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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Carne, Fluídos e Frango Frito no Acampamento Miasma (2026)


Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026) | MUBI, Retrato Filmes

"porque uma mulher boa/ é uma mulher limpa/e se ela é uma mulher limpa/ ela é uma mulher boa/ há milhões, milhões de anos/ pôs-se sobre duas patas/ a mulher era braba e suja/ braba e suja e ladrava/ porque uma mulher braba/ não é  uma mulher boa/ e uma mulher boa/ é uma mulher limpa" 

(Freitas, Angélica. uma mulher limpa, 2017, p.11) 

Em Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte (2026), terceiro longa-metragem de Jane Schoenbrun, a diretora usa dos elementos do universo slasher como metáfora para o despertar da sexualidade queer e/ou tardia. No universo inspirado em filmes como Sexta-Feira 13 (1980 - 2009) e Sleepway Camp (1983 - 2008), Camp Miasma foi uma franquia bastante lucrativa durante os anos 80 que foi a precursora de filmes slasher cuja premissa tinha a figura de "Little Death" (Jack Heaven) que persegue monitores adolescentes, safados e cheios de hormônios, no acampamento que dá nome aos filmes.  Aqui, Shoenbrun (re)cria a atmosfera desse gênero do horror e conjuga, como parte integral à trama, a questão queer e com a presença da monstruosidade em cenário cis e heterossexual: Little Death não corresponde às normas de gênero, ficando à parte da sociedade, e, portanto, uma vítima desta. 

Sexo, sexualidade e identidade de gênero parecem estar intrinsecamente interligadas na concepção do universo de Shoenbrun: miasma, que parece com asma, mas não é um sinônimo, tem como origem a palavra grega μιάσμα, uma mancha, sujeira; que, expandido seu sentido ao contexto da obra, torna-se um equivalente a algo vergonhoso, ruim e contra a ordem moral do mundo. Como diria a poeta Angélica Freitas em seu livro "o útero é do tamanho do punho", a sujeira da aparência, neste caso do gozo, do sexo, é um traço de feiura, de descarte, de subalterna. 

Esse é o lugar em que Kris (Hannah Einbinder) se encontra: ela, uma diretora premiada em festivais e fã da franquia, é recrutada para reestruturar uma nova série de filmes para os estúdios detentores dos direitos. Para isso, ela viaja até a fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá para se encontrar com Billy Preston (Gillian Anderson), protagonista da franquia, no set do primeiro filme da franquia. Porém, Kris se encontra em um entre-lugar dentro da sua psique: existe uma fascinação, puramente sexual e artística, com Billy; porém ainda ela não consegue dar o próximo passo, algo que a puxa para dentro de suas próprias inseguranças, que a fazem a parecer infantilizada ao algo de Preston... Um monstro que precisa ser despertado e manifestado. Algo que somente "Little Death" pode dar um empurrãozinho ou coisa pior...

Schoenbrun elenca os temas principais do gênero ("flesh and fluids") e os desenvolve ao longo de sua narrativa que combina o onírico e o metafórico que, por vezes didático ou "too much on the nose" do público mais esperto, impulsiona a condução narrativa do filme. O trabalho da diretora é sedutor em vários momentos, usando da química mortal entre Einbinder e Anderson, e divertido em outros (por mais que o uso de CGI não me convenceu muito bem em algumas sequências). A obra acaba usufruindo demais de seu universo e de piadas internas do gênero, mas a intenção de emular um gênero é diferente do que criar um diferente naquele gênero cinematográfico em especifico e isso é uma noção que ela sabe bem. É um "slasher" dentro de um slasher. Talvez quando o filme acaba se tornado autoconsciente ao público de sua própria natureza, não me incomoda, mas seu charme queer diminui um pouco, no entanto, quando ele abraça sua forma e trama como um experimento e não só uma simples-narrativa-meta-sobre-um-gênero-cinematográfico, o resultado é muito interessante.

Gosto do trabalho da realizadora, que também fez I Saw The TV Glow (2024), e como ela trabalha com a noção de identidade e da perda de subjetividade, de aproximar o olhar periférico, quase passivo, e se colocar na pele, neste caso nos olhos, do subjugado pela sociedade. É evidente que há um tema a ser desenvolvido por Schoenbrun ao longo de sua carreira como uma "autora" de gênero e de que estamos vivendo um filme de terror particular no nosso dia-a-dia. Gozar é morrer, e vice-versa. A realidade é uma ficção que nós mesmos inventamos  Depois disso, a vida continua, mas "Little Death" sempre estará no fundo do lago, pronto para ressurgir uma nova vez.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 

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