quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Isso ainda está de pé? - Quando a Vida é um Palco (e o Casamento Também)

Isso Ainda está de Pé? | Disney


O casamento de um casal é destruído enquanto ele persegue a comédia em Nova York e ela se reencontra. Juntos, aprendam a redefinir sua relação e dinâmica familiar em meio a grandes mudanças.

A trama é sobre o casal Alex e Tess Novak que após a separação, cada um inicia um processo de redescoberta pessoal. Ele mergulha no universo do stand-up, transformando experiências íntimas em material cômico, como por exemplo o fim de seu casamento. Enquanto ela retorna antigos sonhos e reconstrói sua identidade além do papel de esposa. No caminho, ambos enfrentam inseguranças, novos relacionamentos e os desafios de manter a parceria na criação dos filhos, mesmo já não sendo um casal. É nisso que a obra se destaca, por tratar o fim do casamento com sensibilidade e maturidade, explorando as nuances emocionais de duas pessoas que ainda compartilham laços profundos. Ao equilibrar humor e drama, a narrativa evita simplificações e oferece uma reflexão honesta sobre crescimento individual, corresponsabilidade parental e a possibilidade de redefinir o amor em novos moldes.

Alex utiliza o stand-up como uma forma de transformar o fim do casamento e outras frustrações pessoais em piadas, revelando como humor pode funcionar como um verdadeiro mecanismo de defesa. Ao subir no palco, ele reorganiza suas dores em narrativas engraçadas, o que lhe permite certo controle sobre experiências que, fora dali, parecem difíceis de enfrentar. Nesse sentido, o riso não elimina o sofrimento, mas o torna mais suportável. Essa postura reflete algo bastante comum: muitas pessoas recorrem à ironia e ao auto deboche para suavizar situações dolorosas. Rir de si mesmo pode ser uma maneira de antecipar o julgamento alheio ou de mascarar vulnerabilidades, criando uma espécie de proteção emocional. No caso de Alex, a comédia funciona simultaneamente como catarse e como escudo — ao mesmo tempo em que ele expõe suas fragilidades ao público, também as filtra por meio do humor, evitando um confronto direto com a própria tristeza.

Tess é retratada como uma mulher que, diante do fim do casamento, inicia um processo de redescoberta pessoal. Ao retomar antigos interesses e investir em seus próprios objetivos, ela passa a reconstruir sua identidade de forma mais autônoma, buscando equilíbrio entre a vida profissional, a maternidade e seus desejos individuais. Sua trajetória evidencia as inseguranças e desafios que acompanham grandes mudanças, mas também revela determinação e amadurecimento. A personagem se destaca por ser construída com profundidade e realismo, fugindo de rótulos simplistas. Tess representa a complexidade de quem precisa se reinventar sem perder de vista suas responsabilidades e afetos. A narrativa valoriza sua força emocional e sua capacidade de crescimento, oferecendo uma visão sensível sobre independência, autoconhecimento e a importância de manter a própria individualidade mesmo em meio às transformações da vida adulta.

Os filhos do casal ensaiam a música Under Pressure para o show de talentos, e essa música combina com a trama porque fala sobre as tensões e expectativas que pesam sobre as pessoas, especialmente dentro dos relacionamentos. A ideia de que a pressão afeta ambos (pressing down on you, pressing down on me) dialoga com a dinâmica do casal, mostrando que os conflitos são compartilhados, não individuais. Ao mesmo tempo, a música destaca a importância do amor e da empatia como resposta às dificuldades. Assim, ela reforça o tema central da história: enfrentar os desafios da vida adulta e das relações sob pressão, aprendendo a lidar com eles de forma mais consciente e humana.

No longa, a câmera é muito próxima dos atores para que o público sentisse de perto as emoções dos personagens, sem a sensação de distância ou segurança que cenas filmadas de longe podem criar. Essa escolha permite que cada expressão, gesto e olhar do casal, se torne mais intenso e significativo, aproximando o espectador de suas alegrias, frustrações e tensões. Para que a experiência refletisse o que é estar dentro do mundo desses personagens, desde a pressão e nervosismo de subir no palco em apresentações de stand-up até os momentos delicados das conversas entre o casal. Essa proximidade faz com que o público vivencia junto os conflitos e dilemas do relacionamento, tornando a narrativa mais envolvente e emocionalmente impactante. Essa decisão estética demonstra como a proximidade visual pode ser usada para aprofundar a conexão emocional e a compreensão das complexidades do relacionamento, mostrando que a vulnerabilidade dos personagens é o verdadeiro motor da narrativa.

Isso Ainda Está de Pé? constrói um retrato sensível e contemporâneo sobre o fim de um casamento e os caminhos possíveis após a ruptura. Ao acompanhar Alex e Tess em seus processos individuais de amadurecimento, a narrativa mostra que separações não precisam ser tratadas apenas como fracasso, mas também como oportunidades de autoconhecimento e transformação. O humor, no caso de Alex, e a redescoberta pessoal, no caso da Tess, revelam formas distintas — porém igualmente legítimas — de lidar com a dor e com as mudanças. 

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

A Herança - Para Além de Hamlet

A Herança | Ozualdo Candeias


No inicio deste ano, li a obra “Hamlet” de William Shakespeare. Coincidentemente ou não, neste mesmo ano foi lançada a obra “Hamnet” de Chloe Zhao, cuja projeção colocou o filme na temporada de premiações. Este filme segundamente citado não é adaptação da obra primeiramente citada, mas a possui como um dos objetos centrais da trama.

Neste bolo todo de filme do Oscar e da obra de Shakespeare fiquei sabendo da existência de “A Herança”, do brilhante Ozualdo Candeias — diretor da perfeição “A Margem” — e lançado em 1970. A obra que tem como objetivo trazer o Hamlet para o cenário brasileiro, mais para ser especifico a cidade de Dumont (curiosamente, à aproximadamente 196 quilômetros da cidade que vivo).

Sem muitas falas, apenas quatro, pelas minhas contas, sendo destas apenas uma composta de mais de uma palavra: “to be or not to be”, A Herança é mais um estudo em cima de Hamlet que uma releitura ou uma adaptação direta. Ozualdo faz algo perto do que Neville fez em “Jardim de Guerra”, um espaço onde animais estão comandando os outros, onde não se sabe quem ou o que os controla, mas se tem noção de uma vontade maior que seus próprios impulsos ou desejos.

Um cenário de Western, de fato, algo como Ozualdo gostava de fazer, visto que este tinha o gênero como um de seus favoritos. Ele filma o interior como se fosse, de fato, um cenário de Howard Hawks ou de John Ford, mas pega na câmera como um verdadeiro cineasta moderno, que busca subverter a relação entre o espaço e o plano.

Me chamou atenção a cena onde o pai de Hamlet aparece a primeira vez ao garoto. A assombração não é como se fosse algo de fato uma presença espiritual, ela atua mais como uma mancha na câmera, algo que não deveria ser gravado, mas por ventura foi gravado. E, por curiosidade, este fantasma parece falar mais que muitos personagens vivos. Neste momento me veio à memória a interpretação dupla das ultimas palavras de Hamlet: “the rest is silence”, que é traduzida como: “o resto é silencio”, mas que também pode ser: “o descanso é silencio”, e como não há o descanso, não há o silencio, portanto.

O cinema brasileiro nasceu do completo silencio, onde as obras mudas como “Limite” de Mário Peixoto usavam o silencio para causar esse barulho ensurdecedor. Mesmo que naquela época não fosse possível haver o silencio absoluto, pois este era tão absoluto que deixava de existir. Na chegada do som, se criou o que é de fato o silencio, como já era pontuado por Robert Bresson. Mas o nosso cinema sempre foi pautado neste silencio, e foram os outros cinemas que tiveram de buscar.

O cinema brasileiro está de olho no silencio, e muitos cineastas de hoje em dia pautam o silencio como se fosse apenas a ausência de diálogos, sendo que não é assim que funciona, jamais foi. A nossa filosofia está além do céu e da terra, pois estas coisas são abjetas e inúteis. Nossa filosofia é o resto, e o resto é silencio.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

Justiça Artificial - O dia em que terceirizamos a ética para um algoritmo

Justiça Artificial | Amazon Prime


Em um futuro próximo, um detetive (Chris Pratt) está sendo julgado, acusado de assassinar sua esposa. Ele tem 90 minutos para provar sua inocência à avançada justiça de Inteligência Artificial (Rebecca Ferguson) que ele mesmo ajudou a implementar, antes que ela determine seu destino.

A maior parte do filme se concentra na interação entre o protagonista Chris — personagem que, de forma interessante, compartilha o mesmo nome do ator que o interpreta — e a juíza Maddox. Abalado pelos acontecimentos recentes, Chris demonstra confusão e fragilidade emocional, sem conseguir compreender plenamente o que está acontecendo ao seu redor. Durante o diálogo entre os dois, são exibidas gravações do próprio protagonista, incluindo uma briga de bar da qual ele não se lembrava ter participado, além de registros de algumas de suas operações como detetive. Esse recurso narrativo fortalece o impacto psicológico da trama, aprofundando o conflito interno do personagem e instigando o espectador a questionar a confiabilidade de sua memória e identidade.

Sobre os vídeos no meio dos diálogos, interage com a estética do Found Footage ao construir sua narrativa por meio de câmeras corporais, recurso que confere maior proximidade e imersão à história. Essas câmeras não apenas funcionam como ferramentas de registro, mas também preservam a mesma sensação de imediatismo e realismo típica desse estilo, fazendo com que o espectador se sinta parte dos acontecimentos. Ao adotar esse ponto de vista, a obra intensifica a experiência sensorial e emocional, reforçando a tensão e a subjetividade do protagonista, além de contribuir para uma narrativa mais envolvente e verossímil.

Ao ampliar o escopo de seu mistério para além da pergunta do responsável pela morte da vítima, a produção se distancia das convenções mais tradicionais desse gênero e permite explorar camadas mais profundas do crime. Em vez de se limitar à resolução do enigma, a narrativa volta seu olhar para as motivações que impulsionam as ações dos personagens, relacionando-as diretamente ao contexto sociocultural em que estão inseridos. Esse deslocamento de foco faz com que a obra saia de sua própria zona de conforto, apostando em uma abordagem mais reflexiva e humana, na qual o crime deixa de ser apenas um evento isolado e passa a ser compreendido como resultado de tensões sociais, psicológicas e morais mais amplas. Dessa forma, o filme constrói um suspense que não se sustenta apenas na revelação final, mas no processo de investigação interna e coletiva que se desenrola ao longo da narrativa.

O filme propõe uma reflexão pertinente sobre o poder crescente da inteligência artificial e seus impactos éticos e sociais. Embora dialogue com um discurso contemporâneo que reconhece os riscos da IA nem sempre avança para a ação, a obra expõe a tensão entre consciência crítica e inércia prática. Ao mostrar como decisões complexas passam a ser delegadas a sistemas automatizados, O filme confronta o espectador com a erosão da responsabilidade humana e com a transferência deliberada da autonomia moral para sistemas tecnológicos que operam sem possibilidade de contestação efetiva. A inteligência artificial é apresentada como um agente institucional de poder que, embora não personificado como vilão, exerce controle direto sobre a vida dos indivíduos ao operar decisões irreversíveis sob a aparência de racionalidade. Ao assumir o papel de árbitra das decisões humanas, a inteligência artificial não apenas incorpora valores e vieses sociais, mas os consolida e legitima por meio de um sistema que transforma desigualdades históricas em sentenças automatizadas.

Justiça Artificial se destaca ao articular suspense, drama psicológico e reflexão social, utilizando a ficção científica como ferramenta para questionar dilemas contemporâneos. Ao deslocar o foco da simples resolução do crime para as motivações humanas e para o impacto das estruturas tecnológicas sobre a vida social, a narrativa constrói uma experiência envolvente e provocadora. O embate entre o protagonista e o sistema de inteligência artificial evidencia a assimetria de poder entre o indivíduo e uma estrutura tecnológica que se apresenta como infalível. expõe como a automação da justiça compromete a memória, fragmenta a identidade do sujeito e reduz a noção de justiça a um cálculo técnico desprovido de responsabilidade ética. Assim, a obra expõe os riscos de um modelo de sociedade que abdica do julgamento humano em favor de sistemas automatizados, revelando que a transferência da decisão não elimina a culpa, apenas a oculta sob a lógica do algoritmo.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Emerald Fennell Sequestra e 'Parodia' Emily Brontë em "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)


"O Morro dos Ventos Uivantes" (2026) | Warner Bros.

 "I was thinking, 'What is this place?'
I thought it would be perfect
I thought, 'I want it to be perfect'
Please, let it be perfect
Am I living in another world? Another world I created
For what?
If it's beauty, do you see beauty?
If there's beauty, say it's enough
I think I'm gonna die in this house..."
(House - Charli XCX e John Cale)

O Morro dos Ventos Uivantes (1847) é o fantasma que Emily Brontë deixou ao mundo, um conto visceral sobre como a sociedade inglesa é capaz de ser cruel, criar traumas e monstros. O pano de fundo é a relação caótica entre Catherine Earnshaw e Heathcliff, que atravessa gerações, e seu amor, rejeitado e não consumado, que destrói tudo ao seu redor.  Existe uma grande tradição no cinema de adaptar a narrativa de Brontë para o cinema desde 1920, com a versão de William Wyler de 1939, estrelada por Merle Oberon e Laurence Oliver, como a planta baixa para possíveis recepções futuras. 

Friso bastante a versão clássica hollywoodiana, pois penso que faz parte dentro do imaginário da diretora inglesa Emerald Fennell, de Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), que assina a direção do adaptação de 2026. Em ambas as obras, o cerne central é a evolução (e também destruição) da relação entre os dois protagonistas, desde a infância até a fase adulta. Quando Cathy, ao aceitar a mão de um vizinho de terra, rejeita, automaticamente, o amor de Heathcliff, mesmo amando-o, por temer uma vida degradada na sociedade. Como vingança, o jovem some da vida da moça para depois voltar rico e arruinar seu casamento com Edgar Linton; inclusive usando e casando com sua cunhada, Isabella, para atiçá-la. Porém, a versão de Fennell se agarra ao nível superficial da narrativa e, por consequência, em detrimento aos níveis profundos desse conto, que revelam o lado selvagem e "nada civis" das personagens.  

 Nenhum personagem existe sem um contexto ou uma história que a molda. Se Heathcliff é uma personagem trágica, um órfão que é acolhido pela família Earnshaw para depois ser maltratado e humilhado quase que diariamente pelos membros da casa. Seu escapismo é o amor que sente por Catherine, mas a linha entre amor e ódio começa a ficar tênue quando ambos se separam. Fennell trata a obra base de Brontë muito mais como romance do que drama, suavizando toda a jornada da personagem interpretada por Jacob Elordi. O que diminui todo o discurso da obra clássica. O anti-herói é visto como um selvagem daquele ambiente, porém, ao deter um poder financeiro enquanto adulto, ele é percebido como alguém a ser temido, construindo assim uma tensão naquela sociedade.

Se, por exemplo, na adaptação de Luis Buñuel, Abismos de Pasión (1954), Heathcliff/Alejandro é uma figura hostilizada e, ao mesmo tempo hostil, capaz de seguir e/ou de ser atraído por Cathy/Catalina até os confins da morte, dentro uma atmosfera gótica; já a diretora Andrea Arnold traz um olhar mais realista em sua adaptação de 2011 em que Heathcliff sofre não só por questão de classe, mas também por racismo da sociedade, como sugerido no romance de Brontë. Sem falar na formidável adaptação japonesa Arashi ga oka, dirigida por Yoshishige Yoshida, de 1988, que transpõe a narrativa para o Japão Feudal, sem abrir a mão dos temas e caraterísticas da obra de partida: o sistema de classes, a paixão, a crueldade, o psicológico e o macabro, por exemplo. Trago os contrapontos anteriores aqui para ilustrar uma drástica mudança no tratamento do livro clássico nas mãos de Fennell. 

Sobre o projeto tradutório: como o título, com as aspas, desta nova versão sugere, não é uma adaptação, mas uma "adaptação". E em entrevistas, ela já mandou a real. De acordo com a mesma, não é uma tradução direta ao livro, mas sim uma recriação da leitura que tinha feito quando adolescente. Ou seja, seu projeto de adaptação é bastante pessoal e contaminado por influências abertamente externas ao livro. A realizadora apropria os elementos narrativos básicos de Brontë e cria sua própria versão, sem qualquer relação de fidelidade estreita com a obra base. Para alguns, ela acaba realizando uma adaptação livre, para outros, uma fanfic erótica de banca de jornal que beira ao kitsch. Como espectador e pesquisador sobre recepção, adaptação e tradução, fico entre essas duas opções; pois uma coisa não exclui automaticamente a outra. 

A filmografia de Fennell é composta de obras que tentam escancarar as relações de gênero e de classe social, por meio meio de uma vertente vulgar, seja por uma tentativa de sexploitation ou seja pelo suspense erótico. Porém, uma crítica válida que lhe feita em cada obra que a diretora lança ao mundo parece ser constante: é belo, mas tem substância? Não só o caso se repete aqui, mas também é o grande triunfo e maldição deste filme.  

O que a realizadora tem de bom olho, também possui de mal gosto. Muito dos diálogos originais de Brontë não encontram a força que outrora tinham, parecendo falas vazias do que sentimentos complexos e, até, contraditórios. Quando Cathy, em determinado ponto da trama, confessa que: "ele se parece comigo, mais do que eu mesma. Do que será que são feitas nossas almas, elas são iguais... Eu sou Heathcliff!" É um momento importante para a narrativa, pois nós como espectadores entendemos a linha de raciocínio impulsiva de Earnshaw e seus verdadeiros sentimentos. No entanto, com uma base superficial e a mistura das falas clássicas com os pobres diálogos "emeraldianos'', tiram a intensidade dramática e deixam cenas importantes com um ar de mediocridade. 

A direção de Fennell é justamente juvenil no encadeamentos das ações e na construção das personagens: a Catherine de Margot Robbie é visivelmente mais velha do que no livro, já que, de acordo com seu pai, "passou da idade de se esposar", ou seja, por volta dos 25 anos (E, de súbito, me lembrei da frase viral de Orgulho e Preconceito de 2005: "Eu tenho 27 anos, não tenho dinheiro, nem prospectos de vida, sou um fardo para meus pais e... estou com medo"), mas que ainda se comporta como uma adolescente tola e mimada de 16 anos, e é reprimida sexualmente. Enquanto isso, o Heathcliff de Jacob Elordi é tratado como um "pau pra toda obra" bruto, mas carinhoso; retirando-lhe toda a complexidade e amargura que iria configurar seu desenvolvimento em um homem cruel. Com isso, torna-se fácil para Fennell desenhar Cathy dentro de suas sensibilidades enquanto mulher branca, e Heathcliff como um herói erótico, cuja face de Elordi evoca as feições de Sir Olivier da adaptação de 1939. 

Porém, a mais insensata, e talvez cretina, abordagem feita pela diretora seja da questão racial, em que as injustiças que Heathcliff sofre no romance (uma vez que ele é sugerido por Brontë como um "cigano" e de "pele escura"), são passadas para uma outra personagem: Nelly Dean (Hong Chau), uma mulher sino britânica, filha bastarda de um lorde que é acolhida pela família Earnshaw como a dama de companhia de Cathy. Enquanto para Heathcliff, ela o trata como se fosse um bicho de estimação com doçura e petulância, para Nelly, Cathy é cruel e rasteira, mandando-a sempre a não sair do seu papel subalterno. E, portanto, Nelly acaba se tornando, sutilmente ou não, cruel, ao desejar e fazer de tudo para acabar com o relacionamento entre os dois protagonistas, que são tratados como dois coitados. Dessa forma, Fennell não consegue abordar de forma interessante as relações raciais dentro de um contexto (em teoria) do final do século XVIII, calcando-se de uma tamanha superficialidade irresponsável.  

Se, então, o "Morro dos Ventos Uivantes" (2026) é uma adaptação pífia e vazia, por que deveríamos ir ao cinema assistir? A resposta é tão simples e básica quanto o filme: porque é puramente divertido. Emerald Fennell prova que não entende as dimensões temáticas de Brontë, para além do relacionamento central, mas consegue fabricar espetáculos visuais, brincando entre o "chique" e o tacanho, e de um humor esdruxulamente sexual. Existe um prazer involuntário em assistir aos exageros e ao analfabetismo temático da diretora, algo que me parece autoconsciente à ela, pois conhece suas limitações e gosta de brincar com a expectativa do público. Um acordo que é feito entre artista e o público, de dominação e submissão: ela tem o chicote, mas o golpe é mais prazeroso do que doloroso. É a mesma sensação de assistir de uma paródia.

É um filme muito jovem, com uma abordagem temática muito adulta. A combinação entre algo fantasioso e tara, exalta a visão maximalista da obra. Para um público mais velho, é um estilo kitsch ou, mesmo, camp bastante assumido desde a primeira cena em que vemos uma cena de execução em praça pública com conotações mórbidas e eróticas.  Parece exagero, mas é para já ilustrar qual será o tom do filme; o do espetáculo, pão & circo, o da magia e o da rejeição de um realismo. 

A lindíssima fotografia de Linus Sandgren evoca filmes clássicos em tecnicolor como E o vento levou... (1939), filmado em um luxuoso Vistavision com cores fortes e pungentes que conversam com o design de produção de Susie Davis - que invoca Cocteau, Coppola, Jarman e, possivelmente, Waters, ao mesmo tempo - e o figurino de Jacqueline Durran: dramáticos e logisticamente incompreensíveis como uma nightgown transparente como se fosse um papel celofane, e saias vermelhas que parecem ser feitas com couro falso (vulgo plástico), mas ajuda a demarcar a jornada e o sentimento das personagens. Além disso, a trilha sonora de Anthony Willis e as canções de Charli XCX são peças complementares entre si e ajudam a elevar o material de Fennell. 

Já para o público jovem (isto é, adolescente que nunca viram nenhuma adaptação ou leram o livro), bastará somente a trama principal; uma vez que Robbie e Elordi, mesmo inapropriados para seus papéis, são bons atores e, pasmem!, eles tem química em cena; e conseguem vender o roteiro caótico e a direção de Fennell ao público. A disputa moral que existe entre os dois na segunda metade se torna uma forma de preliminar cruel para satisfazer seus desejos, uma "brincadeira boba e deliciosa". A dor se torna pura diversão, um motivo de gozo e riso. 

Um exemplo disso é Isabella Linton (Alison Oliver): no romance de Brontë, é uma moça ingênua e, para irritar Cathy, caí em um relacionamento abusivo com Heathcliff; já no filme, é uma personagem codificada anacronicamente como uma jovem CDF (já que nerd é uma palavra muito moderna neste caso), precoce e sexualmente não realizada. Sua relação com Heathcliff é por interesse e puramente sexual, no qual ela se submete, com certo prazer e pouco amor próprio, a uma relação sadomasoquista no decorrer da narrativa. É uma leitura tão exagerada da personagem, mas que retratada com tanta convicção numa performance que acredita (e confia) na visão da diretora, é impossível desviar o olhar, tocando, ao mesmo tempo, na sensibilidade do público feminino e gay, que com certeza irá devorar este filme e a personagem. 

Porém, todo esse apoio no exagero estético e tonal do filme, acaba por prejudicá-lo quando Fennell precisa virar a chave para o dramático e o convencional (o que pode prejudicar e/ou frustrar parte do público treinado para esperar uma grande virada no meio da estória). A diretora flerta com trabalhos de cineastas como Sofia Coppola e Radley Metzger, em Maria Antonieta (2006) e Camille 2000 (1969) respectivamente, me vêm a mente por exemplo, na tentativa de vender estética e transgressão sexual, porém a visão da diretora ainda falta um refinamento das intenções; pois sua ideia da palavra transgressora está mais para uma "transgressão". Após um bom momento de reflexão e de ironia, Saltburn me parece uma adaptação livre mais bem-sucedida, uma vez que os paralelos entre Fennell e Brontë são melhores estabelecidos, do que esta "nova" versão.

De Brontë, "O Morro dos Ventos Uivantes" só tem o título, pois, em sua forma final, a leitura da realizadora se divorcia demasiadamente da obra em que é baseada, mesmo que haja uma intenção de adaptação, mas sem uma sólida base original. Apesar das falhas e dos tropeços (e depois de matar muitos fãs puristas da obra original de desgosto ou do coração) que ocorrem neste projeto, talvez Emerald Fennell fez, ironicamente ou não, a sua maior transgressão de todas: uma adaptação camp de Emily Brontë. Se será um clássico do gênero, resta ao tempo dizer. 

Agora só resta dar stream no álbum "Wuthering Heights". 

* A cabine de imprensa foi realizada na sala IMAX do UCI New York City Center, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. 

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

A Sapatona Galáctica - Princesa lésbica em apuros cósmicos

A Sapatona Galáctica | Umbrella Entertainment 

A introvertida Princesa Saira, filha das extravagantes rainhas lésbicas do planeta Clitópolis, fica devastada quando sua namorada, a caçadora de recompensas Kiki, de repente termina com ela por a achar muito carente. Quando Kiki é sequestrada pelos Maliens Brancos e Heterossexuais – incels esquecidos do futuro – Saira precisa deixar o conforto do espaço gay para entregar o resgate solicitado: seu Royal Labrys, a arma mais poderosa da comunidade lésbica. O único problema é... Saira não a tem! E conta apenas com 24 horas para tentar salvar Kiki.

A animação não apenas apresenta representatividade queer, como também estabelece como tema central da história. Ela está integrada à própria estrutura da narrativa, ao conflito central e ao desenvolvimento da protagonista. Ou seja, não é algo que poderia ser facilmente substituído sem alterar profundamente o sentido da obra.

Primeiro, a identidade de Saira como lésbica não é apenas característica isolada — ela molda o mundo em que vive (Clitópolis), as expectativas impostas por suas mães, a simbologia do labrys e até mesmo o conflito com os Straight White Maliens. O labrys, por exemplo, não é apenas uma arma mágica; ele simboliza pertencimento, autoestima e conexão com uma herança cultural lésbica. A dificuldade de Saira em invocá-lo não é só um obstáculo de fantasia, mas uma metáfora sobre insegurança, auto aceitação e pressão interna dentro da própria comunidade.

Além disso, os relacionamentos entre mulheres não aparecem apenas como romance secundário: eles impulsionam a ação. O término com Kiki desencadeia a jornada. A breve relação com Willow contribui para o amadurecimento emocional da protagonista. A recusa de Kiki em reatar é um ponto crucial para a crise final de Saira. Ou seja, as relações LGBT são motor narrativo, não enfeite.

Outro ponto relevante é que a obra trabalha a diversidade dentro da comunidade: há personagens com diferentes personalidades, falhas, desejos e contradições. Isso evita a armadilha de criar personagens “perfeitos” apenas para cumprir cota simbólica. Há conflitos, egoísmo, vulnerabilidade — humanidade real. Essa complexidade é o que transforma representatividade em profundidade narrativa.

Permitindo que públicos LGBT se vejam em papéis de protagonismo épico, heróico e fantástico — algo historicamente negado ou limitado a estereótipos trágicos. Ao mesmo tempo, convidam públicos mais amplos a enxergar essas vivências como universais: insegurança, amor não correspondido, amadurecimento e autodescoberta são temas humanos, independentemente da orientação sexual. 

Quanto aos setores conservadores que poderiam boicotar uma obra assim, geralmente a crítica parte da ideia de que a presença LGBT seria “ideológica” ou “forçada”. No entanto, toda narrativa carrega valores — inclusive as heteronormativas, que por muito tempo foram tratadas como padrão neutro. O incômodo muitas vezes surge não pela existência de conteúdo político, mas pelo deslocamento do centro tradicional de protagonismo.

Boicotes conservadores costumam se basear na percepção de ameaça cultural: medo de que novas narrativas alterem normas sociais estabelecidas. Porém, a pluralidade de histórias não elimina outras perspectivas — apenas amplia o repertório cultural. A arte sempre refletiu transformações sociais, e a inclusão de personagens LGBT como protagonistas é parte desse movimento histórico. 

Quando a representatividade é orgânica à trama, ela deixa de ser um rótulo e passa a ser fundamento narrativo. Não se trata apenas de “estar presente”, mas de estruturar significado, conflito e crescimento a partir dessa vivência.  É isso que diferencia a inclusão superficial de construção artística consistente.

Apesar de muitos elogios à criatividade do universo, ao humor satírico e à força simbólica da representatividade, é possível reconhecer que a narrativa apresenta momentos em que o ritmo da jornada se torna um pouco massante. Em determinados trechos da aventura espacial, a progressão dramática desacelera. Algumas sequências prolongam conflitos emocionais ou investem repetidamente nas mesmas inseguranças da protagonista, o que, embora coerente com o arco de auto descoberta, pode gerar sensação de repetição. A intenção é aprofundar o desenvolvimento interno, mas o equilíbrio entre introspecção e avanço da trama nem sempre se mantém fluido.

A animação é em 2D. O Estilo visual, caracterizados pelos chamados noodles arms (braços finos e flexíveis), que dialoga com traços de séries como Hora de Aventura, que foi uma de suas inspirações, apesar de que para mim lembra mais Midnight Gospel pelo traço mais simples e em Rick e Morty. A estética resultante é leve, lúdica e, ao mesmo tempo, muito expressiva: cada gesto, cada exagero corporal transmite emoção, personalidade e até nuances de humor que complementam a narrativa.

O design dos personagens é intencionalmente exagerado, quase caricatural, com proporções distorcidas que reforçam tanto o humor quanto a teatralidade do mundo que eles habitam. As cores são vibrantes, saturadas e muitas vezes simbólicas, destacando a identidade queer do universo e criando contrastes que reforçam estados emocionais e momentos dramáticos. Cenários, naves e planetas seguem a mesma lógica visual: são imaginativos e cheios de detalhes divertidos, misturando elementos futuristas, retrô e referências pop, criando um espaço onde a fantasia e a cultura queer coexistem de forma orgânica. Mesmo com o humor extravagante e situações absurdas, o estilo visual não é apenas decorativo: ele funciona como extensão da narrativa, transmitindo sentimentos, tensões e personalidade dos personagens, e transformando o mundo da animação em algo reconhecível, vibrante e único. A soma de traços simples, movimento fluido e cores intensas cria um ritmo visual que mantém o espectador envolvido, tornando a experiência divertida, emocional e memorável.

Sapatona Galáctica combina humor exagerado, aventura e uma estética vibrante com uma representatividade queer integrada à trama. Mesmo com alguns momentos de ritmo mais lento, a narrativa explora temas universais como autodescoberta, amor-própria e pertencimento, tornando a experiência divertida, emocional e significativa. A animação celebra a diversidade e a criatividade, mostrando que histórias protagonizadas por pessoas LGBTQIAPN+ podem ser épicas, cativantes e universais.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Primata - Esqueça o Jason: agora quem te persegue é um primata enfurecido

O Primata | Paramount Pictures


Uma estudante universitária e seus amigos se veem em uma luta por suas vidas quando um chimpanzé raivoso inicia um frenesi de violência.


O responsável pelas mortes não é um assassino mascarado nem uma assombração, como o filme inicialmente sugere, mas sim um chimpanzé infectado pelo vírus da raiva. Ao contrair a doença, o animal desenvolve hidrofobia e passa a apresentar um comportamento extremamente agressivo, atacando qualquer pessoa que esteja em seu caminho. Essa escolha narrativa é um ponto interessante, pois aposta em uma ameaça mais realista e perturbadora. Ao utilizar uma condição biológica como motor do horror, o filme provoca o espectador a refletir sobre os limites entre o instinto animal, a negligência humana e as consequências da interferência do homem na natureza. A proposta se destaca por trazer uma explicação plausível para a violência apresentada, o que torna a experiência mais tensa e inquietante.


Ao reunir um grupo de jovens em um local isolado, o filme constrói um cenário propício para o horror, explorando o confinamento e a sensação de vulnerabilidade dos personagens. O roteiro sabe dosar bem os momentos de calmaria e de ameaça, fazendo com que o perigo se aproxime de maneira gradual, o que aumenta o impacto dos acontecimentos. A narrativa também se beneficia de suas escolhas ao transformar elementos cotidianos em peças centrais da sobrevivência, mantendo o espectador atento e envolvido. Mesmo sem recorrer a explicações excessivas, a história se sustenta pela progressão dos conflitos e pela escalada ao caos, resultando em uma trama direta, tensa e eficiente dentro da proposta do filme.


O Vírus da raiva provoca a hidrofobia, que é o medo intenso da água, e isso afeta diretamente o comportamento do chimpanzé. Dominado por essa condição, o animal passa a evitar qualquer contato com a água, agindo de forma ainda mais agressiva diante do pânico que sente. Na casa onde os jovens estavam, a presença de uma piscina acaba se tornando um elemento crucial para a sobrevivência deles, funcionando como uma barreira natural contra a criatura. Esse detalhe é tratado de forma interessante pelo filme, pois transforma um espaço comum de lazer em um refúgio improvisado, carregado de tensão e desespero. Ao explorar o medo do animal e a fragilidade dos personagens, O Primata consegue gerar empatia e reforçar o clima de urgência, mostrando que o verdadeiro terror não está apenas na ameaça em si, mas na luta constante pela sobrevivência. Essa abordagem sensível dá mais profundidade à narrativa e aproxima o espectador do sofrimento e do medo vivido pelos personagens.


É importante estar preparado para uma experiência intensa, marcada por cenas fortes e profundamente impactantes. Ao longo da narrativa, o espectador se depara com momentos visual e emocionalmente carregados, que não apenas chamam a atenção, mas também provocam reflexões e reações significativas. As cenas de morte são cuidadosamente elaboradas do ponto de vista técnico e narrativo, demonstrando um alto nível de produção. A violência é apresentada de forma explícita, com um uso abundante de elementos sangrentos que buscam realismo, o que reforça a sensação de brutalidade e torna cada momento ainda mais impactante. Esse tratamento detalhado do gore contribui para uma atmosfera cruel e intensa, deixando claro que a obra não economiza nos excessos e aposta em uma abordagem direta, sem suavizar as consequências da violência.


O Primata se afirma como uma obra de horror, que vai além do susto fácil, apostando em uma ameaça biologicamente plausível para construir um terror mais incômodo e reflexivo. Ao substituir o sobrenatural por uma explicação científica, o filme reforça a sensação de realismo e aproxima o espectador de um medo mais concreto, ligado às consequências da negligência humana e à fragilidade diante da natureza. A narrativa direta, o uso inteligente do espaço e a escalada gradual da tensão garantem envolvimento constante, enquanto a violência gráfica intensifica o impacto emocional da experiência. Não se trata de um filme para todos os públicos, mas para aqueles que buscam um horror intenso e perturbador, a obra entrega uma experiência marcante, capaz de provocar desconforto e reflexão mesmo após o término da sessão.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.


Relâmpagos de Críticas, Murmúrios de Metafísicas - Não Entre Em Pânico

Relâmpago de Criticas, Murmúrios de Metafísica | TB Produções


“Ao transpor a porta para a rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos.”

— Memorial de Aires, Machado de Assis

Júlio Bressane, diretor do longa, utiliza durante toda a rodagem apenas sequências de filmes brasileiros já lançados – sejam eles de sua autoria, ou não. Neste seu projeto, são utilizados 48 filmes, o primeiro de 1898 e o ultimo, de 2022.

A odisséia da invenção sem futuro nas terras brasileiras não é tratada como uma jornada de resistência. O cunho poético de Bressane jaze justamente no ponto em que durante todo período em que possuímos o cinematógrafo, a arte de gravar foi impossível.

Limite, Carnaval da Lama e Signo do Caos. Três filmes de épocas distintas, que são juntados na rodagem do filme de Bressane, são obras que não estão em uma memória. Tudo que está em tela, não é aquilo que estava na película, a memória do cinema brasileiro já nasceu morta.

Em um país onde sempre houveram dificuldades em gravar, o cinema só passou a ser visto como resistência em um período onde o cinematógrafo se tornou mais acessível que o pincel e a tela. Mas por quê?

Bem, a arte, como já pontuada por Bressane, não é resistência, é uma anomalia. “Sem Essa, Aranha”; “O Anjo Nasceu” e “Copacabana Meu Amor” são, portanto, filmes políticos. “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui” não são filmes político, são tentativas de resistência (veja que não faço juízo de valor às obras, só estou constatando).

A obra de Bressane é, portanto, política? Diria que sim, mais poética que política, mas é de fato política em sua essência. Mas não entre em pânico, haverão outras, felizmente. Elas serão famosas? Definitivamente não.

Isso me relembra a conversa entre Don Siegel e Godard:

— Você tem algo que quero: liberdade. — disse Don.

— Você tem algo que também quero: dinheiro. — retrucou Godard.

Filmar continuará sendo impossível para aqueles que querem anomalia, mas me solidarizo. Júlio sem filmar fez o ultimo filme político do Brasil, e podemos também.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

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