terça-feira, 17 de março de 2026

Pânico 7: Criativo, mas exausto

 

Pânico 7 | Paramount Pictures

O tão esperado sétimo filme da clássica saga Pânico teve sua estreia nesta quinta-feira (26/02). Neste capítulo, acompanhamos Sidney Prescott e sua família, onde sua filha mais velha torna-se o novo alvo de Ghostface. Dirigido pelo próprio autor dos filmes de Pânico, Kevin Williamson, a obra entrega diversos altos e baixos, gerando uma repercussão mediana a respeito das expectativas diante da qualidade do filme.

O início segue fiel à tradição da franquia: uma morte brutal de alguém fora da história principal. Desta vez, porém, o cenário inicial chama atenção por transformar a icônica casa do primeiro filme em um museu para amantes do terror e de casos criminais, algo que ocorre. É uma escolha que conversa diretamente com o passado da saga e reforça a natureza metalinguística que sempre caracterizou Pânico.

Seguindo adiante, acompanhamos Tatum, a filha adolescente de Sidney. Seu nome, inclusive, funciona como uma homenagem à melhor amiga de Sidney no primeiro filme, um gesto carinhoso não apenas por parte da Prescott, mas para os fãs mais antigos também. Assim como na cena inicial, o longa incorpora inúmeras referências aos capítulos anteriores, buscando resgatar memórias marcantes, símbolos e até dinâmicas narrativas que moldaram a franquia. Esse movimento, apesar de agradável para o público nostálgico, também revela um sintoma constante da produção nova: a dificuldade de seguir adiante com algo realmente inovado.

O que não pode ser negado é que Pânico 7 se propõe a elevar o nível de brutalidade. Boa parte das mortes são extremamente viscerais, gráficas e longas, apostando em um gore mais explícito do que o habitual. A primeira morte, em especial, é agonizante e violenta a ponto de causar desconforto, algo que pode funcionar para muitos dos espectadores e fãs, mas soar exagerado para outros. Há até uma morte específica que abraça completamente o tom trash, destoando do restante do filme e deixando a sensação de que a obra ensaia vários estilos sem se comprometer verdadeiramente com um.

O foco na família Prescott funciona bem, sobretudo porque desloca a narrativa para outro elenco, outro núcleo e outra história, permitindo que Sidney, por tantos anos vítima e sobrevivente, agora ocupe o papel de mãe que tenta proteger sua família dos ataques de Ghostface. Isso abre espaço para novos conflitos emocionais, ainda que a execução nem sempre seja tão profunda quanto poderia.

Outros personagens conhecidos também retornam, como Mindy e Chad, irmãos introduzidos no quinto filme. Aqui, eles têm participação limitada, mas simpática, atuando agora como assistentes de Gale Weathers em seu programa investigativo. É uma proposta pontual que não rouba muito a atenção do público, mas complementa um pouco o universo da franquia. 

Ao longo do filme, cresce a tensão em torno da possibilidade de Stu Macher estar vivo, teoria insistente entre os fãs há décadas desde o primeiro filme. Williamson claramente brinca com essa ideia, mantendo-a viva o suficiente para gerar expectativa. Contudo, no desfecho, a obra finalmente coloca um ponto final na especulação: Stu realmente morreu no primeiro filme. A revelação, embora talvez um pouco frustrante para uma parte do público, abre espaço para um comentário mais interessante.

E esse é um dos aspectos mais surpreendentes do longa: a crítica ao uso da inteligência artificial. Dentro da trama, os supostos "vídeos inéditos" e "ligações por chamada de vídeo" de Stu que circularam no cenário deste filme, teriam sido fabricados por inteligência artificial. O filme usa esse gancho para discutir como a tecnologia pode manipular narrativas, distorcer memórias e alimentar obsessões. É uma proposta inteligente, talvez a ideia mais fresca do roteiro, apesar de não ter sido muito bem vista por alguns espectadores.

Já a revelação dos Ghostfaces, embora um pouco inesperada em termos de identidade, decepciona pelo motivo. As motivações são rasas, pouco impactantes e não dialogam de maneira significativa com o restante do filme. É um vilão cuja razão de existir deixa muito a desejar.

A introdução e parte do desenvolvimento funcionam bem, mas o longa perde brilho na segunda metade. Do meio para o final, antes do clímax, a narrativa fica arrastada. A sensação é clara: a franquia já não sabe muito bem para onde ir. Apesar de algumas faíscas de criatividade, especialmente nas discussões tecnológicas e em algumas mortes, Pânico 7 evidencia que há pouco a ser explorado sem a necessidade de reciclar elementos dos filmes antecedentes.

No fim, o filme entrega entretenimento, nostalgia e mortes memoráveis, mas também confirma uma verdade incômoda: talvez essa seja uma saga que já deveria ter encontrado seu ponto final há muito tempo. A criatividade ainda pulsa em certos momentos, mas o desgaste é impossível de se ignorar.

Autor:

Bárbara Borges é do Rio de Janeiro e estudante de Jornalismo. Apaixonada por cinema desde criança, sempre foi movida por histórias intensas, especialmente as de terror, seu gênero favorito. Em 2024, dirigiu o documentário Além do Recinto, que levanta questionamentos sobre o bem-estar de animais silvestres em zoológicos e o impacto do confinamento longe de seus habitats naturais. Gosta de pensar no cinema como uma forma de provocar, sentir e transformar. Vive atualizando seu Letterboxd com comentários sinceros e, às vezes, emocionados. Entre seus filmes favoritos estão Laranja Mecânica, Psicopata Americano, Pânico, Pearl e Premonição 3.

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