quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Mágicos trambiqueiros saem da aposentadoria em Truque de Mestre: O 3° Ato (2025)

 

Truque de Mestre: O 3° Ato | Paris Filmes


A franquia Truque de Mestre sempre foi feita de fumaça e espelhos, se traduzirmos a expressão "smoke and mirrors" ao pé da letra. 

Os filmes da série pegaram do público de surpresa na década passada com a figura emblemática dos "Quatro Cavaleiros", um grupo de mágicos e ilusionistas que fazem parte de uma organização secreta, o "Olho", dedicada ao fazer do mundo um lugar mais justo e expor o 1% da sociedade, junto de seus crimes. É uma versão fantasiosa do mundo real em que a mágica é levada a sério e artistas como David Copperfield (tirando a referência empoeirada da cartola aqui) fosse uma espécie de James Bond ou Ethan Hunt, misturado com Robin Hood. 

Mesmo aplicando a suspensão da descrença, os longas sofrem com problemas estruturais de narrativa, em favor de uma experiência visual, e, de preferência, com impacto. Muitas vezes, gerando plot twists e continuidade retroativa entre partes que, honestamente, parecem forçar a barra para seu lado, do que deixar seu universo verossímil. São obras que divertem, mesmo que a lógica da narrativa tende a ser meio acéfala, pelo deslumbramento, a ilusão das imagens editadas aqui; um ópio para as massas. 

É preciso ver de perto, para não enxergar as falhas, ou, em outras palavras, para não descobrir como o truque é feito. No entanto, tais manias exageradas, de certa forma, se cristalizaram e se tornaram parte da identidade da franquia. De certo modo, o público sabe o que esperar e não se importa muito sobre verossimilidade do mundo real aplicado a este mundo mágico, o que importa é se deixar levar pela ilusão. Este novo capítulo da franquia não poderia ser diferente neste aspecto. 

Em Truque de Mestre: O 3° ato, após uma década desde a sua última aparição pública, os Cavaleiros, liderados por Atlas (Jesse Eisenberg), são chamados pelo "Olho" para recrutar uma nova geração de ilusionistas (Justice Smith, Dominic Sessa, Ariana Greenblatt) para uma nova missão: desmascarar uma bilionária dona de um império de diamantes, Veronika Vanderberg (Rosemund Pike), associada a um esquema de lavagem de dinheiro em escala mundial.

A premissa do terceiro filme parece um amálgama de narrativas recortas e coladas de seus antecessores; a recriação de situações similares e temas recorrentes, reforçam essa sensação do que está sendo desenvolvido seja uma reciclagem do que algo 100% inédito. 

Há truques, cenários impossíveis, vinganças, reviravoltas no meio do caminho. O que para esta franquia é o estado normal do mundo, um dia como qualquer outro. Os roteiristas da vez se esforçam na emulação do tom exacerbado e fantasioso, mas a direção de Ruben Fleischer consegue contrabalancear entre a seriedade e o camp; algo que Leterrier e Chu, os diretores anteriores, não conseguiam de fato: criar uma galhofa assumida, sem fugir de sua superficialidade, interlaçado de camadas. O primeiro se levava muito a sério, enquanto o segundo não conseguia desenvolver seu lado mais dramático. 

O filme toca em temas como políticas pós-coloniais, exploração de recursos naturais, passado nazista, relações étnico raciais e de classe, que parecem, ao mesmo tempo, fazer e não fazer sentido algum para a narrativa. Tornando esta mistureba fascinante, dentro de um texto que, escrito entre três a cinco pares de mãos, é um tanto redundante e quase paródico de si (Há um momento que o nome completo de uma personagem é repetido umas quatro vezes em menos de cinco minutos, o que é um péssimo exemplo de escrita por sinal). É um quebra-cabeça bobo, mas há uma diversão implícita ao vê-lo sendo montado. As cenas que envolvem os truques de mágica do grupo ainda continuam sendo o chamariz da franquia: toda a construção do roubo do diamante é bem feita e o todo o cenário do castelo ilusionista é divertidíssimo de olhar.

Se o roteiro há uma simplicidade pífia na narrativa, o elenco consegue compensar a escrita com uma sinergia estrondosa em tela, daquelas que fazem o público se divertir, pois os atores estão se divertindo em tela com as situações absurdas e fantasiosas desse mundo. O elenco original do primeiro filme (Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Dave Franco, Isla Fisher) volta desta vez e tem bastante química com o novo elenco: Justice Smith é um atores mais underrated da geração atual e a química entre Eisenberg e Sessa é bastante elétrica; e até Morgan Freeman retorna com seu antagonista transformado em aliado para uma ponta aqui. 

Mas talvez, a adição de elenco mais chamativa seja a de Rosemund Pike, que consegue misturar classe e farofa, junto de um sotaque sul-africano, de forma cativante. Mesmo com um texto cafona, Pike não perde a elegância e contribui com um toque de humor próprio a uma personagem que, em outras mãos, poderia ser pálida e hermética. Ela, junto do restante do elenco, entende a proposta do filme e embarca, com a cabeça erguida, na fantasia. 

Truque de Mestre: O 3° ato repete a grandiosidade e as manias de seus antecessores, com um elenco afiado que consegue vender as situações mais impossíveis e os diálogos redundantes e explicativos com um carisma cativante. Existem surpresas no caminho, que vão agradar o público. Mesmo com suas manias e defeitos, é um longa divertido que não esconde a sua identidade de galhofa e consegue trabalhar de megalomania de modo que não aparenta ser mais inteligente do que é. Tem seus momentos de previsibilidade, é claro, mas há uma graça em assistir uma farofa recheada de ilusões.

Autor:
                                  

Eduardo Cardoso é natural do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Cardoso é graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Estudos de Linguagem na mesma instituição, ao investigar a relação entre a tragédia clássica com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Também é escritor, tradutor e realizador queer. Durante a pandemia, trabalhou no projeto pessoal de tradução poética intitulado "Traduzindo Poesia Vozes Queer", com divulgação nas minhas redes sociais. E dirigiu, em 2025, seu primeiro curta-metragem, intitulado "atopos". Além disso, é viciado no letterboxd. 


No Other Choice — O Melhor Longa de Park Chan-Wook

No Other Choice | Mubi


Contando a estória de um pai de família desempregado que começa a cometer assassinatos para ganhar uma vaga numa empresa, No Other Choice estreou no festival de Veneza e ganhou o premio máximo do Festival de Toronto. O filme está com distribuição da Mubi no Brasil e estreou na Mostra de São Paulo.

Os primeiros minutos de No Other Choice são curiosos, a abordagem do diretor Park Chan-Wook, muito conhecido por sua abordagem brutal de suas tramas optou por uma comédia ao nos jogar no universo de seu novo longa. Essa estratégia me pareceu como nova nesse seu novo filme que é uma mistura da sua violência com uma comédia satírica.

Em seu ultimo longa, Decisão Para Partir, Park também já havia tomado a decisão de misturar seu estilo com algo mais novelesco, porém, enquanto seu primeiro experimento falhou miseravelmente (pelo menos, na minha visão), este se mostra como um dos maiores acertos do ano todo. Pois, aqui, o cineasta sul-coreano parece ter um domínio muito maior de seu próprio estilo, num longa que beira o maneirismo.

As referencias a filmes como Carlitos’ Way e Ms. 45 são evidentes. Park tem a consciência de que não há como existir uma alegoria política nesse filme que é tão direto ao ponto, então ele não mede seus esforços para fazer de cada um dos assassinatos o maior espetáculo possível, não num sentido em que a violência seja glorificada, como são as criticas a Oldboy, mas neste filme a violência é um dos mais fortes dispositivos para Chan-Wook conduzir esse teatro sádico que nos coloca.

Toda a encenação constrói uma lógica de um teatro sádico em que o espectador é uma testemunha de todos os crimes do protagonista, e o julgamento começa a ser feito pelos próprios espaços do filme, que se usam da inutilidade para construir uma forma genuína de opressão. O castigo é para ver e ouvir, e depois de tudo para sentir.

Nos momentos em que a obra poderia se tornar repetitiva, Park Chan-Wook sabe como a reinventar, e não a partir de uma estética padrão hollydwiana-parasita, mas de uma maneira incrivelmente honesta. Os últimos minutos de No Other Choice reinvocam os primeiros de maneira nova, sem ter que espremer os espectadores a uma fórmula saturada.

O novo longa de Park Chan-Wook, No Other Choice é soberbo, e dará o que falar entre o grande publico. Por enquanto, o que digo é que o filme é definitivamente um  novo capitulo na vida desse cineasta, que já me parece que não precisa de ter de colocar uma musica de algum filme do De Palma para mostrar que ama ele, mas que já entende o que o cinema maneirista significa e o que dessas referencias devem ser utilizadas em seu longa.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Jovens Mães - Uma Crônica Fraterna

Jovens Mães | Vitrine Filmes


Jovens Mães conta a história de uma maternidade localizada na Bélgica, e tem como centro um grupo de 4 jovens mães que compartilham suas experiências envolvendo maternidade. Ganhou melhor roteiro em Cannes, e estreou no Brasil na Mostra de São Paulo.

Como grande parte dos cineastas franceses/belgas, os irmãos Dardenne continuam a produzir mesmo já estando em atividade há 50+ anos. Entretanto, diferentemente de muitos cineastas realistas que acabam perdendo a mão de sua própria visão conforme o tempo passa, o olhar da dupla quanto às questões sociais continua do mesmo jeito.

Sem um centro da trama, o objeto central dos irmãos é sem duvidas apenas as relações de fraternidade que ocorrem naquela maternidade. Porém, não é isso que eles conseguem passar na primeira parte do filme, pelo contrário, no começo, senti que muito daquelas tramas eram apenas conectadas por um lugar em comum do que por um sentimento em si.

Entretanto, conforme o filme foi passando, a unidade dramática foi se tornando mais consistente, e tive a impressão que as coisas foram se ajeitando, surgindo assim um olhar mais genuíno daquela fraternidade.

A noção de espaço dos irmãos, que é algo sempre importante em seus filmes, pois estes sempre fazem longos planos, aqui também não deixa a desejar. As longas sequências transitam entre situações de agonia e de conforto, sem nenhumas das transições soar forçada, como em muitos filmes realistas do período atual.

Ainda que a conclusão seja previsível, é satisfatório ver esse lado mais esperançoso dos Dardenne, que eles já haviam demonstrado em Dois Dias, Uma Noite (2014), porém aqui de uma maneira mais simples e direta ao ponto, não que isso seja ruim. Talvez isso seja até mais maduro, como este filme é  mais do que muitos outros que gritam por aí que são.

Autor:


Meu nome é Rodolfo Luiz Vieira, tenho 17 anos e curso o terceiro ano do Ensino Médio. Produzo alguns curtas-metragens e escrevo textos sobre cinema. Meus filmes favoritos são: Em Ritmo de Fuga; La Haine; Eu Vos Saúdo, Maria e Pai e Filha.

Frankenstein (2025) - Pense duas vezes antes de rejeitar alguém

 

Frankestein (2025) | Netflix

Publicado em 1818, Frankenstein, de Mary Shelley, apresenta uma visão crítica da sociedade a partir do paradigma criador/criatura, tornando-se, desde então, um clássico aclamado com diversas adaptações. De outro lado, temos o diretor Guillermo Del Toro, conhecido por levar às telas criaturas e monstros visualmente inesquecíveis, atrelados quase sempre a narrativas que buscam refletir sobre um período histórico de seu país de origem: a Espanha. Dessa forma, o anúncio de que a obra de Frankenstein seria adaptada por Guillermo Del Toro gerou grandes expectativas.

O longa inicia-se com Capitão Anderson (Lars Mikkelsen) e sua tripulação confrontando a Criatura (Jacob Elordi), após darem abrigo a Victor Frankenstein (Oscar Isaac). Eles o encontraram na neve depois que o navio encalhou no gelo, enquanto rumavam ao Polo Norte. Após conseguirem se desvencilhar do monstro, inicia-se uma série de flashbacks onde Victor conta sua versão dos fatos até ali. O longa é separado por capítulos, os quais servem para orientar o espectador na narrativa, tal qual um livro. Del Toro investe bons minutos do filme nos mostrando a infância de Victor e o que o leva a tornar-se um médico obstinado obcecado por vencer a morte, um acerto do roteiro, uma vez que aumenta o interesse no personagem, que é um dos protagonistas da obra.

Conforme novos personagens são introduzidos, fica perceptível como Del Toro os utiliza para se aprofundar em seus protagonistas. Por exemplo, Elizabeth Lavenza (Mia Goth), esposa de William Frankenstein (Felix Kammerer), irmão caçula de Victor, é uma mulher independente e ousada, com ideias próprias, que provoca Victor. Mesmo sabendo que ela estava comprometida com seu irmão, ele se declara, mas é rejeitado. Quando Elizabeth demonstra empatia pela Criatura, isso invoca uma cólera de inveja e ira em Victor, que rejeita e tenta destruir sua criação, o que põe à prova quem de fato seria o monstro.

Quanto aos aspectos técnicos, a direção de arte se destaca. Os cenários grandiosos e repletos de elementos de cena, como os pedaços de corpos no laboratório de Victor, ajudam na imersão e tornam os planos vistosos e dignos de serem enquadrados. Ademais, os figurinos e, em especial, a caracterização de Jacob Elordi como a Criatura se afastam da caracterização clássica do filme de 1931 e abraçam a descrição do livro de Mary Shelley, trazendo um personagem mais realista e humanizado, ainda que grotesco. Infelizmente, por vezes, é possível perceber que algumas cenas abusaram do CGI na composição do cenário, o que o torna um pouco artificial, mas não a ponto de estragar a experiência. Já a trilha musical, assinada por Alexandre Desplat, agrega-se à composição das cenas e forma um casamento harmônico, onde cada cena tem seu tom. A trilha por vezes é mais tímida ou cresce, dependendo da necessidade, um mérito da montagem, mas também de Desplat por ter feito uma composição tão rica que se encaixa em diferentes momentos da trama.

A despeito das atuações, é impossível não falar de Jacob Elordi, que entrega uma Criatura de olhos tão doces, apesar de sua forma amorfa, suas mãos grandes e desajeitadas, demonstrando uma ingenuidade quase digna de pena. A exemplo disso, pode-se citar a sequência com o velho cego, onde é possível perceber toda a desenvoltura do ator para entregar uma Criatura que luta contra a rejeição e busca provar que pode ser boa.

Frankenstein é uma adaptação que abraça e respeita sua obra base, mas sem deixar de ser original, apresentando elementos técnicos inspirados e atuações que se destacam. Apesar de todo seu mérito, o longa possui um caráter apressado. Seu desenvolvimento é orgânico, mas parece deixar pontas soltas. Talvez Del Toro não tenha tido tanta liberdade, ou talvez só não estivesse tão inspirado em algumas partes do filme. Em suma, Frankenstein não é perfeito, mas entrega o que promete e, certamente, é até então a melhor adaptação da obra de 1818 já feita para o cinema.

Autor:


Mateus José é graduando de Licenciatura em Cinema e Audiovisual pela UFF, escritor, poeta, montador e aspirante a diretor de fotografia. Apaixonado pelas artes, literatura, música e principalmente o cinema, dedica-se a consumir, estudar e dissecar as camadas mais profundas do cinema e da arte.

Guerreiras do K-pop - Demônios? Monstros? Nada que um bom solo de K-pop não resolva.

Guerreiras do K-Pop | Netflix

Quando não estão lotando estádios, as estrelas do K-pop Rumi, Mira e Zoey usam seus poderes secretos para proteger os fãs de ameaças sobrenaturais.

Nunca fui exatamente fã de K-pop, mas sempre houve algumas músicas desse gênero que me chamaram a atenção. Em especial, eu gostava daquelas que tinham um estilo semelhante ao das aberturas e encerramentos de animes — talvez por transmitirem a mesma energia empolgante e emocional. É curioso pensar nisso, já que os animes são produções japonesas, enquanto o K-pop vem da Coreia do Sul, mas ainda assim existe uma certa conexão na atmosfera e no impacto que essas músicas conseguem causar. 

Quando foi lançada a animação As Guerreiras do K-pop, eu não assisti logo, mas a curiosidade falou mais alto — especialmente por ser uma produção da Sony Pictures Animation, o mesmo estúdio responsável por obras com visuais marcantes como Homem-Aranha: No Aranhaverso e A Família Mitchell contra as máquinas. E felizmente, o filme entrega exatamente o que se espera de um estúdio com esse histórico: Uma animação visualmente deslumbrante, cheia de ritmo, energia e personalidade, que consegue capturar o espírito do K-pop de forma divertida e acessível até mesmo para quem, como eu, não é um grande fã do gênero.

Um dos grandes pontos fortes do filme é a construção das protagonistas, todas extremamente carismáticas e com personalidades distintas que enriquecem a narrativa. Mira é sarcástica, honesta e durona, mas extremamente leal às amigas. Apesar da aparência fria, é energética, divertida e protetora. Sua postura pragmática mantém o grupo equilibrado. Rumi, líder confiante e dedicada, carrega profundas inseguranças por ser meio-demônio. Trabalhadora e altruísta, tende ao auto sacrifício, mas mostra-se compassiva, sensível e leal, aprendendo aos poucos a aceitar apoio e revelar sua vulnerabilidade de maneira convincente. Por fim, Zoey — minha favorita —  é extrovertida, carinhosa e cheia de energia, com uma ingenuidade charmosa que a torna vulnerável em alguns momentos. Seu otimismo e doçura são contagiantes, e sua busca por pertencimento e aceitação adiciona profundidade emocional à personagem. Ela é minha favorita não apenas por ser a mais fofa do grupo, mas também porque me identifico com sua gentileza e jeito acolhedor com os outros, o que torna a sua história ainda mais envolvente para mim. A interação dessas três cria um vínculo cativante com o público, tornando o filme divertido, emocionante e memorável.

A animação se destaca como uma produção vibrante e cheia de energia, que combina o brilho do universo pop coreano com elementos de fantasia e ação heroica. Visualmente, é um espetáculo: o design de personagens é estilizado e carismático, refletindo bem as personalidades únicas de cada integrante do grupo. As cores intensas e o dinamismo das cenas de dança e batalha criam uma estética moderna e cativante, que conversa diretamente com o público jovem e fã da cultura pop global.

No aspecto narrativo, a série sobressai-se por unir temas de auto expressão, amizade e empoderamento feminino. A ideia de transformar artistas de K-pop em heroínas simboliza a força e a dedicação necessárias para brilhar sob os holofotes — uma metáfora inteligente sobre identidade e superação.

Além disso, a trilha sonora é contagiante, integrando batidas de K-pop com momentos de tensão e emoção que potencializam a experiência audiovisual. A minha favorita é How It´s Done, que em português ficou Não Tem Perdão.

Outro ponto forte é o ritmo da animação: as coreografias são bem sincronizadas e a fluidez dos movimentos mostra um cuidado notável. Mesmo em cenas intensas, a direção mantém uma clareza no estilo visual que facilita o acompanhamento da ação sem perder o impacto estético.

As Guerreiras do K-Pop é uma animação que consegue unir com maestria espetáculo visual, emoção e representatividade. Mais do que um filme sobre música e superpoderes, é uma celebração da amizade, da autoconfiança e da força que surge quando se abraça quem realmente somos. Mesmo para quem não é fã de K-pop, a produção conquista pela sua mensagem positiva, pela energia contagiante e pelo cuidado artístico em cada detalhe  — da trilha sonora empolgante às expressões sutis das personagens. É uma obra que encanta o olhar, aquece o coração e deixa no ar aquela sensação boa de querer dançar, sonhar e acreditar no poder da união.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Predador: Terras Selvagens - O Caçador que Descobriu a Alma por Trás da Máscara

Predador : Terras Selvagens | 20th Century Studios

No futuro, em um planeta remoto, um jovem Predador, excluído de seu clã, encontra em Thia uma aliada improvável e embarca em uma jornada traiçoeira em busca do maior adversário.

Diferentemente dos filmes anteriores da franquia, o Predador não é o principal vilão nesta história. Desta vez, ele assume o papel de protagonista, revelando um lado mais heroico — ou, pelo menos, menos monstruoso — da criatura. Essa inversão de papéis traz um frescor à franquia, permitindo explorar nuances inéditas do personagem e oferecendo uma nova perspectiva sobre sua cultura, seus códigos de honra e suas motivações mais profundas. Ao colocá-lo no centro da narrativa, o filme rompe com a visão tradicional do Predador como uma força puramente destrutiva, transformando-o em um ser complexo, dotado de dilemas morais e de um senso próprio de justiça. Essa abordagem humaniza a criatura sem enfraquecer sua natureza letal, equilibrando momentos de brutalidade com instantes de introspecção e propósito. O resultado é uma “releitura” ousada e envolvente, que não apenas revitaliza a mitologia da franquia, mas também convida o público a enxergar o Predador sob uma ótica completamente nova.

Durante a jornada, o Predador conhece Thia, uma sintética danificada. Ambos são obrigados a trabalhar juntos para sobreviver, apesar de suas personalidades opostas. É a clássica dupla: Um personagem sério e a outra, o alívio cômico da trama. A dinâmica entre os dois funciona bem, equilibrando momentos de tensão com pitadas de humor que tornam a narrativa mais leve e envolvente. Dek, o Predador, é retratado como um guerreiro exilado que busca redenção e vingança, o que adiciona profundidade emocional à história. Já Thia, com seu carisma e senso de humor, traz humanidade à trama, mesmo sendo uma androide. A relação entre os dois é o coração do filme, sustentando tanto a ação quanto o desenvolvimento dos personagens. 

A construção de uma selva futurista se transforma em um verdadeiro espetáculo visual. Cada detalhe, desde a flora bioluminescente até as criaturas alienígenas que habitam o ambiente, contribui para uma imersão completa no universo do filme. O design de produção é grandioso e meticuloso, criando um cenário vivo, repleto de texturas, cores e atmosferas que reforçam tanto o perigo quanto a beleza desse novo mundo selvagem. É uma experiência visual que expande os limites da franquia e demonstra o cuidado técnico e artístico por trás da produção.

Predador: Terras Selvagens não apenas redefine o mito do caçador, mas também prova que até os monstros mais temidos podem carregar um coração  — mesmo que coberto por armadura e cicatrizes. Ao apostar em uma narrativa mais emocional e introspectiva, o filme consegue equilibrar espetáculo visual e profundidade dramática, oferecendo uma nova dimensão ao lendário caçador. A parceria improvável entre Dek e Thia não apenas conduz a trama, mas também simboliza o encontro entre o instinto e a empatia, entre a selvageria e a humanidade.

Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Chainsaw Man: O Filme – Arco da Reze – O Romance Sangrento Que Revela o Coração do Homem-Motosserra

Chainsaw Man: O Filme - Arco da Reze | Sony Pictures


Denji vive como o temido Homem-Motosserra, um jovem com coração de demônio que integra a Divisão Especial 4 de Caçadores de Demônios. Após um encontro marcante com Makima, a mulher de seus sonhos, ele busca refúgio da chuva e acaba conhecendo Reze, a misteriosa atendente de um café.

O arco dá continuidade de onde parou a primeira temporada, na qual somos apresentados a esse universo maluco com demônios e caçadores de demônios. Um desses caçadores é um garoto que se transforma em uma motosserra e usa esse poder para enfrentar os demônios. Em sua primeira temporada, eu não gostava do protagonista Denji pelo simples fato do objetivo dele ser apertar os seios femininos. Diferente de outros protagonistas de animes do gênero shounen — obras voltadas para meninos jovens —, que possuem metas capazes de fazer o público torcer para que eles consigam realizar seus sonhos, como em Naruto, em que o protagonista deseja se tornar Hokage (Título dado ao líder da vila onde ele mora, considerado o ninja mais forte do local e responsável por proteger e manter a paz dentro desse universo). 


Mas, apesar desse problema, Chainsaw Man impressiona pelas suas cenas de ação brutais e pela animação de altíssima qualidade. Cada batalha é coreografada de forma intensa e visceral, transmitindo perfeitamente o caos e a violência do mundo da obra. Os movimentos são fluidos, os cortes de câmera dinâmicos e o uso de efeitos visuais, como o sangue e as partículas de motosserra, cria uma sensação de impacto real em cada golpe. Além disso, o estúdio MAPPA faz um trabalho excepcional ao misturar animação tradicional com CGI, mantendo um visual cinematográfico e sombrio que combina perfeitamente com o tom do universo. As lutas não são apenas visualmente impressionantes, mas também carregadas de emoção e desespero, reforçando a brutalidade e a humanidade dos personagens.


Este arco, diferente dos anteriores na primeira temporada, adiciona o gênero romance — mas não é aquele tipo de romance à la Makoto Shinkai, diretor de Kimi no na Wa e Suzume, ou de qualquer outro filme romântico tradicional, do tipo bonitinho em que o público torce para que o casal fique junto. Este arco aprofunda os sentimentos do protagonista de uma forma muito mais humana. Na primeira temporada, Denji demonstrava afeto principalmente por Pochita — o demônio da motosserra que era seu fiel “bichinho de estimação” — e por Makima, sua chefe, por quem nutria uma paixão confusa e imatura, muitas vezes movida pelo desejo físico. 


Enquanto enfrentava demônios, ele parecia não se importar com as pessoas que acabava salvando, dizendo que não estava nem aí — mas, no fim, sempre as salvava. No entanto, esta nova fase mostra um Denji mais introspectivo, começando a lidar com emoções que ele próprio não entende completamente. O filme retrata isso de maneira delicada, em cenas como a de Denji e Makima no cinema, assistindo a diferentes tipos de filmes. Enquanto as pessoas ao redor choram em um momento emocionante, Denji se vê incapaz de compreender por que todos estão tristes — e essa falta de entendimento revela não frieza, mas uma inocência dolorosa de alguém que nunca teve espaço para sentir. 


Essa sequência é simples, mas profundamente simbólica: mostra que Denji, acostumado à violência e à sobrevivência, ainda está aprendendo o que significa ser humano. É uma abordagem sensível e surpreendentemente poética, que toca o espectador e faz com que vejamos o protagonista sob uma nova luz — não mais como o caçador impetuoso, mas como um jovem em busca de um coração que possa finalmente entender o que é amar e ser amado.


O filme adiciona uma camada de terror centrada na personagem Reze, cuja presença traz uma tensão constante à história. À primeira vista, ela parece uma garota doce e misteriosa, mas aos poucos o espectador percebe que há algo profundamente inquietante em sua natureza. Essa dualidade — entre o charme e o perigo — cria um clima de suspense que se aproxima do terror psicológico. Reze é imprevisível, e cada gesto seu carrega a sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, tornando suas cenas intensas e perturbadoras.


Apesar da profundidade que a personagem Reze traz à narrativa, suas roupas acabam seguindo um padrão bastante comum em animes: a sexualização feminina desnecessária. Seu figurino, composto por roupas curtas e justas, parece mais voltado para destacar seu corpo do que para refletir sua personalidade ou tom sombrio da história. A sensualidade poderia ter sido utilizada de forma mais sutil e simbólica, como parte do charme e da ambiguidade natural da Reze, sem recorrer à exposição gratuita. Essa escolha estética acaba reforçando um estereótipo recorrente nessas produções, em que personagens femininas complexas ainda são retratadas através de um olhar masculino que reduz seu impacto emocional. Mesmo assim, a personagem consegue se sobressair como figura marcante e trágica, o que só reforça de que ela merecia um tratamento visual mais condizente com a força e a sensibilidade de sua história.


Chainsaw Man: O Filme - Arco da Reze continua o universo de demônios e caçadores com Denji, o Homem-Motosserra, agora mais introspectivo e humano. O arco combina ação brutal, animação impressionante e momentos de romance e terror, explorando a complexidade emocional do protagonista e de personagens como Reze. Apesar da sexualização desnecessária de Reze, sua presença adiciona tensão e profundidade à narrativa. No geral, a obra equilibra violência, emoção e suspense, mostrando que até em um mundo caótico é possível contar histórias que tocam e fazem refletir sobre humanidade e sentimentos.


Autor:


Meu nome é João Pedro, sou estudante de Cinema e Audiovisual, ator e crítico cinematográfico. Apaixonado pela sétima arte e pela cultura nerd, dedico meu tempo a explorar e analisar as nuances do cinema e do entretenimento.

Os Assassinos (1964) - O Parasitismo Capitalista Pintado com Sangue e Luz

  Os Assassinos | Universal Pictures A obra de Don Siegel é um remake do filme de 1946, dirigido por Robert Siodmak e estrelado por Burt Lan...