ações dos personagens, relacionando-as diretamente ao contexto sociocultural em que estão inseridos. Esse deslocamento de foco faz com que a obra saia de sua própria zona de conforto, apostando em uma abordagem mais reflexiva e humana, na qual o crime deixa de ser apenas um evento isolado e passa a ser compreendido como resultado de tensões sociais, psicológicas e morais mais amplas. Dessa forma, o filme constrói um suspense que não se sustenta apenas na revelação final, mas no processo de investigação interna e coletiva que se desenrola ao longo da narrativa.
O filme propõe uma reflexão pertinente sobre o poder crescente da inteligência artificial e seus impactos éticos e sociais. Embora dialogue com um discurso contemporâneo que reconhece os riscos da IA nem sempre avança para a ação, a obra expõe a tensão entre consciência crítica e inércia prática. Ao mostrar como decisões complexas passam a ser delegadas a sistemas automatizados, O filme confronta o espectador com a erosão da responsabilidade humana e com a transferência deliberada da autonomia moral para sistemas tecnológicos que operam sem possibilidade de contestação efetiva. A inteligência artificial é apresentada como um agente institucional de poder que, embora não personificado como vilão, exerce controle direto sobre a vida dos indivíduos ao operar decisões irreversíveis sob a aparência de racionalidade. Ao assumir o papel de árbitra das decisões humanas, a inteligência artificial não apenas incorpora valores e vieses sociais, mas os consolida e legitima por meio de um sistema que transforma desigualdades históricas em sentenças automatizadas.
Justiça Artificial se destaca ao articular suspense, drama psicológico e reflexão social, utilizando a ficção científica como ferramenta para questionar dilemas contemporâneos. Ao deslocar o foco da simples resolução do crime para as motivações humanas e para o impacto das estruturas tecnológicas sobre a vida social, a narrativa constrói uma experiência envolvente e provocadora. O embate entre o protagonista e o sistema de inteligência artificial evidencia a assimetria de poder entre o indivíduo e uma estrutura tecnológica que se apresenta como infalível. expõe como a automação da justiça compromete a memória, fragmenta a identidade do sujeito e reduz a noção de justiça a um cálculo técnico desprovido de responsabilidade ética. Assim, a obra expõe os riscos de um modelo de sociedade que abdica do julgamento humano em favor de sistemas automatizados, revelando que a transferência da decisão não elimina a culpa, apenas a oculta sob a lógica do algoritmo.
Autor:
Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

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