![]() |
| Backrooms: Um Não-Lugar (2026) | Imagem Filmes |
O conceito de espaços liminares se tornou uma estética bastante recorrente na internet, influenciando o gênero de suspense e horror, com histórias envolvendo creepypastas e lendas urbanas: um espaço amplo, vazio, muitas vezes abandonado, quase familiar dentro de uma memória coletiva, uma nostalgia por uma época relativamente próxima, mas não vivida; porém desorientador, silencioso, manipuladora das percepções humanas, e lar para o desconhecido... Um medo (talvez ou não) irracional do vazio.
Quando o jovem Kane Parsons lançou um found footage no YouTube chamado The Backrooms (2022), o vídeo se tornou uma fenômeno cultural com mais 70 milhões visualizações na plataforma. Com o sucesso do primeiro vídeo, Parsons continuou a explorar esse universo em outros vídeos, disponíveis em seu canal, chamando a atenção dos estúdios e produtoras de cinema estadunidenses. Porém, a bolha cinéfila foi pega de surpresa quando, pouco tempo depois, a A24 anunciou que estava desenvolvendo um filme baseado no universo de Backrooms, dirigido por Parsons (na época, com cerca de 18 anos; agora com 21!), com produção de nomes como Shawn Levy, James Wan e Osgood Perkins, e estrelado por dois atores de peso: Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve. De certo, sejam os céticos e/ou os curiosos, todos começaram a ficar curiosos para ver o resultado final.
A ação se passa nos anos 90, Mary (Reinsve) é uma psicóloga que ainda carrega traumas do passado, ligados à sua casa de infância, enquanto que seu paciente Clark (Ejiofor) é um arquiteto frustrado que nunca conseguiu seguir seus sonhos que trabalha em uma loja de móveis falida. Após uma série de incidentes, Clark descobre uma passagem secreta que dá para um labirinto infinito de salas, reproduzindo uma realidade distorcida do mundo real. Após seu paciente ficar cada vez mais envolvido com esse microcosmo, Mary vai atrás dele e adentra nesse universo.
Backrooms: Um Não-Lugar (2026) é um filme que se destaca pelo visual, a justaposição entre o mundo real com uma variedade de cores e tons e o labirinto minimalista com tons amarelados de sinestesia nauseante, e pelo sensorial, o folley e a edição de som são importantes para imersão do expectador. Parsons, que estreia na direção, parece estar confiante com o universo, no qual desenvolveu durante anos, e acredito que se beneficiou da experiência ao máximo. Não posso ainda dizer se ele é ou não um bom diretor, pois ainda é muito cedo para fazer tal declaração direta, e talvez reducionista; mas parece segurar bem a onda aqui. Seu trabalho, embora estamos falando de uma nova IP com chances (caso fizer sucesso nas bilheterias mundiais) de se tornar um carro chefe de uma nova franquia para um estúdio norte-americano, transborda um certo carinho e atenção aos detalhes estéticos e jogo de linguagens cinematográficas em uso. Em suma, é uma direção segura no que pretende.
Visual e esteticamente falando, o filme se garante; porém talvez seu ponto fraco esteja no roteiro da obra, que utiliza das caraterísticas conceituais do universo como parte de uma metáfora situacional para suas personagens, mas nem sempre consegue desenvolver seus temas de forma orgânica, principalmente no terceiro ato, quando o filme começa a flertar com o onírico, enquanto tenta enquadrar com uma subplot que envolve uma teoria da conspiração. O texto não é ruim, mas talvez a relação entre o inconsciente das personagens com a genealogia do backrooms pode ser, ao mesmo tempo, algo fascinante ou um pouco básico (afinal, estamos falando de um filme da A24), dependendo do espectador. Este crítico, tende para o primeiro lado; pois é o ponto em que se sustenta parte do horror do filme: o da percepção da mente humana em situações austeras e da ressignificação dos pesadelos. Quando o filme afunda dentro da própria loucura, ele acaba se tornando mais envolvente com o desenrolar das ações.
Para além da direção confiante de Parsons, o que ajuda elevar uma narrativa fragilizada é o combo de atuações de Ejiofor e Reinsve, que, com todos seus talentos em cena, elevam a dinâmica entre as personagens e parte do desenvolvimento pessoal de cada uma. Se suas características parecem bastante unidimensionais no papel, em cena, com estes intérpretes, a ideia ganha matéria e, portanto, suas crises parecem, ao público, reais. E diante do improvável, lentamente, o chão afunda e a realidade começa a se dissipar. Há uma cena bastante interessante que acontece no primeiro ato e acaba reaparecendo no terceiro, em uma mise en scène que me lembrou um pouco com o clímax de Massacre da Serra Elétrica de Tobe Hooper (1974): uma conversa entre a duas personagens, o texto é quase idêntico, porém o ambiente e a situação mudam o tom dessa interação espelhada. O irreal e real acabam, então, por se confundir e criar um entremeio. Se não fosse pelo trabalho dos atores, talvez o resultado poderia ser didático ou superficial demais, para um espectador com olhos já treinados para filmes de terror com um ângulo dramático acentuado.
Como um filme de estreia, Backrooms (2026) é uma obra eficiente que se debruça a explicar e explorar sua própria mitologia para seu público. Quem for fã da estética, ou do gênero, ou quem tiver uma mente mais aberta para ideias inusitadas, pode aproveitar mais o filme do que o espectador mais cético.
Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd.

%2003.38.57_fd35a3e9.jpg)