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| O Testamento de Ann Lee (2025) | Searchlight Pictures |
Em "Berghain", single do álbum Lux, a cantora Rosalía canta, em uma mistura de alemão e espanhol, sobre a pequenez do ser diante de algo sobre o qual não tem controle: neste caso, em específico, o choque de cultura no icônico complexo clubber de Berlim que dá o nome da canção. Existe uma justaposição entre a tendência de ceder desconhecido entre música eletrônica, drogas e sexo e o medo quase infantil de seu eu-lírico na primeira metade da letra.
A boate Berghain é, além monumento da cultura noturna da cidade alemã, também é exclusiva, pois muitas pessoas que não são da "cena" tentam entrar, o que descaracteriza o seu aspecto underground e alternativo. Porém o que me chama a atenção é como a cantora, na segunda parte da música, parece estreitar a relação, quase opositora, entre religião e o profano: enquanto que a participação da cantora islandesa Björk reforça a ideia de uma experiência divina libertadora, os versos finais de Yves Tumor reforçam a ideia de que o sexo (portanto, a "pequena morte") é também uma experiência religiosa.
E por mais que sejam obras de artes diferentes, não pude parar de fazer a associação da canção de Rosalía e o mais novo projeto da realizadora Mona Fastvold, enquanto eu assistia ao Testamento de Ann Lee (2025); estrelado por Amanda Seyfried no papel-título. Aqui, Fastvold escreve o guião junto de seu parceiro na profissão (e na vida) Brady Corbet, de O Brutalista (2024); retomando, um dos temas do projeto anterior: a experiência da imigração de refugiados europeus aos Estados Unidos em busca de uma nova oportunidade. No longa de 24, o contexto era o pós Segunda Guerra Mundial e a emigração judaica, neste aqui é o período colonial norte-americano e a intolerância religiosa (no mundo anglófono).
No século XVIII, Ann Lee foi a líder uma religião minoritária chamados de Shakers, pelo seu hábito de cantarem louvores como meio para se conectarem com Deus. Como é mostrado na narrativa, Lee não foi a criadora dessa vertente religiosa, mas se tornou uma figura importante para o grupo e se proclamava como ora como a segunda vinda de Jesus Cristo na terra, ora como a esposa de Jesus. Após de várias perseguições com a comunidade local em Manchester, Inglaterra (Lee é presa e atacada várias vezes, por exemplo), ela e seus seguidores seguem para os Estados Unidos com um sonho de fundar uma comunidade que os aceitem como são. Com cantoria e tudo.
(A) Mona entende que boa parte da psique de Lee vem de um local de repressão sexual, causado tanto pelas instituições religiosas quanto pela violência sexual que as mulheres são passíveis de sofrer, o que causa, como efeito, a imposição do celibato para todos os praticantes Shakers como preceito; pois, na filosofia da personagem, é um ato impuro que contém a mácula do "pecado original" (Vale ressaltar que a Lee passa por quatro partos malsucedidos que aumenta sua percepção do sexo como algo vil; portanto, sexo é visto como uma prisão física e metafórica de uma sociedade machista). Porém, por mais irônico que seja, com a negação do sexo, Fastvold filma as sequencias musicais com um certo gosto quase orgástico, seja pela energia do coro de vozes ou seja pela composição do ambiente em que os praticantes fazem de uma suas cerimônias ao ar livre em meio a elementos fálicos da natureza. Existe um gosto particular da direção que transparece nas conduções das sequências, algo entre o jocoso, o empático e o brutal.
As canções em que os Shakers usam aqui partem de um elemento natural do que de um tema religioso, é algo primal: a fome, o tempo, a natureza. São letras que tem sua qualidade estética e são muito bem utilizadas pela direção de Fastvold, pela fotografia em 35mm de William Rexer e pelo trabalho do compositor Daniel Blumberg. Sem as pieguices fascistas-pentecostais que dominam o cenário da música. A sensação é de ouvir uma cantiga medieval sendo cantada por um coral acapella.
Porém, se os elementos musicais e visuais são os pontos fortes do longa, o roteiro é um de seus pontos fracos, pois existe uma discrepância entre a disposição entre ação e tempo que ocorre na maioria das cinebiografias que decidem contar a história de vida de uma personagem. Apesar de sua divisão de capítulos, nem sempre a passagem de tempo é uniforme, dependendo bastante da narração em off para situar o espectador no decorrer do filme. No entanto, a dupla Fastvold-Corbet parece ser mais econômico e assertivo em Ann Lee do que em Brutalista, o que demonstra uma evolução expressiva entre projetos. O potencial está ali. Talvez precisem refinar um pouco mais seus próximos roteiros.
E não tem como falar sobre O Testamento de Ann Lee sem falar um pouco sobre o trabalho de Amanda Seyfried no papel: existe uma grandeza para uma personagem um pouco polêmica e/ou controversa, na qual a atriz consegue pôr de coração e alma em sua performance. Se seus seguidores a chamam de "mãe" no filme, seus fãs chamam de "mãe" de volta. É um trabalho sensível e honesto que faz, ao mesmo tempo, o possível e o impossível em cena. Um trabalho de personagem complexo e vivaz, sem cair em trejeitos ou cacoetes que, às vezes, acometem uma performance. Quando Seyfried está em cena, o filme evolui junto com ela. Se não aparece, a obra desanda.
Apesar de uma recepção esnobada na temporada, Ann Lee tem o que é preciso para se tornar um clássico do cinema contemporâneo. Pelo menos, nos círculos certos. Vejam.
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

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