segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Avatar: Fogo e Cinzas (2025) - A Nova Farofada Épica de Cameron Ainda Tem Seu Apelo

Avatar: Fogo e Cinzas (2025) | 20th Century Studios

 

Dizer que Avatar é uma narrativa épica geracional é, ao mesmo tempo, uma verdade e um eufemismo, pois o diretor James Cameron explora o mundo de Pandora dentro dessa seara e o público acompanha a jornada da família Sully, durante a tentativa de colonização do planeta por terráqueos. No primeiro filme, acompanhamos a jornada de Jake Sully (Sam Worthington), um militar que é enviado pelo governo estadunidense a se infiltrar em uma tribo Na'vi como um "avatar", mas após esse contato, ele se rebela contra o exército e lidera um revolta, à princípio, bem sucedida.  Já no segundo, ao lado de Neytiri (Zoe Saldaña), Jake forma uma família, enquanto são perseguidos pelo implacável Miles Quaritch (Stephen Lang), agora em seu "avatar". Agora, neste terceiro capítulo da saga, após de duas introduções ao universo aqui criado, o rumo da aventura fica mais soturno, mas sem as suas contradições.

Após a perda de seu filho mais velho, Jake e Neytiri e seus filhos sofrem com o luto, porém, após o encontro da família Sully com a tribo do povo das cinzas, liderados pela implacável líder xamânica Varang (Oona Chaplin), eles lutam pela sobrevivência, enquanto o governo prepara um novo plano para explorar os recursos naturais de Pandora. Nesta nova parte, Cameron desvia a atenção da personagem de Worthington para desenvolver melhor outras personagens em seu catálogo: Lo'ak (Britian Dalton) sente culpa pela morte do irmão mais velho, enquanto se empenha a salvar os tulkuns (também conhecidas como as "baleias de Pandora"); Neytiri começa a nutrir um ódio profundo a Spider (Jack Champion), o "humano de estimação" dos Sully e filho biológico e Quaritch, que começa a sofrer mutações, após Kiri (Sigourney Weaver), mesmo sofrendo com convulsões mortais, salvá-lo, através de Eywa; enquanto isso, Miles se aproxima de Varang para uma possível união contra os Sully. 

O maior acerto de Cameron neste novo filme de seu épico seja a escalação de Chaplin como a adversária dos protagonistas e sua eventual relação com a personagem de Lang. Varang se faz aqui necessária, para mostrar uma outra faceta dos Na'vi que faltava a franquia, alguém que volta contra os costumes para manter a própria sobrevivência e de seu clã. Aqui, o povo das cinzas, rompeu os laços com Eywa e querem destruição e chamas. A química que existe entre Chaplin e Lang nas cenas em que contracenam juntos, mesmo com todo o CGI, é intoxicante, para dizer o mínimo. Eles funcionam como um reflexo um do outro, do que uma balança para exaltar ou clarificar o outro personagem. Há uma sinergia que funciona bem que, certamente, deixará o público mais interessados nos antagonistas. Outra tensão que me chamou a atenção é a tensão existente entre Neytiri (que honestamente comecei a odiando e depois acabei me redimindo com ela) e Spider, que passam por transformações internas e externas, e dominam boa parte da narrativa. ao levantar questões sobre (não) pertencimento dentro de uma sociedade.

Por mais que James Cameron sabe como filmar cenas de ação, dominar com sofisticação tons narrativos e explorar todos os recursos tecnológicos a seu dispor, ele tem problemas sérios com a escrita de roteiro, o que já era um defeito recorrente da franquia. Na busca de narrativas épicas, oriundas de tradições de vários povos originários, Cameron parece ter pego todos esses elementos culturais e jogado numa roda da "jornada do herói". 

Ao mesmo tempo em que o realizador deseja avançar na narrativa e desenvolver o mundo e as personagem que criou, uma outra parte de seu ânimo parece que nunca superou o impacto cultural do primeiro Avatar, em 2009, e, não obstante, de Titanic, em 1997. Se isto já estava presente em O Caminho da Água (2022), que era uma farofada reciclada, o mesmo se aplica para Fogo e Cinzas (2025).  Aqui o protagonismo é muito mais coletivo do que nos outros filmes, o que torna o centro narrativo mais difuso (e talvez um pouco bagunçado), da mesma maneira que Cameron quer encerrar um ciclo para anunciar um próximo, mesmo que não seja da forma mais uniforme, com um terceiro ato corrido, em prol de uma grande batalha final, por exemplo. Mas, se tem uma coisa que essa produção tem é tempo e dinheiro, para não dar vexame. Sem isso, o filme não funcionaria, de um modo prático. Porém, o que Cameron falta na escrita, ele se segura na direção. 

A questão é: por quanto tempo o público será benevolente às falhas da franquia? Ou será que o público vai continuar a abraçar os filmes de Avatar como parte de seu ópio? Afinal, o mundo de Pandora, principalmente em 3D e numa tela grande como a da sala IMAX (o que faz uma grande diferença na experiência cinematográfica), é imersivo e salta aos olhos, o ritmo é agradável, e o ingresso de cinema, mesmo que custando caro, se torna mais em conta do que um ingresso de um mega parque de diversão. Ou será que Cameron agrada o olhar corporativo para tornar seu grande épico em pacto faustiano, em que para receber o ópio, precisamos deglutir um pão amanhecido e já sem o sabor de outrora?  

Avatar, para indústria hollywoodiana, é vista muito mais como um investimento do que uma obra de arte, e, por sinal, seu valor de custo é altíssimo. É bem certo a sensação de que a segunda e a terceira parte deveriam ser uma única obra, mas que foi dividida ao meio como longas interdependentes entre si. Para ter resultados de bilheteria mais uniformes, repete-se uma fórmula quantas vezes for preciso. E assim será o ritmo da dança. O que diferencia esta franquia do que outras, como a da Marvel por exemplo, que há alguém que entende de cinema e que põe anos de dedicação a estória que deseja contar. Por isso, Avatar é uma franquia de espetáculos, um tanto previsível, porém com um coração que, entre erros e acertos, ousa voar até ultrapassar o limite do que consegue abocanhar. E, com este novo filme, o caso não é diferente. 

Portanto, Fogo e Cinzas, mesmo funcionando dentro de um molde específico, tem espírito de uma era clássica, mas desconfigurada de tal apropriação, um filme instintivo e impulsivo do que metódico e centrado. No entanto, as sombras manipuladas aqui contam uma jornada um pouco mais instigante do que o predecessor de 2022, que troca chavões cafonas por algo algo mais cru e insensato, com personagens cheios de traumas. É uma longa volta, mas no final o nó parece firme o suficiente para aguentar o caminho a frente. Para quem for fã da franquia, a farofada à Na'vi de Cameron ainda tem seu apelo e é tão igualmente deliciosa quanto as anteriores, basta somente apreciar e lamber os beiços.

 Autor:

                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 



Five Nights At Freddy´s 2 - Cinco Noites, Muitos Sustos e Zero Paz de Espírito

Five Nights At Freddy's 2 | Universal Pictures 


‘Five Nights At Freddy’s 2‘, sequência do maior sucesso da história da Blumhouse, traz Mike, Abby e Vanessa tentando encontrar uma maneira de sobreviver por mais cinco noites quando um novo grupo de animatrônicos sai da pizzaria e causa o caos na cidade.


O filme se passa um ano após os eventos do longa anterior. Mike, ainda carregando as marcas do passado, tenta seguir em frente. Antes frio e retraído pela dor de ter perdido seu irmão caçula, ele agora demonstra um amadurecimento tocante — fruto da convivência com Abby, que, mesmo sem perceber, o ajuda a reencontrar partes de si que acreditava ter perdido. Abby, por sua vez, sente a ausência dos animatrônicos que passou a ver como amigos. Para ela, aqueles laços eram mais do que simples encontros; eram fontes de conforto em meio à solidão. Seu desejo de revê-los nasce de um coração que busca companhia e compreensão. Mike, porém, teme por ela. Carrega o medo constante de que algo possa machucá-la, mesmo enquanto tenta ser o irmão carinhoso e presente que ela merece. O filme explora com delicadeza esse conflito — o amor cuidadoso de Mike, a sensibilidade de Abby e a complexidade dos laços que conectam ambos ao passado. 


Vanessa também carrega seus próprios traumas, profundamente ligados ao passado ao lado de seu pai, William Afton. As lembranças dolorosas e a influência emocional que ele exerceu sobre ela ainda ecoam em sua mente, surgindo em forma de ilusões que, em diversos momentos, a tiram do foco e interferem em sua rotina diária. Apesar disso, o filme apresenta a trajetória de Vanessa com muita sensibilidade, evidenciando não apenas sua vulnerabilidade, mas também sua coragem silenciosa. Ela luta constantemente para não ser definida pelo peso de sua história, buscando recuperar sua autonomia emocional e construir um caminho mais saudável para si mesma. Essa abordagem dá profundidade à personagem, valorizando sua resiliência e mostrando como, mesmo cercada pelas sombras do passado, ela segue tentando encontrar luz.


O filme anterior parece que abandonou muito o lado terror, aqui o terror está presente e conseguindo render muitas cenas de sustos. O novo animatrônico chamado de “O Fantoche”, que nos jogos já me dava muito medo, aqui no filme não é diferente. O animatrônico é assustador por sua aparência inquietante e seu comportamento silencioso. Ele é alto e esguio, com membros longos e movimentos fluidos que parecem antinaturais. Seu rosto branco, marcado por “lágrimas” roxas e olhos completamente negros, transmite uma frieza perturbadora. Ele não caminha — desliza, surgindo sem aviso. A combinação de silêncio, olhar vazio e presença quase sobrenatural faz do fantoche uma das figuras mais ameaçadoras e desconfortantes da franquia.


Five Nights at Freddy´s 2 se destaca por unir emoção e terror de forma mais equilibrada do que o primeiro filme. A trama aprofunda seus personagens, mostrando que os monstros não estão apenas do lado de fora, mas também dentro das dores e memórias que cada um carrega. Mike, Abby e Vanessa formam um trio marcado por traumas diferentes, mas conectados pela vontade de seguir adiante, mesmo quando o passado insiste em persegui-los. Ao mesmo tempo, o filme resgata o horror característico da franquia, entregando sustos eficientes e criaturas realmente perturbadoras, como o Fantoche. O resultado é uma continuação mais madura e mais sombria — uma história que assusta, mas também toca, mostrando que, para sobreviver a cinco noites, às vezes é preciso enfrentar não apenas os animatrônicos, mas os próprios fantasmas internos.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.





terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim: O verdadeiro terror é perceber que os animatrônicos assustam menos que a vida adulta de Mike.

Five Nights at Freddy's | Universal Pictures

No Freddy Fazbear's Pizza, robôs animados fazem a festa das crianças durante o dia. Quando chega a noite, eles se transformam em assassinos psicopatas.

Eu nunca fui profundamente familiarizado com toda a lore de Five Nights at Freddy´s, mas acompanhava muitos gameplays no Youtube em 2014, época em que o jogo explodiu em popularidade na plataforma. Cheguei até a jogá-lo, embora sempre com bastante receio — afinal, os jumpscares dos animatrônicos são inesperados e realmente dão aquele susto clássico. Quanto ao visual do protagonista, Michael Schmidt, o jogo não revela sua aparência, o que reforça o mistério e a imersão do jogador. Já na adaptação cinematográfica, ele recebe uma caracterização clara e definida. Essa diferença evidencia como cada mídia escolhe explorar o personagem: o jogo aposta no anonimato e no suspense, enquanto o filme destaca sua humanidade e vulnerabilidade. Como toda adaptação para o cinema, foi necessário ter uma trama e de uma identidade visual.

A história segue Mike Schmidt, um segurança que, após ser demitido, aceita trabalhar como vigia noturno da abandonada Freddy Fazbear´s Pizza para evitar que sua irmã mais nova, Abby, seja colocada sob custódia da tia deles. Ao longo das noites, Mike passa a ter pesadelos recorrentes sobre o desaparecimento de seu irmão, enquanto descobre que o local guarda segredos perturbadores ligados a crianças que desapareceram nos anos 1980. Conforme Mike se aprofunda no mistério, ele percebe que os animatrônicos do restaurante parecem estar vivos e têm uma conexão direta com os acontecimentos sombrios do passado. Entre proteger Abby e desvendar a verdade, Mike acaba envolvido em uma trama que mistura trauma, memórias e fenômenos inexplicáveis. O filme equilibra cenas de suspense com momentos de sensibilidade, criando um protagonista mais relacionável do que em seu material original. 

Mike é um personagem marcado por dor e responsabilidade, alguém que carrega mais peso emocional do que consegue expressar. Sua aparente frieza é, na verdade, um mecanismo de defesa construído após anos de culpa e trauma. Ele vive dividido entre o cansaço que o consome e a necessidade quase desesperada de proteger quem ama, especialmente Abby. Impulsivo em momentos de tensão, mas profundamente justo, Mike revela uma sensibilidade silenciosa: mesmo ferido, continua tentando fazer o certo. Sua personalidade é a de alguém que aprendeu a sobreviver, mas ainda busca uma forma de viver — e, acima de tudo, de encontrar paz para si e para sua irmã caçula.

O filme parece se esquecer do próprio gênero ao qual se propõe, deixando de lado justamente a essência que tornou o jogo tão popular. É importante dizer com clareza: Five Nights at Freddy´s se destacou por seus sustos, jumpscares e pela atmosfera de terror — elementos que, na adaptação, acabam ofuscados por uma narrativa focada novamente no tema do luto, apenas ambientada no universo da franquia. Pensando bem, não consigo lembrar de nenhum momento em que realmente senti medo durante a sessão.

Five Nights At Freddy's - O Pesadelo Sem Fim acerta ao humanizar seus personagens e dar profundidade emocional à jornada de Mike, mas acaba se afastando daquilo que definiu a identidade da franquia nos jogos. Embora apresente elementos visuais marcantes e uma trama acessível ao público geral, o filme deixa a desejar no aspecto mais esperado: o terror. A falta de tensão genuína e de momentos realmente assustadores enfraquece a experiência para quem buscava reviver o clima inquietante do jogo. Ainda assim, a obra tem seu mérito ao propor uma leitura mais dramática e sensível do universo, mesmo que isso signifique sacrificar parte da essência que tornou FNAF um fenômeno cultural.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.





Cinco Tipos de Medo — Uma Meditação Sobre Violência

Cinco Tipos de Medo | Downtown Filmes


Cinco Tipos de Medo foi o vencedor do kikito de ouro de melhor filme no festival de gramado, sendo o primeiro filme mato-grossense a ser selecionado e fazer tal feito. O filme conta 5 histórias diferentes encadeadas por um mesmo acontecimento catalisador da trama. Teve exibição na Mostra de São Paulo.

Ano passado, Oeste Outra Vez faturou o premio de melhor filme em Gramado, quebrando certa longevidade do eixo sul-sudeste que sempre dominou festivais de cinema brasileiro. Verdade seja dita, o centro-oeste não é sequer parte dos cartões postais brasileiros (a exceção de Brasília), e Cuiabá é extremamente pouco representada no nosso cinema.

Na obra de Bruno Bini, Cuiabá e o bairro do Novo Colorado (parte da periferia da cidade) são o coração de uma trama que não tem um protagonista definido. Não há um eixo central do filme, aos moldes de Lucrecia Martel, e isso está longe de ser um problema, pois cria um retrato bastante honesto da obra.

Bruno tem um fio condutor maior que uma linearidade narrativa: a violência, não apenas como um ato, mas como um impulso humano, natural as situações que os personagens estão inseridos diante ao opressivo ambiente que o diretor cria. Cuiabá é tão quente quanto o deserto do Saara e tão violenta quanto a periferia de Paris de Kassovitz.

Ao decorrer da rodagem, se é criado um sentimento de angustia no espectador, não por aquilo que há por vir, e nem aquilo que houve por se ver, mas por aquilo que não há de se ver. A violência é uma resposta do medo, sentimento esse tão irracional que mal pode ser compreendido pelo protagonista Murilo (João Vitor Silva). Você pode até tentar entender aonde chegamos, mas não pode entender como fomos parar lá.

No mais, a esperança de Bruno não está na religião ou na justiça, e sim no ser humano como um regulador, em termos a honestidade de olhar para todo medo e violência e entendermos que não podemos mudá-lo, mas podemos amenizá-lo.

Cinco Tipos de Medo é uma meditação sobre a violência e deve ser comentada nos próximos anos de cinema. Não é necessário pelos seus temas, mas pela maestria como são filmados, de uma maneira muito mais sóbria e honesta que a de muitos outros cineastas por aí que recebem milhões por um filme.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

Bugonia (2025) reina entre a farsa e o trágico

 

Bugonia (2025) | Universal Pictures

Nos primeiros minutos do ecrã, uma voz explica ao espectador o porquê da polinização ser extrema importância para a sociedade, enquanto vemos imagens de abelhas realizando este ato.  

Elas são, de acordo com o verbete Caldas Aulete, “insetos himenópteros que se dividem em sociais, solitárias e parasitas, sendo as sociais as que produzem mel em abundância.” A relação entre as abelhas sociais e sua abelha-rainha é posta como um paralelo com as dinâmicas interpessoais entre humanos: o proletariado e a burguesia. Porém, por causa da ganância e de uma transformação rápida do mundo que abusa dos recursos naturais e libera resíduos químicos, a população de himenópteros, e, consequentemente, a polinização, diminui. A longo prazo, isso pode ter um efeito catastrófico para a humanidade.

Esse é um problema bem real, inclusive para uma narrativa que parte do mundo concreto para o campo do absurdo. É assim que começam os primeiros minutos de Bugonia (2025), o nono longa-metragem do diretor grego Yorgos Lanthimos, retomando a parceria com a Emma Stone e o Jesse Plemons de seu  projeto anterior, Tipos de Gentileza (2024). Esta nova empreitada é, na verdade, um remake de um filme coreano lançado em 2003: Salvem o Planeta Verde! A obra de partida foi lançada em período em que o cinema coreano e alguns de seus diretores mais populares, como Park Chan-Wook e Boon Joon-Ho, começaram a ser exportados para o ocidente e a fazer sucesso internacional. E o filme de 2003 se tornou um clássico cult contemporâneo para o público ocidental. 

A trama do original é bem parecida com recriação feita por Lanthimos e sua equipe: um jovem conspiracionista sequestra um grande executivo farmacêutico na suspeita deste ser um alienígena que planeja uma invasão de larga escala. O laço entre os dois fica cada vez mais estreito quando é revelado que este homem tem relação com uma tragédia familiar na vida deste jovem, em particular. 

O diretor do filme original, Jang Joon-Hwan, esteve envolvido nos estágios iniciais de pré-produção, quando o remake foi anunciado em 2020; mas se afastou devido à problemas de saúde, ficando com o título de produtor executivo desta nova versão. O anúncio de Yorgos Lanthimos como diretor da produção veio no início de 2024, no que Jang achou uma escolha apropriada ao projeto, pois o estilo do realizador grego conversava com a narrativa e seu tom de extremos. 

O Bugonia de Lanthimos não foge da premissa base, mas adiciona um tempero a mais à mistura. Teddy Gatz (Jesse Plemons) é um trabalhador de uma linha de distribuição de uma grande farmacêutica, no meio-oeste americano. Levado a acreditar em teorias da conspiração, após uma tragédia familiar, ele acredita que uma raça de alienígenas se infiltrou no planeta terra para acabar com todas as formas de vida que existem. E a CEO do conglomerado em que trabalha, Michelle Fuller (Emma Stone), seria na verdade uma Andromedana disfarçada. Com a ajuda de seu primo, Don (Aiden Delbis), ele sequestra e aprisiona Michelle no porão de sua casa para impedir uma possível invasão e, portanto, evitar a extinção humana.

Se, na obra fonte, há uma demarcação clara entre o bem e mal, aqui temos o encontro, com seus valores dúbios, das duas piores pessoas que você vai encontrar na sua vida: um conspiracionista com tendências sociopatas e uma girlboss industrialista, uma mistura de Jeff Bezos e Virgínia Fonseca (para abrasileirar as referências), que explora de forma cruel a sua classe operária. Existe uma dualidade na relação das personagens: "será que existe mesmo um alienígena entre nós ou será que estamos acompanhando uma sessão de tortura de um serial killer?" Esta sensação se repete aqui, agora em um cenário estadunidense. 

Por mais que Teddy passe por todos os espectros políticos, ainda há um resquício de um comportamento “redpill” pela maneira em que a personagem se porta em cena; principalmente, a caracterização suja e descuidada de Plemons flerta com essa imagética (ele emana uma energia de um jovem Willem Dafoe desligado). Enquanto que Fuller tenha uma aparência mais normalizada, ela demonstra ser uma pessoa fria e calculista, que sempre teve a vantagem a seu favor. Uma abelha-rainha em prol do capital, que se protege atrás uma máscara de falsa progressista explorando seus funcionários até a exaustão.

Enquanto a versão coreana tem uma variedade de tons e de gêneros interconectados entre si e de forma bastante intensa, Lanthimos diminui um pouco o volume dos diversos tons para construir algo que sabe fazer de melhor: arquitetar um senso trágico, de que algo ruim está prestes a acontecer. Um outro filme de sua filmografia que dialoga com este projeto, em termos de escopo, é O Sacrifício do Cervo Sagrado, lançado em 2017. (Inclusive a paleta do design de produção.)

Em ambas as obras, temos a hybris da classe burguesa que afeta a vida do proletariado, levando a uma retaliação do por parte do(s) oprimido(s) [Fun fact: a atriz Alicia Silverstone está presente nos dois filmes e, em ambos, faz o papel da mãe da personagem “pobre”]. Em Bugonia, a hybris existe, mas ela se torna cada vez mais ambivalente e o público se pergunta quem será o causador dos infortúnios: Michelle, com seu comportamento arrogante e testes farmacêuticos capazes de destruir vidas ou Teddy, ao deliberadamente sequestrar e torturar uma pessoa, que causou diretamente um mal para ele, em prol de um ativismo bastante radical?

O mundo aqui é palpável e verossímil, a princípio parece um ambiente “normal”, mas a situação e a sucessão de acontecimentos que a narrativa desenvolve se calca no absurdo, que foge dessa sensação mundana em que o filme nos apresenta de início. Na verdade, nada é, de fato, normal. A disrupção de uma rotina banal para a algo extraordinário, digamos assim, nos mostra, como humanidade, a relativização de ações exploratórias cristalizada na normalidade. Se alguma empresa causa algum desastre natural, ou hospitaliza pessoas, para fins lucrativos, o caso é facilmente acobertado e não há nenhuma represália por parte da sociedade (O desastre de Brumadinho causado pela ganância da Vale me vem à memória, por exemplo). Portanto, existe algo de catártico e conturbado para o público se identificar com a personagem de Plemons.

Além disso, o realizador grego dimensiona Teddy, para além do proletariado conspiracionista, uma persona trágica: é revelado que ele sofre com a hospitalização da mãe, causada pela empresa de Michelle, e também que foi vítima de abuso (que pode ser tanto física, quanto psicológica ou sexual pelo pouco que sabemos) na juventude pela sua babá, Casey, que agora é o xerife local (Stavros Halkias). Aos poucos, temos vislumbres da personalidade complexa e do páthos da personagem, mas, ao mesmo tempo, isso contribui para a dúvida de seu caráter: será que ele tem razão sobre Fuller e a conspiração andromedana ou será que vive uma em fantasia traumática e busca um final para esse ciclo?  

Apesar do trágico, o filme possui um humor que se demonstra bem sutil, mais do que sua contraparte coreana que é extremamente marcada, seja pela situação ou conflito entre classes. O roteiro de Will Tracy também tem um humor bem ácido e marcado, até mesmo o usa para aliviar a tensão em tela. Mas a escolha de não exagerar nessa marcação foi feita para valorizar o trabalho e a performance de Stone e Plemons; são dois atores gigantes que, aqui, estão em lados opostos e em pé de igualdade. A forma em que sustentam os diálogos e ações de suas respectivas personagens funcionam como um fio condutor da narrativa, deixando a trilha sonora de Jerskin Fendrix somente nos momentos de explosão e ápice emocional. 

A combinação entre a farsa e o trágico, a paródia e o suspense, funciona de forma harmônica durante as duas horas de duração. Vemos uma partida de xadrez entre lados extremos em jogo. A cada passo, e mais peças saem do tabuleiro, mas ainda há uma dúvida que paira no ar e só é respondida quando esta termina. Conhecido como um cineasta que “inaugurou” uma nova estranha onda no cinema grego, Lanthimos flerta com o cinema comercial e uma abordagem estética, próxima de seus projetos experimentais; o que faz sentido em onde ele se encontra artisticamente: entre o seu longa mais comercial (Pobres Criaturas, 2023) e sua volta às raízes ao experimentalismo (Tipos de Gentileza, 2024), ou seja, um meio termo criativo.

O diretor conserva o sabor agridoce oriundo da obra base, porém, desenvolve a sensação de desamparo e a falha das relações interpessoais, administradas dentro de um sistema capitalista, com um pouco mais de escárnio. Há algo de viscoso sobre a obra que atravessa na fotografia de Robbie Ryan, a poeira, a sujeira, o insípido, a escuridão que traduz uma sensação que seja assustadora quanto falida. Algo engraçado e desesperado vem por aí. E de fato, a ironia impregnada pela conclusão da obra a lança no gênero filme-piada, como Tár (2022) e Segredos de um Escândalo (2023), que tem entrado em evidência no circuito norte-americano nos últimos anos.

Acredito que o maior trunfo do filme, neste momento, dentre várias categorias que podem ser citadas aqui, seja de recriar a essência de sua fonte base, atualizando o texto para um novo contexto cultural, ambiental e geopolítico. É uma mistura agridoce, de caminhos tortuosos e de caráter duvidoso, que mostra a grandeza das pequenas tragédias humanas e escancara as relações de poder interpessoais pela acidez que só o cinema de Lanthimos proporciona. O tipo de filme que é impossível de desviar o olhar, sequestrando a atenção do espectador até o fim. Agora fica a questão: será que a Chappell Roan faria sucesso em outras galáxias? 

Well... Good Luck, Babe

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


Morra, Amor (2025) - O Grito de Dor de Uma Mulher em Chamas

 

Morra, Amor (2025) | Paris Filmes, MUBI

Como é possível apagar um fogo incontrolável que há de queimar pela vegetação seca? Como sufocar a explosão do desejo, sem nenhum tipo de efeito colateral? Como respirar se você se sente sufocada em uma nova posição, que nunca havia cogitado de estar ali? Como é a sensação entre andar entre a realidade e o pesadelo? Como é a diferença entre a memória e a ficção? Como é ir contra a sua natureza?

São questões que o longa-metragem Morra, Amor (Die, My Love, 2025), da realizadora Lynne Ramsay, se propõe a fazer ao público. O filme é baseado no livro de mesmo nome de Ariana Harwicz, tem produção do Martin Scorsese e tem um elenco ancorado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, dois atores que cultivaram um público desde a década passada e que tiveram carreiras bem sucedidas, fora das franquias que os lançaram ao estrelato. A escolha de Lawrence e Pattinson é inspirada e cheia de energia, com química exorbitante, a sinergia entre as personagens em cena é algo selvagem, quase animalesco, e difícil de ser domado.

Grace (Lawrence) acaba de ser mãe de primeira viagem. Aspirante a escritora, decide sair de Nova Iorque em busca de uma vida mais calma e se muda para a antiga casa de infância de Jackson (Pattinson), seu marido, na zona rural de Montana. A casa originalmente era do tio de Jackson que acabou tirando a própria vida na propriedade; além disso, durante a gravidez que Grace, descobrimos que o pai dele (Nick Nolte) também sofre de Alzheimer, o que acaba também deixando uma marca na mãe, Pam (Sissy Spacek).

À princípio, tudo vai bem. Aparentemente. Grace e Jackson conseguem se adaptar a vida de pais de um recém nascido, sem perder a identidade; mas, após o primeiro trimestre, ela começa a enfrentar sentimentos de isolamento espacial e psicológico, afetando seu trabalho como escritora, e se dedica exclusivamente ao bebê. Ou seja, ela fica isolada dentro de casa por horas, com pouquíssimo contato com outras pessoas e Jackson começa a se mostrar cada vez mais displicente com o passar do tempo. Com a saúde mental em declínio nesse período de pós-parto, a realidade do casal vai levando o relacionamento a um território instável.

A narrativa transita entre o drama psicológico e o humor ácido, porém sutil, para desarmar seu público, dando ao projeto um sabor e uma identidade própria; uma mistura bem balanceada pela equipe de roteiristas (Ramsay, Alice Birch, Enda Walsh) e pela direção, trazendo a temática da depressão pós-parto para um lado cru, mas sem cair no melodrama exacerbado. 

O exercício de personagem aqui é investigar como alguém tão cheio de vida como Grace possa se encontrar nas amarras da depressão e perder-se dentro si, seguindo migalhas no labirinto da mente; e o desespero, não só para ser amada e compreendida, de se entender como pessoa, após uma nova etapa na vida. Sua depressão é calcada em uma disformia mental: uma pessoa que passa a narrativa em busca do próprio reflexo; mesmo que nós, os espectadores, a vemos nua de corpo e alma. Grace grita, briga, chora, destrói, sofre com uma repressão sexual, tem tendências violentas e autodestrutivas, sua mente lhe prega peças, enquanto, automaticamente, a colocam dentro de uma caixinha, no qual ela deve se contentar. Mas que nunca será suficiente. Ela é muito mais do que só uma mãe. Em primeiro lugar, é uma mulher livre (e quase um arquétipo de uma personagem da Lana Del Rey, se pararmos para pensar um pouco... This Is What Makes Us Girls, Let Me Love You Like a Woman, Wildflower Wildfire, e por aí vai).

Ramsey e Lawrence constroem a personagem de Grace dentro de um prisma dialético do psíquico e do onírico, da carências dos prazeres; histórias que ela ouve de pessoas fazendo atos estranhos e pessoas misteriosas que aparecem em seu caminho, ocupam sua mente, enquanto isso, os dias passam tediosamente e sua realidade parece ficar cada vez mais sem vida, sem gozo. Jackson não a ajuda muito; não reconhecendo que há algo de estranho com a esposa e tomando algumas ações que mais contribuem para o problema do que para solucioná-lo, de fato. A única personagem que consegue enxergá-la seja a sogra Pam, com quem há um grau de cumplicidade enquanto mulheres cis e mães, que lidam com os efeitos colaterais da maternidade e tudo aquilo que acarreta.

Talvez o grande problema do filme esteja justamente em sua estrutura cíclica que acaba por repetir, muita das vezes, os temas abordados do projeto sem que haja um desenvolvimento mais direto e claro, deixando a sensação ao espectador que o filme esteja insistindo muito no que quer dizer; e no processo de montagem, cujo ritmo perde fôlego considerável, contribuindo na característica repetitiva e um tanto truncada da narrativa. Isto, honestamente, pode fazer com que parte do público tenha problemas de fruição ao longo de sua duração.

Mas, apesar disso, é um filme que vemos um cuidado, entre o artesanal e o industrial, que Ramsey tem. Em termos temáticos e formais, vemos que há um contraponto entre Morra, Amor e Jeanne Dielman (1975): se Akerman realiza uma fábula rigorosa sobre a rotina entediante de uma mulher viúva de meia-idade numa grande metrópole, aqui temos o inverso; a cidade torna-se o campo, a selva de concreto contra a natureza, a filmagem estática ganha movimento, a mecanicidade das ações dá o espaço ao naturalismo e ao imprevisível, a linearidade e o psicológico... A única coisa em que as obras se conversam é na realidade das mulheres que são confinadas em uma realidade doméstica, relegadas a uma subvida, a uma função. Se Seyrig tem uma performance contemplativa, a de Lawrence é explosiva, deixando-a um pouco próxima de Gena Rowlands, por exemplo. 

Porém, é claro, isto trata-se somente uma divagação temática, que me pareceu apropriada neste momento, pois uma comparação, de fato, concreta poderia, por enquanto, soar um pouco injusto de minha parte. Mas enfim...

Morra, Amor é uma explosão que ousa queimar forte e acaba se queimando um pouco no processo; representa a ideia de uma mulher que grita para o universo e não é correspondida, é o desespero fragilizado de uma pessoa que sofre com o apagamento e a solidão. Um sonho que se transforma em pesadelo febril, contraditório da falta do ser. Ou, como diria Mario de Sá-Carneiro em seu poema Dispersão: "E hoje, quando me sinto, é com saudades de mim.\Passei pela minha vida feito um astro doido a sonhar"; enquanto, nas Heroicas, Hilda Hilst diria: "Mil vezes me refaço e me recrio de dor".

É um filme que, mesmo com a mensagem martelada, ainda tem algo a dizer de interessante sobre maternidade, o papel da mulher e a depressão pós-parto, que foge de um convencionalismo barato e, demasiadamente, esvaziado. A atuação de suas protagonistas eleva a experiência da obra, que é daqueles tipos de filmes que crescem (ou não) durante uma revisão com o passar do tempo. A sensação que fica que é um filme escrito com tinta e leite. Amor incondicional não é a solução.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sombras no Deserto (2025) fica em cima do muro

 

Sombras no Deserto (2025) | Imagem Filmes


Crescer é um inferno: a passagem da infância à vida adulta é um ritual bastante natural e transformador, a pessoa que você era antes deixa de existir e começa a ficar exposta as mudanças interiores e exteriores que todes sofrem com este amadurecimento. É como uma troca de pele, seu corpo muda, suas percepções e crenças também... A reação é assustadora. No entanto, ao retratar esse momento específico da vida de uma figura mitológica/religiosa pode abrir espaço para debates e (não como me importasse muito) controvérsias.

Em Sombras no Deserto (The Carpenter's Son, no original, 2025) retrata a adolescência da figura de Jesus Cristo dentro de um gênero cinematográfico inusitado para esse tipo de estória ligado a tradição eclesiástica: o terror. O filme é dirigido por Lotfy Nathan e tem o dedo de Nicolas Cage na produção, que também interpreta José de Nazaré, o pai adotivo de Jesus. Enquanto o título nacional tem um nome genérico, o original explicita sua relação com a teologia.

Quando este projeto foi anunciado muitas pessoas ficaram ou com uma curiosidade mórbida ou completamente ultrajadas por alguém adaptar a vida de um símbolo cristão em filme de terror; afinal, para um crente, a ideia de retratá-lo de uma "forma negativa" seria uma blasfêmia. E até semanas antes do lançamento o projeto está sofrendo com um boicote online em portais e agregadores de cinema (uma semana antes do lançamento oficial, no IMDB, a nota está em 3.5). 

Como um bom agnóstico/ateu que este crítico é, me enquadro no primeiro grupo; pois é muito raro ver este tipo de abordagem sendo feita, porém, como não é muito comum, as chances do longa ser um desastre incompreensível são altas. De fato, Nathan se baseia em textos apócrifos, que não fazem parte do cânone do cristianismo, dando uma liberdade de contar algo, digamos, extraoficial, ou seja, indo em direção ao paródico, ao paralelo de tal cânone já consolidado.

Nathan não dá nomes aos seus personagens de cara, e, quando dá, utiliza os nomes em judaico, mas codifica as personagens mitológicas de forma que o público os identifique de cara: o Carpinteiro (Cage), a Esposa (FKA Twigs) e o Filho (Noah Jupe). José, Maria e Jesus. Simples assim. Não é preciso muitas explicações.

O longa começa com um prólogo que retrata o nascimento de Jesus no dia de Natal e a fuga de seus pais das tropas romanas. Depois, a narrativa corta para anos depois. O Carpinteiro e sua família são nômades, com medo de descobrirem a verdade sobre o Filho. Eles se instalam em uma vila egípcia, cujas as habilidades do patriarca da família são necessárias. Mas o Filho não é mais nenhuma criança e seus pais sentem um medo de que ele logo caia em tentações e atraia a presença de Satanás. O Carpinteiro é rude e ríspido em sua educação, alienando mais o filho do que o ajudando. Enquanto isso, o jovem é assolado por sonhos que preconizam sua morte.

A situação complica quando o Filho conhece uma Criança (Isla Jonhston) muito estranha e de estilo bastante andrógeno, talvez Satanás em pessoa ou não, que empurra Jesus para fora da faceta construída pelos pais e sim para o santo milagroso do qual seria conhecido: seja por curar leprosos ou exorcizar espíritos demoníacos em pessoas inocentes. Porém, isso pode, em contrapartida, acarretar em acusações de bruxaria e paganismo contra o jovem, já que a população local não sabe de seu verdadeiro destino. Causando, deste modo, aflição e medo no seio familiar.

Partindo de uma abordagem histórica, querendo ou não, o cinema bíblico está presente no cinema, desde a época dos filmes mudos, com os épicos de DeMille, por exemplo. Mas o que antes era visto como algo épico e luxuoso, hoje em dia virou em um gênero escabrosamente decadente que serve mais converter os espectadores ao cristianismo e reforçar as temáticas religiosas para o público protestante. O que era um subtexto, virou algo muito maior, mais aborrecido e pedante: uma obra planfetária para vender uma ideologia, flertando com um fascismo religioso. E talvez, esteja uma das controvérsias do filme. Ele foge desse roteiro. Ao retratar os poderes de Cristo como algo assustador e que causa pânico, automaticamente, o projeto rejeita o discurso engessado de produções recentes. Foge do estilo da Angel Studios e da Affirm Films que protestantes estadunidenses querem enfiar goela abaixo nos espectadores, junto de sua agenda. E nem chega a ter tons ofensivos a outras religiões como A Paixão de Gibson, em que há um subtexto antissemita.

Nathan abraça o caráter humanístico de Jesus, descrevendo-o como ele é: um ser divino, mas mortal, como qualquer ser humano. Tem muito como um referencial temático os trabalhos de Scorsese e (o saudoso) Pasolini, de certa forma. A narrativa de horror se desenvolve dentro da lógica do bildungsroman, com Cristo desconhecendo de seus poderes e do terror que isto possa causar na psique. Há um certo fascínio, quanto uma realização temerosa ao mesmo tempo. Cristo, influenciado pela Criança demoníaca, quer descobrir suas próprias tentações e poderes. Mas José, difícil e controlador, é o único obstáculo em seu caminho. 

Aqui não há só uma batalha entre o bem e o mal, mas também geracional, entre a fé e o desespero, o etéreo e a carne. Existe uma linha tênue entre a teologia e a psicanálise que é anunciada, mas nem sempre tem algo a dizer de inovador ou de perspicaz. Deste modo apresentando ideias interessantes, que parecem mais inteligentes e profundas do que elas são de verdade. Essa dicotomia entre bem e mal ou pai e filho é um dos dispositivos mais antigos do mundo. Existe uma gravidade nesta relação, dando um peso à narrativa; a figura bíblica da serpente como uma figuração do pecado, do mau caminho, da perdição, é recorrente, embora que seja repetitiva. O problema aqui é que a direção e a construção de mundo estão intrinsecamente ligadas a tradição mitológica e, mesmo brincando com seus signos, nem sempre consegue escapar da sensação de que a trama está "chovendo no molhado". 

Se em termos temáticos, o filme não acrescente nada de novo, apesar do gênero escolhido, também sofre com algumas decisões que afetam a estética da obra. Talvez o maior pecado do filme é pegar o trabalho do diretor de fotografia Simon Beaufils (de Anatomia de uma queda (2023) e Faca no coração (2018), um favorito meu, por exemplo), com seu trabalho de cores e texturas, para, provavelmente na pós, escurecer algumas cenas que prejudicam o trabalho de fotografia naturalista realizado aqui. Algumas cenas noturnas são demasiadamente escuras, sem a necessidade tal escolha, sem que haja uma sombra e luz para contrabalancear.

Nathan consegue dirigir o longa ao redor da figura de Cage, mesmo que este seja o único dentre os atores com um "sotaque europeu" no projeto, com certa competência que deixa o nível da trama com as batidas de desenvolvimento necessárias para seu desenvolvimento: não deixá-lo roubar a cena. O ator conhecido pelo seu estilo hiperbólico conseguiu dar, na última década, uma reviravolta na carreira ao embarcar em projetos que contemplassem seu estilo de performance e com realizadores que conseguiriam trabalhar em volta dessa figura na direção. Há momentos que vemos o Cage explosivo, no qual, por muitos anos, ele infamemente ficou conhecido; mas são bem espalhados, no mar de contenção e de naturalidade, e contribuem para o arco narrativo da narrativa e de sua personagem. 

Além disso, o diretor consegue com que haja um diálogo de cena entre Nic Cage e seus colegas, de modo que as interações não fiquem exageradas ou beirando ao território do camp. Por mais que o filme se venda na figura de Cage, o foco de toda trama é o desenvolvimento de Jesus que é está bem nas mãos de Noah Jupe, que consegue vender sua versão, esforçada até, de um Cristo infante, ainda ingênuo. Já FKA Twigs, que foi de Maria Madalena para Maria de Nazaré (quem entendeu a referência, entendeu), não está em uma posição vulnerável em cena, como foi o caso da versão de O Corvo do ano passado, no qual a diva do pop indie sofreu com uma péssima direção, prejudicando seu trabalho no projeto que foi severamente criticado na época; aqui ela consegue estar a par da cena. Porém, sua personagem é retratada de uma forma bastante passiva, quase tornando a sua presença um acessório narrativo, do que como parte integral da trama.

Em suma, Sombras no Deserto causa pela ideia, no campo do discurso, pela ousadia de um terror bíblico, como uma vertente dos filmes de terror religiosos, como Exorcista e Invocação do Mal, por exemplo. Mas o longa-metragem propõe uma transgressão de valores do qual não a assume, com um desenvolvimento temático, já feito no passado, que flerta com o genérico e o mediano. A balança entre naturalismo e a teologia está voltada ao espetáculo abrasivo que tenta ser "desconstruído", sem sê-lo. É uma mistura de um filme europeu pretencioso com um filme B. Talvez o pior pecado, se podemos chamá-lo assim, deste projeto seja uma ambivalência de valores transgressores e conservadores que fazem o filme pairar dentro de um limbo para agradar vários gostos e visões polarizadas de mundo. Em outras palavras, é uma obra que fica em cima do muro em um mar de mesmice autoral. Interessante, mas um pouco esquecível. Contudo, não merece esse hate episcopal.

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Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


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