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| Watchmen | Warner Bros. Pictures |
Alguém está matando nossos super-heróis. É o ano de 1985 e os super-heróis se aliaram para revidar ao assassinato de um deles. Logo descobrem um sinistro plano que coloca toda a humanidade em grave perigo. Ao lutar para impedir a iminente catástrofe, os super-heróis percebem que são o alvo da destruição. Mas se nossos super-heróis se forem, quem nos salvará?
Em um universo onde ser super-herói se tornou proibido, devido à chamada Lei Keene, o vigilantismo fantasiado passa a ser tratado como ilegal nos Estados Unidos. Durante décadas, desde os anos 1930, indivíduos mascarados assumiram para si o papel de combater o crime. No entanto, a ausência de controle institucional e o uso frequente da violência fizeram com que parte da sociedade começasse a questionar a legitimidade dessas ações. A criação da lei revela, portanto, um conflito entre a ideia de justiça individual e o monopólio da força pelo Estado. Ao proibir a atuação desses vigilantes, o governo busca restabelecer o controle sobre a aplicação da justiça, mas também levanta um debate: até que ponto a legalidade garante justiça? após a aprovação da lei, os antigos heróis foram forçados a escolher entre abandonar suas atividades, servir ao governo ou continuar atuando clandestinamente, o que evidencia como a tentativa de controlar o vigilantismo também transforma antigos símbolos de heroísmo em potenciais criminosos.
Rorschach é o único que continua em atividade mesmo após a proibição dos super-heróis. O personagem é complexo porque, embora combata o crime, utiliza métodos extremamente violentos e moralmente questionáveis, chegando a matar seus inimigos. Essa postura revela uma visão radical de justiça, na qual a punição se sobrepõe à legalidade. Ao descobrir a morte do Comediante, ele inicia uma investigação e alerta outros vigilantes sobre a possibilidade de existir um assassino de mascarados, o que reforça sua desconfiança constante em relação à sociedade.
Daniel Dreiberg, o Coruja II, é o sucessor de Hollis Mason, que atuou como Coruja na época dos Minutemen, grupo esse que veio antes dos Watchmen. Após a proibição dos super-heróis, Daniel passa a viver uma rotina comum, mas demonstra sentir um profundo vazio, como se sua identidade estivesse ligada à vida de vigilante que foi obrigado a abandonar. A nostalgia constante pelo passado revela não apenas saudade de tempos mais simples, mas também a dificuldade de encontrar propósito fora da figura do herói. Suas visitas a Hollis Mason reforçam esse sentimento, já que ouvir história da antiga era dos vigilantes funciona como uma forma de manter viva uma identidade que a lei tentou apagar.
Jonathan “Jon” Osterman, conhecido como Dr. Manhattan, continua em atividade mesmo após a proibição dos super-heróis, pois trabalha diretamente para o governo dos Estados Unidos. Após sofrer um acidente em um laboratório, o físico nuclear adquire a capacidade de observar e manipular a matéria no nível subatômico. O nome Dr. Manhattan faz referência ao seu enorme potencial destrutivo, comparável ao poder associado à era nuclear. À medida que explora a extensão de suas habilidades, Jon torna-se cada vez mais distante de sua antiga vida e de sua própria humanidade, o que contribui para um processo de desumanização. Além disso, o personagem demonstra cansaço em relação à Terra e à humanidade, devido a sua percepção radicalmente diferente da realidade. Após sua transformação, ele passa a experienciar o tempo de forma não linear e a compreender a vida simultaneamente em todos os momentos, o que o faz se sentir distante e desconectado das emoções humanas. Ele continua racional e lógico, mas os sentimentos, prioridades e preocupações humanas passam a parecer irrelevantes ou triviais para ele. Essa percepção ampliada também o faz sentir-se isolado, já que ninguém mais consegue enxergar o mundo da mesma maneira. Como resultado, ele busca se afastar do planeta, explorando novos lugares e experiências que estejam mais alinhados com sua visão da existência, em vez de se prender às limitações e conflitos da vida humana na Terra. No universo da história, sua existência altera o curso da Guerra do Vietnã (1955-1975), permitindo que os Estados Unidos vençam o conflito. Dessa forma, a narrativa apresenta uma realidade alternativa e levanta a reflexão sobre como o poder absoluto pode ser instrumentalizado politicamente em conflitos internacionais.
Edward Morgan “Eddie” Blake/Comediante é um personagem cuja ética está seriamente comprometida. Desde seus primeiros confrontos com aliados e inimigos, ele demonstra violência extrema e decisões moralmente questionáveis, muitas vezes atacando inocentes ou agindo por impulso. Sua justificativa de que “está protegendo as pessoas de si mesmas” revela um cinismo profundo, lembrando heróis distorcidos de histórias como The Boys, que usam o poder sem responsabilidade, apesar do comediante não ter poderes. Mesmo em grupos de vigilantes ou em missões de combate ao crime, Blake se destaca pela brutalidade e pela ironia, tratando a vida e a justiça como uma piada quando convém. Ele despreza convenções heróicas, age sem remorso e manipula situações para seu próprio benefício, deixando claro que sua moral é flexível e egoísta. No fim, Blake não é um herói clássico: suas ações refletem um lado sombrio, mostrando como a linha entre justiça e destruição pode se tornar indistinta quando o indivíduo escolhe seguir seus instintos em vez de princípios.
Adrian Veidt/Ozymandias abandonou a atuação como herói para se tornar um empresário extremamente influente. Reconhecido por sua inteligência excepcional, ele se destaca por analisar os acontecimentos mundiais — especialmente as tensões da Guerra Fria — de forma estratégica e distante, acreditando que grandes problemas da humanidade podem ser resolvidos por meio de planejamento e cálculo racional. No entanto, essa visão também revela um aspecto crítico do personagem: sua confiança na própria capacidade intelectual sugere uma postura elitista, na qual ele se coloca na posição de alguém capaz de decidir o que é melhor para o mundo. Assim, o personagem representa uma crítica à ideia de que indivíduos considerados “geniais” ou poderosos teriam legitimidade para concentrar decisões que afetam toda a humanidade, levantando questionamentos sobre os limites morais desse tipo de poder.
Laurie Blake/Silk Spectre II é uma personagem com um passado ligado ao heroísmo mas também marcado por vulnerabilidade emocional. Ela representa o elo humano entre os super-heróis e o mundo comum, sendo ao mesmo tempo alguém que carrega experiências traumáticas e uma busca por sentido em meio ao caos. Sua presença destaca a dimensão psicológica dos vigilantes: nem tudo é ação e combate; há relações, conflitos internos e dilemas éticos que moldam suas escolhas. A personagem é como um contraponto emocional e moral, mostrando como a vida de quem luta pelo bem não é simples ou glamourosa.
A adaptação para o cinema consegue ser relativamente fiel ao material original, mas perde parte da riqueza narrativa que torna a história em quadrinhos tão singular. Pois confere à profundidade e credibilidade literária, explorando como as ações dos heróis repercutem na vida de pessoas comuns, como o vendedor de jornais e seus clientes habituais. Esse cuidado com a perspectiva humana é pouco aproveitado no filme, que tende a priorizar a ação em detrimento da nuance. Personagens como Dan Dreiberg, o Coruja, exemplificam outra perda significativa na adaptação. No material original, sua insegurança e indecisão o tornam um vigilante mais humano e complexo, refletindo os dilemas morais de agir nas “áreas cinzentas” da justiça. No filme, essa vulnerabilidade é quase apagada, resultando em um personagem funcional, mas que não transmite a mesma densidade emocional que a obra original oferece. No conjunto, a adaptação cumpre seu papel como entretenimento visual, mas deixa de lado camadas essenciais de profundidade narrativa e psicológica que tornam a HQ uma obra literária admirável.
A cinematografia demonstra um uso muito consciente de atmosfera e composição visual para reforçar o tom narrativo. A iluminação é predominantemente baixa e fria, com tons esverdeados e amarelados que criam uma sensação de decadência urbana e tensão moral. Esse tipo de paleta cromática contribui para construir um ambiente quase claustrofóbico, sugerindo um mundo corrompido e pesado, o que dialoga diretamente com o universo moralmente ambíguo da história.
Watchmen - O Filme mostra que os super-heróis não são símbolos perfeitos de justiça, mas reflexos das contradições humanas. Em um mundo marcado por medo, poder e decisões difíceis, cada personagem revela como a linha entre salvar e destruir pode ser tênue. Assim, mais do que perguntar quem salvará o mundo, a narrativa nos leva a refletir sobre que tipo de humanidade estamos tentando preservar.
Autor:
Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

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